segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Espanha, aqui tão perto!

A República da Catalunha chegou a ser proclamada unilateralmente, com a criação da II República Espanhola em 1931. No ano de 1932, depois de prolongadas negociações, aprovou-se o seu Estatuto. Foi criada a Comunidade Autónoma da Catalunha, tendo sido eleito Presidente da Generalitat Francesc Macià. Com a derrota dos Republicanos na Guerra Civil (1936-1939), a Catalunha perdeu novamente a sua autonomia. Todas as instituições do governo catalão foram banidas, e seguiu-se uma importante e pesada repressão cultural e linguística por parte do Estado franquista. Em 1975, a região recuperou novamente a sua autonomia e o seu idioma. A luta pelo reforço da autonomia prosseguiu, e após um longo período de conflito aberto com o Governo Central, o chefe do governo regional da Catalunha está agora determinado a convocar um referendo sobre a independência da região. E, segundo as sondagens, conta com o apoio da maioria dos catalães.

 Artur Mas, o Presidente da Generalitat, anunciou para o dia 9 de Novembro deste ano a realização de um referendo sobre a independência da Catalunha. Será uma consulta com duas perguntas: 1) Quer que a Catalunha seja um Estado? 2) Em caso afirmativo, quer que seja um Estado independente? O presidente do Governo espanhol, Mariano Rajoy, já veio dizer que o referendo é ilegal por ser inconstitucional, e que só o Governo central tem competência para o convocar, lembrando ainda que o assunto diz respeito a todos os espanhóis e não apenas aos catalães. O presidente da União Europeia, Herman Van Rompuy, já declarou que caso a Catalunha se torne independente será considerado um novo Estado fora da União Europeia, devendo, para reingressar, obter o apoio de todos os outros 27 estados membros. Também a Nato se mostrou desfavorável à independência. Outros governantes Europeus têm-se remetido ao silêncio, dizendo que esta questão é do foro interno dos espanhóis.

O caso da Catalunha não é único na Europa. Não pode desligar-se aquilo que se passa na Catalunha com o que se passa na Escócia, onde um referendo com um propósito semelhante terá lugar em Setembro. E também a Bélgica se depara com o problema das nacionalidades. O precedente do Kosovo, que se autonomizou da Sérvia e acabou sendo reconhecido pela comunidade internacional, será invocado pelos catalães. A independência da Catalunha teria um efeito de dominó sobre muitas outras nacionalidades em toda a Europa.

Uma Catalunha independente seria uma má notícia para a já muito fragmentada União Europeia. Mas negar o sagrado princípio, que advoga o direito que um povo tem de escolher o seu destino, será uma posição muito difícil de sustentar para uma comunidade construída sobre esse mesmo fundamento. Os argumentos legais são fracos e terão de ser usados outros. A dissuasão da intenção dos catalães irá ser feita pela via económica e política. Haverá negociações, e o mais certo será tudo acabar com um reforço da autonomia, no plano fiscal, no plano judicial e no plano diplomático.

Se a chama da independência deflagrar na Catalunha, o incêndio irá alastrar-se ao País Basco e a outras comunidades autonómicas. Uma solução de compromisso poderá ser o federalismo. E a posição de Lisboa, com uma Espanha federada, até seria reforçada. Mas em Portugal pouco se fala deste assunto, pensa-se que o tempo irá decidir as coisas, e que uma solução será encontrada. Para salvaguardar uma identidade separada das outras nações ibéricas, temos a nosso favor a história e a lusofonia. Na verdade, e com uma Espanha federada, a grande força de Portugal (possivelmente a única), e que justificará a sua independência, são os 220 milhões de pessoas que falam português.

Como irão evoluir as coisas, saber se haverá ou não referendo, e quais as consequências de um "sim" às perguntas formuladas é a grande interrogação do momento. Sabe-se como este processo começou, que as coisas já foram demasiado longe, e que o seu desfecho é imprevisível. Dificilmente os catalães recuarão na sua pretensão, e dificilmente o governo de Madrid a aceitará. A Catalunha representa 20% do PIB espanhol (superior ao PIB português), um quarto produção industrial e 17% da população. O braço de ferro vai intensificar-se.

