segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O bosão de Higgs

Um amigo meu perguntou-me, há dias, se após a descoberta do bosão de Higgs ainda precisamos de Deus para explicar a criação do Mundo. O bosão de Higgs é uma partícula subatómica conhecida pela partícula de Deus. Por ser altamente instável e desprovida de spin e de carga elétrica, teimava em escapar aos detetores que analisam a desintegração dos núcleos quando bombardeados por protões nos aceleradores eletromagnéticos do CERN (Conselho Europeu de Pesquisa Nuclear, na Suiça). Finalmente foi detetado, e isso veio contribuir para confirmar algumas teorias  relacionadas com a estrutura do núcleo do átomos.

No tempo em que eu estudei Física na Universidade, a estrutura do átomo  ainda era descrita na forma simples de um núcleo a volta do qual giravam eletrões, em órbitas bem definidas, à semelhança de um sistema solar em miniatuira. As dimensões do átomo eram desconcertantes pois mostravam que, dentro deles, predominava o espaço vazio. Imaginem, por simples comparação a uma escala humana, que o núcleo tem o tamanho de uma laranja, e os eletrões giram em órbitas com  vários quilómetros de raio!

Julgava eu que a questão estava arrumada. O modelo parecia definitivo e extraordinário. A última camada eletrónicas à volta do núcleo tinha um númeo de eletrões entre 1 e 8 e isso explicava a formação dos iões e dos compostos químicos. Por exemplo, todos os elementos com um eletrão na última camada são quimicamente parecidos entre si. Assim se construiu a elegante a tabela de Mendeleev, onde se arrumavam e explicavam as propriedades de  todos os elementos da natureza. 

Mas, nos últimos 50 anos, aprofundou-se o estudo do átomo e começou-se a desvendar  a natureza das suas partículas subatómicas. O eletrão passou a ser visto como tendo um natureza mista de onda e partícula e as suas propriedades eram melhor explicadas pelas leis de distribuição estatística do que pela física absolutista de Newton. A mecânica clássica dava lugar à mecânica quântica. A Física das coisas e das certezas dava lugar à Física dos conceitos e das probabilidades.

O núcleo do átomo, onde se concentrava a sua massa e onde as suas componentes (o protão e o neutrão) estavam fortemente unidos, revelou-se uma caixa de surpresas. Decompor as partículas do núcleo em outras componentes elementares vinha resolver alguns problemas e consolidar uma teoria explicativa que ficou conhecida pelo modelo padrão. Primeiro surgiram os quarks, aos quais se associaram novas e estranhas propriedades como o spin. Depois os leptões, os fotões, os bosões e os fermiões, alguns deles servindo para explicar as forças de atração entre partículas nucleares.

O bosão de Higgs é uma peça que faltava no puzzle que os cientistas tentam montar para perceber  natureza última da matéria. Ele vem explicar a massa de certas partículas. Mas o puzzle continua incompleto. Procura-se agora uma outra partícula, que já tem nome, o gravitão, um fermião  que se julga responsavel pela força da gravidade, essa força misteriosa que faz com que dois corpos afastados e isolados um do outro se atraiam mutuamente.  Ainda ninguém conseguiu explicar a misteriosa gravidade. É como se entre dois corpos materiais existisse uma invisivel "paixão" que os impele um para o outro. E, quando o átomo estiver explicado, já teremos percebido 5% do Universo! A seguir, será altura dos cientistas partirem  à procura da matéria negra que ajudará a explicar mais uma parte dos restantes 95%.

Ao meu amigo que me colocou a intrigante pergunta sobre se Deus ainda é necessário para explicar a criação do Mundo, eu sugeri-lhe que contasse as estrelas do Céu que são mais do que os grãos de areia da Terra, ou que contasse os átomos de carbono dum ponto, deixado impresso pela grafite de um lápis afiado, numa folha de papel, e que são mais que pessoas existentes à face do nosso planeta! Quando terminasse a contagem, eu responderia à sua pergunta, caso ele ainda precisasse da resposta.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Lampedusa

Lampedusa é uma fissura aberta na muralha da (ainda) tranquila fortaleza europeia que ameaça transformar-se numa brecha de grandes proporções. De um lado e de outro do Mediterrâneo perfilam-se dois povos e duas realidades bem distintas. Os europeus anémicos, endividados, indignados com uma insidiosa crise económica para resolver,  estão confrontados com os filhos de uma nova África, islâmica, jovem, depauperada e a rebentar pelas costuras.

