segunda-feira, 3 de junho de 2013

Um Prémio Autista


O Centro de Estudos Ibéricos da Guarda concede todos os anos um prémio, a que chamou o "Prémio Eduardo Lourenço", destinado a “galardoar personalidades ou instituições com intervenção  relevante no âmbito da cultura, cidadania e cooperação ibéricas “ (sic). Este ano empenhei-me pessoalmente (eu, e não só!) na apresentação da candidatura do Dr. Álvaro Carvalho, médico humanista, homem da cultura viva,  escritor e exemplar cidadão, por entender que se ajustava perfeitamente ao perfil visado no regulamento do referido prémio. Mas sendo o júri predominantemente constituído por gente de borla e capelo e sendo o meu candidato um candidato futrica (é este o termo que os doutores usam em Coimbra para designar a população civil), eu sabia, à partida, que ele não teria grandes hipóteses de ser escolhido.

Este ano, com alguma surpresa, o júri escolheu premiar o Sr. Jerónimo Pizarro, um professor universitário colombiano, apresentado como um estudioso de Fernando Pessoa. Esta atribuição vem na sequência da realização da feira do livro de Bogotá, fortemente publicitada na imprensa portuguesa, e visitada pelo nosso Presidente da República na sua recente deslocação à Colômbia. Não conheço a obra do premiado, nem questiono o seu valor, mas ficam no ar algumas interrogações, não sobre o seu mérito pessoal e literário mas sobre as motivações (pensando no regulamento do prémio)  que teriam levado os jurados a escolhê-lo.

Dizem-me que, este ano, estiveram em apreciação quase duas dezenas de candidaturas, facto angustiante para um júri, que, ainda por cima, teve de decidir depressa. Ao atribuir o prémio ao ilustre desconhecido,  Sr. Jerónimo Pizarro, o ilustrado júri do Centro de Estudos Ibéricos da Guarda faz-me lembrar os guardas pretorianos do imperador Calígula, que depois de o assassinarem, durante os jogos no circo Romano, hesitando na escolha do seu sucessor, e encontrando, por acaso, Claudius, um velho gago e sem ambição, da gens de Augusto, logo concluíram que  aquele encontro vinha mesmo a calhar e não tinham de  procurar mais. E de imediato, ali mesmo, o fizeram imperador.

Na minha opinião, a escolha do premiado teve sobretudo a ver com Fernando Pessoa. Pessoa é o poeta inquestionável, ainda por cima, querido de Lourenço e estudado por ele. Em Portugal, Pessoa é a personalidade do consenso, quase uma conveniência cultural. E a sua projeção além fronteiras enche-nos de orgulho, e aconchega-nos o ego. No nosso meio cultural, é de bom tom citar Pessoa, recitar Pessoa, estudar Pessoa, invocar Pessoa. E, contudo, convém lembrar que o poeta dos heterónimos simboliza a resignação dos portugueses, é o expoente maior da nossa depressão coletiva, uma espécie de espelho de um país, falhado e desassossegado.

Eu concluo, pois, que quem foi premiado pelo júri do CEI não foi Pizarro, foi Pessoa. E, neste pressuposto, não deixa de ser curioso constatar que no ano passado, Lourenço ganhou o Prémio Pessoa, e este ano, Pessoa ganhou o Prémio Lourenço. Atribuição que, tanto num como no outro caso, é honrosa para os premiados, mas que nada acrescentou ao seu  prestígio e grandeza, desde há muito afirmados e confirmados. Mas, como convinha, não houve sobressaltos, ficou tudo em casa, foi uma espécie de autismo cultural. Tudo, culturalmente, correto...

Ainda a este propósito, é oportuno recordar uma história exemplar: o concurso literário que a Real Academia das Ciências levou a efeito no longínquo ano de 1887, ficou famoso não pela obra premiada,  O Duque de Viseu de Henrique Lopes de Mendonça, mas pela que foi preterida, A Relíquia de Eça de Queirós. Foi Pinheiro Chagas que relatou o parecer  a justificar a decisão do júri, e este facto deu a Eça o ensejo de responder, escrevendo, com a sua fina ironia,  algumas das mais belas páginas da literatura portuguesa.

