segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O Futuro da Memória

Nesta era digital, a facilidade que temos em registar e difundir documentos e imagens está a permitir à Humanidade criar um arquivo fabuloso. Nunca, em tempo algum da História, a capacidade de criar memória para as futuras gerações foi tão ampla como é na atualidade.
Em   O Tempo e a Memória
No Coliseu de Roma já não se travam lutas de morte entre gladiadores, nem os cristãos são lançados às feras, mas ainda hoje a memória dessas lutas e desses massacres ali atrai, anualmente, cerca de quatro milhões de visitantes. O Coliseu de Roma é uma atração turística e tem associado um significado que é a sua memória. Claro que o espaço "em si" tem um valor que ultrapassa a argamassa e as pedras dos elegantes arqueamentos, é uma heterotopia no sentido que lhe deu Michel Foucault (De outros espaços).

As Jornadas Europeias do Património que são uma iniciativa anual do Conselho da Europa e da União Europeia realizam-se, este ano, no fim de semana de 28 a 30 de setembro, e têm como tema: "O futuro da memória". Sendo a memória o registo e a evocação das coisas passadas este título é uma expressão paradoxal,  algo como "O futuro do passado". A memória das coisas preserva-se na mente dos homens de forma imprecisa, e degrada-se ao passar de umas gerações a outras, mas hoje existem suportes para preservar a memória com uma capacidade e fiabilidade impressionantes. O que traz riscos de entupir e bloquear os canais de informação, reduzindo a criatividade, e constitui  "uma ameaça de glaciação do mundo devido à incessante acumulação do passado", no dizer do já referido Foucault

O património construído é um dos mais importantes suportes da memória, e  é importante preservá-lo, como espaço dessa memória, se queremos que ela tenha futuro. A memória associada às muralhas de Almeida (localidade onde irei participar nas jornadas) é o meu exemplo para reflexão. Qual o conteúdo e qual o futuro desta "memória" de pedra? Na época da sua construção (na versão abaluartada), iniciada em 1641, estas muralhas fronteiriças tinham a função de proteger o território das invasões estrangeiras, e o seu futuro, nessa data, estaria associado a esta função. Isto é,  os construtores esperavam que as muralhas cumprissem este propósito de forma eficaz e por longo tempo.

Existem factos e emoções ligados às muralhas, e que integram a sua memória.  A começar pela sua construção, incluindo o projeto arquitetónico e a sua lógica no enquadramento estratégico das guerras da época. Depois a  extração do granito arrancado à rocha mãe; o trabalho do canteiro para lhe dar forma; o transporte, a elevação e assentamento das pedras, tudo feito à custa da força dos animais e dos braços humanos. Depois os episódios de guerra, as marcas físicas dos impactos dos projeteis, as baionetas das espingardas das sentinelas raspando a pedra nas guaritas. E há o heroísmo de uns, a traição de outros e o sofrimento de muitos (sobretudo sofrimento!). E não é difícil imaginar o desconforto nas casernas frias e húmidas, e a escuridão depressiva das prisões das Casasmatas. As calçadas da vila foram calcorreadas por soldados anónimos,  feridas pelas ferraduras das montadas dos oficiais, e por elas correu sangue suor e lágrimas. Esta é a memória que as muralhas guardam. Estou certo que é muito mais do que a reconstituição dos confrontos das tropas de Napoleão e de Wellington, evocados em cada ano.

Ora, o futuro é incerto e as muralhas de Almeida muito rapidamente deixaram de ter a justificação que presidiu à sua construção.  Mudaram as técnicas de guerra, os sistemas de defesa antigos tornaram-se obsoletos, as mudanças no relacionamento entre os povos retiraram valor estratégico a posições ou locais anteriormente fortificados.  E, na verdade, cerca de 150 anos após a sua construção, as muralhas deixaram de cumprir a função para que foram construídas. Serviram ainda de prisão política nas guerras liberais, mas em 1927 a praça forte foi definitivamente abandonada pelos militares.

