segunda-feira, 29 de abril de 2013

A Globalização


No último "Prós e Contras" da RTP, Medina Carreira falou das causas da crise. E culpou a globalização pela dramática situação económica de Portugal, da Europa e dos Estados Unidos. Apresentou números, nomeadamente comparou o crescimento da última década do século XX com a primeira década do século XXI, em que o valor médio das taxas de crescimento generalizado das economias "ocidentais" caiu para cerca de metade. Associada à globalização, Medina Carreira falou da desindustrialização desta zona, cuja capacidade produtiva se transferiu para a China e para outros países. Referiu, a propósito,  que em Portugal o sector industrial representava, em 1974, 29% do PIB e que, em 2011, essa percentagem não ultrapassava os 12% . E, no elencar das causas da crise, esqueceu-se de referir, com já tem feito noutras ocasiões, o forte aumento do valor da fatura energética nas despesas desses países, talvez a causa mãe de todos os males que nos afligem.

Mas afinal o que é a globalização? Poder-se-ia ter evitado?  A globalização é consequência natural da aplicação dos princípios do liberalismo económico, entre os quais a livre concorrência, a livre circulação de capitais e os acordos do comércio livre, princípios que, desde Adam Smith, formataram o mundo e a sua economia. Foram eles que impulsionaram o crescimento da economia mundial, e que aceleraram o desenvolvimento dos países emergentes. Foi o caso da China, aquele que pela sua dimensão, tem um maior impacto na economia mundial. Numa primeira fase, a globalização poderá ter sido boa para a Europa, pois permitiu baixar o preço de produtos manufaturados e exportar tecnologia. Mas agora já percebemos o logro, e interrogamo-nos se teria havido outro caminho, e se ainda será possível retroceder?

Este sistema económico  reage mal a condicionamentos e protecionismos. O crescimento exige que a produção e o capital se desloquem para as zonas ou países que lhe são mais favoráveis. Dito por outras palavras, o capitalismo é cego e está sujeito a uma lei de atração que ignora a moral, é indiferente às desigualdades e ao sofrimento humano, acredita na abundância ilimitada de recursos, desconhece a poluição e os riscos ambientais. É regido por uma espécie de "lei da gravidade" que impele a economia para os excessos que nós conhecemos, sempre em busca do crescimento e do lucro.  Mas, convenhamos, a  nível global, a globalização teve um efeito positivo sobre o crescimento.

Mas a economia enfrenta limites críticos, são limites exógenos  que o sistema desconhece. A exigência do crescimento está a criar uma forte pressão demográfica, e um desequilibro resultante da escassez de recursos e do efeito dos efluentes produzidos. Ora, isso vai obrigar a estabelecer condicionalismos no controlo demográfico, na repartição e utilização dos recursos, e no controlo das emissões de alta entropia, que são, afinal,  os inputs e os outputs do nosso  sistema. É isso é um paradoxo na medida em que não pode ser resolvido por dentro, mas que também não pode ser resolvido por fora, sem destruir a própria essência do sistema, o qual não aceita interferências.

Na base do conceito de Transição está  a exigência de uma economia que ultrapasse esse paradoxo. Terá de ser uma economia de crescimento zero, mas que conduza, mesmo assim,  a uma prosperidade, logicamente menos materializada. Vai obrigar a um governo mundial que imponha uma melhor repartição e uma mais sábia utilização dos recursos existentes, e que estabeleça regras para evitar os efeitos perniciosos dos efluentes sobre o ambiente e sobre o clima.

Num tal cenário, vão colocar-se delicadas questões de natureza moral e ética quando for necessário sacrificar o interesse individual em beneficio do interesse coletivo. O formato de uma tal nova economia é ainda muito difuso, mas é evidente que haverá fortes implicações no sistema financeiro, no sistema politico, e nos princípios que estão na base das chamadas democracias ocidentais, assentes nos partidos políticos.  Os nossos governantes que falam e insistem  no crescimento e na retoma (afinal quem não fala?), ainda não perceberam o paradoxo em que vivemos. E estão a conduzir-nos para lado nenhum...

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A Lã

A história da lã acompanhou de perto a história da civilização humana. A lã vestiu reis e rainhas, deu trabalho a pastores e artificies, e foi responsável pelas primeiras fábricas da  era industrial. Mas o esplendor da era do carbono, com o sucesso das fibras artificiais a que deu origem, está a relegar para segundo plano esta matéria prima maravilhosa.

