segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

25 de Abril, 40 Anos Depois

Nos anos que se seguiram ao final da Segunda Grande Guerra, o esforço de reconstrução dos estragos provocados pelo conflito, o recurso a novas tecnologias desenvolvidas pela indústria militar e a disponibilidade de uma energia abundante e barata (o petróleo), provocaram um elevado crescimento económico acompanhado de um grande progresso social. No mundo ocidental, reeditou-se a febre consumista dos loucos anos vinte americanos. Entre as mudanças que contribuíram para a prosperidade e para o pleno emprego, contam-se a urbanização, a emigração, a ascensão social da mulher - libertada de tarefas do lar pela vulgarização dos eletrodomésticos -, a generalização do uso do automóvel, o acesso dos jovens de camadas sociais mais desfavorecidas à educação. Os acordos de comércio livre impulsionaram as trocas comerciais,  afirmou-se a globalização, as multinacionais ganharam um grande poder, acentuou-se a  interdependência entre Estados e economias. Em muitos países começou a ganhar forma o Estado Social.

Fora do mundo industrializado, estavam em curso mudanças históricas, impensáveis trinta anos antes. Uma grande parte do então chamado terceiro mundo começou a libertar-se das potências administrantes. A  Indonésia proclamou a independência da Holanda  em agosto de 1945, dois dias após a rendição do Japão, a Índia tornou-se independente em 1947, a Indochina e a Argélia ascendem à independência depois de conflitos sangrentos com a França.  Chegou a vez da África subsariana, onde a partir dos anos 60, as colónias francesas, inglesas e o Congo Belga proclamam a independência. O antigo mundo colonial estava a dar origem a um  mundo novo ávido de aprender, de crescer e de se industrializar.

Apesar da famosa afirmação de Churchill, feita após a vitória dos aliados,  que das ditaduras europeias não ficaria pedra sobre pedra, Portugal conseguiu manter, após 1945, um regime ditatorial obsoleto, sem liberdade, sem partidos políticos, com censura e com forte repressão.  Acompanhado da Espanha, os dois países constituíam uma espécie de mundo à parte na Europa Ocidental. A economia portuguesa apoiava-se nas colónias que forneciam matérias primas e eram o destino de uma boa parte das suas exportações. As remessas dos emigrantes (que abandonavam a salto o país a caminho da Europa), o turismo, o protecionismo industrial e a entrada de multinacionais trouxeram algum progresso.

Quando, em 1961, os ventos da independência chegam às colónias portuguesas de África, o desafio que se colocou ao regime, pondo à prova a sua força e coesão foi saber qual a decisão a tomar. A opção  pela guerra fez abrirem-se, num ápice, três frentes de combate em Angola, Moçambique e Guiné. O governo português ao tomar esta decisão acreditou poder manter um império colonial à portuguesa, pluricontinental e plurirracial (com o Brasil apontado como exemplo) . Os governantes terão admitido terem a seu favor o facto de poderem apresentar-se ao Ocidente como um bastião para conter o avanço comunista e, assim, obter o seu apoio. Mas a América, saída do pós guerra como o líder do mundo ocidental, sendo anti-comunista, era também anti-colonialista. A possibilidade de emergir na África Austral um bloco com relevância económica e enormes recursos, liderado pela África do Sul, terá pesado também na decisão de fazer a guerra.

Nessa altura, os interesses económicos da elite dominante centrados em África, sobrepuseram-se a uma visão desapaixonada da história. Saber se naquelas condições era possível ou viável outra opção é a questão que ficará sem resposta.  Seguiu-se uma guerra longa e desgastante. Muitos se  interrogam ainda hoje, como foi possível a um pequeno país - pobre e isolado internacionalmente - mantê-la durante 13 anos! No seu início, certamente,poucos previam essa tenacidade e essa capacidade. Terá sido a força ou a teimosia (mas não há teimosia sem força!) do regime ou a fraqueza da oposição?

