segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Os Genes e as Circunstâncias

Foi uma lição magistral que, no passado dia 19 de Novembro, o professor Manuel Sobrinho Simões veio proferir ao Grémio Literário na sessão de abertura do novo ciclo de conferências sob o tema: Que Portugal queremos ser, que Portugal vamos ter. Manuel Sobrinho Simões é um médico, um cientista e um professor que expõe as suas ideias de um modo informal, e com a simplicidade que carateriza os verdadeiros homens de ciência.

O nosso território, começou por dizer, faz parte da área ocupada durante mais tempo pelo homem de Neandertal, onde permaneceu num longo período que vai desde há 300,000 até à sua extinção, há 15,000 anos. Terá mesmo havido aqui cruzamentos entre o homo neandertal com o homo sapiens. Após o final da última glaciação, ocorrido há 17,000 anos, o norte da Europa, voltou a tornar-se habitável e foi repovoado por povos oriundos do sul da Europa - da península Ibérica, da península Itálica e dos Balcãs - e do norte de África. Nessa altura haveria uma grande homogeneidade genética no continente europeu. Mas desde há 700 anos, a Europa central, uma zona de passagem, passou a ter uma grande disseminação genética, ao passo que no periférico e isolado ocidente da península Ibérica foram os imigrantes que trouxeram novos genes. Por isso, não espanta que 3% dos nossos genes provenham de povos subsarianos e 2% de ameríndios. Genes que foram introduzidos, curiosamente, por via feminina, a mostrar que as famílias aceitavam melhor a incorporação social das mulheres mestiças trazidas pelos imigrantes do que a dos homens.

Mas, os genes são o passado e não são tudo, há que ter em conta as circunstâncias. E para ilustrar isto mesmo, citou os estudos do brasileiro Sérgio Pena que mostraram que apenas no tempo de três gerações, tribos de índios caçadores passaram a ser agricultores, com as transformações físicas que essa mudança implicou. E não é verdade que os genes não mudaram e nós estamos a ficar mais gordos? Tal como o passado, o nosso futuro terá a ver com os genes, mas terá muito mais a ver com as circunstâncias: o sítio onde vivemos, a nossa educação e com a nossa cultura. Aquilo que hoje somos resulta da nossa periferia. Somos os mais periféricos da Europa. Temos um país acidentado, fomos insuficientemente romanizados, somos um país de minifúndio. Tivemos a escravatura até muito tarde e desvalorizámos o trabalho - sedimentou-se a ideia de que só trabalha quem não sabe fazer mais nada. A Inquisição deixou marcas profundas e terríveis. Com a Inquisição destruímos o valor do conhecimento e aumentámos a desconfiança entre portugueses.

No 25 de Abril éramos ainda um país de analfabetos. Nos últimos 40 anos evoluímos muito. Aumentámos a nossa auto estima, é certo, mas isso aconteceu num período de tempo muito curto. Em 1974, a nossa literacia era equivalente à da Suécia em 1830.Não criámos novas elites e conservámos muitos dos estigmas antigos. A resposta que damos ao minifúndio é familiar ou corporativa - somos todos primos uns dos outros.

Temos muito pouca tradição de avaliação e sem avaliação é muito difícil melhorar. Também não temos tradição de recompensa/castigo porque nos refugiamos na tribo ou no clube. Porém, para vencer o minifúndio e o individualismo temos de reforçar as instituições. Nós somos péssimos em termos de nos associarmos em volta de um objetivo, de fazer as perguntas certas. Isto tem incapacitado a sociedade, que se revela incapaz de fazer reformas. Não temos sido capazes de reformar a justiça ou a administração interna, nem capazes de reformar a universidade e o ensino superior. Com excessivo número de faculdades e cursos - uma vergonha! -, ou a tentativa de misturar o ensino técnico com a universidade - um disparate! - não reforçamos o valor institucional, mas reforçamos o valor individual. A fuga de uma geração qualificada de jovens é, em última análise, o resultado da ausência ou da fraqueza das nossas instituições.

Quando abordou o problema da saúde foi para dizer que estamos a ficar muito velhos. Estamos a curar o cancro e as doenças cardiovasculares e respiratórias. As pessoas vivem mais tempo mas ficam com problemas neuro-cognitivos, e a precisar de apoio que não temos condições para lhes dar. Isto poderia ser uma boa oportunidade de criar empregos em pequenas unidades de cuidados paliativos. Mas só pensamos em criar emprego em coisas grandes; somos megalómanos.

Na Europa, com o consumismo, o crédito barato, as rendas, desvalorizamos o trabalho e estamos a acabar com as profissões exigentes. A propósito, referiu que, nos dias de hoje, nenhum inglês esperto escolhe ser médico! As profissões são a coisa mais importante para um país se manter saudável. Em Portugal, vamos ter de depender mais da evolução da Europa do que de nós próprios. Temos limitações geográficas, económicas e muita dependência externa. Acima de tudo, temos de apostar no conhecimento, superar os grandes defeitos educacionais, melhorar a nossa capacidade de understanding, isto é, não aprender superficialmente, mas conhecer com profundidade a razão de ser das coisas e o que está por debaixo (under).

Esta palestra trouxe-me uma outra à memória, proferida pelo jovem Antero de Quental, há quase 150 anos, quando nas Conferências do Casino elencou as causas da decadência dos povos peninsulares no século XVI: 1) O catolicismo saído do Concílio de Trento, dogmático e limitador das liberdades, 2) O absolutismo que anulou o antigo poder local, fomentou intrigas e produziu ociosidade; 3) A expansão resultante das descobertas e das conquistas que trouxe riqueza, mas não gerou indústrias nem desenvolvimento.

Sobrinho Simões confessou que se considera pessimista na análise mas otimista na ação. Lança uma nova luz e uma nova esperança. Na minha leitura, a luz está na Europa e a esperança na Educação.


1 comentário:

  1. Um livro aberto para o mistério, Luís!
    Que mais é que se pode desejar?

    ResponderEliminar