A lã é  o pelo de certos animais, e dela existem mais de 200 variedades.  Do pelo das cabras, provém a famosa lã de caxemira,  e a fina lã  mohair .  Pode fiar-se lã de alpacas, de camelos, de lamas, de bisonte, de cavalos, de cães e até a levíssima e apreciada lã dos coelhos angorá. Mas a lã por excelência, a lã do nosso imaginário,  é a lã de ovelha.

A domesticação dos ovinos ocorreu no Médio Oriente há cerca de 9,000 anos e, juntamente com a domesticação da vaca e do cavalo, constituiu um passo decisivo para criação dos primeiros  povoados agrícolas que estiveram na base da sedentarização, e foram o início da aventura humana cujas urbes acabariam por cobrir todo o planeta.

A ovelha é um animal dócil, símbolo da inocência. Ela teve um grande significado nas culturas que floresceram no médio oriente, onde a economia estava centrada na pastorícia. A Bíblia está cheia de referências aos pastores e aos seus rebanhos.  Jacob, o patriarca das tribos de Israel, foi o pastor de Labão,  a quem serviu para casar  com as suas duas filhas, primeiro com  Lia e depois com Raquel. O cordeiro era o animal que se sacrificava na Páscoa dos judeus.  E o Cristo redentor foi apresentado por João Batista como o Cordeiro de Deus.

Ainda hoje existe uma dinâmica atividade económica ligada á criação de ovinos. A ovelha produz  a carne o leite o couro e a lã.  A lã de ovelha começou a ser fiada e tecida há mais de 5000 anos.  É uma fibra maravilhosa:  é leve, resistente e flexível; aquece sem abafar, respira; lava-se e recupera a sua forma original; não cria humidade, não favorece o desenvolvimento de ácaros e parasitas.. É um produto natural e biodegradavel. Mas, acima de tudo, a lã é  conforto, suavidade, carinho e aconchego. Numa palavra, a lã é nossa amiga.

No conforto da vida moderna, em que as coisas aparecem milagrosamente nas lojas, esquecemo-nos da arte de tratar a lã. No início da primavera o tosquiador, com a sua tesoura e a sua arte, liberta a ovelha da sua proteção do inverno. O resultado é um velo de lã, semelhante a  um suave sobretudo. Depois a lã é lavada pois o velo, além da sujidade que acumulou durante o ano inteiro, ainda está impregnado com a gordura natural da ovelha, a lanolina.  A lavagem é feita com vulgar sabão,  sem danificar a fibra, à temperatura certa para a lã não feltrar.

Depois carda-se a lã e penteia-se para estender e ordenar e estender as fibras. Pode-se tingir antes de passar à fiação que tradicionalmente  era feita com as rocas ou com as rodas de fiar. O fio é estendido, pode ser singelo ou dobrado e doba-se para formar as meadas e os novelos. Finalmente a lã pode ser tecida ou tricotada e está pronta a ser usada.

Numa economia de transição a lã voltará a ter um lugar que lhe compete. Não se pode perder o saber milenar de tratar a lã. Porque são estes saberes, herdados dos nossos antepassados, que temos de recuperar e valorizar para ajudar a reconstruir a esperança no futuro. O crescimento e o emprego também passam por aí.


segunda-feira, 15 de abril de 2013

O que Diz Krugman

Paul Krugman, o prémio Nobel da Economia,  tem vindo a defender que a austeridade não é solução para Portugal, nem para Europa do Sul. Vinda de quem vem esta opinião é muito respeitável, mas eu discordo dela. Para enfrentar a situação  em que nos encontramos, só vejo duas alternativas: ajustamento ( que implica austeridade) ou saída do euro. Eliminar a austeridade mantendo o euro significaria aumentar o deficit das contas públicas, e já sabemos que ninguém está disposto a emprestar dinheiro para  o financiar .

