segunda-feira, 23 de julho de 2012

Notas de Viagem


Na semana passada andei por terras de Ribacôa, mais precisamente em Almeida e Castelo Rodrigo.
A região vive, nestes dias  agravados pela canícula e pela seca, a angústia dos tempos de crise, e sente-se desânimo e depressão um pouco por toda a parte.

O monumento ao 25 Abril inaugurado em Almeida

O monumento que há pouco se inaugurou em Almeida, para comemorar o 25 de Abril, causou alguma polémica mais pela sua estética do que pelo seu significado.  Não tenho sensibilidade artística para criticar a obra, e confesso que até nem desgosto das pedras sobrepostas e das frases nelas gravadas. Poderia ter sido mais singelo e teria o mesmo valor simbólico. Mas importa-me mais compreender o seu significado.

Terra de pequenos proprietários, sem proletariado nem indústria, nunca, no tempo da ditadura, Almeida se notabilizou por ações a favor da defesa da liberdade, da justiça social ou dos direitos das minorias. Teve, é certo, os seus democratas. Mas foram sempre uma minoria, e foi fora de Almeida que expressaram as suas ideias ou defenderam os seus ideais. Eduardo Lourenço, o mais ilustre filho do concelho que é o expoente máximo da cultura portuguesa de entre os vivos, não é um homem de Abril, porque é um homem de todas as datas, e recusa colagens. Nas votações ou nos simulacros de votações do tempo da outra senhora - e também nas eleições livres do pós 25 de abril - Almeida sempre votou massivamente do lado dos conservadores, dos que menos se identificavam com o espírito da Revolução dos Cravos. Sei de uns quantos que, em 1958, votaram Humberto Delgado mas não consta que o "General sem medo" aqui tivesse tido votação expressiva. Nem se relatou caso algum de fraude eleitoral que justificasse essa fraca votação.

Se uma data houvesse para comemorar em Almeida, essa data seria o 24 de abril e não o 25 de Abril. Mas o esforço e a persistência do Carlos  Esperança tornou lógico e justificável o que parecia ilógico e desapropriado.

A terceira muralha

Já se vê a construção de uma expressiva ciclovia à volta das muralhas de Almeida, uma obra que se antevê inútil por desnecessária. A muralha já é clicável e tem percursos bem bonitos, e alindar esses percursos teria sido preferível. Não gostei de ver esta ferida, a lembrar uma espécie de moldura modernaça em cima de uma pintura clássica. E, acho eu, não vai ajudar na candidatura de Almeida a Património Mundial da Unesco. Se um dia, passados uns anos, se fizer uma estatística e se dividir o custo da obra pelos quilómetros percorridos pelos ciclistas utilizadores, havemos de perceber melhor o erro desta decisão.

Agrupamento de Escolas

Faço parte, convidado em representação da Associação Rio Vivo, do Conselho Geral do agrupamento de escolas do concelho. E sinto-me muito honrado e orgulhoso por isso. Temos de educar de forma exemplar os poucos jovens que temos no concelho. Na ausência de outros valores, os nossos jovens são educados para a globalização e para aquilo que lhe está associado: o sucesso, a concorrência, o crescimento económico, a livre iniciativa.  Mas as escolas têm hoje alguma margem de manobra, e,  para começar enquanto não se definirem os pilares do novo paradigma, eu aconselharia a fixar os objetivos da educação à volta de três ideias simples: economizar, localizar e produzir.

O livro de Álvaro Carvalho

Estive na Mata de Lobos (essa foi a primeira razão desta viagem à Beira) onde apresentei o  novo livro do Álvaro Carvalho, "Às oito menos um quarto". Foi uma jornada inolvidável. Centenas de pessoas encheram o largo principal da Aldeia. O autor transporta-nos a um tempo que está a desaparecer, e deixa-nos a pensar como será o tempo que virá depois. Com o seu amor e dedicação pelas raízes, pessoas como o médico Álvaro Carvalho prestam um serviço extraordinário a estes deprimidos concelhos do interior.

 A Morte do Tó Sousa

Conheci o Tó Sousa numa altura que ele já tinha deixado de ser Presidente da Câmara de Almeida. Não lhe conheci posições políticas nem partidárias, nem creio que isso seja importante na avaliação do carácter das pessoas. Conheci-o, sim, como um homem afável, culto e dotado de uma memória prodigiosa.  Escrevia sobre Almeida, e deu a conhecer no Praça Alta muita da sua história. Era uma referência para o concelho que fica mais pobre com este desaparecimento. Dizem-me que deixou um vasto espólio que interessa preservar.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Educar Para Quê?

