segunda-feira, 21 de junho de 2010

Obama e a Energia

O discurso que Obama proferiu, na Sala Oval, no passado dia 15 de Junho, a propósito do desastre ambiental da BP no Golfo do México, faz lembrar os discursos de Carter em 1977. Discursos aqueles proferidos entre os dois primeiros choques petrolíferos, época em que as questões de energia estavam, tal como hoje, na ordem do dia. Carter estava plenamente consciente da frágil situação energética americana, alertou para ela, quis resolvê-la. Mas não teve sucesso, e acabou por nem sequer ser eleito para um segundo mandato.

Reagan, que veio a seguir, beneficiou, a partir de 1980, duma conjuntura bastante favorável, que veio aliviar a difícil situação energética do mundo. Foi o caso da redução do consumo de petróleo, do início da entrada em funcionamento de inúmeras centrais nucleares, do contributo de novas bacias petrolíferas, no Mar do Norte, no Alasca, no Golfo do México. E não se pode esquecer que foi a partir de 1980 que o gás natural veio ocupar o lugar do petróleo nas centrais termoeléctricas. Tudo isto contribuiu para fazer baixar fortemente o preço do crude nos 25 anos seguintes, e criar a ilusão de que tudo tinha voltado ao “normal”.

Obama está agora confrontado com uma situação semelhante à da época de Carter, e vem repetir o mesmo tipo de discurso. Mas agora num contexto que se apresenta com perspectivas bastante menos promissoras. Já não existem as alternativas surgidas em 1977, o nuclear já não se mostra esperançoso, a produção de crude estagnou, e não existem novas áreas a explorar para compensar as quebras de produção. A "solução" que agora se apresenta é a revolução "verde" apoiada no desenvolvimento das energias renováveis. Com perspectivas, custos e eficácia ainda mal conhecidos.

No seu discurso, Obama, lembra a actual situação energética da América, e o paradoxo que ela representa. Diz ele: ”O petróleo é um recurso finito; consumimos, no nosso país, mais de 20% do petróleo extraído a nível mundial e temos menos de 2% das reservas”. E põe, de forma desassombrada, o dedo na ferida : “Durante décadas percebemos que os dias do petróleo fácil e barato estavam contados, e falámos da urgente necessidade de escapar à nossa dependência dos combustíveis fósseis. Mas falhámos nesse propósito, e não fomos capazes de actuar com a urgência que se impunha. E não foi apenas pela acção dos "lobbies" petrolíferos, mas foi também pela nossa falta de coragem política e pela falta de franqueza em enfrentar o problema”.

Obama acrescenta que “chegou a hora de fazer a transição para uma era de energia limpa. Sabemos que isso tem custos, mas que temos de enfrentá-los agora”. Mas parece desorientado sobre as acções a tomar, parece não saber o que fazer e espera por soluções: ”Existem muitas ideias, e espero vê-las pôr em prática para resolver o problema. O que não podemos é ficar parados”. Faz um apelo à fé na América: “Se nós fomos capazes de produzir tanques e aviões na Segunda Grande Guerra, e colocámos um homem na Lua, teremos de ser capazes de enfrentar e resolver também o presente desafio”. E conclui invocando a Deus: “Esta não é, certamente, a última crise que América terá de enfrentar. Rezo por dias melhores”.

Desde que Dick Cheney, quando confrontado com a necessidade de alterar os hábitos de consumo americano, exprimiu a opinião de que o “american way of life” é inegociável, que a maioria dos americanos entraram numa espiral de cegueira colectiva da qual só sairão perante algum choque imprevisível, e certamente muito doloroso.
Os ventos não correm de feição para a manutenção do “american way of life” E, tal como Carter, Obama corre o risco de não ser eleito para o segundo mandato.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Religião e transição

O facto de um velho amigo, ateísta convicto, confesso e militante, me ter convidado para assistir a uma palestra sobre o tema "ateísmo", suscitou-me esta reflexão. Que faço, apesar do assunto, em si, não me preocupar muito. Pois se o teísmo é acreditar em Deus e o ateísmo é negar a sua existência, considero que discutir o teísmo ou o ateísmo representa a mesma inutilidade filosófica, e a mesma perda de tempo.

