segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Egito


Há apenas alguns anos, o Egito parecia ser um caso de sucesso. Em 1991 iniciou-se, neste país, um programa de reformas com o apoio do FMI que levou à privatização de centenas de empresas públicas. Na década seguinte, foram melhoradas as infra-estruturas e captados investimentos estrangeiros. O sucesso desse esforço teve como resultado um crescimento anual do PIB em torno de 5%, no período de 1995-1998, e de 6,3% em 1998 e 1999. E em 2008, o PIB ainda teve um crescimento estimado em 6,9%. O Egito nunca foi visto como um país de fundamentalismo islâmico, e era muitas vezes referido e elogiado, nos meios de comunicação, pelas suas posições moderadas em relação aos israelitas.

No início de 2011, o mundo sobressaltou-se com a chamada primavera árabe, expressão que designou os movimentos que se sucederam nos países islâmicos banhados pelo mediterrâneo, primeiro na Tunísia, depois no Egito, na Líbia, na Síria e no Iémene. Os políticos, pressurosos, entusiasmaram-se com estes movimentos. Falaram em democracia e defesa das liberdades, e logo idealizaram cenários futuros com modelos de governação ocidentais, aplicados aos países em turbulência. Javier Solana, muito otimista, disse que "Israel não será mais a única democracia da região, e deverá adaptar-se para poder garantir, de outro modo, a sua segurança", palavras que Mário Soares, de imediato, aprovou e considerou sábias (DN 22.2.2011).  Mas o Oráculo de Vence, escrevendo no Público (21.2. 2011) , evoca  as cruzadas  e lembra Avicena e Averrois para esclarecer: “o Islão não se converterá ao nosso modelo”.

Mas é preciso perceber aquele fenómeno que tem causas que não se explicam exclusivamente nem por razões históricas nem políticas. São sobretudo causas económicas (mas não só!), que têm muito a ver com a globalização e são sinais da inevitabilidade da rutura de um modelo nos limites, submetido a várias forças de pressão internas. Sem possibilidade de expandir-se, estas pressões fazem-no “rebentar pelas costuras”. Como força mais evidente temos a que resulta da pressão demográfica. O Egipto duplicou a sua população nos trinta anos do regime de Hosni Mubarak, passando  de 40 para 80 milhões de habitantes.  E, desde a queda do anterior presidente, em pouco mais de 2 anos, a população já aumentou para 84 milhões. Este rápido crescimento produziu uma população urbana e extremamente jovem (31,5% tem menos de 15 anos, e apenas 5% tem mais de 65 anos). A manter-se a atual taxa de crescimento populacional (cerca de 2% ao ano), a população do Egipto voltará a duplicar até 2050. E os problemas irão agravar-se, nomeadamente os alimentares, pois a terra arável, já escassa, vai continuar a ser ocupada por edifícios e outras estruturas, e sobrar menos para a agricultura. E, claro, o desemprego entre os jovens que são já uma geração "net", cada vez mais cultos e informados, continuará a grassar.

Outro factor, influenciador do desequilíbrio do sistema, tem a ver com as desigualdades sociais e com a pobreza, agravadas nos tempos que correm pela carência de recursos alimentares e pela dependência externa. A recente escalada dos preços de certos bens, (o trigo, o milho, o café, a soja, o algodão) provocou inflação e corroeu o poder de compra. Ora a democracia é um regime que convive melhor com a abundância do que com a escassez. É difícil explicar a um povo que o poder lhe pertence e pedir-lhe votos, quando ele passa fome. O pão alimenta a democracia, mas a democracia, só por si, não dá o pão.

Nas últimas décadas, o Egipto produzia e exportava petróleo, mas as exportações tendem a desaparecer: em 1990, produzia 900 mil barris por dia, dos quais metade destinava-se ao consumo interno, e a outra metade era exportada. Mas, entretanto, a produção declinou e o consumo aumentou. Atualmente produz 700 mil barris por dia, que já são escassos para o consumo interno. De tal forma, que o Egito já é, desde 2011, importador petróleo, e o que era uma receita é agora uma despesa. A exploração e produção de gás representam uma das áreas promissoras da economia. A expectativa é que essa promessa se mantenha, com base nos planos de investimento já aprovados, e justificadas por recentes descobertas de novas reservas de gás.