Para Paulo Freire, o patrono da educação brasileira, educar é construir, é libertar o homem do determinismo,  é estimular o raciocínio, é aprimorar o senso crítico, as faculdades intelectuais, físicas e morais. Educar é produzir um homem feliz e sábio.

A palavra educar deriva do latim educare, ex-ducere. Ducere tem o significado de um movimento com um sentido. As palavras "dux" e "duce" (o titulo de Mussolini!) derivam dessa raiz, e outras palavras como pro-duzir, con-duzir,  re-duzir, in-duzir, tra-duzir ou mesmo se-duzir estão formadas a partir do vocabulo ducereEx-ducere significará, na sua etimologia, guiar alguém com um sentido (ducere), partindo de dentro dessa pessoa para o que existe fora dela (ex). A palavra de origem grega pedagogo, derivada de  paidós (criança) e agodé (condução), terá um significado muito próximo deste.

Não pode, pois, haver ducere sem um sentido, da mesma forma que não pode haver educação sem objetivos e sem um guia que nos conduza para esses objetivos. A forma e o método de o fazer são importantes, mas o professor e o sentido são os elementos primordiais da educação. Os espartanos educavam para a guerra, os atenienses para a democracia, os romanos para a expansão e para o comércio, os judeus educavam para a entrada no reino de Deus. No Portugal medieval educava-se o povo para o trabalho, para a obediência à Igreja e aos senhores.

A revolução francesa foi a pedrada no charco que acabou com o antigo regime e nos trouxe novos sentidos para a vida e para a educação: a liberdade e a igualdade. A crise dos anos 30 do século passado recuperou (em Portugal mas não só)  valores tradicionais para a educação (Deus, Pátria e Família). Mas já, nessa altura, fervilhavam, entre nós na clandestinidade, as ideias de Marx e os ideais socialistas de uma nova esperança que  idolatrávamos nos ícones de "Lenine" ou de "Che Guevara".  O pós guerra, que só chegou a Portugal atrasado 30 anos (em 1974!), valorizou a democracia dos vencedores e o progresso que se lhe seguiu, progresso esse que minava e começava a destruir os ideais socialistas.  Foi neste período de happy motoring, como o definiu Kunstler, que se ergueram as catedrais da distribuição moderna, e se consolidou a globalização. E, como consequência do progresso cientifico e das novas tecnologias de comunicar,  o homem acreditou estar possuído de um poder sem limites e autoelevou-se à categoria de quase-deus. Elegeu-se, neste período, o sucesso e o consumismo como meta a atingir, e esse foi, em grande medida, o sentido da educação.

A crise que se manifestou em 2008, mas que já se adivinhava desde o inicio do século, veio alertar-nos de que o festim podia estar a terminar. Os incrédulos acharam que eram avisos de Cassandra e que o progresso estava ali ao virar da esquina como sempre acontecera. Mas a persistência da crise começou a corroer os fundamentos da globalização, a depressão instala-se na economia e nas mentes das pessoas, e já se começou a interiorizar a ideia da necessidade de "um novo paradigma" para significar que o mundo, tal como hoje o conhecemos, vai mudar. Mas ninguém sabe como será o novo, ou, se se alguém sabe, não o quer dizer!

Perante as incertezas e perigos do futuro já nos questionamos sobre como devemos educar as nossas crianças que valores lhes devemos incutir, qual o sentido e os lemas e as bandeiras que lhes queremos mostrar. Deus está morto ou quase, a pátria está reduzida à seleção nacional, e a família dissolve-se nas revistas do coração e nas telenovelas do horário nobre. Educar para o sucesso já não faz sentido quando já nem sequer se tem o emprego onde ele se afirma. Educar para a obediência contraria os princípios da constituição, e educar para a sobrevivência poderia seria visto como tarefa de formar marginais ou párias.