É certo que podemos argumentar com a solidariedade da Europa mais rica, e remetermo-nos ao papel de pedintes.  Mas isso só resolveria o problema temporariamente e , de certo modo, já o estamos a fazer.  Eu não entendo  a razão porque políticos,  economistas e comentadores falem nesse cenário como sendo possível e desejável. Na génese  dos nossos problemas atuais está a imperfeita criação da Europa,  em que se pretendeu uma integração sem perda de soberania dos países aderentes. Ora, uma verdadeira Europa unida e solidária exige compromisso e mitigação da  soberania dos estados membros. Não se pode ter tudo. E essa é uma escolha que, um dia, os europeus terão de fazer.

A alternativa à austeridade é a saída do Euro que é, afinal, uma outra forma de austeridade. Tal  permitiria desvalorizar a moeda e aumentar a competitividade externa. O empobrecimento seria grande e generalizado, e Portugal ficaria durante décadas amarrado a uma dívida titulada em euros. Seria o adeus ao sonho europeu. Sendo um caminho possível, não o vejo como provável. Não interessa nem a Portugal nem à Europa

No quadro do nosso sistema económico - e ainda ninguém  apresentou outro sistema como alternativa - parece  não haver alternativa à austeridade. Seria conveniente que isso fosse rapidamente interiorizado para não se desperdiçarem  energias à procura de uma receita que não existe, uma espécie de  pedra filosofal dos alquimistas. Precisamos governantes esclarecidos que nos conduzam, e que sejam capazes de impor a austeridade  num clima de justiça, equidade e solidariedade.

O mais angustiante de tudo é não sabermos o que virá depois.  As leis da Economia fazem-me lembrar (no paralelo com a Física)  as leis de Newton que não se aplicam em situações extremas (por exemplo, nas vizinhanças da velocidade da luz!). Também na Economia parece faltar uma "teoria da relatividade" e um qualquer novo "Einstein" para explicar os comportamentos das variáveis económicas no contexto atual, que é um contexto de "limite" do sistema. E o que virá depois pode ser a consequência disso.

Diz o povo que não custa ser pobre, mas custa, isso sim, ser pobre quando já se foi rico!

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A Filosofia

A Filosofia é a mais nobre das disciplinas, e o filósofo o mais humilde dos homens. A Filosofia procura a Verdade absoluta, e é a mãe de todas as ciências.  O verdadeiro filósofo "só sabe que nada sabe", tem a consciência da sua pequenez na imensidão do Universo, mas procura incessantemente as respostas para aquilo que, lá no fundo, ele pressente que não tem resposta. O seu maior deleite é beber da fonte da sabedoria que nunca se esgota.

A Filosofia é uma árvore de cujo tronco se foram  autonomizando as ciências: a matemática, a geometria, a lógica, a física, a química, a medicina, a psicologia, a sociologia... As raízes insondáveis dessa árvore são a metafísica, e o seu tronco nunca se estreita. Cada nova descoberta, cada nova revelação, mostra uma nova incerteza, cria uma nova dúvida: o átomo, revela o protão e o eletrão, que por sua vez  revelam novas partículas e fazem conjeturar outras. Nada é definitivo, e quando se definirem as últimas equações da Física e se encontrar a força única e integradora que tudo comanda, havemos de encontrar uma nova barreira, e enfrentar um novo enigma. 

O filósofo quer explicar a natureza e a razão de ser das coisas. Ele começou por questionar o mundo, pôr em causa os mitos e as religiões. Mas o filósofo sabe que o pensamento não lida com as coisas reais mas  com as suas "representações mentais", como se fossem sombras na caverna de Platão. Ele  confronta-se com o absurdo de que o pensamento só pode tratar das coisas "pensadas".  O "penso, logo existo" de Descartes relaciona conceitos inconciliáveis, o pensar e o existir. Porque o primeiro é humano e o segundo é metafísico, e a única dedução válida seria "penso, logo penso que existo".

Na sua procura incessante da Verdade o filósofo assemelha-se a Sísifo, o herói da mitologia grega que, por castigo da sua astúcia em enganar a Morte, foi condenado pelos deuses a carregar uma pesada pedra pela encosta acima de um monte. Sempre que chega ao cimo, a pedra volta a rolar até ao vale, e Sísifo tem de a voltar a carregá-la e subir outra vez, incessantemente. Albert Camus viu nisto o absurdo e, nos seus cadernos, diz que o sofrimento de Sísifo não reside tanto no esforço de carregar a pedra, mas na angústia de ter de descer encosta abaixo para o eterno recomeço...É a angústia primordial do homem pensante que se prende com a procura do "sentido" da vida,  chamemos-lhe "angústia existencial" ou outra coisa qualquer.

