segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Pensar Global, Agir Local

Eu vivi um ano intenso da minha adolescência no Porto. Foi no meu primeiro ano da Universidade, na Faculdade de Ciências, e fiquei, por esse motivo, ligado afectivamente a esta cidade: gosto do Porto, gosto da gente do Norte e da sua pronúncia, dos cafés e das confeitarias cornucopianas. Gosto das suas lojas, e da simpatia do atendimento do seu pessoal. E até gosto da arquitectura pesada e granítica de alguns dos seus edifícios. Por isso, volto ao Porto sempre com agrado, como aconteceu, na semana passada, quando fui participar na conferência Glocal 2010. E aproveitei para vadiar, descontraidamente, pelas suas velhas ruas.

Eu lembro-me das ruas da baixa portuense, de outros tempos, com os seus armazéns fartos e o seu comércio florescente. Desta vez, encontrei ruas tristonhas e deprimidas, muitas lojas fechadas com cartazes de "vende-se" e "trespassa-se", muitos prédios abandonados e decadentes. Algumas lojas tradicionais ainda resistem, como é o caso dum alfarrabista da Rua das Flores, com edições de velhos jornais de há cem anos na montra, a assinalar a implantação da República. Mas pressente-se que, a manter-se o modelo actual de desenvolvimento inspirado na globalização, não existe futuro para este comércio. Porque tal modelo, privilegia o Centro Comercial, em detrimento do velho comércio de proximidade.

A era do automóvel veio modificar o modo como se vivia nas cidades: despovoou o centro tradicional, empurrou o comércio para a periferia, e as pessoas para os subúrbios. Conviver com esta perniciosa realidade, numa sociedade com menos energia e menos mobilidade, vai ser um dos dramas das sociedades da era pós-carbono, e mitigar os seus efeitos será uma das tarefas da Transição.

Mas eu, hoje, quero falar da conferência Glocal 2010, que aconteceu nas instalações da Lipor, em Ermesinde, e contar um pouco do que lá vi. Sobretudo realçar as experiências que, a nível autárquico, ou por simples iniciativas de cidadãos, ali foram apresentadas. São exemplos que começam a proliferar, motivados pela preocupação de modificar o nosso insustentável modo de viver. Talvez por isso, a frase que mais se ouviu na conferência foi "desenvolvimento sustentável".

A experiência de Barcelona, apresentada por Francisco Cárdenas, mostrou-nos a utilização de soluções tecnológicas para promover um urbanismo mais humano, no qual o espaço público é devolvido aos cidadãos. Advogou o palestrante uma cidade com menos automóveis, e com corredores verdes para permitir a passagem das aves migratórias. Ocorre-me que esta aposta de Barcelona, a ser concretizada, será conseguida à custa de um acréscimo de complexidade na sua gestão, e isso vai ter um preço muito elevado. Resta saber (lembro-me das teorias de Tainter) se as vantagens que estas soluções aportam compensam os custos (energéticos, mas não só!) acrescidos de as pôr em prática.

A experiência que está a ser levada a cabo pelo Munícipio Cascais, apresentada, de forma estusiástica, por Joana Silva, ilustra bem quanto algumas autarquias já estão sensíveis a estes problemas. Foi apresentado o projecto "in loco 21" que está a ser implementado com sucesso. Falou-se de palestras, destinadas aos colaboradores da autarquia, inspiradoras de reflexão sobre a sustentabilidade.

Começam a surgir por toda a parte pessoas desinteressadas, cidadãos comuns atentos aos sinais das mudanças, que se interessam pelo tema. Eu próprio apresentei o projecto Rio Vivo, em S. Pedro do Rio Seco, apoiado pela Fundação Vox Populi. E inspiradas pelo modelo de Totnes, já existem em Portugal as primeiras iniciativas de transição, como é o caso de Paredes que muito me impressionou pelos entusiasmo com que foi apresentado. Tivemos ainda o privilégio de ouvir Jacqi Hodgson falar-nos de Totnes, cidade inglesa percursora destes movimentos.

