segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Um Dilema Angustiante

O governo de Passos e Gaspar não é certamente um bom governo. E, ainda por cima, tem Relvas e Portas que em nada favorecem a fotografia. Mas os anteriores governos não foram melhores do que este. Não se deve pois, como alguns querem fazer, culpar apenas este governo e este orçamento pela situação do país.  E não fica bem ao naipe de antigos responsáveis políticos e ex-governantes vir agora demarcar-se da situação e armar em inocentes. Falo de Soares, de Freitas, de Ferreira Leite, de Félix, de Sampaio que vêm, em coro, carpir as desgraças da classe média como se estivessem de mãos limpas. E, o pior de tudo, é que parecem estar, também eles, desorientados sobre o caminho a tomar, e mostram-se incapazes de nos indicar vias alternativas.

Encontrar os culpados da situação em que vivemos não é um exercício fácil. Para o cidadão comum os culpados são "eles", os que nos conduziram à crise. Mas eu acho que os verdadeiros culpados somos todos nós. Todos nós que elegemos os nossos governantes e andamos distraídos a vê-los tomar decisões pouco apropriadas e contrárias ao interesse nacional. E que nos deixámos levar pelo canto das sereias consumistas.

Mas, ao aprofundar a análise, eu constato que  o principal culpado, desta situação é um conjunto de razões exógenas, exteriores à economia. A crise existe, antes de mais, porque existem prodigiosas e incontroladas forças tectónicas pressionando e  condicionando a economia. São elas as forças resultantes da pressão e das distorções demográficas, a escassez dos recursos (sobretudo os energéticos e os alimentares) e as questões ambientais, onde se destacam a poluição e as alterações climáticas.

A responsabilidade é, também, do sistema que nos rege, cujas leis e regras, desde há 250 anos (situo o seu início em 1776, ano em que  Adam Smith publicou a  Riqueza das Nações) governam a economia. Este sistema (capitalista, global ou neo-liberal, chamem-lhe o que quiserem)  está assente num modelo financeiro baseado no crédito, uma forma de criar dinheiro titulado pela riqueza futura, mas que só funciona com a garantia da criação dessa riqueza, o que exige, por sua vez, o contínuo crescimento económico.  Ora, como o crescimento parece não ser mais possível por ação das forcas tectónicas referidas, o sistema já não serve e tem que ser abandonado. Antes que ele nos abandone à nossa sorte.

Acontece que os economistas, que se formaram nas grandes Escolas e acreditam no crescimento ilimitado, que só aprenderam a trabalhar dentro deste sistema e só conhecem as suas regras, estão desorientados sem perceber o que está a acontecer. Os mais esclarecidos são economistas que vieram das ciências naturais e conhecem as leis da Física e muito em particular as da Termodinâmica, e já perceberam que a economia tem subjacente um sistema físico finito e com fronteiras que limitam o crescimento. Refiro-me, para só citar alguns, a casos como o de Frederick Soddy que foi prémio Nobel da Química e teorizou sobre o papel do dinheiro e defendeu o fim do sistema da reserva fracional, ou do físico economista Robert Ayres, que demonstrou a importância do fator energia na criação de riqueza.

No contexto da crise atual e no regime económico vigente, a receita da austeridade é a única possível para evitar a implosão do sistema financeiro, mas é uma má receita pois "congela a economia" que só está preparada para crescer. É um dilema angustiante! Estão os pobres economistas perante um doente em estado terminal, aplicando-lhe sangrias e sinapismos. Um dia destes só nos restará rezar ou recorrer aos feiticeiros para manter viva a chama da esperança.




segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Preparando o Futuro

A consciência que as pessoas começam a ter dos problemas que ameaçam o nosso futuro colectivo, e que resultam dos desequilíbrios demográficos, da escassez de recursos essenciais e das previsíveis consequências das alterações climáticas, e que estão na origem da crise que o mundo atravessa, está a provocar alterações nos comportamentos de muitas dessas pessoas. E já há quem se prepare, ou pense em começar a preparar-se, tanto a nível pessoal como a nível comunitário, para a eventualidade da ocorrência de um colapso económico e social.