Ao contrário do teólogo que  só tem certezas, o filósofo só tem dúvidas. O teólogo faz filosofia para demonstrar a sua Verdade e  justificar a sua Fé.  O filósofo apenas quer respostas para as suas dúvidas. A verdade do filósofo nem sempre é conveniente, por isso a liberdade foi a mãe da filosofia. Foi na urbe da Grécia antiga quando se ascendeu a chama do poder emanado da demos que se criaram condições para questionar a mitologia e enfrentar os dogmas das religiões.

Durante milhares de anos o homem procurou a explicação das coisas, e  aquilo que conseguiu é extraordinário. Desceu ao átomo, desvendou as galáxias, explicou a criação do Universo, aventurou-se no espaço, mostrou a evolução das espécies, conheceu os segredos do corpo humano, penetrou nos meandros do inconsciente, descodificou o genoma, cavalgou as ondas hertzianas, pôs a eletricidade ao seu serviço, e já ninguém se atreve a colocar limites à sua ambição de saber.

Na verdade chegou, como Sísifo, ao cimo do monte. Mas já olha para o vale e teme que voltar, mais uma vez, lá abaixo seja o seu destino... ou, quem sabe, se não o castigo por, também ele, querer enganar a Morte!

segunda-feira, 25 de março de 2013

O Dinheiro


As ocorrências recentes no Chipre, motivadas pela anunciada taxação dos depósitos bancários, vieram alertar-nos de novo  para a questão do dinheiro e da segurança dos bancos. Este anúncio, só por si, poderá ter consequências imprevisíveis, e poderá ser o rastilho de bem mais graves acontecimentos na Europa, e não só.

O dinheiro, como o  definiu  Frederick Soddy no seu livro "O Papel do Dinheiro",  é esse Nada por que se vende Qualquer Coisa e que com o qual se  compra Quase Tudo. O dinheiro é "nada", pois não tem valor intrínseco. Mas ele tem um elevado valor simbólico, um valor de representação que lhe é atribuído por convenções. A riqueza está nos bens e não no dinheiro que os compra. Mas, para o comum dos cidadãos, dinheiro significa riqueza, e isso é válido enquanto se mantiver estável e credível o sistema de convenções. A taxação do património, primeiro anunciada e depois reprovada no Chipre, ameaça o sistema bancário e abala, por toda a Europa,  a confiança que as pessoas têm nele.

Quando nós vendemos uma coisa e compramos outra com o mesmo dinheiro, este limita-se a intermediar uma troca. Essa poderia ser a sua função principal, mas o papel do dinheiro vai muito para além disso. Quando nós poupamos o dinheiro (abstemo-nos de o gastar agora para o gastar depois) que  recebemos pelo nosso trabalho ou pelas coisas que vendemos, nós adiamos a troca desse dinheiro (por bens ou serviços)  para mais tarde, e, desta forma,  criamos um título sobre uma riqueza futura. Tudo se passa como se esse dinheiro poupado fosse um crédito sobre a comunidade, na medida em que nós vamos um dia exigir a essa comunidade que nos devolva, em bens ou serviços, o valor desse crédito. E, compreende-se a dificuldade, como aconteceu no Chipre,  em aceitar que esse dinheiro (ou esse crédito) seja, a posteriori, objeto de expropriação ou de afetação por qualquer incidência fiscal.

Mas o dinheiro pode ser obtido, não pela venda de bens ou serviços, mas através de um empréstimo, isto é, pela criação de uma dívida. O emprestador pode ser alguém que poupou e transfere essas poupanças para outrem, ou pode ser um banco que empresta dinheiro que ele próprio cria do nada, e que o faz (segundo certas regras) na expetativa de que o devedor salde a divida no tempo estabelecido no contrato do empréstimo. E se no primeiro caso se verifica uma mera transferência de crédito, no segundo há uma verdadeira criação de dinheiro sem a contrapartida de nenhuma riqueza atual, existindo apenas a referida "expectativa" de criação dessa riqueza no futuro. Existe ainda o crédito ao consumo (caso, p. ex. dos cartões de crédito),  caso este em que se antecipam ou se hipotecam os rendimentos futuros do contraente.