Em 1974, Portugal estava já exaurido de recursos humanos e económicos para manter as três frentes da guerra colonial. A crise mundial de 1973, resultante  do choque petrolífero provocado pelo embargo dos países da OPEP, só veio agravar a situação. Estava em ascensão, tanto no plano civil como militar, a geração que tinha nascido no pós guerra, que tinha vivido o maio de 68; ao mesmo tempo, estava a desaparecer a geração que tinha implantado e consolidado o regime e testemunhado os anos da guerra civil  espanhola. No regime, desaparecida a figura tutelar, abriam-se fendas, e surgia a ala liberal. O isolamento internacional era sufocante. Portugal já não tinha aliados.

É certo que a guerra colonial não estava perdida no terreno, mas era cada vez mais evidente que não se podia vencer. O tempo e os ventos da história estavam contra nós. A causa estava perdida.  O desfecho não podia ser outro: o sistema que atara o nó nunca mais o poderia desfazer. Alguém tinha de o fazer por ele. O dia da derrocada não estava marcado no calendário, mas o 25 de Abril estava inscrito na História. Nesse dia o regime velho de 48 anos caiu de podre, desfez-se, entregou-se sem luta, sem honra e sem dignidade. Portugal chegava à democracia com trinta anos de atraso.

Eu tinha 28 anos no 25 de Abril. Era a idade do sonho, da esperança e da generosidade. Inebriei-me com a explosão da Liberdade e assisti ao tempo do 25 de Abril na primeira fila.  Depois da euforia, quando a poeira começou a assentar, decidi subir a escada da vida, e Abril ficou lá atrás. Hoje, passados 40 anos sobre aquela manhã incrível, em que tudo parecia irreal, torna-se obrigatório refletir sobre o que foi aquele momento, perceber qual o seu significado e indagar sobre as causas que lhe deram origem.

Para a minha geração, o 25 de Abril representou também uma libertação interior.  Uma paixão que não se repetirá. E que me faz evocar o filme Casablanca, quando Rick (Humphrey Boggart), ciente de que o antigo amor vivido na Paris ocupada, já não poderia ser revivido em Casablanca, diz a  Ilsa (Ingrid Bergmann):  We'll always have Paris. Da mesma forma, eu digo: I'll always have AbrilPerdi o sonho e a esperança, esforço-me por manter a generosidade.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Viagem à Capital do Reich

Não conhecia Berlim. A minha ideia da cidade era um leve esboço, resultado de leituras da adolescência, enquadrado pelo ambiente que envolvia o filme Cabaret com Liza Minelli. Nesse quadro predominava a Berlim do início dos anos 30, povoada de femmes fatales, estilo Marlene Dietrich dos filmes de Sternberg. Depois, havia a outra faceta: a Berlim da guerra, dos desfiles nazis, das perseguições aos judeus, da cidade bombardeada e da famosa fotografia dos soldados soviéticos a hastear a bandeira vermelha no Reichstag em ruínas. Mais recentemente, a Berlim dividida pelo muro, do Ich bin ein Berliner de Kennedy. E, finalmente, a cidade reunificada. Renascida das cinzas, como a Fénix, Berlim volta a ser a capital do Reich, e aspira ser a capital duma Europa à procura de si própria.

Foi esta nova Berlim que eu fui conhecer no fim de semana passado. Uma cidade ampla, acolhedora e em movimento. Uma cidade com gente jovem. Uma cidade de cultura. Chega-se a Berlim pelo velho aeroporto de Schönefeld, que servia a antiga parte oriental, e que vai, muito em breve, dar lugar a um novo aeroporto, mais moderno. O comboio leva-nos ao centro da cidade. Deu para perceber a eficiência de um sistema de transportes baseado no metro e no comboio urbano. Ficamos num hotel familiar perto do centro, na antiga parte oriental, situado numa rua comercial com restaurantes sírios, vietnamitas, japoneses, italianos, e onde não falta uma livraria portuguesa, uma espécie de alfarrabista.

A nova Berlim recuperou o seu centro monumental onde sobressaem o Reichstag, a porta de Brandenburgo, e o memorial ao Holocausto construído exatamente no lugar  do bunker onde, em Abril de 1945, Hitler se suicidou juntamente com Eva Braun. O Tieregarten é um parque citadino, orgulho dos berlinenses que o comparam ao Central Parque de Nova Iorque. Não pudemos visitar o imponente Reichstag, pois era necessário marcar a visita com semanas de antecedência. Fizemos o circuito turístico que deu para ficar com uma ideia da cidade,  e ver  o que resta do muro, no celebrado Check Point Charlie.