Com a persistência da crise e com a incapacidade demonstrada por economistas, políticos e governantes para a debelar, pouco a pouco, as pessoas começam a dar-se conta de que o mundo está a mudar de uma forma irreversível, e que esta não é uma crise como as outras. Começam a perceber e a acreditar que esta á a “crise mesmo”, e começam a olhar de forma diferente para o futuro. E muitos, sem esperar que algo de pior aconteça, começam a querer moldá-lo com as suas próprias mãos. Está a ser assim em Paredes, em Pombal, e poderá ser assim no bairro de Telheiras, em Lisboa, onde jovens entusiastas se dispõem a percorrer o caminho difícil mas promissor da Transição.

Pensar global, agir local?. Houve quem propusesse a inversão dos termos desta asserção, e sugerisse: “Pensar local, agir global”. Vivemos num mundo global acelerando vertiginosamente para a sua última fronteira, e o colapso (se ocorrer, ou quando ocorrer!) será global. Mas a reconstrução só pode ser local. É esta certeza que move os adeptos da Transição!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O relatório do Extra Terrestre

Este relatório chegou-me, por acaso, às mãos por uma fuga de informação. Estava classificado de “altamente secreto”, e vinha assinado E.T.

"...
Cumprindo as ordens do Conselho Superior da Secção KXW34 da Galáxia, dirigi-me ao terceiro planeta do sistema estelar NX”34 com o fim de vos informar sobre ele, nomeadamente sobre a espécie que ali domina. Utilizei a técnica da materialização metamorfósica para me transmutar num elemento da referida espécie, e durante um longo período vivi desapercebido entre eles. Pude, assim, observar o seu modo de vida, aprender a sua forma de comunicar, e aceder aos seus registos. Tudo com vista a preparar o relatório que agora, já regressado ao nosso Mundo, vos apresento.

Tal como nós prevíamos, o planeta objecto desta análise, pela conjugação da abundância de água, de uma atmosfera adequada, e de uma temperatura amena, reúne perfeitas condições para a existência de vida reprodutiva no sistema carbono-oxigénio. Existe uma grande abundância e diversidade de espécies animais e vegetais, e, considerando a complexidade orgânica de algumas dessas espécies, concluo que as condições favoráveis ao aparecimento das primeiras formas de vida já terão ali ocorrido há muito tempo.

De entre as espécies de seres vivos, existe uma que ganhou um vincado ascendente sobre todas as outras. Chama-se ali espécie humana. Trata-se de um primata, que caminha erecto apoiado sobre os dois membros inferiores. E que tem uma grande destreza dos membros superiores que são dotados, nas extremidades, de cinco ramificações. Esta espécie proliferou de tal forma que as marcas da sua presença são visíveis por toda a parte. E, de entre todas as espécies deste planeta, esta é a única que manifesta comportamento revelador de inteligência.

A sua longa evolução permitiu-lhe articular sons diferenciados, associados a imagens, objectos, ideias e até emoções, facto que lhes que lhes permite comunicar entre eles; criaram também um código gráfico, que lhes permite grafar os sons e registar factos e ocorrências. Isto permitiu-me consultar esses registos, e ficar a conhecer como se processou a evolução desta espécie. Fiquei a saber, por exemplo, que desde há muito os humanos aprenderam a dominar o fogo e a construir ferramentas de todo o tipo.

A sua organização é de uma grande complexidade: dominam perfeitamente a metalurgia, fabricam ferramentas muito diversificadas e sofisticadas. Algumas são capazes de realizar operações inteligentes, outras são para se transportarem, outras para usarem como armas. E fazem isto de uma forma muito organizada, em grandes unidades de fabrico, pelo método da especialização e divisão do trabalho. Conhecem e aplicam técnicas de prolongamento da vida, e são capazes de fazer transplantes de órgãos entre individuos diferentes.