A construção da Europa está muito longe de estar terminada. E convém estarmos atentos ao que vai passar -se na Catalunha, pois o desfecho deste processo poderá ter importantes reflexos no nosso país.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Petróleo: Previsões para 2014

A energia fóssil e em especial o petróleo, que é a sua forma mais conveniente de usar, tem sido o fator determinante para o desempenho da economia (uma coisa boa ou má, um dia saberemos!). A longa crise que assola a economia global desde 2008 foi a consequência da escassez e do elevado preço desta matéria prima, que ao condicionar o crescimento económico quebrou a pirâmede de Ponzi do crédito e as suas extravagancias financeiras, com a sequela de estragos que todos conhecemos e os portugueses bem sentiram (e continuam a sentir) na própria pele.

 Estamos no limiar de mais um ano de calendário. A abundância ou a escassez de petróleo e o preço do barril nas bolsas de matérias primas (o Brent, na bolsa de Londres, e o WTI, nos EUA) vão constituir os maiores condicionalismos ao crescimento da economia global no ano que agora começa. E sobre isto existem boas, más e péssimas notícias. Para 2014 a boa notícia é a de que não haverá escassez da matéria prima. A má notícia é a de que o preço do barril se vai manter nos altos valores dos últimos anos, ou seja, à volta dos 100 dólares. A péssima notícia é que, a cada dia que passa, se agrava o conflito entre a natureza e a economia.

Nos últimos 10 anos, mudou muito o panorama no que respeita ao petróleo. Neste período, a extração de crude convencional praticamente estagnou nos 72 milhões de barris por dia, mas com recurso a sofisticadas tecnologias, nessa década, aumentou a produção do crude não convencional. Quando falamos de petróleo não convencional incluímos a exploração em águas profundas (como, por exemplo, na Bacia de Santos, no Brasil), a exploração a partir da areias betuminosas no Canadá (tar sands) e a partir das rochas de xisto nos Estados Unidos (fracking), os biocombustíveis e a produção de hidrocarbonetos líquidos a partir de gás ou de carvão.

O recente desanuviamento das relações do Ocidente (liderado pelos EUA) com o Irão aliviou o embargo às suas vendas de crude, e este país poderá, no ano corrente, fazer aumentar as suas exportações em cerca de 400 mil barris/dia. Mas a situação ainda não está estabilizada, e o Irão, que subsidia fortemente a gasolina doméstica, não tem feito os investimentos necessários para manter e modernizar as suas explorações. A Arábia Saudita já está perto do máximo da sua capacidade de produção (10,5 Mb/d), e não a poderá aumentar muito mais. Mas a Arábia Saudita é um inimigo declarado do Irão, e poderá ser tentada a um esforço suplementar para aumentar as exportações e assim dificultar a reentrada daquela país no negócio.

Para o ano agora iniciado, os especialistas prevêem que o Iraque (para muitos, o eldorado petrolífero) poderá aumentar as suas exportações em 300kb/d. Mas existe o risco de perturbações sociais, e alguns já começam a duvidar dessa possibilidade. O Iraque não é um estado que congregue uma nação, mas sim uma criação artificial saída dos escombros do antigo império Otomano no final da Primeira Grande Guerra. Os conflitos entre etnias e fações religiosas estão longe de ser resolvidos. Neste início de ano, os insurgentes sunitas afetos à Al Qaeda parecem dominar uma vasta área do Iraque e da Síria e controlam a cidade de Falujah com 300,000 habitantes. Está em risco o cumprimento das previsões da AIE (Agência Internacional de Energia) para o Iraque, que apontavam para uma produção de 6 milhões de barris dia em 2020 e de 9 milhões em 2035.

A situação interna na Líbia pós Kaddafi está longe de estar pacificada, e isso fará com que as exportações em 2014 fiquem abaixo dos valores de 2013, estes, por sua vez, muito aquém dos 2,5/3 milhões de b/d anteriores à revolta de 2011. Na confusão existente, as milícias criaram o governo de Cirenaica e oferecem-se para vender petróleo fora do circuito governamental.

Relativamente aos países fora da Opec prevê-se um significativo aumento da produção de 1,4 milhões de barris/dia, sendo a maior fatia proveniente dos Estados Unidos e do Canadá (1,1Mb/d) e os restantes 0,3Mb/d do Brasil e do Kazaquistão, onde a jazida de Kashagan entrará finalmente em produção depois de um longo período de modernização.

