segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Marcas e produtos

O Marketing é um florescente sector da economia das sociedades mais desenvolvidas, que integra  actividades tão diversificadas  como os estudos de mercado, a publicidade, a distribuição, o merchandising, as vendas  e as relações públicas. Actividades que empregam muita gente, e onde se pagam  salários bem acima da média. Todos os anos se investem muitos milhões de euros em desenvolvimento, em estudos de mercado em promoções e em publicidade para criar produtos e marcas, e para atrair e fidelizar os consumidores desses produtos e dessas marcas.

Mas o Marketing será uma dos sectores que, com o acentuar da crise económica, quando a racionalização do uso dos recursos derivada da sua escassez impuserem restrições aos consumos, poderá sofrer um grande impacto negativo. E não estará longe o dia no qual, como diz David Strahan, "o consumidor volte a ceder o lugar ao cidadão, com os direitos e os deveres que lhe são inerentes".

Muitos dos  produtos que se fabricam, que se vendem e se consomem, são produtos supérfluos, aquilo que poderíamos designar de “produtos avatares” por serem uma espécie de criações virtuais desfasadas da realidade. Muitos desses produtos satisfazem necessidades - pensem no relógio de ouro que se usa mais pelo prestigio que confere  ao seu utilizador do que para assinalar as horas - que nada têm a ver com a sua função primária. Na verdade, trata-se, em muitos casos, de “marcas sem produto”, por oposição às “commodities”, que são produtos sem marca.

Para melhor esclarecer este conceito de “produto avatar”, dou um exemplo: a Coca Cola é uma bebida gasosa refrescante, que tem as propriedades e as funções de outras bebidas similares como a limonada, a “gasosa” ou o velho “pirolito”. Só que na realidade as coisas não são bem assim. A marca “Coca Cola” acrescenta à bebida outros ingredientes para além da água, do xarope, do açúcar e do anidrido carbónico; acrescenta-lhe uma dose de “festa”, um pouco de “alegre disposição”, uma pitada de “ambiente jovem”, completados com um “jingle musicado” e umas gotas de cheiro a “american way of life”. Tudo isto, bem misturado e nas doses certas, constitui uma mistura explosiva e irresistível, sobretudo para os mais jovens.

Ora, se retirarmos à Coca Cola a água, o açúcar, o xarope e o anidrido carbónico, o que fica dentro da embalagem é uma “Coca Cola avatar”. É isso mesmo, o leitor já percebeu que aquilo que fica na garrafa é uma marca sem produto. E, na verdade, o consumidor paga mais por isso do que pelo líquido que bebe.

É esse “consumidor” que os técnicos de marketing, de publicidade e de estudos de mercado analisam à lupa, armados das ferramentas adequadas para o efeito, tais como estudos aprofundados, focus grupos, técnicas projectivas, técnicas de observação etnográficas, semióticas, etc... E até mesmo técnicas de neuromarketing, porque, constatou-se, o “consumidor avatar”, na escolha dos seus consumos, utiliza complexos processos mentais.

Paradoxalmente, dizem-nos que para estimular a economia é preciso consumir mais, quando o mais elementar bom senso aconselharia precisamente o contrário, que é preciso consumir menos e produzir mais. No futuro, a via da  transição vai seguramente alterar a relação das pessoas com os produtos e com as marcas. O desperdício, as embalagens sem utilidade, o "valor" abstracto da marca, as necessidades artificialmente criadas, serão postos em causa num contexto económico e social de um tipo diferente.

O incentivo ao consumo como finalidade última da economia é a miragem de salvação de um sistema que não tem futuro...

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Portugal e o Futuro ou o Futuro de Portugal

“Portugal e o futuro” é o título de um livro que o General António de Spínola escreveu e publicou pouco tempo antes do 25 de Abril, o qual, acreditam alguns, muito terá contribuído para motivar os capitães de Abril a avançar para Revolução dos Cravos. Eu li o livro, já não tenho muito presentes as teses que defendia, mas acredito que, nos dias de hoje, o "futuro" de que falava Spínola já é "passado" e que temos de reequacionar o problema, e falar de “outro” futuro. Do nosso futuro, mas, sobretudo, do futuro dos nossos filhos e dos nossos netos.