Henrique Lopes de Mendonça foi um distinto oficial da Armada e um notável historiador, poeta, romancista e dramaturgo, e foi o autor dos versos d'A Portuguesa. E não mereceu a desdita de ter sido galardoado, naquelas circunstâncias, com o prémio D. Luís do concurso da douta Academia.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O Lugar da Europa

De vez em quando, o Filósofo de Vence desce ao povoado e vem iluminar com o brilho das  suas ideias e com a nitidez do seu discurso a nossa tristonha obscuridade. Desta vez, numa entrevista ao Público, ajudou-nos a perceber a teia em que a Europa se encontra enredada. Mostrou-nos a lógica dos acontecimentos, e com a sua habitual clarividência, antecipou a História. Disse-nos o óbvio: que a Europa já não é o centro do Mundo, que está desesperadamente à procura de reencontrar esse lugar perdido, que ainda não se conformou com essa perda; que acabou a Europa das nações, mas mantém-se a mentalidade das nações, e que desfeitas as partes ainda não se reconstruiu o todo. Falou dos protagonistas, de Merkl, de Hollande e de Sarkozy, falou da Globalização, e concluiu que a Europa reincarnou na América, mas que a América não é a Europa e não a substituiu. Falou do fim das guerras e das guerras sem fim. Ele, como ninguém,  tem seguro o fio da história, e pode, com essa segurança, anunciar-nos o fim de um ciclo europeu.

Eduardo Lourenço é um observador atento, e tem uma cultura soberana. Ele é um ativo da nação, e mantém aos 90 anos uma lucidez que nos espanta e, ao mesmo tempo, nos conforta. No passado dia 20 de maio, ao fim do dia, no Centro Nacional de Cultura, a propósito da reedição do livro "Os Militares e o Poder", falou-nos, mais uma vez, de Portugal de do seu destino. Centrou a sua análise na reconversão da Pátria que se operou com o 25 de Abril, em que Portugal se despiu das suas colónias que lhe davam sentido e até razão de ser. Depois disso, Portugal não mais seria o mesmo, e não mais será o mesmo. Com a língua como único património diferenciador, este é um país do faz de conta. Resta-nos a nostalgia de um Camões do Império sonhado, e de um Pessoa angustiado e angustiante  na eterna procura dos retalhos desse sonho desfeito.

A verdade é que o mundo vive hoje numa encruzilhada e a Europa também.  Lourenço, o magnífico, talvez tenha em seu poder um novelo de Ariadne que sirva para nos guiar para a encontrar o caminho para a saída crise, ou talvez já tenha intuido que não conduzirá a nenhuma saída, porque o labirinto não tem saída.  Porque ele faz o diagnóstico mas não arrisca mais do que isso. Deixa  para nós o prognóstico, como se nos convidasse a adivinharmos o que está do outro lado da crise. Mas foi ele mesmo que um dia nos disse que esta crise não tem "outro lado".

A Europa não tem gente, não tem indústria não tem energia.  Tem a cultura, mas de que lhe vale a cultura?  O simples custo de a preservar pode ser demasiado elevado. Tem um serviço social sem paralelo no mundo, mas que, sabe, não poderá manter. Está empenhada em reduzir a poluição, em aumentar a eficiência energética,  e aposta nas energias renováveis.  Mas nesta cruzada, a Europa faz o papel do cavaleiro da triste figura, esgrimindo com lanças contra moinhos de vento, quando a Coreia do Norte aponta armas nucleares ao Ocidente, e a China polui em quatro meses o que a Europa, esforçadamente, deixa de poluir  em 10 anos! Mas o maior perigo para a Europa são as hostes de famélicos que se perfilam e espreitam nas suas fronteiras preparados para abocanhar a presa, ou o que dela restar, ao mais pequeno descuido.

