segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O Pão e o Vinho

Segundo os evangelistas, na última ceia, antes de se entregar à justiça de Pilatos, Jesus repartiu o pão e o vinho entre os seus seguidores, simbolizando, com este gesto, oferecer o seu corpo e o seu sangue em sacrifício. Os dons desta oferenda, ficaram, desde então, associados aos rituais do cristianismo. Na mesa desta ceia, estava o pão, cozido sem fermento à maneira árabe, e haveria  tâmaras, figos secos, azeitonas, queijo, frutos secos e mel. Talvez houvesse iogurte ou pasta de grão de bico, o  hommus.  E havia, claro,  vinho, leve e aromático, bebido por taças de barro, possivelmente adicionado com água, à maneira dos romanos.

Na tradição da cultura ocidental, na religião, na literatura, no imaginário popular  o pão e o vinho tiveram, e ainda têm, um significado muito especial.  "Pão e vinho andam o caminho", diz o povo. Estes dois frutos da terra estão profundamente enraizados na cultura e na economia mediterrânica, e assumiram um papel decisivo na expansão da civilização. Temos pois de voltar a celebrar o pão e o vinho.

Estamos no tempo das vindimas, e é apropriado falar de vinho. Nos campos do nosso Portugal, do Minho ao Algarve, anda no ar o cheiro adocicado do vinho mosto. Sente-se a azáfama dos vinhateiros. Na pequena agricultura moribunda que resultou da nossa adesão à Europa, a vinha é umas das poucas atividades que ainda resistem. No Douro, por exemplo, ao lado das grandes quintas, existem ainda muitas pequenas explorações com gente esforçada, que mal consegue ganhar para as despesas do amanho das vinhas. Apenas o cooperativismo lhes permite manter as explorações. Mas  fazer vinho é uma paixão, e o ciclo repete-se em cada outono. 

"Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses", era um slogan do Estado Novo, mais tarde repudiado, como tudo o que vinha da ditadura. Mas não me parece, como já vi entendido, que o slogan contivesse uma incentivação ao consumo de álcool, poderia mais servir como uma forma de travar o consumo de cerveja ou da coca-cola, esta teimosamente impedida de entrar em Portugal por Salazar, precisamente como forma de proteger o consumo de vinho.  Produzem-se anualmente no nosso país 6 milhões de hectolitros de vinho, e Portugal é o décimo produtor e o sétimo exportador mundial. Exportam-se, em cada ano, cerca de 2 milhões de hectolitros para Angola, RU, França, Alemanha, Estados Unidos, Canadá, Brasil. Recentemente ganharam relevo as exportações para a China que  pode vir a ser um grande mercado para o vinho português.

Mas já em relação à produção de  cereais de que se faz o pão, o nosso país está longe de ser autosuficiente. Em 1911, de acordo com as estatísticas de produção agrícola, citadas por Pedro Lains e Paulo Sousa (in Análise Social, nº33, 1998), produziram-se em Portugal 319,000 toneladas de trigo, correspondendo a 28 milhões de alqueires de 15 litros. Exatamente um século depois, em 2011, e beneficiando de mecanização, de novos fertilizantes, de eficientes pesticidas e herbicidas, do apuramento de sementes, e de  subsídios vários, a quantidade de trigo (nas variedades mole, duro e triticale)  produzida em Portugal foi de 74,000 toneladas (fonte:INE). Ou seja, produziu-se menos de um quarto do que tinha sido produzido um século antes. Simplesmente espantoso, este milagre (ou armadilha!) da globalização. Em 1911, Portugal produzia cereal para fazer o pão que comia, agora importa mais de 3/4 desse cereal.

Nenhum outro alimento como o pão está associado ao trabalho do homem para ganhar o seu sustento. O  pão ganha-se com trabalho e suor. Um país, para ser verdadeiramente independente, tem de ser capaz de se alimentar a si próprio. E se não for capaz de produzir o pão e o vinho para os seus filhos, dificilmente andará o caminho...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Gerações


Há dias, na Fnac do Chiado, aquando da apresentação do livro "O Mundo em Transição", uma jovem interpelou a mesa dizendo que a questão da transição não é uma questão nova, que o mundo sempre esteve em transição, e que a geração mais velha, a geração que se prepara para partir, acha que o mundo vai ter o mesmo destino. Afirmou que há muita coisa a fazer, muitas ideias a desenvolver, muitos espaços para ocupar, e que os jovens estão preparados para enfrentar os desafios do futuro.