Enfrentamos esta realidade brutal: não temos valores sólidos para cimentar o edifício do nosso sistema educativo. Na Fundação Vox Populi e na comunidade Nepso estamos a trabalhar para encontrar um sentido para a vida e para a Educação.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Buenos Aires

Na semana passada, afazeres ligados à Fundação Vox Populi levaram-me até Buenos Aires. Foi uma viagem longa, via Madrid, quase 20 horas desde que saí de casa, em Lisboa, até ao Hotel  Rochester no centro velho de Buenos Aires. Ainda por cima tive de atafulhar a mala com casaco, camisolas  e sobretudo, pois aterraria  na terra dos "portenhos" em pleno inverno austral.

Buenos Aires é uma bela cidade que faz lembrar as capitais europeias. Está muito longe da desordem urbanística de S. Paulo ou dos contrastes sociais do Rio de Janeiro, onde se veem favelas dentro da cidade, lado a lado com os arranha céus.

É uma cidade portuária com muita vida, com feiras de antiguidades em San Telmo, feira de bugigangas em Palermo ou feira de artesanato no bairro da Recoleta. Não podemos escapar a um churrasco num grelhador crioulo (eles pronunciam “criojo”), e , claro, nem de deixar de assistir ao espetáculo de tango, ao som da música de Ástor Piazzolla. O Rio da Prata é um impressionante estuário de água doce com mais de 50 km de largura para o qual vertem vários rios num delta pejado de ilhas cheias de casas de veraneio. Mesmo em frente  a Buenos Aires, já no Uruguai, a uma hora de barco, está a cidade da Colónia do Sacramento fundada por portugueses no século XVII.

Na visita guiada ao bairro da Boca (onde está o estádio do famoso Boca Juniors) o guia falou dos três mitos Argentinos: Carlos Gardel, Evita e Maradona. Os argentinos vivem centrados nas representações destes mitos: o tango, a política e o futebol. A figura imaginada de Eva Perón está presente no famoso balcão da Casa Rosada no topo da Praça de Maio, e o jazigo da família Duarte (no cemitério da Recoleta), onde repousa o seu corpo, é lugar de romagem de argentinos e estrangeiros.

A grande Buenos Aires é uma aglomeração urbana de 15 milhões de habitantes, a terceira da América Latina depois da cidade do México e de S. Paulo, e que tem de enfrentar, no dia a dia os problemas da sobrepopulação. Quando percorremos uma destas mega-urbes ficamos impressionados com o seu crescimento. Afinal há 200 anos a Argentina era ainda uma colónia espanhola, e Buenos Aires era uma cidade colonial com uns escassos 40,000 habitantes. Em apenas 200 anos, o tempo de quatro gerações, a população da cidade foi multiplicada por 375!

 Resolver os problemas que o futuro das grandes cidades coloca é uma das maiores desafios para as novas gerações. O stress populacional, o stress dos recursos (sobretudo água e energia)  e o stress ambiental vão sentir-se aqui em primeiro lugar, e o impacto, no caso de uma rutura, será aqui mais devastador do que nas cidades mais pequenas ou nos meios rurais.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

A Grécia e a Europa

À hora que escrevo já se sabe que, na Grécia, a Nova Democracia terá vencido as eleições por uma margem mínima. Mas este facto não vem alterar significativamente a situação que se vive naquele país e na Europa, e a vitória da esquerda só serviria para precipitar os acontecimentos. E, só por isso, até seria desejável. Esta radicalização ou polarização do eleitorado grego vem apenas confirmar o drama que se advinha, nos próximos meses, e que vai resumir-se à angústia de uma escolha: construir ou desconstruir a Europa. Está muito mais em causa do que a moeda única e a sua preservação. Está em causa o futuro da Europa, num mundo em muito rápida transformação.

 O caminho que, no período pós-guerra, nos conduziu até aqui resultou da constatação de que a velha Europa tinha perdido a liderança do Mundo, que estava a perder as fontes de matérias primas, e que lhe restava, no futuro, o papel de uma vaga liderança cultural. Nos anos prósperos dos últimos 50 anos o caminho parecia seguro e prometia conduzir-nos ao nosso paraíso. A liberalização do comércio, a euforia de um modelo de desenvolvimento baseado na abundância, e impulsionado por intermináveis obras públicas, as apostas no turismo e os investimentos na formação pareciam ser a receita certa, e julgada perene.

