segunda-feira, 23 de abril de 2012

Governar o Mundo



Nos séculos que se seguiram à expansão marítima iniciada pelos portugueses, o Ocidente  governou o mundo. A cultura e a civilização ocidentais, e o modo de viver da sua gente impuseram-se a todos os outros. E tanto o sistema de governo dos seus países, inspirado nos valores saídos da Revolução Francesa, como o seu sistema produtivo, baseado no modelo económico, nascido na Era Industrial - o capitalismo -, foram sendo adotados pela generalidade dos países.

Mas o fim do colonialismo, e a emergência, no período pós guerra,  de novas e prósperas economias,  vieram questionar, e,  aos poucos, esbater a primazia do Ocidente no palco das nações. Após a queda do Muro de Berlim, no início da década de 90, como consequência do colapso dos regimes de inspiração marxista e do seu modelo de economia centralizada,  o espaço de comércio livre e de regime democrático, afinal, o espaço da economia dita capitalista, alargou-se  a uma extensa área do planeta. De fora, ficaram a Coreia do Norte, Cuba, e alguns  países de fundamentalismo islâmico, como é o caso do Irão.

Mas o fato mais marcante foi, nos anos recentes, a emergência da China como grande potência que adotou o modelo económico ocidental,  o que acabou por se revelar uma coisa vantajosa - por imprimir o crescimento, e abrir novos mercados ao consumo, que a globalização exigia para se manter-  e, ao mesmo tempo, um inconveniente - por concorrer com os países mais industrializados na utilização dos recursos cada vez mais escassos.

Paralelamente a progressiva construção da comunidade europeia, tornou-se uma necessidade para organizar um espaço geográfico que tinha perdido a sua centralidade e estava enfraquecido pela perda das fontes de matérias primas. Mas ainda não está assegurado o sucesso do empreendimento.

As pressões demográficas que se fazem sentir em Africa e na Ásia e a disputa pelos recursos cada vez mais escassos, sobretudo os energéticos, são os fatores que vão condicionar as estratégias dos blocos (ainda mal definidos) e vão estar na base das decisões que vão ser tomadas nos próximos tempos. Mas a rapidez com as coisas estão a acontecer, cria uma enorme incerteza, e torna-se dificil planear e prever a prazos dilatados.

Por tudo isto, vive-se, nos dias de hoje, um daqueles momentos da História em que os países e os seus governos parecem navios a navegar sem rumo e sem bússola, ou, pior ainda, orientando-se por uma bússola desgovernada e sem norte. Falta a orientação que traz a estabilidade e segurança, e ninguém parece estar em condições de nos apontar o rumo. Porque ninguém o conhece.
 
Historicamente as elites ocidentais tiveram uma influência decisiva nos destinos da civilização. Acredita-se que do seio hermético destas elites organizadas (o eixo americano-judaico, a maçonaria, a opus dei e mais recentemente, o clube de Bilderberg) saiem os ditames que influenciam o governo das nações. Mas agora que o Ocidente enfrenta o poder crescente da China, da Índia e do mundo árabe não existe mais razão para que essas organizações possam continuar a influenciar os destinos do mundo... Nem os novos poderes em ascensão vão aceitar facilmente que assim seja.

Quem irá, a partir de agora, governar o mundo?



segunda-feira, 11 de julho de 2011

Intermezzo

Durante cerca de 2 anos escrevi  neste espaço identificando os pressupostos e explicando a lógica de uma crise iminente. Estamos já - talvez mais depressa do que tínhamos imaginado -  a vê-la chegar, ela já está  na nossa vizinhança, quase a bater à nossa porta. Passou o tempo das conjeturas, dos alertas e das justificações. É agora chegado o tempo de a assumir e enfrentar uma situação que vai mexer com tudo e com todos. Muitas portas se vão fechar, mas outras irão abrir-se. Uma coisa é certa: o futuro vai ser diferente. Em Portugal, e um pouco por toda a parte, haverá novas regras, novos valores, novas formas de viver. 
É, pois, chegado o tempo de  refletir, e de identificar a janela de esperança que todos ansiamos.

