segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O Quarto Sector

A economia mundial está a entrar numa nova fase, a hiperglobalização, que se carateriza pela uniformização dos gostos e dos consumos (tanto de bens físicos como culturais), pela digitalização da informação gráfica e escrita, pela interdependência das economias, pela interatividade da comunicação possibilitada pela internet. A capacidade de armazenar e processar grandes volumes de informação (big data), de manipular os genes dos seres vivos e interferir com a própria identidade das espécies, são outras caraterísticas desta nova fase. São transformações que estão a originar novos negócios, a estabelecer novas atividades, a criar novas profissões. Surgem  poderosas empresas de um novo tipo,  a inteligência passou a ser um produto comercial. Aos poucos, na nova economia, começa a definir-se e a ganhar peso um novo sector de atividade que poderemos designar de quaternário ou de quarto sector

 Tradicionalmente, as atividades económicas repartem-se por três sectores: primário que abrange a agricultura, silvicultura, pecuária, pescas e exploração mineira; secundário que inclui as indústrias transformadoras, a construção  a produção de energia; terciário que integra o comércio e os serviços. Em Portugal, o sector primário tem vindo a perder importância. Segundo dados do INE (Estatísticas do Emprego), em 1974, 35% da população ativa trabalhava no sector primário e em 2012 essa percentagem baixou para 10%. A importância do sector secundário, por sua vez, passou de 34% para 26%. Houve uma grande transferência de emprego para o sector terciário que ocupava 31%  da população ativa em 1974, e que emprega hoje 64% dessa mesma população.

No início do século XX, o sector terciário era incipiente. O aumento gradual da sua importância foi um reflexo das transformações ocorridas durante a era do carbono. Sempre que o homem conseguiu melhorar a forma de produzir mais alimentos, isso permitiu libertar pessoas para outras atividades. O mesmo  aconteceu na revolução agrícola que conduziu à sedentarização. Voltou a acontecer com a introdução de novas técnicas de regadio, com a utilização da charrua de ferro, com o recurso ao trabalho dos animais. Mas foi com a revolução industrial, resultante da máquina a vapor e do carvão, que se iniciou uma profunda alteração na organização social. A mecanização da agricultura e o uso de fertilizantes e de pesticidas deu origem à revolução verde,  que libertou pessoas das tarefas agrícolas, muitas  das quais foram absorvidas pelas fábricas.

Ao mesmo tempo, a eletricidade libertava a mulher das tarefas domésticas. Durante muito tempo, a máquina e a energia substituiram os músculos dos trabalhadores, e, mais recentemente, a robotização já lhes substitui os neurónios. A linha de montagem que era assistida por operários passou a ser automática. Nas fábricas modernas, o trabalho humano, reduzido à sua expressão mais simples, limita-se a vigiar a correta normalidade dos processos. O comércio e os serviços absorveram uma boa parte da mão de obra libertada pela automatização e pelo aumento da eficácia da indústria.

Mas o automatismo está a chegar aos serviços. Os transportes dispensam revisores e cobradores e até condutores. Os serviços financeiros, o comércio, o turismo, a hotelaria, estão também a libertar mão de obra.  A era digital está a eliminar muitas funções das indústrias gráficas e das comunicações. Isto está a criar um enorme paradoxo: a população mundial aumenta, mas o emprego diminui, pois  as necessidades de pessoas para trabalhar são agora menores. Será que o quarto sector vai absorver os excedentes de mão de obra que são o resultado destas transformações?

