segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A Crise numa Perspetiva Civilizacional

A crise atual é considerada por muitos uma crise financeira, e por outros uma crise económica. As suas causas são atribuídas, umas vezes à crise chamada do subprime que teve lugar nos Estados Unidos em 2007, e que rapidamente se espalhou a outras regiões, mas outras vezes a crise é atribuída ao excesso de endividamento de certos países, nomeadamente países da Europa do Sul, e até há que atribua a crise ao fulgurante desenvolvimento da China e de outros países como a Rússia, o Brasil, Índia, os designados países BRIC a que se acrescentam outros países como sejam a a Indonésia, a Turquia e a África do Sul, que nos seu conjunto são designados de "países emergentes".

Mas as origens e as causas da crise são muitas vezes relacionadas com a escassez e altos preços das matérias primas, entre as quais se destacam o petróleo, o gás natural e o carvão, os chamados combustivéis fósseis, e embora em menor número, há quem associe a crise às modificações climatéricas as quais estarão, por sua vez, associadas a fenómenos tais como furacões, tornados, cheias, secas, etc.

A crise que afeta o mundo é uma crise complexa, resiliente, e não é fácil de explicar. Talvez por isso tem sido tão difícil para os governantes e para os economistas encontrar a saída para ela. Pela sua complexidade e pela sua persistência em manter-se ─ e até agravar-se ─ vamo-nos dando conta que esta não é uma crise como as outras. De facto, as outras eram passageiras, eram um assunto quase só de economistas e outros especialistas. Esta, ao contrário, mexe connosco. Deixa-nos a pensar na manutenção do nosso emprego, a conjeturar sobre a segurança das nossas poupanças, e deixa-nos, sobretudo, preocupados com o futuro dos nossos filhos. Afinal, o que é, e donde vem este monstro que encontramos em toda a parte, e nos persegue para todo o lado?

Mais do que uma crise cíclica do nosso sistema económico, esta é uma crise civilizacional, uma crise que põe em causa os próprios fundamentos da nossa forma de viver. Dizem-nos que já se vislumbram sinais a indicar que, em breve, tudo voltará ao normal, isto é, a ser como dantes. Mas apesar das medidas que, por toda a parte, são tomadas para o relançar, o almejado crescimento emperra, e a retoma demora em aparecer.

Com efeito, o pressuposto indispensável do nosso sistema económico – podemos chamar-lhe capitalismo, economia de mercado ou liberalismo económico ─ é o seu crescimento continuo. Com efeito, quer se trate da riqueza, do consumo ou do bem-estar e do conforto que lhe estão associados, todos falam em crescimento. Nos últimos 100 anos nós assistimos a esse crescimento continuo e exponencial, mais acelerado e consistente nos 65 anos que passaram desde o final da segunda guerra mundial. E de tal forma nos habituámos a ele que se criou a falsa ilusão de que seria eterno.

Nesse século de grande prosperidade – até há quem lhe tenha chamado a Idade de Ouro – vimos nascer o conceito de Globalização. Foi um período único e extraordinário de desenvolvimento económico, durante o qual diminuiu a mortalidade infantil, aumentou a esperança de vida, e quadruplicou o número de seres humanos à face do Planeta.

Foi uma época durante a qual se abandonaram os campos e se sobrepovoaram as cidades, algumas transformadas em imensas megapólis que o elevador, movido pela magia da electricidade, fez crescer na vertical. A construção civil fez maravilhas, e o progresso tecnológico deslumbrou-nos. O automóvel, permitindo uma grande mobilidade, criou o subúrbio e fez surgir o Centro Comercial. O avião aproximou países e culturas. O turismo foi o resultado dessa mobilidade, mas também a consequência de uma economia de excedentes.

As ondas hertzianas levaram a televisão a todos os recantos do planeta. Televisão que aproximou as pessoas, nivelou as aspirações e até os gostos. A revolução informática e a Internet trouxeram uma nova literacia e a interactividade na forma de comunicar. O conforto dos lares atingiu valores nunca antes suspeitados pelos nossos avós. E de tal forma se generalizou, que a mais humilde dona de casa dispõe hoje de serviços que antes só uma vasta equipa de empregados ou de escravos proporcionava.