O Brasil, por sua vez, tem vindo sucessivamente a adiar os seus novos projetos de lançar a produção das jazidas sub-salinas de águas profundas. Criou-se uma elevada expectativa depois de autoridades governamentais brasileiras terem estimado as reservas em valores irrealistas, que chegaram a ser de 240 mil milhões de barris, correspondentes a 8 anos de consumo mundial e superiores às da Arábia Saudita. Os resultados de algumas perfurações experimentais têm sido dececionantes, e, para agravar a situação, alguns investidores estão a preferir colocar o seu dinheiro em áreas mais promissoras e mais seguras como as tar sands do Canadá ou o fracking nos Estados Unidos.

A grande contribuição para estabilizar a produção petrolífera virá dos Estados Unidos com um aumento previsível de 0,9M b/d, sobretudo em resultado do boom do fracking. Ainda assim, este incremento, a verificar-se, será menor do que o que foi conseguido em 2013. As perspectivas excitantes relativamente a novas zonas de exploração para além de Bakken e Eagle Ford, que até agora têm sido responsáveis por quase todo o crescimento da produção de óleo de xisto, têm levantado celeuma, havendo opiniões que consideram que no futuro as produções serão inferiores às estimadas. Bem vistas as coisas, o fracking é o responsável pela euforia que percorre o mundo e para a recuperação do sentimento otimista que tanta falta faz à economia.

De acordo com J. Lahérrère, na história da exploração de petróleo existiram vários ciclos: o primeiro ciclo entre 1900 e 1945 correspondeu à descoberta e exploração das jazidas em formações (anticlinais) sedimentares de superfície; um segundo ciclo entre 1945 e 1990 correspondeu à descoberta de jazidas menos acessíveis em formações rochosas profundas com recurso a técnicas de prospeção sísmica; o terceiro ciclo, iniciado em 1990, que ainda decorre, consiste na exploração de reservatórios em águas profundas e sub-salinas. O ciclo atual, que agora está a iniciar-se, corresponde à extração mais sofisticada, pelas técnicas de fraturação hidráulica. Em cada novo ciclo acentuou-se a degradação do EROEI (Energy returned on energy invested), isto é, o retorno energético do investimento. O custo energético da extração de cada barril terá aumentado 10 vezes entre o primeiro e o terceiro ciclo, e essa tendência agrava-se no novo ciclo. Não resisto a comparar esta evolução com a que, no dizer de Joseph Tainter, levou à queda do Império Romano, obrigado a procurar, cada vez mais longe e a um custo maior, os escravos, os alimentos e matérias primas de que necessitava.

Começa a generalizar-se o sentimento de que se adiou a crise. Empurrámos o problema para a frente. E ao embalo deste efémero sucesso, nos EUA, já se fala da crise das energias renováveis (cleantech), fortemente subsidiadas. De tal forma, que há dias a CBS no programa "60 minutos" já as anunciava como mortas. Falamos essencialmente de biocombustíveis, energia solar e energia eólica. Nesta nova euforia, as alterações climáticas podem esperar. Fala-se em 2020 como data de novo pico para a exploração das formações de xisto, e a partir desse ano as coisas podem degradar-se muito rapidamente. A dependência da energia fóssil acentua-se, e a esperança de nos libertarmos dela esfuma-se.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O Quarto Sector

A economia mundial está a entrar numa nova fase, a hiperglobalização, que se carateriza pela uniformização dos gostos e dos consumos (tanto de bens físicos como culturais), pela digitalização da informação gráfica e escrita, pela interdependência das economias, pela interatividade da comunicação possibilitada pela internet. A capacidade de armazenar e processar grandes volumes de informação (big data), de manipular os genes dos seres vivos e interferir com a própria identidade das espécies, são outras caraterísticas desta nova fase. São transformações que estão a originar novos negócios, a estabelecer novas atividades, a criar novas profissões. Surgem  poderosas empresas de um novo tipo,  a inteligência passou a ser um produto comercial. Aos poucos, na nova economia, começa a definir-se e a ganhar peso um novo sector de atividade que poderemos designar de quaternário ou de quarto sector

 Tradicionalmente, as atividades económicas repartem-se por três sectores: primário que abrange a agricultura, silvicultura, pecuária, pescas e exploração mineira; secundário que inclui as indústrias transformadoras, a construção  a produção de energia; terciário que integra o comércio e os serviços. Em Portugal, o sector primário tem vindo a perder importância. Segundo dados do INE (Estatísticas do Emprego), em 1974, 35% da população ativa trabalhava no sector primário e em 2012 essa percentagem baixou para 10%. A importância do sector secundário, por sua vez, passou de 34% para 26%. Houve uma grande transferência de emprego para o sector terciário que ocupava 31%  da população ativa em 1974, e que emprega hoje 64% dessa mesma população.