Estão organizados em inúmeros territórios nos quais os seus ocupantes defendem os seus interesses próprios, e, muitas vezes, fazem guerras para defender esses territórios ou para atacar os dos outros. Vivem em grandes aglomerados, uma espécie de colmeias, e têm funções muito diferenciadas. Utilizam as outras espécies em proveito próprio, por vezes criando-as artificialmente e alimentando-se delas. Socialmente, existe um sistema muito vincado de hierarquias, nem sempre baseado no mérito.

A energia que alimenta a vida neste planeta é fornecida pela estrela do seu sistema planetário a que eles chamam Sol. Os humanos aprenderam a utilizar essa energia a seu favor, e até já conseguem capturar a energia dos átomos. No tempo recente, eles têm recorrido a uma forma de energia desde há muito acumulada no planeta, sob a forma de compostos de carbono. Isso permitiu um desenvolvimento e proliferação espectacular da espécie, de tal forma que os registos mostram que, nas últimas seis gerações, o seu número se multiplicou por 8.

Os elementos desta espécie podem comunicar entre si, de forma interactiva e à distância, através de ferramentas muito avançadas, e utilizando códigos. Podem deslocar-se rapidamente de uns lados para outros e de diversas formas, inclusive através do fluído atmosférico. E já visitaram o pequeno satélite que orbita à volta do planeta.

Por tudo o que vi, considero que o estádio de evolução desta espécie está entre os mais avançados da Galáxia. Espantou-me o avanço tecnológico, em alguns aspectos equiparado ao nosso. Poderão estar perto do "grande salto" em frente, da Grande Unificação, tal como aconteceu no nosso Mundo, na Era da Transição. No entanto, encontrei indícios de que existem grandes fragilidades no comportamento desta espécie que podem levar ao seu colapso organizativo, tal como já aconteceu em outros sistemas planetários mas que eles, naturalmente, desconhecem. Refiro algumas dessas fragilidades:

  • O seu principal recurso energético está a esgotar-se muito rapidamente, mas eles utilizam-no como se fosse inesgotável.
  • A extrema complexidade organizativa que criaram necessita de uma quantidade cada vez maior de energia para se manter. E eles não têm controlo sobre essa complexidade.
  • Estão a interagir com o equilíbrio do planeta, interferindo com as outras espécies, modificando ou destruindo eco-sistemas, e estão a alterar a composição da atmosfera. Isto pode tornar as condições muito adversas para o futuro dos humanos.
  • Não têm consciência do problema do crescimento populacional da sua própria espécie, e aceitam, despreocupadamente, esse facto. As classes do topo da hierarquia cultural e social já conseguem separar o acasalamento da reprodução, e, em parte por isso, estão a reproduzir-se menos, e progressivamente a envelhecer e a perder importância relativa.
..."
O relatório não acaba aqui. O alienígena ainda tece mais algumas considerações sobre cenários de evolução, e termina apresentando um “prognóstico reservado”. Mas o que deixei aqui escrito contém o essencial, e eu, vendo-me assim depositário desta informação (quem sabe se a fuga não terá sido preparada!), sinto-me obrigado a divulgá-la, para que cada um julgue por si próprio. E para que a utilize e a divulgue da forma que melhor entender.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Petróleo: onde estamos?

Enquanto se aguarda, lá para Novembro, a publicação do World Energy Outlook 2010, o relatório anual da AIE - Agência Internacional de Energia - que analisa a situação mundial da energia, o tempo é propício às reflexões sobre o tema, e que já começam a surgir nos sites especializados.

No oildrum que é o mais importante espaço da Net onde se debatem estes temas, e como que a antecipar a discussão para os números do WEO 2010, começaram já a aparecer as primeiras análises desta temporada. Em particular sobre a situação do mercado mundial do petróleo, o combustível fóssil cujas variações de preço mais condicionam a economia mundial. Trata-se de avaliar a evolução da produção, o estado das reservas, a capacidade de produção excedentária, e as perspectivas de curto e médio prazo. E, claro, a previsível evolução dos preços da maéria prima, que é o factor mais crítico para a tão desejada retoma da economia.