A civilização ocidental – que moldou o mundo global – tem as suas raízes mais profundas na cultura judaica e na cultura grega. Herdámos da Bíblia o deus sem rosto, moralista, intemporal e justiceiro (de que Saramago parece não gostar!), e herdámos dos gregos os deuses e as deusas moldados à imagem dos homens, com os seus corpos de atletas, e com os seus desejos, as suas fúrias, os seus amores e as suas emoções por vezes descontroladas. Mas tanto num caso como no outro, os deuses são criaturas dos homens, e não o contrário.

Quando penso no "sobrenatural", a minha grande angústia, decorre da (não) percepção do Universo, e da (não) compreensão das forças que o governam. E que tem a ver com a minha incapacidade de entender o absurdo do “espaço” e do “tempo”, conceitos limitados para terem significado e serem percebidos, mas ilimitados por não terem fronteiras, e, por isso, coisas que "são" e "não são", ao mesmo tempo. A mim, pessoalmente, preocupa-me mais o mistério da força da gravidade do que saber se Deus existe.

A “criação” é o grande e único enigma. E é tanto maior, quanto mais a “visão” do telescópio Hubble penetra nas profundezas do Universo, e nos obriga a acrescentar zeros (do lado direito) ao número de estrelas e de galáxias. O “big bang”, por que não tem explicação, é o verdadeiro Deus. E até já ouço dizer que se suspeita existirem outros universos paralelos ao nosso, possivelmente uns feitos de matéria e outros de antimatéria. De tal forma que tudo somado dará zero, e, se for assim, não são precisas mais explicações sobre a intervenção divina no acto da criação.

Mas na via dolorosa por onde se vai carrear a nossa “civilização” ao calvário, abre-se o espaço para novos profetas virem proclamar vindas de messias e estabelecer novas formas de culto. Já se advinha o "regresso" de Deus para substituir a incapacidade dos políticos governarem o Mundo, e para compensar os homens do progressivo agravamento dos "deficits" de solidariedade, de afecto e de liberdade. É que estes "deficits" não são regulados por "PEC´s" ou pela criação de fundos de protecção. Muitas vezes são resolvidos com recurso à "ajuda" divina.

No espaço melífluo das catedrais (leia-se Centros Comerciais) do mundo actual, dominado pelo consumismo , as marcas ocuparam, nos altares, o lugar dos deuses. E quando se extinguir a sua natureza divina há-de vir quem, alevantando as novas tábuas, compare estes falsos ídolos aos bezerros de ouro, e os esconjure para glorificar outras divindades, criadas para ocupar o vazio deixado pelas antigas.

Na via estreita da transição - admitamos que ela vai ser transitável - haverá porventura lugar para a intolerância, para o fundamentalismo, e, possivelmente, para novas e elaboradas formas de exploração e oportunismo. Quem sabe se até para novos modelos de inquisição.

“Deus” queira que não.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O Mundo de hoje, imaginado há 100 anos


Há tempos, chamou-me a atenção um artigo escrito em 1900, e que continha um conjunto de previsões, ou antevisões, para o ano 2000. Foi publicado no “The Ladies Home Journal”, uma revista americana, e ainda hoje a sua leitura faz as delícias de quem o lê. Uma outra publicação de 1910, neste caso uma sequência de "quadros", mostrando uma antevisão do ano 2000, pertencentes a uma colecção da Biblioteca Nacional de França, ajuda-nos a conhecer a percepção que os nossos avós tinham do futuro.

Confrontando a realidade dos nossos dias com as previsões ali apresentadas, chega a ser chocante a “ingenuidade” dos autores, tanto do artigo como dos "quadros". Mas vale a pena revisitar e reflectir sobre estas conjecturas, pois elas ajudam-nos a entender a mentalidade de quem as produziu, e a compreender melhor o mundo que nos rodeia, e até a própria dinâmica da evolução das ideias ao longo dos tempos. Podemos até sentirmo-nos estimulados a fazer o exercício de tentar antever o mundo daqui a 100 anos.

É certo que, há um século atrás, a data "2000" era uma data mítica, a qual era vista, em simultâneo, como fim de século e como fim de milénio. Isso, julgo eu, ajudava a inflamar as mentes. Por outro lado, o tempo futuro parece mais extenso do que o tempo passado. A nossa mente habitua-se a olhar para uma data futura como representando uma “distancia” enorme, a qual, depois, nos parece muito mais curta do que havíamos imaginado. Quando apareceu o “1984” de Orwell ou o filme “2001, Odisseia no Espaço” de Kubrick, parecia que o tempo que faltava, haveria de permitir realizar todos os sonhos. E, afinal, essas datas, vistas pelo "retrovisor" do tempo, estavam “logo ali”.

