segunda-feira, 13 de maio de 2013

O Relatório 2

Um extraterrestre visita o nosso planeta e descreve o que viu.
 (segunda parte)

A sociedade dos humanos é uma entidade muito bem organizada que se rege por dois sistemas principais: um sistema político que estabelece a forma de acesso ao poder e define as regras e os  códigos de conduta dos  indivíduos; um sistema económico que regula a  produção e a troca dos bens e serviços que alimentam os indivíduos, as suas organizações e a própria sociedade. Existe ainda um sistema que vela pela boa aplicação das regras sociais chamado sistema judicial.

Para o relacionamento dos sistemas que referi, entre si e com a população, contribui um outro importante sistema que utiliza as redes de comunicação globais e que por isso se designa aqui de comunicação social. Trata-se de um sistema fortemente reflexivo que condiciona  e é condicionado pelos outros sistemas mas que interage com eles de forma a  reforçarem-se mutuamente.

Toda esta complexa organização, que não é uniforme pois apresenta diferenças entre os vários territórios, funciona concertadamente de forma a manter o status quo existente. Ela atua no sentido de favorecer o crescimento da produção e a proliferação da espécie mas parece ignorar a sua preservação no longo prazo. Com efeito, pude constatar os seguintes comportamentos de risco:
  • O principal recurso energético usado pelos humanos está a esgotar-se muito rapidamente, mas eles utilizam-no como se fosse inesgotável.
  • A extrema complexidade organizativa que criaram necessita de uma quantidade cada vez maior de energia para se manter. E eles não têm controlo sobre essa complexidade e não se apercebem de que os ganhos de a implementar começam a ser inferiores aos custos de a manter.
  • Estão a interagir com o equilíbrio do planeta, interferindo com as outras espécies, modificando ou destruindo eco-sistemas, e estão, pela emissão de gases poluentes, a alterar a composição da atmosfera. Isto pode tornar as condições ambientais muito adversas para o futuro dos humanos.
  • Dispõem  de armas com grande poder, na verdade com capacidade para se autodestruirem, e acreditam que elas  têm apenas um poder dissuasor, mas podem vir a utilizá-las. Elas estão na posse dos governos de muitos territórios, e existem até pequenos grupos que podem aceder-lhes. Já foram usadas no passado, e poderão voltar a sê-lo, quando da memória dos humanos se for apagando a imagem do seu efeito devastador.
  • Não têm consciência do problema criado pelo rápido crescimento populacional da sua própria espécie, e aceitam, despreocupadamente, esse facto. As classes do topo da hierarquia cultural e social já conseguem separar o acasalamento da reprodução, e, em parte por isso, estão a reproduzir-se menos, e, progressivamente, a envelhecer e a perder importância relativa.
As soluções que estes terráqueos procuram implementar para enfrentar os seus problemas são soluções autofágicas do tipo "mais do mesmo".  Em situações semelhantes ocorridas noutros planetas, elas mostraram-se completamente desajustadas pois tendem a criar mais complexidade, a consumir mais recursos e a aumentar os fluxos poluentes. Em vez de resolver os problemas, elas só os vão agravar.  Parecem, estes seres, desconhecer a lei do declínio  fatal que postula que "uma espécie suportada por um recurso finito, extingue-se quando a sua população cresce mais depressa do que a disponibilidade desse recurso"

Sofrem ainda da "ilusão tecnológica" que postula que espécies inteligentes acreditam que a tecnologia pode criar recursos, quando na verdade ela só os pode gerir e otimizar.  Esta ilusão tem levado a espalhar a ideia de que serão criados recursos energéticos alternativos, mas  que são, afinal, formas diferentes do mesmo recurso. Além disso, a tecnologia contribui fortemente para aumentar a complexidade, e favorece a ocorrência de "acidentes disruptivos".

Os terráqueos  tentam a projetar no futuro os acontecimentos passados pois são possuídos duma  mentalidade linear que ignora a aceleração entrópica do tempo. Esta lei postula que  o tempo acelera com o aumento da entropia ou da complexidade, e, por isso, o passado não se pode projetar linearmente no futuro. Parecem não se ter apercebido da armadilha do "crescimento exponencial", que está na base da referida aceleração.