O blogue vai fazer um intervalo, e o seu autor, depois de feito e explicado o  diagnóstico, irá empenhar-se na procura dos remédios. Voltarei aqui, não para explicar a crise, pois a evidência explica-se a ela própria. Mas para mostrar os caminhos de uma nova prosperidade, que acredito está ao nosso alcance.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Muitas perguntas, poucas respostas

Diz Albert Bartlett que a mente humana não consegue entender as consequências do crescimento exponencial. Ora esta é uma das verdades que está na base dos males do nosso tempo. E não encontro melhor exemplo, para ilustrar a asserção de Bartlett, do que o crescimento da população global dos ultimos 200 anos.
Ao observar o gráfico da evolução populacional no Mundo, ficamos pasmados com a visão que ele nos apresenta



Se este gráfico fosse acrecentado até 2011 o valor da população já seria de 7 biliões (ou 7 mil milhões, para usar a nomenclatura europeia). A população mundial, nos últimos dez anos, aumentou mil milhões de pessoas, tanto quanto tinha aumentado desde o aparecimento do homem até ao ano 1800. Por outras palavras, em dez anos, a população mundial cresceu tanto como tinha crescido em milhões de anos, desde o aparecimento do Homo Sapiens!

Deixo algumas perguntas para reflexão:

Poderá a população continuar a crescer da mesma forma como cresceu no último século?
E qual o limite do crescimento populacional, ou seja qual a carga máxima que o planeta suportará?
E como vai ser possível estabilizar a população? Diminuindo a natalidade ou aumentando a mortalidade?
E quais as consequências dessa estabilização?

Para reflectir!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Requiem pela Velha Europa

Aos poucos, vamos percebendo que esta crise é mesmo uma crise diferente, uma espécie da crise das crises. A experiência do resgate da dívida da Grécia não está a resultar, e ninguém poderá garantir que Portugal, dentro de 6 a 12 meses, não esteja numa posição semelhante àquela que tem a Grécia neste preciso momento, pois são estes dois casos em tudo similares.

E o que se passa na Grécia? Trata-se de um país em que a riqueza produzida não tem correspondência nos seus gastos. Daí que apenas continuando a endividar-se pode continuar a sobreviver. Ou, para salvar a estrutura financeira dos bancos credores, e evitar a propagação do problema, continuar a viver às esmolas da Europa com austeridade, a suceder-se a outra austeridade. Ora, acredito eu, isto não vai ser possível, e à Grécia só restará um caminho: a saída do euro.

A saída do euro será para a Grécia, ou para qualquer outro país (pensemos em Portugal, que poderá seguir-se) uma experiência verdadeiramente traumática, e que, dada a trama das dependências interbancárias, se propagará como fogo em restolho por toda a Europa. De repente, o valor da moeda esvai-se, e a mais certa consequência serão os conflitos sociais, o desemprego a subir em flecha, e o alastrar da miséria. A energia, sobretudo o petróleo, quando importado e pago em dracmas desvalorizados, elevará o preço da gasolina para valores astronómicos. A mobilidade ficará reduzida, os produtos vão escassear nas lojas, a inflação será galopante.

Restará, talvez, à Grécia o turismo como âncora de salvação. Mas de onde virão os turistas? A miragem do milagre chinês como alimentador de todos os devaneios, poderá, também ela, esvair-se como resultado do rebentamento da bolha do sobreaquecimento da sua economia.
Poderá, perante a instabilidade e o vazio, a Grécia ser invadida por hordas de norte africanos que do Egipto, da Síria, do Médio Oriente escapam a uma miséria ainda maior, e que vêm preencher o vazio demográfico criado pelo envelhecimento  do velho continente?

A Europa está, pois, sem rumo. O sonho de um grande espaço económico e democrático que quisemos construir está a transformar-se num novo Império Romano que, antes de cair, se cindirá entre Norte e Sul, ao invés do velho império dos Césares que se dividiu entre o Oriente e o Ocidente. E, nesta Europa decadente, o império do Sul não chegará a cair pois em boa verdade nem chegará a existir! O do Norte, será um império teutónico que não sobreviverá tanto tempo quanto sobreviveu o império de Constantinopla.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Vícios Civilizacionais

A Transição, entendida como uma mudança de paradigma civilizacional de uma economia capitalista para uma economia sem crescimento, não vai ser um processo fácil. Os seres humanos, sobretudo os que vivem nos países detentores dos mais elevados níveis de conforto, criaram hábitos de vida dos quais se tornaram totalmente dependentes. As gerações mais novas nunca conheceram outra forma de vida diferente daquela que caracteriza a Civilização Industrial. Sempre viram as ruas pejadas de carros, sempre tiveram a televisão na sala, o computador na mesa de trabalho... E muitos consideram que ter um carro quando chegam aos 18 anos é um direito natural que lhes assiste.