Estarão, de facto, os jovens preparados para enfrentar os desafios do futuro? A verdade é que sempre estiveram, e nós não temos o direito de lhe tirar a esperança. Mas devemos fazer o que sempre os mais velhos fizeram: alertar para os perigos, apelar à sabedoria que os anos apuram, para lhes apontar alguns dos escolhos que irão encontrar pelo caminho.

Nas famílias tradicionais imperava o respeito pelos mais velhos. Os mais novos eram ensinados a venerá-los, a respeitá-los e a ouvi-los. Pedir a bênção ao pai ou ao avô era o gesto que simbolizava esse respeito. O conforto associado à idade do ouro, a escassez de filhos da classe emergente, urbana e culta (ou, diria melhor, informada), inverteu as tradicionais prioridades da escala etária. As crianças passaram a ocupar a primazia na escala familiar. São os primeiros a ser servidos, condicionam as opções dos mais velhos, reclamam, impõem, exigem...

Na sociedade consumista,  as crianças de hoje são muito diferentes dos garotos da minha infância. Não sabem o que é desejar e não ter, não precisam de lutar pelos brinquedos que anseiam, nem se deslumbram com as cores e as bolas de uma árvore de Natal. O mundo deles é a fingir, é o mundo onírico da televisão e dos desenhos animados, no qual os animais falam, e os heróis têm muitas vidas. As crianças de hoje, no mundo ocidental, já não sabem o que é descobrir um ninho de pássaro, nem sabem como se faz um carrinho com uma lata vazia de conserva. E desconhecem a  alegria de receber uma barra de chocolate. Demos-lhes tudo, mas roubámos-lhes o sonho...

Está a desaparecer a geração que ainda conheceu o mundo sem eletricidade, sem televisão, sem automóveis e sem aviões. E os mais novos nunca conheceram o mundo sem Internet e sem telemóveis. É muito difícil para um jovem imaginar o mundo de outra forma. E isso não seria preocupante se  essas conquistas  fossem irreversíveis. Mas não são. A eletricidade e a Internet já fazem parte dos genes das novas gerações. E um dia, se os vindouros estiverem confrontados com um prolongado apagão elétrico, ficarão tão desorientados como teria ficado o meu avô se tivesse perdido a visão ou tivesse ficado privado das suas mãos.

Tal como aconteceu com o Império Romano, o colapso da civilização ocidental pode ocorrer pela quebra brusca da complexidade. Se isso acontecer, o futuro pertencerá aos povos que por qualquer motivo não embarcaram no navio do progresso. Povos que estão mais atrasados, mas terão mais capacidade de sobrevivência. Os nossos jovens não são educados para a adversidade. Seria recomendável um serviço cívico obrigatório em que os jovens fossem ser obrigados a viver uns meses sem eletricidade e sem gasolina, e sem as ferramentas eletrónicas complexas do mundo de hoje. O seu futuro ficaria mais acautelado.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O Fogo do Inferno


A notícia não podia ser pior. Prestes a ser engolido pelo fogo do Inferno, é a morte anunciada do Paraíso Terrestre de onde Deus expulsou Adão e Eva e que o homo digitalis julgava ter reconquistado. O relatório divulgado a semana passada pelo painel internacional de cientistas das Nações Unidas não deixa lugar a dúvidas: o homem, quer dizer, a economia está a interferir com o equilíbrio da hidrosfera e da atmosfera. E, com esta interferência, afeta a biosfera e a vida que ela integra. Conclusão: a atividade do homem está a pôr em causa o futuro da própria espécie humana.

O painel intergovernamental para o estudo das alterações climáticas (IPCC)  formado pela Organização Meteorológica Mundial (WMO) e pelas Nações Unidas, é constituído por três grupos de trabalho. O relatório agora apresentado foi produzido pelo Grupo I  que se ocupa da análise dos apectos físicos e científicos relacionados com o clima e as suas alterações. O relatório foi elaborado por  209 cientistas de 39 países juntamente com 50 editores, e contou com a contribuição de mais 600 outros especialistas de 32 países. No primeiro semestre do próximo ano será publicado o relatório do Grupo II que analisará o impacto económico das alterações climáticas, e mais tarde, aparecerá o relatório do Gupo III que se ocupará das medidas a tomar para mitigar os efeitos dessas alterações climáticas

A grande conclusão do relatório do Grupo I é a seguinte: "O aquecimento  do sistema climatérico é inequívoco, e, desde 1950, as mudanças observadas não têm paralelo nas décadas e milénios precedentes. A atmosfera e os oceanos aqueceram, a queda de neve e a formação de gelo diminuíram, o nível do mar subiu, e as concentrações de gases de efeito de estufa aumentaram."

