segunda-feira, 14 de março de 2011

Uma Escola Viva

No dia de Carnaval, por iniciativa da Associação Rio Vivo,  teve lugar em S. Pedro do Rio Seco um acontecimento especial: reabriu-se a velha escola que, por falta de crianças, tinha fechado há dois anos. Foi às três horas da tarde, havia um ameaça de chuva fria que não chegou para estragar a festa. Os poucos miúdos da aldeia orientados pelo Jorge Ribeiro fizeram um teatro encantador. E não faltaram os fantoches.

O povo de S. Pedro, a quem a escola se destina, ocorreu em massa e extravasou da sala de aula. A Caetana é a nova professora e a coordenadora da Escola. O Tiago e o Zé, vencedores do Prémio Ribacôa 2010, também vieram. Tiraram folga do terreno do Salgueiral onde têm trabalhado afanosamente. Já lá começam a aparecer as "camas" da permacultura e estão plantadas muitas árvores de fruto. O moinho de aríete já está em funcionamento.

As pessoas da aldeia ainda olham com algum cepticismo para estes jovens agricultores, uma espécie de novos povoadores; mostram desconfiança relativamente às novas técnicas, mas aceitar isto, penso eu, será uma questão de tempo.

Neste dia de Carnaval deu para perceber que existe um Caminho para a Transição. Que não vai ser fácil de percorrer.

É um caminho que se faz em contra mão, contra o sentido dominante do tráfego. O mundo actual habituado ao conforto da energia fácil e abundante não aceita facilmente a via da mudança. As pessoas interrogam-se por que razão hão-de voltar a cavar a terra se o tractor ou a moto cultivadora o podem fazer de modo mais simples e com menos esforço. Ou por que não deverão continuar a usar sacos de plástico se eles são tão práticos e baratos. Talvez as pessoas ainda não tenham sentido verdadeiramente a necessidade de enveredar pelo caminho da Transição.

Mas á nossa volta multiplicam-se os sinais que nos mostram a necessidade da mudança. O desemprego que grassa entre os jovens é um desses sinais. A nossa dependência alimentar é outro deles. Mostram que o mundo está no caminho errado que é regulado por regras antigas que já não resolvem os problemas actuais.

Se em cada aldeia de Portugal reabrisse uma escola fechada, se se voltasse a utilizar a terra crua para construir as casas, se alguém mostrasse novas técnicas de cultivo, então estaríamos a lançar as sementes para o mundo novo que queremos e necessitamos começar a construir.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O Preço dos Combustíveis

Os Portugueses, tanto os particulares como os comerciantes, que utilizam veículos automóveis e vão abastecer às gasolineiras, começam a ficar, outra vez, preocupados com os preços de cada litro da gasolina e do gasóleo, os quais não param de subir.

Isto parece a repetição de um filme já visto antes. Tal como agora, no início de 2008, o preço do barril de crude começou a disparar para atingir, em Julho desse ano, na bolsa de matérias primas de Nova York, 147 dólares por barril. Actualmente o preço do barril já se aproxima dos 100 dólares, e parece estar de novo a escalar para os valores atingidos há três anos. Em Nova York os preços referem-se ao crude da referência WTI (West Texas Intermediate), e em Londres referem-se ao Brent que é uma variedade de crude extraída no Mar do Norte. E o Brent, que é a referência utilizada em Portugal, na semana passada cotava, em Londres, a 99 dólares o barril.

Como o preço do petróleo é cotado em dólares, e considerando a paridade euro/dólar, estamos neste momento apenas a 20% do valor máximo atingido em 2008. De facto, nesse ano, com um euro a valer 1,60 dolares, 147 dolares representavam 91 Euros. Valendo, neste momento, 1 euro, 1,30 dólares, e com o barril de crude a 100 dolares, isso significa ser 77 Euros o preço do barril de Brent, ou seja, na nossa moeda, estamos apenas 20% abaixo do máximo histórico do preço do barril de petróleo.