O problema alimentar, já referido, é outro grave problema de um país que já foi o celeiro do mundo mediterrânico , o "presente do Nilo" de que falava Heródoto, é hoje um país que enfrenta um futuro sombrio no que respeita à produção de alimentos. O Egito é um dos maiores importadores mundiais de cereais (trigo e milho). Segundo estatísticas do ministério egípcio do petróleo, este país importa 40% da sua alimentação e 60% do trigo que consome. Problemas climáticos a nível mundial, e a produção de bio-combustíveis, que estão na origem da atual escalada dos preços das matérias primas, só têm servido para agravar a situação.

No Egito, o turismo representa indiretamente 11% do PIB, mas a crise interna e a crise mundial, aliadas aos efeitos do elevado preço do petróleo nas transportadoras aéreas, estão a afetar o sector que emprega 3 milhões de pessoas. Fala-se que em receitas de turismo, e durante a presente crise, o país perde 300 milhões de dólares diários.Uma outra importante fonte de riqueza deriva das tarifas cobradas aos cerca de 15000 navios que, por ano, passam pelo canal de Suez. A eventualidade do encerramento desta estratégica via marítima constituiria um tragédia não só para o Egito mas para todo o mundo, e as consequências seriam um forte agravamento da crise económica global.

Aquilo que se está a passar no Egito, é um afloramento da gravidade da situação mundial. Não é apenas uma questão de regime político, e quem vier a seguir vai ter de enfrentar exactamente os mesmos problemas, ou até agravados. Porque esta é essencialmente uma questão que reflete os problemas e as contradições da globalização. As raízes do problema são muito complexas e a economia não as vai resolver, porque a economia gere os recursos mas não os cria, fala de população mas não a regula, exige insistentemente o crescimento mas não sabe como promovê-lo.

O Islão não se converterá ao nosso modelo, pelas razões que apontou Eduardo Lourenço, mas não só. Os problemas dos países árabes são o sintoma de uma doença mais profunda, e continuarão, por muito tempo, a ocupar o nosso dia-a-dia. E a Europa e o Mundo não podem alhear-se do drama egípcio, porque num mundo global, uma perturbação num só lugar afetará todo o planeta.



segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Informação


Na calma destas férias, retorno a Alfred Hitchcock, o meu realizador de culto, e revejo o filme  O homem que sabia demais, onde se conta a história de um médico americano em viagem por Marrocos, que, na posse de um segredo, vê o seu filho raptado e, ele próprio, corre risco de vida. Saber demais é ter informação que os outros não têm (informação privilegiada), e isso dá um grande poder (e uma grande responsabilidade!) a quem a possui.

A informação é um bem transacionável. Na minha vida profissional eu fui um produtor de informação e lidei de perto com este estranho produto cujas características  fui obrigado a estudar. Em primeiro lugar, aprendi a conhecer o valor da informação. Contrariamente a outros produtos é muito difícil estabelecer o preço da informação. Na verdade, ela não tem preço. Num momento pode valer tudo e no momento seguinte pode não valer nada. Por exemplo, a informação de que a cotação de uma ação na bolsa vai subir, só tem valor antes disso acontecer, depois disso não vale nada. O valor da informação está dependente da sua difusão: quanto mais circula menos valiosa se torna. Ora sendo a informação um bem muito dificil de produzir mas muito fácil e muito barato de reproduzir, é necessário ter com ela cuidados muito especiais, se não a queremos desvalorizar.

Por outro lado, a qualidade da informação é muito difícil de aferir. Como posso saber que uma informação é boa ou má, rigorosa ou defeituosa, falsa ou verdadeira?  Associa-se essa qualidade ao valor da  fonte que a origina ou que a produz. Por isso a imagem de uma fonte de informação é um bem muito valioso e que deve ser bem preservado. A imagem de uma empresa ou de uma entidade que divulga ou produz informação é o seu maior ativo. A essa imagem têm de estar associados o rigor, a independência e a transparência.