No início do século XX, o sector terciário era incipiente. O aumento gradual da sua importância foi um reflexo das transformações ocorridas durante a era do carbono. Sempre que o homem conseguiu melhorar a forma de produzir mais alimentos, isso permitiu libertar pessoas para outras atividades. O mesmo  aconteceu na revolução agrícola que conduziu à sedentarização. Voltou a acontecer com a introdução de novas técnicas de regadio, com a utilização da charrua de ferro, com o recurso ao trabalho dos animais. Mas foi com a revolução industrial, resultante da máquina a vapor e do carvão, que se iniciou uma profunda alteração na organização social. A mecanização da agricultura e o uso de fertilizantes e de pesticidas deu origem à revolução verde,  que libertou pessoas das tarefas agrícolas, muitas  das quais foram absorvidas pelas fábricas.

Ao mesmo tempo, a eletricidade libertava a mulher das tarefas domésticas. Durante muito tempo, a máquina e a energia substituiram os músculos dos trabalhadores, e, mais recentemente, a robotização já lhes substitui os neurónios. A linha de montagem que era assistida por operários passou a ser automática. Nas fábricas modernas, o trabalho humano, reduzido à sua expressão mais simples, limita-se a vigiar a correta normalidade dos processos. O comércio e os serviços absorveram uma boa parte da mão de obra libertada pela automatização e pelo aumento da eficácia da indústria.

Mas o automatismo está a chegar aos serviços. Os transportes dispensam revisores e cobradores e até condutores. Os serviços financeiros, o comércio, o turismo, a hotelaria, estão também a libertar mão de obra.  A era digital está a eliminar muitas funções das indústrias gráficas e das comunicações. Isto está a criar um enorme paradoxo: a população mundial aumenta, mas o emprego diminui, pois  as necessidades de pessoas para trabalhar são agora menores. Será que o quarto sector vai absorver os excedentes de mão de obra que são o resultado destas transformações?

Na minha opinião, a hiperglobalização enfrentará graves problemas. Não criará empregos suficientes para compensar os que destrói; está na perigosa e arriscada dependência da complexidade; varre para debaixo do tapete os graves problemas da escassez de recursos e da poluição. Não promove igualdades. Não resolve os problemas sociais.  Na verdade, a hiperglobalização irá acentuar as dissonâncias entre  a natureza e a economia. Os recursos continuarão a consumir-se de forma irracional, o planeta continuará a aquecer, as abelhas continuarão a morrer, a biodiversidade vai reduzir-se. No plano social, as grandes contradições não serão resolvidas: alguns ricos ficarão mais ricos, e muitos pobres ficarão ainda mais pobres. O desemprego crescente alimentará uma onda imparável de indignação. E os políticos, obcecados com o crescimento, só acordarão quando a casa comum já estiver a arder.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O Futuro das Cidades


Nas antevisões que fazemos do futuro, temos tendência a valorizar mais o lado bom das coisas e a deixar de lado os aspetos negativos. Foi assim que os nossos avós imaginavam o século XXI: com paz, harmonia social, curas milagrosas e bem estar generalizado. Por isso quando pensamos no futuro das cidades somos levados a imaginar as cidades do futuro. E imaginamos espaços mais verdes e limpos, mais funcionais, mais seguros, mais feitos à medida do homem. Penso que foi esse o sonho de Oscar Niemeyer ao projetar Brasília. Mas as cidades que as novas gerações irão habitar já existem hoje com os seus problemas e com  as suas distorções. Cidades que não foram feitas à medida do homem mas sim à medida do automóvel. Que são o produto duma civilização que se globalizou e que cresceu desmesuradamente.

Em 1950, mais de 70% da população mundial vivia em habitats rurais; em 2050 haverá uma inversão, e essa percentagem reduzir-se-á a 30%. Por outras palavras, a população urbana do planeta era, em 1950,  de menos de mil milhões de pessoas; em 2050 esse valor será superior a seis mil milhões. A urbanização acelerada foi o resultado de um processo que tem a ver com as grandes transformações ocorridas no pós guerra. Ela é uma consequência direta da revolução industrial, mas está relacionada com  a disponibilidade energética proporcionada pela Era do Carbono. Na verdade, o automóvel que criou os subúrbios e o elevador que criou o arranha céus  são os dois principais fatores responsáveis pela urbanização. E atrás deles está, num caso, o petróleo e, no outro, a eletricidade. Ou seja, energia abundante e barata.