Em 2008, a seguir ao máximo histórico dos preços, o mundo entrou em recessão, a produção mundial de petróleo baixou, entre meados de 2008 e final de 2009, 2,5 milhões de barris dia. Esta baixa resultou sobretudo da redução de consumo nos países da OCDE. Durante o ano de 2010 assistimos a uma recuperação da produção que, no final do ano, voltou a atingir os 87 milhões de barris por dia, ou seja, os níveis do máximo de 2008. Os responsáveis por este aumento da procura foram os países emergentes e também os próprios países da OPEC.

A persistirem, estes preços altos do crude e dos seus derivados, vão criar problemas acrescidos às economias sobretudo aquelas que dele mais dependem, como acontece com as economias dos países da OCDE. E a desejada retoma, será fortemente penalizada, e o  fantasma da recessão parece renascer. À escalada de preços voltarão a estar associados os protestos de camionistas, a alta de preço de matérias primas, e a subsequente recessão económica.

Mas tudo isto mas não é nada que não estivesse nas previsões dos analistas que estudam o pico de petróleo.  Estes ciclos de preço em alta e baixa do crude resultam das pressões da procura e das limitações da oferta. A procura é muito rígida, na medida em que o aumento de preço não provoca a diminuição do consumo, até porque não existe substituto alternativo. Existindo crescimento económico aumenta a procura de petróleo, isso provoca aumento de preços, o que, por sua vez vai reduzir e condicionar esse crescimento económico. O sistema entra num ciclo de sobe e desce, o gráfico dos preços assemelha-se aos dentes de uma serra, e a cada retoma segue-se uma nova recessão, sempre pior que a anterior.

Estas oscilações do preço do crude fazem lembrar as oscilações do preço óleo de baleia no século XIX. Nos meados do século XIX, o óleo de baleia era intensamente usado na iluminação e lubrificação. A sua exploração levou a uma desenfreada caça à baleias e quase à sua extinção. Esta história, que é aqui relatada de uma forma interessante, lembra a curva de Hubbert para o pico do petróleo.

Durante muito tempo pensou-se que a economia era a ciência dos fluxos monetários. As medidas para vencer as crises visavam agir apenas sobre o dinheiro que representa a riqueza presente e o crédito que representa a riqueza futura. E, acreditava-se que era o dinheiro que alimentava a economia. Mas agora começamos a perceber que a economia tem muito mais a ver com o mundo real do que aquilo que nos queriam fazer acreditar. A economia é uma máquina que se alimenta de produtos de baixa entropia (como é o caso da energia), e que expele produtos de alta entropia (lixo desperdícios, emissões). E que obedece às leis monetárias, mas também às leis da Física.

Os preços dos combustíveis fósseis, cada vez mais escassos, são um sinal desta realidade. Que, no curto prazo, vai ter consequências para o nossos bolsos e que, no longo prazo, terá consequências para o nosso futuro colectivo.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

2010, Notas do Ano que Termina

Os mercados

Neste ano de 2010, que está a terminar, ganhámos uma nova palavra e um novo conceito que veio enriquecer o nosso vocabulário, o qual, diga-se, tem sido bastante ampliado com a crise: estou a falar dos "mercados”. Esta designação corresponde a uma entidade indefinida, sem rosto, sem endereço de correio, nem número de contribuinte, mas que parece ter uma força extraordinária, como já terá sido constatado pelos nossos governantes e pelos banqueiros, que agora falam dela em cada novo discurso. O seu significado, parece-me, não é entendido pelos portugueses da rua, que vêem os efeitos da crise no seu dia a dia, mas acaba por servir de bode expiatório para a justificar. É que assim já se podem atribuir as culpas a alguém, sem ter de alterar o discurso de base, nem pôr em causa a sua coerência.

