segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

À Procura de Deus


Quando todas as portas se fecham, quando os homens começam a descrer dos seus governantes, quando se torna mais evidente a transitoriedade das coisas, quando tudo parece ruir à sua volta, os homens voltam-se para  Deus e para o sobrenatural. Foi assim nas guerras, nas pestes, nos cataclismos e nas fomes que ciclicamente assolaram o mundo. O fervor religioso floresceu sempre em tempos de crise, e, nessas ocasiões, houve aproveitamentos por parte dos que se afirmavam como guardiões de Deus e se intitulavam seus representantes na Terra.  A inquisição, a intolerância em relação ao livre pensamento, e até as cruzadas são disso exemplos.

Na euforia tecnológica e consumista dos últimos 100 anos, no festim da energia fóssil, o homem acreditou que podia igualar os deuses, e tinha o destino nas suas mãos. Acreditou que podia vencer a depressão e a angústia, que podia superar as doenças, e que a ciência lhe daria resposta para tudo. Porventura, até lhe permitiria descobrir a fórmula mágica do elixir da longa vida que significa a conquista da imortalidade. Para muitos, nesta euforia cornucopiana,  Deus e a Religião passaram para um plano secundário.

Nos nossos dias vive-se uma crise profunda, cujas razões, dimensão e duração ainda são mal percebidas. Acredito que, mais uma vez, ressurgirá a religião como refúgio para a incerteza, para procurar apoio e respostas para o que não se encontra a solução. E com isso pode regressar o oportunismo e a intolerância.

O Deus de Abraão ou o Deus de Maomé já não satisfazem o homem do século XXI nem respondem às suas dúvidas existenciais. Com efeito, a evolução da ciência tornou a Bíblia  e o Corão obsoletos. Depois de Galileu, a Terra deixou de ser o centro do Universo; depois de Darwin, o Homem deixou de ser o centro da Criação; depois de Freud, a Alma esfumou-se nos meandros do subconsciente. Por isso, o Deus-Pai, que, segundo as escrituras, fez o mundo, desmorona-se com as novas teorias do Big Bang. O Deus-Filho que libertou o homem da escravatura e veio dizer que todos somos iguais, ainda é esperança para muitos,  mas falhou na promessa de uma humanidade  mais justa e mais igualitária. Da Santíssima Trindade sobra o Espírito Santo que, na sua imaterialidade, é o último resíduo da Fé, porventura ainda conciliável com a teoria da Consciência Cósmica que procura interpretar o Universo, explicar as leis da Física e justificar a Vida e a Inteligência.

As últimas décadas trouxeram conhecimentos que nos mostraram a verdadeira dimensão do planeta, antes imaginado com o centro do mundo, mas hoje reduzido à sua pequenez cósmica.  O primata que dominou este planeta, o pequeno blue dot de que falava Carl Sagan, de tão insignificante que é já não pode reivindicar a paternidade de Deus nem imaginá-lo à sua imagem. O Céu,  que hoje sabemos ter centenas de milhares de milhões de galáxias, não está apoiado na Terra como pensava Ptolomeu.

Deus existe porque nós queremos que exista, e porque precisamos que ele exista. Mas ele tem de ser reinventado. Não pode ser uma entidade com inteligência, pois ele entende sem precisar de deduzir; não pode ser juiz  pois as leis do universo não têm falhas para julgar; não determina nem governa pois tudo foi pré-determinado no momento Zero, e não pode ser alterado. Enfim, não pode ter atributos porque os atributos limitam e definem, e isso é redutor. Ele é de facto uma não-entidade, semelhante ao éter que foi necessário para explicar as leis da Física,  e sem o qual se cairia no absurdo.

Desde que o homem tomou, pela primeira vez, consciência da morte (afinal o maior absurdo da criação!) que foi condenado a esta procura incessante de Deus. E não vejo que, algum dia, se liberte desta penitência...