 Países emergentes como a China viram, na última década, a sua população urbana crescer desmesuradamente. E o fenómeno das migrações do campo para as cidades continua.  Uma das causas que lhe deram origem foi a  revolução verde que permitiu elevadas produtividades agrícolas como resultado da mecanização e do uso de fertilizantes, e criou  mão de obra excedentária no  espaço rural. E a revolução verde foi, ela própria, resultado da evolução tecnológica, mas, sobretudo, da energia barata.

O tecido urbano das modernas cidades é, hoje, muito diferenciado: mantém-se o velho centro histórico rodeado de uma zona envolvente de serviços e, mais afastados, os subúrbios ou dormitórios. Algumas cidades atingiram dimensão crítica, e podem enfrentar problemas de gestão das redes através das quais fluem os  recursos de que necessitam (alimentos, água, energia)  e os desperdícios que produzem (lixo, esgotos). Por outro lado, o comércio das modernas cidades desenvolveu-se em grandes superfícies centrado no automóvel e que contribuíram para ajudar a desertificar os velhos centros tradicionais e históricos dessas cidades.

Mas o ciclo de crescimento urbano parece estar a terminar. São várias as razões para isso acontecer: a estabilização  da capitação energética, o fim do crescimento económico, o fim da revolução verde, o acréscimo populacional, o desemprego, enfim a crise económica. E as grandes cidades, numa economia em recessão, poderão enfrentar enormes problemas. Cenários de carências, de degradação e de insegurança podem ser a consequência.

Mais importante do idealizar a cidade do futuro, é pensar - e urgentemente - no futuro das nossas cidades. Esse futuro só em parte está nas nossas mãos. As pressões que afetam a economia que são responsáveis pela presente crise económica, vão deixar-nos pouco tempo para divagações arquitetónicas sobre o novo urbanismo. Penso que é altura de nos centrarmos no plano dos princípios: queremos cidades mais à medida dos homens, com mais sustentabilidade, com mais espírito comunitário, menos dependentes do automóvel e com um florescente comércio de proximidade. Afinal, são estes os princípios da Transição.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Alturas do Barroso

Não me temo de Castela, 
Donde inda guerra não soa,
Mas temo-me de Lisboa 
Que, ao cheiro desta canela, 
O Reino nos despovoa
 (Sá de Miranda in "Carta a António Pereira"- Senhor de Basto)

Num dos últimos fins de semana, por motivo de uma ação de formação do programa Nepso da Fundação Vox Populi, fiz, com a minha mulher, uma incursão por terras nortenhas de Basto e do Barroso. Foi o prazer de descobrir um Portugal que não conhecia, montanhoso, agreste, rude, austero e trabalhador. É nessa região que ainda se encontram dos genes mais autênticos da raça portuguesa. Mas que, à semelhança do velho Portugal rural, está em vias de desaparecer.

No domingo, em Arco de Baúlhe (Cabeceiras de Basto), na capela da Faia, assistimos à Missa. Eu sou um agnóstico, tenho em relação a Deus uma posição descomprometida e expectante, como quem espera uma revelação que lhe demonstre a sua existência. Mas não sou ateu, nem antirreligioso. Confesso que me sinto bem dentro de uma igreja. A porta está aberta, não me perguntam nada à entrada, o espaço é amplo e pacífico, o ambiente é de respeito. Gosto de ouvir as leituras da Bíblia, e procuro descodificá-las e perceber o seu significado. Muitas vezes, ao ouvi-las, interrogo-me sobre os meandros do pensamento judeu que lhes está subjacente, e que, cruzado com o pensamento grego, formatou o cristianismo e a Civilização Ocidental. Na missa, e no silêncio de algumas igrejas, aproveito, muitas vezes, para me encontrar comigo mesmo!