O sistema económico que vigora no mundo global tem um lógica, e as suas leis são inexoráveis. Eu, que não sou especialista destas coisas e nem sequer sou economista de escola, defini, para meu uso pessoal, umas leis do Liberalismo Económico. E fiz isto, para tentar perceber o que é isso dos “mercados”.

1. Lei do Crescimento Contínuo: Para sobreviver, tens de crescer.

2. Lei da Remuneração do Capital: Uma parte da tua produção tem de servir para remunerar o capital.

3. Lei da Competitividade Global: Para ganhares, tens de ser melhor que os outros.

4. Lei da Selva: Se falhares, ninguém te ajudará.

Estas leis estão inerentes ao próprio sistema, fazem parte intrínseca dele. Uma sofisticada rede de agentes (agências de rating, fundos de investimento, seguros de crédito, ...) vigia os actores do sistema para ver se estão em conformidade com as suas leis. Esta rede são os “mercados”, que se limitam a apontar os fracos ou os fora da lei. E nada mais... Fica apenas por explicar quem manda nos mercados.

Os “Pigs”

Foi a designação que, durante o ano que agora termina, se colou a certos países (Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha) para significar os países  do desenrasca. São os países que têm em comum o facto de terem deficits públicos e dividas externas elevadas, e tal como mostrou o Luís de Sousa, são os que têm uma maior dependência energética do Petróleo. Os “Pigs” criaram mais gordura do que músculo, e, por imposição dos mercados, vão ter de fazer dieta forçada... Por muito tempo, imagino eu.

O Pico do Petróleo

Eu acredito que o ano de 2010 ficará na história económica como o ano do “pico do petróleo”. O conceito vai penetrando nos media de massas e a própria AIE (Agência Internacional de Energia)  já o plasmou, pela primeira vez, no seu relatório anual de 2010, o World Energy Outlook 2010. O “pico do petróleo”, mais do que qualquer outra coisa, é a verdade que maior dor vai trazer ao mundo: aos políticos porque lhes torna mais difícil a venda das ilusões, aos economistas porque lhe mata a crença no crescimento contínuo, às empresas porque lhes retira crédito, ao cidadão comum porque lhes rouba os empregos, e lhes ensombra o futuro.

A Transição

A Transição começa a surgir, aos olhos de muitos, como uma alternativa à Globalização, como o caminho para uma nova ordem de valores e de crenças, ou seja, de um novo paradigma para a Humanidade. Estas mudanças de paradigma, com os seus traumas associados, já ocorreram noutros momentos: na transição do feudalismo para a burguesia urbana, no advento da era industrial, com a revolução Francesa, com os movimentos operários no início do século XX. De uma forma ainda pouco organizada, quase espontânea, em Portugal começaram a surgir os primeiros movimentos ou iniciativas de transição. O colóquio sobre transição em Pombal, realizado em Abril passado, foi um ponto alto destes movimentos. Iniciativas de transição estão a aparecer em Pombal, Paredes, Telheiras, Portalegre e Linda a Velha. E outras parecem estar na calha.


A Morte de Matt Simmons

Matt Simmons, que faleceu no verão de 2010, foi um grande comunicador e um grande conhecedor das questões ligadas ao “pico do petróleo”, e que muito influenciou todo o movimento que o estuda e divulga. Foi no seu livro "Crepúsculo no Deserto" que eu aprendi muito sobre a importância do petróleo, e onde eu comecei a perceber melhor o papel dos países do Golfo (e também as suas fragilidades) no futuro energético da Humanidade.


A (não)Retoma

A retoma falhada fica a marcar o ano de 2010. Infelizmente, acredito eu, também não chegará em 2011, nem em 2012... Esta falha persistente da retoma é como um motor de arranque,  de um automóvel,  que não funciona. Pouco a pouco, vamo-nos convencendo, de que não é um problema na bateria do carro, mas sim de falta de combustível.