Não vou entrar em detalhes sobre este importante relatório. Ele pode ser consultado no site da organização. Destaco apenas outra grande conclusão que encerra uma velha discussão: "A influência do homem no sistema climático é clara. Isto resulta evidente do aumento da concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera, do aumento do seu efeito radiante, do aquecimento observado, e da compreensão do sistema climático". Durante muito tempo, a relação entre a atividade humana e as alterações climáticas foi posta em causa. Argumentava-se que as alterações climáticas sempre ocorreram no planeta, e que não havia provas de que na atualidade elas seriam uma consequência da atividade do homem.

A Sustentabilidade exige que o consumo de recursos e as emissões poluentes se adaptem à capacidade do planeta para fazer a  reposição daqueles e fazer a  absorção destas, sem comprometer equilíbrios sensíveis. A Economia, por sua vez, fundamenta-se na lei da oferta e da procura e na maximização do lucro e ignora as exigências da sustentabilidade. O sistema financeiro (os mercados), baseado no crédito, exige crescimento económico continuo para não se  desmoronar, e está ao lado da economia contra a sustentabilidade. Estes três variáveis, sustentabilidade, economia e crédito integram um sistema de equações que não tem solução, pois o que uma exige as outras rejeitam.

Economia e Sustentabilidade estão, pois, em rota de colisão. Este relatório do IPCC mostra as evidências, e antecipa os danos que a economia está a causar ao planeta; dentro de meses, um outro relatório virá dizer-nos quais os efeitos negativos que esses danos estão a causar à economia. Estamos dentro de um círculo vicioso que só terá fim quando os danos recíprocos provocados num lado e noutro (no planeta e na economia!) forem irreversíveis.E, nessa altura, já não interessará descobrir o culpado.

O tema vai continuar a discutir-se nas conferências e cimeiras mundiais mas nada será decidido, porque as decisões a favor da sustentabilidade são contra a economia, e o curto prazo desta impõe-se sobre o longo prazo daquela. Nenhum país terá capacidade para impor a outros países decisões que afetem a sua produção, que reduzam o seu crescimento económico ou que belisquem os interesses dos seus mercados. Ninguém, a não ser os românticos europeus, irá tomar decisões unilaterais que, já se sabe, outros não tomarão. A Europa vai continuar a fazer o papel de agente bem comportado, e vai insistir em, a prazo, baixar em 20% as emissões de CO2.  E os europeus ficarão espantados por ver a China (onde as poluentes centrais termicas a carvão surgem como cogumelos!) poluir em 4 meses o que a Europa deixou, esforçadamente, de poluir numa dezena de anos. E, inundados com os produtos chineses, indignados com a crise e a falta de emprego, perguntarão eles se vale a pena o sacrifício.

E, em cada nova cimeira, o planeta estará mais quente. E isto faz lembrar a história do sapo dentro da panela a aquecer no lume brando. Só tarde demais se apercebe que a água ficou demasiado quente, e já não consegue saltar para fora da panela...

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Encruzilhadas

Em 1798, o reverendo Thomas Malthus publica em Londres o seu Ensaio sobre a população e a forma como esta afeta o desenvolvimento da sociedade. A tese de Malthus baseia-se em dois simples postulados: 1) o ser humano é impulsionado a reproduzir-se ou, na forma original, é muito forte a atração ou a paixão entre sexos, e 2)  os homens precisam de comer para viver.  Destes postulados retira ele a conclusão de que o alimento precisa de ser produzido em quantidade suficiente para acompanhar o impulso reprodutivo, para o que é necessário solo arável, mas, acreditava ele, a sua disponibilidade não acompanharia a progressão populacional, facto que iria criar problemas futuros. Malthus estava longe de imaginar que, nos dois séculos seguintes, três revoluções iriam alterar radicalmente estes pressupostos: uma revolução social, outra tecnológica e outra energética.

O homem começou por caçar e recolher alimentos produzidos espontâneamente pela natureza, e fez isto durante milhões de anos. Pode dizer-se que, nesse período, havia uma economia natural. Depois, há dez mil anos, domesticou animais e plantas, sedentarizou-se e dedicou-se à agricultura. E desde então, o homem aperfeiçoou a forma de converter a energia solar em alimentos. Pois é sabido que a produção dos alimentos básicos da cadeia alimentar, resulta da transformação do CO2 em carbono diretamente nas plantas por ação do sol, ou pela incorporação de matéria orgânica  rica em carbono e azoto que é adicionada aos solos,  e isto é também uma forma diferida, mas próxima, de aproveitamento da energia solar. A utilização de animais de tração, a introdução da charrua de ferro e a melhoria das  técnicas de regadio foram alguns dos passos do longo processo de aperfeiçoamento da agricultura.