Aprendi também que a informação dinâmica, evolutiva e comparável  é mais valiosa do que a informação isolada e estática. É a diferença entre o filme e a fotografia. A informação evolutiva permite definir tendências, fazer previsões, estabelecer objetivos, avaliar performances. As bases ou bancos de dados são construídas e mantidas respeitando este pressuposto, e estão na origem de um próspero negócio suportado por potentes ferramentas informáticas de exploração desses dados e das relações entre eles (data mining).

O consumo de informação (tal como o consumo de drogas) é fortemente viciante. E  isto é válido tanto para quem a utiliza na sua vida profissional, como para o cidadão comum que a consome no seu dia a dia. Para quem toma decisões, lidera ou governa, a sua principal atividade consiste em gerir informações. E, sem informação, o gestor fica desorientado, sente-se inseguro, torna-se vulnerável. Por isso, a procura desesperadamente sempre que ela lhe falta.  O pacato cidadão que compra o Expresso, ao sábado de manhã, para preencher um vazio mental, sofre da mesma carência do fumador que necessita do cigarro matinal, ou do viciado em café que não pode passar sem a sua bica.  Esta adição está na base do sucesso de muitos jornais e revistas, programas de rádio e televisão.

A informação confere poder a quem a possui. Todo o processo que envolveu o americano Edward Snowden é ilustrativo da importância e do poder da informação. Neste caso estão em causa esquemas desenvolvidos pelo governo dos Estados Unidos que estão a criar enormes bases de dados para identificar comportamentos anómalos, visando melhorar a segurança dos cidadãos. Mas a complexidade destes instrumentos levanta delicadas questões éticas, e constitui um risco cuja vulnerabilidade foi exposta pelo jovem que os revelou ao mundo.

A informação sobre a opinião pública é um caso que me interessa particularmente. Os resultados de uma sondagem com informação sobre opinião dos cidadãos têm um forte efeito reflexivo sobre as opiniões desses mesmos cidadãos e podem alterar os seus comportamentos. Por isso existem organismos para controlar a realização de sondagens e a sua publicação. Mas existe ainda uma grande opacidade no sector e muita leviandade na análise e na divulgação dos resultados feita pelos jornalistas. 

No mundo em transição, a informação e o seu controlo vão ter um papel muito importante. Os meios digitais estão a alterar rapidamente a forma de produzir, divulgar e consumir informação. As consequências disso no nosso futuro ainda são mal conhecidas. Mas serão, seguramente, fortemente impactantes.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Comunicar: do Gesto à Internet

O gesto, a fala e mais tarde a escrita, terão sido as primeiras formas de comunicação na sociedade dos humanos. Ao comunicar com os seus semelhantes, o homem exprime-se e partilha conhecimentos, experiências e emoções, ordena, comanda, enfim, relaciona-se socialmente e é capaz  de trabalhar em equipa.  Através do discurso, um indivíduo pode dirigir-se a um grupo de seus iguais: o público. O teatro, a música, o canto,  as narrativas orais, e outras formas de expressão artística, como a  pintura e a escultura, são formas primitivas de comunicação pública. Mais recentemente, o homem recorre  a outros meios para comunicar com os seus semelhantes, nomeadamente  a Imprensa, a Rádio, a Televisão e a Internet. São os meios de comunicação social.

A comunicação social moderna que utiliza os meios de massa, nasceu com Gutemberg e com a invenção da imprensa. O documento impresso, multiplicado em grande número é o primeiro mass medium capaz de veicular uma mensagem (rigorosamente a mesma mensagem!), simultaneamente  a um elevado número de pessoas: o público alvo. Meio alvo e mensagem são os três elementos básicos da comunicação de massas. A imprensa deu um grande impulso à globalização e teve um grande efeito social: permitiu imprimir a Bíblia mas também as bulas de Lutero que estiveram na base da cisão da Igreja de Roma.