A China , o seu crescimento e as suas contradições
A China é o maior paradoxo do nosso tempo: tem de crescer para alimentar o ritmo da sua economia e para não libertar as tensões  das contradições internas; por outro lado, não pode crescer por que os recursos para alimentar esse crescimento começam a escassear. Quando a bolha chinesa rebentar, será como uma nova extinção dos dinossauros da economia mundial.


O desastre ambiental do Golfo do México
Foi um sério aviso para o Mundo, e veio mostrar a fragilidade em que assenta a extracção do crude em águas profundas (deep water).

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A Civilização do Plástico

Na última reunião das terças feiras, organizada pelo dinâmico movimento de Transição de Telheiras, que teve lugar na ART (Associação de Residentes de Telheiras), falou-se de plástico. Foi a seguir à exibição do filme produzido pela BBC, “Message in the Waves”, infelizmente sem legendas, que mostrava a desgraça que significa a quantidade de plástico no Oceano Pacífico e o perigo que isso representa para as espécies marinhas. Tartarugas, lobos marinhos, albatrozes são vítimas do plástico que ingerem, e que descuidadamente é lançado ao mar. Os objectos de plástico, abandonados na natureza, degradam-se muito lentamente, e esta situação, a não ser resolvida, pode levar a um desastre ambiental de graves consequências. É uma questão que não pode ser ignorada por todos aqueles que querem cuidar do nosso futuro comum. E que é o caso dos envolvidos nos movimentos de Transição.

Eu ainda sou do tempo em que as pessoas não usavam plástico na sua vida diária. Havia, no tempo da minha infância, algumas coisas parecidas, como o celulóide que foi precursor do plástico, havia a baquelite, e, possivelmente já havia a borracha sintética, desenvolvida durante a Guerra. Assisti, no pós guerra, ao aparecimento do nylon, e recordo-me de ter visto, pela primeira vez, aí pelos meus 6/7 anos, umas bugigangas em plástico que eram oferecidas dentro dos pacotes de "café de cevada", e lembro-me muito bem de, por essa altura, nos terem oferecido uma "nossa senhora" de plástico que (por efeito de algum composto de rádio que emitia radiações) ficava luminosa na escuridão, o que despertava um grande espanto em toda a gente.

Mas, de um momento para outro, as coisas mudaram a ponto de hoje já ser difícil imaginar a nossa vida sem os vários tipos de plástico, desde o PVC ao polystireno e ao teflon. De facto, toda a nossa vida gira à volta desta nova matéria prima que revolucionou o último meio século, e se colou, de uma forma pegajosa, à actual maneira de viver . Se olharmos à nossa volta, quase  tudo é feito, total ou parcialmente, em plástico: olho, por exemplo, para esta mesa onde agora me sento, e vejo um teclado e um monitor de vídeo em plástico, o rato do computador, a base do candeeiro de mesa, o telemóvel, as esferográficas e as canetas, o tampo da mesa, um carimbo, os tabuleiros onde arrumo os papéis, e até o dinheiro que trago na carteira (cartão de crédito), tudo é de plástico.

Sendo um material altamente conveniente, estão a ele associadas graves inconvenientes. E o preço que temos de pagar, pela inconveniência desta matéria-prima, é, como mostrava o filme que refiro atrás, muito elevado. Pelo facto de não ser biodegradável, o plástico resiste ao tempo e teima em manter-se inalterado, dizem, por centenas ou milhares de anos. Neste aspecto, contraria os ciclos da natureza, nos quais a decomposição dos materiais orgânicos está na base de uma recriação de novos materiais. Ora, a acumulação de plástico na natureza, e em particular nos oceanos, introduz um factor de desequilíbrio que pode trazer, no futuro, graves consequências.

Existem várias formas de contribuir para resolver os problemas ambientais criados pelo plástico, por exemplo, passando a usar menos, desenvolvendo novas formas mais biodegradáveis, taxando e desincentivando o seu uso. Acima de tudo, reduzir a sua utilização ao estritamente essencial, evitando usá-lo em embalagens meramente decorativas, em adornos, em sacos de plástico, etc. E, claro, reutilizar e reciclar, são outras medidas aconselhadas para ajudar a resolver o problema.