Mas as muralhas podem e devem servir para preservar e assegurar o futuro da memória que lhe está associada. Mas não se pode viver só de memória,  pois ficaremos paralisados se o fizermos. Precisamos de projetar a memória no futuro. Recriar a utilidade das coisas, dar-lhe novas funcionalidades, é a melhor forma de atribuir futuro à memória. O Coliseu de Roma é hoje uma peça de museu e é esse o seu valor. Tem um público que o "consome" como um produto. Como produto ele vende-se, utilizando as modernas das técnicas de marketing para se posicionar e comunicar...

Também em Almeida será necessário um grande esforço criativo para dar futuro à memória das muralhas. Julgo que é o momento de lançar mãos à obra.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Fogo!

Julgo que os portugueses nunca gostaram de empresários, nem de gente que faz dos negócios o seu modo de vida. Em Lisboa, não conheço nome de rua a lembrar um empresário ou um comerciante.  Mas vejo por toda a parte placas toponímicas a homenagear políticos, militares, professores, escritores, músicos, poetas, pintores, atores, fadistas, futebolistas, etc... Nem conheço livros, nem filmes, nem sagas de empresários como, por exemplo, a da família Castorp na Montanha Mágica de Thomas Mann. Os homens dos romances do nosso grande Eça são filhos família, profissionais falhados como Basílio ou Carlos da Maia, fidalgotes inúteis como Gonçalo Mendes Ramires ou filósofos diletantes como Fradique. E a única vez que Eça elege um comerciante para figura central de uma história (o Alves de Alves & Companhia) é para o retratar como um manso cornudo!

Não espanta que as recentes medidas de austeridade anunciadas pelo primeiro ministro (que tira aos trabalhadores e aos reformados, incluindo os políticos, para dar aos empresários!) tenham levantado uma onda de protestos oriundos de todos os quadrantes, de Louçã a Ferreira Leite, de Jerónimo a Bagão Felix, passando, é claro, por Soares e Freitas e Alegre. E, pela primeira vez, patrões e sindicatos fizeram coro na discordância das medidas adoptadas.

Os economistas das Escolas, da direita à esquerda, estão contra as medidas anunciadas por Passos, e falam de experimentalismo político.  Dificilmente poderíamos imaginar, nesta discordância, um consenso tão alargado. E esta generalizada oposição faz-me lembrar o vibrante 1º de maio de de 1974 quando Soares e Cunhal passearam de braço dado,  ou o ultimato inglês, de janeiro de 1890, quando uma onda de indignação varreu o país e a estátua de Camões foi vestida de luto. Isto dá que pensar...

Pela primeira vez um governo anuncia medidas que vão mexer com as pessoas (todas as pessoas!), e que vão obrigar a alterar comportamentos. Que acorda as mentes para uma realidade, e que nos mostra que a crise é mais séria do que se pensava. Parece ser um tratamento de choque de que ninguém estava à espera. A “negação” da realidade tinha-nos adormecido sobre a gravidade da situação, o Tribunal Constitucional, ao chumbar a supressão do mês de natal e do mês de férias para os funcionários públicos, parecia que tinha posto o governo em ordem. Mas, mais uma vez, a Política e a Economia não vão resolver os problemas que estão, desta vez, equacionados pelas leis da Física.

As medidas anunciadas traduzem apenas a expressão, e são consequência,  do empobrecimento real deste país, e o governo veio dizer-nos que temos de baixar de escalão. Passar a consumir menos e a trabalhar mais, deixar o clube dos ricos, voltar a ser o país pobre que nunca deixámos de ser...Contrariamente ao que muitos pensam, o consumo tem de baixar, pela simples razão de que um país não pode, de forma sustentada, consumir mais do que aquilo que produz. Retirar dinheiro ao consumo e injetá-lo na economia é um bom princípio, embora difícil de entender, e fácil de contrariar...