A colonização de outros planetas não está ao seu alcance, e isso é uma limitação importante, dado que estão confinados, inexoravelmente, à finitude do seu planeta. Prevejo que, no futuro próximo, as pressões demográficas vão aumentar fortemente, a luta pelos recursos vai agravar-se, as alterações do clima vão continuar, e haverá um momento em que será praticamente impossível controlar o uso de armas de destruição, nomeadamente as as nucleares, as químicas e as biológicas. Por tudo isto considero que a probabilidade de haver um colapso desta sociedade é muito elevada.

Tal como aconteceu noutros sistemas, caso se verifique um colapso, poderá seguir-se uma longa noite, os danos serão enormes nos planos  populacional tecnológico e energético. A espécie poderá mesmo extinguir-se ou reduzir drasticamente a sua população, podendo, mais tarde, voltar a emergir.  Por outro lado, esta sociedade criou laços de forte interdependência a nível global que afastam a possibilidade de colapsos parciais, como aconteceu noutras eras em que eles existiram, mas ficaram confinados a certas regiões. Concluo que, na atual fase de desenvolvimento, o  colapso, a existir, será global.

Como nós suspeitávamos a sociedade dos humanos corre sérios riscos, e, para a preservar, pode tornar-se necessária uma intervenção exterior. A possibilidade de fazer a Grande Transição, de uma forma pacífica e ordenada  é cada vez mais remota mas ela ainda é possível se forem tomadas as medidas adequadas. E, cumprindo com o que me foi pedido, vou esboçar a forma como essa possibilidade poderia ser realizada e implementada. Disso falarei na terceira e última parte deste relatório.


segunda-feira, 6 de maio de 2013

O Relatório

Um extraterrestre visita o nosso planeta e descreve o que viu.
 (primeira parte)
Ao Venerável Conselho Superior da Galáxia:

Cumprindo as ordens recebidas, dirigi-me ao terceiro planeta do sistema estelar NX34 com o fim de vos informar sobre ele, nomeadamente sobre a espécie que ali domina. Utilizei a técnica da materialização metamorfósica para me transmutar num elemento da referida espécie, e durante um longo período vivi desapercebido entre eles. Pude, assim, observar o seu modo de vida, aprender a sua forma de comunicar, e aceder aos seus registos. Tudo com vista a preparar o relatório que agora, já regressado ao nosso Mundo, vos apresento.

Tal como nós prevíamos, o planeta objeto desta análise, pela conjugação da abundância de água, de uma atmosfera adequada, e de uma temperatura amena, reúne perfeitas condições para a existência de vida reprodutiva no sistema carbono-oxigénio. Existe uma grande abundância e diversidade de espécies animais e vegetais, e, considerando a complexidade orgânica de algumas dessas espécies, concluo que as condições favoráveis ao aparecimento das primeiras formas de vida já terão ali ocorrido há muito tempo.

De entre as espécies de seres vivos, existe uma que ganhou um vincado ascendente sobre todas as outras. Chama-se ali espécie humana. Trata-se de um primata, que caminha ereto apoiado sobre os dois membros inferiores. E que tem uma grande destreza dos membros superiores que são dotados, nas extremidades, de cinco ramificações. Esta espécie proliferou de tal forma que as marcas da sua presença são visíveis por toda a parte. E, de entre todas as espécies deste planeta, esta é a única que manifesta comportamento revelador de inteligência.

A sua longa evolução permitiu-lhe articular sons diferenciados, associados a imagens, objectos, ideias e até emoções, facto que lhes permite comunicar entre eles; criaram também um código gráfico, que lhes permite grafar os sons e registar factos e ocorrências e ideias. Isto permitiu-me consultar esses registos, e ficar a conhecer como se processou a evolução desta espécie. Fiquei a saber, por exemplo, que desde há muito os humanos aprenderam a dominar o fogo e a construir ferramentas de todo o tipo.

A sua organização é de uma grande complexidade: dominam perfeitamente a metalurgia, fabricam ferramentas muito diversificadas e sofisticadas. Algumas são capazes de realizar operações inteligentes, outras são para se transportarem, outras para usarem como armas. E fazem isto de uma forma muito organizada, em grandes unidades de fabrico, pelo método da especialização e divisão do trabalho. Conhecem e aplicam técnicas de prolongamento da vida, e são capazes de fazer transplantes de órgãos entre indivíduos diferentes.