“Portugal são os portugueses do passado, os portugueses de hoje e os portugueses que hão-de vir” , disse há tempos, na TV, Ernâni Lopes. Ora os nossos governantes, os políticos, as elites falam muito dos portugueses de hoje, e a história fala-nos abundantemente dos do antigamente, mas poucos são os que se preocupam com os que hão-de vir. E, na minha modesta opinião, deveriam preocupar-se mais, porque as nuvens adensam-se no horizonte, e o melhor é ir pensando em preparar o barco para a procela que, com toda a certeza, nos vai surgir pela frente.

Olhando para o Portugal de hoje vemos um país europeu que a globalização uniformizou, no que respeita aos padrões de vida e de consumo, pelo modelo do “ocidente”, e que em tudo se assemelha à forma como se vive em qualquer um dos países, ditos desenvolvidos. Claro que o futuro de Portugal, país da união europeia, vai estar ligado ao futuro da Europa; na verdade ele estará ligado ao futuro do Mundo, um mundo que por ser global está condenado a ter um destino comum.

Portugal consome muito mais do que aquilo que produz, e isolado ou entregue a si próprio, Portugal é, nos dias de hoje, um país inviável. Criaram-se dependências, hábitos de consumo, vícios de ricos, que lhe retiram qualquer possibilidade de vida autónoma. O estado social adormeceu-nos, aboliu o velho conceito da “luta pela vida”, relaxou o empenho em superar e alcançar, debilitou o engenho, criou o desalento. Tanto a nossa dependência alimentar como a nossa dependência energética (as  fontes primárias da riqueza real) são ambas da ordem dos 75%. Nestas condições, este país só pode sobreviver com a ajuda externa, e um país que vive de esmolas não pode aspirar a ser independente, nem a ter voz nos aerópagos das nações.

Abandonou-se a agricultura, abateram-se os barcos de pesca, desincentivou-se a indústria. O turismo e a construção civil, as apostas das décadas douradas que se seguiram à integração europeia, e que foram a causa do nosso modesto crescimento, já estão ou vão entrar numa crise profunda, cujo fim não está a vista. São sectores fortemente geradores de emprego, e o seu estado depressivo vai agravar ainda mais a penosa situação económica e social em que vivemos.

O problema demográfico é outro dos nossos graves problemas. A perigosa inversão da pirâmide etária provocada por uma elevada taxa de envelhecimento da população, e consequente diminuição da população activa, irá agravar o problema da dependência externa. A reduzida taxa de natalidade das populações naturais, aliada a uma maior taxa de natalidade dos imigrantes, sobretudo dos africanos, irá gradualmente alterar a base genética da população residente. Dentro de 3 ou quatro gerações Portugal, na sua composição étnica, será muito semelhante ao Brasil de hoje. E, a manterem-se a actuais taxas de fertilidade, antes do final do século, a população com ascendência africana poderá superar a população com ascendência europeia.

Ora um país que não se basta a si próprio e que não cuide do seu futuro, perde a sua identidade, os cidadãos perdem o orgulho da pertença colectiva, deixa de ter valor o sentido de pátria. Os símbolos da nacionalidade – o hino, a bandeira - perdem gradualmente o seu significado, e o velho ideal do “sacrifício pela pátria”, adquire, nos nossos dias, um sentido quase de anedota.

Mas este é ainda o meu país, apetece-me citar o grande Poeta: "esta é a ditosa pátria minha amada”. Os portugueses que hão-de vir merecem  que lhe deixemos uma pátria como herança. Urge, pois, cuidar o futuro, e defender e preservar os valores eternos de Portugal.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O fim de um certo mundo rural

Nos passados dias 7 e 8 deste cálido mês de Agosto, teve lugar em S. Pedro do Rio Seco o primeiro Congresso da Associação Rio Vivo. E, para os que não conhecem esta aldeia e esta Associação, convém dar alguns esclarecimentos.

S Pedro, à semelhança de muitas outras, é uma pequena aldeia do concelho de Almeida, situada na região de Ribacôa, que é um território que se situa entre o Rio Côa e a fronteira espanhola. Linha da fronteira que, desde o Douro até S. Pedro, é definida pelo rio Águeda e pela ribeira de Tourões, e a partir de S. Pedro, para sul, numa larga extensão que inclui os concelhos de Sabugal e Penamacor, pela chamada raia seca.

Esta região de Ribacôa é uma planalto, continuação natural da Meseta Ibérica que lhe fica a leste. É limitada do lado ocidental pelos penhascos do vale do Côa e a sul pela serra de Malcata, no maciço da cordilheira central ibérica. A norte, destaca-se a silhueta da Marofa, já nos contrafortes do vale do Douro.