Se o tomador do empréstimo for o Estado, o que acontece quando existe deficit nas suas contas que tem de ser coberto, o dinheiro para o pagar é criado pelo banco emissor (BCE na Europa, Reserva Federal nos EU). Países, como Portugal, que já não têm a capacidade de emitir moeda, o deficit é compensado pelo aumento da dívida pública, mas que só pode ampliar-se até limites aceitáveis, caso contrário, corre-se o risco de incumprimento..

Numa economia sem crescimento, a atividade económica não permite criar a riqueza para pagar o capital emprestado mais os juros, e o incumprimento do pagamento das dívidas é frequente. Destrói-se a correspondência entre riqueza e dinheiro. E, o pior de tudo, deixa de haver expetativa para conceder novos empréstimos. Os Estados tornam-se imcumpridores, o sistema fiscal deixa de gerar receitas, entra-se numa espiral recessiva. Por toda a Europa, cuja economia não cresce, vive-se, nestes momentos, o fantasma dessa recessão, e teme-se que o sistema financeiro seja o elo mais vulnerável de um eventual  desfecho desfavorável da crise.

Acontecimentos como aqueles que estão a ocorrer no Chipre podem colocar o sistema financeiro europeu fora de controlo. Os cipriotas festejaram a decisão do seu parlamento de reprovar a taxação de depósitos. E, por cá, os comentadores do costume aplaudiram os deputados cipriotas, e associaram-se à festa do povo. Temo que a festa e os foguetes tenham sido lançados cedo demais! Os problemas de Chipre ainda mal começaram!

segunda-feira, 18 de março de 2013

A Água


No Universo tudo parece perfeito. A misteriosa força da gravidade está rigorosamente ajustada ao equilíbrio que governa todos os corpos celestes. Ela não poderia ser diferente daquilo que é, mesmo que essa diferença fosse infinitesimal, pois se isso acontecesse tudo se desmoronaria. Também a vida na Terra depende de perfeitos mas, ao mesmo tempo, frágeis equilíbrios. Um grau a mais ou a menos na temperatura média da atmosfera terá complicações e afetará a existência de muitas espécies. A inclinação do eixo da terra, que regula as estações do ano e é responsável pelas monções, tem mudado e poderá alterar-se no futuro, mas qualquer pequena alteração transformará a face do planeta. A Lua, com o efeito que tem sobre as marés, está no local certo, à distância certa e com o período de rotação certo.

Uma das maiores maravilhas que revela a perfeição da natureza é a molécula de água, uma combinação perfeita de dois elementos, o oxigénio e o hidrogénio. Nessa combinação, a água adquire uma identidade própria, diferente das dos elementos que a compõem.  A molécula de água tem uma ligeira bipolaridade que lhe confere propriedades físicas e químicas únicas. Na natureza, ela coexiste nas fases líquida, sólida e gasosa, e foi no ambiente aquático que se originou a vida. Mais importante do que saber quem criou o homem é saber quem criou a água. Porque esta precede o homem, e, sem aquela, este não existiria.

A água cobre 71% da superfície da Terra , 97%  é salgada e está nos oceanos. De toda a água que existe no nosso planeta apenas 2,5% é doce e, desta, 99% está no subsolo ou sob a forma de gelo, e apenas 0,3% da água doce está nos rios, nos lagos e na atmosfera.

Temos, pois, esta substância que é criadora, que purifica e que é tão abundante que chega a parecer desprovida de valor. Mas nem sempre foi assim, ainda não é assim em vastas zonas do planeta, e pode chegar o dia em que a água volte a escassear nas nossas casas. O consumo de água está a crescer mais depressa do que a população, e a irrigação e a pecuária consomem grandes quantidades de água. São necessários 15,000 litros de água para produzir um quilo de carne, e 1,300 litros para produzir um quilo de grão. Mil milhões de pessoas já têm carência de água, e,  dentro de 20 anos, segundo a FAO, serão quase três mil milhões, ou seja, um terço da população mundial. Tudo isto vai criar uma grande concorrência, conflitos e guerras entre regiões e entre estados, em relação à disputa da água disponível.