Da mesma forma que quando se constrói uma central nuclear, para conhecer o seu custo global se contabilizam os custos da sua construção, da sua manutenção, mas também o do seu desmantelamento - não sendo este ultimo o menos importante -  também, quando se fabrica um saco de plástico que custa uns meros cêntimos, se deveriam somar ao seu custo todos os prejuízos que ele causará até sua completa destruição e reintegração na natureza. Na verdade um simples saco de plástico tem associado um custo muitíssimo superior aos cêntimos que nos cobram por ele. E, se não formos capazes de calcular o verdadeiro preço (ou se não quisermos calculá-lo!), e de o fazer reflectir no custo "efectivo" do produto, estamos a contribuir para a degradação do nosso futuro, e até da nossa civilização.

Na verdade os produtos descartáveis de plástico (estou a pensar em fraldas descartáveis, sacos de plástico, copos de plástico que sé se usam uma vez, e também as embalagens supérfluas), só são baratas porque o custo do plástico não incorpora no seu preço o custo dos seus malefícios. A modificação deste estado de coisas passa por medidas legais, fiscais e de educação, que têm de ser urgentes, para não agravar mais aquilo que já uma grave emergência ambiental.

O plástico é um derivado do petróleo. Com o advento do Pico do Petróleo vamos ter de passar a usar, forçosamente, menos. Mas os estragos têm de começar a ser reparados com urgência. O capitalismo é, na sua essência, predador da natureza e do ambiente, mas o homem não pode iludir-se com algumas facilidades que ele proporciona.Porque pode dar-se conta dos seus efeitos secundários quando já for demasiado tarde!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Pico de Petróleo: Não se pode negar a evidência

Conta-se que Galileu Galilei, no final da sua vida, consciente (e talvez arrependido !) de ter renegado a verdade ao ter admitido, perante as ameaças dos Inquisidores, que a Terra estava imóvel no espaço, terá desabafado em surdina, e proferido a célebre frase: “Eppur si muove”. E contudo, move-se.

Naquele tempo e naquela sociedade, a “verdade oficial” era decretada, espalhada e defendida pela Igreja Católica. Por isso, a verdade de Galileu que a contradizia, foi alvo do descrédito e dos ataques da Inquisição, razão pela qual ele se viu obrigado a confessar que a Terra não se movia à volta do Sol, e que era o Sol que girava à volta da Terra. A verdade que Galileu ensinava era a "verdade inconveniente" que contrariava as falácias da Igreja Católica, e que, por isso mesmo, não podia ser tolerada.

Entretanto, os tempos mudaram. Para nosso bem e para nosso mal, o poder temporal e espiritual que a Igreja Católica detinha, transferiu-se para uma entidade, de contornos mal definidos, que os meios de comunicação designam de "os mercados”; os antigos dogmas da fé já não são importantes, e não têm, hoje, a Inquisição a defendê-los. Na nova ordem (a dos mercados, ou do Neoliberalismo), os tês pilares da "Santíssima Trindade" são 1) a livre concorrência, 2) a livre circulação dos capitais, 3) e o crédito ilimitado. O conclave dos cardeais deu lugar à reunião do G20, e Roma já não é o centro do mundo. E o Deus, todo poderoso, dos nossos dias chama-se Globalização.

Também a verdade dos que defendem e demonstram o "pico do petróleo" é a verdade inconveniente, que não interessa ao novo Sistema porque ofende os seus dogmas, nomeadamente o do Crédito Ilimitado (ou, se preferirem, o crescimento contínuo). Por isso, o pico de petróleo é um assunto que anda arredado dos meios de comunicação de grande difusão. E, sendo esta a questão central que moldará o futuro da nossa civilização, muita gente pergunta por que razão tal acontece. A resposta é que são precisamente esses meios que velam pelos novos dogmas; eles são a nova inquisição do nosso sistema económico.