Na capela da Faia, o padre era assertivo. Na homilia, desceu à coxia para ficar mais perto dos fiéis e, assim, ser mais convincente na prédica, feita com vozeirão grosso e gestos rasgados. Falou da fé, mas o tema recorrente destas práticas é o bem e o mal, a morte e a promessa de vida para lá dela. Na Igreja, eram quase só velhos, havia alguns jovens, e quase não se viam crianças. Estava ao meu lado uma mulher de meia idade, com um xaile de cor verde azeitona às flores e com  arrecadas de ouro penduradas nas orelhas. O rosto era firme e anguloso. Lembrou-me a D. Aldina, uma transmontana que conheci na minha adolescência, na Guarda, quando vinha com o marido mercadejar na cidade, e pernoitava na pensão que o meu pai explorava. No fim da missa, no abraço da paz, cumprimentei aquela mulher que estava ao meu lado. Não levantou a cabeça, estendeu-me a mão  e eu senti, na aspereza daquele aperto, a dureza do que seria o seu trabalho na cozinha, na casa e na faina do campo.

Nessa tarde, como que a propósito, a Alice, a amiga que nos recebeu em Carvalho (aldeia do concelho de Boticas), recitou, como só ela o sabe fazer, o poema Calçada de Carriche do poeta António Gedeão: Luísa sobe, sobe que sobe, sobe a calçada...  E contou que certa vez o tinha declamado, publicamente, em Boticas. E que uma mulher do campo, no final, se tinha aproximado dela e sussurrado: É mesmo assim, menina! (é mesmo axim, na entoação dela ). E eu lembrei-me das mãos que me tinham cumprimentado na Capela da Faia.

Depois de conhecermos Boticas, o Moisés e a Alice levaram-nos a visitar as aldeias de Alturas do Barroso e  de Vilarinho Seco. Ainda pude ver uma aldeã vestindo a tradicional capucha de burel e, ao longo da estrada, uma manada de vacas barrosãs, pachorrentas e de longos chifres. Em Vilarinho Seco, procurámos o Pedro e a Ana que exploram um restaurante, numa casa bem transmontana: sólida, fria e farta. Recebeu-nos a Ana, corpo marcado pelos anos, denunciando esforços a manusear panelões de sopa e de cozido, confecionados em lumes grossos e servidos em largas mesas de carvalho e de castanho. Mas esta senhora, mãe de três filhos que os estudos no Porto já roubaram irreversivelmente ao Barroso rural, é uma pessoa muito alegre e jovial. No álbum de fotografias da Alice, constatei que Ana já tinha sido  menina e tinha casado de branco.

Nessa noite, fomos dormir ao centenário Palace de Vidago, inaugurado em 1910.  Foi reinaugurado por José Sócrates, em 2010, depois de renovado com um projeto de Siza Vieira e um investimento de sessenta milhões de Euros, oriundos de fundos da CE.  Este Hotel de 5 estrelas, com 70 quartos, campo de golfe e balneário requintado (um spa), orientado para um turismo termal, golfe e congressos,  é, na sua aparência e no seu significado, o oposto do Barroso. Emprega 120 pessoas, mas a sua viabilidade é duvidosa...Foi um projeto PIN, construído na euforia do betão, no tempo de Manuel Pinho. Em 2012, Pires de Lima, o então presidente da Unicer, a proprietária do hotel, falava, num tom lamentoso,  de uma taxa de ocupação de 40 a 45% e de prejuízos anuais de 4,5 milhões de Euros.  Entretanto, um outro projeto megalómano de 120 quartos para Pedras Salgadas já foi abandonado.

O Basto e o Barroso estão despovoados, e estes projetos da Globalização não respondem à urgente necessidade de os repovoar. Mas os tempos estão a mudar muito depressa, e tudo pode acontecer!

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Fracking


O petróleo é o principal motor da economia global. Isso tornou-se particularmente claro em 1980 no período que ficou conhecido como o segundo choque petrolífero (o primeiro tinha ocorrido em 1973), quando, na sequência da guerra Irão-Iraque, os preços do crude dispararam e a economia mundial entrou em recessão. No anos que se seguiram, a estratégia política e económica  dos países desenvolvidos centrou-se na segurança e na defesa das fontes de energia. Os países da OCDE criaram a Agência Internacional de Energia, sediada em Paris, para enfrentar futuras situações de crise. Iniciou-se um vasto programa de construção de centrais nucleares, desenvolveram-se novas bacias petrolíferas nomeadamente no mar do Norte, no Alaska e no Golfo do México. Com a doutrina Carter, foi revista e redefinida a  estratégia militar dos Estados Unidos que elegeram o Médio Oriente como a principal zona a defender.  Com a retração da economia, verificou-se uma queda no consumo de petróleo, e, como consequência disso, a partir de meados da década de 80, os preços voltaram a cair. 