Podemos discordar das medidas de Passos Coelho, mas a verdade é que ninguém foi capaz de apresentar alternativas. E as alternativas, se as houver, produzirão efeitos muito semelhantes a estes. Estamos perante uma situação muito curiosa. Os políticos encartados não gostam de Passos Coelho e das suas medidas. O povo não gosta dos políticos. Será que o povo gosta de Passos Coelho? Ou temos Passos Coelho (quem diria?) a unir povo e políticos.   Se non è vero è ben trovato

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Colisão de Culturas

Neste Verão, o Miguel e mais três amigos rumaram a sul. Apanharam em Tarifa o ferry  para Tanger e foram de mochila às costas, usando os transportes públicos, descobrir Marrocos. Escusado será dizer que isso tinha de resultar numa aventura que os levou a Cefchaouen, a Fez e à famosa duna Erg Chebbi em Merzouga (considerada a porta do deserto do Sahara), muito perto da fronteira da Argélia e onde convivem gentes  das tribos tuaregues, beduínos, nómadas e berberes.

Miguel é um jovem generoso de 22 anos, e que se relaciona facilmente com as pessoas. Contou-me ele uma conversa que,  numa noite de lua cheia em que dormiam num acampamento em pleno deserto,  teve  com o guia tuareg Abdul. A certa altura, questionou ele os presentes, um a um, com a  seguinte pergunta : "Are you married?". Perante a resposta negativa de todos, o guia comenta com ar de espanto:  "Not  married!", e acrescenta:  "com essa idade ainda solteiro e sem filhos, vais ser um pai velho, e não poderás contar com os teus filhos para te ajudar" - E rematou : "Are you gay?"

Esta cena ilustra bem a diferença cultural entre as duas sociedades, a portuguesa e a marroquina, e, cuidadosamente explorada, pode resultar num tratado de economia comparada. Aos 22 anos um marroquino (falo da maioria da população) espera-o pela frente uma vida de trabalho, uma reduzida esperança de vida (que, nesta idade, não andará longe dos 50 anos). Muitos deles não saberão ler nem escrever, e já contribuem para a economia familiar desde muito tenra idade. Não sabem o que é o serviço nacional de saúde, não conhecem direitos laborais, e não têm a esperança de, um dia, vir a receber uma pensão de  reforma. De algum modo, os filhos são o seu seguro de vida.

A pergunta do tuareg tem lógica, no quadro que o rodeia, e nos seus pressupostos de vida. Mas para o Miguel e os seus amigos portugueses ela não faz nenhum sentido. Aos 22 anos um jovem português estará a terminar a faculdade, já viajou pelo mundo, tem carro desde os 18 anos, recebe uma mesada dos pais,  e terá frequentado erasmus em alguma cidade da Europa. A sua dependência dos pais e do estado foi, até esta idade, total. E as perspetivas de iniciar um trabalho a curto prazo são reduzidas. Por isso, ainda espera contar com os pais (admitindo que, felizmente, têm emprego ou recebem reforma!) durante mais alguns anos. Admitirá ter uma namorada, eventualmente viver juntos, mas casar e ter filhos não está nos seus planos de curto prazo!

A forma como a nossa sociedade prepara os jovens para a vida está desfocada em relação à realidade do país. E a presente crise veio mostrar ainda mais esse desajustamento. Dizia-me o Miguel, como forma de  justificar  esta diferença de comportamento, que os marroquinos estão 30 anos atrasados em relação a nós portugueses. Será de fato assim? Ou estaremos nós 30 anos mais próximos da insolvência social para o qual o mundo consumista e global nos está a arrastar?


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A Poeira das Estrelas

Stephen Hawking é um físico e cosmólogo inglês que desde há muito se ocupa das questões relacionadas com a origem do Universo e das leis que o governam. É considerado por muitos, lado a lado com Albert Einestein, a figura mais marcante da Física do último século.

Nas últimas décadas alterou-se a maneira como compreendemos o Universo e a sua origem. Foi Edwin Hubble que, pela primeira vez, no século passado, percebeu a sua dinâmica, e estabeleceu que ele se expande de forma continua e acelerada. Com base nestas conclusões foi formulada e aceite generalizadamente a  teoria do "Big Bang" que nos diz que o Universo teve origem há 13,7 mil milhões de anos, num ponto ínfimo e que a partir daí se começou a expandir. Duma massa homogénea inicial, o plasma, começaram a formar-se as partículas atómicas, e o elemento mais simples o hidrogénio. Depois formaram-se as estrelas onde se dá a fusão nuclear e o hidrogénio se transforma em hélio.

