segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Comunicar: do Gesto à Internet

O gesto, a fala e mais tarde a escrita, terão sido as primeiras formas de comunicação na sociedade dos humanos. Ao comunicar com os seus semelhantes, o homem exprime-se e partilha conhecimentos, experiências e emoções, ordena, comanda, enfim, relaciona-se socialmente e é capaz  de trabalhar em equipa.  Através do discurso, um indivíduo pode dirigir-se a um grupo de seus iguais: o público. O teatro, a música, o canto,  as narrativas orais, e outras formas de expressão artística, como a  pintura e a escultura, são formas primitivas de comunicação pública. Mais recentemente, o homem recorre  a outros meios para comunicar com os seus semelhantes, nomeadamente  a Imprensa, a Rádio, a Televisão e a Internet. São os meios de comunicação social.

A comunicação social moderna que utiliza os meios de massa, nasceu com Gutemberg e com a invenção da imprensa. O documento impresso, multiplicado em grande número é o primeiro mass medium capaz de veicular uma mensagem (rigorosamente a mesma mensagem!), simultaneamente  a um elevado número de pessoas: o público alvo. Meio alvo e mensagem são os três elementos básicos da comunicação de massas. A imprensa deu um grande impulso à globalização e teve um grande efeito social: permitiu imprimir a Bíblia mas também as bulas de Lutero que estiveram na base da cisão da Igreja de Roma.

Com o aparecimento da imprensa criaram-se as condições para difusão da ciência e da informação até essa altura  guardada em manuscritos, em papiro ou pergaminho, nas bibliotecas dos conventos. Nasceu a literatura, no sentido com que hoje a entendemos. A circulação dos livros e dos folhetos criou, por sua vez, a opinião pública. A nova forma de comunicar, facilitando a difusão de ideias nascentes, foi vista como perigosa, e a edição de obras impressas passa a ser censurada e controlada. No mundo ocidental, o poder das ideias era, no final do século XV, detido pela Igreja. E é a Igreja quem, em primeiro lugar, sente esse poder ameaçado. Processos como o de Lutero, de Galileu, e até a própria Inquisição são reações da Igreja ao alastrar incendiário de novas ideias difundidas pela imprensa ... A Renascença resulta desta nova capacidade de revisitar e difundir a filosofia e o pensamento clássico. O grande desenvolvimento da ciência, o iluminismo, os enciclopedistas são outras consequências da nova forma de comunicar...

O outro salto tecnológico que influenciou a comunicação, já no século XIX, foi a descoberta da eletricidade, do telégrafo e  das ondas hertzianas capazes de transportar, sem fios,  a distância, a voz humana (a rádio) e as  imagens (a televisão). Os dias da rádio difundiam  a informação, criaram opinião,  geraram movimentos sociais e políticos. Popularizaram a música e o teatro falado, criaram os artistas da rádio. A televisão mudou o mundo e, ao entrar nas nossas casas e participar no nosso quotidiano, alterou definitiva e irreversivelmente a nossa maneira de viver. A sociedade atual é a sociedade da televisão. Mas a Internet já está a alterar este paradigma.

A publicidade reforçou o poder e a influência dos meios de massas.  Na sociedade de consumo da era industrial a publicidade prospera e é utilizada para construir a imagem das marcas.  Esta é a época de ouro dos criativos como David Ogilvy, Bill Bernbach nos Estados Unidos, Jacques Séguéla e os irmãos Charles e Maurice Saatchi, respetivamente, em França e na Inglaterra. Constroem-se grandes empresas associadas a estes homens, verdadeiros artistas da criação de marcas.

A comunicação social integrou-se no sistema económico, e é hoje um próspero sector que emprega milhões de pessoas em todo o mundo. É um forte poder  regulador de outros poderes: o económico,  politico e judicial. Influencia-os e é influenciada por eles. É, pois, importante olhar com mais atenção para este sector para perceber o seu papel  no mundo em transição. É o que tentarei fazer a seguir.


segunda-feira, 29 de julho de 2013

Heterotopias

Eu ainda me lembro do tempo em que a vida das pessoas decorria toda ela dentro de um círculo com meia dúzia de quilómetros de raio, e onde  tudo se situava: a terra em que se trabalhava, o comércio onde se compravam os géneros, a taberna onde se bebia um copo de vinho. Era nesse espaço que se encontrava o homem ou a mulher para casar, ali  nasciam os filhos, e ali se aprendia a ler e a escrever... As raras aventuras que levavam as pessoas para fora desse círculo eram a a tropa e a emigração, esta inicialmente sem retorno. Este era um espaço, balizado pela igreja e pelo cemitério, onde havia lugar para o sagrado e para o profano. Os amigos (e os inimigos!) habitavam todos esse espaço,  as alegrias explodiam nele, e as lágrimas nele se vertiam.

