segunda-feira, 19 de julho de 2010

A terceira via

O debate político, promovido pelo Partido Socialista, está a focalizar-se na discussão à volta de duas vias alternativas para enfrentar a crise: "neoliberalismo" versus “defesa do modelo social”. Defendem os dirigentes do PS a via da "manutenção e desenvolvimento do modelo social", e apontam os pecados do neoliberalismo, que condenam e rejeitam. E aproveitam para “colar” a etiqueta de “neoliberalista” ao principal partido adversário: o PSD.

A matéria tem sido aflorada de forma recorrente nas iniciativas partidárias do PS a que temos assistido neste Verão, e o discurso, repetido com poucas variações, obedece a uma linha predefinida e coerente. Até Mário Soares, no seu artigo semanal de opinião no DN de 13 Julho, não hesitou em reduzir a questão da saída da crise àquela dicotomia, e escreveu a propósito: “A necessidade prioritária (é a ) de manter e desenvolver o modelo social europeu… e só depois - mas em segundo lugar - reduzir os deficits externos e o endividamento, público e privado, como sugere o Banco Central Europeu, influenciado pelo economicismo neoliberal”.

Ao eleger esta dualidade de opções para eixo central da sua estratégia, e ao trazê-la para o terreiro do debate, os referidos políticos parecem querer convencer-nos que estas são as únicas alternativas, as duas únicas opções que temos pela frente, e que vamos ter de optar por uma delas. Mas, na minha opinião, estão enganados. Estas vias não são alternativas, são as duas faces de uma mesma moeda. Trata-se de uma forma de iludir a verdadeira questão, que consiste em aprofundar a compreensão da crise e identificar as suas causas.

O chamado “modelo social europeu” é, numa leitura economicista, o resultado da política neoliberal - dos últimos 65 anos, correspondentes ao período do pós-guerra -, cujo sucesso assentou no abandono do proteccionismo, na globalização e na livre concorrência, e que permitiu, em resultado de um crescimento contínuo do PIB europeu, criar os excedentes que alimentaram e ainda alimentam o tal modelo social. A própria Europa, a que nós pertencemos, construiu-se sobre este modelo, e a sua força assenta sobre o seu sucesso.

Vir agora, com fazem os dirigentes do PS, defender o modelo social europeu e, ao mesmo tempo, negar os fundamentos económicos que o sustentam, é a mesma coisa de que querer preservar o telhado de uma casa, e deitar abaixo as paredes que o suportam. Ora é mais do que certo que quando as paredes ruírem, o telhado virá atrás delas. Mais defensável, mesmo que pouco recomendável, seria manter as paredes de pé, e deitar o telhado abaixo.

Mas poderemos atribuir o sucesso económico das últimas décadas apenas ao "modelo" de organização do sistema produtivo, quer ele se chame de capitalismo, liberalismo, ou simplesmente “economia de mercado” ?
Poderemos, por exemplo, ignorar o input tecnológico, o input energético, e o problema dos recursos (incluindo os humanos!), que são externalidades do modelo? A resposta é não. E a via a seguir consistirá em adequar o modelo aos recursos disponíveis, e para isso temos de procurar a solução fora dele. A esta, chamo eu a terceira via.

A situação actual da economia lembra um potente automóvel que de repente deixou de andar. E o condutor faz tentativas desesperadas para o pôr a trabalhar. Discute-se à volta, e um diz que será necessário olear as engrenagens, enquanto outro reclama que o mais importante é manter o ar condicionado a funcionar. Até que alguém descobre que o problema é a simples falta de gasolina, e que não há nenhuma gasolineira ali por perto.
Neste caso, a terceira via é ir a pé.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Como "não" será o mundo daqui a cem anos

Há umas semanas atrás, eu escrevi aqui sobre a forma como os nossos avós e bisavós imaginavam o mundo de hoje. E ficou claro que havia naquele imaginário uma crença profunda num mundo melhor, mais organizado, mais fácil, menos poluído, mais livre de doenças e de pragas. Os homens e mulheres do futuro seriam, na opinião dos nossos avoengos, mais felizes, e o mundo iria transformar-se numa espécie de paraíso terrestre.

As previsões de há cem anos inspiravam-se na crença de que a evolução tecnológica e o progresso do conhecimento não teriam limites, e que ao desvendar os segredos das Ciências e ao dissecar as células microscópicas, o Homem iria explicar as origens da Vida, e penetrar nas profundezas da Alma. E adquirir a sapiência e o poder, que antes só eram atributos dos deuses.