Berlim é uma cidade com muitos museus. Mas como não se pode visitar tudo, optámos pelo museu Pergamon . No final do século XIX, após a conferência de Berlim, uma grande parte do mundo, fora da Europa, estava debaixo da alçada do império britânico. Foi a época das grandes explorações. Os alemães, sem a tradição marítima e sem os imensos territórios de África, da Ásia e da Austrália dos ingleses, não quiseram ficar atrás deles. Voltaram-se para os territórios do Império Otomano: Turquia, Síria, Líbano, Egipto. Aí pesquisaram, descobriram, escavaram, e, sempre que os deixaram, levaram tudo o que encontraram para Berlim. No Pergamon podemos ver, em três reconstituições fabulosas, uma parte desse espólio: a porta de Ishtar na Babilónia, com os seus dragões, o portal da entrada do mercado de Mileto, e o altar de Pérgamo. O extraordinário trabalho de recuperação realizado, e a possibilidade de o visitar em condições ótimas, retira qualquer significado à discussão sobre se havia ou não o direito de desviar estes achados dos seus locais de origem. Depois desta visita, pela parte que me toca, absolvo os alemães de qualquer pecado sobre este assunto...O esplendor das civilizações da Mesopotâmia poderia ter-se perdido para sempre, e nunca chegar a ser conhecido em toda a sua amplitude, sem este fabuloso trabalho de recuperação, catalogação, restauro e enquadramento museológico.

A noite de sexta feira foi dedicada a assistir  a um concerto da famosa Filarmónica de Berlim.  Dirigia a orquestra o maestro americano Herbert Blomstedt, já nonagenário. Na segunda parte, a orquestra  interpretou a famosa Sinfonia Fantástica de Hector Berlioz. Um drama instrumental como aparecia referido no programa.  É um privilégio poder ouvir uma das melhores orquestras do mundo, para muitos a melhor, numa sala que, dizem os entendidos, reúne condições acústicas excecionais. 

No sábado foi tempo de visitar o mercado de antiguidades, na rua, junto ao Jardim Zoológico, num canto do Tieregarten. Depois de um almoço bem alemão  (wurst, a famosa salsicha, com mostarda e choucroute),  foi o deslumbramento do consumismo na visita aos grandes armazéns  KaDeWe, situados no centro comercial da antiga Berlim Ocidental. Ficamos esmagados pela diversidade e pela abundância cornucopiana dos produtos expostos. E pela avidez dos consumidores.

A Alemanha, sem história, não é verdadeiramente uma  nação como a Inglaterra ou a França. E só uma não-nação com o peso económico da Alemanha, libertada de ambições imperialistas e de preconceitos rácicos, pode liderar a construção de uma Europa que precisa de se libertar do espartilho das nações (onde se inclui a  própria Alemanha) que há um século atrás a mergulharam em duas guerras sangrentas. Berlim aspira, com razão, a ser a capital dessa Europa. Não é seguro que o consiga, mas sem Alemanha não haverá Europa.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Opinião e Educação

Na opinião de muitos dos professores participantes  no Nepso - a nossa Escola pesquisa a sua opinião - da Fundação Vox Populi, o programa tem-se revelado ser uma ferramenta útil e importante para a aprendizagem.  Os alunos pesquisam, trabalham em equipa, vencem obstáculos, criam conhecimento. E, em muitos casos, entusiasmam-se e mostram-se empolgados com os resultados. No ensino tradicional, tudo se orienta para o saber que. Com os projetos do Nepso procura-se que os alunos fiquem a saber como.  No início, ao escolherem o tema que vão pesquisar, os participantes acham que sabem muito sobre ele. Mas rapidamente descobrem quão pouco sabem. Ao longo do projeto, assiste-se a uma evolução que parte da opinião sobre um assunto para chegar ao conhecimento sobre esse assunto.