Nestas previsões de há 100 anos, sobressai uma crença ilimitada na tecnologia. A electricidade é ali apresentada como uma coisa milagrosa. Fala-se ingenuamente de navios movidos a electricidade cruzando o oceano, como se a electricidade pudesse ser transportada a bordo de um navio. E, constatamos hoje, a incapacidade de, nesse tempo, se perceber aquilo que foram os verdadeiros grandes saltos tecnológico: a televisão, a informática, a internet, e até o avião.

O carvão era a forma energética que tinha revolucionado o mundo, e tinha conduzido ao progresso, mas já se apresentava como uma coisa do passado, algo sujo e desinteressante. E que, acreditava-se, a energia eléctrica iria tornar obsoleto. O petróleo era conhecido mas o seu potencial estava por adivinhar. E o nuclear nem sequer era imaginado.

Em 1900, o mundo ainda estava extasiado com os ecos da Exposição Universal de Paris, e vivia-se uma revolução tecnológica. Parecia não haver limites para os sonhos do homem. Júlio Verne, melhor que ninguém, encarna esta visão nos seus livros. Entre nós, ficou-nos a “Cidade e a Serras” do nosso Eça que confronta o “novo mundo”, isto é, a civilização com o campo, ou as serras. E que, ao arrepio da tendência dominante, toma partido pelo campo, e desaprova as “modernices” de Jacinto que morava nos Campos Elísios, e já tinha elevador.

Não se falava de limites do crescimento, e questões como o esgotamento dos recursos, como a poluição ou o aquecimento global, nem sequer eram afloradas. Falava-se do progresso, dum Mundo super-organizado mas não se antecipavam os custos da complexidade que isso iria provocar.

E, apesar de tudo, nas previsões do "Ladies Home Journal" impressionam alguns acertos. Fala-se do telégrafo, e do telefone universal, do envio de imagens a longa distância, e da perfeita reprodução fotográfica da cores da natureza. E até já se dizia que os homens do futuro iriam ser mais altos. Vê-se apenas o lado bom do homem, o optimismo prevalece. Mas é uma visão “ocidental”, onde não se vislumbra o acesso dos “bons indígenas” à emancipação e à igualdade.

E daqui a 100 anos, como será o Mundo?

O homem está hoje menos optimista, vive mais angustiado. E, já ninguém imagina o futuro como a “reconstrução” do Éden. Já não temos Júlio Verne, mas temos os livros e os filmes que nos falam do colapso (2012) e nos mostram as ruínas das grandes cidades depois de cataclismos, das pestes, do extermínio nuclear, de novas idades de gelo.

O mundo de hoje é um mundo pessimista em relação ao futuro, e, infelizmente, parecem sobrar as razões para que o seja.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A população e os recursos naturais

No último século, a população mundial quadruplicou, passando de 1,7 mil milhões, no início do século XX, para os actuais 6,7 mil milhões de pessoas. Por outras palavras, pode afirmar-se que, nos últimos 100 anos, a população mundial aumentou exponencialmente com uma taxa de crescimento de 1,8 %, e que duplicou nos últimos 40 anos.

Contudo, se observarmos o crescimento da população em diferentes áreas do planeta, verifica-se que o mesmo não foi uniforme. Em muitas dessas áreas o crescimento foi muito forte e noutras foi muito fraco, nulo, ou até mesmo negativo. No primeiro caso, estão países da África subsariana, da América Latina e da Ásia, e no segundo, estão alguns dos países mais desenvolvidas da Europa e da América do Norte.

E as previsões da Organização das Nações Unidas apontam para que a população mundial seja, em 2050, de cerca 9 mil milhões. São previsões preocupantes tendo em conta que mais população significa necessidade de mais alimento, de mais energia, e de mais recursos. Num planeta finito e com recursos limitados, coloca-se uma vez mais a eterna pergunta: até onde poderá crescer a população mundial, e quais são os limites a esse crescimento?

Desde Thomas Malthus que se discute a relação entre o crescimento populacional e a disponibilidade dos recursos necessários para o manter. É certo que a previsão de Malthus (que dizia que a população não poderia crescer em progressão geométrica, quando os recursos cresciam em progressão aritmética), não se concretizou. Depois, este foi também o tema central no relatório "Os Limites do Crescimento" do Clube de Roma, em 1972. E hoje, quando o mundo enfrenta a primeira grande crise da era da globalização, o assunto volta a estar de novo na ordem do dia.