Hoje nós vivemos em muitos espaços: o da nossa família, o da nossa rua, o do nosso clube, o do nosso trabalho, o da nossa associação, do nosso partido, o também o espaço das relações que perduram pela vida fora (os amigos de infância, da tropa, da faculdade, do Erasmus...). São espaços que se interpenetram e que desdobram o nosso eu,  criando vários "eus" que pouco ou nada têm a ver uns com os outros. E, sobretudo os mais jovens, estão a viver agora no seu espaço virtual do facebook, espaço ainda mal percebido mas vivo e atuante e até perturbador. Porque no espaço do facebook já não é o verdadeiro eu mas um outro eu, um alter ego, que  ali se representa. Um eu que comunica sem se expor, que se afirma sem emoções...que cria amizades sem presença, que acabam por deixar um vazio e ser fonte de neuroses.

Com tantos espaços, cada um com seu significado, vivemos numa heterotopia,  como se pertencêssemos simultâneamente a varias tribos, ou a diferentes clãs. Neles se criam laços afetivos, e neles se estabelecem relações de amizade. A cada um desses espaços corresponde uma ambiência afetiva. E são os laços afetivos que preenchem esses espaços que os tornam agradáveis e até habitáveis.  Esses espaços acolhem as nossas raízes, e as amizades neles criadas são a seiva  que nos alimenta o espírito.  Sem amigos a preenchê-los os nossos espaços não têm sentido, e acabam por desparecer. E a vida torna-se mais vazia e depressiva. Mas conciliar esta multiplicidade de pertenças pode trazer dificuldades, pode criar ambivalências e conflitos e pode ser fonte de angústia.

A família, é o espaço mais estruturante por excelência, por ser mais duradouro e permanente. Os laços de sangue, a história e a educação comuns, são motivos agrgadores.  O espaço familiar não é descartável, e necessita de uma atenção especial. Os familiares não se escolhem, os amigos sim. A amizade no espaço familiar pode ser muito forte e enriquecedora. E a falta dessa amizade é quase sempre perturbadora, e geradora de instabilidade. No espaço heterotópico, a família tende a diluir-se, e isso pode também ser uma fonte de insegurança.

Um homem com muitos espaços pode ser um homem sem espaço nenhum. Para encontrar o rumo, na complexidade das dimensões da heterotopia, o homem do futuro vai precisar de  um novo sentido de orientação e de uma nova bússola para não se perder no caminho!

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O Mundo em Transição

Deus criou o homem à sua imagem, e, depois, criou a mulher. E disse-lhes:
"Crescei e multiplicai-vos. Enchei e dominai a Terra"  (Gn 1, 28)
O homem cumpriu exemplarmente os desígnios de Deus. Possívelmente, excedeu-se !
E, angustiado, pergunta: - E agora?

Todo o ser humano tem um livro dentro de si. Mas nem todos são capazes de deixar que ele amadureça nas suas entranhas, e de o trazer à luz do dia. Este Mundo em Transição é uma parte do livro que eu sempre trouxe dentro de mim. Principiou a ser escrito quando o tempo se tornou confuso e o futuro se começou  a apresentar como incerto e perigoso.

No livro reuni algumas das reflexões, publicadas neste blog, sobre a Civilizaçao Humana e o seu futuro. Podem ser um alerta para essa armadilha que é o crescimento exponencial, e para essa outra armadilha que é a complexidade tecnológica.

Não sei se será um livro tranquilizante ou se, pelo contrário, será inquietante. O mais importante é que ele sirva para nos ajudar a compreender o mundo à nossa volta. E também não sei dizer se é um livro de Economia ou de Ecologia ou de Física ou de Demografia. Talvez  o tema deste livro seja a Antropologia, pois o Homem é a medida de todas as coisas.