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Petróleo: Ótimismo Perigoso

O relatório que a Agência Internacional de Energia (AIE) publica anualmente, no mês de novembro, é um documento essencial para entender a situação energética no mundo, e em particular aquela que diz respeito ao petróleo, a forma de energia fóssil mais sensível para a saúde da economia. Recorde-se que a AIE é o organismo, sededado em Paris, que presta serviço de vigilância energética para os países da OCDE, e providencia a criação de stocks de crude em situações de emergência.

O relatório de novembro passado é apresentado, como habitualmente, com otimismo, apesar das reservas que no anos recentes se podem ler nas entrelinhas dos referidos relatórios. Uma das paricularidades destes WEO´s (World Energy Outlook) é a de apresentarem  previsões de produção e consumo sempre crescentes.

No relatório de 2012, apresentado  à imprensa no mês passado, expressa-se um cenário caraterizado pelas seguintes tendências: a produção de petróleo convencional (o velho crude que brota no estado líquido das jazidas!) continuará estabilizada e suportada pelo previsível aumento da produção no Iraque; haverá forte incremento da produção de crude não convencional a partir das areias betuminosas (tar sands) do Canadá e das  rochas xistosas (oil shale ou tight oil) dos Estados Unidos; valoriza-se ainda o aumento da produção de petróleo de águas profundas, e o ganho que se consegue nas refinarias (onde um litro na entrada se converte em um litro e "pico" na saida). Embalado por estas previsões otimistas o relatório já admite que os Estados Unidos podem voltar a ser o maior país produtor mundial a partir de 2020!

Oa analistas que se debruçam sobre estes dados têm sido unânimes em criticar o otimismo deste relatório apontando os riscos de possíveis ocorrências de alguns percalços. O Iraque, que foi invadido pelos EU há quase 10 anos, tarda em recuperar a produção, mantendo-se nos 2,5 a 3 milhões de barris por dia, muito longe dos  10 milhões previsíveis para daqui a 10 anos. Os problemas de segurança e alguns problemas técnicos como a escassez de água salgada necessária para injetar pressão nas jazidas que estão muito mais afastadas do mar do que as da Arábia Saudita (como é o caso da jazida gigante de Gawhar).

A produção a partir das tar sands no Canadá, feita por mineração ou por injeção profunda, constitui um verdadeiro problema ambiental que está a destruir toda a região de Atabasca na província de Alberta. Máquinas gigantescas extraem as areias que são depois lavadas com água quente (aquecida com gás natural) que arrasta o crude. Esta forma de extração não só tem elevados custos ambientais e energéticos (há quem diga que se gasta 1 barril de petróleo para produzir dois!), mas só se justifica com os elevados preços da matéria prima nas bolsas de mercadorias. O mesmo se pode dizer da produção das rochas de xisto americanas na região de Bakken no Dakota do Norte que é feita pelo processo de fraturaçao hidráulica e que é responsável pela contaminação de aquíferos.

Mas o que mais preocupa os que se ocupam de assegurar o suficiente fluxo energético de petróleo na economia, é a imparável tendência de aumento de consumo nos países emergentes, sobretudo na China e na Índia. Como única forma de conciliar este aumento de consumos nestes países com a escassez de produção, leva a AIE a prever uma forte diminuição de consumo nos países da OCDE que poderá ser de menos de 5 milhões de barris/dia em 2020 comparada com o consumo atual. Ora isto, a acontecer, implica que a retoma económica nestes países ( e o pleno emprego!) será uma ilusão!