Ainda há anos, George W Bush dizia, invocando uma trágica realidade, que os americanos estão viciados em petróleo. Ora vício significa a dependência de um elemento exterior, de uma droga, por exemplo, que implica a necessidade premente de a utilizar, e que provoca um grande sofrimento quando o viciado se vê privado dela. Na dependência criam-se processos neurológicos complexos que "exigem" satisfação e que provocam distúrbios e desequilíbrios de vária ordem quando não estão satisfeitos.

De entre os "vícios" da sociedade actual destaco os seguintes:

  1. O vício no elevado consumo de energia que alimenta toda a economia, e é o primeiro responsável pela pujança da nossa Civilização.
  2. O vício no petróleo e seus derivados que satisfaz a necessidade de mobilidade, condição essencial do nosso modo de vida.
  3. O vício na informação, que é veiculada pelos meios de massas tradicionais, sobretudo a televisão.
  4. O vício nas comunicações à distância entre as pessoas, criados pelos novos sistemas de comunicações móveis.
  5. O vício da comunicação interactiva que se concretiza na Internet, e que já originou as redes sociais.

Estes vícios, por sua vez, não são independentes entre si, e seu efeito reforça-se mutuamente. Por outro lado, esta situação não pode ser sustentada indefinidamente. Isto porque o vicio desgasta o viciado, amolece a sua robustez, reduz a sua capacidade de luta. Os estragos que aqueles vícios atrás citados provocam no meio envolvente são de vários tipos: poluição, esgotamento de recursos, etc.

Os Grupos de Transição, quer queiramos quer não, estão inseridos neste modelo viciado de sociedade, e embora acreditem noutro modelo diferente, em tudo dependem deste: na energia, na mobilidade, nas comunicações, na complexidade da organização social. E se um dia o sistema existente for, por algum motivo, abalado, ou mesmo colapsar, esses grupos serão arrastados na convulsão que se vai seguir. E então dificilmente, poderão subsistir, a não ser se organizados de forma completamente autónoma e isolados do resto da civilização. E mesmo assim, dificilmente escaparão, às consequências do apagão civilizacional que se seguirá, durante o qual deixará de haver leis, justiça, direitos humanos, e em que o próprio direito à vida terá de ser conquistado, em cada dia que passa.

Mas é apenas aí que reside a nossa esperança, é dessa forma que temos de nos organizar.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Mudam-se os Tempos

O meu pai nasceu em 1912.  Caso ainda fosse vivo, já teria completado 99 anos. Num caderno que ele deixou escrito para os netos, escreveu ele, quando teria cerca de 70 anos, isto:

"Vejo o mundo actual tão diferente daquele em que eu me criei que às vezes até me custa a acreditar como é possível haver tanta coisa para tanta gente. Na minha infância, nós aproveitávamos as coisas até ao limite: os fatos, as camisas, os sapatos nada se estragava, os restos de comida eram para os animais, as roupas velhas eram cortadas para fazer fios e tecer mantas. Nós não sabíamos o que era  "lixo" porque nada se deitava fora.

O que antes era tão difícil de conseguir hoje parece tão fácil. E vejo muita gente a viver bem sem trabalhar, e não consigo perceber como conseguem. Os jovens de hoje têm a água quente a sair da torneira, o conforto de uma casa de banho, e poucos sabem o trabalho e as voltas que dá um grão de trigo antes de se transformar numa fatia de pão."

Releio muitas vezes estas palavras, e hoje, que começo a aproximar-me da idade que o meu pai tinha quando as escreveu, eu entendo melhor o seu sentido. E penso como será o mundo daqui a 30 ou 40 anos quando os meus filhos tiverem a idade que eu tenho hoje.

E tento imaginar qual a mensagem que eu escreveria hoje, se tivesse de avaliar o meu percurso de vida e comparar o mundo que encontrei com o que irei deixar.