Com o aparecimento da imprensa criaram-se as condições para difusão da ciência e da informação até essa altura  guardada em manuscritos, em papiro ou pergaminho, nas bibliotecas dos conventos. Nasceu a literatura, no sentido com que hoje a entendemos. A circulação dos livros e dos folhetos criou, por sua vez, a opinião pública. A nova forma de comunicar, facilitando a difusão de ideias nascentes, foi vista como perigosa, e a edição de obras impressas passa a ser censurada e controlada. No mundo ocidental, o poder das ideias era, no final do século XV, detido pela Igreja. E é a Igreja quem, em primeiro lugar, sente esse poder ameaçado. Processos como o de Lutero, de Galileu, e até a própria Inquisição são reações da Igreja ao alastrar incendiário de novas ideias difundidas pela imprensa ... A Renascença resulta desta nova capacidade de revisitar e difundir a filosofia e o pensamento clássico. O grande desenvolvimento da ciência, o iluminismo, os enciclopedistas são outras consequências da nova forma de comunicar...

O outro salto tecnológico que influenciou a comunicação, já no século XIX, foi a descoberta da eletricidade, do telégrafo e  das ondas hertzianas capazes de transportar, sem fios,  a distância, a voz humana (a rádio) e as  imagens (a televisão). Os dias da rádio difundiam  a informação, criaram opinião,  geraram movimentos sociais e políticos. Popularizaram a música e o teatro falado, criaram os artistas da rádio. A televisão mudou o mundo e, ao entrar nas nossas casas e participar no nosso quotidiano, alterou definitiva e irreversivelmente a nossa maneira de viver. A sociedade atual é a sociedade da televisão. Mas a Internet já está a alterar este paradigma.

A publicidade reforçou o poder e a influência dos meios de massas.  Na sociedade de consumo da era industrial a publicidade prospera e é utilizada para construir a imagem das marcas.  Esta é a época de ouro dos criativos como David Ogilvy, Bill Bernbach nos Estados Unidos, Jacques Séguéla e os irmãos Charles e Maurice Saatchi, respetivamente, em França e na Inglaterra. Constroem-se grandes empresas associadas a estes homens, verdadeiros artistas da criação de marcas.

A comunicação social integrou-se no sistema económico, e é hoje um próspero sector que emprega milhões de pessoas em todo o mundo. É um forte poder  regulador de outros poderes: o económico,  politico e judicial. Influencia-os e é influenciada por eles. É, pois, importante olhar com mais atenção para este sector para perceber o seu papel  no mundo em transição. É o que tentarei fazer a seguir.


segunda-feira, 29 de julho de 2013

Heterotopias

Eu ainda me lembro do tempo em que a vida das pessoas decorria toda ela dentro de um círculo com meia dúzia de quilómetros de raio, e onde  tudo se situava: a terra em que se trabalhava, o comércio onde se compravam os géneros, a taberna onde se bebia um copo de vinho. Era nesse espaço que se encontrava o homem ou a mulher para casar, ali  nasciam os filhos, e ali se aprendia a ler e a escrever... As raras aventuras que levavam as pessoas para fora desse círculo eram a a tropa e a emigração, esta inicialmente sem retorno. Este era um espaço, balizado pela igreja e pelo cemitério, onde havia lugar para o sagrado e para o profano. Os amigos (e os inimigos!) habitavam todos esse espaço,  as alegrias explodiam nele, e as lágrimas nele se vertiam.

Hoje nós vivemos em muitos espaços: o da nossa família, o da nossa rua, o do nosso clube, o do nosso trabalho, o da nossa associação, do nosso partido, o também o espaço das relações que perduram pela vida fora (os amigos de infância, da tropa, da faculdade, do Erasmus...). São espaços que se interpenetram e que desdobram o nosso eu,  criando vários "eus" que pouco ou nada têm a ver uns com os outros. E, sobretudo os mais jovens, estão a viver agora no seu espaço virtual do facebook, espaço ainda mal percebido mas vivo e atuante e até perturbador. Porque no espaço do facebook já não é o verdadeiro eu mas um outro eu, um alter ego, que  ali se representa. Um eu que comunica sem se expor, que se afirma sem emoções...que cria amizades sem presença, que acabam por deixar um vazio e ser fonte de neuroses.