Muitas pessoas estão já a adoptar novos estilos de vida, outras mudam-se para ambientes mais sustentáveis, outras começam, nos seus bairros ou nas suas comunidades, a organizar-se para fazer face às incertezas do futuro. Em países como nos Estados Unidos, no Canadá, na UE e na Austrália essa consciencialização é particularmente forte, e alastra a cada dia que passa. E recentemente têm aparecido, nesses países, muitas novelas a ficionar um mundo pós carbono e existem inúmeros livros e escritos que fazem recomendações sobre as medidas a tomar.

Essa mudança de comportamento assenta numa procura de um modo de vida mais resiliente, mais sustentável, mais rural, menos dependente das energias fósseis, mais comunitária, mais frugal, mais vegetariana e mais artesanal. E, porque se antecipa um futuro com menos mobilidade, existe de novo uma valorização e uma busca das coisas locais. A reciclagem, a compostagem, as hortas comunitárias, a simples redescoberta da importância das relações de vizinhança, são alguns dos sinais dessa mudança.

De entre os movimentos têm especial importância as iniciativas de transição que, inspiradas por Rob  Hopkins, apareceram em Totnes, no Reino Unido, em 2006.  Para uma breve pincelada de Totnes, sirvo-me de um belo texto  escrito por Philippe Jost
Totnes é o sonho dum ecologista citadino. Construída sobre uma colina, tem ruelas que sobem até às ruínas dum castelo normando, local de encontro apreciado pelos turistas, embora alguns considerem esgotante a subida. 

No Verão, dois triciclos de transporte importados da Índia, modificados para consumirem óleo de fritar recolhido nas lojas de "fish and chips", transportam gratuitamente os visitantes até ao alto do castelo, deixando que a inclinação da Fore Street, a rua principal, os leve a visitar a pé um talho antigo, um padeiro tradicional, uma loja de velas perfumadas, sem esquecer uma loja que parece ter guardado todos os discos de vinil desde os Beatles até aos Grateful Dead.
 
Não há aqui MacDonnalds, nem centros comerciais, nem grandes superfícies. Aqui crê-se que Small is beautiful, e que "pensar globalmente e agir localmente" é não só um dever mas também uma fonte de bem-estar.
 Em Portugal o movimento começa agora a dar os primeiros passos, e já vão surgindo aqui e acolá grupos que se organizam com vista a criar comunidades de transição. Exemplos como os de Paredes, Pombal, Portalegre e Telheiras, vão, seguramente, ter continuidade.

No entanto, saber como se comportarão estas comunidades numa situação real de desagregação social é algo que ainda nos escapa.Que leis (será que haverá leis?) nos regularão numa situação de colapso ou de grave perturbação da ordem social? Se existirem necessidades primárias a satisfazer, se as pessoas tiverem fome, não haverá tempo para discutir se, por exemplo, roubar para comer é legítimo ou ilegítimo. Numa organização baseada na troca directa, pode bem acontecer que elementos marginais educados no “desenrasca”, no contrabando e na traficância, sejam mais eficazes do que cidadãos cumpridores e respeitadores das leis.

Dmitry Orlov interroga-se no seu blog sobre esta questão e aconselha: "Numa situação de colapso, é certo que as velhas regras não irão funcionar, as novas não sabemos se irão funcionar ou não, nem sequer sabemos como serão. Se você participa de uma comunidade que visa preparar a transição para um modo de vida pós carbono, é importante ter em consideração uma questão vital: essa comunidade, numa eventual ruptura do sistema, irá respeitar as velhas regras ou pretende adaptar-se às novas? Talvez não seja má ideia pensar no assunto com antecedência. Considere mesmo a possibilidade testar essa eventualidade, como parte da preparação de um programa de emergência da sua comunidade".