E no entanto, se pensarmos um pouco poderemos concluir que tanto Malthus como a equipa de Denis Meadows (dos Limites do Crescimento) poderiam estar certos nas suas previsões. E, acredito eu, o tempo vai acabar por lhes dar razão. Com efeito, na época de Malthus não se conheciam as grandes reservas energéticas (combustíveis fósseis), e as previsões do estudo do Clube de Roma, ainda hoje não podem (por não ter decorrido o tempo suficiente) ser desmentidas.

O que provocou o grande aumento populacional dos últimos 100 anos, foi o grande crescimento económico, a revolução verde, e o desenvolvimento tecnológico. Mas a perfeita correlação entre aumento populacional e consumo energético deixa claro que foi a disponibilidade de uma energia abundante e barata (sobretudo o petróleo), a verdadeira causa deste extraordinário crescimento.

E se um dia faltarem os recursos para sustentar o crescimento populacional o que acontecerá? Como é que poderá ser contido esse crescimento? Naturalmente, baixando a natalidade, ou aumentando a taxa de mortalidade ou as duas coisas ao mesmo tempo. Mas seja qual for a opção, as consequências são imprevisíveis. Porém, uma coisa parece certa: se os limites forem ultrapassados, e nós não formos capazes de fazer a regulação, o planeta vai encarregar-se de a fazer.

Em Portugal, a população mantém-se mais ou menos estável desde 1960 (cerca de 10,5 milhões) . Mas a estrutura da nossa pirâmide etária modificou-se muito devido a vários movimentos: emigração nos anos 60, guerra colonial, retorno dos portugueses de África nos anos 70, fluxos imigratórios a partir dos anos 90. Ao mesmo tempo a taxa de natalidade baixou assustadoramente, e, como consequência, a população portuguesa envelheceu muito, e vai continuar a envelhecer nos próximos anos, como se pode ver nos seguinte gráfico:

Neste grafico está, a preto, a percentagem da população com mais de 65 anos, e, a cinza, a taxa de envelhecimento que é a proporção entre velhos (65+) e jovens (0-15). Fonte INE, e previsões minhas, para o período após 2010.

Como é que Portugal vai lidar com as consequências deste envelhecimento populacional ? Quais os custos para o Estado social, como iremos conter as pressões migratórias dos países pobres e sobrepovoados , sobretudo dos países do norte de África, da Ásia e da América Latina?

Não podemos meter a cabeça na areia e ignorar esta realidade. É hoje evidente que os recursos (energéticos, hídricos e minerais) não poderão acompanhar as previsões do crescimento populacional. O progresso tecnológico, também ele, tem limites. Teremos de passar a consumir menos, e de reaprender a andar a pé, e a cultivar a terra.


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segunda-feira, 10 de maio de 2010

À atenção do BE de do PCP

Lisboa, Maio de 2010

Dizem os jornais que ambos os vossos partidos se preparam para rejeitar, na AR, a suspensão do decreto que autoriza o investimento programado para o chamado projecto da alta velocidade ferroviária, o “TGV Lisboa-Madrid”. A ser verdade o que os jornais dizem, é uma notícia triste, porque revela a estranha miopia de quem devia andar de olhos abertos.

O verdadeiro debate do TGV para Madrid não se pode reduzir à questão de saber se um tal investimento deverá ser feito ou não. Nem se é oportuno fazê-lo agora (quando Portugal está fragilizado perante os especuladores internacionais), ou se deve deixar-se para mais tarde.

O real nó górdio da questão consiste em que Portugal ficou “preso” à presente “solução” do TGV, quando aceitou a visão espanhola de uma estrutura ferroviária ibérica radial, a partir de Madrid. Não interessa agora discutir quem foram os culpados dessa submissa aceitação. A verdadeira questão associada ao "TGV" é a de saber se Lisboa deve ser um “nó” de primeira categoria na rede europeia de alta velocidade, ou se limita a ser um "nó” secundário, "pendurado" na ligação a Madrid.

