segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A Humanidade em Rede


O padre jesuíta Teilhard de Chardin, o autor do "Fenómeno Humano", foi um  paleontólogo que viveu na primeira metade do século passado, e cujas ideias estiverem muito em voga nos anos 60. Foi ele quem criou a Teoria do Ponto Ómega. Trata-se de uma visão evolucionista do Homem, ao arrepio das conceções tradicionais do Cristianismo. Para ele o Homem está a evoluir para uma crescente complexidade, a sua inteligência vai projetar-se no sentido universal, a Humanidade ressurgirá como uma entidade nova, transumana, dotada de Alma e Inteligência. E, para o padre, cumprem-se assim as  escrituras, referindo-se certamente a Cristo que disse, pela pena do evangelista João, "Eu sou o Alfa e o Ómega".

Toda a evolução do Mundo, a partir da morte de Teilhard de Chardin, ocorrida em 1955, leva-nos a refletir sobre estas ideias. A globalização e a a forma dos humanos se relacionarem entre si, transformou o Homem e está a transformar a Humanidade, de uma forma de que ainda não são visíveis as consequências. Uma notícia da semana passada diz-nos que um terço da população mundial já acede à Internet. São 2,3 mil milhões de pessoas. Uma outra notícia diz-nos que qualquer coisa como mil milhões de pessoas são os utilizadores do Facebook.

A sociedade humana está em rede, e  isto já trouxe e vai continuar a trazer importantes modificações para o nosso futuro coletivo. O homem em rede é um homem novo, e será, no futuro um homem muito diferente. Esta revolução da Internet só tem paralelo com a invenção da escrita e sobretudo com a invenção da imprensa. A globalização começa com Gutemberg, e amplia-se com os  novos mensageiros, a rádio, a televisão o velho telefone analógico, o telefone pessoal, o email a Internet, e as redes sociais. E tudo isto é irreversível, e já está nos genes da Civilização.

De fato, a Rede é a primeira concretização do conceito de Humanidade como um organismo vivo. Cada ser humano está a perder a sua individualidade, não passa de uma simples célula deste novo organismo complexo. A sua existência, só pode ser assegurada dentro do todo. Tal como formiga só existe no formigueiro, e a abelha no enxame, também o Homem só se justifica na Sociedade. Que a Globalização ampliou e que hoje se confunde com a própria Humanidade.

Podemos estar a sacrificar conceitos como são a consciencia e o livre arbítrio, valores associados à alma, questionar a responsabilização do individuo, e pôr em causa toda a filosofia, cultura e ética desenvolvidos nos últimos dez mil  anos. Podemos estar no início de um processo que conduzirá a uma nova religião e, sobretudo, a uma nova moral. O "Admirável Mundo Novo" de Huxley, ou o "1984" de Orwel podem ser antevisões - mesmo que deformadas - dessa nova realidade.

Mas  a complexidade dessa nova organização traz outros riscos. A complexidade da própria Rede é muito grande e ela é, por isso mesmo, muito vulnerável. Nesta forma de  evolução desenvolveu-se um novo órgão da nova entidade coletiva. O futuro do Homem vai depender da saúde deste novo órgão e das suas capacidades. Por que as células não sobrevivem à morte do ser que elas integram.

Theilhard de Chardin foi um visionário no seu tempo. Mas aquilo que parecia uma  miragem há 50 anos é hoje uma realidade. Tempos de grande incerteza e de alto risco estão diante de nós. Mas para as próximas gerações serão também tempos de aliciantes desafios e de importantes transformações.


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