São conselhos realistas e que devemos ter em consideração. Afinal, trata-se de saber se o futuro pertencerá aos "bons" ou aos "maus" rapazes.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

As Mãos


Há dias fui ao "Mundo das Ferramentas", uma loja tradicional  na Baixa lisboeta, com a intenção de comprar uma plaina manual. Atendeu-me um empregado espantado diante de um cliente de fato e gravata que lhe pedia uma ferramenta insólita: "Não temos, essas plainas já não se vendem, só se for para dar formação a aprendizes de marceneiro". Que agora só se vendiam plainas elétricas. A velha plaina manual é uma ferramenta que sempre me fascinou. O seu suave deslizar, as aparas que se vão soltando como caracóis, a madeira que ganha um brilho novo, os veios que se desenham e realçam a lembrar o mármore. O  tato suave na ponta dos dedos ao afagar a a face da madeira aplainada tem um prazer especial, quase sensual...

Ver aparelhar a madeira faz parte do friso  das minhas recordações de infância. Já homem, apreciava nessa tarefa o meu tio Luís que tinha uma relação especial com as ferramentas. Parecia não ser ele que as manuseava, mas elas que pareciam deslizar sozinhas, as suas mãos limitava-se a acompanhar esse deslizar. No meu tempo de menino, na minha aldeia, o mundo era feito à mão. Eram as mãos que  fiavam e teciam, que semeavam tratavam e colhiam, eram as mãos que ceifavam, malhavam o cereal e  amassavam o pão, tosquiavam as ovelhas, matavam e esfolavam as reses, cavavam a terra e abriam as sepulturas.

Na igreja, para rezar, as mãos juntavam-se viradas para o Céu. As mãos dos nossos pais e dos nossos professores afagavam e castigavam. Outras, mais dotadas e menos calejadas, empunhavam o cinzel e modelavam a pedra, com o pincel davam cor às coisas, e dedilhavam as cordas de uma guitarra para animar as festas.

As mãos são uma ferramenta fabulosa, e, na verdade, fazem a diferença entre o homem e os outros animais da criação. Foram as mãos que fizeram a história humana: desenharam gravuras nas rochas e nos tetos das cavernas, lascaram a pedra, arrotearam a terra virgem no Crescente Fértil, construiram as pirâmides no Egito, dedilharam as cordas das harpas na corte do Rei David.  Foram as mãos que empunharam espadas e fizeram as guerras, que curaram doentes,  que atearam o fogo de Hiroxima, e que assinaram a paz a bordo do Missouri.

Mas, hoje, as mãos dos homens estão a perder destreza e a ganhar outras virtualidades: martelam as teclas dos computadores, afagam os telemóveis, seguram o  volante do automóvel, e, sobretudo, gesticulam, agitadas, acompanhando as palestras e as discussões políticas. Em geral, creio eu, usam-se menos que antigamente.  Nas muitas horas passadas em frente de um aparelho de televisão ou numa sala de cinema são os olhos que funcionam, e nas pesquisas do Google as mãos limitam-se a fazer deslizar e clicar o rato. E, com as mãos paradas, o cérebro que está feito para as coordenar, fica confuso, e ameaça entrar em looping...

No "Mundo das Ferramentas" acabei por comprar uma plaina elétrica. E verifico que, comparada com a velha plaina, é mais fácil de usar, mais eficiente e exige menos perícia manual. O antigo mundo feito à mão é, hoje, um mundo feito à máquina. E contra isso nada podemos fazer. Mas se deixarmos atrofiar as mãos por falta de uso, a Civilização corre sério perigo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A Alma de Almeida!


Uma região fortemente deprimida como é o caso do Concelho de Almeida, com grande escassez de recursos, com a população envelhecida, e onde foi destruído o modo de viver tradicional, necessita urgentemente de encontrar o caminho da sobrevivência. De outro modo, e uma vez esvaziadas do seu património humano ativo, estas regiões correm o risco de se desertificar, e passar a ser um alvo fácil para usos marginais, tais como albergar lixeiras, atrair indústrias poluentes ou transformar-se em coutadas de caça. A opção pelo turismo como motor de desenvolvimento só funciona se existirem condições para atrair turistas e fixá-los com alguma permanência. Almeida tem condições para os atrair mas não para os fixar. As termas da Fonte Santa poderiam ser esse atrativo mas não parece que se dirijam a um alvo capaz de criar uma procura sustentável. Não têm dimensão crítica, não existe a componente hoteleira e, além disso, têm carácter de sazonalidade. E a crise atual, com restrições à mobilidade, também não favorece o sector do turismo.