O petróleo é o sangue da economia e o recurso mais importante para estimular e sustentar o crescimento que é tão necessário e tão desejado. O otimismo da AIE justifica-se para manter as expetativas a um nível elevado e evitar sentimentos depressivos nos agentes dos mercados.  Mas que não existam ilusões: o petróleo é um recurso finito cuja produção vai recorrer a tecnologias cada vez mais sofisticadas que terá custos ambientais e de exploração crescentes. A sua escassez é talvez o maior problema que a economia mundial vai enfrentar nos anos futuros. O otimismo do recente relatório da AIE serviu para animar a economia, mas é uma cortina de fumo que esconde a verdadeira dimensão do problema, e que, no limite, só servirá apara adiar o confronto com o inevitável cliff energético.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Uma Luz ao Longe

"Deus quer, o Homem sonha, a Obra nasce..."
Fernando Pessoa,  in "Mensagem"
Não podemos ficar de braços cruzados perante a crise, nem à espera do milagre que volte a pôr tudo com era dantes. Desta vez, a solução vai ter de emergir de baixo para cima, a partir de iniciativas particulares, locais ou comunitárias. Eu penso que é este o espírito e o caminho das Iniciativas de Transição. E é  com este ânimo que está a germinar em Almeida (a vila da minha infância, onde eu fiz o meu primeiro exame) a vontade de romper com a depressão económica e erguer a bandeira da cultura e do conhecimento com o objetivo de a combater. Foi em Almeida que, no passado primeiro de dezembro, a ASTA, pela mão da sua presidente, promoveu um encontro para debater o tema.

Saí dessa tertúlia com a convicção reforçada de de que a ideia de transformar Almeida numa  Zona Franca Cultural tem pés para andar. O enquadramento da proposta, nas suas linha gerais, está feito. O objetivo é o de repovoar Almeida com gente  de cultura, artistas, escritores, músicos.... Existe uma vontade generalizada de a implementar, e sinto que a autarquia agarrou a ideia e quer levá-la para a frente. A forma de a concretizar  tem de ser faseada, sem atropelos nem ambição desmesurada, à medida das possibilidades. Não se podem cometer erros, pois estas coisas, se falham, não têm uma segunda oportunidade.

Na tertúlia foram levantadas algumas questões importantes. Que artistas atrair? Quantos, e onde os alojar? Que tipo de apoios conceder? De um modo geral, os contributos dos participantes na tertúlia do "Canto com Alma", foram válidos e oportunos. O mais urgente, agora, é definir o conceito, e, na verdade, já não estamos longe disso. Para tal eu preconizo desenvolver um documento com os seguintes pontos:
  1. Uma apresentação sumária de Almeida e da ideia de Zona Franca Cultural
  2. Quem promove e quem apoia
  3. A sua razão de ser e as vantagens que proporciona
  4. Um nome e um símbolo
  5. A quem se destina
  6. Como funciona. Qual o pacote de incentivos oferecidos
  7. O calendário da implementação
Uma vez definido o conceito, haverá que  comunicá-lo bem (ao público em geral, às escolas de arte e cultura, aos políticos, às instituições culturais, ...), e esperar pela adesão dos destinatários. As candidaturas vão aparecer espontaneamente, mas também podem ser estimuladas. O processo de seleção dos candidatos deverá passar pela apreciação de dois elementos: o currículo e uma carta de motivação. Esta carta de motivação será fundamental para perceber as razões e os objetivos das candidaturas. Haverá um júri de seleção que as apreciará. Depois haverá uma entrevista pessoal com os candidatos, a que se seguirá a publicação dos resultados.

Neste processo a autarquia terá o papel central de dinamização mas vejo alguns parceiros importantes. Em primeiro lugar a ASTA cuja presidente desde há muito tempo revelou uma grande sensibilidade para temas de cultura e uma enorme capacidade de empreender e motivar pessoas. Acho que este também é o momento de revitalizar a Associação de Amigos de Almeida que tem mantido, com uma qualidade, regularidade e independência exemplares, o jornal "Praça Alta". Associações locais (estou a lembrar-me da Rio Vivo e da Adefs, mas haverá outras) também devem dar o seu contributo. Deve também haver um envolvimento ativo do agrupamento de escolas, sem esquecer, naturalmente, a Junta de Freguesia.

O antigo Quartel das Esquadras irá desempenhar um papel importante em todo este processo, e ao projeto da sua recuperação deve ser dada a maior atenção. O dia 2 de julho de 2013, feriado municipal do Concelho, poderá ser a data certa para apresentar publicamente o conceito.