O Estado Social, o conforto, a sociedade de serviços, vieram entorpecer a nobre gente do Ocidente que um dia alumiou o caminho da Civilização. Com as necessidades satisfeitas, diminuiu-se a criatividade, embotou-se o engenho. As pessoas começaram a produzir menos e a consumir mais, a viver mais tempo, não à custa do exercício físico, mas devido a melhoria da ciência médica. As crianças foram elevadas à condição de bem primeiro, começaram a escassear, e foram sendo desarmadas das suas defesas naturais, preparadas para usufruir e não para conquistar, educadas para o prazer e não para o esforço, saciadas das gorduras que entorpecem, a começar pela televisão e pelos jogos de computador.

Mário Soares vem-nos dizer, agora, que o BCE deve imprimir mais dinheiro, e faz-me pena ver um político que tem história e ajudou a fazer a história, advogar estes tratamentos paliativos, quando o mal já não se compadece com isso. Imprimir mais dinheiro é matar a economia, é querer mais do mesmo, é tratar o doente que já não se mexe de tão gordo, dando-lhe mais comida, em vez de o por a fazer exercício. No contexto atual, e pensando no sofrimento que nos espera, a espiral descendente desse sofrimento provocado pela inflação (que seria a consequência imediata do aumento da moeda em circulação, sem contrapartida na criação de riqueza) é mais dolorosa do que a espiral descendente da austeridade.

Eu acredito que a Europa não vai ser desconstruída e que a Grécia continuará no Euro. Mas isso obrigará a reconstruir a Europa noutros moldes, a mudar muitas das regras, a condicionar a democracia, e a restringir a soberania das nações que a compõem. Julgo que não será um processo fácil e que não conviverá bem com a demagogia de certos políticos. A alternativa a isto não será pacífica, possivelmente conduzirá a uma escalada de conflitos sociais. Começa a haver demasiada gente que tem a pouco a perder com o agudizar dos conflitos

A Civilização atual foi buscar muitos dos seus valores à Grécia Antiga. É uma curiosa coincidência que seja exatamente na Grécia que se desenvolvem os abcessos que ameaçam o seu futuro.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

O Papel dos Bancos

Não é fácil entender o significado da operação que acaba de ser aprovada pelo BCE  para apoiar a banca espanhola. A função que o dinheiro desempenha na economia é, para muitos de nós, uma das coisas mais difíceis de entender. Mas nos tempos de crise em que vivemos é importante, mais do que nunca, perceber o papel do dinheiro e do crédito na economia.

 Durante muitos anos fomos levados a acreditar que medidas financeiras (por exemplo, alteração das taxas de juro, aumento do investimento público.) eram suficientes para estimular o crescimento económico e criar emprego. Mas o que acontece quando esse crescimento já não pode ocorrer, porque está limitado pelas fronteiras do sistema, ou seja, pela disponibilidade dos recursos? Tal como um elástico que parece poder sempre esticar-se um pouco mais, mas só até um ponto de rutura, assim poderá reagir a economia aos estímulos financeiros.

Afinal, como se cria o dinheiro? Muito do dinheiro em circulação é criado nos sistema bancário, através do crédito. Se eu depositar 1,000 Euros num banco, de acordo com as regras vigentes que obrigam os bancos a conservar apenas uma fração (reserva fracional) dos depósitos (imagine-se 10%), o banco pode emprestar 900 desses mil euros. E estes novecentos, se depositados noutro banco, podem dar origem a mais 810 Euros de empréstimos. E assim por diante…

Na verdade, um depósito de 1,000 Euros num banco vai transformar-se em 9,000 Euros de empréstimos. Significa isto que passa a haver, em circulação, um montante de dinheiro de 10,000, os meus 1000 mais os nove mil que alguém recebeu emprestados dos bancos. É certo que foram contraídas dívidas, e que existem as respetivas responsabilidades associadas, mas o dinheiro injetado no circuito económico foi multiplicado por 10. E a este valor acresce ainda o diferencial das taxas de juro (a diferença entre a taxa que o banco cobra e a taxa que paga), a aplicar à totalidade dos empréstimos.

Na situação atual em Espanha, a crise terá estimulado uma mini corrida aos bancos, pelos clientes receosos da sua situação. e temendo perder as suas poupanças. Ora por cada Euro que se retira de um banco, este vê-se forçado, para manter os rácios, a retirar 10 Euros do crédito já concedido ou a conceder.  E isso tem um efeito devastador sobre a economia e sobre os bancos que podem, de um momento para o outro, ficar insolventes!