O Homem, esse desconhecido, como lhe chamou Alexis Carrel, foi a espécie que Deus escolheu para encher e dominar a Terra, e à qual Teilhard Chardin havia de se referir como o Fenómeno Humano. E, de facto, trata-se de um fenómeno. Desde logo, o homem  tem um corpo esbelto, quase a suprema perfeição da criação. Uma postura vertical, grande agilidade dos membros superiores, olhos virados para a frente, visão em profundidade, corrida veloz. As mãos do homem são a obra prima da criação, ferramentas sensíveis, possantes, destras e delicadas. Mãos que comandadas por um cérebro inteligente haveriam de cultivar a terra, construir cidades, criar obras de arte, tocar melodias, escrever a História. A fala primeiro, depois o alfabeto, a escrita velha, agora a Internet, a  escrita nova, permitiram estabelecer a teia que levou o Homem a dominar a Terra.

A Terra é, hoje, o Planeta do Homens.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O Tempo numa Cápsula

À primeira vista, a Guarda é uma cidade improvável: não tem recursos naturais de nenhum tipo, não tem riqueza agrícola nem florestal, não tem cursos de água a banhá-la, tem um clima severo, com invernos muito frios e verões quentes e secos. A sua existência como cidade é, por isso, um desafio à adversidade do seu contexto natural. A localização, no caminho que liga Lisboa à Europa Central, é a sua única vantagem que teve que disputar com Pinhel e Trancoso. Não terá sido fácil a a vida dos seus moradores. Ainda hoje, se percebe ser a Guarda uma cidade de gente pobre e simples. Escasseiam na cidade os palacetes e os solares (como os vemos, por exemplo, em Pinhel), a atestar que esta nunca foi terra próspera nem terra de senhorios.  A Guarda foi sempre uma cidade de resistentes, quase diria de sobreviventes. Mas, talvez por estas razões, a Guarda é uma cidade de gente trabalhadora, empreendedora e criativa.

Quem, no final da tarde do passado dia 1 de julho, passasse junto à Torre de Menagem da cidade altaneira, numa colina sobranceira ao Cemitério Municipal,  veria um conjunto de personalidades vestidas a rigor alinhadas num circulo à volta de uma lápide de granito, e julgaria estar perante um ajuntamento que ali estaria a encomendar a Deus a alma de algum defunto. De facto, naquela envolvência, a cerimónia mais parecia um ofício fúnebre do que aquilo que era realmente. Era  uma festa do Clube Escape Livre a comemorar uma iniciativa bem original: enterrar num contentor quarenta depoimentos de personalidades ligadas à Guarda sobre o presente e o futuro da cidade, com a intenção de os voltar a trazer á luz do dia, em 2050.

Naquela entardecer de verão, enterrou-se o tempo dentro de uma cápsula. O conceito de aprisionar o tempo é já em si mesmo paradoxal, pois o tempo não se pode aprisionar. O tempo será sempre o nosso  carcereiro, e nunca o nosso prisioneiro. Porque o tempo condena-nos ao envelhecimento, joga connosco ao gato e ao rato, dá-nos a ilusão de que escolhemos o nosso destino, mas é inexorável logo que optamos ou temos a ilusão que optamos por um caminho, e não nos dá uma segunda oportunidade. E nos nossos dias de tempo acelerado, e com um futuro incerto e perigoso, a tentação de aprisionar o tempo é grande.

O tempo da nossa mente não é o tempo entrópico que tudo enreda, mas um tempo linear que tem outra lógica e outra conveniência. O que estava dentro daquela cápsula não era o verdadeiro tempo mas sim o nosso  tempo,  uma efígie de palha que simboliza e imita o outro.  E encontrar essa grosseira imitação  do Chronos vai ser a surpresa daqueles que, daqui a 37 anos, fizerem a exumação do conteúdo da cápsula. O tempo, o verdadeiro, sorriu com desdém, na cerimónia do dia 1 de julho em que se enterrou a cápsula, e vai voltar a sorrir quando for desenterrada e aberta, em 2050. E os nossos netos vão rir-se da nossa cegueira e vão espantar-se da nossa ignorância, e do nosso pretensiosismo de querer aprisionar o tempo.