Em 1798, o mundo vivia numa encruzilhada: a economia agrícola estava no seu auge, mas o rápido  crescimento populacional que estava a duplicar a população a cada 25 anos, na Inglaterra e nos novos estados americanos, ameaçava a sua sustentabilidade.  Mas algo estava a mudar, a Revolução Francesa reivindicava  o poder para o povo. E a independência da América, em 1776, mostrou ao mundo que a nova ordem era praticável. A publicação da Riqueza das Nações de Adam Smith, nesse mesmo ano, apontava um novo sentido à economia. O carvão e a máquina a vapor, encurtavam distancias e libertavam o homem da escravatura.  A eletricidade iria produzir uma espantosa  revolução tecnológica. E os anos que se seguiram foram uma aventura que conduziu a Civilização a píncaros nunca antes sonhados.  Iniciava-se o reinado da economia industrial

Com a descoberta de importantes jazidas de carvão, petróleo e, mais tarde, gás natural, o homem foi capaz de incorporar esta energia na produção de alimentos, podendo afirmar-se como disse, muitos anos depois, Albert Bartlett que a agricultura da nova era consistiu na "transformação de petróleo em alimentos". E isto liga inexoravelmente a questão alimentar e a questão energética. Relação essa que não foi considerada por Malthus, e foi a razão principal para explicar o seu erro.  Ao contrário do que ele previa, nos duzentos  anos que decorreram desde a publicação do Ensaio, a população humana cresceu  exponencialmente, passando de mil milhões para sete mil milhões. Houve alimento suficiente, houve um conforto nunca antes imaginado, não apareceram predadores.

Hoje, tal como há 200 anos, o mundo volta a estar numa encruzilhada. Adam Smith e a concretização das suas ideias conduziram-nos à globalização. O avanço tecnológico e a crescente complexidade das redes que suportam a economia industrial, têm servido para criar a ilusão de que o homem tudo poderá fazer. E, com efeito, os limites ao crescimento foram torneados por diversas vezes. Mas o crescimento exponencial acelera o tempo, e a mente humana (cito Bartlett) tem dificuldade em entender as suas consequências.   Com efeito, nos 210 anos que decorreram entre 1800 e 2010 a taxa média anual de crescimento da população mundial foi de 0,93% , a que corresponde um  período de duplicação de 75 anos. A manter-se essa taxa, a população mundial será de 14 mil milhões em 2085. Se isso poderá acontecer ou não, é a discussão que vai pôr à prova a nossa capacidade de planear o futuro e sair da encruzilhada.

A economia industrial enfrenta fortes condicionantes. A escassez de recursos e a poluição mostram limites aos quais nos aproximamos velozmente. Foi Hubert King que pela primeira vez, em 1953, alertou para a finitude dos recursos fósseis. Em 1972, o estudo do Clube Roma, Limites ao Crescimento,  foi outro  alerta, sério e fundamentado. Em 2000, Colin Campbell e Jean Laherrère falam do pico de petróleo e das suas consequências. As alterações climáticas, resultantes dos gases com efeito de estufa, ameaçam alterar os frágeis equilíbrios da atmosfera e do mar.  As lições da crise atual demonstraram a fragilidade da economia e  do sistema financeiro baseado no crédito, e dependente do contínuo crescimento económico.

E não descortinamos o  que vem a seguir.. Mas começa a instalar-se a ideia de que esta economia não tem futuro e  necessitamos de uma nova economia. Uma economia que respeite os limites do planeta, que seja sustentável. Uma tal nova economia vai voltar a defrontar-se com o problema do crescimento da população. Num ambiente favorável, com alimento e sem predadores, a população de uma espécie geneticamente saudável cresce de forma exponencial. Mas a população humana não pode crescer dessa forma e tem de ser estabilizada. É verdade que as novas formas de controlo da natalidade muito eficientes e desculpabilizantes vieram alterar os pressupostos de Malthus, pois a força da paixão de que ele falava deixou de ser sinónimo de reprodução. Uma política de controlo  populacional tem de ser implementada a nivel mundial, e isso vai traz muitos problemas de ordem social, de ordem económica, de ordem moral. Mas resolvê-los é o desafio que temos pela frente. 