Em Agosto passado, de autoria de Rune Likvern foi aí publicado um interessante trabalho sobre a situação internacional de mercado, o qual foi actualizado já em Setembro. A conclusão mais importante é de que, no final de 2011, poderá estar esgotada a capacidade de reserva de produção (spare capacity) dos países da OPEC, e que, por essa razão, o mundo poderá vir a enfrentar um novo choque petrolífero. Ou, se preferirem, poderá agravar-se o choque de 2008, do qual ainda não saímos. São péssimas notícias para aqueles que buscam, a todo o custo, afastar o fantasma da recessão económica.

A produção mundial de petróleo (que incluiu todas as formas em que ele chega às refinarias, crude, condensado, derivados líquidos do gás natural, biofuel…) estacionou, desde 2005, no plafond dos 85 milhões de barris diários. E isto depois de décadas de crescimento contínuo, apenas interrompido pela crise dos anos 80, que nos levaram a criar a ilusão de que as cornucopianas previsões dos organismos internacionais eram sensatas e realizáveis.

No ano de 2008 atingiu-se o preço record de 140 dólares por barril, na bolsa de Nova York. E, estranhamente, o aumento de oferta que isso induziu foi muito pequeno e localizado na Arábia Saudita, no Kwait e nos Emiratos Árabes Unidos. Terá sido isto um sinal de que, naquele momento, se terá atingido, ou se terá ficado muito próximo da capacidade máxima de produção? A resposta, tudo indica, só pode ser afirmativa.

É certo que, por força da crise, nos países da OCDE, o consumo de crude baixou, nos últimos 2 anos. Mas ao mesmo tempo, o consumo nos países fora da OCDE teve uma forte subida. E aqui destaca-se o aumento de consumo na China que vai prosseguir inexoravelmente, impulsionado pelo forte crescimento da sua economia. E até os próprios países da OPEC, animados pelo forte aumento de receitas, crescem, e passam, eles próprios, a consumir mais petróleo.

Para sair da situação de crise, o mundo precisa urgentemente de mais energia barata e facilmente disponível. No contexto actual, caracterizado pela ausência de alternativas energéticas para os transportes, o petróleo desempenha um papel crucial, e todas as análises convergem na conclusão de estamos no "pico de produção" ou muito próximo dele. E por muita boa vontade que se queira ter, começamos a desesperar por não se ver a luz ao fundo do túnel.

Acho oportuno citar Gail Tverberg, editora do oildrum: “Estamos a aproximar-nos de um tempo em que ou se tem petróleo ou se tem alimentos para trocar por petróleo. Pior estarão aqueles países que vivem do turismo ou dos serviços financeiros que não vão ter nada para a troca”.

O nosso país, infelizmente, não tem petróleo e não produz alimentos. Mas – a acreditar nos nossos governantes - temos o estado social que (julgam eles) nos vai salvar a todos.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Transição e o Estado Social

Com o agravar da crise, a economia estagna, o desemprego sobe, e as contas do Estado ameaçam derrapar. E com o índice de envelhecimento da população a aumentar, surge a necessária e inevitável pergunta: será possível, no futuro, manter o "estado social" nos moldes em que ele funciona actualmente?

Quando falo em “estado social”, refiro-me ao papel do Estado como garante das pensões de reforma, dos subsídios de todo o tipo (desemprego, maternidade, inserção social, doença…), do serviço nacional de saúde, da educação gratuita e universal. Garantias estas que representam uma espécie de seguro a favor dos mais velhos, dos doentes e dos mais carenciados, e cujo prémio é pago nos impostos suportados por todos os cidadãos. Mas que, em última análise, dependem do bom desempenho da economia e da contribuição da população activa.