Na minha opinião, a hiperglobalização enfrentará graves problemas. Não criará empregos suficientes para compensar os que destrói; está na perigosa e arriscada dependência da complexidade; varre para debaixo do tapete os graves problemas da escassez de recursos e da poluição. Não promove igualdades. Não resolve os problemas sociais.  Na verdade, a hiperglobalização irá acentuar as dissonâncias entre  a natureza e a economia. Os recursos continuarão a consumir-se de forma irracional, o planeta continuará a aquecer, as abelhas continuarão a morrer, a biodiversidade vai reduzir-se. No plano social, as grandes contradições não serão resolvidas: alguns ricos ficarão mais ricos, e muitos pobres ficarão ainda mais pobres. O desemprego crescente alimentará uma onda imparável de indignação. E os políticos, obcecados com o crescimento, só acordarão quando a casa comum já estiver a arder.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O Futuro das Cidades


Nas antevisões que fazemos do futuro, temos tendência a valorizar mais o lado bom das coisas e a deixar de lado os aspetos negativos. Foi assim que os nossos avós imaginavam o século XXI: com paz, harmonia social, curas milagrosas e bem estar generalizado. Por isso quando pensamos no futuro das cidades somos levados a imaginar as cidades do futuro. E imaginamos espaços mais verdes e limpos, mais funcionais, mais seguros, mais feitos à medida do homem. Penso que foi esse o sonho de Oscar Niemeyer ao projetar Brasília. Mas as cidades que as novas gerações irão habitar já existem hoje com os seus problemas e com  as suas distorções. Cidades que não foram feitas à medida do homem mas sim à medida do automóvel. Que são o produto duma civilização que se globalizou e que cresceu desmesuradamente.

Em 1950, mais de 70% da população mundial vivia em habitats rurais; em 2050 haverá uma inversão, e essa percentagem reduzir-se-á a 30%. Por outras palavras, a população urbana do planeta era, em 1950,  de menos de mil milhões de pessoas; em 2050 esse valor será superior a seis mil milhões. A urbanização acelerada foi o resultado de um processo que tem a ver com as grandes transformações ocorridas no pós guerra. Ela é uma consequência direta da revolução industrial, mas está relacionada com  a disponibilidade energética proporcionada pela Era do Carbono. Na verdade, o automóvel que criou os subúrbios e o elevador que criou o arranha céus  são os dois principais fatores responsáveis pela urbanização. E atrás deles está, num caso, o petróleo e, no outro, a eletricidade. Ou seja, energia abundante e barata.

 Países emergentes como a China viram, na última década, a sua população urbana crescer desmesuradamente. E o fenómeno das migrações do campo para as cidades continua.  Uma das causas que lhe deram origem foi a  revolução verde que permitiu elevadas produtividades agrícolas como resultado da mecanização e do uso de fertilizantes, e criou  mão de obra excedentária no  espaço rural. E a revolução verde foi, ela própria, resultado da evolução tecnológica, mas, sobretudo, da energia barata.

O tecido urbano das modernas cidades é, hoje, muito diferenciado: mantém-se o velho centro histórico rodeado de uma zona envolvente de serviços e, mais afastados, os subúrbios ou dormitórios. Algumas cidades atingiram dimensão crítica, e podem enfrentar problemas de gestão das redes através das quais fluem os  recursos de que necessitam (alimentos, água, energia)  e os desperdícios que produzem (lixo, esgotos). Por outro lado, o comércio das modernas cidades desenvolveu-se em grandes superfícies centrado no automóvel e que contribuíram para ajudar a desertificar os velhos centros tradicionais e históricos dessas cidades.

Mas o ciclo de crescimento urbano parece estar a terminar. São várias as razões para isso acontecer: a estabilização  da capitação energética, o fim do crescimento económico, o fim da revolução verde, o acréscimo populacional, o desemprego, enfim a crise económica. E as grandes cidades, numa economia em recessão, poderão enfrentar enormes problemas. Cenários de carências, de degradação e de insegurança podem ser a consequência.