São fracos os recursos destas terras: o solo é pobre, a água não é abundante, e o clima, muito frio no inverno e muito quente no verão, é extremamente agreste. Como nota dominante da paisagem, abundam os afloramentos graníticos (os barrocos como aqui lhe chamam), as giestas, as moitas de carvalhos e as carrasqueiras. E, sempre presente, o pinheiro bravo.

Nos primórdios da nacionalidade, esta região fronteiriça, disputada entre Castela e Portugal, era uma zona de castelos defensivos: Castelo Bom, Almeida, Castelo Rodrigo, Vilar Maior e Alfaiates; terá sido mais intensamente povoada a partir de 1296, ano em que foi definitivamente integrada no território português, após o tratado de Alcanizes.

Tradicionalmente, as gentes desta região dedicavam-se sobretudo à agricultura e à pastorícia: colhia-se batata, trigo, centeio e algum vinho. Produzia-se queijo de ovelha, cada família criava o seu porco e as suas galinhas, e a aldeia era auto-suficiente em frutos e hortícolas. Havia uma dinâmica actividade complementar de serviços: o merceeiro, o taberneiro, o sapateiro, o alfaiate, o pedreiro, o ferreiro, o carpinteiro, o barbeiro...

A casa agrícola típica de S. Pedro desenvolvia-se à volta do curral com a residência e o seu cabanal, as cortes, os cortelhos, os palheiros, a adega e a “tenade” onde se guardava a lenha. O lavrador desenvolvia a sua actividade apoiado na junta de vacas, de machos ou de burros, conforme a dimensão da sua lavoura. O carro de bois, que era diferente do minhoto, estacionava no curral. Os terrenos da exploração agrícola (as sortes, as tapadas, os hortos, as vinhas, os lameiros) eram de pequena dimensão, e estavam dispersos pela folha, muitas vezes afastados uns dos outros .

Não havia conforto nas habitações: entrava-se no meio-da-casa e de um lado estava a cozinha (em certos casos de telha vã e sem chupão de fumo) com o basal e a cantareira, e com uma pequena dispensa onde estava a tulha e a salgadeira; do outro lado do meio-da- casa, uma pequena sala com dois quartos (as alcovas) onde apenas cabia a cama. Não havia casa de banho, apenas um lavatório na sala com o seu jarro e um espelho na parede. Nalguns casos, sobre a sala e as alcovas, havia o sobrado onde se guardavam as colheitas para o uso da casa.

Desde há meio século tudo isto mudou, e um modo de vida que se aperfeiçoou durante seis séculos desapareceu completamente. A casa agrícola deu lugar a uma casa moderna com o conforto das casas das cidades, muitas vezes servindo apenas como segunda habitação. O automóvel tomou conta das ruas, os animais de trabalho desapareceram, o asfalto substituiu a terra batida, apareceu a electricidade e o saneamento, A autarquia, entretanto, construiu um moderno pavilhão multiusos, rasgou estradas, embelezou largos com jardins.

Como resultado da fuga para as cidades, a população permanente que era de cerca de 700 pessoas reduziu-se a pouco mais de 150 habitantes, a maior parte com mais de 65 anos. A escola fechou por falta de alunos. Resta um pequena actividade agrícola, quase um passatempo dos reformados, centrada nas hortas de proximidade. Cuidar dos velhos no Centro Social é, agora, a principal actividade dos poucos que trabalham na aldeia. A folha está praticamente abandonada, sendo a excepção a existência pequenas manchas dispersas de exploração florestal (de cupressus ou azinheiras), e algumas explorações pecuárias (de vacas e ovelhas), tudo a viver com apoios comunitários.

No mês de Agosto a aldeia ganha a vitalidade de uma estância turística. Emigrantes enchem a terra, cria-se uma ilusão de vida. E alguns vêm nisto um sinal de progresso, e acreditam que se está a prosseguir o caminho certo.

Mas esta aldeia está ferida de morte e não tem futuro: os residentes desaparecem, e outros não vêem para os substituir; os filhos dos emigrantes não virão ocupar as casas que os pais construíram. Os dinheiros do estado social vão escassear, os fundos comunitários também. É este o paradoxo do nosso tempo: as cidades não são a solução para o futuro, e as pequenas comunidades rurais perderam a sua sustentabilidade.