Em algumas estrelas as partículas elementares e os átomos leves agregaram-se em átomos pesados e nelas se formaram os elementos químicos, entre eles o carbono, o oxigénio e o silício. Ao fim de algum tempo, por acumulação de energia, essas estrelas (as supernovas) explodem, e projetam esses elementos no espaço. E foi essa poeira cósmica das supernovas que, por sua vez, originou os planetas e outras estrelas. E que fez a Terra onde surgiu a Vida. E é dessa poeira que nós, humanos, somos feitos.

Stephen Hawking coloca interrogações pertinentes: quem criou o Universo? Como foi o princípio de tudo, se é que houve principio? Neste processo surge naturalmente uma questão primordial: foi necessário Deus para criar o Universo?  O tempo universal é inimaginável para a nossa compreensão, e é o próprio Hawking que nos diz que antes do Big Bang não havia tempo, e que não havendo tempo não podia existir Deus. E conclui que o Universo poder ter surgido do nada, como num passe de mágica em que cada coisa criada tem o seu negativo, e que a soma de tudo é zero.

Desde Galileu que percebemos que a Terra não é o centro do Universo. Percorremos, desde então, um caminho extraordinário no conhecimento do espaço que nos rodeia, que só serviu para tomarmos consciência da nossa pequenez quando comparada com a grandiosidade do Universo. Já sabemos da existência de centenas de milhões de Galáxias, cada uma delas contendo centenas de milhões de sóis. Fala-se já de que poderão existir outros Universos paralelos ao nosso. Como comparação, o nosso Sol não é mais do que um singelo grão de areia de entre toda a areia existente nas praias da Terra.

 Hawking está consciente dos perigos que ameaçam a Civilização, entre eles a eventualidade de uma guerra nuclear. Diz ele: "A nossa única chance de sobrevivência a longo prazo, enquanto espécie, não é permanecer à espera no planeta Terra, mas temos de viajar para o espaço. Se queremos continuar além dos próximos 100 anos, o nosso futuro está no espaço. " Mas alguém já contestou esta solução argumentando que "o abuso do conhecimento científico nos últimos 100 anos ou mais, permitiu-nos a todos contribuir para destruir o planeta de uma forma cada vez mais eficiente e, aparentemente, o melhor que podemos esperar agora é utilizar os últimos recursos que nos restam lançando à sorte alguns humanos para o espaço para que eles possam repetir "a bagunça", mais uma vez, num outro lugar ....".

A predição de Hawking é um aviso sério e pertinente de quem sabe do que fala, mas baseia-se numa impossibilidade. Qualquer lugar habitável no espaço da nossa galáxia está a centenas ou milhares de anos de viagem, e o homem nunca poderá empreender tal viagem. O homem está aprisionado no seu sistema solar, e não se irá libertar dele. Como Prometeu, agrilhoado nas suas correntes por castigo dos deuses, também nós roubámos o fogo sagrado da sabedoria que nos deu acesso aos segredos da criação. E o nosso castigo é este de perceber esses segredos sem os poder alcançar e alterar, nem descortinar o seu sentido... E em cada novo dia, a águia há-de vir comer mais um pedaço do nosso fígado, para nos lembrar que somos mortais.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Assim vai o mundo!

Em tempo de férias, continua o mundo numa grande instabilidade. Na velha Europa, apesar dos esforços para salvar o euro, parece certa a bancarrota da Grécia e iminente o doloroso e urgente resgate da Espanha. Até a forte Alemanha vê o seu rating AAA ameaçado pela Moodys´s, e os seus bancos ameaçados de "downgrade" do rating. Algo impensável há uns meses atrás, mas sintomático da gravidade e profundidade da crise em que estamos mergulhados.