Mais importante do idealizar a cidade do futuro, é pensar - e urgentemente - no futuro das nossas cidades. Esse futuro só em parte está nas nossas mãos. As pressões que afetam a economia que são responsáveis pela presente crise económica, vão deixar-nos pouco tempo para divagações arquitetónicas sobre o novo urbanismo. Penso que é altura de nos centrarmos no plano dos princípios: queremos cidades mais à medida dos homens, com mais sustentabilidade, com mais espírito comunitário, menos dependentes do automóvel e com um florescente comércio de proximidade. Afinal, são estes os princípios da Transição.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Alturas do Barroso

Não me temo de Castela, 
Donde inda guerra não soa,
Mas temo-me de Lisboa 
Que, ao cheiro desta canela, 
O Reino nos despovoa
 (Sá de Miranda in "Carta a António Pereira"- Senhor de Basto)

Num dos últimos fins de semana, por motivo de uma ação de formação do programa Nepso da Fundação Vox Populi, fiz, com a minha mulher, uma incursão por terras nortenhas de Basto e do Barroso. Foi o prazer de descobrir um Portugal que não conhecia, montanhoso, agreste, rude, austero e trabalhador. É nessa região que ainda se encontram dos genes mais autênticos da raça portuguesa. Mas que, à semelhança do velho Portugal rural, está em vias de desaparecer.

No domingo, em Arco de Baúlhe (Cabeceiras de Basto), na capela da Faia, assistimos à Missa. Eu sou um agnóstico, tenho em relação a Deus uma posição descomprometida e expectante, como quem espera uma revelação que lhe demonstre a sua existência. Mas não sou ateu, nem antirreligioso. Confesso que me sinto bem dentro de uma igreja. A porta está aberta, não me perguntam nada à entrada, o espaço é amplo e pacífico, o ambiente é de respeito. Gosto de ouvir as leituras da Bíblia, e procuro descodificá-las e perceber o seu significado. Muitas vezes, ao ouvi-las, interrogo-me sobre os meandros do pensamento judeu que lhes está subjacente, e que, cruzado com o pensamento grego, formatou o cristianismo e a Civilização Ocidental. Na missa, e no silêncio de algumas igrejas, aproveito, muitas vezes, para me encontrar comigo mesmo!

Na capela da Faia, o padre era assertivo. Na homilia, desceu à coxia para ficar mais perto dos fiéis e, assim, ser mais convincente na prédica, feita com vozeirão grosso e gestos rasgados. Falou da fé, mas o tema recorrente destas práticas é o bem e o mal, a morte e a promessa de vida para lá dela. Na Igreja, eram quase só velhos, havia alguns jovens, e quase não se viam crianças. Estava ao meu lado uma mulher de meia idade, com um xaile de cor verde azeitona às flores e com  arrecadas de ouro penduradas nas orelhas. O rosto era firme e anguloso. Lembrou-me a D. Aldina, uma transmontana que conheci na minha adolescência, na Guarda, quando vinha com o marido mercadejar na cidade, e pernoitava na pensão que o meu pai explorava. No fim da missa, no abraço da paz, cumprimentei aquela mulher que estava ao meu lado. Não levantou a cabeça, estendeu-me a mão  e eu senti, na aspereza daquele aperto, a dureza do que seria o seu trabalho na cozinha, na casa e na faina do campo.

Nessa tarde, como que a propósito, a Alice, a amiga que nos recebeu em Carvalho (aldeia do concelho de Boticas), recitou, como só ela o sabe fazer, o poema Calçada de Carriche do poeta António Gedeão: Luísa sobe, sobe que sobe, sobe a calçada...  E contou que certa vez o tinha declamado, publicamente, em Boticas. E que uma mulher do campo, no final, se tinha aproximado dela e sussurrado: É mesmo assim, menina! (é mesmo axim, na entoação dela ). E eu lembrei-me das mãos que me tinham cumprimentado na Capela da Faia.