Nascida da vontade de uns quantos, a Associação Rio Vivo foi criada para perceber como foi possível chegar a este ponto e para intervir, da forma possível, para inverter esta tendência depressiva. No fundo, para ajudar a cuidar dos velhos e estudar a forma de reanimar a aldeia. Para impedir que ela morra...

Chegaremos a tempo de a salvar?

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O Tempo e a Memória

Nesta nossa era digital, a facilidade que temos em registar e difundir documentos e imagens está a permitir à Humanidade criar um arquivo fabuloso. Nunca, em tempo algum da História, a capacidade de criar memória para as futuras gerações foi tão ampla como é na actualidade.

A cada dia que passa, esta capacidade amplia-se e cresce em espiral. Cada registo criado pode replicar-se facilmente, de tal modo que poderá destruir-se nuns locais e preservar-se em muitos outros. O espaço de arquivo necessário, tão reduzido que é, também não se afigura limitativo ao seu crescimento. E o suporte digital onde se gravam os registos não se degrada facilmente, ao contrário do que se passava com os registos analógicos antigos (escrita, fotografia, filmes, monumentos...).

Projectando para o futuro o que se passa hoje, somos levados a pensar que, nos próximos tempos, esta memória poderá multiplicar-se quase até ao infinito. Dentro de 5 ou 10 gerações, cada ser humano poderá aceder aos registos digitais de texto, imagens e sons sobre factos e acontecimentos das gerações precedentes. E poderá construir, por exemplo, uma árvore genealógica com milhares dos seus antepassados.

Porém, como irá a Humanidade conviver com esta memória colectiva, de tamanha abrangência, já hoje tão ampla e ainda maior no futuro? Não será esta memória um pesado lastro a carregar, que acabará por enredar a própria mente humana, impedindo-a de evoluir e de criar? Até porque esta memória, por ser objectiva e indestrutível, não terá a benevolência da memória humana, a qual se esbate com o tempo, e esvai-se mesmo quando “não convém" recordar. Ao invés, esta será viva, actuante e implacável.

Numa perspectiva religiosa e evolucional, bem pode ser que este seja apenas um degrau a caminho do ponto ómega, desse "Fenómeno Humano" de que falava o padre Teilhard de Chardin. O que contará não será tanto o Homem enquanto Indivíduo, mas a Humanidade, essa entidade nova não apenas com Memória mas também com Alma e com Inteligência.

Vejo nisto sobretudo um sinal de uma complexidade crescente. E acredito que, num determinado momento, os custos de manter essa memória virão a ser maiores do que as vantagens que nos traz. Imagino que, por essa razão, não poderá ser mantida. E que chegará o momento do “colapso” digital, com consequências imprevisíveis.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A terceira via

O debate político, promovido pelo Partido Socialista, está a focalizar-se na discussão à volta de duas vias alternativas para enfrentar a crise: "neoliberalismo" versus “defesa do modelo social”. Defendem os dirigentes do PS a via da "manutenção e desenvolvimento do modelo social", e apontam os pecados do neoliberalismo, que condenam e rejeitam. E aproveitam para “colar” a etiqueta de “neoliberalista” ao principal partido adversário: o PSD.

A matéria tem sido aflorada de forma recorrente nas iniciativas partidárias do PS a que temos assistido neste Verão, e o discurso, repetido com poucas variações, obedece a uma linha predefinida e coerente. Até Mário Soares, no seu artigo semanal de opinião no DN de 13 Julho, não hesitou em reduzir a questão da saída da crise àquela dicotomia, e escreveu a propósito: “A necessidade prioritária (é a ) de manter e desenvolver o modelo social europeu… e só depois - mas em segundo lugar - reduzir os deficits externos e o endividamento, público e privado, como sugere o Banco Central Europeu, influenciado pelo economicismo neoliberal”.

Ao eleger esta dualidade de opções para eixo central da sua estratégia, e ao trazê-la para o terreiro do debate, os referidos políticos parecem querer convencer-nos que estas são as únicas alternativas, as duas únicas opções que temos pela frente, e que vamos ter de optar por uma delas. Mas, na minha opinião, estão enganados. Estas vias não são alternativas, são as duas faces de uma mesma moeda. Trata-se de uma forma de iludir a verdadeira questão, que consiste em aprofundar a compreensão da crise e identificar as suas causas.