Como que atraídos por irresistíveis cantos de sereias, do lado africano, chegam às praias do Mare Nostrum milhares de homens, mulheres e crianças, famélicos, sem terra, sem pão, e sem outros haveres para lá da escassa roupa que lhes cobre o corpo. Vêm da Líbia, da Tunísia, da Etiópia, da Eritreia, da Somália e da Síria, atravessam desertos, cruzam fronteiras. Entregaram o pouco que tinham a passadores e engajadores que lhes prometeram o paraíso do outro lado do mar! Nada os detém: não temem o mar, nem as autoridades, nem as grades de qualquer prisão. A  esperança de chegar à outra margem sobrepõe-se a tudo, e desvaloriza os riscos de sucumbirem na caminhada, de naufragarem no mar revolto ou de serem devolvidos à procedência.

Embarcam amontoados em frágeis e inseguras embarcações, lembrando a forma como viajavam os seus irmãos nos barcos  negreiros que, a partir do século XVI e até ao século XIX, partiam do Senegal e do Golfo da Guiné e demandavam a América, as Caraíbas ou o Brasil, destinados  ao trabalho escravo nas fazendas de algodão ou nos engenhos de açúcar. A grande diferença é que agora não vão forçados, nem vão acorrentados. Vão de sua livre vontade, e  nem sequer olham para trás. A sua única esperança está no almejado destino.

A história tem demonstrado que se houver gente a mais num espaço e gente a menos noutro que lhe seja acessível, se estabelecerá um fluxo demográfico entre esses espaços que funcionará como um sistema de vasos comunicantes. Foi assim que os Europeus inundaram a terra dos Índios, nas Américas. E o mesmo se verifica em muitas outras zonas do globo, como  na fronteira do México com os EUA, na fronteira da Índia com o Bangladesh e nas fronteiras entre Israel com os territórios ocupados da Palestina, onde existem fortes pressões demográficas.

A tensão entre as duas margens do Mediterrâneo não vai reduzir-se, antes pelo contrário, vai acumular-se. Para isso contribui a natalidade elevada, a fome e a escassez de recursos do lado sul e  a baixa natalidade, o comodismo, a apatia do lado norte.  Mas existem outros fatores. A humanidade já não se divide em raças, nem os continentes lhes estão reservados. Está a emergir, na nova África que nos anos sessenta ascendeu à independência,  uma classe intelectual, culta e  informada que não terá dificuldade em demonstrar e defender o direito moral dos africanos invadirem a Europa. Os assobios a Durão Barroso em Lampedusa são um sinal. E até o papa Francisco já reconheceu esse direito ao classificar de vergonha o que se passa em Lampedusa, e ao criticar a “indiferença para com os que fogem da escravatura e da fome, para encontrar a liberdade".

Lampedusa vai mexer com a Europa.  O dique que é a fronteira da Europa é vasto e tem muitos pontos frágeis: as praias da Andaluzia, Malta, Lampedusa, as extensas fronteiras da Grécia e dos Balcãs.  Os europeus do Norte vão ter mais um argumento contra os do sul, e irão levantar barreiras dentro do próprio espaço europeu para deter a invasão. Um dia, que, acredito, não virá longe, surgirão as primeiras balsas de imigrantes no litoral algarvio, e nessa altura, perceberemos que esta questão também nos diz respeito, a nós, aos portugueses.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O Pão e o Vinho

Segundo os evangelistas, na última ceia, antes de se entregar à justiça de Pilatos, Jesus repartiu o pão e o vinho entre os seus seguidores, simbolizando, com este gesto, oferecer o seu corpo e o seu sangue em sacrifício. Os dons desta oferenda, ficaram, desde então, associados aos rituais do cristianismo. Na mesa desta ceia, estava o pão, cozido sem fermento à maneira árabe, e haveria  tâmaras, figos secos, azeitonas, queijo, frutos secos e mel. Talvez houvesse iogurte ou pasta de grão de bico, o  hommus.  E havia, claro,  vinho, leve e aromático, bebido por taças de barro, possivelmente adicionado com água, à maneira dos romanos.