Depois de conhecermos Boticas, o Moisés e a Alice levaram-nos a visitar as aldeias de Alturas do Barroso e  de Vilarinho Seco. Ainda pude ver uma aldeã vestindo a tradicional capucha de burel e, ao longo da estrada, uma manada de vacas barrosãs, pachorrentas e de longos chifres. Em Vilarinho Seco, procurámos o Pedro e a Ana que exploram um restaurante, numa casa bem transmontana: sólida, fria e farta. Recebeu-nos a Ana, corpo marcado pelos anos, denunciando esforços a manusear panelões de sopa e de cozido, confecionados em lumes grossos e servidos em largas mesas de carvalho e de castanho. Mas esta senhora, mãe de três filhos que os estudos no Porto já roubaram irreversivelmente ao Barroso rural, é uma pessoa muito alegre e jovial. No álbum de fotografias da Alice, constatei que Ana já tinha sido  menina e tinha casado de branco.

Nessa noite, fomos dormir ao centenário Palace de Vidago, inaugurado em 1910.  Foi reinaugurado por José Sócrates, em 2010, depois de renovado com um projeto de Siza Vieira e um investimento de sessenta milhões de Euros, oriundos de fundos da CE.  Este Hotel de 5 estrelas, com 70 quartos, campo de golfe e balneário requintado (um spa), orientado para um turismo termal, golfe e congressos,  é, na sua aparência e no seu significado, o oposto do Barroso. Emprega 120 pessoas, mas a sua viabilidade é duvidosa...Foi um projeto PIN, construído na euforia do betão, no tempo de Manuel Pinho. Em 2012, Pires de Lima, o então presidente da Unicer, a proprietária do hotel, falava, num tom lamentoso,  de uma taxa de ocupação de 40 a 45% e de prejuízos anuais de 4,5 milhões de Euros.  Entretanto, um outro projeto megalómano de 120 quartos para Pedras Salgadas já foi abandonado.

O Basto e o Barroso estão despovoados, e estes projetos da Globalização não respondem à urgente necessidade de os repovoar. Mas os tempos estão a mudar muito depressa, e tudo pode acontecer!

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Fracking


O petróleo é o principal motor da economia global. Isso tornou-se particularmente claro em 1980 no período que ficou conhecido como o segundo choque petrolífero (o primeiro tinha ocorrido em 1973), quando, na sequência da guerra Irão-Iraque, os preços do crude dispararam e a economia mundial entrou em recessão. No anos que se seguiram, a estratégia política e económica  dos países desenvolvidos centrou-se na segurança e na defesa das fontes de energia. Os países da OCDE criaram a Agência Internacional de Energia, sediada em Paris, para enfrentar futuras situações de crise. Iniciou-se um vasto programa de construção de centrais nucleares, desenvolveram-se novas bacias petrolíferas nomeadamente no mar do Norte, no Alaska e no Golfo do México. Com a doutrina Carter, foi revista e redefinida a  estratégia militar dos Estados Unidos que elegeram o Médio Oriente como a principal zona a defender.  Com a retração da economia, verificou-se uma queda no consumo de petróleo, e, como consequência disso, a partir de meados da década de 80, os preços voltaram a cair. 

A queda dos preços fez com que o consumo e  a produção de crude aumentassem de novo. Entretanto, verificou-se um ressurgimento do gás natural como alternativa ao petróleo nas centrais termoelétricas. Tudo isto conjugado fez com que, durante toda a década de 90, voltasse a haver abundância energética, a baixo preço.  As economias cresceram. O aumento da frota automóvel e a rápida industrialização dos países emergentes (sobretudo a Índia e a China) fizeram crescer o consumo de petróleo. Entre 1985 e 2005 o consumo de energia fóssil, a nível mundial, duplicou.  Desde 1985 até aos nossos dias esse  consumo  representou 50% de toda a que já foi consumida pela humanidade. Este período de ressurgimento teve um efeito no aumento do crédito, fez crescer a dívida de muitos países, impulsionou investimentos em obras públicas, e fez disparar o preço das casas. E teve o seu epílogo na crise de 2008.