Eu vivi o mundo maravilhoso em que tudo aconteceu: nasci num tempo em que o futuro era feito de esperança. Tinha acabado uma guerra destruidora, pela primeira vez se tinha usado o poder da fissão do átomo, e todos acreditavam que aquela guerra, por ser tido tão devastadora, teria sido a última de todas.

Eu vi o homem chegar à Lua, perante a incredulidade de muitos, assisti às maravilhosas descobertas da medicina, vi a revolução verde trazer a esperança de acabar com a fome no mundo, assisti a um crescimento da riqueza do conforto  e da população que parecia não ter limites.Vivi num país e num tempo que não conheceu a fome nem a penúria.


Eu pertenço à geração que fez a ponte entre o campo e a cidade, entre o local e o global, entre a ardósia e o ipad. E no qual as distâncias desapareceram com a televisão, o avião e o automóvel. E o mundo que, há 50 anos, parecia imenso começa a parecer pequeno para tantas pessoas.

 As pessoas vivem, agora, mais anos e com melhores comodidades. Os jovens têm o seu primeiro carro quando chegam aos 18 anos. Os supermercados estão bem abastecidos, e dizem-nos que nada vai faltar e que é bom e conveniente as pessoas consumirem sempre mais e mais.

E hoje começo a ver essa abundância ameaçada, pois aquilo que parecia inesgotável parece que pode acabar. Tenho uma estranha sensação de que, daqui a 30 anos, os meus filhos não irão reconhecer este mundo que  lhes descrevo. Seria bom que tudo mudasse para melhor, e, eu acredito, está nas nossas  mãos  contribuir para que isso aconteça. Sei que não vai ser fácil, mas  é possível !

segunda-feira, 9 de maio de 2011

A Outra Transição

E Deus disse: Faça-se Luz. E a Luz fez-se. (Genesis, 1,3)

Dizem os cientistas que estudam a  origem Cosmos que houve um momento “zero”, no qual tudo existia no ínfimo espaço de um átomo. E que nesse tudo, que ao mesmo tempo era nada, se concentrava toda a matéria do Universo com uma energia infinita e uma entropia nula. Era o paradoxo do Tudo e do Nada.

E, naquele instante, terá havido um “clique” que fez expandir a matéria e fez disparar o cronómetro universal. E foi então que começou a contagem do Tempo. A esse “clique”, os cientistas chamaram o Big Bang. E, a partir daquele singelo acontecimento, a entropia do Universo começou a crescer. Porque a entropia representa o tempo que é a lei da fatalidade de todas as coisas: que nos ensina que a casa que se desfaz e cai ao chão não voltará a erguer-se sozinha. E que a ave, imolada e depenada, não voltará a voar. Porque, tal como o tempo que nunca volta para trás, a entropia só pode crescer.

Ora, dizem que tudo isto se passou há uns 15 mil milhões de anos, em algum lugar. Mas que não era lugar nenhum porque o Espaço ainda não existia. E foi então, no momento do Big Bang, que começou o Tempo. Mas se o tempo começou nesse instante, então não existia o Antes, só existiu o Depois. E a existência de um depois sem um antes não faz sentido. Porque a nossa mente só consegue conceber o instante se houver um "antes" e um "depois". Por isso, o Tempo não pode começar nem acabar. E esse é o paradoxo do Tempo.


E quando se dá o clique para disparar o cronómetro surge a pergunta : Quem estava lá a mandar começar o tempo? Ou será que o tempo começou sozinho? É este o paradoxo da Criação! Pois, uma coisa não se pode explicar a si própria. Ou terá sido o "Acaso" que criou o mundo? Nesse caso, como escreveu o Eng. Armando Lencastre, ou somos filhos de Deus ou do Acaso.

Penso que cada vez mais pessoas, em todas as latitudes, adeptos de todos os credos, desiludidas com a religião "do sucesso", que marcou os anos sagrados do "capitalismo galopante", insatisfeitos pela falta de respostas, se voltam para o seu interior alertados por estes paradoxos, impulsionados pela angústia que eles provocam. Eu chamo à necessidade desta procura de respostas a Transição Interior.

Porventura as respostas não existem e tudo se resumirá a uma questão de Fé. Talvez se encontrem aqui os fundamentos de uma nova religião, e eu acredito que a Transição Económica que nos espera, não ficará completa sem esta outra!