E o cidadão foi transformado em consumidor, e foi elevado agora à condição de centro e motor de toda a economia. Mas chegou o momento de questionar os fundamentos da crise e reavaliar os remédios que nos propõem para a resolver. E, a partir daí, encontrar soluções mais eficazes e duradouras.

Começa a instalar-se nas mentalidades mais esclarecidas a ideia de que se estão a atingir os limites (nos recursos e na capacidade do Planeta), e não é possível assegurar, para o futuro, o crescimento exponencial das últimas décadas. E que não podemos continuar indefinidamente a incentivar o consumo como forma de estimular o crescimento pois não será esta, seguramente, a forma de sair da crise.

Temos de, com urgência, procurar outras alternativas para continuar a assegurar prosperidade à raça humana. E se isso não for possível pela via material, terá de sê-lo pela via espiritual.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A Sociologia da Crise

A experiência foi realizada por cientistas na  Universidade Emory (EUA) e pode contar-se em breves palavras. Dois símios, em jaulas contíguas, são premiados pelas tarefas que executam com rodelas de pepino. Um dia o tratador resolve dar a um deles bagos de uva, um alimento  que eles apreciam muito. O resultado foi que o macaco que continuou a receber as rodelas de pepino revoltou-se, recusou-se a executar as tarefas e devolveu, irado, o alimento ao tratador. Ou seja, entrou em greve, e insurgiu-se.  Para Eduardo Ottoni, especialista em macacos, da Universidade de S.Paulo, a experiência não mostra  que os primatas tenham “sentido de justiça" (sense of fairness). É mais correto falar em "sentido de recompensa justo".

Eu acho que na sociedade dos homens existe um grande paralelo com este comportamento dos macacos. Nas empresas, os aumentos de salário são reclamados, não por serem altos ou baixos, mas por que são comparados como o dos companheiros de trabalho. A revolta dos "indignados"  tem a ver com a percepção das desigualdades, e, infelizmente, tudo parece indicar que o sistema económico que nos rege atualmente não vai ser capaz de resolver o problema.

Tudo corre bem quando substituímos os pepinos por uvas, quando as coisas vão em frente. O pior é quando temos de voltar para trás, quando entramos em períodos de recessão, e temos de deixar as uvas e voltar aos pepinos. Conheço uma alentejana, licenciada na labuta diária da vida, que tem uma visão filosófica sobre o futuro. Diz ela que "nós viemos do mau para o bom; mas os nossos filhos e os nossos netos estão a ir do bom para o mau, e esse será o drama deles ". Ou lembro-me das sábias palavras do meu pai: "Vejo o mundo atual tão diferente daquele em que eu me criei que às vezes até me custa a acreditar como é possível haver tanta coisa para tanta gente. Na minha infância, nós aproveitávamos as coisas até ao limite: os fatos, as camisas, os sapatos nada se estragava.  Os jovens de hoje têm a água quente a sair da torneira, o conforto de uma casa de banho, e poucos sabem o trabalho e as voltas que dá um grão de trigo antes de se transformar numa fatia de pão."

Nesta nossa "idade do ouro", como lhe chamou o almirante Hyman Rickover, acedemos a benefícios   e níveis de conforto que nunca em tempo algum da história tinham sido alcançados. Mas existe um problema material sem solução. O aumento populacional e a escassez de recursos, apesar dos avanços tecnológicos, faz com haja cada vez menos bens a dividir por cada vez mais pessoas. Estamos confrontados com o dilema de Malthus, ou seja a dissonância entre a a estagnação dos recursos e o aumento populacional.

Teremos, pois, de aceitar este andar para trás, e isso não vai ser nada fácil. O sistema económico que temos não funcionará, pois vai estimular e agravar as desigualdades. E o sistema financeiro que foi desenhado para o crescimento contínuo, corre o risco de colapsar.  E para piorar as coisas, existem fatores agravantes, dos quais destaco a complexidade da economia que aumenta riscos de ocorrências de disrupção, a globalização que criou interdependências entre países (se um colapsar, colapsam todos!), e o papel da comunicação social que estimula, amplia e cataliza as reações das pessoas.