Em Portugal, tal como nos outros países europeus, vigora o sistema "pay as you go". Em cada momento, as prestações sociais são pagas pela população activa, ou pela fiscalidade incidente sobre a economia. Significa isto que os nossos descontos para a Segurança Social não vão servir para pagar as nossas pensões no futuro. Eles servem para pagar as pensões dos reformados actuais, ao passo que as nossas irão ser pagas pelas novas gerações. Se houver dinheiro, claro.

Os custos sociais têm tendência a aumentar sempre, e isto acontece como resultado do envelhecimento da população, dos valores, sempre crescentes, das pensões dos novos beneficiários, do aumento do desemprego, da antecipação das reformas. Quando a economia cresce, o aumento da receita fiscal pode ser suficiente para compensar essa subida. Caso contrário, isto é, se não houver crescimento da economia, a tendência será para se criar um deficit social.

Em Portugal, o deficit social será suportado pelo orçamento do Estado, e pode implicar, por sua vez, um agravamento do deficit orçamental. E quando isso acontecer, tal só poderá ser compensado pela ajuda do exterior ou pelo aumento do endividamento público. Enfim, trata-se de uma cadeia perigosa que poderá conduzir a um empobrecimento contínuo, e, no limite, à insolvência do próprio Estado.

O estado social é uma grande conquista da Europa do pós guerra. Mas é a consequência de uma economia de excedentes, ela própria consequência de um crescimento continuo decorrente da globalização e da abundância energética. Mas isso não irá continuar, razão pela qual, na Europa, já começam a confrontar-se duas ideias inconciliáveis: o estado social, tal como está, ou a economia viável.

Na transição, as pessoas vão ter de trabalhar mais e durante mais tempo, as pensões vão reduzir-se, tal como os subsídios. Vai ser o tempo exigente de pôr à prova o bom senso dos homens que nos governam, e a sua capacidade de fazer evoluir o actual sistema para um novo tipo da solidariedade.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Marcas e produtos

O Marketing é um florescente sector da economia das sociedades mais desenvolvidas, que integra  actividades tão diversificadas  como os estudos de mercado, a publicidade, a distribuição, o merchandising, as vendas  e as relações públicas. Actividades que empregam muita gente, e onde se pagam  salários bem acima da média. Todos os anos se investem muitos milhões de euros em desenvolvimento, em estudos de mercado em promoções e em publicidade para criar produtos e marcas, e para atrair e fidelizar os consumidores desses produtos e dessas marcas.

Mas o Marketing será uma dos sectores que, com o acentuar da crise económica, quando a racionalização do uso dos recursos derivada da sua escassez impuserem restrições aos consumos, poderá sofrer um grande impacto negativo. E não estará longe o dia no qual, como diz David Strahan, "o consumidor volte a ceder o lugar ao cidadão, com os direitos e os deveres que lhe são inerentes".

Muitos dos  produtos que se fabricam, que se vendem e se consomem, são produtos supérfluos, aquilo que poderíamos designar de “produtos avatares” por serem uma espécie de criações virtuais desfasadas da realidade. Muitos desses produtos satisfazem necessidades - pensem no relógio de ouro que se usa mais pelo prestigio que confere  ao seu utilizador do que para assinalar as horas - que nada têm a ver com a sua função primária. Na verdade, trata-se, em muitos casos, de “marcas sem produto”, por oposição às “commodities”, que são produtos sem marca.

Para melhor esclarecer este conceito de “produto avatar”, dou um exemplo: a Coca Cola é uma bebida gasosa refrescante, que tem as propriedades e as funções de outras bebidas similares como a limonada, a “gasosa” ou o velho “pirolito”. Só que na realidade as coisas não são bem assim. A marca “Coca Cola” acrescenta à bebida outros ingredientes para além da água, do xarope, do açúcar e do anidrido carbónico; acrescenta-lhe uma dose de “festa”, um pouco de “alegre disposição”, uma pitada de “ambiente jovem”, completados com um “jingle musicado” e umas gotas de cheiro a “american way of life”. Tudo isto, bem misturado e nas doses certas, constitui uma mistura explosiva e irresistível, sobretudo para os mais jovens.