Com tantos espaços, cada um com seu significado, vivemos numa heterotopia,  como se pertencêssemos simultâneamente a varias tribos, ou a diferentes clãs. Neles se criam laços afetivos, e neles se estabelecem relações de amizade. A cada um desses espaços corresponde uma ambiência afetiva. E são os laços afetivos que preenchem esses espaços que os tornam agradáveis e até habitáveis.  Esses espaços acolhem as nossas raízes, e as amizades neles criadas são a seiva  que nos alimenta o espírito.  Sem amigos a preenchê-los os nossos espaços não têm sentido, e acabam por desparecer. E a vida torna-se mais vazia e depressiva. Mas conciliar esta multiplicidade de pertenças pode trazer dificuldades, pode criar ambivalências e conflitos e pode ser fonte de angústia.

A família, é o espaço mais estruturante por excelência, por ser mais duradouro e permanente. Os laços de sangue, a história e a educação comuns, são motivos agrgadores.  O espaço familiar não é descartável, e necessita de uma atenção especial. Os familiares não se escolhem, os amigos sim. A amizade no espaço familiar pode ser muito forte e enriquecedora. E a falta dessa amizade é quase sempre perturbadora, e geradora de instabilidade. No espaço heterotópico, a família tende a diluir-se, e isso pode também ser uma fonte de insegurança.

Um homem com muitos espaços pode ser um homem sem espaço nenhum. Para encontrar o rumo, na complexidade das dimensões da heterotopia, o homem do futuro vai precisar de  um novo sentido de orientação e de uma nova bússola para não se perder no caminho!

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O Mundo em Transição

Deus criou o homem à sua imagem, e, depois, criou a mulher. E disse-lhes:
"Crescei e multiplicai-vos. Enchei e dominai a Terra"  (Gn 1, 28)
O homem cumpriu exemplarmente os desígnios de Deus. Possívelmente, excedeu-se !
E, angustiado, pergunta: - E agora?

Todo o ser humano tem um livro dentro de si. Mas nem todos são capazes de deixar que ele amadureça nas suas entranhas, e de o trazer à luz do dia. Este Mundo em Transição é uma parte do livro que eu sempre trouxe dentro de mim. Principiou a ser escrito quando o tempo se tornou confuso e o futuro se começou  a apresentar como incerto e perigoso.

No livro reuni algumas das reflexões, publicadas neste blog, sobre a Civilizaçao Humana e o seu futuro. Podem ser um alerta para essa armadilha que é o crescimento exponencial, e para essa outra armadilha que é a complexidade tecnológica.

Não sei se será um livro tranquilizante ou se, pelo contrário, será inquietante. O mais importante é que ele sirva para nos ajudar a compreender o mundo à nossa volta. E também não sei dizer se é um livro de Economia ou de Ecologia ou de Física ou de Demografia. Talvez  o tema deste livro seja a Antropologia, pois o Homem é a medida de todas as coisas.

O Homem, esse desconhecido, como lhe chamou Alexis Carrel, foi a espécie que Deus escolheu para encher e dominar a Terra, e à qual Teilhard Chardin havia de se referir como o Fenómeno Humano. E, de facto, trata-se de um fenómeno. Desde logo, o homem  tem um corpo esbelto, quase a suprema perfeição da criação. Uma postura vertical, grande agilidade dos membros superiores, olhos virados para a frente, visão em profundidade, corrida veloz. As mãos do homem são a obra prima da criação, ferramentas sensíveis, possantes, destras e delicadas. Mãos que comandadas por um cérebro inteligente haveriam de cultivar a terra, construir cidades, criar obras de arte, tocar melodias, escrever a História. A fala primeiro, depois o alfabeto, a escrita velha, agora a Internet, a  escrita nova, permitiram estabelecer a teia que levou o Homem a dominar a Terra.