Quando, em 1900, na euforia da entrada no século XX, se fizeram e publicaram as previsões para o ano 2000, havia uma grande esperança,e acreditava-se num progresso sem limites. Por exemplo, a televisão foi prevista, previa-se que se poderiam ver imagens a distância, e  alguém terá antecipado que, cem anos depois, seria possível assistirmos, nos sofás das nossas salas, às danças das tribos de indígenas (amenizo a palavra selvagens, no original) e ao rufar dos seus  tambores no coração da África. Ou seja, acreditava-se no progresso técnico mas não na evolução das mentalidades. Evolução tão grande (e tão rápida!) que haveria de colocar o descendente direto de um desses indígenas africanos a governar a nação mais poderosa do mundo!

Subtilezas ou partidas do tempo?

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A eletricidade


A eletricidade começou por ser uma curiosidade, um entretenimento dos salões do início do século XVIII. Mas quando, em 1745, Musschenbroek aprisionou a centelha fugaz na famosa garrafa de Leiden,  e quando Alessandro Volta, com a sua pilha, conseguiu criar uma corrente elétrica contínua, estavam lançadas as bases de um conhecimento novo, algo que iria revolucionar o mundo. No início do século XIX, um modesto encadernador de livros, Michael Faraday, estuda a ligação entre a eletricidade e o magnetismo e demonstra que uma corrente eletrica pode produzir movimento. Era o princípio do motor elétrico.  O electroíman, baseado no mesmo princípio, foi a invenção que originou o telégrafo, o qual, em 1866, haveria de pôr, pela primeira vez de forma estável, dois continentes em contacto direto através de um cabo submarino, e tornar o mundo muito mais pequeno.  Estava dado o impulso mais extraordinário para a globalização.

No final do século XIX, em Nova Iorque, Thomas Edison e Nikola Tesla , disputam a solução para a distribuição da corrente elétrica através de redes.  Estavam em causa aspetos técnicos e importantes interesses económicos. Tesla, um enigmático engenheiro sérvio, propondo a corrente alterna, contra a corrente contínua de Edison, haveria de ganhar a guerra das correntes, como ficou conhecida. A construção da central hidroelétrica de Niagara levou essa nova forma de energia a muitos lares americanos. A eletricidade passou a fazer parte da economia e do nosso quotidiano, e, a partir daí, o Mundo nunca mais voltou a ser o mesmo.

A eletricidade alumiou a noite, e alterou o ciclo das horas; libertou a mulher das pesadas e rotineiras tarefas do lar; fez nascer o ascensor elétrico responsável pelo arranha céus e pela cidade moderna; produziu a sétima arte e e ligou os continentes. Na exposição mundial de Paris de 1900 o mundo extasiou-se, e acreditava que o progresso não teria fim. Sem a eletricidade, a civilização retrocederia dezenas ou centenas de anos. Aliás, a vida como é vivida pelos jovens de hoje que nunca conheceram outra forma de viver, simplesmente já não seria possível sem a eletricidade, tal o desenvolvimento que ela permitiu. E que já se tornou irreversível.

Entretanto, a descoberta das ondas eletromagnéticas  abriu o caminho à comunicação sem fios, a distância. A eletrónica e o transitor foram o passo seguinte que conduziu à descoberta da a rádio e da televisão, que permitiram construir o circuito integrado miniaturizado, que, por sua vez, está na base da informática e a Internet.  E tudo isto apenas começou há pouco mais de um século!

A eletricidade, em boa verdade, nem sequer é uma forma de energia, mas apenas um transportador de energia.  De certo modo, ela é uma ferramenta que permite  unificar distintas formas de energia (hídrica, carvão, nuclear, gás, petróleo, eólica, solar..), e transportá-las a grande distância de uma forma conveniente, limpa e eficaz. No plano tecnológico, esta ferramenta constitui a maior invenção da humanidade e é a principal responsável pela globalização. Como tecnologia, a eletricidade é uma conquista irreversível. Como ferramenta, ela repousa sobre a rede elétrica que nalguns casos começa a estar obsoleta e difícil de manter, o que pode constituir um risco.  Mas a matéria prima que ela transforma, transporta e entrega ao domicílio é a energia. E se um dia, na parte inferior do processo, houver uma rutura no fornecimento dessa matéria prima, e as lâmpadas das nossas casas se apagarem, se o ascensor não subir e se o frigorífico deixar de funcionar, a culpa não é da eletricidade.