A queda dos preços fez com que o consumo e  a produção de crude aumentassem de novo. Entretanto, verificou-se um ressurgimento do gás natural como alternativa ao petróleo nas centrais termoelétricas. Tudo isto conjugado fez com que, durante toda a década de 90, voltasse a haver abundância energética, a baixo preço.  As economias cresceram. O aumento da frota automóvel e a rápida industrialização dos países emergentes (sobretudo a Índia e a China) fizeram crescer o consumo de petróleo. Entre 1985 e 2005 o consumo de energia fóssil, a nível mundial, duplicou.  Desde 1985 até aos nossos dias esse  consumo  representou 50% de toda a que já foi consumida pela humanidade. Este período de ressurgimento teve um efeito no aumento do crédito, fez crescer a dívida de muitos países, impulsionou investimentos em obras públicas, e fez disparar o preço das casas. E teve o seu epílogo na crise de 2008.

Com efeito, a partir de 2005, começou a sentir-se de novo escassez de petróleo.  A produção do chamado petróleo convencional, aquele que é extraído nas jazidas tradicionais a baixo custo, estagnou. Ressurgiu a produção da Rússia, depois dos problemas associados à crise de desmembramento da União Soviética, mas tal  não conseguiu compensar as quebras na Indonésia, no golfo do México, no mar do Norte e no Alaska.  Depois dos acidentes de Chernobil e Three Mile Island, e devido à escassez de urânio, a via nuclear começou a ser encarada com muitas reservas . Os países produtores de petróleo (México, a Venezuela, o Irão, a Arábia Saudita), conscientes do seu poder, criaram as suas próprias empresas petrolíferas.

Para responder à escassez, a busca de alternativas energéticas desenvolveu-se em três direções: a produção de  biocombustíveis, o desenvolvimento das energias renováveis  (hídricas e não hídricas) e o recurso  a formas não convencionais de produção de petróleo. Neste último caso, falamos da extração a partir da conversão em líquido do gás e do carvão, das areias betuminosas do Canadá, das lamas da Venezuela, das jazidas de águas profundas (Angola, Golfo do Mexico, Brasil),  e,  mais recentemente, dos depósitos de gás e de petróleo associados às rochas de xisto (EUA).

Muita da esperança de contrariar a previsível escassez de crude, tem-se desenvolvido à volta das jazidas associadas às rochas de xisto. Trata-se de uma técnica conhecida há mais de 50 anos e que nos últimos anos, devido ao elevado preço do crude, teve um desenvolvimento extraordinário nos Estados Unidos, e que está já a ser testada em muito outros países. O petróleo e o gás são extraídos pela técnica da fraturação hidráulica, conhecida por fracking.  As perfurações são feitas na vertical até encontrar as camadas de xisto impregnadas de gás e  de petróleo. A uma profundidade que pode ultrapassar os mil metros, a perfuração passa a ser horizontal para acompanhar as camadas sedimentares. Devido à  fraca porosidade das rochas xistosas, os hidrocarbonetos não fluem naturalmente. Para os libertar, injeta-se, a grande pressão, uma mistura de água com outros produtos químicos, e isto provoca a fraturação da rocha.

Estes furos exigem um considerável investimento estimado em cerca de cinco vezes o dos furos tradicionais, e têm um tempo de vida útil de extração que é de cerca de metade daqueles. Por estes motivos, esta tecnologia só é viável com preços do barril de crude acima dos 70 dólares. O retorno energético do fracking é muito baixo: fala-se de que, por este processo, com a energia de um barril de petróleo se extraem entre 3 a 5 barris.  Nas jazidas da Arábia Saudita esse valor pode chegar a ser de 1 para 100.

Admite-se de que, nos Estados Unidos, a produção com esta técnica pode aumentar gradualmente até 2020 podendo chegar a 4-5 milhões de barris por dia (cerca de 5% da produção mundial),  e a partir dessa data comece a diminuir. A tecnologia do fracking surge como um  Eldorado que vem trazer um novo alento à economia global. Reestabelece uma expetativa de crescimento e criação de emprego que se estava a perder. Contudo, existem graves riscos ambientais associados a esta tecnologia como sejam a  poluição do aquíferos e do ar provocado pelos químicos utilizados e pela libertação de metano, a destruição de solos, e até a possibilidade de ocorrência de sismos.