Torna-se então necessário recorrer aos Bancos centrais que podem  (desde que o dinheiro deixou de ter o correspondente valor em ouro) criar dinheiro a partir do nada. Por exemplo, a Fed, a Reserva Federal Norte Americana (isto é válido para o BCE, ou para qualquer banco emissor!) cria o dinheiro a partir de nada, e duma forma muito simples. Sempre que é necessário financiar o Estado, a Fed contrai empréstimos junto do mercado, emitindo obrigações ou bonos de dívida, a prazo, aplicando um taxa de juro.

Até aqui tudo bem. Mas, no final do período, quando se vencem essas obrigações, a Reserva Federal, para pagar o valor nominal mais a taxa de juro, manda imprimir moeda nova, ou passa um cheque da Reserva Federal que tem validade garantida, mas que não tem fundos a dar-lhe cobertura. Cria-se, assim, dinheiro, a partir de nada. E num montante equivalente ao deficit das contas públicas que originou a emissão das obrigações.

Porém, a criação de dinheiro, sem consquências perversas, só pode ser feita se a economia crescer na mesma proporção que o aumento  de dinheiro em circulação. Ou se se criarem ativos virtuais, sem valor ou com valor fictício para absorver o excesso de liquidez. Mas um esquema destes só pode ser alimentado de um modo temporário num esquema em pirâmide (tipo D. Branca!). Foi o que aconteceu com os chamados ativos tóxicos que deram origem à crise financeira e à falência do Lehman Brothers, em 2008.

As medidas tomadas em Espanha para apoiar a Banca, significam injetar dinheiro na economia, sem estar assegurado o seu crescimento. É certo que os impactos destas medidas se farão sentir  na zona Euro como um todo. Em parte o dinheiro que regressa a Espanha, por via do empréstimo, pode ser aquele que saiu por via da crise e dos seus receios. Está-se a seguir uma via irregular de financiamento que pode ter consequências gravosas para a Europa e para a sua economia.


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Crescimento descontrolado

 Até 1750 a economia mundial era um sistema bastante estável, e tinha um crescimento muito reduzido. Nos duzentos anos seguintes, até 1950, a globalização foi um processo que envolveu os países ditos desenvolvidos que viram, nesses duzentos anos, a sua riqueza per capita multiplicada 20 vezes. Mas uma grande parte do planeta e da sua população não beneficiou deste progresso. Ao lado dum mundo próspero, havia um mundo menos desenvolvido, o terceiro mundo, e uma grande parte da população mundial vivia ainda em regime colonial.

A economia global, que regula o relacionamento entre pessoas, empresas e países, resultou de um processo gradual que se iniciou quando os povos de diferentes regiões começaram a comerciar mercadorias entre eles. Pode dizer-se que a economia do mediterrâneo, no tempo dos Romanos, já era uma economia com as características de uma economia global, embora a uma escala diferente da atual.

Fatores impulsionadores da globalização foram a invenção da imprensa, ao permitir uma nova forma de comunicar e a expansão marítima iniciada nos séculos XV e XVI, que alargou o mundo conhecido dos ocidentais. Mas foi com a revolução industrial (centrada no carvão e na máquina a vapor), a partir de meados dos século XVIII, que a Globalização se impôs de forma consistente e estável. As ideias de Adam Smith expressas no livro "A Riqueza das Nações", publicado em 1776, apresentam já os princípios que iriam moldar a economia dos 250 anos seguintes.

Mas o grande impulso deu-se a seguir à segunda guerra mundial com o primeiro acordo de comércio livre, o GATT, em 1947, ao mesmo tempo que foram dados passos pequenos que levaram ao desaparecimento do sistema colonial. Um novo  e mais abrangente acordo  de comércio foi assinado em 1990 por mais de de 150 países que constituem o WTO (World Trade Organization).

O que se passou entre 1950 e a atualidade foi um processo de crescimento vertiginoso de alguns países que alterou por completo o panorama mundial. Nesse período, alguns países do que então se designava por terceiro mundo, multiplicaram o seu rendimento por 10 ou até por 20; existem 13 países que conseguiram crescer durante 25 ou mais anos consecutivos a um taxa média superior a 7% (o que equivale a duplicar a economia a cada 10 anos!).

