segunda-feira, 2 de maio de 2011

O Estado do Mundo

Neste ano de 2011, estamos a assistir a extraordinários acontecimentos os quais, num mundo global e interdependente, estão ligados entre si e não podem ser vistos nem entendidos isoladamente.

Os preços da energia não param de subir, e esta persistência na alta,  é sinal de que estes preços altos vieram para ficar, e que não vão baixar tão depressa. O Brent, em Londres, já se comercializa a 125 dólares por barril, e a tendência é para subir. Estamos confrontados com o tão falado "pico do petróleo", cujas verdadeiras e graves consequências só agora começamos a descortinar. Algum alívio nesta tendência de subida de preços e escassez resulta do incremento da produção de gás natural nos Estados Unidos pela nova técnica da fracturação das rochas xistosas, que tem provocado uma continuada baixa de preço desse combustível, mas que é uma tecnologia da qual ainda não se conhecem nem a viabilidade económica, a prazo, nem as consequências ambientais.

Os preços dos produtos alimentares acompanham a tendência da alta dos preços da energia, e em particular do petróleo. O que não admira pois a produção agrícola depende da mecanização e dos fertilizantes, os quais, por sua vez, dependem dos petróleo e dos gás natural. As consequências dos elevados preços dos alimentos estão fazer-se sentir sobretudo nos países mais pobres, onde  irão provocar distúrbios sociais.

As revoltas nos países árabes só vêm agravar a situação. Desiludam-se aqueles que vêm nestas revoltas apenas a busca de mais liberdade e de mais democracia, ou de um maior respeito pelos direitos humanos. A razão destas revoltas tem a ver com a falta de emprego, com a fome e com a pobreza. E para satisfazer estas necessidades vão ser precisos mais recursos, que irão faltar em qualquer outra parte ou ver aumentado o seu preço. Estes países têm uma elevada população, muito jovem e muito mais informada e mais exigente. O que vai seguir-se, nesses países, é imprevisível. E a pressão demográfica sobre as fronteiras do sul da Europa vai manter-se, e vai a ser um problema de difícil solução.

O futuro da energia nuclear ficou mais sombrio depois do acidente de Fukushima. Esta é uma questão complexa e angustiante. Durante muitos anos a opção nuclear foi a esperança para o futuro energético da humanidade. E hoje essa esperança está a desfazer-se, mas a angústia permanece. Menos nuclear significará mais carvão ou menos energia, ou seja, menos progresso, menos crescimento, menos emprego, mais pobreza. Deste modo, como teoriza Richard Duncan,  abrevia-se o fim da era industrial e acelera-se o caminho em forte declive ou "the cliff", para Olduvai.

Os fortes crescimentos dos países emergentes como a China a Índia ou o Brasil parece ser uma boa notícia. Mas, infelizmente, não é. Estes países estão a aumentar o seu consumo de recursos, e, por isso mesmo, a contribuir para precipitar o colapso provocado pela sua escassez e pelo aumento dos seus preços. Estão a criar desequilíbrios noutras regiões, e quando rebentar a “bolha” estaremos, seguramente,  a  enfrentar um forte agravamento da crise actual!

O previsível colapso das economias periféricas da zona Euro, as chamadas economias dos “pigs”, que não podem ser sustentadas no actual modelo de crescimento descontrolado da divida, é um sintoma de que o caminho do progresso continuo e o “estado social” que nos prometeram era, afinal, uma miragem . O novo ponto de equilíbrio, que será conseguido com as medidas de austeridade, vai situar-se num patamar inferior ao actual, e na verdade não sabemos quão fundo estará, nem qual o preço que iremos pagar para o atingir. Mas, no médio prazo, será a coesão e o futuro da Europa que estão em causa

A fragilidade da economia americana, caracterizada por um elevado deficit, por dificuldades em sustentar as elevadas despesas militares, começa a ser uma evidência difícil de esconder.

Assim vai o mundo. Temos de fazer alguma coisa para o melhorar…

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Transitando...


Em S. Pedro do Rio Seco, aos poucos, vão-se desbravando e trilhando os caminhos da transição. Já entregámos na Câmara de Almeida, para aprovação, o projecto de arquitectura da recuperação da Casa do Chorro, a primeira que a Rio Vivo escolheu para servir de modelo de reconstrução de casas tradicionais da aldeia. É uma casa que se destinará a albergar a gente jovem que queremos trazer para a aldeia, os novos povoadores, como já lhes chamam.