Enfrenta o mundo um daqueles dilemas que antecedem as grandes mudanças da sociedade, e até da própria civilização. Não é apenas o projeto europeu que está em causa, é o futuro de todos nós, de um certo modo de viver, de uma economia que já não encontra soluções para manter a sua própria vitalidade. E quando não somos capazes de encontrar soluções para os problemas, quando a bússola perde o norte, entra-se, muitas vezes, no perigoso domínio do aceitar a desgraça, do deixar correr o marfim, do deixar as coisas ao "deus dará".

Daqui para a frente, acho eu, tudo vai acontecer muito mais depressa, e vão encontrar-se e apontar-se culpados para o descalabro, pois há sempre culpados para tudo (Mário Soares, no seu discurso fácil e demagógico de "tudo se resolverá", já disse que tudo isto se deve à demissão dos dirigentes das democracias cristãs europeias!). Para a maioria, alinhada com a opinião dos main media, os culpados serão os especuladores financeiros, os banqueiros insaciáveis, a Chanceler Merkel arrogante e insensível ao sofrimento dos povos do sul. Como nos atestados de óbito, por obrigatoriedade, haveremos de escrever no epitáfio da crise uma causa mortis, e poucos perceberão que, afinal, tudo ocorreu por causas naturais. Por que a lei da morte é inelutável, e a explicação para ela é tão trivial como era a que se dava antigamente quando se morria simplesmente de velhice.

Na Síria vive-se na incerteza do desfecho de um conflito que já não opõe apenas o governo de Assad aos rebeldes mas opõe, de um lado, Israel e os ocidentes (o europeu e o americano) e, do outro lado, a Rússia a China e o Irão. O que está em causa é um processo complexo que tem a ver com o controlo da bacia petrolífera que rodeia o Golfo Pérsico e onde convergem interesses diversos e concorrentes entre si. Vai ser neste cenário que se irão confrontar os novos poderes mundiais, e é aqui que está o rastilho que pode incendiar a situação global. A guerra civil da Síria é o fogo a aproximar-se do rastilho!

Neste clima de confusão e instabilidade existem algumas boas noticias. Pelo menos na aparência. O Sr Leonardo Maugerie, um especialista de petróleos da italiana Eni, veio dizer numa palestra em Harvard que existe super abundância de petróleo por explorar, e que o abastecimento está assegurado por muitas décadas. Fala mesmo numa estimativa de produção global de "liquids", que inclui o biodisel e os derivados do gás, de 110 milhões de barris diários para 2020. Isto corresponde a um crescimento de 15 milhões de barris por dia em 8 anos, quando nos últimos 8 essa produção esteve quase estagnada.

De vez em quando surgem estes discursos cornucopianos para sossegar as mentes e relançar as expectativas da economia. E estas posições não são novas. Em dezembro de 1998  o Bussiness Week escevia; "you're not going to thrive in the new oil era. Technology is making it possible to find, produce, and refine oil so efficiently that its supply, at least for practical purposes, is basically unlimited." .  O mais importante não é o petróleo que existe na natureza mas aquele que se pode extrair em condições economicamente viáveis. E o petróleo de que fala o Sr Maugerie tem de ser extraído no Canadá, nos EUA, na Venezuela, no Brasil e no Iraque, em condições, quer económicas quer ambientais, muito adversas.

Em Portugal estamos a ver o crescimento e e retoma do emprego por um canudo. A seca e os incêndios, o deficit do orçamento e  da segurança social, são más noticias para os governantes. A crise instala-se na economia e, pior do que isso, nas mentes das pessoas. Na Groenlândia, dizem as agências ambientais que fazem o controlo da região por observação através de satélites, o degelo atingiu, em meados de julho, 97% do território.  Assim vai o mundo!


segunda-feira, 23 de julho de 2012

Notas de Viagem


Na semana passada andei por terras de Ribacôa, mais precisamente em Almeida e Castelo Rodrigo.
A região vive, nestes dias  agravados pela canícula e pela seca, a angústia dos tempos de crise, e sente-se desânimo e depressão um pouco por toda a parte.