Com efeito, a partir de 2005, começou a sentir-se de novo escassez de petróleo.  A produção do chamado petróleo convencional, aquele que é extraído nas jazidas tradicionais a baixo custo, estagnou. Ressurgiu a produção da Rússia, depois dos problemas associados à crise de desmembramento da União Soviética, mas tal  não conseguiu compensar as quebras na Indonésia, no golfo do México, no mar do Norte e no Alaska.  Depois dos acidentes de Chernobil e Three Mile Island, e devido à escassez de urânio, a via nuclear começou a ser encarada com muitas reservas . Os países produtores de petróleo (México, a Venezuela, o Irão, a Arábia Saudita), conscientes do seu poder, criaram as suas próprias empresas petrolíferas.

Para responder à escassez, a busca de alternativas energéticas desenvolveu-se em três direções: a produção de  biocombustíveis, o desenvolvimento das energias renováveis  (hídricas e não hídricas) e o recurso  a formas não convencionais de produção de petróleo. Neste último caso, falamos da extração a partir da conversão em líquido do gás e do carvão, das areias betuminosas do Canadá, das lamas da Venezuela, das jazidas de águas profundas (Angola, Golfo do Mexico, Brasil),  e,  mais recentemente, dos depósitos de gás e de petróleo associados às rochas de xisto (EUA).

Muita da esperança de contrariar a previsível escassez de crude, tem-se desenvolvido à volta das jazidas associadas às rochas de xisto. Trata-se de uma técnica conhecida há mais de 50 anos e que nos últimos anos, devido ao elevado preço do crude, teve um desenvolvimento extraordinário nos Estados Unidos, e que está já a ser testada em muito outros países. O petróleo e o gás são extraídos pela técnica da fraturação hidráulica, conhecida por fracking.  As perfurações são feitas na vertical até encontrar as camadas de xisto impregnadas de gás e  de petróleo. A uma profundidade que pode ultrapassar os mil metros, a perfuração passa a ser horizontal para acompanhar as camadas sedimentares. Devido à  fraca porosidade das rochas xistosas, os hidrocarbonetos não fluem naturalmente. Para os libertar, injeta-se, a grande pressão, uma mistura de água com outros produtos químicos, e isto provoca a fraturação da rocha.

Estes furos exigem um considerável investimento estimado em cerca de cinco vezes o dos furos tradicionais, e têm um tempo de vida útil de extração que é de cerca de metade daqueles. Por estes motivos, esta tecnologia só é viável com preços do barril de crude acima dos 70 dólares. O retorno energético do fracking é muito baixo: fala-se de que, por este processo, com a energia de um barril de petróleo se extraem entre 3 a 5 barris.  Nas jazidas da Arábia Saudita esse valor pode chegar a ser de 1 para 100.

Admite-se de que, nos Estados Unidos, a produção com esta técnica pode aumentar gradualmente até 2020 podendo chegar a 4-5 milhões de barris por dia (cerca de 5% da produção mundial),  e a partir dessa data comece a diminuir. A tecnologia do fracking surge como um  Eldorado que vem trazer um novo alento à economia global. Reestabelece uma expetativa de crescimento e criação de emprego que se estava a perder. Contudo, existem graves riscos ambientais associados a esta tecnologia como sejam a  poluição do aquíferos e do ar provocado pelos químicos utilizados e pela libertação de metano, a destruição de solos, e até a possibilidade de ocorrência de sismos.

Na minha opinião, o maior perigo é que se crie a ilusão de que esta fonte é inesgotável, e de que ela venha a resolver os problemas da escassez de petróleo. A solução fracking insiste nos combustíveis fosseis, ou seja, mais do mesmo, e os problemas ambientais e alterações climáticas vão agravar-se. O retorno energético (EROEI) vai baixar, e pode ficar abaixo do ponto crítico necessário para, no longo prazo, a justificar. O esforço para o desenvolvimento das energias a partir de fontes  renováveis vai afrouxar, a globalização vai acreditar que tem uma nova oportunidade e que a Transição pode esperar.  É importante extrair as lições do passado, evitar as armadilhas do crescimento contínuo, e aproveitar o balão de oxigénio do milagre do xisto para preparar o futuro...O pico de petróleo pode ter sido adiado por mais uma ou duas dezenas de anos, mas no essencial nenhum dos seus pressupostos está alterado. E para os ambientalistas que se preocupam com as alterações climáticas, o fracking não é uma boa notícia.


segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Dédalo e Ícaro


Icare, ubi es? Icaro, onde estás?
Ovídio, Metamorfoses

Segundo uma lenda da mitologia grega, Dédalo estava prisioneiro numa ilha juntamente com o seu filho, o jovem Ícaro.  Minos, o Rei de Creta, fechou-lhe todas as saídas por mar, e Dédalo achando  que a única fuga possível seria pelo ar, decidiu construir dois pares de asas. Fê-lo com penas de gaivota, que foi tecendo com fio e colando com cera de abelhas.

Conseguido o seu intento, experimentou as asas com sucesso, e ensinou o seu filho a voar. Deu-lhe os seguintes conselhos: não voes demasiado alto, pois o calor do Sol pode derreter a cera, nem voes demasiado baixo sobre a espuma do mar, pois a água pode encharcar e tornar pesadas as penas das tuas asas. Não te afastes, mantém-te próximo de mim, e faz como eu fizer!  Aproveita o vento e deixa-te conduzir por ele. E, batendo fortemente as asas, disse ao filho para o seguir.

Seguindo o exemplo do pai, o jovem Ícaro elevou-se no ar, e quanto mais subia mais amplo se desenhava o horizonte. As ilhas (Samos e Naxos, Paros e Délos, de um lado, Lebintos e Calimne do outro) perfilavam-se contra o azul escuro do mar, e, lá longe, os recortes das montanhas anunciavam os continentes sem fim. Mais um golpe de asa e o mundo todo estaria no seu horizonte. O Sol e o azul profundo do Céu convidavam ao alongamento do voo, e este apelo parecia prometer a Ícaro os dons de Apolo e de Zeus.

Quando o calor do sol afrouxou a cera que unia as penas das asas, Ícaro, de repente, sentiu-se desapoiado, rodopiou, e começou a cair. Sentia o vento a pressionar-lhe o ventre, os pulmões recusavam-se a inalar o ar soprante. Ainda conseguiu arrancar do mais fundo de si mesmo um grito desesperado e lancinante: Pai, Pai  ajuda-me, estou a cair!  Dédalo, que já tinha chegado ao seu destino e procurava ansiosamente o filho, ouviu este chamamento que se repetia num eco suplicante, como que vindo de todas as direções, de baixo, de cima, do oriente e do ocidente, do norte e do sul. Sentiu um arrepio, e gritou com todas as suas forças: Ícaro, meu filho, onde estás? Diz-me em que sítio te devo procurar. O silêncio foi a resposta. Mais tarde, Dédalo encontrou, flutuando, as asas desfeitas e o corpo do filho amado que chorou e enterrou numa ilha que viria a chamar-se Icária.

Apesar da diferença formal que opõe o espírito estético e antropocêntrico dos gregos ao espírito moralista e teocêntrico dos judeus, encontro nesta lenda uma certa semelhança com a parábola do filho pródigo. Em ambas, o filho, inexperiente e ambicioso, ignora os conselhos e desbarata a dádiva do pai. E em ambas, o pai recebe o filho (vivo num caso, morto no outro) sem reprimenda e sem lamento. O herói mitológico é Dédalo, e não Ícaro.