Vamos continuar a viver no fio da navalha. Até quando, não sabemos. E num previsível retrocesso civilizacional de que falava Duncan, haverá que esperar comportamentos sociais anómalos, e haverá muita matéria  para ser objeto de estudo pelos sociólogos.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Um Dilema Angustiante

O governo de Passos e Gaspar não é certamente um bom governo. E, ainda por cima, tem Relvas e Portas que em nada favorecem a fotografia. Mas os anteriores governos não foram melhores do que este. Não se deve pois, como alguns querem fazer, culpar apenas este governo e este orçamento pela situação do país.  E não fica bem ao naipe de antigos responsáveis políticos e ex-governantes vir agora demarcar-se da situação e armar em inocentes. Falo de Soares, de Freitas, de Ferreira Leite, de Félix, de Sampaio que vêm, em coro, carpir as desgraças da classe média como se estivessem de mãos limpas. E, o pior de tudo, é que parecem estar, também eles, desorientados sobre o caminho a tomar, e mostram-se incapazes de nos indicar vias alternativas.

Encontrar os culpados da situação em que vivemos não é um exercício fácil. Para o cidadão comum os culpados são "eles", os que nos conduziram à crise. Mas eu acho que os verdadeiros culpados somos todos nós. Todos nós que elegemos os nossos governantes e andamos distraídos a vê-los tomar decisões pouco apropriadas e contrárias ao interesse nacional. E que nos deixámos levar pelo canto das sereias consumistas.

Mas, ao aprofundar a análise, eu constato que  o principal culpado, desta situação é um conjunto de razões exógenas, exteriores à economia. A crise existe, antes de mais, porque existem prodigiosas e incontroladas forças tectónicas pressionando e  condicionando a economia. São elas as forças resultantes da pressão e das distorções demográficas, a escassez dos recursos (sobretudo os energéticos e os alimentares) e as questões ambientais, onde se destacam a poluição e as alterações climáticas.

A responsabilidade é, também, do sistema que nos rege, cujas leis e regras, desde há 250 anos (situo o seu início em 1776, ano em que  Adam Smith publicou a  Riqueza das Nações) governam a economia. Este sistema (capitalista, global ou neo-liberal, chamem-lhe o que quiserem)  está assente num modelo financeiro baseado no crédito, uma forma de criar dinheiro titulado pela riqueza futura, mas que só funciona com a garantia da criação dessa riqueza, o que exige, por sua vez, o contínuo crescimento económico.  Ora, como o crescimento parece não ser mais possível por ação das forcas tectónicas referidas, o sistema já não serve e tem que ser abandonado. Antes que ele nos abandone à nossa sorte.

Acontece que os economistas, que se formaram nas grandes Escolas e acreditam no crescimento ilimitado, que só aprenderam a trabalhar dentro deste sistema e só conhecem as suas regras, estão desorientados sem perceber o que está a acontecer. Os mais esclarecidos são economistas que vieram das ciências naturais e conhecem as leis da Física e muito em particular as da Termodinâmica, e já perceberam que a economia tem subjacente um sistema físico finito e com fronteiras que limitam o crescimento. Refiro-me, para só citar alguns, a casos como o de Frederick Soddy que foi prémio Nobel da Química e teorizou sobre o papel do dinheiro e defendeu o fim do sistema da reserva fracional, ou do físico economista Robert Ayres, que demonstrou a importância do fator energia na criação de riqueza.

No contexto da crise atual e no regime económico vigente, a receita da austeridade é a única possível para evitar a implosão do sistema financeiro, mas é uma má receita pois "congela a economia" que só está preparada para crescer. É um dilema angustiante! Estão os pobres economistas perante um doente em estado terminal, aplicando-lhe sangrias e sinapismos. Um dia destes só nos restará rezar ou recorrer aos feiticeiros para manter viva a chama da esperança.




segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Preparando o Futuro

A consciência que as pessoas começam a ter dos problemas que ameaçam o nosso futuro colectivo, e que resultam dos desequilíbrios demográficos, da escassez de recursos essenciais e das previsíveis consequências das alterações climáticas, e que estão na origem da crise que o mundo atravessa, está a provocar alterações nos comportamentos de muitas dessas pessoas. E já há quem se prepare, ou pense em começar a preparar-se, tanto a nível pessoal como a nível comunitário, para a eventualidade da ocorrência de um colapso económico e social.