Incentivos ou apoios, para promover iniciativas locais, quando não tiverem o devido acompanhamento ou seguimento, funcionam muitas vezes como balões de oxigénio, e também não têm servido para dinamizar, de forma sustentada, as regiões mais deprimidas. As construções de infraestruturas (auto estradas, rotundas, pavilhões), embora promovam temporariamente a atividade económica e o emprego, acabam por ter o um efeito reduzido, a prazo, sobre o desenvolvimento territorial, e, em muitos casos, são subutilizadas.

Uma outra solução pode ser a de criar zonas com uma vocação específica e com atrativos fiscais e apoios financeiros, as chamadas "zonas francas". Segundo a definição da Wikipédia "Uma zona franca é uma região "isolada e delimitada" dentro de um país, geralmente situada em um porto ou nas suas proximidades, onde entram mercadorias nacionais ou estrangeiras sem se sujeitar às tarifas alfandegárias normais. O objetivo consiste em estimular as trocas comerciais, em certos casos para acelerar o desenvolvimento regionall. São lugares onde o governo estimula a criação de empresas e indústrias com a redução dos impostos e apoios financeiros."

É uma definição genérica e tem de ser adaptada caso a caso. O espaço intramuros de Almeida obedece à condição essencial de uma zona franca pois trata-se de uma "região delimitada e isolada". Não está junto de um porto, mas está junto da principal fronteira terrestre do país. E, sendo o objetivo da zona franca acelerar o desenvolvimento regional, a opção ajusta-se perfeitamente a este caso. Mas Almeida, pelas suas características, não parece apta a ser uma zona franca industrial. A melhor opção, na minha proposta, será a de criar uma zona franca cultural. Este conceito não é novo e tomei conhecimento da sua aplicação ou tentativa de aplicação (em formatos distintos) na China, no Brasil, no Chile e na Colômbia. A minha ideia de zona franca Cultural aponta para a Cultura não tanto pelo seu aspeto comercial mas algo mais importante: o seu valor intrínseco. 

A propósito de uma ideia de criação de uma zona franca cultural, em Valparaíso, no Chile, surgida num jornal, um leitor opina de uma forma que ilustra as duas visões de cultura:
" Li atentamente a nota de H. Veliza em resposta aos comentários que fiz a uma nota sua anterior, na qual lançava a ideia de legislar no sentido de criar em Valparaíso uma Zona Franca Cultural. Depreendo da sua nota que artes e cultura são, por nós, entendidas de modos diferentes. Digo isto porque a proposta do meu interlocutor se centra na associação entre "investimento-rentabilidade e turismo", ao passo que a minha ideia se aproxima mais em considerar nas artes e na cultura o seu "valor de uso" . Por outras palavras, o Sr. Veliza não resiste à tentação, hoje tão em voga, de coisificar as artes e a cultura fazendo prevalecer o seu "valor de troca" minimizando o seu espírito, aquilo que lhe é intrínseco" (ler aqui o texto completo do comentário)
 Uma forma equilibrada de conciliar o "valor de troca" e o "valor de uso" terá de ser a solução para o caso de Almeida. O primeiro passo consistirá em criar condições para atrair artistas, escritores, músicos, atores, criando para tal incentivos, que podem ser de vários tipos.  O segundo passo, é desenvolver o conceito de zona franca cultural adaptado a este caso, visando atrair o público com base na organização de eventos culturais (valor de uso) sem esquecer o comércio associado à arte (valor de troca)

Esta proposta aqui apresentada, apenas como esboço, deveria de imediato ser acarinhada e desenvolvida pela edilidade, criando um grupo de trabalho para a desenvolver, grupo esse que deveria ser o mais abrangente e diversificado possível na sua composição. Caberia  a esse grupo estruturar o conceito e preparar uma proposta com vista a preparar a legislação adequada.