As lendas da mitologia grega encerram ensinamentos profundos. A lenda de Dédalo e Ícaro mostra a irreverência da juventude, os riscos da inexperiência, e o perigos da ambição desmesurada. Viver na altura certa, nem demasiado baixo, nem demasiado alto, e aprender com o exemplo dos mais velhos, são  princípios eternos da sabedoria humana.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O bosão de Higgs

Um amigo meu perguntou-me, há dias, se após a descoberta do bosão de Higgs ainda precisamos de Deus para explicar a criação do Mundo. O bosão de Higgs é uma partícula subatómica conhecida pela partícula de Deus. Por ser altamente instável e desprovida de spin e de carga elétrica, teimava em escapar aos detetores que analisam a desintegração dos núcleos quando bombardeados por protões nos aceleradores eletromagnéticos do CERN (Conselho Europeu de Pesquisa Nuclear, na Suiça). Finalmente foi detetado, e isso veio contribuir para confirmar algumas teorias  relacionadas com a estrutura do núcleo do átomos.

No tempo em que eu estudei Física na Universidade, a estrutura do átomo  ainda era descrita na forma simples de um núcleo a volta do qual giravam eletrões, em órbitas bem definidas, à semelhança de um sistema solar em miniatuira. As dimensões do átomo eram desconcertantes pois mostravam que, dentro deles, predominava o espaço vazio. Imaginem, por simples comparação a uma escala humana, que o núcleo tem o tamanho de uma laranja, e os eletrões giram em órbitas com  vários quilómetros de raio!

Julgava eu que a questão estava arrumada. O modelo parecia definitivo e extraordinário. A última camada eletrónicas à volta do núcleo tinha um númeo de eletrões entre 1 e 8 e isso explicava a formação dos iões e dos compostos químicos. Por exemplo, todos os elementos com um eletrão na última camada são quimicamente parecidos entre si. Assim se construiu a elegante a tabela de Mendeleev, onde se arrumavam e explicavam as propriedades de  todos os elementos da natureza. 

Mas, nos últimos 50 anos, aprofundou-se o estudo do átomo e começou-se a desvendar  a natureza das suas partículas subatómicas. O eletrão passou a ser visto como tendo um natureza mista de onda e partícula e as suas propriedades eram melhor explicadas pelas leis de distribuição estatística do que pela física absolutista de Newton. A mecânica clássica dava lugar à mecânica quântica. A Física das coisas e das certezas dava lugar à Física dos conceitos e das probabilidades.

O núcleo do átomo, onde se concentrava a sua massa e onde as suas componentes (o protão e o neutrão) estavam fortemente unidos, revelou-se uma caixa de surpresas. Decompor as partículas do núcleo em outras componentes elementares vinha resolver alguns problemas e consolidar uma teoria explicativa que ficou conhecida pelo modelo padrão. Primeiro surgiram os quarks, aos quais se associaram novas e estranhas propriedades como o spin. Depois os leptões, os fotões, os bosões e os fermiões, alguns deles servindo para explicar as forças de atração entre partículas nucleares.

O bosão de Higgs é uma peça que faltava no puzzle que os cientistas tentam montar para perceber  natureza última da matéria. Ele vem explicar a massa de certas partículas. Mas o puzzle continua incompleto. Procura-se agora uma outra partícula, que já tem nome, o gravitão, um fermião  que se julga responsavel pela força da gravidade, essa força misteriosa que faz com que dois corpos afastados e isolados um do outro se atraiam mutuamente.  Ainda ninguém conseguiu explicar a misteriosa gravidade. É como se entre dois corpos materiais existisse uma invisivel "paixão" que os impele um para o outro. E, quando o átomo estiver explicado, já teremos percebido 5% do Universo! A seguir, será altura dos cientistas partirem  à procura da matéria negra que ajudará a explicar mais uma parte dos restantes 95%.