Mas o mundo dos últimos 100 anos não teve aquela "suave" evolução que se esperava. Foi antes uma espiral de acontecimentos contraditórios, em que os sucessos eram, muitas vezes, submergidos pelos insucessos. Descobrimos a penicilina, é verdade, mas tivemos o holocausto, eliminámos a varíola, mas viu-se massacrar gente, em África e noutras partes do mundo. Produzimos e consumimos mais e andamos mais depressa, mas estamos, por causa disso, a esgotar os recursos e a destruír o ambiente. Libertámos a energia do átomo , e com ela já matámos pessoas; descobrimos o ADN, e já "manipulámos" genes de animais e plantas.

E quando parecia que estávamos a atingir o paraíso, vimos o planeta reagir furioso parecendo contrariar o nosso desejo. Surgiram, quando menos se esperava, os tornados, os furacões, as enchentes, e enfrentámos o aquecimento global. E o planeta até já se nega a que lhe retirem das suas entranhas o “sangue” negro que alimentou a nossa expansão, o “excremento do diabo” como alguns já lhe chamaram.

Por isso eu não me atrevo a fazer previsões para os próximos 100 anos. Já me contentaria que alguém mas mostrasse para os próximos 10 anos. Porque, acredito, muita coisa se irá decidir neste curto prazo. Mas só pensar naquilo que "não" poderá acontecer no século que temos pela frente, já se torna preocupante. E isso eu posso prever:

  • A população “não” poderá voltar a multiplicar por quatro, como aconteceu nos últimos 100 anos.
  • O aumento progressivo da concentração de CO2 na atmosfera “não” pode continuar.
  • "Não" se podem continuar a destruir espécies como temos feito até agora.
  • O consumo de energia fóssil, barata e abundante, “não” continuará a crescer.
  • "Não" se poderá continuar a desperdiçar recursos escassos, a começar pela água.
  • Os economistas “não” vão ser capazes de resolver os problemas económicos do mundo.

Não queiras prever o futuro das coisas
Elas são imprevisíveis!
A fronteira entre a ordem e o caos
É o bater das asas de uma borboleta...
A amena fogueira dá lugar ao incêndio devastador
A brisa suave dá lugar ao tornado assustador
A chuva serena dá lugar à enchente destruidora
E ao doce crepúsculo, segue o dia claro ou a noite de trevas...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Economia e ambiente

Estive, há dias, no Museu da Electricidade, onde assisti à conferência, promovida pelo “Sol”, sobre “Economia, Ambiente e Sustentabilidade”. O que me levou lá foi o meu interesse em ouvir o professor Ernâni Lopes. E valeu a pena, pois assisti a uma lição magistral. E não foi com a sua dissertação sobre economia que o professor mais me impressionou. Acima de tudo foi a atitude de uma pessoa sábia e humilde que questionou o “direito” do homem destruir o ambiente, pois que o “poder” adquiriu-o ele já há bastante tempo: primeiro, com o “clarão” de Hiroshima, em 1945, e, depois, com a descoberta do ADN, em 1960. No primeiro momento tornou-se evidente o poder da destruição cega e massiva, e no segundo a capacidade de manipular geneticamente o genoma dos seres vivos.

Falou o professor do capitalismo, que diz ter “nascido” em 1776, no ano da publicação da "Riqueza das Nações" de Adam Smith, e que foi também o ano da independência da América. Capitalismo cujo desenvolvimento foi alimentado pela primeira revolução industrial, e que foi causa e efeito de inúmeras conquistas tecnológicas (daí poder chamar-se-lhe uma revolução!). Mas, acrescenta ele, conseguidas à custa da contínua e progressiva destruição do ambiente. Assistimos agora a um ponto de viragem, pois já nos demos conta que o ambiente não pode mais ser mais destruído, antes pelo contrário, precisamos de o reconstruir, e de recuperar os estragos. E essa reconstrução, para o conferencista, abre uma nova e grande oportunidade ao capitalismo. Porque ele acha que o capitalismo sempre foi capaz de dar “a volta por cima” às dificuldades, e até foi capaz de transformar derrotas em vitórias, e falhanços em novas oportunidades.

Eu tendo a discordar desta conclusão, e disse-lho no curto debate que seguiu. Como poderá o capitalismo passar de destruidor a protector? Poderá o lobo, devorador de cordeiros, transformar-se, como que por encanto, no seu criador e protector? A destruição do ambiente pelo capitalismo, é, na minha opinião, a afirmação do seu “instinto” predador, a forma de garantir a sua sobrevivência. Afinal consumir é, na nossa economia capitalista e liberal, sinónimo de destruir.