Na tradição da cultura ocidental, na religião, na literatura, no imaginário popular  o pão e o vinho tiveram, e ainda têm, um significado muito especial.  "Pão e vinho andam o caminho", diz o povo. Estes dois frutos da terra estão profundamente enraizados na cultura e na economia mediterrânica, e assumiram um papel decisivo na expansão da civilização. Temos pois de voltar a celebrar o pão e o vinho.

Estamos no tempo das vindimas, e é apropriado falar de vinho. Nos campos do nosso Portugal, do Minho ao Algarve, anda no ar o cheiro adocicado do vinho mosto. Sente-se a azáfama dos vinhateiros. Na pequena agricultura moribunda que resultou da nossa adesão à Europa, a vinha é umas das poucas atividades que ainda resistem. No Douro, por exemplo, ao lado das grandes quintas, existem ainda muitas pequenas explorações com gente esforçada, que mal consegue ganhar para as despesas do amanho das vinhas. Apenas o cooperativismo lhes permite manter as explorações. Mas  fazer vinho é uma paixão, e o ciclo repete-se em cada outono. 

"Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses", era um slogan do Estado Novo, mais tarde repudiado, como tudo o que vinha da ditadura. Mas não me parece, como já vi entendido, que o slogan contivesse uma incentivação ao consumo de álcool, poderia mais servir como uma forma de travar o consumo de cerveja ou da coca-cola, esta teimosamente impedida de entrar em Portugal por Salazar, precisamente como forma de proteger o consumo de vinho.  Produzem-se anualmente no nosso país 6 milhões de hectolitros de vinho, e Portugal é o décimo produtor e o sétimo exportador mundial. Exportam-se, em cada ano, cerca de 2 milhões de hectolitros para Angola, RU, França, Alemanha, Estados Unidos, Canadá, Brasil. Recentemente ganharam relevo as exportações para a China que  pode vir a ser um grande mercado para o vinho português.

Mas já em relação à produção de  cereais de que se faz o pão, o nosso país está longe de ser autosuficiente. Em 1911, de acordo com as estatísticas de produção agrícola, citadas por Pedro Lains e Paulo Sousa (in Análise Social, nº33, 1998), produziram-se em Portugal 319,000 toneladas de trigo, correspondendo a 28 milhões de alqueires de 15 litros. Exatamente um século depois, em 2011, e beneficiando de mecanização, de novos fertilizantes, de eficientes pesticidas e herbicidas, do apuramento de sementes, e de  subsídios vários, a quantidade de trigo (nas variedades mole, duro e triticale)  produzida em Portugal foi de 74,000 toneladas (fonte:INE). Ou seja, produziu-se menos de um quarto do que tinha sido produzido um século antes. Simplesmente espantoso, este milagre (ou armadilha!) da globalização. Em 1911, Portugal produzia cereal para fazer o pão que comia, agora importa mais de 3/4 desse cereal.

Nenhum outro alimento como o pão está associado ao trabalho do homem para ganhar o seu sustento. O  pão ganha-se com trabalho e suor. Um país, para ser verdadeiramente independente, tem de ser capaz de se alimentar a si próprio. E se não for capaz de produzir o pão e o vinho para os seus filhos, dificilmente andará o caminho...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Gerações


Há dias, na Fnac do Chiado, aquando da apresentação do livro "O Mundo em Transição", uma jovem interpelou a mesa dizendo que a questão da transição não é uma questão nova, que o mundo sempre esteve em transição, e que a geração mais velha, a geração que se prepara para partir, acha que o mundo vai ter o mesmo destino. Afirmou que há muita coisa a fazer, muitas ideias a desenvolver, muitos espaços para ocupar, e que os jovens estão preparados para enfrentar os desafios do futuro.