Passar da economia industrial para uma nova economia  é um processo de transição que sabemos necessário mas que ainda desconhecemos a forma como será feito e qual o caminho que terá de ser seguido. Apenas sabemos que a nova ordem tem de ser diferente da atual, e que tem de viabilizar a prosperidade da espécie.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A Síria

Não é certamente por causa do gás sarin que os Estados Unidos se preparam para golpear a Síria e o seu exército. Após a postulação da doutrina Carter, na sequência da invasão do Afeganistão pela União Soviética em janeiro de 1980, o Médio Oriente (pela importância das suas reservas energéticas) passou a ser a fronteira do império americano. E a Síria é uma peça chave nessa região pois ali convergem importantes interesses estratégicos. Faz fronteira com Israel e com o Iraque, tem uma boa relação com a Rússia, país que por sua vez tem fortes interesses na Síria que é a sua única porta de entrada no Mediterrâneo. O pipeline que irá trazer o gás natural do golfo Pérsico para a Europa vai ter de passar pela Síria. O regime de Assad tem ligações ao Hezbollah que é um inimigo declarado de Israel. E o Irão (o principal inimigo a abater!) sai reforçado com Assad no poder. Para os americanos, que têm a capacidade e a vontade de atacar, o pretexto e a oportunidade de o fazer dificilmente serão desperdiçados. 

Quando, em setembro de 2009, eu e a minha mulher visitámos a  Síria, no fim  do ramadão, estava longe de imaginar a tragédia que se iria abater sobre um país que se nos revelou pacífico e acolhedor. No dia seguinte ao da nossa chegada a Damasco, passeámos tranquilamente pelas ruas à volta do Hotel Fardoss, na parte central de cidade. Comprámos bolachas, água, algumas lembranças, levantámos dinheiro no multibanco. Foi o primeiro contacto com o Oriente, muito comércio, muita gente na ruas, afinal uma cidade limpa, arrumada, que nada fica a dever a muitas cidades europeias.

A Síria de hoje ocupa parte de um território que foi o berço da nossa civilização. Foi nessa região que se cultivaram os primeiros cereais, que se domesticaram os primeiros animais e que floresceram as primeiras aglomerações de agricultores sedentários, que se ergueram as primeiras cidades. Ali confluíram povos de várias etnias,  fenícios, hebreus, amoritas, cananeus, assírios, arameus e hicsos, e ainda hoje convivem ao lado dos árabes, curdos, arménios, turcos, alauitas  e cristãos.

Em 64 AC, os romanos ocuparam a Síria que se transformou numa província do Império. Dessa presença restam impressionantes monumentos e cidades hoje dispersas por toda a região incluindo o Líbano, a  Jordania e Israel. Palmyra, uma joia no deserto, ficava  na rota das caravanas que traziam para o Mediterrâneo os produtos do Oriente. Nessa época, os cristãos criaram uma forte presença na Síria que ainda se mantém. São Paulo converteu-se ao cristianismo na estrada de Jerusalém para Damasco, cidade onde foi batizado por S. Ananias. Maloula,  a norte de Damasco, onde eu ouvi o Pai-Nosso recitado na língua de Jesus (o aramaico), é a terra de Santa Tecla e dos Santos Sérgio e Baco.

Os árabes, em 640 DC, conquistam a península Arábica  onde reinaram várias dinastias. Na Idade Média, depois do concílio de Clermont, o papa Urbano II prega as cruzadas pedindo aos cristãos para libertarem, a troco de indulgências, os lugares santos da influência do Islão. Os cruzados, populares e cavaleiros, marcham para leste, e conquistam Jerusalém. Erguem-se castelos, fundam-se éfemeros reinos cristãos (Antióquia, Acre, Jerusalém).  Ainda hoje o imponente castelo medieval de Krac-les-Chevaliers que se ergue numa colina próximo de Homs, na Síria, evoca esse tempo.

A partir do século XV, e após a queda de Constantinopla em 1453, toda esta vasta região passou a  integrar o império otomano. No final da primeira guerra mundial, com a derrota da Sublime Porta, a península Arábica (já cobiçada por ser uma importante área petrolífera)  foi repartida, num tratado secreto, entre ingleses e franceses. A linha reta divisória traçada no mapa anexo ao tratado, ainda hoje marca  a linha de fronteira  entre a Síria, que foi atribuída à França e o Iraque que foi atribuído à Inglaterra. E foi nessa altura que, por influência do movimento sionista, se decidiu a criação de um estado judaico na Palestina.