Ernâni Lopes acredita que a tecnologia (para ele o grande trunfo do capital) pode mudar o mundo, e pode até resolver o problema energético. Chegou mesmo a afirmar que a “economia” encontrará, quando for necessário, um substituto para o petróleo. E, quando se falou de “colapso”, ele acusou o toque, e confessou que conhecia os casos enunciados por Jared Diamond no seu famoso livro, com aquele nome, e recentemente traduzido para português. Mas que discordava do autor sobre as razões dos vários exemplos de “colapso” apresentados no livro (incluindo o famoso exemplo da Ilha da Páscoa), e que, achava ele, a verdadeira causa tinha sido a incapacidade dos intervenientes para encontrar soluções tecnológicas para os resolver. Aqui o que me separa do conferencista são os princípios da termodinâmica: a tecnologia não cria energia, aliás, a energia não se cria (1º principio). Só se transforma, e mesmo a transformação nunca é gratuita (2º principio).

Mas este pormenores não retiram nada ao essencial da conferência nem reduzem o seu interesse. Ernâni Lopes explanou conceitos que nos fazem pensar, tais como a diferença entre política, doutrina e ideologia; disse-nos que na escala do nosso relacionamento com o mundo (o weltanshaung), a sabedoria, sobrepõe-se ao conhecimento, o qual por sua vez se sobrepõe à informação, e aos dados. Nas sua dissertação revelou-se um sábio, descomprometido e humano, e demonstrou possuir uma grande inteligência. E assumiu, com humildade, uma atitude quase religiosa perante o mundo e perante a vida.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Obama e a Energia

O discurso que Obama proferiu, na Sala Oval, no passado dia 15 de Junho, a propósito do desastre ambiental da BP no Golfo do México, faz lembrar os discursos de Carter em 1977. Discursos aqueles proferidos entre os dois primeiros choques petrolíferos, época em que as questões de energia estavam, tal como hoje, na ordem do dia. Carter estava plenamente consciente da frágil situação energética americana, alertou para ela, quis resolvê-la. Mas não teve sucesso, e acabou por nem sequer ser eleito para um segundo mandato.

Reagan, que veio a seguir, beneficiou, a partir de 1980, duma conjuntura bastante favorável, que veio aliviar a difícil situação energética do mundo. Foi o caso da redução do consumo de petróleo, do início da entrada em funcionamento de inúmeras centrais nucleares, do contributo de novas bacias petrolíferas, no Mar do Norte, no Alasca, no Golfo do México. E não se pode esquecer que foi a partir de 1980 que o gás natural veio ocupar o lugar do petróleo nas centrais termoeléctricas. Tudo isto contribuiu para fazer baixar fortemente o preço do crude nos 25 anos seguintes, e criar a ilusão de que tudo tinha voltado ao “normal”.

Obama está agora confrontado com uma situação semelhante à da época de Carter, e vem repetir o mesmo tipo de discurso. Mas agora num contexto que se apresenta com perspectivas bastante menos promissoras. Já não existem as alternativas surgidas em 1977, o nuclear já não se mostra esperançoso, a produção de crude estagnou, e não existem novas áreas a explorar para compensar as quebras de produção. A "solução" que agora se apresenta é a revolução "verde" apoiada no desenvolvimento das energias renováveis. Com perspectivas, custos e eficácia ainda mal conhecidos.

No seu discurso, Obama, lembra a actual situação energética da América, e o paradoxo que ela representa. Diz ele: ”O petróleo é um recurso finito; consumimos, no nosso país, mais de 20% do petróleo extraído a nível mundial e temos menos de 2% das reservas”. E põe, de forma desassombrada, o dedo na ferida : “Durante décadas percebemos que os dias do petróleo fácil e barato estavam contados, e falámos da urgente necessidade de escapar à nossa dependência dos combustíveis fósseis. Mas falhámos nesse propósito, e não fomos capazes de actuar com a urgência que se impunha. E não foi apenas pela acção dos "lobbies" petrolíferos, mas foi também pela nossa falta de coragem política e pela falta de franqueza em enfrentar o problema”.