Estarão, de facto, os jovens preparados para enfrentar os desafios do futuro? A verdade é que sempre estiveram, e nós não temos o direito de lhe tirar a esperança. Mas devemos fazer o que sempre os mais velhos fizeram: alertar para os perigos, apelar à sabedoria que os anos apuram, para lhes apontar alguns dos escolhos que irão encontrar pelo caminho.

Nas famílias tradicionais imperava o respeito pelos mais velhos. Os mais novos eram ensinados a venerá-los, a respeitá-los e a ouvi-los. Pedir a bênção ao pai ou ao avô era o gesto que simbolizava esse respeito. O conforto associado à idade do ouro, a escassez de filhos da classe emergente, urbana e culta (ou, diria melhor, informada), inverteu as tradicionais prioridades da escala etária. As crianças passaram a ocupar a primazia na escala familiar. São os primeiros a ser servidos, condicionam as opções dos mais velhos, reclamam, impõem, exigem...

Na sociedade consumista,  as crianças de hoje são muito diferentes dos garotos da minha infância. Não sabem o que é desejar e não ter, não precisam de lutar pelos brinquedos que anseiam, nem se deslumbram com as cores e as bolas de uma árvore de Natal. O mundo deles é a fingir, é o mundo onírico da televisão e dos desenhos animados, no qual os animais falam, e os heróis têm muitas vidas. As crianças de hoje, no mundo ocidental, já não sabem o que é descobrir um ninho de pássaro, nem sabem como se faz um carrinho com uma lata vazia de conserva. E desconhecem a  alegria de receber uma barra de chocolate. Demos-lhes tudo, mas roubámos-lhes o sonho...

Está a desaparecer a geração que ainda conheceu o mundo sem eletricidade, sem televisão, sem automóveis e sem aviões. E os mais novos nunca conheceram o mundo sem Internet e sem telemóveis. É muito difícil para um jovem imaginar o mundo de outra forma. E isso não seria preocupante se  essas conquistas  fossem irreversíveis. Mas não são. A eletricidade e a Internet já fazem parte dos genes das novas gerações. E um dia, se os vindouros estiverem confrontados com um prolongado apagão elétrico, ficarão tão desorientados como teria ficado o meu avô se tivesse perdido a visão ou tivesse ficado privado das suas mãos.

Tal como aconteceu com o Império Romano, o colapso da civilização ocidental pode ocorrer pela quebra brusca da complexidade. Se isso acontecer, o futuro pertencerá aos povos que por qualquer motivo não embarcaram no navio do progresso. Povos que estão mais atrasados, mas terão mais capacidade de sobrevivência. Os nossos jovens não são educados para a adversidade. Seria recomendável um serviço cívico obrigatório em que os jovens fossem ser obrigados a viver uns meses sem eletricidade e sem gasolina, e sem as ferramentas eletrónicas complexas do mundo de hoje. O seu futuro ficaria mais acautelado.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O Fogo do Inferno


A notícia não podia ser pior. Prestes a ser engolido pelo fogo do Inferno, é a morte anunciada do Paraíso Terrestre de onde Deus expulsou Adão e Eva e que o homo digitalis julgava ter reconquistado. O relatório divulgado a semana passada pelo painel internacional de cientistas das Nações Unidas não deixa lugar a dúvidas: o homem, quer dizer, a economia está a interferir com o equilíbrio da hidrosfera e da atmosfera. E, com esta interferência, afeta a biosfera e a vida que ela integra. Conclusão: a atividade do homem está a pôr em causa o futuro da própria espécie humana.

O painel intergovernamental para o estudo das alterações climáticas (IPCC)  formado pela Organização Meteorológica Mundial (WMO) e pelas Nações Unidas, é constituído por três grupos de trabalho. O relatório agora apresentado foi produzido pelo Grupo I  que se ocupa da análise dos apectos físicos e científicos relacionados com o clima e as suas alterações. O relatório foi elaborado por  209 cientistas de 39 países juntamente com 50 editores, e contou com a contribuição de mais 600 outros especialistas de 32 países. No primeiro semestre do próximo ano será publicado o relatório do Grupo II que analisará o impacto económico das alterações climáticas, e mais tarde, aparecerá o relatório do Gupo III que se ocupará das medidas a tomar para mitigar os efeitos dessas alterações climáticas

A grande conclusão do relatório do Grupo I é a seguinte: "O aquecimento  do sistema climatérico é inequívoco, e, desde 1950, as mudanças observadas não têm paralelo nas décadas e milénios precedentes. A atmosfera e os oceanos aqueceram, a queda de neve e a formação de gelo diminuíram, o nível do mar subiu, e as concentrações de gases de efeito de estufa aumentaram."