Estão organizados em inúmeros territórios nos quais os seus ocupantes defendem os seus interesses próprios, e, muitas vezes, fazem guerras para defender esses territórios ou para atacar os dos outros. Vivem em grandes aglomerados, uma espécie de colmeias, e têm funções muito diferenciadas. Utilizam as outras espécies em proveito próprio, por vezes criando-as artificialmente e alimentando-se delas. Socialmente, existe um sistema muito vincado de hierarquias, nem sempre baseado no mérito.

A energia que alimenta a vida neste planeta é fornecida pela estrela do seu sistema planetário a que eles chamam Sol. Os humanos aprenderam a utilizar essa energia a seu favor, e até já conseguem capturar a energia dos átomos. No tempo recente, eles têm recorrido a uma forma de energia desde há muito acumulada no planeta, sob a forma de compostos de carbono. Isso permitiu um desenvolvimento e proliferação espetacular da espécie, de tal forma que os registos mostram que, nas últimas seis gerações, o seu número se multiplicou por 8.

Os elementos desta espécie podem comunicar entre si, de forma interativa e à distância, através de ferramentas muito avançadas, e utilizando uma tecnologia baseada nas propriedades dos cristais de silício. Para tal usam o poder da eletricidade, as ondas eletromagnéticas e as redes inteligentes. Podem deslocar-se rapidamente de uns lados para outros e de diversas formas, inclusive através do fluído atmosférico. E até já visitaram o pequeno satélite que orbita à volta do planeta, a que eles chamam Lua. 

Por tudo o que vi, considero que o estádio de evolução desta espécie está entre os mais avançados da Galáxia. Espantou-me o avanço tecnológico, em alguns aspetos, equiparado ao nosso. Poderão estar perto do "grande salto" em frente, da Grande Unificação, tal como aconteceu no nosso Mundo na Era da Transição. No entanto, encontrei indícios de que existem grandes fragilidades no comportamento desta espécie que podem levar ao seu colapso organizativo, tal como já aconteceu em outros sistemas planetários mas que eles, naturalmente, desconhecem.  Disso darei conta na segunda parte deste relatório.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A Globalização


No último "Prós e Contras" da RTP, Medina Carreira falou das causas da crise. E culpou a globalização pela dramática situação económica de Portugal, da Europa e dos Estados Unidos. Apresentou números, nomeadamente comparou o crescimento da última década do século XX com a primeira década do século XXI, em que o valor médio das taxas de crescimento generalizado das economias "ocidentais" caiu para cerca de metade. Associada à globalização, Medina Carreira falou da desindustrialização desta zona, cuja capacidade produtiva se transferiu para a China e para outros países. Referiu, a propósito,  que em Portugal o sector industrial representava, em 1974, 29% do PIB e que, em 2011, essa percentagem não ultrapassava os 12% . E, no elencar das causas da crise, esqueceu-se de referir, com já tem feito noutras ocasiões, o forte aumento do valor da fatura energética nas despesas desses países, talvez a causa mãe de todos os males que nos afligem.

Mas afinal o que é a globalização? Poder-se-ia ter evitado?  A globalização é consequência natural da aplicação dos princípios do liberalismo económico, entre os quais a livre concorrência, a livre circulação de capitais e os acordos do comércio livre, princípios que, desde Adam Smith, formataram o mundo e a sua economia. Foram eles que impulsionaram o crescimento da economia mundial, e que aceleraram o desenvolvimento dos países emergentes. Foi o caso da China, aquele que pela sua dimensão, tem um maior impacto na economia mundial. Numa primeira fase, a globalização poderá ter sido boa para a Europa, pois permitiu baixar o preço de produtos manufaturados e exportar tecnologia. Mas agora já percebemos o logro, e interrogamo-nos se teria havido outro caminho, e se ainda será possível retroceder?