A Terra é, hoje, o Planeta do Homens.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O Tempo numa Cápsula

À primeira vista, a Guarda é uma cidade improvável: não tem recursos naturais de nenhum tipo, não tem riqueza agrícola nem florestal, não tem cursos de água a banhá-la, tem um clima severo, com invernos muito frios e verões quentes e secos. A sua existência como cidade é, por isso, um desafio à adversidade do seu contexto natural. A localização, no caminho que liga Lisboa à Europa Central, é a sua única vantagem que teve que disputar com Pinhel e Trancoso. Não terá sido fácil a a vida dos seus moradores. Ainda hoje, se percebe ser a Guarda uma cidade de gente pobre e simples. Escasseiam na cidade os palacetes e os solares (como os vemos, por exemplo, em Pinhel), a atestar que esta nunca foi terra próspera nem terra de senhorios.  A Guarda foi sempre uma cidade de resistentes, quase diria de sobreviventes. Mas, talvez por estas razões, a Guarda é uma cidade de gente trabalhadora, empreendedora e criativa.

Quem, no final da tarde do passado dia 1 de julho, passasse junto à Torre de Menagem da cidade altaneira, numa colina sobranceira ao Cemitério Municipal,  veria um conjunto de personalidades vestidas a rigor alinhadas num circulo à volta de uma lápide de granito, e julgaria estar perante um ajuntamento que ali estaria a encomendar a Deus a alma de algum defunto. De facto, naquela envolvência, a cerimónia mais parecia um ofício fúnebre do que aquilo que era realmente. Era  uma festa do Clube Escape Livre a comemorar uma iniciativa bem original: enterrar num contentor quarenta depoimentos de personalidades ligadas à Guarda sobre o presente e o futuro da cidade, com a intenção de os voltar a trazer á luz do dia, em 2050.

Naquela entardecer de verão, enterrou-se o tempo dentro de uma cápsula. O conceito de aprisionar o tempo é já em si mesmo paradoxal, pois o tempo não se pode aprisionar. O tempo será sempre o nosso  carcereiro, e nunca o nosso prisioneiro. Porque o tempo condena-nos ao envelhecimento, joga connosco ao gato e ao rato, dá-nos a ilusão de que escolhemos o nosso destino, mas é inexorável logo que optamos ou temos a ilusão que optamos por um caminho, e não nos dá uma segunda oportunidade. E nos nossos dias de tempo acelerado, e com um futuro incerto e perigoso, a tentação de aprisionar o tempo é grande.

O tempo da nossa mente não é o tempo entrópico que tudo enreda, mas um tempo linear que tem outra lógica e outra conveniência. O que estava dentro daquela cápsula não era o verdadeiro tempo mas sim o nosso  tempo,  uma efígie de palha que simboliza e imita o outro.  E encontrar essa grosseira imitação  do Chronos vai ser a surpresa daqueles que, daqui a 37 anos, fizerem a exumação do conteúdo da cápsula. O tempo, o verdadeiro, sorriu com desdém, na cerimónia do dia 1 de julho em que se enterrou a cápsula, e vai voltar a sorrir quando for desenterrada e aberta, em 2050. E os nossos netos vão rir-se da nossa cegueira e vão espantar-se da nossa ignorância, e do nosso pretensiosismo de querer aprisionar o tempo.

Quando, em 1900, na euforia da entrada no século XX, se fizeram e publicaram as previsões para o ano 2000, havia uma grande esperança,e acreditava-se num progresso sem limites. Por exemplo, a televisão foi prevista, previa-se que se poderiam ver imagens a distância, e  alguém terá antecipado que, cem anos depois, seria possível assistirmos, nos sofás das nossas salas, às danças das tribos de indígenas (amenizo a palavra selvagens, no original) e ao rufar dos seus  tambores no coração da África. Ou seja, acreditava-se no progresso técnico mas não na evolução das mentalidades. Evolução tão grande (e tão rápida!) que haveria de colocar o descendente direto de um desses indígenas africanos a governar a nação mais poderosa do mundo!