Ao meu amigo que me colocou a intrigante pergunta sobre se Deus ainda é necessário para explicar a criação do Mundo, eu sugeri-lhe que contasse as estrelas do Céu que são mais do que os grãos de areia da Terra, ou que contasse os átomos de carbono dum ponto, deixado impresso pela grafite de um lápis afiado, numa folha de papel, e que são mais que pessoas existentes à face do nosso planeta! Quando terminasse a contagem, eu responderia à sua pergunta, caso ele ainda precisasse da resposta.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Lampedusa

Lampedusa é uma fissura aberta na muralha da (ainda) tranquila fortaleza europeia que ameaça transformar-se numa brecha de grandes proporções. De um lado e de outro do Mediterrâneo perfilam-se dois povos e duas realidades bem distintas. Os europeus anémicos, endividados, indignados com uma insidiosa crise económica para resolver,  estão confrontados com os filhos de uma nova África, islâmica, jovem, depauperada e a rebentar pelas costuras.

Como que atraídos por irresistíveis cantos de sereias, do lado africano, chegam às praias do Mare Nostrum milhares de homens, mulheres e crianças, famélicos, sem terra, sem pão, e sem outros haveres para lá da escassa roupa que lhes cobre o corpo. Vêm da Líbia, da Tunísia, da Etiópia, da Eritreia, da Somália e da Síria, atravessam desertos, cruzam fronteiras. Entregaram o pouco que tinham a passadores e engajadores que lhes prometeram o paraíso do outro lado do mar! Nada os detém: não temem o mar, nem as autoridades, nem as grades de qualquer prisão. A  esperança de chegar à outra margem sobrepõe-se a tudo, e desvaloriza os riscos de sucumbirem na caminhada, de naufragarem no mar revolto ou de serem devolvidos à procedência.

Embarcam amontoados em frágeis e inseguras embarcações, lembrando a forma como viajavam os seus irmãos nos barcos  negreiros que, a partir do século XVI e até ao século XIX, partiam do Senegal e do Golfo da Guiné e demandavam a América, as Caraíbas ou o Brasil, destinados  ao trabalho escravo nas fazendas de algodão ou nos engenhos de açúcar. A grande diferença é que agora não vão forçados, nem vão acorrentados. Vão de sua livre vontade, e  nem sequer olham para trás. A sua única esperança está no almejado destino.

A história tem demonstrado que se houver gente a mais num espaço e gente a menos noutro que lhe seja acessível, se estabelecerá um fluxo demográfico entre esses espaços que funcionará como um sistema de vasos comunicantes. Foi assim que os Europeus inundaram a terra dos Índios, nas Américas. E o mesmo se verifica em muitas outras zonas do globo, como  na fronteira do México com os EUA, na fronteira da Índia com o Bangladesh e nas fronteiras entre Israel com os territórios ocupados da Palestina, onde existem fortes pressões demográficas.

A tensão entre as duas margens do Mediterrâneo não vai reduzir-se, antes pelo contrário, vai acumular-se. Para isso contribui a natalidade elevada, a fome e a escassez de recursos do lado sul e  a baixa natalidade, o comodismo, a apatia do lado norte.  Mas existem outros fatores. A humanidade já não se divide em raças, nem os continentes lhes estão reservados. Está a emergir, na nova África que nos anos sessenta ascendeu à independência,  uma classe intelectual, culta e  informada que não terá dificuldade em demonstrar e defender o direito moral dos africanos invadirem a Europa. Os assobios a Durão Barroso em Lampedusa são um sinal. E até o papa Francisco já reconheceu esse direito ao classificar de vergonha o que se passa em Lampedusa, e ao criticar a “indiferença para com os que fogem da escravatura e da fome, para encontrar a liberdade".

Lampedusa vai mexer com a Europa.  O dique que é a fronteira da Europa é vasto e tem muitos pontos frágeis: as praias da Andaluzia, Malta, Lampedusa, as extensas fronteiras da Grécia e dos Balcãs.  Os europeus do Norte vão ter mais um argumento contra os do sul, e irão levantar barreiras dentro do próprio espaço europeu para deter a invasão. Um dia, que, acredito, não virá longe, surgirão as primeiras balsas de imigrantes no litoral algarvio, e nessa altura, perceberemos que esta questão também nos diz respeito, a nós, aos portugueses.