A Europa já não lidera o Mundo, mas quem o lidera? A América, afogada nas sua responsabilidades de guardião da ordem global, que tem de manter um exército longe do seu território, e faz lembrar o decadente  Império Romano dos séculos e III e IV? A China que carrega o peso de uma civilização milenar, e tem de gerir as contradições  entre a sua cultura e o modelo económico que o Ocidente lhe impôs? A Rússia que perdeu o seu tempo e o seu espaço, e que hesita entre aliar-se à China ou à Europa? Todos estes protagonistas sabem que a resposta ainda não é definitiva, mas todos eles pressentem que o futuro do mundo se joga no Médio Oriente,  no eixo que vai de Israel  ao Paquistão.

No próximo dia 6 de junho, Eduardo Lourenço estará na Guarda para falar de Portugal e do seu destino. Desta vez, terá a vida facilitada pois já tirou a conclusão: o destino de Portugal é o destino da Europa.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

O Relatório 3

Um extraterrestre visita o nosso planeta e descreve o que viu.
 (terceira parte)

Tive a preocupação de equacionar os problemas que estão a condicionar  o desenvolvimento da espécie humana, de modo a antever o seu futuro. Cuidei de construir um modelo simples, aquilo que no nosso mundo se designa por "Limites ao crescimento num sistema finito". As quatro  variáveis que utilizei foram a população, o nível de atividade produtiva (ou atividade económica como os humanos  lhe chamam) os recursos existentes onde inclui, entre outros, a energia, a água e o "solo arável", e as emissões poluentes produzidas. As duas últimas variáveis constituem, respetivamente, os inputs e os outputs da atividade económica. Ora, como é sabido, a atividade económica transforma os produtos bons ou de baixa entropia (os inputs) em produtos maus ou de alta entropia (os outputs).

A inclusão no modelo da variável tecnologia não foi, propositadamente, considerada. Esta variável tem um efeito que é o de melhorar a eficiência dos sistemas, ou seja, pode fazer com que um determinado aumento da atividade económica possa ser conseguido com uma redução dos inputs e dos outputs. Mas nós sabemos que este aumento de eficiência tem sempre como resultado final o aumento da atividade económica e nunca a redução dos inputs e dos outputs. Este efeito é aqui conhecido e designado de "Paradoxo de Jevons". Por isso, a aportação de mais ou melhor tecnologia funciona apenas como um catalizador de acontecimentos, não influindo no resultado final. Pois, como se sabe, os catalizadores não alteram o resultado das reações, mas apenas as aceleram. Em boa verdade, introduzir mais tecnologia num sistema colapsante terá como efeito abreviar a ocorrência do colapso!

A simulação que submeti ao Modelo, depois de alimentado  com os dados que recolhi, mostram que a atividade económica, considerada como variável dependente, entrará em crescimento negativo  num horizonte temporal muito curto (em todos os cenários ensaiados, em menos de cinco dezenas de anos!). Por sua vez, a  população, privada de recursos, entrará rapidamente em declínio. O efeito conjugado e reflexivo destas variáveis produz uma situação de extrema complexidade, cujas soluções são indefinidas por serem reguladas pelos princípios da teoria do caos, em que pequenas causas podem produzir grandes efeitos. Será  nesta altura que surgirão convulsões de natureza financeira, económica e social, as quais provocarão distúrbios dificilmente controláveis.

Para evitar deixar chegar as coisas a este estado, haveria que atuar de imediato, e as medidas  a tomar deveriam ser as seguintes:
  • Eliminar todas as armas nucleares, utilizando o material radioativo nelas contido para fins de produção de energia.
  • Erradicar a produção e consumo de substancias que entorpecem e debilitam a espécie.
  • Controlar o crescimento populacional
  • Preparar a economia para crescimento zero ou mesmo negativo
  • Gerir os recursos existentes, nomeadamente a produção de alimentos, a utilização da água e a utilização da energia fóssil.
  • Gerir a produção de resíduos poluentes, nomeadamente as emissões que contaminam a água e a atmosfera.
Acima de tudo será necessário encontrar uma nova forma de prosperidade para a espécie que não se baseie na posse de bens materiais ou na reprodução. Isto terá implicações profundas na organização social, e obrigará a importantes alterações nos sistema político e económico. No entanto,  isso não será fácil pois o sistema criou mecanismos de defesa que contrariam a adoção das medidas atrás enunciadas. Os governos dos diferentes territórios olharão sempre, em primeiro lugar, para os seus próprios interesses e não para o interesse global, e os que detêm privilégios não quererão perdê-los.

