segunda-feira, 6 de março de 2017

Democracia e Voyeurismo

Daniel Proença de Carvalho, um conhecido advogado com interesses na comunicação social, foi ao Grémio Literário falar no no ciclo de conferências ali realizadas sobre o tema “ Que Portugal na Europa, que futuro para a União?”. Na sua intervenção, pouco acrescentou ao que naquela sala, em conferências anteriores, já se dissera sobre o assunto. Começou por apresentar a sua visão da situação na Europa: a génese da Comunidade no pós-guerra, no início mais comercial do que política; a excessiva rapidez e a desmesurada ambição na criação da união monetária; o fim da guerra fria e a queda do muro de Berlim, antes fatores agregadores da Comunidade; o recente surgimento dos novos populismos xenófobos e racistas; a perda de soberania dos Estados membros; as assimetrias regionais mal resolvidas; a ausência de um orçamento centralizado; a crise das dívidas soberanas, sequela da crise americana; as incertezas do pós-Brexit; o fenómeno Trump; a demonização da Rússia e de Putin;  os erros cometidos pelos líderes europeus que quiseram exportar o seu modelo de democracia aos países árabes - a "primavera árabe" - e que resultou na importação de graves problemas como são os refugiados e o terrorismo.

Perante este cenário, e para sair da encruzilhada a que chegámos advoga a necessidade de uma reflexão profunda. a qual, na sua opinião, não está a ser feita . Ao invés disso, realça a falta de solidariedade por parte dos países mais ricos, o ressurgimento dos egoísmos nacionais e a crise de liderança. Falou ainda da recente situação portuguesa sublinhando que alguns já vêm algum otimismo no desempenho da nossa economia. Para Portugal, defendeu a necessidade de reformas que tardam em ser feitas - como a da justiça -, e a aposta na cooperação com outras geografias, citando o exemplo da China onde emerge um  novo capitalismo global.

A certa altura da sua intervenção e a propósito da crise de liderança, considerou Daniel Proença de Carvalho - e, para mim, foi esta a grande novidade do seu discurso - que, nos regimes democráticos, a excessiva transparência e o voyeurismo - entendi que se referia à comunicação social - são factores que afastam da política os líderes mais capazes. Ora, a incidência do voyeurismo e a exigência da transparência relativamente aos políticos centra-se sobretudo em questões do foro financeiro: a corrupção, o peculato, o branqueamento de capitais, a fuga ao fisco, a intervenção em negócios, a troca de favores... Vivemos num tempo em que o dinheiro representa um valor em si mesmo, e a maior ambição dos homens é alcançar o sucesso para o obter. E, tendo em conta os casos frequentemente apresentados nas notícias - ocorrem-me, como exemplos, Fillon em França, o cunhado do Rei de Espanha, um rosário de nomes em Portugal -,  resulta bem evidente que também os governantes e os políticos não estão imunes a essa ambição.

O que deve levar um homem a abraçar uma carreira política? Será o desejo de servir o interesse comum, o amor a causas alicerçadas em valores éticos, filosóficos, sociais, patrióticos, ou mesmo as suas profundas crenças religiosas? Ou será a sede de poder e de glória  e a consequente atração pelo dinheiro que lhe está associado? Daniel Proença de Carvalho pareceu-me ser um homem com sentido prático e mostrou coragem ao abordar o assunto, considerando que também ele é um homem da comunicação social e que já foi diretor de um jornal. Pode-se interpretar a sua alusão ao "excesso de transparência" como defendendo um aligeiramento - ou até tolerância - da vigilância exercida sobre os políticos. Mas será isso possível? Poderá haver democracia sem uma comunicação social forte, livre, independente e interventiva?

A democracia exige transparência e voyeurismo. A comunicação social e os jonalistas têm o dever de continuar a assumir o papel de voyeurs. Mas muito mal andará o futuro da democracia se a motivação dos futuros lideres não se fundamentar em outros valores que não sejam os do dinheiro ou o da ambição do poder. Todos nós precisamos, urgentemente, de os procurar. Os nossos jovens, desencantados e descrentes com a forma como os educamos quase exclusivamente para a competição e para o sucesso material, precisam deles, e estão à espera que lhos mostremos.