Ora, se retirarmos à Coca Cola a água, o açúcar, o xarope e o anidrido carbónico, o que fica dentro da embalagem é uma “Coca Cola avatar”. É isso mesmo, o leitor já percebeu que aquilo que fica na garrafa é uma marca sem produto. E, na verdade, o consumidor paga mais por isso do que pelo líquido que bebe.

É esse “consumidor” que os técnicos de marketing, de publicidade e de estudos de mercado analisam à lupa, armados das ferramentas adequadas para o efeito, tais como estudos aprofundados, focus grupos, técnicas projectivas, técnicas de observação etnográficas, semióticas, etc... E até mesmo técnicas de neuromarketing, porque, constatou-se, o “consumidor avatar”, na escolha dos seus consumos, utiliza complexos processos mentais.

Paradoxalmente, dizem-nos que para estimular a economia é preciso consumir mais, quando o mais elementar bom senso aconselharia precisamente o contrário, que é preciso consumir menos e produzir mais. No futuro, a via da  transição vai seguramente alterar a relação das pessoas com os produtos e com as marcas. O desperdício, as embalagens sem utilidade, o "valor" abstracto da marca, as necessidades artificialmente criadas, serão postos em causa num contexto económico e social de um tipo diferente.

O incentivo ao consumo como finalidade última da economia é a miragem de salvação de um sistema que não tem futuro...

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Portugal e o Futuro ou o Futuro de Portugal

“Portugal e o futuro” é o título de um livro que o General António de Spínola escreveu e publicou pouco tempo antes do 25 de Abril, o qual, acreditam alguns, muito terá contribuído para motivar os capitães de Abril a avançar para Revolução dos Cravos. Eu li o livro, já não tenho muito presentes as teses que defendia, mas acredito que, nos dias de hoje, o "futuro" de que falava Spínola já é "passado" e que temos de reequacionar o problema, e falar de “outro” futuro. Do nosso futuro, mas, sobretudo, do futuro dos nossos filhos e dos nossos netos.

“Portugal são os portugueses do passado, os portugueses de hoje e os portugueses que hão-de vir” , disse há tempos, na TV, Ernâni Lopes. Ora os nossos governantes, os políticos, as elites falam muito dos portugueses de hoje, e a história fala-nos abundantemente dos do antigamente, mas poucos são os que se preocupam com os que hão-de vir. E, na minha modesta opinião, deveriam preocupar-se mais, porque as nuvens adensam-se no horizonte, e o melhor é ir pensando em preparar o barco para a procela que, com toda a certeza, nos vai surgir pela frente.

Olhando para o Portugal de hoje vemos um país europeu que a globalização uniformizou, no que respeita aos padrões de vida e de consumo, pelo modelo do “ocidente”, e que em tudo se assemelha à forma como se vive em qualquer um dos países, ditos desenvolvidos. Claro que o futuro de Portugal, país da união europeia, vai estar ligado ao futuro da Europa; na verdade ele estará ligado ao futuro do Mundo, um mundo que por ser global está condenado a ter um destino comum.

Portugal consome muito mais do que aquilo que produz, e isolado ou entregue a si próprio, Portugal é, nos dias de hoje, um país inviável. Criaram-se dependências, hábitos de consumo, vícios de ricos, que lhe retiram qualquer possibilidade de vida autónoma. O estado social adormeceu-nos, aboliu o velho conceito da “luta pela vida”, relaxou o empenho em superar e alcançar, debilitou o engenho, criou o desalento. Tanto a nossa dependência alimentar como a nossa dependência energética (as  fontes primárias da riqueza real) são ambas da ordem dos 75%. Nestas condições, este país só pode sobreviver com a ajuda externa, e um país que vive de esmolas não pode aspirar a ser independente, nem a ter voz nos aerópagos das nações.