Este sistema económico  reage mal a condicionamentos e protecionismos. O crescimento exige que a produção e o capital se desloquem para as zonas ou países que lhe são mais favoráveis. Dito por outras palavras, o capitalismo é cego e está sujeito a uma lei de atração que ignora a moral, é indiferente às desigualdades e ao sofrimento humano, acredita na abundância ilimitada de recursos, desconhece a poluição e os riscos ambientais. É regido por uma espécie de "lei da gravidade" que impele a economia para os excessos que nós conhecemos, sempre em busca do crescimento e do lucro.  Mas, convenhamos, a  nível global, a globalização teve um efeito positivo sobre o crescimento.

Mas a economia enfrenta limites críticos, são limites exógenos  que o sistema desconhece. A exigência do crescimento está a criar uma forte pressão demográfica, e um desequilibro resultante da escassez de recursos e do efeito dos efluentes produzidos. Ora, isso vai obrigar a estabelecer condicionalismos no controlo demográfico, na repartição e utilização dos recursos, e no controlo das emissões de alta entropia, que são, afinal,  os inputs e os outputs do nosso  sistema. É isso é um paradoxo na medida em que não pode ser resolvido por dentro, mas que também não pode ser resolvido por fora, sem destruir a própria essência do sistema, o qual não aceita interferências.

Na base do conceito de Transição está  a exigência de uma economia que ultrapasse esse paradoxo. Terá de ser uma economia de crescimento zero, mas que conduza, mesmo assim,  a uma prosperidade, logicamente menos materializada. Vai obrigar a um governo mundial que imponha uma melhor repartição e uma mais sábia utilização dos recursos existentes, e que estabeleça regras para evitar os efeitos perniciosos dos efluentes sobre o ambiente e sobre o clima.

Num tal cenário, vão colocar-se delicadas questões de natureza moral e ética quando for necessário sacrificar o interesse individual em beneficio do interesse coletivo. O formato de uma tal nova economia é ainda muito difuso, mas é evidente que haverá fortes implicações no sistema financeiro, no sistema politico, e nos princípios que estão na base das chamadas democracias ocidentais, assentes nos partidos políticos.  Os nossos governantes que falam e insistem  no crescimento e na retoma (afinal quem não fala?), ainda não perceberam o paradoxo em que vivemos. E estão a conduzir-nos para lado nenhum...

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A Lã

A história da lã acompanhou de perto a história da civilização humana. A lã vestiu reis e rainhas, deu trabalho a pastores e artificies, e foi responsável pelas primeiras fábricas da  era industrial. Mas o esplendor da era do carbono, com o sucesso das fibras artificiais a que deu origem, está a relegar para segundo plano esta matéria prima maravilhosa.

A lã é  o pelo de certos animais, e dela existem mais de 200 variedades.  Do pelo das cabras, provém a famosa lã de caxemira,  e a fina lã  mohair .  Pode fiar-se lã de alpacas, de camelos, de lamas, de bisonte, de cavalos, de cães e até a levíssima e apreciada lã dos coelhos angorá. Mas a lã por excelência, a lã do nosso imaginário,  é a lã de ovelha.

A domesticação dos ovinos ocorreu no Médio Oriente há cerca de 9,000 anos e, juntamente com a domesticação da vaca e do cavalo, constituiu um passo decisivo para criação dos primeiros  povoados agrícolas que estiveram na base da sedentarização, e foram o início da aventura humana cujas urbes acabariam por cobrir todo o planeta.

A ovelha é um animal dócil, símbolo da inocência. Ela teve um grande significado nas culturas que floresceram no médio oriente, onde a economia estava centrada na pastorícia. A Bíblia está cheia de referências aos pastores e aos seus rebanhos.  Jacob, o patriarca das tribos de Israel, foi o pastor de Labão,  a quem serviu para casar  com as suas duas filhas, primeiro com  Lia e depois com Raquel. O cordeiro era o animal que se sacrificava na Páscoa dos judeus.  E o Cristo redentor foi apresentado por João Batista como o Cordeiro de Deus.

Ainda hoje existe uma dinâmica atividade económica ligada á criação de ovinos. A ovelha produz  a carne o leite o couro e a lã.  A lã de ovelha começou a ser fiada e tecida há mais de 5000 anos.  É uma fibra maravilhosa:  é leve, resistente e flexível; aquece sem abafar, respira; lava-se e recupera a sua forma original; não cria humidade, não favorece o desenvolvimento de ácaros e parasitas.. É um produto natural e biodegradavel. Mas, acima de tudo, a lã é  conforto, suavidade, carinho e aconchego. Numa palavra, a lã é nossa amiga.