Na reconstrução da Casa do Chorro vamos aproveitar as paredes exteriores em granito, e nas paredes interiores vamos utilizar os materiais e as técnicas tradicionais. Vamos utilizar o barro ou a terra crua.  Foi uma sorte termos assistido, aqui há uns meses atrás, à palestra, promovida pelo grupo de Transição da ART,  proferida pela  arquitecta Vera Schmidberger, e que nos alertou para estas técnicas construtivas.

Por causa disso, e por que estávamos a tempo, mudámos os planos da reconstrução. O arquitecto Ferreira de Almeida que tinha o projecto já finalizado, aceitou de bom grado adaptá-lo aos novos materiais,  e está agora perfeitamente sintonizado com a opção escolhida. O António André já foi ao "Caminho da Junça" e ao "Alto de Carapito" recolher amostras da terra argilosa que as Oficinas da Terra Crua vão analisar. Depois, na altura do tempo quente,  havemos de construir os adobes e secá-los ao sol.

O Zé e o Tiago, vencedores do prémio Riba Coa, andam ocupados a desbravar o terreno do Salgueiral onde desenvolvem  a permacultura; O Filipe Vilhena e o Tó Pigas, sempre que podem, aparecem para ajudar. Já estão construídas as “camas” para as culturas, a estufa já tem germinadores, as árvores de fruto já mostram os primeiros rebentos.

Na Asta, que é uma associação que vale a pena conhecer, fomos ouvir falar de agricultura social. A quinta da Asta já produz, o entusiasmo não falta, e os produtos da terra já ajudam a compor o orçamento da Associação.

Na Cabreira, localidade onde fica a Asta, conhecemos o António e a Regina que abraçaram a profissão de pastores e já tratam de 300 ovelhas. Mas são muitos os problemas que têm de enfrentar: custos a crescer, crédito cada vez mais caro e difícil. E o escoamento dos produtos sempre na dependência dos compradores. Pagaram pela tosquia, mas não conseguem recuperar este custo com a venda da lã. Estas iniciativas têm de ser acarinhadas, elas são o caminho certo para o futuro, e nós, na Rio Vivo, tudo faremos para as apoiar.

Em Almeida, na Câmara Municipal, ficámos a saber que existe na Malhada Sorda uma olaria de barro vermelho, preparada para trabalhar e que só espera os oleiros para começar a laborar. Eu ainda me recordo, no tempo da minha infância em S. Pedro, dos cântaros da Malhada Sorda, que estavam no basal da cozinha e onde se guardava a água da casa. Vai ser feita uma visita ao local, e a ideia é estudar a viabilidade desta unidade. Depois, procurar e trazer os oleiros para trabalhar. Mais uma vez, a Rio Vivo vai empenhar-se no processo.

A Paula está empenhada em relançar, em S. Pedro, o ciclo do linho. Os mais velhos ainda se lembram das tarefas desta actividade: colheita, a molha na ribeira, a espadeirada, a cardação, a fiação, a tecelagem. Estender um dia, sobre a mesa da refeição, uma toalha de linho produzido, fiado e tecido em S. Pedro, é um sonho possível.

E a Escola continua viva. A Caetana cativou miúdos e graúdos.
Em S. Pedro, vamos transitando...

segunda-feira, 18 de abril de 2011

População e Consumo de Petróleo

No último século, a população mundial quadruplicou, passando de 1,7 mil milhões, no início do século XX, para os 6,5 mil milhões de pessoas no ano 2000. Actualmente já somos mais de 7 mil milhões. Por outras palavras, pode afirmar-se que, nos últimos 100 anos, a população mundial aumentou exponencialmente com uma taxa de crescimento de 1,8 %, e que duplicou nos últimos 40 anos.

Contudo, se observarmos o crescimento da população em diferentes áreas do planeta, verifica-se que o mesmo não foi uniforme. Em muitas dessas áreas o crescimento foi muito forte e noutras foi muito fraco, nulo, ou até mesmo negativo. No primeiro caso, estão países da África subsariana, da América Latina e da Ásia, e no segundo, estão alguns dos países mais desenvolvidas da Europa e da América do Norte.