Apresentada como sendo o “TGV Lisboa-Madrid” esta ligação é na realidade o “AVE Madrid-Badajoz”, acrescentada de uma “perninha” até Lisboa. Trata-se de facto dum projecto espanhol, em que o material circulante será espanhol, a gestão da exploração será espanhola, as ementas do bar hão-de ser castelhanas, os funcionários e tudo o mais castelhanos serão.

Adiada sine die a ligação ao Porto, Portugal perde qualquer iniciativa no domínio da alta velocidade. E Lisboa, assim ligada a Madrid, de algum modo perde o seu estatuto de "cidade capital na Europa". Passará a ser vista como uma cidade de segunda categoria na Ibéria, possivelmente a quarta, depois de Barcelona e Sevilha.

O papel português neste projecto será apenas o de rasgar o Alentejo para construir a linha. Vai usar-se mão-de-obra muito pouco qualificada, possivelmente importada. Ao fim de 3 ou 4 anos, agravaremos fortemente a nossa legião de desempregados, aos quais haverá que somar as famílias, entretanto trazidas para Portugal.

Convém não esquecer que, no século XIX, Portugal optou por uma solução de outro tipo: foi eleita a ligação directa a Paris pela via de Salamanca, Valladolid, Burgos e Irún. É por aí que passa a nossa ligação natural à Europa, (foi por aí que o Jacinto queirosiano regressou de Paris às serras de Tormes,) e será ainda por aí que a verdadeira ligação continua a passar. É por Vilar Formoso que entram e saem, diariamente, centenas de camiões TIR. E é exactamente esta visão que agora aparece sacrificada, na aceitação da “visão” espanhola.

Os portugueses, no futuro, não perdoarão aos seus dirigentes que se aceite a ligação para Madrid sem, ao mesmo tempo, negociar com Espanha a nossa "verdadeira e natural" ligação á Europa. Esta é, a meu ver, a primeira condição a exigir, para aprovação definitiva do famigerado TGV.

Apenas mais dois reparos: o projecto Lisboa-Madrid não será rentável, pois é esta a inequívoca conclusão dos estudos da Rave, os quais prevêem cerca de 1000 passageiros por dia em 2030. Isso dá para encher um comboio diário, em cada sentido! Além disso, tal como está projectada, a linha não servirá para escoar as nossas mercadorias.

Vai tudo isto “com conhecimento” ao Partido Socialista, sem grande esperança de acolhimento. Pois me parece que os seus activistas estão dopados sobre o assunto, desde que alguém escolheu reduzir a questão a um diferendo, se não a um “braço de ferro”, entre José Sócrates e Cavaco Silva.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

É urgente um PEC energético para Portugal

A avaliação energética é uma questão central para entender a actual crise económica e financeira, e para perceber a sua previsível evolução. Decisões sobre esta matéria como, por exemplo, a opção de investir na construção de eólicas, ou na construção de barragens, ou até uma decisão ou tomada de posição sobre o nuclear são extremamente importantes, e elas vão ter consequências no futuro da nossa economia. Por isso deveriam ser objecto de uma ponderada e alargada análise e discussão. Infelizmente nem sempre isso acontece.

Portugal, é sabido, tem uma grande dependência energética pois importa todos os combustíveis fósseis que utiliza (carvão, gás natural e petróleo), os quais representam, segundo números da AIE de 2006, 83% do nosso consumo energético. Em certos anos essa percentagem aumenta, pois Portugal chega também a importar energia eléctrica de Espanha. Na Europa, se excluirmos Chipre, Malta e Luxemburgo, apenas a Irlanda e a Itália apresentam valores de dependência energética externa superiores ao nosso.

A principal fonte de energia utilizada em Portugal é o petróleo o qual, após ser refinado, é utilizado sobretudo no sector dos transportes. Um interessante artigo de Luís de Sousa, membro da Aspo Portugal, mostra que os países europeus mais dependentes do petróleo são exactamente os “pigs” (Grécia 58%, Irlanda 55%, Portugal 55%, Espanha 48%, Itália 46%), e esse facto não será estranho à grave situação económica que estes países atravessam.

A electricidade é uma forma de energia secundária pois é obtida a partir de outras formas de energia. Mas a electricidade representa apenas 18% da energia final consumida em Portugal. Ora, é na produção de electricidade que o actual governo está a fazer um grande esforço para ganhar independência, investindo nas energias renováveis. Destas destacam-se a energia hídrica e a energia eólica, sendo que a energia solar ainda tem pouco significado.