E se esse dia alguma vez chegar, a economia sofrerá um tsunami.



segunda-feira, 3 de junho de 2013

Um Prémio Autista


O Centro de Estudos Ibéricos da Guarda concede todos os anos um prémio, a que chamou o "Prémio Eduardo Lourenço", destinado a “galardoar personalidades ou instituições com intervenção  relevante no âmbito da cultura, cidadania e cooperação ibéricas “ (sic). Este ano empenhei-me pessoalmente (eu, e não só!) na apresentação da candidatura do Dr. Álvaro Carvalho, médico humanista, homem da cultura viva,  escritor e exemplar cidadão, por entender que se ajustava perfeitamente ao perfil visado no regulamento do referido prémio. Mas sendo o júri predominantemente constituído por gente de borla e capelo e sendo o meu candidato um candidato futrica (é este o termo que os doutores usam em Coimbra para designar a população civil), eu sabia, à partida, que ele não teria grandes hipóteses de ser escolhido.

Este ano, com alguma surpresa, o júri escolheu premiar o Sr. Jerónimo Pizarro, um professor universitário colombiano, apresentado como um estudioso de Fernando Pessoa. Esta atribuição vem na sequência da realização da feira do livro de Bogotá, fortemente publicitada na imprensa portuguesa, e visitada pelo nosso Presidente da República na sua recente deslocação à Colômbia. Não conheço a obra do premiado, nem questiono o seu valor, mas ficam no ar algumas interrogações, não sobre o seu mérito pessoal e literário mas sobre as motivações (pensando no regulamento do prémio)  que teriam levado os jurados a escolhê-lo.

Dizem-me que, este ano, estiveram em apreciação quase duas dezenas de candidaturas, facto angustiante para um júri, que, ainda por cima, teve de decidir depressa. Ao atribuir o prémio ao ilustre desconhecido,  Sr. Jerónimo Pizarro, o ilustrado júri do Centro de Estudos Ibéricos da Guarda faz-me lembrar os guardas pretorianos do imperador Calígula, que depois de o assassinarem, durante os jogos no circo Romano, hesitando na escolha do seu sucessor, e encontrando, por acaso, Claudius, um velho gago e sem ambição, da gens de Augusto, logo concluíram que  aquele encontro vinha mesmo a calhar e não tinham de  procurar mais. E de imediato, ali mesmo, o fizeram imperador.

Na minha opinião, a escolha do premiado teve sobretudo a ver com Fernando Pessoa. Pessoa é o poeta inquestionável, ainda por cima, querido de Lourenço e estudado por ele. Em Portugal, Pessoa é a personalidade do consenso, quase uma conveniência cultural. E a sua projeção além fronteiras enche-nos de orgulho, e aconchega-nos o ego. No nosso meio cultural, é de bom tom citar Pessoa, recitar Pessoa, estudar Pessoa, invocar Pessoa. E, contudo, convém lembrar que o poeta dos heterónimos simboliza a resignação dos portugueses, é o expoente maior da nossa depressão coletiva, uma espécie de espelho de um país, falhado e desassossegado.

Eu concluo, pois, que quem foi premiado pelo júri do CEI não foi Pizarro, foi Pessoa. E, neste pressuposto, não deixa de ser curioso constatar que no ano passado, Lourenço ganhou o Prémio Pessoa, e este ano, Pessoa ganhou o Prémio Lourenço. Atribuição que, tanto num como no outro caso, é honrosa para os premiados, mas que nada acrescentou ao seu  prestígio e grandeza, desde há muito afirmados e confirmados. Mas, como convinha, não houve sobressaltos, ficou tudo em casa, foi uma espécie de autismo cultural. Tudo, culturalmente, correto...

Ainda a este propósito, é oportuno recordar uma história exemplar: o concurso literário que a Real Academia das Ciências levou a efeito no longínquo ano de 1887, ficou famoso não pela obra premiada,  O Duque de Viseu de Henrique Lopes de Mendonça, mas pela que foi preterida, A Relíquia de Eça de Queirós. Foi Pinheiro Chagas que relatou o parecer  a justificar a decisão do júri, e este facto deu a Eça o ensejo de responder, escrevendo, com a sua fina ironia,  algumas das mais belas páginas da literatura portuguesa.