A lista inclui naturalmente alguns dos países que hoje se designam de países emergentes como o Brasil o Japão, a China, a Coreia, a  Tailândia, e a Indonésia; e a Índia e o Vietname estão a entrar neste Clube.  A  Europa e os Estados Unidos (o velho Ocidente) assistem a estas vertiginosas mudanças, e procuram desesperadamente adaptar-se a elas. Mas  dão-se conta de que existem grandes incógnitas  sobre o futuro, e interrogam-se sobre como se irão estabelecer os novos equilíbrios.

A necessidade urgente e imperiosa de crescimento continua a agravar as assimetrias. Na irracional  ânsia de crescer a todo o custo perde-se a lucidez para distinguir o bom do mau crescimento. Crescimento que polui, crescimento que põe em risco recursos limitados e hipoteca as futuras gerações é um mau crescimento. Que pode dar origem a "abcessos civilizacionais" que podem por em risco a saúde da Civilização e o nosso futuro.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Eduardo, o Magnífico

A entrega do Prémio Pessoa a Eduardo Lourenço, no passado dia 14 de maio, pela oportunidade e pela justeza na sua atribuição, representa um momento alto para a cultura Portuguesa. Para participar na cerimónia, estiveram na Culturgest além dos representantes dos promotores do prémio (Expresso e CGD), figuras da cultura, da política e as principais figuras do Estado: o Presidente da República, a Presidente da Assembleia da República, o Primeiro Ministro, o Presidente do Tribunal de Contas, dois antigos presidentes, ex-ministros, e sei lá quem mais!

 Ali, mais uma vez, assistimos a uma lição magistral dada por um homem que já demonstrou há muito ser o português mais lúcido e esclarecido do nosso tempo. E, perante tão luzida manifestação, ocorre-me perguntar: que atributos tem este homem simples que atraem tanta gente à sua volta?

Já vimos, noutros contextos, uma grande unanimidade nacional à volta de portugueses das áreas do desporto ou até do espetáculo (como foram os casos de Eusébio, Rosa Mota ou de Amália Rodrigues!). São sobretudo portugueses que nos projetaram internacionalmente e promoveram o nosso orgulho nacional. E temos, é certo, grandes vultos como Camões, Pessoa, Eça ou Herculano que, a posteriori, se projetaram como estrelas no firmamento do nosso passado comum. Mas poucos portugueses, na área do pensamento e da cultura, terão tido, em vida, tão plenária aceitação como Eduardo Lourenço.

Lourenço é um pensador iluminado, analisa, estuda , e (diz ele!) não prevê (não tenho qualidades de Sibila, nem quero ser Cassandra). É firme nas suas convicções mas não alimenta polémicas. Na verdade não encontraria ninguém à sua altura, para confrontar ideias, tal o brilho e a elevação do seu pensamento.

Nasceu nas terras frias e pouco amanhadas, e historicamente indefinidas, de Riba Côa. Não ostenta riqueza, não tem ambição de poder. Não carrega pergaminhos familiares, nem tem nome sonante de família nobre. É humilde e é incondicionado. Não é um académico, nem empresário, não tem nada para vender. Não é cliente de ninguém nem alimenta clientela própria. Não se assume à esquerda mas também não defende os ideais de direita. Não se mostra crente mas fala de Deus com respeito e não ofende a religião. Tem orgulho nas suas origens humildes e na sua família. Fala do que sabe e sabe do que fala. Chega a fazer graça com coisas sérias mas toma todos a sério, e a todos respeita. Não se exprime com estrangeirismos nem expressões importadas, antes pelo contrário, usa o português com propriedade e sabedoria.

Vive fora de Portugal, mas conhece e entende Portugal como poucos. Tem uma noção muito lúcida sobre a Hispanidade, e parece encontrar mais semelhanças do que diferenças entre as culturas dos povos ibéricos. Não é da maçonaria, nem pertence à opus dei, nem consta que participe nas reuniões do grupo Bilderberg. Não tem, nunca teve, ambições políticas. Parece, pois, ser um homem comum.

Mas Lourenço, é, à sua maneira, um príncipe da Renascença. Ao entregar-se e ao disponibilizar-se para participar nas homenagens de que á alvo, acaba por ser ele o mecenas, dando-se a si próprio para abrilhantar e elevar o ego dos promotores. Assenta-lhe bem este cognome de "magnifico" atribuído, embora por razões diferentes, a outro Lourenço que, no período de quatroccento, brilhou em Florença.