Conclui que a aplicação destas medidas dificilmente poderá ser feita por dentro do sistema. Com efeito ensaiei este cenário e o Modelo, pelo efeito da reflexidade, produziu convuloções sucessivas (loopings) cujo efeito resultava sempre numa degradação dos parâmetros que se procuravam otimizar.

Sendo o colapso inevitável, o Modelo apresentou-me, por defeito, a solução "menos má" que alguns designam por destruição criadora. Isso consiste em gerir ou controlar as expectáveis ocorrências colapsantes, eliminando a complexidade que as provocou, e mitigando os efeitos do caos resultante procurando em cada uma dessas ocorrências, e de cada uma delas, retirar os ensinamentos que contribuam para o resultado final pretendido. No fundo trata-se de aceitar, ou até mesmo provocar, um "colapso deslizante",  e manter o controlo sobre ele. O objetivo último será o de reconstruir uma nova sociedade:
  • Livre de armas nucleares, químicas e biológicas
  • Livre de substancias aditivas e debilitantes
  • Sustentável na utilização dos recursos e na produção de emissões poluentes.
  • Mais igualitária no acesso à riqueza, e mais solidária
  • Mais forte, mais próspera e mais feliz
  • Governada por um Governo Mundial dirigido pelos mais capazes e mais justos de entre os humanos.
Trata-se, afinal, de encontrar um novo rumo para esta brilhante Civilização. E persegui-lo com muita persistência e determinação, educando e preparando os jovens nesse sentido. Descobri que existe um elo a ligar a espécie que eles designam de Amor, e que não faz parte das equações dos nossos modelos. Sugiro que se aprofunde o conhecimento desta variável,  o que poderá alterar os pressupostos da minha análise.

Estou a terminar este relatório, e, em breve, irei de novo transmutar-me para regressar para junto de Vós. E agora que me vou desmaterializar, confesso que sinto alguma pena de abandonar este planeta. Não quero deixar de de referir uma agradável sensação, nunca antes por mim experimentada, que uma terráquea me provocou, e que não é conhecida no nosso Mundo, mas que, acredito, pode explicar muito do comportamento (para mim, até agora, inexplicável) dos humanos.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O Relatório 2

Um extraterrestre visita o nosso planeta e descreve o que viu.
 (segunda parte)

A sociedade dos humanos é uma entidade muito bem organizada que se rege por dois sistemas principais: um sistema político que estabelece a forma de acesso ao poder e define as regras e os  códigos de conduta dos  indivíduos; um sistema económico que regula a  produção e a troca dos bens e serviços que alimentam os indivíduos, as suas organizações e a própria sociedade. Existe ainda um sistema que vela pela boa aplicação das regras sociais chamado sistema judicial.

Para o relacionamento dos sistemas que referi, entre si e com a população, contribui um outro importante sistema que utiliza as redes de comunicação globais e que por isso se designa aqui de comunicação social. Trata-se de um sistema fortemente reflexivo que condiciona  e é condicionado pelos outros sistemas mas que interage com eles de forma a  reforçarem-se mutuamente.

