Para mim, as duas coisas mais importantes de Almeida são as muralhas e a ginjinha d´Amélinha. No resto, vejo muita ilusão e fingimento. São de faz de conta as guerras napoleónicas que se representam no final de cada verão, são virtuais as bicicletas que correm na ciclovia, e até o monumento ao 25 de Abril foi construído para fingir que Almeida é uma terra onde se lutou pela democracia e pela liberdade. O comércio é ficção, a pousada não é pousada, e restaurantes no interior da muralha são coisa que não existe. Os museus, a cultura não passam de encenações, e os espetáculos do Zé Cid são uma espécie de playback musical para adormecer o povo. A própria localidade, sem gente, é uma aldeia a fingir que é uma vila.
As muralhas estão mal tratadas, não se reparam, nalguns pontos crescem árvores e mato. Mas são sólidas e não é fácil estragá-las apesar de algumas tentativas que têm sido feitas para esse efeito. Lembro-me dumas peças decorativas colocadas do lado norte e talhadas num granito de cor desafiante, e do famigerado terceiro anel que é a ciclovia. Mas as muralhas infundem respeito, sente-se nelas o suor dos canteiros, com os guilhos e a maça, a arrancar a pedra da rocha mãe, o saber dos mestres escultores ornamentando, com os cinzeis, arcos, guaritas e frontarias, o labor dos pedreiros a aparelhar e assentar as pedras. E, na retaguarda, imagino o lápis dos arquitetos a desenhar o perfil dos baluartes e dos revelins, e os artilheiros a estudar a balística e a calibrar as peças. Foi muito dinheiro e foram muitas horas de trabalho ali investidas. Uma volta, a pé, às muralhas de Almeida é o percurso ideal para passear um cão ou para manter a forma física. Em vez de prescrever termas ou remédios, os médicos deveriam receitar muralhas de Almeida de manhã, á tarde e à noite. Podia optar-se pela dose normal dos 1350 metros, bordejando o pano interior, ou pela dose reforçada de 2160 metros, contornando os baluartes.
A ginjinha d´Amélinha é um património real de Almeida, uma marca conhecida com uma imagem de qualidade, para muitos a melhor ginjinha do mundo. Tem a embalagem adequada, o rótulo é sugestivo, o preço é justo, a cor é inspiradora, o aroma e o sabor são insuperáveis. Acredito que tenha propriedades terapêuticas, pois um golo depois da refeição é garantia de uma boa digestão. E tenho um pressentimento de que também tem propriedades afrodisíacas, e deve fazer bem àquela função que os homens muito estimam. Sempre que vou a Almeida, abasteço-me da bebida, sou portador de encomendas, levo presentes para os amigos. Alguns deles já me pediram a receita, mas convém mantê-la em segredo, fazer disso um tabu, como é caso do famoso xarope da coca-cola.
Mas a Asae, dizem-me, já está na peugada da ginjinha. Querem acabar com ela como já acabaram com as matanças dos porcos e com o papel das listas telefónicas a embrulhar as castanhas assadas. Acredito que venham a mandado da Sra. Merkel que já se deve ter apercebido das virtualidades do néctar e do perigo que ele representa para o bock e para os schnaps alemães. E eu estranho não ver uma declarada oposição das autoridades locais ou nacionais às perversas movimentações para liquidar esta preciosidade. No tempo antigo, quando a gente da beira ainda não tinha o sangue desnaturado, havia de tocar-se o sino logo que os fiscais da Asae assomassem nas Portas da Cruz, para recebê-los com forquilhas e estadulhos. E, dessa maneira, defender aquilo que nos pertence, a nossa ginjinha que é a melhor coisa que nos resta desde que a Europa nos derrubou o castelo, e a República nos levou o regimento e os soldados.
Ah, já me esquecia de referir outras coisas boas e dignas de registo e que fazem de Almeida um local único: os petiscos do Vitó, o restaurante da D. Irene, em Malpartida, e as Rondas de Almeida do Hernâni (que ainda são a fingir, mas são uma boa ideia, não custam nada ao erário público, e não dependem dos fundos da Europa). Nunca esquecendo que Almeida está a dois passos de Fuentes de Oñoro que tem o Gildo e onde a gasolina é mais barata. Aproveitem, e façam rapidamente uma visita a esta terra bendita, e brindem com um copinho da ginjinha da Amélinha. Antes que a famigerada Asae nos prive desse gosto..
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