Obama acrescenta que “chegou a hora de fazer a transição para uma era de energia limpa. Sabemos que isso tem custos, mas que temos de enfrentá-los agora”. Mas parece desorientado sobre as acções a tomar, parece não saber o que fazer e espera por soluções: ”Existem muitas ideias, e espero vê-las pôr em prática para resolver o problema. O que não podemos é ficar parados”. Faz um apelo à fé na América: “Se nós fomos capazes de produzir tanques e aviões na Segunda Grande Guerra, e colocámos um homem na Lua, teremos de ser capazes de enfrentar e resolver também o presente desafio”. E conclui invocando a Deus: “Esta não é, certamente, a última crise que América terá de enfrentar. Rezo por dias melhores”.

Desde que Dick Cheney, quando confrontado com a necessidade de alterar os hábitos de consumo americano, exprimiu a opinião de que o “american way of life” é inegociável, que a maioria dos americanos entraram numa espiral de cegueira colectiva da qual só sairão perante algum choque imprevisível, e certamente muito doloroso.
Os ventos não correm de feição para a manutenção do “american way of life” E, tal como Carter, Obama corre o risco de não ser eleito para o segundo mandato.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Religião e transição

O facto de um velho amigo, ateísta convicto, confesso e militante, me ter convidado para assistir a uma palestra sobre o tema "ateísmo", suscitou-me esta reflexão. Que faço, apesar do assunto, em si, não me preocupar muito. Pois se o teísmo é acreditar em Deus e o ateísmo é negar a sua existência, considero que discutir o teísmo ou o ateísmo representa a mesma inutilidade filosófica, e a mesma perda de tempo.

A civilização ocidental – que moldou o mundo global – tem as suas raízes mais profundas na cultura judaica e na cultura grega. Herdámos da Bíblia o deus sem rosto, moralista, intemporal e justiceiro (de que Saramago parece não gostar!), e herdámos dos gregos os deuses e as deusas moldados à imagem dos homens, com os seus corpos de atletas, e com os seus desejos, as suas fúrias, os seus amores e as suas emoções por vezes descontroladas. Mas tanto num caso como no outro, os deuses são criaturas dos homens, e não o contrário.

Quando penso no "sobrenatural", a minha grande angústia, decorre da (não) percepção do Universo, e da (não) compreensão das forças que o governam. E que tem a ver com a minha incapacidade de entender o absurdo do “espaço” e do “tempo”, conceitos limitados para terem significado e serem percebidos, mas ilimitados por não terem fronteiras, e, por isso, coisas que "são" e "não são", ao mesmo tempo. A mim, pessoalmente, preocupa-me mais o mistério da força da gravidade do que saber se Deus existe.

A “criação” é o grande e único enigma. E é tanto maior, quanto mais a “visão” do telescópio Hubble penetra nas profundezas do Universo, e nos obriga a acrescentar zeros (do lado direito) ao número de estrelas e de galáxias. O “big bang”, por que não tem explicação, é o verdadeiro Deus. E até já ouço dizer que se suspeita existirem outros universos paralelos ao nosso, possivelmente uns feitos de matéria e outros de antimatéria. De tal forma que tudo somado dará zero, e, se for assim, não são precisas mais explicações sobre a intervenção divina no acto da criação.

Mas na via dolorosa por onde se vai carrear a nossa “civilização” ao calvário, abre-se o espaço para novos profetas virem proclamar vindas de messias e estabelecer novas formas de culto. Já se advinha o "regresso" de Deus para substituir a incapacidade dos políticos governarem o Mundo, e para compensar os homens do progressivo agravamento dos "deficits" de solidariedade, de afecto e de liberdade. É que estes "deficits" não são regulados por "PEC´s" ou pela criação de fundos de protecção. Muitas vezes são resolvidos com recurso à "ajuda" divina.

No espaço melífluo das catedrais (leia-se Centros Comerciais) do mundo actual, dominado pelo consumismo , as marcas ocuparam, nos altares, o lugar dos deuses. E quando se extinguir a sua natureza divina há-de vir quem, alevantando as novas tábuas, compare estes falsos ídolos aos bezerros de ouro, e os esconjure para glorificar outras divindades, criadas para ocupar o vazio deixado pelas antigas.

Na via estreita da transição - admitamos que ela vai ser transitável - haverá porventura lugar para a intolerância, para o fundamentalismo, e, possivelmente, para novas e elaboradas formas de exploração e oportunismo. Quem sabe se até para novos modelos de inquisição.