Subtilezas ou partidas do tempo?

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A eletricidade


A eletricidade começou por ser uma curiosidade, um entretenimento dos salões do início do século XVIII. Mas quando, em 1745, Musschenbroek aprisionou a centelha fugaz na famosa garrafa de Leiden,  e quando Alessandro Volta, com a sua pilha, conseguiu criar uma corrente elétrica contínua, estavam lançadas as bases de um conhecimento novo, algo que iria revolucionar o mundo. No início do século XIX, um modesto encadernador de livros, Michael Faraday, estuda a ligação entre a eletricidade e o magnetismo e demonstra que uma corrente eletrica pode produzir movimento. Era o princípio do motor elétrico.  O electroíman, baseado no mesmo princípio, foi a invenção que originou o telégrafo, o qual, em 1866, haveria de pôr, pela primeira vez de forma estável, dois continentes em contacto direto através de um cabo submarino, e tornar o mundo muito mais pequeno.  Estava dado o impulso mais extraordinário para a globalização.

No final do século XIX, em Nova Iorque, Thomas Edison e Nikola Tesla , disputam a solução para a distribuição da corrente elétrica através de redes.  Estavam em causa aspetos técnicos e importantes interesses económicos. Tesla, um enigmático engenheiro sérvio, propondo a corrente alterna, contra a corrente contínua de Edison, haveria de ganhar a guerra das correntes, como ficou conhecida. A construção da central hidroelétrica de Niagara levou essa nova forma de energia a muitos lares americanos. A eletricidade passou a fazer parte da economia e do nosso quotidiano, e, a partir daí, o Mundo nunca mais voltou a ser o mesmo.

A eletricidade alumiou a noite, e alterou o ciclo das horas; libertou a mulher das pesadas e rotineiras tarefas do lar; fez nascer o ascensor elétrico responsável pelo arranha céus e pela cidade moderna; produziu a sétima arte e e ligou os continentes. Na exposição mundial de Paris de 1900 o mundo extasiou-se, e acreditava que o progresso não teria fim. Sem a eletricidade, a civilização retrocederia dezenas ou centenas de anos. Aliás, a vida como é vivida pelos jovens de hoje que nunca conheceram outra forma de viver, simplesmente já não seria possível sem a eletricidade, tal o desenvolvimento que ela permitiu. E que já se tornou irreversível.

Entretanto, a descoberta das ondas eletromagnéticas  abriu o caminho à comunicação sem fios, a distância. A eletrónica e o transitor foram o passo seguinte que conduziu à descoberta da a rádio e da televisão, que permitiram construir o circuito integrado miniaturizado, que, por sua vez, está na base da informática e a Internet.  E tudo isto apenas começou há pouco mais de um século!

A eletricidade, em boa verdade, nem sequer é uma forma de energia, mas apenas um transportador de energia.  De certo modo, ela é uma ferramenta que permite  unificar distintas formas de energia (hídrica, carvão, nuclear, gás, petróleo, eólica, solar..), e transportá-las a grande distância de uma forma conveniente, limpa e eficaz. No plano tecnológico, esta ferramenta constitui a maior invenção da humanidade e é a principal responsável pela globalização. Como tecnologia, a eletricidade é uma conquista irreversível. Como ferramenta, ela repousa sobre a rede elétrica que nalguns casos começa a estar obsoleta e difícil de manter, o que pode constituir um risco.  Mas a matéria prima que ela transforma, transporta e entrega ao domicílio é a energia. E se um dia, na parte inferior do processo, houver uma rutura no fornecimento dessa matéria prima, e as lâmpadas das nossas casas se apagarem, se o ascensor não subir e se o frigorífico deixar de funcionar, a culpa não é da eletricidade.

E se esse dia alguma vez chegar, a economia sofrerá um tsunami.