Muitas pessoas estão já a adoptar novos estilos de vida, outras mudam-se para ambientes mais sustentáveis, outras começam, nos seus bairros ou nas suas comunidades, a organizar-se para fazer face às incertezas do futuro. Em países como nos Estados Unidos, no Canadá, na UE e na Austrália essa consciencialização é particularmente forte, e alastra a cada dia que passa. E recentemente têm aparecido, nesses países, muitas novelas a ficionar um mundo pós carbono e existem inúmeros livros e escritos que fazem recomendações sobre as medidas a tomar.

Essa mudança de comportamento assenta numa procura de um modo de vida mais resiliente, mais sustentável, mais rural, menos dependente das energias fósseis, mais comunitária, mais frugal, mais vegetariana e mais artesanal. E, porque se antecipa um futuro com menos mobilidade, existe de novo uma valorização e uma busca das coisas locais. A reciclagem, a compostagem, as hortas comunitárias, a simples redescoberta da importância das relações de vizinhança, são alguns dos sinais dessa mudança.

De entre os movimentos têm especial importância as iniciativas de transição que, inspiradas por Rob  Hopkins, apareceram em Totnes, no Reino Unido, em 2006.  Para uma breve pincelada de Totnes, sirvo-me de um belo texto  escrito por Philippe Jost
Totnes é o sonho dum ecologista citadino. Construída sobre uma colina, tem ruelas que sobem até às ruínas dum castelo normando, local de encontro apreciado pelos turistas, embora alguns considerem esgotante a subida. 

No Verão, dois triciclos de transporte importados da Índia, modificados para consumirem óleo de fritar recolhido nas lojas de "fish and chips", transportam gratuitamente os visitantes até ao alto do castelo, deixando que a inclinação da Fore Street, a rua principal, os leve a visitar a pé um talho antigo, um padeiro tradicional, uma loja de velas perfumadas, sem esquecer uma loja que parece ter guardado todos os discos de vinil desde os Beatles até aos Grateful Dead.
 
Não há aqui MacDonnalds, nem centros comerciais, nem grandes superfícies. Aqui crê-se que Small is beautiful, e que "pensar globalmente e agir localmente" é não só um dever mas também uma fonte de bem-estar.
 Em Portugal o movimento começa agora a dar os primeiros passos, e já vão surgindo aqui e acolá grupos que se organizam com vista a criar comunidades de transição. Exemplos como os de Paredes, Pombal, Portalegre e Telheiras, vão, seguramente, ter continuidade.

No entanto, saber como se comportarão estas comunidades numa situação real de desagregação social é algo que ainda nos escapa.Que leis (será que haverá leis?) nos regularão numa situação de colapso ou de grave perturbação da ordem social? Se existirem necessidades primárias a satisfazer, se as pessoas tiverem fome, não haverá tempo para discutir se, por exemplo, roubar para comer é legítimo ou ilegítimo. Numa organização baseada na troca directa, pode bem acontecer que elementos marginais educados no “desenrasca”, no contrabando e na traficância, sejam mais eficazes do que cidadãos cumpridores e respeitadores das leis.

Dmitry Orlov interroga-se no seu blog sobre esta questão e aconselha: "Numa situação de colapso, é certo que as velhas regras não irão funcionar, as novas não sabemos se irão funcionar ou não, nem sequer sabemos como serão. Se você participa de uma comunidade que visa preparar a transição para um modo de vida pós carbono, é importante ter em consideração uma questão vital: essa comunidade, numa eventual ruptura do sistema, irá respeitar as velhas regras ou pretende adaptar-se às novas? Talvez não seja má ideia pensar no assunto com antecedência. Considere mesmo a possibilidade testar essa eventualidade, como parte da preparação de um programa de emergência da sua comunidade".

São conselhos realistas e que devemos ter em consideração. Afinal, trata-se de saber se o futuro pertencerá aos "bons" ou aos "maus" rapazes.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

As Mãos


Há dias fui ao "Mundo das Ferramentas", uma loja tradicional  na Baixa lisboeta, com a intenção de comprar uma plaina manual. Atendeu-me um empregado espantado diante de um cliente de fato e gravata que lhe pedia uma ferramenta insólita: "Não temos, essas plainas já não se vendem, só se for para dar formação a aprendizes de marceneiro". Que agora só se vendiam plainas elétricas. A velha plaina manual é uma ferramenta que sempre me fascinou. O seu suave deslizar, as aparas que se vão soltando como caracóis, a madeira que ganha um brilho novo, os veios que se desenham e realçam a lembrar o mármore. O  tato suave na ponta dos dedos ao afagar a a face da madeira aplainada tem um prazer especial, quase sensual...