Uma vila que no dizer de um anterior Presidente da Câmara fica no "interior do interior", tem de fazer opções de rutura. E essa rutura poderá ser a criação de uma zona franca cultural. Não é fácil enfrentar o desafio, e é necessário, em primeiro lugar, acreditar nele. Acredito que vontades não faltarão mas vai ser preciso coordená-las. Na verdade trata-se de redescobrir a Alma de Almeida!

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O Futuro da Memória

Nesta era digital, a facilidade que temos em registar e difundir documentos e imagens está a permitir à Humanidade criar um arquivo fabuloso. Nunca, em tempo algum da História, a capacidade de criar memória para as futuras gerações foi tão ampla como é na atualidade.
Em   O Tempo e a Memória
No Coliseu de Roma já não se travam lutas de morte entre gladiadores, nem os cristãos são lançados às feras, mas ainda hoje a memória dessas lutas e desses massacres ali atrai, anualmente, cerca de quatro milhões de visitantes. O Coliseu de Roma é uma atração turística e tem associado um significado que é a sua memória. Claro que o espaço "em si" tem um valor que ultrapassa a argamassa e as pedras dos elegantes arqueamentos, é uma heterotopia no sentido que lhe deu Michel Foucault (De outros espaços).

As Jornadas Europeias do Património que são uma iniciativa anual do Conselho da Europa e da União Europeia realizam-se, este ano, no fim de semana de 28 a 30 de setembro, e têm como tema: "O futuro da memória". Sendo a memória o registo e a evocação das coisas passadas este título é uma expressão paradoxal,  algo como "O futuro do passado". A memória das coisas preserva-se na mente dos homens de forma imprecisa, e degrada-se ao passar de umas gerações a outras, mas hoje existem suportes para preservar a memória com uma capacidade e fiabilidade impressionantes. O que traz riscos de entupir e bloquear os canais de informação, reduzindo a criatividade, e constitui  "uma ameaça de glaciação do mundo devido à incessante acumulação do passado", no dizer do já referido Foucault

O património construído é um dos mais importantes suportes da memória, e  é importante preservá-lo, como espaço dessa memória, se queremos que ela tenha futuro. A memória associada às muralhas de Almeida (localidade onde irei participar nas jornadas) é o meu exemplo para reflexão. Qual o conteúdo e qual o futuro desta "memória" de pedra? Na época da sua construção (na versão abaluartada), iniciada em 1641, estas muralhas fronteiriças tinham a função de proteger o território das invasões estrangeiras, e o seu futuro, nessa data, estaria associado a esta função. Isto é,  os construtores esperavam que as muralhas cumprissem este propósito de forma eficaz e por longo tempo.

Existem factos e emoções ligados às muralhas, e que integram a sua memória.  A começar pela sua construção, incluindo o projeto arquitetónico e a sua lógica no enquadramento estratégico das guerras da época. Depois a  extração do granito arrancado à rocha mãe; o trabalho do canteiro para lhe dar forma; o transporte, a elevação e assentamento das pedras, tudo feito à custa da força dos animais e dos braços humanos. Depois os episódios de guerra, as marcas físicas dos impactos dos projeteis, as baionetas das espingardas das sentinelas raspando a pedra nas guaritas. E há o heroísmo de uns, a traição de outros e o sofrimento de muitos (sobretudo sofrimento!). E não é difícil imaginar o desconforto nas casernas frias e húmidas, e a escuridão depressiva das prisões das Casasmatas. As calçadas da vila foram calcorreadas por soldados anónimos,  feridas pelas ferraduras das montadas dos oficiais, e por elas correu sangue suor e lágrimas. Esta é a memória que as muralhas guardam. Estou certo que é muito mais do que a reconstituição dos confrontos das tropas de Napoleão e de Wellington, evocados em cada ano.