Toda esta complexa organização, que não é uniforme pois apresenta diferenças entre os vários territórios, funciona concertadamente de forma a manter o status quo existente. Ela atua no sentido de favorecer o crescimento da produção e a proliferação da espécie mas parece ignorar a sua preservação no longo prazo. Com efeito, pude constatar os seguintes comportamentos de risco:
  • O principal recurso energético usado pelos humanos está a esgotar-se muito rapidamente, mas eles utilizam-no como se fosse inesgotável.
  • A extrema complexidade organizativa que criaram necessita de uma quantidade cada vez maior de energia para se manter. E eles não têm controlo sobre essa complexidade e não se apercebem de que os ganhos de a implementar começam a ser inferiores aos custos de a manter.
  • Estão a interagir com o equilíbrio do planeta, interferindo com as outras espécies, modificando ou destruindo eco-sistemas, e estão, pela emissão de gases poluentes, a alterar a composição da atmosfera. Isto pode tornar as condições ambientais muito adversas para o futuro dos humanos.
  • Dispõem  de armas com grande poder, na verdade com capacidade para se autodestruirem, e acreditam que elas  têm apenas um poder dissuasor, mas podem vir a utilizá-las. Elas estão na posse dos governos de muitos territórios, e existem até pequenos grupos que podem aceder-lhes. Já foram usadas no passado, e poderão voltar a sê-lo, quando da memória dos humanos se for apagando a imagem do seu efeito devastador.
  • Não têm consciência do problema criado pelo rápido crescimento populacional da sua própria espécie, e aceitam, despreocupadamente, esse facto. As classes do topo da hierarquia cultural e social já conseguem separar o acasalamento da reprodução, e, em parte por isso, estão a reproduzir-se menos, e, progressivamente, a envelhecer e a perder importância relativa.
As soluções que estes terráqueos procuram implementar para enfrentar os seus problemas são soluções autofágicas do tipo "mais do mesmo".  Em situações semelhantes ocorridas noutros planetas, elas mostraram-se completamente desajustadas pois tendem a criar mais complexidade, a consumir mais recursos e a aumentar os fluxos poluentes. Em vez de resolver os problemas, elas só os vão agravar.  Parecem, estes seres, desconhecer a lei do declínio  fatal que postula que "uma espécie suportada por um recurso finito, extingue-se quando a sua população cresce mais depressa do que a disponibilidade desse recurso"

Sofrem ainda da "ilusão tecnológica" que postula que espécies inteligentes acreditam que a tecnologia pode criar recursos, quando na verdade ela só os pode gerir e otimizar.  Esta ilusão tem levado a espalhar a ideia de que serão criados recursos energéticos alternativos, mas  que são, afinal, formas diferentes do mesmo recurso. Além disso, a tecnologia contribui fortemente para aumentar a complexidade, e favorece a ocorrência de "acidentes disruptivos".

Os terráqueos  tentam a projetar no futuro os acontecimentos passados pois são possuídos duma  mentalidade linear que ignora a aceleração entrópica do tempo. Esta lei postula que  o tempo acelera com o aumento da entropia ou da complexidade, e, por isso, o passado não se pode projetar linearmente no futuro. Parecem não se ter apercebido da armadilha do "crescimento exponencial", que está na base da referida aceleração.

A colonização de outros planetas não está ao seu alcance, e isso é uma limitação importante, dado que estão confinados, inexoravelmente, à finitude do seu planeta. Prevejo que, no futuro próximo, as pressões demográficas vão aumentar fortemente, a luta pelos recursos vai agravar-se, as alterações do clima vão continuar, e haverá um momento em que será praticamente impossível controlar o uso de armas de destruição, nomeadamente as as nucleares, as químicas e as biológicas. Por tudo isto considero que a probabilidade de haver um colapso desta sociedade é muito elevada.

Tal como aconteceu noutros sistemas, caso se verifique um colapso, poderá seguir-se uma longa noite, os danos serão enormes nos planos  populacional tecnológico e energético. A espécie poderá mesmo extinguir-se ou reduzir drasticamente a sua população, podendo, mais tarde, voltar a emergir.  Por outro lado, esta sociedade criou laços de forte interdependência a nível global que afastam a possibilidade de colapsos parciais, como aconteceu noutras eras em que eles existiram, mas ficaram confinados a certas regiões. Concluo que, na atual fase de desenvolvimento, o  colapso, a existir, será global.

Como nós suspeitávamos a sociedade dos humanos corre sérios riscos, e, para a preservar, pode tornar-se necessária uma intervenção exterior. A possibilidade de fazer a Grande Transição, de uma forma pacífica e ordenada  é cada vez mais remota mas ela ainda é possível se forem tomadas as medidas adequadas. E, cumprindo com o que me foi pedido, vou esboçar a forma como essa possibilidade poderia ser realizada e implementada. Disso falarei na terceira e última parte deste relatório.


segunda-feira, 6 de maio de 2013

O Relatório

Um extraterrestre visita o nosso planeta e descreve o que viu.
 (primeira parte)
Ao Venerável Conselho Superior da Galáxia:

Cumprindo as ordens recebidas, dirigi-me ao terceiro planeta do sistema estelar NX34 com o fim de vos informar sobre ele, nomeadamente sobre a espécie que ali domina. Utilizei a técnica da materialização metamorfósica para me transmutar num elemento da referida espécie, e durante um longo período vivi desapercebido entre eles. Pude, assim, observar o seu modo de vida, aprender a sua forma de comunicar, e aceder aos seus registos. Tudo com vista a preparar o relatório que agora, já regressado ao nosso Mundo, vos apresento.