“Deus” queira que não.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O Mundo de hoje, imaginado há 100 anos


Há tempos, chamou-me a atenção um artigo escrito em 1900, e que continha um conjunto de previsões, ou antevisões, para o ano 2000. Foi publicado no “The Ladies Home Journal”, uma revista americana, e ainda hoje a sua leitura faz as delícias de quem o lê. Uma outra publicação de 1910, neste caso uma sequência de "quadros", mostrando uma antevisão do ano 2000, pertencentes a uma colecção da Biblioteca Nacional de França, ajuda-nos a conhecer a percepção que os nossos avós tinham do futuro.

Confrontando a realidade dos nossos dias com as previsões ali apresentadas, chega a ser chocante a “ingenuidade” dos autores, tanto do artigo como dos "quadros". Mas vale a pena revisitar e reflectir sobre estas conjecturas, pois elas ajudam-nos a entender a mentalidade de quem as produziu, e a compreender melhor o mundo que nos rodeia, e até a própria dinâmica da evolução das ideias ao longo dos tempos. Podemos até sentirmo-nos estimulados a fazer o exercício de tentar antever o mundo daqui a 100 anos.

É certo que, há um século atrás, a data "2000" era uma data mítica, a qual era vista, em simultâneo, como fim de século e como fim de milénio. Isso, julgo eu, ajudava a inflamar as mentes. Por outro lado, o tempo futuro parece mais extenso do que o tempo passado. A nossa mente habitua-se a olhar para uma data futura como representando uma “distancia” enorme, a qual, depois, nos parece muito mais curta do que havíamos imaginado. Quando apareceu o “1984” de Orwell ou o filme “2001, Odisseia no Espaço” de Kubrick, parecia que o tempo que faltava, haveria de permitir realizar todos os sonhos. E, afinal, essas datas, vistas pelo "retrovisor" do tempo, estavam “logo ali”.

Nestas previsões de há 100 anos, sobressai uma crença ilimitada na tecnologia. A electricidade é ali apresentada como uma coisa milagrosa. Fala-se ingenuamente de navios movidos a electricidade cruzando o oceano, como se a electricidade pudesse ser transportada a bordo de um navio. E, constatamos hoje, a incapacidade de, nesse tempo, se perceber aquilo que foram os verdadeiros grandes saltos tecnológico: a televisão, a informática, a internet, e até o avião.

O carvão era a forma energética que tinha revolucionado o mundo, e tinha conduzido ao progresso, mas já se apresentava como uma coisa do passado, algo sujo e desinteressante. E que, acreditava-se, a energia eléctrica iria tornar obsoleto. O petróleo era conhecido mas o seu potencial estava por adivinhar. E o nuclear nem sequer era imaginado.

Em 1900, o mundo ainda estava extasiado com os ecos da Exposição Universal de Paris, e vivia-se uma revolução tecnológica. Parecia não haver limites para os sonhos do homem. Júlio Verne, melhor que ninguém, encarna esta visão nos seus livros. Entre nós, ficou-nos a “Cidade e a Serras” do nosso Eça que confronta o “novo mundo”, isto é, a civilização com o campo, ou as serras. E que, ao arrepio da tendência dominante, toma partido pelo campo, e desaprova as “modernices” de Jacinto que morava nos Campos Elísios, e já tinha elevador.

Não se falava de limites do crescimento, e questões como o esgotamento dos recursos, como a poluição ou o aquecimento global, nem sequer eram afloradas. Falava-se do progresso, dum Mundo super-organizado mas não se antecipavam os custos da complexidade que isso iria provocar.

E, apesar de tudo, nas previsões do "Ladies Home Journal" impressionam alguns acertos. Fala-se do telégrafo, e do telefone universal, do envio de imagens a longa distância, e da perfeita reprodução fotográfica da cores da natureza. E até já se dizia que os homens do futuro iriam ser mais altos. Vê-se apenas o lado bom do homem, o optimismo prevalece. Mas é uma visão “ocidental”, onde não se vislumbra o acesso dos “bons indígenas” à emancipação e à igualdade.

E daqui a 100 anos, como será o Mundo?

O homem está hoje menos optimista, vive mais angustiado. E, já ninguém imagina o futuro como a “reconstrução” do Éden. Já não temos Júlio Verne, mas temos os livros e os filmes que nos falam do colapso (2012) e nos mostram as ruínas das grandes cidades depois de cataclismos, das pestes, do extermínio nuclear, de novas idades de gelo.