Abandonou-se a agricultura, abateram-se os barcos de pesca, desincentivou-se a indústria. O turismo e a construção civil, as apostas das décadas douradas que se seguiram à integração europeia, e que foram a causa do nosso modesto crescimento, já estão ou vão entrar numa crise profunda, cujo fim não está a vista. São sectores fortemente geradores de emprego, e o seu estado depressivo vai agravar ainda mais a penosa situação económica e social em que vivemos.

O problema demográfico é outro dos nossos graves problemas. A perigosa inversão da pirâmide etária provocada por uma elevada taxa de envelhecimento da população, e consequente diminuição da população activa, irá agravar o problema da dependência externa. A reduzida taxa de natalidade das populações naturais, aliada a uma maior taxa de natalidade dos imigrantes, sobretudo dos africanos, irá gradualmente alterar a base genética da população residente. Dentro de 3 ou quatro gerações Portugal, na sua composição étnica, será muito semelhante ao Brasil de hoje. E, a manterem-se a actuais taxas de fertilidade, antes do final do século, a população com ascendência africana poderá superar a população com ascendência europeia.

Ora um país que não se basta a si próprio e que não cuide do seu futuro, perde a sua identidade, os cidadãos perdem o orgulho da pertença colectiva, deixa de ter valor o sentido de pátria. Os símbolos da nacionalidade – o hino, a bandeira - perdem gradualmente o seu significado, e o velho ideal do “sacrifício pela pátria”, adquire, nos nossos dias, um sentido quase de anedota.

Mas este é ainda o meu país, apetece-me citar o grande Poeta: "esta é a ditosa pátria minha amada”. Os portugueses que hão-de vir merecem  que lhe deixemos uma pátria como herança. Urge, pois, cuidar o futuro, e defender e preservar os valores eternos de Portugal.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O fim de um certo mundo rural

Nos passados dias 7 e 8 deste cálido mês de Agosto, teve lugar em S. Pedro do Rio Seco o primeiro Congresso da Associação Rio Vivo. E, para os que não conhecem esta aldeia e esta Associação, convém dar alguns esclarecimentos.

S Pedro, à semelhança de muitas outras, é uma pequena aldeia do concelho de Almeida, situada na região de Ribacôa, que é um território que se situa entre o Rio Côa e a fronteira espanhola. Linha da fronteira que, desde o Douro até S. Pedro, é definida pelo rio Águeda e pela ribeira de Tourões, e a partir de S. Pedro, para sul, numa larga extensão que inclui os concelhos de Sabugal e Penamacor, pela chamada raia seca.

Esta região de Ribacôa é uma planalto, continuação natural da Meseta Ibérica que lhe fica a leste. É limitada do lado ocidental pelos penhascos do vale do Côa e a sul pela serra de Malcata, no maciço da cordilheira central ibérica. A norte, destaca-se a silhueta da Marofa, já nos contrafortes do vale do Douro.

São fracos os recursos destas terras: o solo é pobre, a água não é abundante, e o clima, muito frio no inverno e muito quente no verão, é extremamente agreste. Como nota dominante da paisagem, abundam os afloramentos graníticos (os barrocos como aqui lhe chamam), as giestas, as moitas de carvalhos e as carrasqueiras. E, sempre presente, o pinheiro bravo.

Nos primórdios da nacionalidade, esta região fronteiriça, disputada entre Castela e Portugal, era uma zona de castelos defensivos: Castelo Bom, Almeida, Castelo Rodrigo, Vilar Maior e Alfaiates; terá sido mais intensamente povoada a partir de 1296, ano em que foi definitivamente integrada no território português, após o tratado de Alcanizes.