Os gregos utilizavam a palavra doxa (que encontramos em ortodoxo, por exemplo) para significar  as crenças, os juízos, as tradições do povo, que constituem a sabedoria popular. O conceito  corresponde ao de opinião pública no sentido que hoje lhe damos; por oposição, eles designavam por epistemê o saber científico, fundamentado e reservado a uma elite estudiosa, esforçada e desejosa de aprender.  Platão, que se ocupou do assunto nos seus diálogos, considerava que a doxa era manipulada pela retórica dos sofistas. E que isso punha em causa a própria democracia. Porque, em democracia, o poder detido pelos governantes, emana do povo que os elege. Ora a força do povo está no voto, que traduz e representa a opinião pública. E se a opinião publica não é o verdadeiro conhecimento, e pode ser manipulada, então a democracia que dela deriva assenta em sofismas e não na verdade.  Penso que será este o argumento dos que defendem que a democracia tem de evoluir para a meritocracia.

No mundo atual, dominado pelos regimes democráticos, a questão da opinião pública e da democracia não pode ser ignorada. Na Alemanha dos anos 30, a opinião pública era favorável a Hitler, condenava os judeus, aceitava naturalmente a supremacia da raça ariana.  Também no Portugal do Estado Novo a doxa era salazarista. Serão casos extremos, concordo, onde não existia liberdade e se manipulava a opinião das pessoas pela propaganda. Mas o essencial mantém-se: o objetivo do discurso político não é o epistemê, mas sim a doxa. Entre um discurso demagógico ou sofista que traz votos e um discurso realista e verdadeiro que afasta votos, o político opta pelo primeiro.  E sabendo que é a opinião pública que está na base do poder, recorre-se a técnicas para formar ou deformar essa opinião. A importância e o papel dos meios de comunicação  e das sondagens é mais do que conhecida. O efeito de entrar no bandwagon (à letra o carro da banda, em português traduzido no ditado maria vai com as outras) diz-nos que uma opinião reconhecida como dominante tende a atrair cada vez mais pessoas. E em tudo, na política e até na economia, procura criar-se a moda favorável, seja a que preço for.

A Escola deve formar homens e mulheres preparados para tomarem as suas decisões, e fazerem as suas opções com base no epistemê e não na doxa. Para a formação das crenças, para a afirmação dos valores, para a construção da personalidade contribuem vários fatores: familiares, sociais e, sobretudo, educacionais. No tempo que vivemos, o papel da escola dilui-se. A televisão e a internet absorvem uma boa parte do nosso tempo, e têm uma enorme influência na formação da personalidade e da opinião acéfala. Mas a Escola pode e deve contrariar a retórica sofista como a definia Platão.

O Nepso é uma ferramenta orientada para o epistemê, que ajuda os jovens a encontrar o caminho para construir opinião crítica e fundamentada.



segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Espanha, aqui tão perto!

A República da Catalunha chegou a ser proclamada unilateralmente, com a criação da II República Espanhola em 1931. No ano de 1932, depois de prolongadas negociações, aprovou-se o seu Estatuto. Foi criada a Comunidade Autónoma da Catalunha, tendo sido eleito Presidente da Generalitat Francesc Macià. Com a derrota dos Republicanos na Guerra Civil (1936-1939), a Catalunha perdeu novamente a sua autonomia. Todas as instituições do governo catalão foram banidas, e seguiu-se uma importante e pesada repressão cultural e linguística por parte do Estado franquista. Em 1975, a região recuperou novamente a sua autonomia e o seu idioma. A luta pelo reforço da autonomia prosseguiu, e após um longo período de conflito aberto com o Governo Central, o chefe do governo regional da Catalunha está agora determinado a convocar um referendo sobre a independência da região. E, segundo as sondagens, conta com o apoio da maioria dos catalães.