E as previsões da Organização das Nações Unidas apontam para que a população mundial seja, em 2050, de cerca 9 mil milhões. São previsões preocupantes tendo em conta que mais população significa necessidade de mais alimento, de mais energia, e de mais recursos. Num planeta finito e com recursos limitados, coloca-se uma vez mais a eterna pergunta: até onde poderá crescer a população mundial, e quais são os limites a esse crescimento?

O que provocou o grande aumento populacional dos últimos 100 anos,  foi o grande crescimento económico, a revolução verde, e o desenvolvimento tecnológico.  Mas a perfeita correlação entre aumento populacional e consumo energético deixa claro que foi a disponibilidade de uma energia abundante e barata (sobretudo o petróleo), a verdadeira causa deste extraordinário crescimento.













E se um dia faltarem os recursos para sustentar o crescimento populacional o que acontecerá? Como é que poderá ser contido esse crescimento?  Naturalmente, baixando a natalidade, ou aumentando a taxa de mortalidade ou as duas coisas ao mesmo tempo. Mas seja qual for a opção, as consequências são imprevisíveis. Porém, uma coisa parece certa: se os limites forem ultrapassados, e nós não formos capazes de fazer a regulação, o planeta vai encarregar-se de a fazer.

 Não podemos meter a cabeça na areia e ignorar esta realidade. É hoje evidente que os recursos (energéticos, hídricos e minerais) não poderão acompanhar as previsões do crescimento populacional. O progresso tecnológico, também ele, tem limites.   Teremos de passar a consumir menos, e de reaprender a andar a pé, e a cultivar a terra.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Líbia: O que está em causa

O que se está a passar na Líbia ilustra bem os problemas e contradições do mundo em que vivemos, e as reacções dos diferentes países à intervenção militar ocidental reflectem já posições, que eu entendo como sinais de divergências que se poderão extremar no futuro. De alguma forma, esta situação lembra-me o tempo da Guerra Civil de Espanha (1936-1939), que foi uma espécie de prelúdio e ensaio geral do grave conflito que seria a Segunda Grande Guerra Mundial.

A Líbia é um médio produtor de petróleo e gás natural e, por aquilo que ela representa em termos energéticos, não pode ser perdida para o Ocidente. O conflito que, nesse país, emergiu após os acontecimentos do Egipto e da Tunísia, degenerou rapidamente numa oposição ao regime, e provocou o risco de se prolongar ameaçando, deste modo, o abastecimento de crude e de gás natural, vital para alguns países da Europa, como é o caso da Itália que recebe o gás líbio, via gasoduto.

A França a Inglaterra e a Itália lideram as operações militares que visam "libertar" a Líbia e reabrir os canais aos fluxos dos combustíveis fósseis. Putin, criticou, falou de espírito de cruzada, Medvedev corrigiu-o. A Alemanha que tem uma relação especial com a Rússia, de quem tem uma forte dependência energética, hesita, e parece não querer alinhar pelas posições da França e da Inglaterra. Os Estados Unidos assumiram, contrariados, a liderança das operações, mas quiseram logo largar a batata quente, receosos de abrir, e suportar, uma nova frente na zona árabe.

A China, que ainda não se sentiu confortável para usar o veto contra a intervenção, no Conselho de Segurança, lamenta as operações militares, e, em chinês, "lamentar" quer dizer "condenar". Trata-se de um importante sinal que não pode ser ignorado. A Líbia é um espaço que interessa à China. A Líbia não se pode considerar propriamente um país do Médio Oriente, que é uma coutada energética da América. É um país africano, faz fronteira com o Sudão, a sul, país onde a China já está a jogar um importante papel. Vimos pelas recentes notícias relativas à expatriação de estrangeiros residentes, de  Tripoli, que a comunidade chinesa na Líbia já é extremamente numerosa.

Convergem, pois, na Líbia muitos interesses: os da Europa por ficar situada nas margens do seu Mar predilecto, o Mediterrâneo; os da China por ser um país africano, na fronteira norte do Sudão, uma sua zona de influencia; dos Estados Unidos, por estar próxima  e na área de influencia do Médio Oriente que é reconhecida como a chave energética que preside aos destinos do Mundo.