Tal como nós prevíamos, o planeta objeto desta análise, pela conjugação da abundância de água, de uma atmosfera adequada, e de uma temperatura amena, reúne perfeitas condições para a existência de vida reprodutiva no sistema carbono-oxigénio. Existe uma grande abundância e diversidade de espécies animais e vegetais, e, considerando a complexidade orgânica de algumas dessas espécies, concluo que as condições favoráveis ao aparecimento das primeiras formas de vida já terão ali ocorrido há muito tempo.

De entre as espécies de seres vivos, existe uma que ganhou um vincado ascendente sobre todas as outras. Chama-se ali espécie humana. Trata-se de um primata, que caminha ereto apoiado sobre os dois membros inferiores. E que tem uma grande destreza dos membros superiores que são dotados, nas extremidades, de cinco ramificações. Esta espécie proliferou de tal forma que as marcas da sua presença são visíveis por toda a parte. E, de entre todas as espécies deste planeta, esta é a única que manifesta comportamento revelador de inteligência.

A sua longa evolução permitiu-lhe articular sons diferenciados, associados a imagens, objectos, ideias e até emoções, facto que lhes permite comunicar entre eles; criaram também um código gráfico, que lhes permite grafar os sons e registar factos e ocorrências e ideias. Isto permitiu-me consultar esses registos, e ficar a conhecer como se processou a evolução desta espécie. Fiquei a saber, por exemplo, que desde há muito os humanos aprenderam a dominar o fogo e a construir ferramentas de todo o tipo.

A sua organização é de uma grande complexidade: dominam perfeitamente a metalurgia, fabricam ferramentas muito diversificadas e sofisticadas. Algumas são capazes de realizar operações inteligentes, outras são para se transportarem, outras para usarem como armas. E fazem isto de uma forma muito organizada, em grandes unidades de fabrico, pelo método da especialização e divisão do trabalho. Conhecem e aplicam técnicas de prolongamento da vida, e são capazes de fazer transplantes de órgãos entre indivíduos diferentes.

Estão organizados em inúmeros territórios nos quais os seus ocupantes defendem os seus interesses próprios, e, muitas vezes, fazem guerras para defender esses territórios ou para atacar os dos outros. Vivem em grandes aglomerados, uma espécie de colmeias, e têm funções muito diferenciadas. Utilizam as outras espécies em proveito próprio, por vezes criando-as artificialmente e alimentando-se delas. Socialmente, existe um sistema muito vincado de hierarquias, nem sempre baseado no mérito.

A energia que alimenta a vida neste planeta é fornecida pela estrela do seu sistema planetário a que eles chamam Sol. Os humanos aprenderam a utilizar essa energia a seu favor, e até já conseguem capturar a energia dos átomos. No tempo recente, eles têm recorrido a uma forma de energia desde há muito acumulada no planeta, sob a forma de compostos de carbono. Isso permitiu um desenvolvimento e proliferação espetacular da espécie, de tal forma que os registos mostram que, nas últimas seis gerações, o seu número se multiplicou por 8.

Os elementos desta espécie podem comunicar entre si, de forma interativa e à distância, através de ferramentas muito avançadas, e utilizando uma tecnologia baseada nas propriedades dos cristais de silício. Para tal usam o poder da eletricidade, as ondas eletromagnéticas e as redes inteligentes. Podem deslocar-se rapidamente de uns lados para outros e de diversas formas, inclusive através do fluído atmosférico. E até já visitaram o pequeno satélite que orbita à volta do planeta, a que eles chamam Lua. 