Acendeu-se uma luz ao longe, nesta Estrela do Interior. Vamos alimentá-la e protegê-la para que não se apague!


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Portugalmente


Portugalmente é o titulo de um livro de autoria de Jorge Carvalheira, um velho companheiro do Liceu, com fotografias de Duarte Belo, que acaba de ser editado pela Âncora Editora em parceria com a Fundação Vox Populi. O lançamento ocorreu na Guarda, na minha cidade, no passado dia 28 de novembro. Eu, através da Fundação Vox populi, estive ligado à edição deste livro, e empenhei-me para que o resultado final correspondesse à qualidade da obra literária.

O autor percorre os caminhos da Beira Alta numa peregrinação que o leva das aldeias dos contrafortes orientais da  Serra da Lapa até às terras fronteiriças de Ribacôa, por trilhos antigos e num percurso que faz lembrar o do Malhadinhas de Mestre Aquilino, um almocreve que vindo das terras do demo na Lapa, um dia se aventurou com alma até Almeida, e se viu em Vale de la Mula no coração de Ribacôa.

O livro transmite uma visão crítica, escrita com um sabor amargo e mordaz, por vezes irónico, sobre um retalho  do Portugal mais autêntico de onde sobressai a "jóia" que é Trancoso, terra prenhe de "famas" como a do padre Costa com a sua prole (onde nem as irmãs nem a mãe escaparam à sua sanha fertilizadora), do Bandarra com as suas profecias, dos crimes de faca e alguidar, de revanchismos e ajustes de contas. Trancoso é a terra do famoso Ângelo da Peixeira de quem se contavam, no "prec" façanhas que incluíam rebentamentos de bombas e assaltos a sedes de partidos. Se houvesse uma máfia portuguesa ela radicaria, por certo, nestas terras pardas de giestas e de granito.

Nesta peregrinação da Lapa a Ribacôa vemos desfilar um Portugal destroçado que foi o resultado da nossa adesão à CEE, e que é espelho de  vivências e experiências mal resolvidas, como foram a ditadura do Estado Novo,  a guerra colonial, a emigração e a vinda dos retornados. É uma amostra regional mas que tem representatividade para o todo o norte interior, talvez mesmo para todo o território nacional rural. Aconselho vivamente a leitura deste livro, a qual permitirá ao leitor desfrutar da qualidade literária de um texto sobre cujo autor o escritor José Rentes de Carvalho, disse produzir  da melhor prosa que se tem escrito na língua portuguesa.

Como nota que poderia servir de epílogo ao livro eu sou levado a refletir sobre a forma como podemos portugalmente  transformar este Portugal que portugalmente desvirtuámos. Mudar Portugal para melhor é o desafio que temos pela frente. Às vezes tenho a impressão de que temos andado passivamente à espera de que nos digam o que fazer. Com a tróika isso já está a acontecer. Possivelmente temos de o fazer de baixo para cima (down-up), pois foi assim que Portugal nasceu e se fez nação. E foi também desta forma que numa outra crise de identidade nacional,  a arraia miúda, de que fala Fernão Lopes, assegurou a independencia, e abriu o caminho para a gesta da expansão.

Vamos meter mãos à obra. Vamos redescobrir as virtudes e capacidades que nos levaram a sulcar os mares e a construir novos países.  Vamos valorizar o que de mais genuino temos em Portugal. Fechem-se os bares e reabram-se as tabernas, ignoremos os shoppings e voltemos às feiras, reinventemos o estanco, a drogaria, a estância, a merceria de bairro, o lugar da fruta, e voltemos a vibrar com as bandas e os zés pereiras das romarias e do cheiro a sardinha assada. E voltemos  a amanhar a terra, e a lançar de novo as redes ao mar...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Agenda Local XXI

Estive, há dias, em Agualva, no concelho de Sintra, convidado para participar numa reunião promovida pela Junta de Freguesia e integrada na Agenda XXI Local. Agualva é uma freguesia recente que resultou do desmembramento da freguesia de Agualva-Cacém. É um subúrbio de Lisboa, um dormitório que nasceu e vive alimentado por duas artérias que lhe dão vida e a põem em contacto com Lisboa: a linha da CP Lisboa-Sintra e a rodovia IC19.