Henrique Lopes de Mendonça foi um distinto oficial da Armada e um notável historiador, poeta, romancista e dramaturgo, e foi o autor dos versos d'A Portuguesa. E não mereceu a desdita de ter sido galardoado, naquelas circunstâncias, com o prémio D. Luís do concurso da douta Academia.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O Lugar da Europa

De vez em quando, o Filósofo de Vence desce ao povoado e vem iluminar com o brilho das  suas ideias e com a nitidez do seu discurso a nossa tristonha obscuridade. Desta vez, numa entrevista ao Público, ajudou-nos a perceber a teia em que a Europa se encontra enredada. Mostrou-nos a lógica dos acontecimentos, e com a sua habitual clarividência, antecipou a História. Disse-nos o óbvio: que a Europa já não é o centro do Mundo, que está desesperadamente à procura de reencontrar esse lugar perdido, que ainda não se conformou com essa perda; que acabou a Europa das nações, mas mantém-se a mentalidade das nações, e que desfeitas as partes ainda não se reconstruiu o todo. Falou dos protagonistas, de Merkl, de Hollande e de Sarkozy, falou da Globalização, e concluiu que a Europa reincarnou na América, mas que a América não é a Europa e não a substituiu. Falou do fim das guerras e das guerras sem fim. Ele, como ninguém,  tem seguro o fio da história, e pode, com essa segurança, anunciar-nos o fim de um ciclo europeu.

Eduardo Lourenço é um observador atento, e tem uma cultura soberana. Ele é um ativo da nação, e mantém aos 90 anos uma lucidez que nos espanta e, ao mesmo tempo, nos conforta. No passado dia 20 de maio, ao fim do dia, no Centro Nacional de Cultura, a propósito da reedição do livro "Os Militares e o Poder", falou-nos, mais uma vez, de Portugal de do seu destino. Centrou a sua análise na reconversão da Pátria que se operou com o 25 de Abril, em que Portugal se despiu das suas colónias que lhe davam sentido e até razão de ser. Depois disso, Portugal não mais seria o mesmo, e não mais será o mesmo. Com a língua como único património diferenciador, este é um país do faz de conta. Resta-nos a nostalgia de um Camões do Império sonhado, e de um Pessoa angustiado e angustiante  na eterna procura dos retalhos desse sonho desfeito.

A verdade é que o mundo vive hoje numa encruzilhada e a Europa também.  Lourenço, o magnífico, talvez tenha em seu poder um novelo de Ariadne que sirva para nos guiar para a encontrar o caminho para a saída crise, ou talvez já tenha intuido que não conduzirá a nenhuma saída, porque o labirinto não tem saída.  Porque ele faz o diagnóstico mas não arrisca mais do que isso. Deixa  para nós o prognóstico, como se nos convidasse a adivinharmos o que está do outro lado da crise. Mas foi ele mesmo que um dia nos disse que esta crise não tem "outro lado".

A Europa não tem gente, não tem indústria não tem energia.  Tem a cultura, mas de que lhe vale a cultura?  O simples custo de a preservar pode ser demasiado elevado. Tem um serviço social sem paralelo no mundo, mas que, sabe, não poderá manter. Está empenhada em reduzir a poluição, em aumentar a eficiência energética,  e aposta nas energias renováveis.  Mas nesta cruzada, a Europa faz o papel do cavaleiro da triste figura, esgrimindo com lanças contra moinhos de vento, quando a Coreia do Norte aponta armas nucleares ao Ocidente, e a China polui em quatro meses o que a Europa, esforçadamente, deixa de poluir  em 10 anos! Mas o maior perigo para a Europa são as hostes de famélicos que se perfilam e espreitam nas suas fronteiras preparados para abocanhar a presa, ou o que dela restar, ao mais pequeno descuido.

A Europa já não lidera o Mundo, mas quem o lidera? A América, afogada nas sua responsabilidades de guardião da ordem global, que tem de manter um exército longe do seu território, e faz lembrar o decadente  Império Romano dos séculos e III e IV? A China que carrega o peso de uma civilização milenar, e tem de gerir as contradições  entre a sua cultura e o modelo económico que o Ocidente lhe impôs? A Rússia que perdeu o seu tempo e o seu espaço, e que hesita entre aliar-se à China ou à Europa? Todos estes protagonistas sabem que a resposta ainda não é definitiva, mas todos eles pressentem que o futuro do mundo se joga no Médio Oriente,  no eixo que vai de Israel  ao Paquistão.

No próximo dia 6 de junho, Eduardo Lourenço estará na Guarda para falar de Portugal e do seu destino. Desta vez, terá a vida facilitada pois já tirou a conclusão: o destino de Portugal é o destino da Europa.