Este "blitzkrieg", que, para amenizar, foi designado de "criação de uma zona de exclusão aérea", será decidido a favor do mais forte, e,  mais tarde ou mais cedo,  Kadhafi vai perder ou perder-se. A dúvida é sempre o que vem a seguir . A acção relâmpago pode degenerar num conflito prolongado, pode até alastrar a outras regiões e servirá para criar tensões numa região onde conviria criar desanuviamento.

Como sempre temos o petróleo como motivo de mais uma guerra. Enfim, mais um sinal de o "peak-oil" não andará longe.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Uma Escola Viva

No dia de Carnaval, por iniciativa da Associação Rio Vivo,  teve lugar em S. Pedro do Rio Seco um acontecimento especial: reabriu-se a velha escola que, por falta de crianças, tinha fechado há dois anos. Foi às três horas da tarde, havia um ameaça de chuva fria que não chegou para estragar a festa. Os poucos miúdos da aldeia orientados pelo Jorge Ribeiro fizeram um teatro encantador. E não faltaram os fantoches.

O povo de S. Pedro, a quem a escola se destina, ocorreu em massa e extravasou da sala de aula. A Caetana é a nova professora e a coordenadora da Escola. O Tiago e o Zé, vencedores do Prémio Ribacôa 2010, também vieram. Tiraram folga do terreno do Salgueiral onde têm trabalhado afanosamente. Já lá começam a aparecer as "camas" da permacultura e estão plantadas muitas árvores de fruto. O moinho de aríete já está em funcionamento.

As pessoas da aldeia ainda olham com algum cepticismo para estes jovens agricultores, uma espécie de novos povoadores; mostram desconfiança relativamente às novas técnicas, mas aceitar isto, penso eu, será uma questão de tempo.

Neste dia de Carnaval deu para perceber que existe um Caminho para a Transição. Que não vai ser fácil de percorrer.

É um caminho que se faz em contra mão, contra o sentido dominante do tráfego. O mundo actual habituado ao conforto da energia fácil e abundante não aceita facilmente a via da mudança. As pessoas interrogam-se por que razão hão-de voltar a cavar a terra se o tractor ou a moto cultivadora o podem fazer de modo mais simples e com menos esforço. Ou por que não deverão continuar a usar sacos de plástico se eles são tão práticos e baratos. Talvez as pessoas ainda não tenham sentido verdadeiramente a necessidade de enveredar pelo caminho da Transição.

Mas á nossa volta multiplicam-se os sinais que nos mostram a necessidade da mudança. O desemprego que grassa entre os jovens é um desses sinais. A nossa dependência alimentar é outro deles. Mostram que o mundo está no caminho errado que é regulado por regras antigas que já não resolvem os problemas actuais.

Se em cada aldeia de Portugal reabrisse uma escola fechada, se se voltasse a utilizar a terra crua para construir as casas, se alguém mostrasse novas técnicas de cultivo, então estaríamos a lançar as sementes para o mundo novo que queremos e necessitamos começar a construir.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O Preço dos Combustíveis

Os Portugueses, tanto os particulares como os comerciantes, que utilizam veículos automóveis e vão abastecer às gasolineiras, começam a ficar, outra vez, preocupados com os preços de cada litro da gasolina e do gasóleo, os quais não param de subir.

Isto parece a repetição de um filme já visto antes. Tal como agora, no início de 2008, o preço do barril de crude começou a disparar para atingir, em Julho desse ano, na bolsa de matérias primas de Nova York, 147 dólares por barril. Actualmente o preço do barril já se aproxima dos 100 dólares, e parece estar de novo a escalar para os valores atingidos há três anos. Em Nova York os preços referem-se ao crude da referência WTI (West Texas Intermediate), e em Londres referem-se ao Brent que é uma variedade de crude extraída no Mar do Norte. E o Brent, que é a referência utilizada em Portugal, na semana passada cotava, em Londres, a 99 dólares o barril.