Ver aparelhar a madeira faz parte do friso  das minhas recordações de infância. Já homem, apreciava nessa tarefa o meu tio Luís que tinha uma relação especial com as ferramentas. Parecia não ser ele que as manuseava, mas elas que pareciam deslizar sozinhas, as suas mãos limitava-se a acompanhar esse deslizar. No meu tempo de menino, na minha aldeia, o mundo era feito à mão. Eram as mãos que  fiavam e teciam, que semeavam tratavam e colhiam, eram as mãos que ceifavam, malhavam o cereal e  amassavam o pão, tosquiavam as ovelhas, matavam e esfolavam as reses, cavavam a terra e abriam as sepulturas.

Na igreja, para rezar, as mãos juntavam-se viradas para o Céu. As mãos dos nossos pais e dos nossos professores afagavam e castigavam. Outras, mais dotadas e menos calejadas, empunhavam o cinzel e modelavam a pedra, com o pincel davam cor às coisas, e dedilhavam as cordas de uma guitarra para animar as festas.

As mãos são uma ferramenta fabulosa, e, na verdade, fazem a diferença entre o homem e os outros animais da criação. Foram as mãos que fizeram a história humana: desenharam gravuras nas rochas e nos tetos das cavernas, lascaram a pedra, arrotearam a terra virgem no Crescente Fértil, construiram as pirâmides no Egito, dedilharam as cordas das harpas na corte do Rei David.  Foram as mãos que empunharam espadas e fizeram as guerras, que curaram doentes,  que atearam o fogo de Hiroxima, e que assinaram a paz a bordo do Missouri.

Mas, hoje, as mãos dos homens estão a perder destreza e a ganhar outras virtualidades: martelam as teclas dos computadores, afagam os telemóveis, seguram o  volante do automóvel, e, sobretudo, gesticulam, agitadas, acompanhando as palestras e as discussões políticas. Em geral, creio eu, usam-se menos que antigamente.  Nas muitas horas passadas em frente de um aparelho de televisão ou numa sala de cinema são os olhos que funcionam, e nas pesquisas do Google as mãos limitam-se a fazer deslizar e clicar o rato. E, com as mãos paradas, o cérebro que está feito para as coordenar, fica confuso, e ameaça entrar em looping...

No "Mundo das Ferramentas" acabei por comprar uma plaina elétrica. E verifico que, comparada com a velha plaina, é mais fácil de usar, mais eficiente e exige menos perícia manual. O antigo mundo feito à mão é, hoje, um mundo feito à máquina. E contra isso nada podemos fazer. Mas se deixarmos atrofiar as mãos por falta de uso, a Civilização corre sério perigo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A Alma de Almeida!


Uma região fortemente deprimida como é o caso do Concelho de Almeida, com grande escassez de recursos, com a população envelhecida, e onde foi destruído o modo de viver tradicional, necessita urgentemente de encontrar o caminho da sobrevivência. De outro modo, e uma vez esvaziadas do seu património humano ativo, estas regiões correm o risco de se desertificar, e passar a ser um alvo fácil para usos marginais, tais como albergar lixeiras, atrair indústrias poluentes ou transformar-se em coutadas de caça. A opção pelo turismo como motor de desenvolvimento só funciona se existirem condições para atrair turistas e fixá-los com alguma permanência. Almeida tem condições para os atrair mas não para os fixar. As termas da Fonte Santa poderiam ser esse atrativo mas não parece que se dirijam a um alvo capaz de criar uma procura sustentável. Não têm dimensão crítica, não existe a componente hoteleira e, além disso, têm carácter de sazonalidade. E a crise atual, com restrições à mobilidade, também não favorece o sector do turismo.

Incentivos ou apoios, para promover iniciativas locais, quando não tiverem o devido acompanhamento ou seguimento, funcionam muitas vezes como balões de oxigénio, e também não têm servido para dinamizar, de forma sustentada, as regiões mais deprimidas. As construções de infraestruturas (auto estradas, rotundas, pavilhões), embora promovam temporariamente a atividade económica e o emprego, acabam por ter o um efeito reduzido, a prazo, sobre o desenvolvimento territorial, e, em muitos casos, são subutilizadas.