Em 1946, com uma população de 3 milhões de pessoas, a Síria declara a independência e torna-se um república parlamentar.  Após uma tentativa falhada de criação de uma união como Egito que vigorou entre 1958 e 1961, o poder é assumido, em 1971, pela família Assad (primeiro Hafez al-Assad depois, em 2000, Bashar al-Assad), do partido ba'ath. Hoje a população do país ascende aos vinte e três milhões de pessoas, e os efeitos dessa explosão demográfica, à semelhança do que se passa no Egito, levantam sérios problemas. A história recente, amplamente coberta pelos media, é sobejamente conhecida: as guerras com Israel, a ocupação dos montes Golan,  a primavera árabe, os rebeldes,  a  guerra civil, os refugiados, as armas químicas...
 
O fator energético é uma outra importante variável  com influência  nas causas da  guerra civil e na decisão americana de atacar a Síria. A Síria não é um grande produtor de petróleo nem de gás natural mas está prevista a construção de um importante gasoduto a passar pela Síria para transportar o gás natural proveniente das imensas reservas (as maiores do mundo!)  do Qatar e do Irão. Este gás  é essencial para a Europa, pois espera-se poder ser canalizado para o gasoduto Nabucco que a CE planeia construir para a Turquia, e, desta forma, reduzir a sua dependência da Gazprom. Ora, a Síria favorece os interesses da Rússia e do Irão e recusou o projeto de gasoduto apoiado pelo Qatar e pela Arábia Saudita. Países estes que, por sua vez, passaram a apoiar financeiramente os rebeldes. 

Obama já convocou a nova cruzada contra os Sírios e contra Assad. Entretanto a Europa hesita entre a fidelidade ao amigo americano e a avaliação que faz do risco do ataque. A Rússia está atenta aos seus interesses, e Putin não ficará de braços cruzados perante um ataque americano. A Turquia, país da Nato, a braços com milhares de refugiados, apoia o ataque pensando no problema curdo e na sua adesão à União europeia.  O silêncio da China  (quebrado a semana passada com um discreto aviso sobre as consequências económicas de um ataque americano)  é perturbador mas é revelador de que algo não está a ir ao encontro dos seus interesses.

 A América tem o poder de atacar e, neste momento, nenhum país ou força lhe pode fazer frente no plano militar. Nestas condições, a história mostra que os lobbies do armamento dificilmente serão contrariados, e o ataque vai ter lugar. Como tudo acabará é a grande incógnita. As mentes mais avisadas e mais sensatas temem que a Síria, que foi berço de uma civilização, possa vir a ser o cemitério dessa mesma civilização.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A Ginjinha da Amélinha

Para mim, as duas coisas mais importantes de Almeida são as muralhas e a ginjinha d´Amélinha. No resto, vejo muita ilusão e fingimento. São de faz de conta as guerras napoleónicas que se representam no final de cada verão, são virtuais as bicicletas que correm na  ciclovia,  e até o monumento ao 25 de Abril foi construído para fingir que Almeida é uma terra onde se lutou pela democracia e pela liberdade. O comércio é ficção, a pousada não é pousada,  e restaurantes no interior da muralha são coisa que não existe. Os museus, a cultura não passam de encenações, e os espetáculos do Zé Cid são  uma espécie de playback musical para adormecer o povo. A própria localidade, sem gente, é uma aldeia a fingir que é uma vila.

As muralhas estão mal tratadas, não se reparam, nalguns pontos crescem árvores e mato. Mas são sólidas e não é fácil estragá-las apesar de algumas tentativas que têm sido feitas para esse efeito. Lembro-me dumas peças decorativas colocadas do lado norte e talhadas num granito de cor desafiante, e do famigerado terceiro anel que é a ciclovia. Mas as muralhas infundem respeito, sente-se nelas o suor dos canteiros, com os guilhos e a maça, a arrancar a pedra da rocha mãe, o saber dos mestres escultores ornamentando, com os cinzeis, arcos, guaritas e frontarias, o labor dos pedreiros a aparelhar e assentar as pedras. E, na retaguarda, imagino o lápis dos arquitetos a desenhar o perfil dos baluartes e dos revelins, e os artilheiros a estudar a balística e a calibrar as peças. Foi muito dinheiro e foram muitas horas de trabalho ali investidas. Uma volta, a pé, às muralhas de Almeida é o percurso ideal para passear um cão ou para manter a forma física. Em vez de prescrever termas ou remédios, os médicos deveriam receitar muralhas de Almeida de manhã, á tarde e à noite. Podia optar-se pela dose normal dos 1350 metros, bordejando o  pano interior, ou pela dose reforçada de 2160 metros, contornando os baluartes.