O monumento ao 25 Abril inaugurado em Almeida

O monumento que há pouco se inaugurou em Almeida, para comemorar o 25 de Abril, causou alguma polémica mais pela sua estética do que pelo seu significado.  Não tenho sensibilidade artística para criticar a obra, e confesso que até nem desgosto das pedras sobrepostas e das frases nelas gravadas. Poderia ter sido mais singelo e teria o mesmo valor simbólico. Mas importa-me mais compreender o seu significado.

Terra de pequenos proprietários, sem proletariado nem indústria, nunca, no tempo da ditadura, Almeida se notabilizou por ações a favor da defesa da liberdade, da justiça social ou dos direitos das minorias. Teve, é certo, os seus democratas. Mas foram sempre uma minoria, e foi fora de Almeida que expressaram as suas ideias ou defenderam os seus ideais. Eduardo Lourenço, o mais ilustre filho do concelho que é o expoente máximo da cultura portuguesa de entre os vivos, não é um homem de Abril, porque é um homem de todas as datas, e recusa colagens. Nas votações ou nos simulacros de votações do tempo da outra senhora - e também nas eleições livres do pós 25 de abril - Almeida sempre votou massivamente do lado dos conservadores, dos que menos se identificavam com o espírito da Revolução dos Cravos. Sei de uns quantos que, em 1958, votaram Humberto Delgado mas não consta que o "General sem medo" aqui tivesse tido votação expressiva. Nem se relatou caso algum de fraude eleitoral que justificasse essa fraca votação.

Se uma data houvesse para comemorar em Almeida, essa data seria o 24 de abril e não o 25 de Abril. Mas o esforço e a persistência do Carlos  Esperança tornou lógico e justificável o que parecia ilógico e desapropriado.

A terceira muralha

Já se vê a construção de uma expressiva ciclovia à volta das muralhas de Almeida, uma obra que se antevê inútil por desnecessária. A muralha já é clicável e tem percursos bem bonitos, e alindar esses percursos teria sido preferível. Não gostei de ver esta ferida, a lembrar uma espécie de moldura modernaça em cima de uma pintura clássica. E, acho eu, não vai ajudar na candidatura de Almeida a Património Mundial da Unesco. Se um dia, passados uns anos, se fizer uma estatística e se dividir o custo da obra pelos quilómetros percorridos pelos ciclistas utilizadores, havemos de perceber melhor o erro desta decisão.

Agrupamento de Escolas

Faço parte, convidado em representação da Associação Rio Vivo, do Conselho Geral do agrupamento de escolas do concelho. E sinto-me muito honrado e orgulhoso por isso. Temos de educar de forma exemplar os poucos jovens que temos no concelho. Na ausência de outros valores, os nossos jovens são educados para a globalização e para aquilo que lhe está associado: o sucesso, a concorrência, o crescimento económico, a livre iniciativa.  Mas as escolas têm hoje alguma margem de manobra, e,  para começar enquanto não se definirem os pilares do novo paradigma, eu aconselharia a fixar os objetivos da educação à volta de três ideias simples: economizar, localizar e produzir.

O livro de Álvaro Carvalho

Estive na Mata de Lobos (essa foi a primeira razão desta viagem à Beira) onde apresentei o  novo livro do Álvaro Carvalho, "Às oito menos um quarto". Foi uma jornada inolvidável. Centenas de pessoas encheram o largo principal da Aldeia. O autor transporta-nos a um tempo que está a desaparecer, e deixa-nos a pensar como será o tempo que virá depois. Com o seu amor e dedicação pelas raízes, pessoas como o médico Álvaro Carvalho prestam um serviço extraordinário a estes deprimidos concelhos do interior.

 A Morte do Tó Sousa

Conheci o Tó Sousa numa altura que ele já tinha deixado de ser Presidente da Câmara de Almeida. Não lhe conheci posições políticas nem partidárias, nem creio que isso seja importante na avaliação do carácter das pessoas. Conheci-o, sim, como um homem afável, culto e dotado de uma memória prodigiosa.  Escrevia sobre Almeida, e deu a conhecer no Praça Alta muita da sua história. Era uma referência para o concelho que fica mais pobre com este desaparecimento. Dizem-me que deixou um vasto espólio que interessa preservar.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Educar Para Quê?