Uma outra solução pode ser a de criar zonas com uma vocação específica e com atrativos fiscais e apoios financeiros, as chamadas "zonas francas". Segundo a definição da Wikipédia "Uma zona franca é uma região "isolada e delimitada" dentro de um país, geralmente situada em um porto ou nas suas proximidades, onde entram mercadorias nacionais ou estrangeiras sem se sujeitar às tarifas alfandegárias normais. O objetivo consiste em estimular as trocas comerciais, em certos casos para acelerar o desenvolvimento regionall. São lugares onde o governo estimula a criação de empresas e indústrias com a redução dos impostos e apoios financeiros."

É uma definição genérica e tem de ser adaptada caso a caso. O espaço intramuros de Almeida obedece à condição essencial de uma zona franca pois trata-se de uma "região delimitada e isolada". Não está junto de um porto, mas está junto da principal fronteira terrestre do país. E, sendo o objetivo da zona franca acelerar o desenvolvimento regional, a opção ajusta-se perfeitamente a este caso. Mas Almeida, pelas suas características, não parece apta a ser uma zona franca industrial. A melhor opção, na minha proposta, será a de criar uma zona franca cultural. Este conceito não é novo e tomei conhecimento da sua aplicação ou tentativa de aplicação (em formatos distintos) na China, no Brasil, no Chile e na Colômbia. A minha ideia de zona franca Cultural aponta para a Cultura não tanto pelo seu aspeto comercial mas algo mais importante: o seu valor intrínseco. 

A propósito de uma ideia de criação de uma zona franca cultural, em Valparaíso, no Chile, surgida num jornal, um leitor opina de uma forma que ilustra as duas visões de cultura:
" Li atentamente a nota de H. Veliza em resposta aos comentários que fiz a uma nota sua anterior, na qual lançava a ideia de legislar no sentido de criar em Valparaíso uma Zona Franca Cultural. Depreendo da sua nota que artes e cultura são, por nós, entendidas de modos diferentes. Digo isto porque a proposta do meu interlocutor se centra na associação entre "investimento-rentabilidade e turismo", ao passo que a minha ideia se aproxima mais em considerar nas artes e na cultura o seu "valor de uso" . Por outras palavras, o Sr. Veliza não resiste à tentação, hoje tão em voga, de coisificar as artes e a cultura fazendo prevalecer o seu "valor de troca" minimizando o seu espírito, aquilo que lhe é intrínseco" (ler aqui o texto completo do comentário)
 Uma forma equilibrada de conciliar o "valor de troca" e o "valor de uso" terá de ser a solução para o caso de Almeida. O primeiro passo consistirá em criar condições para atrair artistas, escritores, músicos, atores, criando para tal incentivos, que podem ser de vários tipos.  O segundo passo, é desenvolver o conceito de zona franca cultural adaptado a este caso, visando atrair o público com base na organização de eventos culturais (valor de uso) sem esquecer o comércio associado à arte (valor de troca)

Esta proposta aqui apresentada, apenas como esboço, deveria de imediato ser acarinhada e desenvolvida pela edilidade, criando um grupo de trabalho para a desenvolver, grupo esse que deveria ser o mais abrangente e diversificado possível na sua composição. Caberia  a esse grupo estruturar o conceito e preparar uma proposta com vista a preparar a legislação adequada.

Uma vila que no dizer de um anterior Presidente da Câmara fica no "interior do interior", tem de fazer opções de rutura. E essa rutura poderá ser a criação de uma zona franca cultural. Não é fácil enfrentar o desafio, e é necessário, em primeiro lugar, acreditar nele. Acredito que vontades não faltarão mas vai ser preciso coordená-las. Na verdade trata-se de redescobrir a Alma de Almeida!