No conforto da vida moderna, em que as coisas aparecem milagrosamente nas lojas, esquecemo-nos da arte de tratar a lã. No início da primavera o tosquiador, com a sua tesoura e a sua arte, liberta a ovelha da sua proteção do inverno. O resultado é um velo de lã, semelhante a  um suave sobretudo. Depois a lã é lavada pois o velo, além da sujidade que acumulou durante o ano inteiro, ainda está impregnado com a gordura natural da ovelha, a lanolina.  A lavagem é feita com vulgar sabão,  sem danificar a fibra, à temperatura certa para a lã não feltrar.

Depois carda-se a lã e penteia-se para estender e ordenar e estender as fibras. Pode-se tingir antes de passar à fiação que tradicionalmente  era feita com as rocas ou com as rodas de fiar. O fio é estendido, pode ser singelo ou dobrado e doba-se para formar as meadas e os novelos. Finalmente a lã pode ser tecida ou tricotada e está pronta a ser usada.

Numa economia de transição a lã voltará a ter um lugar que lhe compete. Não se pode perder o saber milenar de tratar a lã. Porque são estes saberes, herdados dos nossos antepassados, que temos de recuperar e valorizar para ajudar a reconstruir a esperança no futuro. O crescimento e o emprego também passam por aí.


segunda-feira, 15 de abril de 2013

O que Diz Krugman

Paul Krugman, o prémio Nobel da Economia,  tem vindo a defender que a austeridade não é solução para Portugal, nem para Europa do Sul. Vinda de quem vem esta opinião é muito respeitável, mas eu discordo dela. Para enfrentar a situação  em que nos encontramos, só vejo duas alternativas: ajustamento ( que implica austeridade) ou saída do euro. Eliminar a austeridade mantendo o euro significaria aumentar o deficit das contas públicas, e já sabemos que ninguém está disposto a emprestar dinheiro para  o financiar .

É certo que podemos argumentar com a solidariedade da Europa mais rica, e remetermo-nos ao papel de pedintes.  Mas isso só resolveria o problema temporariamente e , de certo modo, já o estamos a fazer.  Eu não entendo  a razão porque políticos,  economistas e comentadores falem nesse cenário como sendo possível e desejável. Na génese  dos nossos problemas atuais está a imperfeita criação da Europa,  em que se pretendeu uma integração sem perda de soberania dos países aderentes. Ora, uma verdadeira Europa unida e solidária exige compromisso e mitigação da  soberania dos estados membros. Não se pode ter tudo. E essa é uma escolha que, um dia, os europeus terão de fazer.

A alternativa à austeridade é a saída do Euro que é, afinal, uma outra forma de austeridade. Tal  permitiria desvalorizar a moeda e aumentar a competitividade externa. O empobrecimento seria grande e generalizado, e Portugal ficaria durante décadas amarrado a uma dívida titulada em euros. Seria o adeus ao sonho europeu. Sendo um caminho possível, não o vejo como provável. Não interessa nem a Portugal nem à Europa

No quadro do nosso sistema económico - e ainda ninguém  apresentou outro sistema como alternativa - parece  não haver alternativa à austeridade. Seria conveniente que isso fosse rapidamente interiorizado para não se desperdiçarem  energias à procura de uma receita que não existe, uma espécie de  pedra filosofal dos alquimistas. Precisamos governantes esclarecidos que nos conduzam, e que sejam capazes de impor a austeridade  num clima de justiça, equidade e solidariedade.

O mais angustiante de tudo é não sabermos o que virá depois.  As leis da Economia fazem-me lembrar (no paralelo com a Física)  as leis de Newton que não se aplicam em situações extremas (por exemplo, nas vizinhanças da velocidade da luz!). Também na Economia parece faltar uma "teoria da relatividade" e um qualquer novo "Einstein" para explicar os comportamentos das variáveis económicas no contexto atual, que é um contexto de "limite" do sistema. E o que virá depois pode ser a consequência disso.