O consumo de energia eléctrica em Portugal foi, em 2009, de 52 TWh (Terawatts hora). Entre 2000 e 2009 a taxa de aumento anual do consumo foi de 1,5%, e ele deverá continuar a aumentar. Admitimos que a consumo de energia eléctrica, caso se mantenha essa taxa de aumento anual, chegará, em 2020, aos 62 TWh. Valor este que poderá mesmo ser ultrapassado, caso se generalize a adopção do automóvel eléctrico.

A energia hídrica já representou uma quota-parte muito elevada na produção eléctrica quando, nos anos 50, foi implementado o programa das barragens nos rios do norte (Douro, Cávado e outros). Portugal chegou, nessa época, a produzir a quase totalidade da sua energia eléctrica por este processo. Mas o consumo de electricidade subiu rapidamente e houve necessidade de começar usar outros combustíveis para a sua geração. Apareceram então as centrais térmicas a carvão e a fuel, mas a partir dos anos 80, com o preço do petróleo a subir, o fuel foi sendo gradualmente abandonado. Recentemente, o gás natural, pela sua conveniência e eficiência, ganhou uma grande expressão nas centrais eléctricas de ciclo combinado.

A produção eléctrica pela via hídrica é muito variável de ano para ano: entre 2001 e 2009, o seu contributo variou entre 10% e 33% do total, tendo sido de 20% o valor médio desse período. Com a prevista construção das novas barragens a hídrica passará a representar 21%, sendo este apenas um valor indicativo pois continuará a haver grandes oscilações inter-anuais.

A opção a favor das eólicas começou a ganhar força nos últimos anos, e Portugal é um dos países que mais tem investido nesse sector. Em 2009, elas já foram responsáveis por 14% da electricidade consumida, e esse valor poderá chegar a 24% (duplicará passando de 7,5 TWh para 15 TWh) em 2020, se forem cumpridos os ambiciosos projectos anunciados pelo governo.

Mas estas medidas não irão resolver os problemas energéticos de Portugal. Mesmo que a electricidade passe dos actuais 18% para 20% do mix do consumo final, as eólicas passarão a representar 5% do consumo total e a hídrica 4%, ou seja as renováveis representarão, na melhor das hipóteses, cerca de 10% do total da energia consumida em Portugal. A energia solar fotovoltaica, pelo seu elevado custo de produção, ainda tem, e continuará a ter por muito tempo, contributos desprezíveis.

Vamos, pois, continuar a depender dos combustíveis fósseis, e com as renováveis o valor de 83% de dependência será apenas reduzido, em 2020, em 3 ou 4 pontos percentuais. E em anos de carência de chuva poderemos ter de voltar a importar electricidade de Espanha e a recorrer mais ao carvão e ao gás natural. É, pois, urgente tomar medidas, fazer uma especie de “pec” energético, de forma a reduzir a factura dos fósseis. Algumas das medidas que eu recomendaria são as seguintes:

1. Continuar a apostar nas energias renováveis para incorporar na rede eléctrica.
2. Reduzir fortemente o custo energético nos transportes, única forma de reduzir a importação de crude. Esta é uma medida essencial e que não deveria esperar mais tempo.
3. Aumentar a eficiência energética (dos transportes, dos edifícios, dos electrodomésticos)
4. Repensar as grandes obras pois elas consomem energia na sua construção, e absorvem recursos que poderiam ser utilizados para outros fins.
5. Discutir a opção nuclear. Com o previsível esgotamento dos recursos fósseis, só uma total miopia poderá ignorar esta fonte alternativa. Aliás, ela já é utilizada cada vez que importamos energia eléctrica de Espanha.
6. Estimular a pequena produção eléctrica local baseada no solar e nas mini-eólicas. Esta deveria ser uma medida urgente, e até uma alternativa às obras megalómanas como forma de estimular o emprego.
7. Melhorar a rede eléctrica, medida essencial para integrar formas de produção diferenciadas e dispersas.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A breve história da Civilização

O homem (Homo Sapiens) existe à face da Terra há centenas de milhares de anos. Distingue-se este símio na ordem dos primatas pela sua postura erecta e pela destreza do uso da mãos que lhe permite "manusear" instrumentos e ferramentas. A lenta aquisição da linguagem e a capacidade de comunicar terá sido o grande "salto em frente" da Homo Sapiens, e que lhe permitiu verbalizar conceitos, transmitir ordens, exprimir emoções; a própria capacidade de pensar está associada à capacidade de falar, e a inteligência, que surge ligada ao desenvolvimento do córtex cerebral, é uma consequência da fala.