No  ciclo da água interferem fontes de poluição, tanto na atmosfera, como nos solos e nos  rios. Os pesticidas estão a inquinar nascentes e rios, tornando a sua água imprópria para o consumo humano e destruindo a vida das suas entranhas. A água de  lençóis freáticos (água fóssil acumulada durante milhões de anos, e que, uma vez esgotada, não será reposta) está a ser explorada para irrigar vastas áreas em zonas desérticas. Muitos rios deixaram de ser os lugares aprazíveis do nosso imaginário e estão transformados em coloacas fétidas e sujas. E até o mítico Jordão, onde Cristo foi batizado, depois de sugado da sua água para regar os hortos de Israel, termina no Mar Morto como um regato sujo.

 No tempo da minha infância, nas aldeias portuguesas do interior, as casas não tinham casas de banho nem água canalizada.  Ia-se buscar (dizíamos  "acarrejar",  verbo que, no seu significado, tem implícito o esforço da tarefa) a água em baldes ou cântaros, por vezes a distâncias consideráveis. A água gelava no inverno e os poços e nascentes secavam no verão e ela era um bem muito escasso e valorizado. Tomava-se banho esporadicamente, e não havia desodorizantes. Era o tempo em que as vacas cheiravam a vacas e as pessoas cheiravam a pessoas.

No conforto da sociedade de consumo em que vivemos a água é servida em garrafas de plástico e está disponível ao rodar a válvula de uma torneira. Mas a escassez de água ameaça as gerações vindouras. Da boa e correta utilização desse recurso escasso vai depender  o futuro da Civilização!


segunda-feira, 11 de março de 2013

A Opinião e o Fado


Portugal é como um barco  à deriva.  Não tem projeto, não tem destino, nem tem rumo. E, o mais grave,  navega em águas revoltas. Não podemos parar o barco, nem abandoná-lo. Navegamos inseridos numa flotilha que é a Comunidade Europeia, e temos de seguir na sua esteira, mas desconfiamos que os comandantes dessa flotilha também não conhecem o rumo, e muito menos o destino. A única orientação vem de fora, são os mercados, os credores, as organizações internacionais...e interrogamo-nos se será isto um mal necessário? Estas situações sem saída, ou em que cada saída é uma emenda pior que o soneto, são geradoras de incerteza, de conflito, de angústia e de revolta.
 
Os portugueses vieram à rua dizer que isto não é vida, que são contra  esta política de austeridade, e que ela não vai conduzir a nada, ou antes, que só pode levar a mais austeridade e mais empobrecimento.  Mas cada nova manifestação traz mais angústia porque só serve para nos mostrar a nossa impotência e confirmar o óbvio: estamos desorientados. Os políticos e os economistas (de todos os quadrantes) já há muito se demitiram de nos mostrar o caminho, e isto porque não o conhecem. Limitam-se a dizer-nos o trivial, que a solução para a pobreza e para o desemprego é o crescimento económico. Ora o crescimento é a saúde da economia, e é como se estivessem a dizer a um doente: para se curar, o senhor precisa de recuperar a saúde. O que não ajuda nada, antes pelo contrário, conduz  a mais revolta e mais desespero.

Depois temos os comentadores que nos ajudam a manter a crença de que há saída e que eles a conhecem... Portugal é um país de colunistas e fazedores de opinião. Em cada dia publicam-se em Portugal mais de 100 artigos de opinião, 36,000 por ano. Temos Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes, Mário Soares,  Freitas do Amaral, e muitos outros que em tempos já foram políticos e hoje são comentadores e colunistas. E sem esquecer o inefável  Medina Carreira que diz que o doente não tem cura se não se lhe fizer uma sangria... o mesmo é dizer que o país,  para não morrer da doença, terá de morrer da cura.

Vistas bem as coisas, na ausência de uma linha política coerente de quem governa o país, são estes comentadores politicos que  nos orientam. São eles que nos dizem o que foi bem feito e mal feito, que nos explicam as razões dos comportamentos das personalidades da cena política, que avaliam as medidas e os seus timings. Quase nos levam a acreditar que se eles governassem, nos conduziriam pelo bom caminho. Mas estes comentadores são uns vendedores de ilusões, profetas da desgraça, que nada criam e nada constroem.

Cá para mim, a causa do mal do país não é Coelho, nem Gaspar, nem sequer o questionável Relvas. O mal deste país é o fado que é, afinal, a aceitação passiva e conformada do destino. Ora, o fado exercita a garganta, mas tolhe as mãos e adormece a mente.