Por tudo o que vi, considero que o estádio de evolução desta espécie está entre os mais avançados da Galáxia. Espantou-me o avanço tecnológico, em alguns aspetos, equiparado ao nosso. Poderão estar perto do "grande salto" em frente, da Grande Unificação, tal como aconteceu no nosso Mundo na Era da Transição. No entanto, encontrei indícios de que existem grandes fragilidades no comportamento desta espécie que podem levar ao seu colapso organizativo, tal como já aconteceu em outros sistemas planetários mas que eles, naturalmente, desconhecem.  Disso darei conta na segunda parte deste relatório.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A Globalização


No último "Prós e Contras" da RTP, Medina Carreira falou das causas da crise. E culpou a globalização pela dramática situação económica de Portugal, da Europa e dos Estados Unidos. Apresentou números, nomeadamente comparou o crescimento da última década do século XX com a primeira década do século XXI, em que o valor médio das taxas de crescimento generalizado das economias "ocidentais" caiu para cerca de metade. Associada à globalização, Medina Carreira falou da desindustrialização desta zona, cuja capacidade produtiva se transferiu para a China e para outros países. Referiu, a propósito,  que em Portugal o sector industrial representava, em 1974, 29% do PIB e que, em 2011, essa percentagem não ultrapassava os 12% . E, no elencar das causas da crise, esqueceu-se de referir, com já tem feito noutras ocasiões, o forte aumento do valor da fatura energética nas despesas desses países, talvez a causa mãe de todos os males que nos afligem.

Mas afinal o que é a globalização? Poder-se-ia ter evitado?  A globalização é consequência natural da aplicação dos princípios do liberalismo económico, entre os quais a livre concorrência, a livre circulação de capitais e os acordos do comércio livre, princípios que, desde Adam Smith, formataram o mundo e a sua economia. Foram eles que impulsionaram o crescimento da economia mundial, e que aceleraram o desenvolvimento dos países emergentes. Foi o caso da China, aquele que pela sua dimensão, tem um maior impacto na economia mundial. Numa primeira fase, a globalização poderá ter sido boa para a Europa, pois permitiu baixar o preço de produtos manufaturados e exportar tecnologia. Mas agora já percebemos o logro, e interrogamo-nos se teria havido outro caminho, e se ainda será possível retroceder?

Este sistema económico  reage mal a condicionamentos e protecionismos. O crescimento exige que a produção e o capital se desloquem para as zonas ou países que lhe são mais favoráveis. Dito por outras palavras, o capitalismo é cego e está sujeito a uma lei de atração que ignora a moral, é indiferente às desigualdades e ao sofrimento humano, acredita na abundância ilimitada de recursos, desconhece a poluição e os riscos ambientais. É regido por uma espécie de "lei da gravidade" que impele a economia para os excessos que nós conhecemos, sempre em busca do crescimento e do lucro.  Mas, convenhamos, a  nível global, a globalização teve um efeito positivo sobre o crescimento.

Mas a economia enfrenta limites críticos, são limites exógenos  que o sistema desconhece. A exigência do crescimento está a criar uma forte pressão demográfica, e um desequilibro resultante da escassez de recursos e do efeito dos efluentes produzidos. Ora, isso vai obrigar a estabelecer condicionalismos no controlo demográfico, na repartição e utilização dos recursos, e no controlo das emissões de alta entropia, que são, afinal,  os inputs e os outputs do nosso  sistema. É isso é um paradoxo na medida em que não pode ser resolvido por dentro, mas que também não pode ser resolvido por fora, sem destruir a própria essência do sistema, o qual não aceita interferências.

Na base do conceito de Transição está  a exigência de uma economia que ultrapasse esse paradoxo. Terá de ser uma economia de crescimento zero, mas que conduza, mesmo assim,  a uma prosperidade, logicamente menos materializada. Vai obrigar a um governo mundial que imponha uma melhor repartição e uma mais sábia utilização dos recursos existentes, e que estabeleça regras para evitar os efeitos perniciosos dos efluentes sobre o ambiente e sobre o clima.