Para Paulo Freire, o patrono da educação brasileira, educar é construir, é libertar o homem do determinismo,  é estimular o raciocínio, é aprimorar o senso crítico, as faculdades intelectuais, físicas e morais. Educar é produzir um homem feliz e sábio.

A palavra educar deriva do latim educare, ex-ducere. Ducere tem o significado de um movimento com um sentido. As palavras "dux" e "duce" (o titulo de Mussolini!) derivam dessa raiz, e outras palavras como pro-duzir, con-duzir,  re-duzir, in-duzir, tra-duzir ou mesmo se-duzir estão formadas a partir do vocabulo ducereEx-ducere significará, na sua etimologia, guiar alguém com um sentido (ducere), partindo de dentro dessa pessoa para o que existe fora dela (ex). A palavra de origem grega pedagogo, derivada de  paidós (criança) e agodé (condução), terá um significado muito próximo deste.

Não pode, pois, haver ducere sem um sentido, da mesma forma que não pode haver educação sem objetivos e sem um guia que nos conduza para esses objetivos. A forma e o método de o fazer são importantes, mas o professor e o sentido são os elementos primordiais da educação. Os espartanos educavam para a guerra, os atenienses para a democracia, os romanos para a expansão e para o comércio, os judeus educavam para a entrada no reino de Deus. No Portugal medieval educava-se o povo para o trabalho, para a obediência à Igreja e aos senhores.

A revolução francesa foi a pedrada no charco que acabou com o antigo regime e nos trouxe novos sentidos para a vida e para a educação: a liberdade e a igualdade. A crise dos anos 30 do século passado recuperou (em Portugal mas não só)  valores tradicionais para a educação (Deus, Pátria e Família). Mas já, nessa altura, fervilhavam, entre nós na clandestinidade, as ideias de Marx e os ideais socialistas de uma nova esperança que  idolatrávamos nos ícones de "Lenine" ou de "Che Guevara".  O pós guerra, que só chegou a Portugal atrasado 30 anos (em 1974!), valorizou a democracia dos vencedores e o progresso que se lhe seguiu, progresso esse que minava e começava a destruir os ideais socialistas.  Foi neste período de happy motoring, como o definiu Kunstler, que se ergueram as catedrais da distribuição moderna, e se consolidou a globalização. E, como consequência do progresso cientifico e das novas tecnologias de comunicar,  o homem acreditou estar possuído de um poder sem limites e autoelevou-se à categoria de quase-deus. Elegeu-se, neste período, o sucesso e o consumismo como meta a atingir, e esse foi, em grande medida, o sentido da educação.

A crise que se manifestou em 2008, mas que já se adivinhava desde o inicio do século, veio alertar-nos de que o festim podia estar a terminar. Os incrédulos acharam que eram avisos de Cassandra e que o progresso estava ali ao virar da esquina como sempre acontecera. Mas a persistência da crise começou a corroer os fundamentos da globalização, a depressão instala-se na economia e nas mentes das pessoas, e já se começou a interiorizar a ideia da necessidade de "um novo paradigma" para significar que o mundo, tal como hoje o conhecemos, vai mudar. Mas ninguém sabe como será o novo, ou, se se alguém sabe, não o quer dizer!

Perante as incertezas e perigos do futuro já nos questionamos sobre como devemos educar as nossas crianças que valores lhes devemos incutir, qual o sentido e os lemas e as bandeiras que lhes queremos mostrar. Deus está morto ou quase, a pátria está reduzida à seleção nacional, e a família dissolve-se nas revistas do coração e nas telenovelas do horário nobre. Educar para o sucesso já não faz sentido quando já nem sequer se tem o emprego onde ele se afirma. Educar para a obediência contraria os princípios da constituição, e educar para a sobrevivência poderia seria visto como tarefa de formar marginais ou párias.

Enfrentamos esta realidade brutal: não temos valores sólidos para cimentar o edifício do nosso sistema educativo. Na Fundação Vox Populi e na comunidade Nepso estamos a trabalhar para encontrar um sentido para a vida e para a Educação.