Diz o povo que não custa ser pobre, mas custa, isso sim, ser pobre quando já se foi rico!

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A Filosofia

A Filosofia é a mais nobre das disciplinas, e o filósofo o mais humilde dos homens. A Filosofia procura a Verdade absoluta, e é a mãe de todas as ciências.  O verdadeiro filósofo "só sabe que nada sabe", tem a consciência da sua pequenez na imensidão do Universo, mas procura incessantemente as respostas para aquilo que, lá no fundo, ele pressente que não tem resposta. O seu maior deleite é beber da fonte da sabedoria que nunca se esgota.

A Filosofia é uma árvore de cujo tronco se foram  autonomizando as ciências: a matemática, a geometria, a lógica, a física, a química, a medicina, a psicologia, a sociologia... As raízes insondáveis dessa árvore são a metafísica, e o seu tronco nunca se estreita. Cada nova descoberta, cada nova revelação, mostra uma nova incerteza, cria uma nova dúvida: o átomo, revela o protão e o eletrão, que por sua vez  revelam novas partículas e fazem conjeturar outras. Nada é definitivo, e quando se definirem as últimas equações da Física e se encontrar a força única e integradora que tudo comanda, havemos de encontrar uma nova barreira, e enfrentar um novo enigma. 

O filósofo quer explicar a natureza e a razão de ser das coisas. Ele começou por questionar o mundo, pôr em causa os mitos e as religiões. Mas o filósofo sabe que o pensamento não lida com as coisas reais mas  com as suas "representações mentais", como se fossem sombras na caverna de Platão. Ele  confronta-se com o absurdo de que o pensamento só pode tratar das coisas "pensadas".  O "penso, logo existo" de Descartes relaciona conceitos inconciliáveis, o pensar e o existir. Porque o primeiro é humano e o segundo é metafísico, e a única dedução válida seria "penso, logo penso que existo".

Na sua procura incessante da Verdade o filósofo assemelha-se a Sísifo, o herói da mitologia grega que, por castigo da sua astúcia em enganar a Morte, foi condenado pelos deuses a carregar uma pesada pedra pela encosta acima de um monte. Sempre que chega ao cimo, a pedra volta a rolar até ao vale, e Sísifo tem de a voltar a carregá-la e subir outra vez, incessantemente. Albert Camus viu nisto o absurdo e, nos seus cadernos, diz que o sofrimento de Sísifo não reside tanto no esforço de carregar a pedra, mas na angústia de ter de descer encosta abaixo para o eterno recomeço...É a angústia primordial do homem pensante que se prende com a procura do "sentido" da vida,  chamemos-lhe "angústia existencial" ou outra coisa qualquer.

Ao contrário do teólogo que  só tem certezas, o filósofo só tem dúvidas. O teólogo faz filosofia para demonstrar a sua Verdade e  justificar a sua Fé.  O filósofo apenas quer respostas para as suas dúvidas. A verdade do filósofo nem sempre é conveniente, por isso a liberdade foi a mãe da filosofia. Foi na urbe da Grécia antiga quando se ascendeu a chama do poder emanado da demos que se criaram condições para questionar a mitologia e enfrentar os dogmas das religiões.

Durante milhares de anos o homem procurou a explicação das coisas, e  aquilo que conseguiu é extraordinário. Desceu ao átomo, desvendou as galáxias, explicou a criação do Universo, aventurou-se no espaço, mostrou a evolução das espécies, conheceu os segredos do corpo humano, penetrou nos meandros do inconsciente, descodificou o genoma, cavalgou as ondas hertzianas, pôs a eletricidade ao seu serviço, e já ninguém se atreve a colocar limites à sua ambição de saber.

Na verdade chegou, como Sísifo, ao cimo do monte. Mas já olha para o vale e teme que voltar, mais uma vez, lá abaixo seja o seu destino... ou, quem sabe, se não o castigo por, também ele, querer enganar a Morte!

segunda-feira, 25 de março de 2013

O Dinheiro


As ocorrências recentes no Chipre, motivadas pela anunciada taxação dos depósitos bancários, vieram alertar-nos de novo  para a questão do dinheiro e da segurança dos bancos. Este anúncio, só por si, poderá ter consequências imprevisíveis, e poderá ser o rastilho de bem mais graves acontecimentos na Europa, e não só.