Outro grande salto, já mais recente, na evolução dos Humanos resultou da aprendizagem da forma de fazer o fogo. Foi uma aquisição tecnológica que permitiu ao homem aproveitar a energia da biomassa, cozinhar os alimentos, reduzir os minérios e forjar os metais. Associado ao fogo e ao seu controlo esteve, certamente, o primeiro símbolo de poder social nas tribos primitivas.

Mas a extraordinária expansão do Homo Sapiens sobre a Terra aconteceu nos últimos 10,000 anos, num curtíssimo período da sua existência (um flash, à escala do tempo Universal!). Foi há 10,000 anos que se iniciou, no Médio Oriente (mais precisamente no Crescente Fértil, a Mesopotâmia dos vales do Tigre e do Eufrates), a época que hoje designamos por a "História da Civilização".
Nesse período, o Homem aprendeu a utilizar intensamente em seu favor os recursos do planeta, e foi sobretudo a domesticação de animais (cavalos, vacas, porcos, ovelhas e cabras) e plantas (nomeadamente os cereais) que levou os caçadores recolectores à sedentarização.

A intensificação do cultivo e de pecuária e o aproveitamento do trabalho animal conduziram à produção de excedentes alimentares o que permitiu que uma boa parte dos elementos das sociedades tribais pudessem dedicar-se a outras tarefas. Surge então a sociedade organizada, com a diferenciação de funções entre os seus membros, e estabelecem-se as hierarquias sociais.

Mais tarde, com o aparecimento da escrita, dá-se mais um salto importante: registam-se as trocas comerciais, cria-se a memória dos acontecimentos, surgem os códices das leis, nasce o estado organizado. E foi a escrita (pense-se na Bíblia, no Corão) que fez aparecer as grandes religiões monoteístas. Estavam criadas todas as condições para, finalmente, o Homem poder dominar a Terra.

A maturação da organização das sociedades teve o seu apogeu nas grandes civilizações que floresceram à volta do mediterrâneo: Os Caldeus na Mesopotâmia, os Egípcios à volta do Delta do Nilo, os Gregos com o azeite e o vinho e as suas Cidades-Estados, e os Romanos com as suas vias de comunicação e o poder das suas legiões.

A força do trabalho humano é, nessa época, o grande motor do desenvolvimento. Só assim, com miríades de trabalhadores, foi possível construir os grandes monumentos da antiguidade (as pirâmides, por exemplo) e as grandes infraestruturas viárias e sanitárias dos Romanos. Isso explica a escravatura que consistia no aproveitamento do trabalho de homens por outros homens, afinal uma forma barata de energia.

Sustentada pela matriz do pensamento geométrico grego, impregnada pela intemporalidade das ideias dos judeus, e reforçada com o vigor dos povos francos germanos e celtas, a Idade Media foi o tempo para, na Europa, se preparar o salto seguinte. Foi a Globalização, que verdadeiramente começa no final do século XV com as grandes viagens e com a invenção da imprensa escrita por Gutemberg, que difunde as noticias dos descobrimentos a toda a Europa. O modelo ocidental, apoiado numa cultura científica e positivista, começava a difundir-se e impor-se a todo o mundo.

No século XIX, A revolução industrial, baseada na máquina a vapor e no carvão permitiu a mobilidade e a produção em massa e foi a antecâmara que antecedeu a vertigem dos últimos 100 anos. Um século em que o crescimento populacional foi rápido, em que tudo cresceu de forma exponencial. O festim da energia fóssil abundante e barata fez a Idade de Ouro e viu aparecer uma nova entidade: o consumidor. Nos anos mais recentes, uma nova literacia, a Internet, abriu perspectivas ainda mal percebidas.

Mas estamos a chegar ao fim dos tempos bíblicos: Quando Deus criou o Homem e a Mulher, disse-lhes: «Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a Terra. Dominai os peixes do mar, as aves dos céus e todos os animais que se movem na Terra.». E o Homem assim fez.
E agora, o mais humilde descendente de Adão clama por respostas divinas: “Senhor, já enchemos a Terra, e estamos a acabar com muitos peixes e muitas aves e muitos dos animais que nela viviam. Dizei-me, pois, qual o destino que agora nos reservas?”