Não vou entrar em detalhes sobre este importante relatório. Ele pode ser consultado no site da organização. Destaco apenas outra grande conclusão que encerra uma velha discussão: "A influência do homem no sistema climático é clara. Isto resulta evidente do aumento da concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera, do aumento do seu efeito radiante, do aquecimento observado, e da compreensão do sistema climático". Durante muito tempo, a relação entre a atividade humana e as alterações climáticas foi posta em causa. Argumentava-se que as alterações climáticas sempre ocorreram no planeta, e que não havia provas de que na atualidade elas seriam uma consequência da atividade do homem.

A Sustentabilidade exige que o consumo de recursos e as emissões poluentes se adaptem à capacidade do planeta para fazer a  reposição daqueles e fazer a  absorção destas, sem comprometer equilíbrios sensíveis. A Economia, por sua vez, fundamenta-se na lei da oferta e da procura e na maximização do lucro e ignora as exigências da sustentabilidade. O sistema financeiro (os mercados), baseado no crédito, exige crescimento económico continuo para não se  desmoronar, e está ao lado da economia contra a sustentabilidade. Estes três variáveis, sustentabilidade, economia e crédito integram um sistema de equações que não tem solução, pois o que uma exige as outras rejeitam.

Economia e Sustentabilidade estão, pois, em rota de colisão. Este relatório do IPCC mostra as evidências, e antecipa os danos que a economia está a causar ao planeta; dentro de meses, um outro relatório virá dizer-nos quais os efeitos negativos que esses danos estão a causar à economia. Estamos dentro de um círculo vicioso que só terá fim quando os danos recíprocos provocados num lado e noutro (no planeta e na economia!) forem irreversíveis.E, nessa altura, já não interessará descobrir o culpado.

O tema vai continuar a discutir-se nas conferências e cimeiras mundiais mas nada será decidido, porque as decisões a favor da sustentabilidade são contra a economia, e o curto prazo desta impõe-se sobre o longo prazo daquela. Nenhum país terá capacidade para impor a outros países decisões que afetem a sua produção, que reduzam o seu crescimento económico ou que belisquem os interesses dos seus mercados. Ninguém, a não ser os românticos europeus, irá tomar decisões unilaterais que, já se sabe, outros não tomarão. A Europa vai continuar a fazer o papel de agente bem comportado, e vai insistir em, a prazo, baixar em 20% as emissões de CO2.  E os europeus ficarão espantados por ver a China (onde as poluentes centrais termicas a carvão surgem como cogumelos!) poluir em 4 meses o que a Europa deixou, esforçadamente, de poluir numa dezena de anos. E, inundados com os produtos chineses, indignados com a crise e a falta de emprego, perguntarão eles se vale a pena o sacrifício.

E, em cada nova cimeira, o planeta estará mais quente. E isto faz lembrar a história do sapo dentro da panela a aquecer no lume brando. Só tarde demais se apercebe que a água ficou demasiado quente, e já não consegue saltar para fora da panela...

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Encruzilhadas

Em 1798, o reverendo Thomas Malthus publica em Londres o seu Ensaio sobre a população e a forma como esta afeta o desenvolvimento da sociedade. A tese de Malthus baseia-se em dois simples postulados: 1) o ser humano é impulsionado a reproduzir-se ou, na forma original, é muito forte a atração ou a paixão entre sexos, e 2)  os homens precisam de comer para viver.  Destes postulados retira ele a conclusão de que o alimento precisa de ser produzido em quantidade suficiente para acompanhar o impulso reprodutivo, para o que é necessário solo arável, mas, acreditava ele, a sua disponibilidade não acompanharia a progressão populacional, facto que iria criar problemas futuros. Malthus estava longe de imaginar que, nos dois séculos seguintes, três revoluções iriam alterar radicalmente estes pressupostos: uma revolução social, outra tecnológica e outra energética.