O chamado “modelo social europeu” é, numa leitura economicista, o resultado da política neoliberal - dos últimos 65 anos, correspondentes ao período do pós-guerra -, cujo sucesso assentou no abandono do proteccionismo, na globalização e na livre concorrência, e que permitiu, em resultado de um crescimento contínuo do PIB europeu, criar os excedentes que alimentaram e ainda alimentam o tal modelo social. A própria Europa, a que nós pertencemos, construiu-se sobre este modelo, e a sua força assenta sobre o seu sucesso.

Vir agora, com fazem os dirigentes do PS, defender o modelo social europeu e, ao mesmo tempo, negar os fundamentos económicos que o sustentam, é a mesma coisa de que querer preservar o telhado de uma casa, e deitar abaixo as paredes que o suportam. Ora é mais do que certo que quando as paredes ruírem, o telhado virá atrás delas. Mais defensável, mesmo que pouco recomendável, seria manter as paredes de pé, e deitar o telhado abaixo.

Mas poderemos atribuir o sucesso económico das últimas décadas apenas ao "modelo" de organização do sistema produtivo, quer ele se chame de capitalismo, liberalismo, ou simplesmente “economia de mercado” ?
Poderemos, por exemplo, ignorar o input tecnológico, o input energético, e o problema dos recursos (incluindo os humanos!), que são externalidades do modelo? A resposta é não. E a via a seguir consistirá em adequar o modelo aos recursos disponíveis, e para isso temos de procurar a solução fora dele. A esta, chamo eu a terceira via.

A situação actual da economia lembra um potente automóvel que de repente deixou de andar. E o condutor faz tentativas desesperadas para o pôr a trabalhar. Discute-se à volta, e um diz que será necessário olear as engrenagens, enquanto outro reclama que o mais importante é manter o ar condicionado a funcionar. Até que alguém descobre que o problema é a simples falta de gasolina, e que não há nenhuma gasolineira ali por perto.
Neste caso, a terceira via é ir a pé.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Como "não" será o mundo daqui a cem anos

Há umas semanas atrás, eu escrevi aqui sobre a forma como os nossos avós e bisavós imaginavam o mundo de hoje. E ficou claro que havia naquele imaginário uma crença profunda num mundo melhor, mais organizado, mais fácil, menos poluído, mais livre de doenças e de pragas. Os homens e mulheres do futuro seriam, na opinião dos nossos avoengos, mais felizes, e o mundo iria transformar-se numa espécie de paraíso terrestre.

As previsões de há cem anos inspiravam-se na crença de que a evolução tecnológica e o progresso do conhecimento não teriam limites, e que ao desvendar os segredos das Ciências e ao dissecar as células microscópicas, o Homem iria explicar as origens da Vida, e penetrar nas profundezas da Alma. E adquirir a sapiência e o poder, que antes só eram atributos dos deuses.

Mas o mundo dos últimos 100 anos não teve aquela "suave" evolução que se esperava. Foi antes uma espiral de acontecimentos contraditórios, em que os sucessos eram, muitas vezes, submergidos pelos insucessos. Descobrimos a penicilina, é verdade, mas tivemos o holocausto, eliminámos a varíola, mas viu-se massacrar gente, em África e noutras partes do mundo. Produzimos e consumimos mais e andamos mais depressa, mas estamos, por causa disso, a esgotar os recursos e a destruír o ambiente. Libertámos a energia do átomo , e com ela já matámos pessoas; descobrimos o ADN, e já "manipulámos" genes de animais e plantas.

E quando parecia que estávamos a atingir o paraíso, vimos o planeta reagir furioso parecendo contrariar o nosso desejo. Surgiram, quando menos se esperava, os tornados, os furacões, as enchentes, e enfrentámos o aquecimento global. E o planeta até já se nega a que lhe retirem das suas entranhas o “sangue” negro que alimentou a nossa expansão, o “excremento do diabo” como alguns já lhe chamaram.

Por isso eu não me atrevo a fazer previsões para os próximos 100 anos. Já me contentaria que alguém mas mostrasse para os próximos 10 anos. Porque, acredito, muita coisa se irá decidir neste curto prazo. Mas só pensar naquilo que "não" poderá acontecer no século que temos pela frente, já se torna preocupante. E isso eu posso prever:

  • A população “não” poderá voltar a multiplicar por quatro, como aconteceu nos últimos 100 anos.
  • O aumento progressivo da concentração de CO2 na atmosfera “não” pode continuar.
  • "Não" se podem continuar a destruir espécies como temos feito até agora.
  • O consumo de energia fóssil, barata e abundante, “não” continuará a crescer.
  • "Não" se poderá continuar a desperdiçar recursos escassos, a começar pela água.
  • Os economistas “não” vão ser capazes de resolver os problemas económicos do mundo.