Tradicionalmente, as gentes desta região dedicavam-se sobretudo à agricultura e à pastorícia: colhia-se batata, trigo, centeio e algum vinho. Produzia-se queijo de ovelha, cada família criava o seu porco e as suas galinhas, e a aldeia era auto-suficiente em frutos e hortícolas. Havia uma dinâmica actividade complementar de serviços: o merceeiro, o taberneiro, o sapateiro, o alfaiate, o pedreiro, o ferreiro, o carpinteiro, o barbeiro...

A casa agrícola típica de S. Pedro desenvolvia-se à volta do curral com a residência e o seu cabanal, as cortes, os cortelhos, os palheiros, a adega e a “tenade” onde se guardava a lenha. O lavrador desenvolvia a sua actividade apoiado na junta de vacas, de machos ou de burros, conforme a dimensão da sua lavoura. O carro de bois, que era diferente do minhoto, estacionava no curral. Os terrenos da exploração agrícola (as sortes, as tapadas, os hortos, as vinhas, os lameiros) eram de pequena dimensão, e estavam dispersos pela folha, muitas vezes afastados uns dos outros .

Não havia conforto nas habitações: entrava-se no meio-da-casa e de um lado estava a cozinha (em certos casos de telha vã e sem chupão de fumo) com o basal e a cantareira, e com uma pequena dispensa onde estava a tulha e a salgadeira; do outro lado do meio-da- casa, uma pequena sala com dois quartos (as alcovas) onde apenas cabia a cama. Não havia casa de banho, apenas um lavatório na sala com o seu jarro e um espelho na parede. Nalguns casos, sobre a sala e as alcovas, havia o sobrado onde se guardavam as colheitas para o uso da casa.

Desde há meio século tudo isto mudou, e um modo de vida que se aperfeiçoou durante seis séculos desapareceu completamente. A casa agrícola deu lugar a uma casa moderna com o conforto das casas das cidades, muitas vezes servindo apenas como segunda habitação. O automóvel tomou conta das ruas, os animais de trabalho desapareceram, o asfalto substituiu a terra batida, apareceu a electricidade e o saneamento, A autarquia, entretanto, construiu um moderno pavilhão multiusos, rasgou estradas, embelezou largos com jardins.

Como resultado da fuga para as cidades, a população permanente que era de cerca de 700 pessoas reduziu-se a pouco mais de 150 habitantes, a maior parte com mais de 65 anos. A escola fechou por falta de alunos. Resta um pequena actividade agrícola, quase um passatempo dos reformados, centrada nas hortas de proximidade. Cuidar dos velhos no Centro Social é, agora, a principal actividade dos poucos que trabalham na aldeia. A folha está praticamente abandonada, sendo a excepção a existência pequenas manchas dispersas de exploração florestal (de cupressus ou azinheiras), e algumas explorações pecuárias (de vacas e ovelhas), tudo a viver com apoios comunitários.

No mês de Agosto a aldeia ganha a vitalidade de uma estância turística. Emigrantes enchem a terra, cria-se uma ilusão de vida. E alguns vêm nisto um sinal de progresso, e acreditam que se está a prosseguir o caminho certo.

Mas esta aldeia está ferida de morte e não tem futuro: os residentes desaparecem, e outros não vêem para os substituir; os filhos dos emigrantes não virão ocupar as casas que os pais construíram. Os dinheiros do estado social vão escassear, os fundos comunitários também. É este o paradoxo do nosso tempo: as cidades não são a solução para o futuro, e as pequenas comunidades rurais perderam a sua sustentabilidade.

Nascida da vontade de uns quantos, a Associação Rio Vivo foi criada para perceber como foi possível chegar a este ponto e para intervir, da forma possível, para inverter esta tendência depressiva. No fundo, para ajudar a cuidar dos velhos e estudar a forma de reanimar a aldeia. Para impedir que ela morra...

Chegaremos a tempo de a salvar?