Mas poderiam os meios de comunicação abordar o problema, de outra forma? Eu acho que não pois, caso o fizessem, iriam reduzir as expectativas e o consumo, criando assim uma brusca depressão na economia mundial. E a sobrevivência desses meios, que vivem do consumo e da publicidade, estaria em causa. Daí que todas as tentativas de abordar a questão dos limites do crescimento tenham sido sistematicamente desacreditadas.

Sobre o petróleo, alimento principal da economia capitalista, a verdade oficial é, mais ou menos, esta:

Existe petróleo em abundância na natureza. As reservas, por exlorar, têm aumentado, e a tecnologia tem vindo a incrementar as taxas de recuperação do petróleo dos poços, e vai continuar a ser assim no futuro.
Existem grandes jazidas por explorar nas bacias "offshore" e nas zonas polares. Além disso, existem reservas imensas de petróleo impregnando as areias e xistos betuminosos no Canadá e na Venezuela. No Iraque existem elevadas reservas por explorar, que só esperam pela pacificação do país para serem trazidas à superfície.
Além disso temos largos recursos de petróleo não convencional como, por exemplo, a produção a partir do gás natural, sem esquecer o biodiesel e as promissora tecnologia que vai permitir a produção de etanol a partir da celulose, em curso nos Estados Unidos. Imaginem-se todos os grandes recursos vegetais,  sem valor alimentar, a serem transformados em gasolina!
E, no futuro, a capacidade do homem para encontrar alternativas ao petróleo, vai explorar novos caminhos energéticos. As energias renováveis são praticamente ilimitadas, o Sol é uma fonte inesgotável de energia. E ainda estamos a dar os primeiros passos na utilização do hidrogénio, o elemento mais abundante do Universo, como fonte energética. Mas a energia do futuro  poderá derivar da fusão nuclear.
Grandes especialistas como, por exemplo Daniel Yergin, que escreveu "O Prémio" e dirige a CERA, confiam nas fontes oficiais (como a AIE) e garantem que a produção de crude se irá manterá sem problemas por algumas dezenas de anos, após o que passará a um período de "plateau ondulante".
E temos ainda os defensores das teorias que dizem que o petróleo não é de origem fóssil e está continuamente a formar-se na crosta terrestre. E, por fim, o argumento arrasador que lembra o grito de "Lá vem lobo!": " O fim do petróleo já foi anunciado tantas vezes, sem nada ter acontecido, que também não será desta vez que vai acabar".

Este é o discurso oficial, o discurso do "businesss as usual", impregnado de falácias: a falácia tecnológica, a falácia do hidrogénio, a falácia do "dejá vu". Mas um grupo de pessoas, irmanadas pela amizade à verdade, engenheiros reformados, e jovens cientistas entusiastas, como Colin Campbel, Jean Laherrere, Kenneth S. Deffeyes, Rembrandt, Luís de Sousa e tantos outros, clamam contra a indiferença dos "mass media", e dizem-nos:

"Eppur, Ecco il Picco!",
ou seja : E contudo, o pico está à vista! A história vai dar-lhes razão

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

As angústias do cidadão comum

Anda o mundo todo em alvoroço: é a crise que não se vai, a China que não revaloriza a moeda, a América que não se conforma em perder a liderança do mundo, a Nato que não sabe como sair do Afeganistão, a Irlanda que caiu nas mãos do FMI (sem perceber bem como nem porquê!), a Europa desunida e sem estratégia, é Portugal à deriva, os bancos sem dinheiro, as empresas sem crédito, os trabalhadores sem emprego, os de Wall Street ainda a especular e a receber os bónus, e as pessoas comuns da Main Street a começar a perder a esperança.