O homem começou por caçar e recolher alimentos produzidos espontâneamente pela natureza, e fez isto durante milhões de anos. Pode dizer-se que, nesse período, havia uma economia natural. Depois, há dez mil anos, domesticou animais e plantas, sedentarizou-se e dedicou-se à agricultura. E desde então, o homem aperfeiçoou a forma de converter a energia solar em alimentos. Pois é sabido que a produção dos alimentos básicos da cadeia alimentar, resulta da transformação do CO2 em carbono diretamente nas plantas por ação do sol, ou pela incorporação de matéria orgânica  rica em carbono e azoto que é adicionada aos solos,  e isto é também uma forma diferida, mas próxima, de aproveitamento da energia solar. A utilização de animais de tração, a introdução da charrua de ferro e a melhoria das  técnicas de regadio foram alguns dos passos do longo processo de aperfeiçoamento da agricultura.

Em 1798, o mundo vivia numa encruzilhada: a economia agrícola estava no seu auge, mas o rápido  crescimento populacional que estava a duplicar a população a cada 25 anos, na Inglaterra e nos novos estados americanos, ameaçava a sua sustentabilidade.  Mas algo estava a mudar, a Revolução Francesa reivindicava  o poder para o povo. E a independência da América, em 1776, mostrou ao mundo que a nova ordem era praticável. A publicação da Riqueza das Nações de Adam Smith, nesse mesmo ano, apontava um novo sentido à economia. O carvão e a máquina a vapor, encurtavam distancias e libertavam o homem da escravatura.  A eletricidade iria produzir uma espantosa  revolução tecnológica. E os anos que se seguiram foram uma aventura que conduziu a Civilização a píncaros nunca antes sonhados.  Iniciava-se o reinado da economia industrial

Com a descoberta de importantes jazidas de carvão, petróleo e, mais tarde, gás natural, o homem foi capaz de incorporar esta energia na produção de alimentos, podendo afirmar-se como disse, muitos anos depois, Albert Bartlett que a agricultura da nova era consistiu na "transformação de petróleo em alimentos". E isto liga inexoravelmente a questão alimentar e a questão energética. Relação essa que não foi considerada por Malthus, e foi a razão principal para explicar o seu erro.  Ao contrário do que ele previa, nos duzentos  anos que decorreram desde a publicação do Ensaio, a população humana cresceu  exponencialmente, passando de mil milhões para sete mil milhões. Houve alimento suficiente, houve um conforto nunca antes imaginado, não apareceram predadores.

Hoje, tal como há 200 anos, o mundo volta a estar numa encruzilhada. Adam Smith e a concretização das suas ideias conduziram-nos à globalização. O avanço tecnológico e a crescente complexidade das redes que suportam a economia industrial, têm servido para criar a ilusão de que o homem tudo poderá fazer. E, com efeito, os limites ao crescimento foram torneados por diversas vezes. Mas o crescimento exponencial acelera o tempo, e a mente humana (cito Bartlett) tem dificuldade em entender as suas consequências.   Com efeito, nos 210 anos que decorreram entre 1800 e 2010 a taxa média anual de crescimento da população mundial foi de 0,93% , a que corresponde um  período de duplicação de 75 anos. A manter-se essa taxa, a população mundial será de 14 mil milhões em 2085. Se isso poderá acontecer ou não, é a discussão que vai pôr à prova a nossa capacidade de planear o futuro e sair da encruzilhada.

A economia industrial enfrenta fortes condicionantes. A escassez de recursos e a poluição mostram limites aos quais nos aproximamos velozmente. Foi Hubert King que pela primeira vez, em 1953, alertou para a finitude dos recursos fósseis. Em 1972, o estudo do Clube Roma, Limites ao Crescimento,  foi outro  alerta, sério e fundamentado. Em 2000, Colin Campbell e Jean Laherrère falam do pico de petróleo e das suas consequências. As alterações climáticas, resultantes dos gases com efeito de estufa, ameaçam alterar os frágeis equilíbrios da atmosfera e do mar.  As lições da crise atual demonstraram a fragilidade da economia e  do sistema financeiro baseado no crédito, e dependente do contínuo crescimento económico.