Como o preço do petróleo é cotado em dólares, e considerando a paridade euro/dólar, estamos neste momento apenas a 20% do valor máximo atingido em 2008. De facto, nesse ano, com um euro a valer 1,60 dolares, 147 dolares representavam 91 Euros. Valendo, neste momento, 1 euro, 1,30 dólares, e com o barril de crude a 100 dolares, isso significa ser 77 Euros o preço do barril de Brent, ou seja, na nossa moeda, estamos apenas 20% abaixo do máximo histórico do preço do barril de petróleo.

Em 2008, a seguir ao máximo histórico dos preços, o mundo entrou em recessão, a produção mundial de petróleo baixou, entre meados de 2008 e final de 2009, 2,5 milhões de barris dia. Esta baixa resultou sobretudo da redução de consumo nos países da OCDE. Durante o ano de 2010 assistimos a uma recuperação da produção que, no final do ano, voltou a atingir os 87 milhões de barris por dia, ou seja, os níveis do máximo de 2008. Os responsáveis por este aumento da procura foram os países emergentes e também os próprios países da OPEC.

A persistirem, estes preços altos do crude e dos seus derivados, vão criar problemas acrescidos às economias sobretudo aquelas que dele mais dependem, como acontece com as economias dos países da OCDE. E a desejada retoma, será fortemente penalizada, e o  fantasma da recessão parece renascer. À escalada de preços voltarão a estar associados os protestos de camionistas, a alta de preço de matérias primas, e a subsequente recessão económica.

Mas tudo isto mas não é nada que não estivesse nas previsões dos analistas que estudam o pico de petróleo.  Estes ciclos de preço em alta e baixa do crude resultam das pressões da procura e das limitações da oferta. A procura é muito rígida, na medida em que o aumento de preço não provoca a diminuição do consumo, até porque não existe substituto alternativo. Existindo crescimento económico aumenta a procura de petróleo, isso provoca aumento de preços, o que, por sua vez vai reduzir e condicionar esse crescimento económico. O sistema entra num ciclo de sobe e desce, o gráfico dos preços assemelha-se aos dentes de uma serra, e a cada retoma segue-se uma nova recessão, sempre pior que a anterior.

Estas oscilações do preço do crude fazem lembrar as oscilações do preço óleo de baleia no século XIX. Nos meados do século XIX, o óleo de baleia era intensamente usado na iluminação e lubrificação. A sua exploração levou a uma desenfreada caça à baleias e quase à sua extinção. Esta história, que é aqui relatada de uma forma interessante, lembra a curva de Hubbert para o pico do petróleo.

Durante muito tempo pensou-se que a economia era a ciência dos fluxos monetários. As medidas para vencer as crises visavam agir apenas sobre o dinheiro que representa a riqueza presente e o crédito que representa a riqueza futura. E, acreditava-se que era o dinheiro que alimentava a economia. Mas agora começamos a perceber que a economia tem muito mais a ver com o mundo real do que aquilo que nos queriam fazer acreditar. A economia é uma máquina que se alimenta de produtos de baixa entropia (como é o caso da energia), e que expele produtos de alta entropia (lixo desperdícios, emissões). E que obedece às leis monetárias, mas também às leis da Física.

Os preços dos combustíveis fósseis, cada vez mais escassos, são um sinal desta realidade. Que, no curto prazo, vai ter consequências para o nossos bolsos e que, no longo prazo, terá consequências para o nosso futuro colectivo.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

2010, Notas do Ano que Termina

Os mercados

Neste ano de 2010, que está a terminar, ganhámos uma nova palavra e um novo conceito que veio enriquecer o nosso vocabulário, o qual, diga-se, tem sido bastante ampliado com a crise: estou a falar dos "mercados”. Esta designação corresponde a uma entidade indefinida, sem rosto, sem endereço de correio, nem número de contribuinte, mas que parece ter uma força extraordinária, como já terá sido constatado pelos nossos governantes e pelos banqueiros, que agora falam dela em cada novo discurso. O seu significado, parece-me, não é entendido pelos portugueses da rua, que vêem os efeitos da crise no seu dia a dia, mas acaba por servir de bode expiatório para a justificar. É que assim já se podem atribuir as culpas a alguém, sem ter de alterar o discurso de base, nem pôr em causa a sua coerência.

O sistema económico que vigora no mundo global tem um lógica, e as suas leis são inexoráveis. Eu, que não sou especialista destas coisas e nem sequer sou economista de escola, defini, para meu uso pessoal, umas leis do Liberalismo Económico. E fiz isto, para tentar perceber o que é isso dos “mercados”.