Ora, o futuro é incerto e as muralhas de Almeida muito rapidamente deixaram de ter a justificação que presidiu à sua construção.  Mudaram as técnicas de guerra, os sistemas de defesa antigos tornaram-se obsoletos, as mudanças no relacionamento entre os povos retiraram valor estratégico a posições ou locais anteriormente fortificados.  E, na verdade, cerca de 150 anos após a sua construção, as muralhas deixaram de cumprir a função para que foram construídas. Serviram ainda de prisão política nas guerras liberais, mas em 1927 a praça forte foi definitivamente abandonada pelos militares.

Mas as muralhas podem e devem servir para preservar e assegurar o futuro da memória que lhe está associada. Mas não se pode viver só de memória,  pois ficaremos paralisados se o fizermos. Precisamos de projetar a memória no futuro. Recriar a utilidade das coisas, dar-lhe novas funcionalidades, é a melhor forma de atribuir futuro à memória. O Coliseu de Roma é hoje uma peça de museu e é esse o seu valor. Tem um público que o "consome" como um produto. Como produto ele vende-se, utilizando as modernas das técnicas de marketing para se posicionar e comunicar...

Também em Almeida será necessário um grande esforço criativo para dar futuro à memória das muralhas. Julgo que é o momento de lançar mãos à obra.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Fogo!

Julgo que os portugueses nunca gostaram de empresários, nem de gente que faz dos negócios o seu modo de vida. Em Lisboa, não conheço nome de rua a lembrar um empresário ou um comerciante.  Mas vejo por toda a parte placas toponímicas a homenagear políticos, militares, professores, escritores, músicos, poetas, pintores, atores, fadistas, futebolistas, etc... Nem conheço livros, nem filmes, nem sagas de empresários como, por exemplo, a da família Castorp na Montanha Mágica de Thomas Mann. Os homens dos romances do nosso grande Eça são filhos família, profissionais falhados como Basílio ou Carlos da Maia, fidalgotes inúteis como Gonçalo Mendes Ramires ou filósofos diletantes como Fradique. E a única vez que Eça elege um comerciante para figura central de uma história (o Alves de Alves & Companhia) é para o retratar como um manso cornudo!

Não espanta que as recentes medidas de austeridade anunciadas pelo primeiro ministro (que tira aos trabalhadores e aos reformados, incluindo os políticos, para dar aos empresários!) tenham levantado uma onda de protestos oriundos de todos os quadrantes, de Louçã a Ferreira Leite, de Jerónimo a Bagão Felix, passando, é claro, por Soares e Freitas e Alegre. E, pela primeira vez, patrões e sindicatos fizeram coro na discordância das medidas adoptadas.

Os economistas das Escolas, da direita à esquerda, estão contra as medidas anunciadas por Passos, e falam de experimentalismo político.  Dificilmente poderíamos imaginar, nesta discordância, um consenso tão alargado. E esta generalizada oposição faz-me lembrar o vibrante 1º de maio de de 1974 quando Soares e Cunhal passearam de braço dado,  ou o ultimato inglês, de janeiro de 1890, quando uma onda de indignação varreu o país e a estátua de Camões foi vestida de luto. Isto dá que pensar...

Pela primeira vez um governo anuncia medidas que vão mexer com as pessoas (todas as pessoas!), e que vão obrigar a alterar comportamentos. Que acorda as mentes para uma realidade, e que nos mostra que a crise é mais séria do que se pensava. Parece ser um tratamento de choque de que ninguém estava à espera. A “negação” da realidade tinha-nos adormecido sobre a gravidade da situação, o Tribunal Constitucional, ao chumbar a supressão do mês de natal e do mês de férias para os funcionários públicos, parecia que tinha posto o governo em ordem. Mas, mais uma vez, a Política e a Economia não vão resolver os problemas que estão, desta vez, equacionados pelas leis da Física.