Num tal cenário, vão colocar-se delicadas questões de natureza moral e ética quando for necessário sacrificar o interesse individual em beneficio do interesse coletivo. O formato de uma tal nova economia é ainda muito difuso, mas é evidente que haverá fortes implicações no sistema financeiro, no sistema politico, e nos princípios que estão na base das chamadas democracias ocidentais, assentes nos partidos políticos.  Os nossos governantes que falam e insistem  no crescimento e na retoma (afinal quem não fala?), ainda não perceberam o paradoxo em que vivemos. E estão a conduzir-nos para lado nenhum...

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A Lã

A história da lã acompanhou de perto a história da civilização humana. A lã vestiu reis e rainhas, deu trabalho a pastores e artificies, e foi responsável pelas primeiras fábricas da  era industrial. Mas o esplendor da era do carbono, com o sucesso das fibras artificiais a que deu origem, está a relegar para segundo plano esta matéria prima maravilhosa.

A lã é  o pelo de certos animais, e dela existem mais de 200 variedades.  Do pelo das cabras, provém a famosa lã de caxemira,  e a fina lã  mohair .  Pode fiar-se lã de alpacas, de camelos, de lamas, de bisonte, de cavalos, de cães e até a levíssima e apreciada lã dos coelhos angorá. Mas a lã por excelência, a lã do nosso imaginário,  é a lã de ovelha.

A domesticação dos ovinos ocorreu no Médio Oriente há cerca de 9,000 anos e, juntamente com a domesticação da vaca e do cavalo, constituiu um passo decisivo para criação dos primeiros  povoados agrícolas que estiveram na base da sedentarização, e foram o início da aventura humana cujas urbes acabariam por cobrir todo o planeta.

A ovelha é um animal dócil, símbolo da inocência. Ela teve um grande significado nas culturas que floresceram no médio oriente, onde a economia estava centrada na pastorícia. A Bíblia está cheia de referências aos pastores e aos seus rebanhos.  Jacob, o patriarca das tribos de Israel, foi o pastor de Labão,  a quem serviu para casar  com as suas duas filhas, primeiro com  Lia e depois com Raquel. O cordeiro era o animal que se sacrificava na Páscoa dos judeus.  E o Cristo redentor foi apresentado por João Batista como o Cordeiro de Deus.

Ainda hoje existe uma dinâmica atividade económica ligada á criação de ovinos. A ovelha produz  a carne o leite o couro e a lã.  A lã de ovelha começou a ser fiada e tecida há mais de 5000 anos.  É uma fibra maravilhosa:  é leve, resistente e flexível; aquece sem abafar, respira; lava-se e recupera a sua forma original; não cria humidade, não favorece o desenvolvimento de ácaros e parasitas.. É um produto natural e biodegradavel. Mas, acima de tudo, a lã é  conforto, suavidade, carinho e aconchego. Numa palavra, a lã é nossa amiga.

No conforto da vida moderna, em que as coisas aparecem milagrosamente nas lojas, esquecemo-nos da arte de tratar a lã. No início da primavera o tosquiador, com a sua tesoura e a sua arte, liberta a ovelha da sua proteção do inverno. O resultado é um velo de lã, semelhante a  um suave sobretudo. Depois a lã é lavada pois o velo, além da sujidade que acumulou durante o ano inteiro, ainda está impregnado com a gordura natural da ovelha, a lanolina.  A lavagem é feita com vulgar sabão,  sem danificar a fibra, à temperatura certa para a lã não feltrar.

Depois carda-se a lã e penteia-se para estender e ordenar e estender as fibras. Pode-se tingir antes de passar à fiação que tradicionalmente  era feita com as rocas ou com as rodas de fiar. O fio é estendido, pode ser singelo ou dobrado e doba-se para formar as meadas e os novelos. Finalmente a lã pode ser tecida ou tricotada e está pronta a ser usada.

Numa economia de transição a lã voltará a ter um lugar que lhe compete. Não se pode perder o saber milenar de tratar a lã. Porque são estes saberes, herdados dos nossos antepassados, que temos de recuperar e valorizar para ajudar a reconstruir a esperança no futuro. O crescimento e o emprego também passam por aí.