Os comentadores políticos e económicos, os que escrevem nos jornais e falam na rádio e na TV, e fazem a opinião dominante, vão apontando erros aqui e acolá, acusando este ou aquele de não ter tomado as medidas certas no momento certo, analisam, estudam e prevêem; mas a verdade é que não estão a acertar com a solução do problema, e não apontam os caminhos certeiros para a saída da crise. A receita mais ouvida nesses comentários é a de que temos de retomar o crescimento à custa do aumento da produtividade, do aumento das exportações, da produção de bens transaccionáveis, etc.. Mas isto é o mesmo que dizer a um doente: “O senhor para resolver o problema da sua grave doença, tem mesmo é de se curar e voltar a ter saúde!”. Ora não é mais do que isto, que é uma verdade do Senhor de La Palisse, aquilo que nos diz o economista comum ou o comentador político. E o próprio discurso dos governantes não anda longe destas trivialidades, e não lhes acrescenta muito. E, uns porque não sabem, outros porque não querem, e outros porque não podem, ninguém se adianta para falar a verdade.

Entretanto, o cidadão comum, habituado a ouvir falar de crises mas sem as sentir na pele, já se começou a aperceber que, desta vez, algo vai “mesmo” mal, e que, talvez, não lhe estejam a dizer toda a verdade. E já vai fazendo contas à vida. Vê o seu emprego em risco, ameaçadas as pensões e os subsídios que julgava garantidos para a vida, vê os filhos, já homens, ainda a derriçar do orçamento dos pais. Vai perdendo a confiança nos bancos, e aquilo que parecia muito seguro já não lhe parece tanto, e até já lhe ocorreu a ideia de enterrar o dinheiro numa panela de ferro a um canto do quintal. Começa a desconfiar de tudo e de todos. E já olha com outros olhos para uns bocaditos de terra que ainda tem lá nas berças, quem sabe se ainda não vão servir para alguma coisa!

E se ainda sente força e por que não atingiu ou atingiu há pouco tempo a barreira dos “enta”, até lhe passa pela cabeça a ideia de emigrar. Mas os caminhos do mundo estão a fechar-se e quando pensa em Angola ou no Brasil, só vê insegurança, desigualdades e corrupção. E o Eldorado de outras épocas, para onde se ia à procura da fortuna, só se for noutro planeta!

Quando a crise desce à rua, é quando ela adquire pela primeira vez, verdadeiramente, o estatuto de “Crise”. Estamos no início duma grande descida que vai estar marcada pelo empobrecimento colectivo, pela escassez de recursos, pela necessidade de ter de apertar o cinto. A história mostra-nos que nestes períodos de “vacas magras” existem dois caminhos para fazer a descida, e qualquer deles se assemelha a uma “via dolorosa”: um que é a via da inflação (como diz Rubin) outro que é a via da deflação (como diz Nicole Foss), ou seja, ou faltam as mercadorias, no primeiro caso, ou falta o dinheiro para as comprar, no segundo. São os governantes, sobretudo os fixam o preço do dinheiro e podem imprimir notas, que têm capacidade de fazer escolhas, e mostrar-nos o caminho. Pois se eles não escolherem nenhuma delas, será tudo pior, e essa via sacra da descida ao Inferno será feita aos trambolhões e ao atropelo das regras mais elementares da civilidade.


Entretanto os anjos da Transição, conscientes do pico do petróleo - esta afinal a causa de todos os males - e das alterações climáticas, vão tecendo pacientemente a teia que é a nossa derradeira esperança de prosperar num mundo com menos abundância de benesses e com mais carência de recursos. E ensinam que é necessário produzir e economizar mais e apostar na Localização.  Que  é o mesmo que dizer, olhar com mais atenção para o nosso país, para nossa cidade, para o nosso bairro, para o nosso vizinho.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O Futuro da China


O mundo que emergiu do pós guerra, e que era dominado pelos EUA e pela União Soviética, está a dar lugar a outro mundo no qual já se vê a China afirmar-se como a nova potência mundial capaz de fazer frente aos EUA, e, quem sabe, pronta a disputar-lhe a liderança mundial. Algo que parecia bastante improvável, há apenas meia dúzia de anos.