Fiquei a saber que a freguesia tem mais de 30,000 habitantes, uma importante  população ativa, que ainda não está marcada pelo envelhecimento, e, dado muito interessante, que numa escola da freguesia estudam jovens de 22 nacionalidades, a confirmar as mudanças que se estão a verificar no nosso tecido populacional.

Estes subúrbios nasceram numa época de forte crescimento económico e de acelerada urbanização que teve início nos anos 60 do século passado. Acredito que se terão cometido erros urbanísticos, uns derivados da pressão provocada pela escassez de novas habitações, outros resultantes de impreparação e falta de capacidade de planeamento dos serviços camarários. E poderá ter havido interesses económicos que se sobrepuseram ao interesse social. Hoje existe uma estabilização do tecido urbano, e uma preocupação visível em valorizar o território. Pelo que me foi dado ver na conferência do "Centro das Lopas" tem sido notável o trabalho do Presidente da Junta e da sua equipe para trilhar novos caminhos. Foi gratificante conhecer o trabalho de muitos  jovens que se preocupam ativamente com a sustentabilidade com a defesa do ambiente e com a inclusão social.

A Agenda XXI nasceu na conferência Eco-92 ou Rio-92, ocorrida no Rio de Janeiro, Brasil, em 1992. É um documento que convida os países através dos governos e das organizações locais (governamentais ou não)  a refletir,  a discutir e implementar soluções para os problemas socioambientais. O objetivo é a reconversão da sociedade industrial para um novo paradigma o que exigirá uma nova abordagem do conceito de progresso promovendo a qualidade (e não apenas a quantidade) do crescimento. A agenda é um plano de ação para ser adotado a nível nacional ou local que visa o desenvolvimento sustentável, a defesa do ambiente, a preservação dos recursos, contra a cultura dos desperdícios, e,  ao mesmo tempo, promove a inclusão social.

 Segundo o último estudo realizado pelo Grupo de Estudos Ambientais da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, respeitante a 2011, em Portugal existem 167 potenciais processos de Agenda XXI. No entanto apenas apenas 26 desses processos estão ativos, e a sua maior concentração é na região do Grande Porto. Estes processos da Agenda XXI Local estão muito próximos das iniciativas de Transição, e, na verdade, os seus objetivos são em tudo semelhantes. Mas um deles funciona up-down e o outro down-up. Existe maior voluntarismo e maior resiliência nas iniciativas de transição, mas também uma maior fragilidade em termos de organização.

O mundo em que vivemos está em rota de colisão com um "cisne negro". Quando isso acontecer, os jovens envolvidos nestes processos estarão melhor preparados para enfrentar o day after.  É, pois, importante que estes processos se generalizem.  É urgente divulgá-los e implementá-los, sobretudo junto das escolas e da população jovem. A sua adoção vai encontrar resistência (ou, pelo menos, pouco entusiasmo) por parte do establishment pois promovem a cidadania em detrimento do consumismo. E isso não convém à economia que está regulada e condicionada  pelos "mercados", e que exige, a todo o custo,  o crescimento e aumento de consumo.



segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A Crise numa Perspetiva Civilizacional

A crise atual é considerada por muitos uma crise financeira, e por outros uma crise económica. As suas causas são atribuídas, umas vezes à crise chamada do subprime que teve lugar nos Estados Unidos em 2007, e que rapidamente se espalhou a outras regiões, mas outras vezes a crise é atribuída ao excesso de endividamento de certos países, nomeadamente países da Europa do Sul, e até há que atribua a crise ao fulgurante desenvolvimento da China e de outros países como a Rússia, o Brasil, Índia, os designados países BRIC a que se acrescentam outros países como sejam a a Indonésia, a Turquia e a África do Sul, que nos seu conjunto são designados de "países emergentes".