O mundo de hoje é um mundo pessimista em relação ao futuro, e, infelizmente, parecem sobrar as razões para que o seja.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A população e os recursos naturais

No último século, a população mundial quadruplicou, passando de 1,7 mil milhões, no início do século XX, para os actuais 6,7 mil milhões de pessoas. Por outras palavras, pode afirmar-se que, nos últimos 100 anos, a população mundial aumentou exponencialmente com uma taxa de crescimento de 1,8 %, e que duplicou nos últimos 40 anos.

Contudo, se observarmos o crescimento da população em diferentes áreas do planeta, verifica-se que o mesmo não foi uniforme. Em muitas dessas áreas o crescimento foi muito forte e noutras foi muito fraco, nulo, ou até mesmo negativo. No primeiro caso, estão países da África subsariana, da América Latina e da Ásia, e no segundo, estão alguns dos países mais desenvolvidas da Europa e da América do Norte.

E as previsões da Organização das Nações Unidas apontam para que a população mundial seja, em 2050, de cerca 9 mil milhões. São previsões preocupantes tendo em conta que mais população significa necessidade de mais alimento, de mais energia, e de mais recursos. Num planeta finito e com recursos limitados, coloca-se uma vez mais a eterna pergunta: até onde poderá crescer a população mundial, e quais são os limites a esse crescimento?

Desde Thomas Malthus que se discute a relação entre o crescimento populacional e a disponibilidade dos recursos necessários para o manter. É certo que a previsão de Malthus (que dizia que a população não poderia crescer em progressão geométrica, quando os recursos cresciam em progressão aritmética), não se concretizou. Depois, este foi também o tema central no relatório "Os Limites do Crescimento" do Clube de Roma, em 1972. E hoje, quando o mundo enfrenta a primeira grande crise da era da globalização, o assunto volta a estar de novo na ordem do dia.

E no entanto, se pensarmos um pouco poderemos concluir que tanto Malthus como a equipa de Denis Meadows (dos Limites do Crescimento) poderiam estar certos nas suas previsões. E, acredito eu, o tempo vai acabar por lhes dar razão. Com efeito, na época de Malthus não se conheciam as grandes reservas energéticas (combustíveis fósseis), e as previsões do estudo do Clube de Roma, ainda hoje não podem (por não ter decorrido o tempo suficiente) ser desmentidas.

O que provocou o grande aumento populacional dos últimos 100 anos, foi o grande crescimento económico, a revolução verde, e o desenvolvimento tecnológico. Mas a perfeita correlação entre aumento populacional e consumo energético deixa claro que foi a disponibilidade de uma energia abundante e barata (sobretudo o petróleo), a verdadeira causa deste extraordinário crescimento.

E se um dia faltarem os recursos para sustentar o crescimento populacional o que acontecerá? Como é que poderá ser contido esse crescimento? Naturalmente, baixando a natalidade, ou aumentando a taxa de mortalidade ou as duas coisas ao mesmo tempo. Mas seja qual for a opção, as consequências são imprevisíveis. Porém, uma coisa parece certa: se os limites forem ultrapassados, e nós não formos capazes de fazer a regulação, o planeta vai encarregar-se de a fazer.

Em Portugal, a população mantém-se mais ou menos estável desde 1960 (cerca de 10,5 milhões) . Mas a estrutura da nossa pirâmide etária modificou-se muito devido a vários movimentos: emigração nos anos 60, guerra colonial, retorno dos portugueses de África nos anos 70, fluxos imigratórios a partir dos anos 90. Ao mesmo tempo a taxa de natalidade baixou assustadoramente, e, como consequência, a população portuguesa envelheceu muito, e vai continuar a envelhecer nos próximos anos, como se pode ver nos seguinte gráfico:

Neste grafico está, a preto, a percentagem da população com mais de 65 anos, e, a cinza, a taxa de envelhecimento que é a proporção entre velhos (65+) e jovens (0-15). Fonte INE, e previsões minhas, para o período após 2010.

Como é que Portugal vai lidar com as consequências deste envelhecimento populacional ? Quais os custos para o Estado social, como iremos conter as pressões migratórias dos países pobres e sobrepovoados , sobretudo dos países do norte de África, da Ásia e da América Latina?

Não podemos meter a cabeça na areia e ignorar esta realidade. É hoje evidente que os recursos (energéticos, hídricos e minerais) não poderão acompanhar as previsões do crescimento populacional. O progresso tecnológico, também ele, tem limites. Teremos de passar a consumir menos, e de reaprender a andar a pé, e a cultivar a terra.


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