De uma forma discreta, a China tem vindo a impor-se como a grande economia emergente do século XXI. Já é a segunda a nível mundial, tendo recentemente destronado o Japão dessa posição. E as taxas anuais de crescimento do seu PIB são de tal modo elevadas que, a continuarem a este ritmo, o PIB chinês ultrapassará o PIB norte americano antes de 2030. Mas, na minha opinião, isso não irá (não poderá!) acontecer, pois tal significaria um forte agravamento dos desequilíbrios comerciais já existentes, e provocaria uma corrida descontrolada às fontes de matérias primas. Recordo, a propósito, que China vai enfrentar, a breve prazo, o problema da escassez energética, à medida que a população se for  urbanizando, que o uso do automóvel se for generalizando, e o consumo de electricidade for aumentando. A emergência do pico do petróleo, e a previsivel escassez de carvão vão ser fortes travões ao crescimento da China.

Na sua política de expansão, a China tem usado a via diplomática de "penetração" em zonas estratégicas como a África e a América Latina. E, para ilustrar essa forma de actuação, refiro este exemplo: o FMI andou, durante anos, a negociar um empréstimo a Angola; para a sua concretização, colocava condições aos governantes que visavam impedir a corrupção, aliviar a pobreza e reduzir as desigualdades. Mas chegaram os chineses e concederam esse empréstimo em poucas semanas, e sem condições. Mas, claro, pediram em troca petróleo e contratos para construir infra-estruturas. Com este empréstimo, a China tornou o FMI redundante e desnecessário em Angola. E exemplos como este podem ser encontrados um pouco por toda a parte, no Sudão, no Congo, no Irão.

Existem muitas incertezas no que ao futuro da China diz respeito. Este gigante que tem muitos pontos fortes e, ao memo tempo, muitas fraquezas. A força da China reside na sua forma de governo centralizada, no seu grande crescimento económico, e na maneira de ser e viver da sua população, onde se destaca a capacidade de trabalho, uma grande paciência e um elevado espírito de sacrifício.

Uma gestão centralizada e forte tem permitido manter a unidade de um país que é composto por muitas nações. E tem permitido conduzir a politica económica sem grandes sobressaltos, sem a sujeição aos ciclos eleitorais, próprios das democracias ocidentais. E, acima de tudo, tem demonstrado a capacidade de implementar as medidas necessárias para fazer face a emergências, como se viu na recente crise.

O grande crescimento económico chinês, a taxas anuais de cerca de 10%, ajuda a resolver muitos problemas, e impede a ocorrência de outros. Pois havendo riqueza para distribuir tudo se simplifica, existe paz social, estão contidos os conflitos regionais, étnicos e religiosos. Mas o contrário também é verdade: a estagnação ou a recessão económica traz ao de cima os problemas, revela o lado pior das coisas e das pessoas, favorece a desordem social. Por tudo isto, o crescimento da China precisa de ser mantido a todo o custo.

E daí que o grande dilema da China resida nesta situação paradoxal: não pode crescer mas também não pode deixar de o fazer: crescer significa escassez de recursos, problemas ambientais, sobreaquecimento da economia, riscos de uma bolha imobiliária, acréscimo dos problemas comerciais; reduzir o crescimento, pode provocar descontentamento, problemas políticos, contestação social, forte aumento do desemprego, conflitos étnicos regionais, etc..

A China é, nos nossos dias, um importante foco de tensão mundial. Tensão que vai acumular-se e que poderá, ao libertar-se, provocar um sismo. E, porque o mundo é global, as consequências do que acontecer na China, terão impacto em todo o Mundo. No dia em que a China entrar em convulsão, muita coisa irá mudar e, acredito eu, para pior. Perceber esta realidade e mitigar as suas consequências é também um dos objectivos da Transição.