As medidas anunciadas traduzem apenas a expressão, e são consequência,  do empobrecimento real deste país, e o governo veio dizer-nos que temos de baixar de escalão. Passar a consumir menos e a trabalhar mais, deixar o clube dos ricos, voltar a ser o país pobre que nunca deixámos de ser...Contrariamente ao que muitos pensam, o consumo tem de baixar, pela simples razão de que um país não pode, de forma sustentada, consumir mais do que aquilo que produz. Retirar dinheiro ao consumo e injetá-lo na economia é um bom princípio, embora difícil de entender, e fácil de contrariar...

Podemos discordar das medidas de Passos Coelho, mas a verdade é que ninguém foi capaz de apresentar alternativas. E as alternativas, se as houver, produzirão efeitos muito semelhantes a estes. Estamos perante uma situação muito curiosa. Os políticos encartados não gostam de Passos Coelho e das suas medidas. O povo não gosta dos políticos. Será que o povo gosta de Passos Coelho? Ou temos Passos Coelho (quem diria?) a unir povo e políticos.   Se non è vero è ben trovato

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Colisão de Culturas

Neste Verão, o Miguel e mais três amigos rumaram a sul. Apanharam em Tarifa o ferry  para Tanger e foram de mochila às costas, usando os transportes públicos, descobrir Marrocos. Escusado será dizer que isso tinha de resultar numa aventura que os levou a Cefchaouen, a Fez e à famosa duna Erg Chebbi em Merzouga (considerada a porta do deserto do Sahara), muito perto da fronteira da Argélia e onde convivem gentes  das tribos tuaregues, beduínos, nómadas e berberes.

Miguel é um jovem generoso de 22 anos, e que se relaciona facilmente com as pessoas. Contou-me ele uma conversa que,  numa noite de lua cheia em que dormiam num acampamento em pleno deserto,  teve  com o guia tuareg Abdul. A certa altura, questionou ele os presentes, um a um, com a  seguinte pergunta : "Are you married?". Perante a resposta negativa de todos, o guia comenta com ar de espanto:  "Not  married!", e acrescenta:  "com essa idade ainda solteiro e sem filhos, vais ser um pai velho, e não poderás contar com os teus filhos para te ajudar" - E rematou : "Are you gay?"

Esta cena ilustra bem a diferença cultural entre as duas sociedades, a portuguesa e a marroquina, e, cuidadosamente explorada, pode resultar num tratado de economia comparada. Aos 22 anos um marroquino (falo da maioria da população) espera-o pela frente uma vida de trabalho, uma reduzida esperança de vida (que, nesta idade, não andará longe dos 50 anos). Muitos deles não saberão ler nem escrever, e já contribuem para a economia familiar desde muito tenra idade. Não sabem o que é o serviço nacional de saúde, não conhecem direitos laborais, e não têm a esperança de, um dia, vir a receber uma pensão de  reforma. De algum modo, os filhos são o seu seguro de vida.

A pergunta do tuareg tem lógica, no quadro que o rodeia, e nos seus pressupostos de vida. Mas para o Miguel e os seus amigos portugueses ela não faz nenhum sentido. Aos 22 anos um jovem português estará a terminar a faculdade, já viajou pelo mundo, tem carro desde os 18 anos, recebe uma mesada dos pais,  e terá frequentado erasmus em alguma cidade da Europa. A sua dependência dos pais e do estado foi, até esta idade, total. E as perspetivas de iniciar um trabalho a curto prazo são reduzidas. Por isso, ainda espera contar com os pais (admitindo que, felizmente, têm emprego ou recebem reforma!) durante mais alguns anos. Admitirá ter uma namorada, eventualmente viver juntos, mas casar e ter filhos não está nos seus planos de curto prazo!

A forma como a nossa sociedade prepara os jovens para a vida está desfocada em relação à realidade do país. E a presente crise veio mostrar ainda mais esse desajustamento. Dizia-me o Miguel, como forma de  justificar  esta diferença de comportamento, que os marroquinos estão 30 anos atrasados em relação a nós portugueses. Será de fato assim? Ou estaremos nós 30 anos mais próximos da insolvência social para o qual o mundo consumista e global nos está a arrastar?