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O Futuro da Memória

Nesta era digital, a facilidade que temos em registar e difundir documentos e imagens está a permitir à Humanidade criar um arquivo fabuloso. Nunca, em tempo algum da História, a capacidade de criar memória para as futuras gerações foi tão ampla como é na atualidade.
Em   O Tempo e a Memória
No Coliseu de Roma já não se travam lutas de morte entre gladiadores, nem os cristãos são lançados às feras, mas ainda hoje a memória dessas lutas e desses massacres ali atrai, anualmente, cerca de quatro milhões de visitantes. O Coliseu de Roma é uma atração turística e tem associado um significado que é a sua memória. Claro que o espaço "em si" tem um valor que ultrapassa a argamassa e as pedras dos elegantes arqueamentos, é uma heterotopia no sentido que lhe deu Michel Foucault (De outros espaços).

As Jornadas Europeias do Património que são uma iniciativa anual do Conselho da Europa e da União Europeia realizam-se, este ano, no fim de semana de 28 a 30 de setembro, e têm como tema: "O futuro da memória". Sendo a memória o registo e a evocação das coisas passadas este título é uma expressão paradoxal,  algo como "O futuro do passado". A memória das coisas preserva-se na mente dos homens de forma imprecisa, e degrada-se ao passar de umas gerações a outras, mas hoje existem suportes para preservar a memória com uma capacidade e fiabilidade impressionantes. O que traz riscos de entupir e bloquear os canais de informação, reduzindo a criatividade, e constitui  "uma ameaça de glaciação do mundo devido à incessante acumulação do passado", no dizer do já referido Foucault

O património construído é um dos mais importantes suportes da memória, e  é importante preservá-lo, como espaço dessa memória, se queremos que ela tenha futuro. A memória associada às muralhas de Almeida (localidade onde irei participar nas jornadas) é o meu exemplo para reflexão. Qual o conteúdo e qual o futuro desta "memória" de pedra? Na época da sua construção (na versão abaluartada), iniciada em 1641, estas muralhas fronteiriças tinham a função de proteger o território das invasões estrangeiras, e o seu futuro, nessa data, estaria associado a esta função. Isto é,  os construtores esperavam que as muralhas cumprissem este propósito de forma eficaz e por longo tempo.

Existem factos e emoções ligados às muralhas, e que integram a sua memória.  A começar pela sua construção, incluindo o projeto arquitetónico e a sua lógica no enquadramento estratégico das guerras da época. Depois a  extração do granito arrancado à rocha mãe; o trabalho do canteiro para lhe dar forma; o transporte, a elevação e assentamento das pedras, tudo feito à custa da força dos animais e dos braços humanos. Depois os episódios de guerra, as marcas físicas dos impactos dos projeteis, as baionetas das espingardas das sentinelas raspando a pedra nas guaritas. E há o heroísmo de uns, a traição de outros e o sofrimento de muitos (sobretudo sofrimento!). E não é difícil imaginar o desconforto nas casernas frias e húmidas, e a escuridão depressiva das prisões das Casasmatas. As calçadas da vila foram calcorreadas por soldados anónimos,  feridas pelas ferraduras das montadas dos oficiais, e por elas correu sangue suor e lágrimas. Esta é a memória que as muralhas guardam. Estou certo que é muito mais do que a reconstituição dos confrontos das tropas de Napoleão e de Wellington, evocados em cada ano.

Ora, o futuro é incerto e as muralhas de Almeida muito rapidamente deixaram de ter a justificação que presidiu à sua construção.  Mudaram as técnicas de guerra, os sistemas de defesa antigos tornaram-se obsoletos, as mudanças no relacionamento entre os povos retiraram valor estratégico a posições ou locais anteriormente fortificados.  E, na verdade, cerca de 150 anos após a sua construção, as muralhas deixaram de cumprir a função para que foram construídas. Serviram ainda de prisão política nas guerras liberais, mas em 1927 a praça forte foi definitivamente abandonada pelos militares.

Mas as muralhas podem e devem servir para preservar e assegurar o futuro da memória que lhe está associada. Mas não se pode viver só de memória,  pois ficaremos paralisados se o fizermos. Precisamos de projetar a memória no futuro. Recriar a utilidade das coisas, dar-lhe novas funcionalidades, é a melhor forma de atribuir futuro à memória. O Coliseu de Roma é hoje uma peça de museu e é esse o seu valor. Tem um público que o "consome" como um produto. Como produto ele vende-se, utilizando as modernas das técnicas de marketing para se posicionar e comunicar...

Também em Almeida será necessário um grande esforço criativo para dar futuro à memória das muralhas. Julgo que é o momento de lançar mãos à obra.