O dinheiro, como o  definiu  Frederick Soddy no seu livro "O Papel do Dinheiro",  é esse Nada por que se vende Qualquer Coisa e que com o qual se  compra Quase Tudo. O dinheiro é "nada", pois não tem valor intrínseco. Mas ele tem um elevado valor simbólico, um valor de representação que lhe é atribuído por convenções. A riqueza está nos bens e não no dinheiro que os compra. Mas, para o comum dos cidadãos, dinheiro significa riqueza, e isso é válido enquanto se mantiver estável e credível o sistema de convenções. A taxação do património, primeiro anunciada e depois reprovada no Chipre, ameaça o sistema bancário e abala, por toda a Europa,  a confiança que as pessoas têm nele.

Quando nós vendemos uma coisa e compramos outra com o mesmo dinheiro, este limita-se a intermediar uma troca. Essa poderia ser a sua função principal, mas o papel do dinheiro vai muito para além disso. Quando nós poupamos o dinheiro (abstemo-nos de o gastar agora para o gastar depois) que  recebemos pelo nosso trabalho ou pelas coisas que vendemos, nós adiamos a troca desse dinheiro (por bens ou serviços)  para mais tarde, e, desta forma,  criamos um título sobre uma riqueza futura. Tudo se passa como se esse dinheiro poupado fosse um crédito sobre a comunidade, na medida em que nós vamos um dia exigir a essa comunidade que nos devolva, em bens ou serviços, o valor desse crédito. E, compreende-se a dificuldade, como aconteceu no Chipre,  em aceitar que esse dinheiro (ou esse crédito) seja, a posteriori, objeto de expropriação ou de afetação por qualquer incidência fiscal.

Mas o dinheiro pode ser obtido, não pela venda de bens ou serviços, mas através de um empréstimo, isto é, pela criação de uma dívida. O emprestador pode ser alguém que poupou e transfere essas poupanças para outrem, ou pode ser um banco que empresta dinheiro que ele próprio cria do nada, e que o faz (segundo certas regras) na expetativa de que o devedor salde a divida no tempo estabelecido no contrato do empréstimo. E se no primeiro caso se verifica uma mera transferência de crédito, no segundo há uma verdadeira criação de dinheiro sem a contrapartida de nenhuma riqueza atual, existindo apenas a referida "expectativa" de criação dessa riqueza no futuro. Existe ainda o crédito ao consumo (caso, p. ex. dos cartões de crédito),  caso este em que se antecipam ou se hipotecam os rendimentos futuros do contraente.

Se o tomador do empréstimo for o Estado, o que acontece quando existe deficit nas suas contas que tem de ser coberto, o dinheiro para o pagar é criado pelo banco emissor (BCE na Europa, Reserva Federal nos EU). Países, como Portugal, que já não têm a capacidade de emitir moeda, o deficit é compensado pelo aumento da dívida pública, mas que só pode ampliar-se até limites aceitáveis, caso contrário, corre-se o risco de incumprimento..

Numa economia sem crescimento, a atividade económica não permite criar a riqueza para pagar o capital emprestado mais os juros, e o incumprimento do pagamento das dívidas é frequente. Destrói-se a correspondência entre riqueza e dinheiro. E, o pior de tudo, deixa de haver expetativa para conceder novos empréstimos. Os Estados tornam-se imcumpridores, o sistema fiscal deixa de gerar receitas, entra-se numa espiral recessiva. Por toda a Europa, cuja economia não cresce, vive-se, nestes momentos, o fantasma dessa recessão, e teme-se que o sistema financeiro seja o elo mais vulnerável de um eventual  desfecho desfavorável da crise.

Acontecimentos como aqueles que estão a ocorrer no Chipre podem colocar o sistema financeiro europeu fora de controlo. Os cipriotas festejaram a decisão do seu parlamento de reprovar a taxação de depósitos. E, por cá, os comentadores do costume aplaudiram os deputados cipriotas, e associaram-se à festa do povo. Temo que a festa e os foguetes tenham sido lançados cedo demais! Os problemas de Chipre ainda mal começaram!