Na minha opinião, o maior perigo é que se crie a ilusão de que esta fonte é inesgotável, e de que ela venha a resolver os problemas da escassez de petróleo. A solução fracking insiste nos combustíveis fosseis, ou seja, mais do mesmo, e os problemas ambientais e alterações climáticas vão agravar-se. O retorno energético (EROEI) vai baixar, e pode ficar abaixo do ponto crítico necessário para, no longo prazo, a justificar. O esforço para o desenvolvimento das energias a partir de fontes  renováveis vai afrouxar, a globalização vai acreditar que tem uma nova oportunidade e que a Transição pode esperar.  É importante extrair as lições do passado, evitar as armadilhas do crescimento contínuo, e aproveitar o balão de oxigénio do milagre do xisto para preparar o futuro...O pico de petróleo pode ter sido adiado por mais uma ou duas dezenas de anos, mas no essencial nenhum dos seus pressupostos está alterado. E para os ambientalistas que se preocupam com as alterações climáticas, o fracking não é uma boa notícia.


segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Dédalo e Ícaro


Icare, ubi es? Icaro, onde estás?
Ovídio, Metamorfoses

Segundo uma lenda da mitologia grega, Dédalo estava prisioneiro numa ilha juntamente com o seu filho, o jovem Ícaro.  Minos, o Rei de Creta, fechou-lhe todas as saídas por mar, e Dédalo achando  que a única fuga possível seria pelo ar, decidiu construir dois pares de asas. Fê-lo com penas de gaivota, que foi tecendo com fio e colando com cera de abelhas.

Conseguido o seu intento, experimentou as asas com sucesso, e ensinou o seu filho a voar. Deu-lhe os seguintes conselhos: não voes demasiado alto, pois o calor do Sol pode derreter a cera, nem voes demasiado baixo sobre a espuma do mar, pois a água pode encharcar e tornar pesadas as penas das tuas asas. Não te afastes, mantém-te próximo de mim, e faz como eu fizer!  Aproveita o vento e deixa-te conduzir por ele. E, batendo fortemente as asas, disse ao filho para o seguir.

Seguindo o exemplo do pai, o jovem Ícaro elevou-se no ar, e quanto mais subia mais amplo se desenhava o horizonte. As ilhas (Samos e Naxos, Paros e Délos, de um lado, Lebintos e Calimne do outro) perfilavam-se contra o azul escuro do mar, e, lá longe, os recortes das montanhas anunciavam os continentes sem fim. Mais um golpe de asa e o mundo todo estaria no seu horizonte. O Sol e o azul profundo do Céu convidavam ao alongamento do voo, e este apelo parecia prometer a Ícaro os dons de Apolo e de Zeus.

Quando o calor do sol afrouxou a cera que unia as penas das asas, Ícaro, de repente, sentiu-se desapoiado, rodopiou, e começou a cair. Sentia o vento a pressionar-lhe o ventre, os pulmões recusavam-se a inalar o ar soprante. Ainda conseguiu arrancar do mais fundo de si mesmo um grito desesperado e lancinante: Pai, Pai  ajuda-me, estou a cair!  Dédalo, que já tinha chegado ao seu destino e procurava ansiosamente o filho, ouviu este chamamento que se repetia num eco suplicante, como que vindo de todas as direções, de baixo, de cima, do oriente e do ocidente, do norte e do sul. Sentiu um arrepio, e gritou com todas as suas forças: Ícaro, meu filho, onde estás? Diz-me em que sítio te devo procurar. O silêncio foi a resposta. Mais tarde, Dédalo encontrou, flutuando, as asas desfeitas e o corpo do filho amado que chorou e enterrou numa ilha que viria a chamar-se Icária.

Apesar da diferença formal que opõe o espírito estético e antropocêntrico dos gregos ao espírito moralista e teocêntrico dos judeus, encontro nesta lenda uma certa semelhança com a parábola do filho pródigo. Em ambas, o filho, inexperiente e ambicioso, ignora os conselhos e desbarata a dádiva do pai. E em ambas, o pai recebe o filho (vivo num caso, morto no outro) sem reprimenda e sem lamento. O herói mitológico é Dédalo, e não Ícaro.

As lendas da mitologia grega encerram ensinamentos profundos. A lenda de Dédalo e Ícaro mostra a irreverência da juventude, os riscos da inexperiência, e o perigos da ambição desmesurada. Viver na altura certa, nem demasiado baixo, nem demasiado alto, e aprender com o exemplo dos mais velhos, são  princípios eternos da sabedoria humana.