E não descortinamos o  que vem a seguir.. Mas começa a instalar-se a ideia de que esta economia não tem futuro e  necessitamos de uma nova economia. Uma economia que respeite os limites do planeta, que seja sustentável. Uma tal nova economia vai voltar a defrontar-se com o problema do crescimento da população. Num ambiente favorável, com alimento e sem predadores, a população de uma espécie geneticamente saudável cresce de forma exponencial. Mas a população humana não pode crescer dessa forma e tem de ser estabilizada. É verdade que as novas formas de controlo da natalidade muito eficientes e desculpabilizantes vieram alterar os pressupostos de Malthus, pois a força da paixão de que ele falava deixou de ser sinónimo de reprodução. Uma política de controlo  populacional tem de ser implementada a nivel mundial, e isso vai traz muitos problemas de ordem social, de ordem económica, de ordem moral. Mas resolvê-los é o desafio que temos pela frente. 

Passar da economia industrial para uma nova economia  é um processo de transição que sabemos necessário mas que ainda desconhecemos a forma como será feito e qual o caminho que terá de ser seguido. Apenas sabemos que a nova ordem tem de ser diferente da atual, e que tem de viabilizar a prosperidade da espécie.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A Síria

Não é certamente por causa do gás sarin que os Estados Unidos se preparam para golpear a Síria e o seu exército. Após a postulação da doutrina Carter, na sequência da invasão do Afeganistão pela União Soviética em janeiro de 1980, o Médio Oriente (pela importância das suas reservas energéticas) passou a ser a fronteira do império americano. E a Síria é uma peça chave nessa região pois ali convergem importantes interesses estratégicos. Faz fronteira com Israel e com o Iraque, tem uma boa relação com a Rússia, país que por sua vez tem fortes interesses na Síria que é a sua única porta de entrada no Mediterrâneo. O pipeline que irá trazer o gás natural do golfo Pérsico para a Europa vai ter de passar pela Síria. O regime de Assad tem ligações ao Hezbollah que é um inimigo declarado de Israel. E o Irão (o principal inimigo a abater!) sai reforçado com Assad no poder. Para os americanos, que têm a capacidade e a vontade de atacar, o pretexto e a oportunidade de o fazer dificilmente serão desperdiçados. 

Quando, em setembro de 2009, eu e a minha mulher visitámos a  Síria, no fim  do ramadão, estava longe de imaginar a tragédia que se iria abater sobre um país que se nos revelou pacífico e acolhedor. No dia seguinte ao da nossa chegada a Damasco, passeámos tranquilamente pelas ruas à volta do Hotel Fardoss, na parte central de cidade. Comprámos bolachas, água, algumas lembranças, levantámos dinheiro no multibanco. Foi o primeiro contacto com o Oriente, muito comércio, muita gente na ruas, afinal uma cidade limpa, arrumada, que nada fica a dever a muitas cidades europeias.

A Síria de hoje ocupa parte de um território que foi o berço da nossa civilização. Foi nessa região que se cultivaram os primeiros cereais, que se domesticaram os primeiros animais e que floresceram as primeiras aglomerações de agricultores sedentários, que se ergueram as primeiras cidades. Ali confluíram povos de várias etnias,  fenícios, hebreus, amoritas, cananeus, assírios, arameus e hicsos, e ainda hoje convivem ao lado dos árabes, curdos, arménios, turcos, alauitas  e cristãos.

Em 64 AC, os romanos ocuparam a Síria que se transformou numa província do Império. Dessa presença restam impressionantes monumentos e cidades hoje dispersas por toda a região incluindo o Líbano, a  Jordania e Israel. Palmyra, uma joia no deserto, ficava  na rota das caravanas que traziam para o Mediterrâneo os produtos do Oriente. Nessa época, os cristãos criaram uma forte presença na Síria que ainda se mantém. São Paulo converteu-se ao cristianismo na estrada de Jerusalém para Damasco, cidade onde foi batizado por S. Ananias. Maloula,  a norte de Damasco, onde eu ouvi o Pai-Nosso recitado na língua de Jesus (o aramaico), é a terra de Santa Tecla e dos Santos Sérgio e Baco.

