O World Energy Outlook 2010, o relatório anual editado pela Agência Internacional de Energia, foi apresentado à imprensa no passado dia 9 de Novembro, em Londres. Este relatório é sempre ansiosamente esperado por servir de base ao planeamento económico dos países da OCDE. E ele constitui uma referência para muitos especialistas e estudiosos destas matérias.
Embora de forma condicionada e não alarmista, a Agência tem vindo, ano após ano, a fazer uma grande "ginástica" estatística para conciliar o pico do petróleo, cada vez mais difícil de iludir, com a necessidade de apresentar valores compatíveis com a necessidade de crescimento económico que, de acordo com os seus objectivos estatutários, a AIE se sente obrigada a estimular.
Para quem não sabe, a AIE , que tem a sua sede em Paris, foi criada pelos países da OCDE em 1974, na sequência do embargo petrolífero dos países árabes ao Ocidente, com o objectivo de criar stocks de crude para fazer face a situações de emergência. Mas nos seus objectivos, a IEA, além da segurança energética, inclui a protecção ambiental e estímulo ao crescimento económico. Isto em consonância com os objectivos da própria OCDE, criada exactamente para promover o desenvolvimento, baseado no crescimento contínuo das economias dos países que representa. A Agência emprega 190 pessoas, a maior parte delas especialistas em estatística e energia, e tem um orçamento anual de mais de 20 milhões de Euros. Que é suportado principalmente pelos EUA e pelo Japão, com um contributo conjunto de quase 50% do total.
A IEA é, pois, um organismo dependente dos seus financiadores, e as suas posições não podem ser desligadas deste facto. Talvez por isso, as previsões que faz da evolução da produção de crude são, em cada novo ano, revistas em baixa, mas obedecem a um principio sagrado: são sempre crescentes. Mas reconhece-se que, nos seus relatórios, a Agência tem vindo a mostrar realismo, e alertar para a proximidade do "pico do petróleo", evitando sempre usar a expressão, a qual apenas é referida, pela primeira vez, na edição deste ano do WEO.
Apoio-me nas palavras do professor Kjell Aleklett, da Universidade de Upssala e membro da ASPO, para traduzir o essencial deste relatório: "No Weo 2010, a IEA prossegue na sua linha tradicional de prever o futuro das necessidades energéticas do mundo, sem ter em consideração se a sua produção é ou não possível. Relativamente ao petróleo, no ano passado, a IEA previa, para 2030, uma procura de 106 milhões de barris por dia ou seja um crescimento de 20 milhões de barris diários em relação à produção actual. Mas este ano , a IEA baixou as previsões, para 2035, para apenas 99 milhões de barris diários".
Mas ainda há bem poucos anos a IEA previa, para procura e produção 116 milhões de barris diários em 2020. Nas previsões deste anos, e pela primeira vez, a IEA diz que a produção de petróleo convencional se manterá estagnada daqui até 2035.
Repare-se, neste gráfico, o rápido esgotamento das jazidas actuais que tem de ser compensado com a produção (irrealista!) das jazidas a descobrir ou a desenvolver.
Desde 1980, o mundo extrai petróleo muito mais depressa do que descobre novas jazidas. Extraem-se quatro barris por cada um que se descobre. Ora, o WEO 2010 apoia a sua previsões de crescimento sobretudo nas novas descobertas, e diz que até 2035, para se cumprir essa previsão, o mundo precisa de descobrir mais 900 mil milhões de barris para adicionar às reservas actuais. Ora, à taxa de descoberta actual que foi, nos últimos anos de 10 mil milhões barris/ano, seriam precisos 90 anos, e não 25, para alcançar esse objectivo!
Isto acontece porque as jazidas actualmente em produção, que produziram 68 mbd (milhões de barris/dia) em 2009, têm uma taxa de esgotamento de 8,3% ao ano e isso precisa de ser compensado com novas explorações e novas desobertas. Fazendo as contas, essas jazidas, que produziram 68 mbd em 2009, só produzirão 16 mbd em 2035. Daí a tal urgente necessidade de descobrir e explorar mais petróleo. Só não sabe onde, nem como, digo eu.
Toda a esperança de aumento de produção é colocada nos países da Opec e muito em particular nos países do Golfo Pérsico. E, estima a AIE, a Opec deverá produzir, em 2035, 46 mbd dos quais 31 mbd no Golfo. Mas, como que a propósito, há dias, um antigo director da Saudi Aramco, Sadad Ibrahim Al-Husseini, citado
aqui, vem colocar muitas interrogações sobre a capacidade futura da região para responder ao que dela se espera. Diz ele: "Na região do Golfo, as reservas de petróleo convencional estão a esgotar-se a uma taxa que é dupla da taxa de reposição, e isto porque as grandes jazidas estão a ser substituídas por jazidas mais pequenas, que requerem tecnologias muito avançadas e avultados investimentos para produzir caudais, em volume suficiente e com custos comportáveis.
Ele acrescenta ainda que a produção dos países da OPEC será inferior à estimada: "A região do Golfo não produzirá os 31 mbd previstos mas sim 26 mbd, em 2035. E prevê para a produção global de crude um "plateau" de 87 milhões de barris por dia até 2019 e, a partir daí, um decréscimo, para atingir os 83 milhões por dia em 2030".
Já não é mais possível esconder a verdade do pico do petróleo. Chegou a altura de começar a mitigar as suas consequências. Volto às palavras de Kjell Aleklett para concluír: "WEO 2010 is a cry for help to tell the truth about peak oil".