A ginjinha d´Amélinha é um património real de Almeida, uma marca conhecida com uma imagem de qualidade, para muitos a melhor ginjinha do mundo. Tem a embalagem adequada, o rótulo é sugestivo, o preço é justo, a cor é inspiradora, o aroma e o sabor são insuperáveis. Acredito que tenha propriedades terapêuticas, pois um golo depois da refeição é garantia de uma boa digestão. E tenho um pressentimento de que também tem propriedades afrodisíacas, e deve fazer bem àquela função que os homens muito estimam. Sempre que vou a Almeida, abasteço-me da bebida, sou portador de encomendas, levo presentes para os amigos. Alguns deles já me pediram a receita, mas convém mantê-la em segredo, fazer disso um tabu, como é caso do famoso xarope da coca-cola.

Mas a Asae, dizem-me, já está na peugada da ginjinha. Querem acabar com ela como já acabaram com as matanças dos porcos e com o papel das listas telefónicas a embrulhar as castanhas assadas.  Acredito que venham a mandado da Sra. Merkel que já se deve ter apercebido das virtualidades do néctar e do perigo que ele representa para o bock e para os schnaps alemães. E eu estranho não ver uma declarada oposição das autoridades locais ou nacionais às perversas  movimentações para liquidar esta preciosidade.  No tempo antigo, quando a gente da beira ainda não tinha o sangue desnaturado, havia de tocar-se o sino logo que os fiscais da Asae assomassem nas Portas da Cruz, para recebê-los com forquilhas e estadulhos. E, dessa maneira, defender aquilo que nos pertence, a nossa ginjinha que é a melhor coisa que nos resta desde que a Europa nos derrubou o castelo, e a República nos levou o regimento e os soldados.

Ah, já me esquecia de referir outras coisas boas e dignas de registo e que fazem de Almeida um local único: os petiscos do Vitó, o restaurante da D. Irene, em Malpartida, e as Rondas de Almeida do Hernâni  (que ainda são a fingir, mas são uma boa ideia, não custam nada ao erário público, e não dependem dos fundos da Europa). Nunca esquecendo que Almeida está a dois passos de Fuentes de Oñoro que tem o Gildo e onde a gasolina é mais barata.  Aproveitem, e façam rapidamente uma visita a esta terra bendita, e brindem com um copinho da ginjinha da Amélinha. Antes que a  famigerada Asae nos prive desse gosto..

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Egito


Há apenas alguns anos, o Egito parecia ser um caso de sucesso. Em 1991 iniciou-se, neste país, um programa de reformas com o apoio do FMI que levou à privatização de centenas de empresas públicas. Na década seguinte, foram melhoradas as infra-estruturas e captados investimentos estrangeiros. O sucesso desse esforço teve como resultado um crescimento anual do PIB em torno de 5%, no período de 1995-1998, e de 6,3% em 1998 e 1999. E em 2008, o PIB ainda teve um crescimento estimado em 6,9%. O Egito nunca foi visto como um país de fundamentalismo islâmico, e era muitas vezes referido e elogiado, nos meios de comunicação, pelas suas posições moderadas em relação aos israelitas.

No início de 2011, o mundo sobressaltou-se com a chamada primavera árabe, expressão que designou os movimentos que se sucederam nos países islâmicos banhados pelo mediterrâneo, primeiro na Tunísia, depois no Egito, na Líbia, na Síria e no Iémene. Os políticos, pressurosos, entusiasmaram-se com estes movimentos. Falaram em democracia e defesa das liberdades, e logo idealizaram cenários futuros com modelos de governação ocidentais, aplicados aos países em turbulência. Javier Solana, muito otimista, disse que "Israel não será mais a única democracia da região, e deverá adaptar-se para poder garantir, de outro modo, a sua segurança", palavras que Mário Soares, de imediato, aprovou e considerou sábias (DN 22.2.2011).  Mas o Oráculo de Vence, escrevendo no Público (21.2. 2011) , evoca  as cruzadas  e lembra Avicena e Averrois para esclarecer: “o Islão não se converterá ao nosso modelo”.