Os árabes, em 640 DC, conquistam a península Arábica  onde reinaram várias dinastias. Na Idade Média, depois do concílio de Clermont, o papa Urbano II prega as cruzadas pedindo aos cristãos para libertarem, a troco de indulgências, os lugares santos da influência do Islão. Os cruzados, populares e cavaleiros, marcham para leste, e conquistam Jerusalém. Erguem-se castelos, fundam-se éfemeros reinos cristãos (Antióquia, Acre, Jerusalém).  Ainda hoje o imponente castelo medieval de Krac-les-Chevaliers que se ergue numa colina próximo de Homs, na Síria, evoca esse tempo.

A partir do século XV, e após a queda de Constantinopla em 1453, toda esta vasta região passou a  integrar o império otomano. No final da primeira guerra mundial, com a derrota da Sublime Porta, a península Arábica (já cobiçada por ser uma importante área petrolífera)  foi repartida, num tratado secreto, entre ingleses e franceses. A linha reta divisória traçada no mapa anexo ao tratado, ainda hoje marca  a linha de fronteira  entre a Síria, que foi atribuída à França e o Iraque que foi atribuído à Inglaterra. E foi nessa altura que, por influência do movimento sionista, se decidiu a criação de um estado judaico na Palestina.

Em 1946, com uma população de 3 milhões de pessoas, a Síria declara a independência e torna-se um república parlamentar.  Após uma tentativa falhada de criação de uma união como Egito que vigorou entre 1958 e 1961, o poder é assumido, em 1971, pela família Assad (primeiro Hafez al-Assad depois, em 2000, Bashar al-Assad), do partido ba'ath. Hoje a população do país ascende aos vinte e três milhões de pessoas, e os efeitos dessa explosão demográfica, à semelhança do que se passa no Egito, levantam sérios problemas. A história recente, amplamente coberta pelos media, é sobejamente conhecida: as guerras com Israel, a ocupação dos montes Golan,  a primavera árabe, os rebeldes,  a  guerra civil, os refugiados, as armas químicas...
 
O fator energético é uma outra importante variável  com influência  nas causas da  guerra civil e na decisão americana de atacar a Síria. A Síria não é um grande produtor de petróleo nem de gás natural mas está prevista a construção de um importante gasoduto a passar pela Síria para transportar o gás natural proveniente das imensas reservas (as maiores do mundo!)  do Qatar e do Irão. Este gás  é essencial para a Europa, pois espera-se poder ser canalizado para o gasoduto Nabucco que a CE planeia construir para a Turquia, e, desta forma, reduzir a sua dependência da Gazprom. Ora, a Síria favorece os interesses da Rússia e do Irão e recusou o projeto de gasoduto apoiado pelo Qatar e pela Arábia Saudita. Países estes que, por sua vez, passaram a apoiar financeiramente os rebeldes. 

Obama já convocou a nova cruzada contra os Sírios e contra Assad. Entretanto a Europa hesita entre a fidelidade ao amigo americano e a avaliação que faz do risco do ataque. A Rússia está atenta aos seus interesses, e Putin não ficará de braços cruzados perante um ataque americano. A Turquia, país da Nato, a braços com milhares de refugiados, apoia o ataque pensando no problema curdo e na sua adesão à União europeia.  O silêncio da China  (quebrado a semana passada com um discreto aviso sobre as consequências económicas de um ataque americano)  é perturbador mas é revelador de que algo não está a ir ao encontro dos seus interesses.

 A América tem o poder de atacar e, neste momento, nenhum país ou força lhe pode fazer frente no plano militar. Nestas condições, a história mostra que os lobbies do armamento dificilmente serão contrariados, e o ataque vai ter lugar. Como tudo acabará é a grande incógnita. As mentes mais avisadas e mais sensatas temem que a Síria, que foi berço de uma civilização, possa vir a ser o cemitério dessa mesma civilização.