1. Lei do Crescimento Contínuo: Para sobreviver, tens de crescer.

2. Lei da Remuneração do Capital: Uma parte da tua produção tem de servir para remunerar o capital.

3. Lei da Competitividade Global: Para ganhares, tens de ser melhor que os outros.

4. Lei da Selva: Se falhares, ninguém te ajudará.

Estas leis estão inerentes ao próprio sistema, fazem parte intrínseca dele. Uma sofisticada rede de agentes (agências de rating, fundos de investimento, seguros de crédito, ...) vigia os actores do sistema para ver se estão em conformidade com as suas leis. Esta rede são os “mercados”, que se limitam a apontar os fracos ou os fora da lei. E nada mais... Fica apenas por explicar quem manda nos mercados.

Os “Pigs”

Foi a designação que, durante o ano que agora termina, se colou a certos países (Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha) para significar os países  do desenrasca. São os países que têm em comum o facto de terem deficits públicos e dividas externas elevadas, e tal como mostrou o Luís de Sousa, são os que têm uma maior dependência energética do Petróleo. Os “Pigs” criaram mais gordura do que músculo, e, por imposição dos mercados, vão ter de fazer dieta forçada... Por muito tempo, imagino eu.

O Pico do Petróleo

Eu acredito que o ano de 2010 ficará na história económica como o ano do “pico do petróleo”. O conceito vai penetrando nos media de massas e a própria AIE (Agência Internacional de Energia)  já o plasmou, pela primeira vez, no seu relatório anual de 2010, o World Energy Outlook 2010. O “pico do petróleo”, mais do que qualquer outra coisa, é a verdade que maior dor vai trazer ao mundo: aos políticos porque lhes torna mais difícil a venda das ilusões, aos economistas porque lhe mata a crença no crescimento contínuo, às empresas porque lhes retira crédito, ao cidadão comum porque lhes rouba os empregos, e lhes ensombra o futuro.

A Transição

A Transição começa a surgir, aos olhos de muitos, como uma alternativa à Globalização, como o caminho para uma nova ordem de valores e de crenças, ou seja, de um novo paradigma para a Humanidade. Estas mudanças de paradigma, com os seus traumas associados, já ocorreram noutros momentos: na transição do feudalismo para a burguesia urbana, no advento da era industrial, com a revolução Francesa, com os movimentos operários no início do século XX. De uma forma ainda pouco organizada, quase espontânea, em Portugal começaram a surgir os primeiros movimentos ou iniciativas de transição. O colóquio sobre transição em Pombal, realizado em Abril passado, foi um ponto alto destes movimentos. Iniciativas de transição estão a aparecer em Pombal, Paredes, Telheiras, Portalegre e Linda a Velha. E outras parecem estar na calha.


A Morte de Matt Simmons

Matt Simmons, que faleceu no verão de 2010, foi um grande comunicador e um grande conhecedor das questões ligadas ao “pico do petróleo”, e que muito influenciou todo o movimento que o estuda e divulga. Foi no seu livro "Crepúsculo no Deserto" que eu aprendi muito sobre a importância do petróleo, e onde eu comecei a perceber melhor o papel dos países do Golfo (e também as suas fragilidades) no futuro energético da Humanidade.


A (não)Retoma

A retoma falhada fica a marcar o ano de 2010. Infelizmente, acredito eu, também não chegará em 2011, nem em 2012... Esta falha persistente da retoma é como um motor de arranque,  de um automóvel,  que não funciona. Pouco a pouco, vamo-nos convencendo, de que não é um problema na bateria do carro, mas sim de falta de combustível.


A China , o seu crescimento e as suas contradições
A China é o maior paradoxo do nosso tempo: tem de crescer para alimentar o ritmo da sua economia e para não libertar as tensões  das contradições internas; por outro lado, não pode crescer por que os recursos para alimentar esse crescimento começam a escassear. Quando a bolha chinesa rebentar, será como uma nova extinção dos dinossauros da economia mundial.


O desastre ambiental do Golfo do México
Foi um sério aviso para o Mundo, e veio mostrar a fragilidade em que assenta a extracção do crude em águas profundas (deep water).