Não queiras prever o futuro das coisas
Elas são imprevisíveis!
A fronteira entre a ordem e o caos
É o bater das asas de uma borboleta...
A amena fogueira dá lugar ao incêndio devastador
A brisa suave dá lugar ao tornado assustador
A chuva serena dá lugar à enchente destruidora
E ao doce crepúsculo, segue o dia claro ou a noite de trevas...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Economia e ambiente

Estive, há dias, no Museu da Electricidade, onde assisti à conferência, promovida pelo “Sol”, sobre “Economia, Ambiente e Sustentabilidade”. O que me levou lá foi o meu interesse em ouvir o professor Ernâni Lopes. E valeu a pena, pois assisti a uma lição magistral. E não foi com a sua dissertação sobre economia que o professor mais me impressionou. Acima de tudo foi a atitude de uma pessoa sábia e humilde que questionou o “direito” do homem destruir o ambiente, pois que o “poder” adquiriu-o ele já há bastante tempo: primeiro, com o “clarão” de Hiroshima, em 1945, e, depois, com a descoberta do ADN, em 1960. No primeiro momento tornou-se evidente o poder da destruição cega e massiva, e no segundo a capacidade de manipular geneticamente o genoma dos seres vivos.

Falou o professor do capitalismo, que diz ter “nascido” em 1776, no ano da publicação da "Riqueza das Nações" de Adam Smith, e que foi também o ano da independência da América. Capitalismo cujo desenvolvimento foi alimentado pela primeira revolução industrial, e que foi causa e efeito de inúmeras conquistas tecnológicas (daí poder chamar-se-lhe uma revolução!). Mas, acrescenta ele, conseguidas à custa da contínua e progressiva destruição do ambiente. Assistimos agora a um ponto de viragem, pois já nos demos conta que o ambiente não pode mais ser mais destruído, antes pelo contrário, precisamos de o reconstruir, e de recuperar os estragos. E essa reconstrução, para o conferencista, abre uma nova e grande oportunidade ao capitalismo. Porque ele acha que o capitalismo sempre foi capaz de dar “a volta por cima” às dificuldades, e até foi capaz de transformar derrotas em vitórias, e falhanços em novas oportunidades.

Eu tendo a discordar desta conclusão, e disse-lho no curto debate que seguiu. Como poderá o capitalismo passar de destruidor a protector? Poderá o lobo, devorador de cordeiros, transformar-se, como que por encanto, no seu criador e protector? A destruição do ambiente pelo capitalismo, é, na minha opinião, a afirmação do seu “instinto” predador, a forma de garantir a sua sobrevivência. Afinal consumir é, na nossa economia capitalista e liberal, sinónimo de destruir.

Ernâni Lopes acredita que a tecnologia (para ele o grande trunfo do capital) pode mudar o mundo, e pode até resolver o problema energético. Chegou mesmo a afirmar que a “economia” encontrará, quando for necessário, um substituto para o petróleo. E, quando se falou de “colapso”, ele acusou o toque, e confessou que conhecia os casos enunciados por Jared Diamond no seu famoso livro, com aquele nome, e recentemente traduzido para português. Mas que discordava do autor sobre as razões dos vários exemplos de “colapso” apresentados no livro (incluindo o famoso exemplo da Ilha da Páscoa), e que, achava ele, a verdadeira causa tinha sido a incapacidade dos intervenientes para encontrar soluções tecnológicas para os resolver. Aqui o que me separa do conferencista são os princípios da termodinâmica: a tecnologia não cria energia, aliás, a energia não se cria (1º principio). Só se transforma, e mesmo a transformação nunca é gratuita (2º principio).

Mas este pormenores não retiram nada ao essencial da conferência nem reduzem o seu interesse. Ernâni Lopes explanou conceitos que nos fazem pensar, tais como a diferença entre política, doutrina e ideologia; disse-nos que na escala do nosso relacionamento com o mundo (o weltanshaung), a sabedoria, sobrepõe-se ao conhecimento, o qual por sua vez se sobrepõe à informação, e aos dados. Nas sua dissertação revelou-se um sábio, descomprometido e humano, e demonstrou possuir uma grande inteligência. E assumiu, com humildade, uma atitude quase religiosa perante o mundo e perante a vida.