Mas é preciso perceber aquele fenómeno que tem causas que não se explicam exclusivamente nem por razões históricas nem políticas. São sobretudo causas económicas (mas não só!), que têm muito a ver com a globalização e são sinais da inevitabilidade da rutura de um modelo nos limites, submetido a várias forças de pressão internas. Sem possibilidade de expandir-se, estas pressões fazem-no “rebentar pelas costuras”. Como força mais evidente temos a que resulta da pressão demográfica. O Egipto duplicou a sua população nos trinta anos do regime de Hosni Mubarak, passando  de 40 para 80 milhões de habitantes.  E, desde a queda do anterior presidente, em pouco mais de 2 anos, a população já aumentou para 84 milhões. Este rápido crescimento produziu uma população urbana e extremamente jovem (31,5% tem menos de 15 anos, e apenas 5% tem mais de 65 anos). A manter-se a atual taxa de crescimento populacional (cerca de 2% ao ano), a população do Egipto voltará a duplicar até 2050. E os problemas irão agravar-se, nomeadamente os alimentares, pois a terra arável, já escassa, vai continuar a ser ocupada por edifícios e outras estruturas, e sobrar menos para a agricultura. E, claro, o desemprego entre os jovens que são já uma geração "net", cada vez mais cultos e informados, continuará a grassar.

Outro factor, influenciador do desequilíbrio do sistema, tem a ver com as desigualdades sociais e com a pobreza, agravadas nos tempos que correm pela carência de recursos alimentares e pela dependência externa. A recente escalada dos preços de certos bens, (o trigo, o milho, o café, a soja, o algodão) provocou inflação e corroeu o poder de compra. Ora a democracia é um regime que convive melhor com a abundância do que com a escassez. É difícil explicar a um povo que o poder lhe pertence e pedir-lhe votos, quando ele passa fome. O pão alimenta a democracia, mas a democracia, só por si, não dá o pão.

Nas últimas décadas, o Egipto produzia e exportava petróleo, mas as exportações tendem a desaparecer: em 1990, produzia 900 mil barris por dia, dos quais metade destinava-se ao consumo interno, e a outra metade era exportada. Mas, entretanto, a produção declinou e o consumo aumentou. Atualmente produz 700 mil barris por dia, que já são escassos para o consumo interno. De tal forma, que o Egito já é, desde 2011, importador petróleo, e o que era uma receita é agora uma despesa. A exploração e produção de gás representam uma das áreas promissoras da economia. A expectativa é que essa promessa se mantenha, com base nos planos de investimento já aprovados, e justificadas por recentes descobertas de novas reservas de gás.

O problema alimentar, já referido, é outro grave problema de um país que já foi o celeiro do mundo mediterrânico , o "presente do Nilo" de que falava Heródoto, é hoje um país que enfrenta um futuro sombrio no que respeita à produção de alimentos. O Egito é um dos maiores importadores mundiais de cereais (trigo e milho). Segundo estatísticas do ministério egípcio do petróleo, este país importa 40% da sua alimentação e 60% do trigo que consome. Problemas climáticos a nível mundial, e a produção de bio-combustíveis, que estão na origem da atual escalada dos preços das matérias primas, só têm servido para agravar a situação.

No Egito, o turismo representa indiretamente 11% do PIB, mas a crise interna e a crise mundial, aliadas aos efeitos do elevado preço do petróleo nas transportadoras aéreas, estão a afetar o sector que emprega 3 milhões de pessoas. Fala-se que em receitas de turismo, e durante a presente crise, o país perde 300 milhões de dólares diários.Uma outra importante fonte de riqueza deriva das tarifas cobradas aos cerca de 15000 navios que, por ano, passam pelo canal de Suez. A eventualidade do encerramento desta estratégica via marítima constituiria um tragédia não só para o Egito mas para todo o mundo, e as consequências seriam um forte agravamento da crise económica global.

Aquilo que se está a passar no Egito, é um afloramento da gravidade da situação mundial. Não é apenas uma questão de regime político, e quem vier a seguir vai ter de enfrentar exactamente os mesmos problemas, ou até agravados. Porque esta é essencialmente uma questão que reflete os problemas e as contradições da globalização. As raízes do problema são muito complexas e a economia não as vai resolver, porque a economia gere os recursos mas não os cria, fala de população mas não a regula, exige insistentemente o crescimento mas não sabe como promovê-lo.

O Islão não se converterá ao nosso modelo, pelas razões que apontou Eduardo Lourenço, mas não só. Os problemas dos países árabes são o sintoma de uma doença mais profunda, e continuarão, por muito tempo, a ocupar o nosso dia-a-dia. E a Europa e o Mundo não podem alhear-se do drama egípcio, porque num mundo global, uma perturbação num só lugar afetará todo o planeta.