Mas as origens e as causas da crise são muitas vezes relacionadas com a escassez e altos preços das matérias primas, entre as quais se destacam o petróleo, o gás natural e o carvão, os chamados combustivéis fósseis, e embora em menor número, há quem associe a crise às modificações climatéricas as quais estarão, por sua vez, associadas a fenómenos tais como furacões, tornados, cheias, secas, etc.

A crise que afeta o mundo é uma crise complexa, resiliente, e não é fácil de explicar. Talvez por isso tem sido tão difícil para os governantes e para os economistas encontrar a saída para ela. Pela sua complexidade e pela sua persistência em manter-se ─ e até agravar-se ─ vamo-nos dando conta que esta não é uma crise como as outras. De facto, as outras eram passageiras, eram um assunto quase só de economistas e outros especialistas. Esta, ao contrário, mexe connosco. Deixa-nos a pensar na manutenção do nosso emprego, a conjeturar sobre a segurança das nossas poupanças, e deixa-nos, sobretudo, preocupados com o futuro dos nossos filhos. Afinal, o que é, e donde vem este monstro que encontramos em toda a parte, e nos persegue para todo o lado?

Mais do que uma crise cíclica do nosso sistema económico, esta é uma crise civilizacional, uma crise que põe em causa os próprios fundamentos da nossa forma de viver. Dizem-nos que já se vislumbram sinais a indicar que, em breve, tudo voltará ao normal, isto é, a ser como dantes. Mas apesar das medidas que, por toda a parte, são tomadas para o relançar, o almejado crescimento emperra, e a retoma demora em aparecer.

Com efeito, o pressuposto indispensável do nosso sistema económico – podemos chamar-lhe capitalismo, economia de mercado ou liberalismo económico ─ é o seu crescimento continuo. Com efeito, quer se trate da riqueza, do consumo ou do bem-estar e do conforto que lhe estão associados, todos falam em crescimento. Nos últimos 100 anos nós assistimos a esse crescimento continuo e exponencial, mais acelerado e consistente nos 65 anos que passaram desde o final da segunda guerra mundial. E de tal forma nos habituámos a ele que se criou a falsa ilusão de que seria eterno.

Nesse século de grande prosperidade – até há quem lhe tenha chamado a Idade de Ouro – vimos nascer o conceito de Globalização. Foi um período único e extraordinário de desenvolvimento económico, durante o qual diminuiu a mortalidade infantil, aumentou a esperança de vida, e quadruplicou o número de seres humanos à face do Planeta.

Foi uma época durante a qual se abandonaram os campos e se sobrepovoaram as cidades, algumas transformadas em imensas megapólis que o elevador, movido pela magia da electricidade, fez crescer na vertical. A construção civil fez maravilhas, e o progresso tecnológico deslumbrou-nos. O automóvel, permitindo uma grande mobilidade, criou o subúrbio e fez surgir o Centro Comercial. O avião aproximou países e culturas. O turismo foi o resultado dessa mobilidade, mas também a consequência de uma economia de excedentes.

As ondas hertzianas levaram a televisão a todos os recantos do planeta. Televisão que aproximou as pessoas, nivelou as aspirações e até os gostos. A revolução informática e a Internet trouxeram uma nova literacia e a interactividade na forma de comunicar. O conforto dos lares atingiu valores nunca antes suspeitados pelos nossos avós. E de tal forma se generalizou, que a mais humilde dona de casa dispõe hoje de serviços que antes só uma vasta equipa de empregados ou de escravos proporcionava.

E o cidadão foi transformado em consumidor, e foi elevado agora à condição de centro e motor de toda a economia. Mas chegou o momento de questionar os fundamentos da crise e reavaliar os remédios que nos propõem para a resolver. E, a partir daí, encontrar soluções mais eficazes e duradouras.

Começa a instalar-se nas mentalidades mais esclarecidas a ideia de que se estão a atingir os limites (nos recursos e na capacidade do Planeta), e não é possível assegurar, para o futuro, o crescimento exponencial das últimas décadas. E que não podemos continuar indefinidamente a incentivar o consumo como forma de estimular o crescimento pois não será esta, seguramente, a forma de sair da crise.

Temos de, com urgência, procurar outras alternativas para continuar a assegurar prosperidade à raça humana. E se isso não for possível pela via material, terá de sê-lo pela via espiritual.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A Sociologia da Crise

A experiência foi realizada por cientistas na  Universidade Emory (EUA) e pode contar-se em breves palavras. Dois símios, em jaulas contíguas, são premiados pelas tarefas que executam com rodelas de pepino. Um dia o tratador resolve dar a um deles bagos de uva, um alimento  que eles apreciam muito. O resultado foi que o macaco que continuou a receber as rodelas de pepino revoltou-se, recusou-se a executar as tarefas e devolveu, irado, o alimento ao tratador. Ou seja, entrou em greve, e insurgiu-se.  Para Eduardo Ottoni, especialista em macacos, da Universidade de S.Paulo, a experiência não mostra  que os primatas tenham “sentido de justiça" (sense of fairness). É mais correto falar em "sentido de recompensa justo".

Eu acho que na sociedade dos homens existe um grande paralelo com este comportamento dos macacos. Nas empresas, os aumentos de salário são reclamados, não por serem altos ou baixos, mas por que são comparados como o dos companheiros de trabalho. A revolta dos "indignados"  tem a ver com a percepção das desigualdades, e, infelizmente, tudo parece indicar que o sistema económico que nos rege atualmente não vai ser capaz de resolver o problema.

Tudo corre bem quando substituímos os pepinos por uvas, quando as coisas vão em frente. O pior é quando temos de voltar para trás, quando entramos em períodos de recessão, e temos de deixar as uvas e voltar aos pepinos. Conheço uma alentejana, licenciada na labuta diária da vida, que tem uma visão filosófica sobre o futuro. Diz ela que "nós viemos do mau para o bom; mas os nossos filhos e os nossos netos estão a ir do bom para o mau, e esse será o drama deles ". Ou lembro-me das sábias palavras do meu pai: "Vejo o mundo atual tão diferente daquele em que eu me criei que às vezes até me custa a acreditar como é possível haver tanta coisa para tanta gente. Na minha infância, nós aproveitávamos as coisas até ao limite: os fatos, as camisas, os sapatos nada se estragava.  Os jovens de hoje têm a água quente a sair da torneira, o conforto de uma casa de banho, e poucos sabem o trabalho e as voltas que dá um grão de trigo antes de se transformar numa fatia de pão."

Nesta nossa "idade do ouro", como lhe chamou o almirante Hyman Rickover, acedemos a benefícios   e níveis de conforto que nunca em tempo algum da história tinham sido alcançados. Mas existe um problema material sem solução. O aumento populacional e a escassez de recursos, apesar dos avanços tecnológicos, faz com haja cada vez menos bens a dividir por cada vez mais pessoas. Estamos confrontados com o dilema de Malthus, ou seja a dissonância entre a a estagnação dos recursos e o aumento populacional.

Teremos, pois, de aceitar este andar para trás, e isso não vai ser nada fácil. O sistema económico que temos não funcionará, pois vai estimular e agravar as desigualdades. E o sistema financeiro que foi desenhado para o crescimento contínuo, corre o risco de colapsar.  E para piorar as coisas, existem fatores agravantes, dos quais destaco a complexidade da economia que aumenta riscos de ocorrências de disrupção, a globalização que criou interdependências entre países (se um colapsar, colapsam todos!), e o papel da comunicação social que estimula, amplia e cataliza as reações das pessoas.

Vamos continuar a viver no fio da navalha. Até quando, não sabemos. E num previsível retrocesso civilizacional de que falava Duncan, haverá que esperar comportamentos sociais anómalos, e haverá muita matéria  para ser objeto de estudo pelos sociólogos.