 Artur Mas, o Presidente da Generalitat, anunciou para o dia 9 de Novembro deste ano a realização de um referendo sobre a independência da Catalunha. Será uma consulta com duas perguntas: 1) Quer que a Catalunha seja um Estado? 2) Em caso afirmativo, quer que seja um Estado independente? O presidente do Governo espanhol, Mariano Rajoy, já veio dizer que o referendo é ilegal por ser inconstitucional, e que só o Governo central tem competência para o convocar, lembrando ainda que o assunto diz respeito a todos os espanhóis e não apenas aos catalães. O presidente da União Europeia, Herman Van Rompuy, já declarou que caso a Catalunha se torne independente será considerado um novo Estado fora da União Europeia, devendo, para reingressar, obter o apoio de todos os outros 27 estados membros. Também a Nato se mostrou desfavorável à independência. Outros governantes Europeus têm-se remetido ao silêncio, dizendo que esta questão é do foro interno dos espanhóis.

O caso da Catalunha não é único na Europa. Não pode desligar-se aquilo que se passa na Catalunha com o que se passa na Escócia, onde um referendo com um propósito semelhante terá lugar em Setembro. E também a Bélgica se depara com o problema das nacionalidades. O precedente do Kosovo, que se autonomizou da Sérvia e acabou sendo reconhecido pela comunidade internacional, será invocado pelos catalães. A independência da Catalunha teria um efeito de dominó sobre muitas outras nacionalidades em toda a Europa.

Uma Catalunha independente seria uma má notícia para a já muito fragmentada União Europeia. Mas negar o sagrado princípio, que advoga o direito que um povo tem de escolher o seu destino, será uma posição muito difícil de sustentar para uma comunidade construída sobre esse mesmo fundamento. Os argumentos legais são fracos e terão de ser usados outros. A dissuasão da intenção dos catalães irá ser feita pela via económica e política. Haverá negociações, e o mais certo será tudo acabar com um reforço da autonomia, no plano fiscal, no plano judicial e no plano diplomático.

Se a chama da independência deflagrar na Catalunha, o incêndio irá alastrar-se ao País Basco e a outras comunidades autonómicas. Uma solução de compromisso poderá ser o federalismo. E a posição de Lisboa, com uma Espanha federada, até seria reforçada. Mas em Portugal pouco se fala deste assunto, pensa-se que o tempo irá decidir as coisas, e que uma solução será encontrada. Para salvaguardar uma identidade separada das outras nações ibéricas, temos a nosso favor a história e a lusofonia. Na verdade, e com uma Espanha federada, a grande força de Portugal (possivelmente a única), e que justificará a sua independência, são os 220 milhões de pessoas que falam português.

Como irão evoluir as coisas, saber se haverá ou não referendo, e quais as consequências de um "sim" às perguntas formuladas é a grande interrogação do momento. Sabe-se como este processo começou, que as coisas já foram demasiado longe, e que o seu desfecho é imprevisível. Dificilmente os catalães recuarão na sua pretensão, e dificilmente o governo de Madrid a aceitará. A Catalunha representa 20% do PIB espanhol (superior ao PIB português), um quarto produção industrial e 17% da população. O braço de ferro vai intensificar-se.

A construção da Europa está muito longe de estar terminada. E convém estarmos atentos ao que vai passar -se na Catalunha, pois o desfecho deste processo poderá ter importantes reflexos no nosso país.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Petróleo: Previsões para 2014

A energia fóssil e em especial o petróleo, que é a sua forma mais conveniente de usar, tem sido o fator determinante para o desempenho da economia (uma coisa boa ou má, um dia saberemos!). A longa crise que assola a economia global desde 2008 foi a consequência da escassez e do elevado preço desta matéria prima, que ao condicionar o crescimento económico quebrou a pirâmede de Ponzi do crédito e as suas extravagancias financeiras, com a sequela de estragos que todos conhecemos e os portugueses bem sentiram (e continuam a sentir) na própria pele.

 Estamos no limiar de mais um ano de calendário. A abundância ou a escassez de petróleo e o preço do barril nas bolsas de matérias primas (o Brent, na bolsa de Londres, e o WTI, nos EUA) vão constituir os maiores condicionalismos ao crescimento da economia global no ano que agora começa. E sobre isto existem boas, más e péssimas notícias. Para 2014 a boa notícia é a de que não haverá escassez da matéria prima. A má notícia é a de que o preço do barril se vai manter nos altos valores dos últimos anos, ou seja, à volta dos 100 dólares. A péssima notícia é que, a cada dia que passa, se agrava o conflito entre a natureza e a economia.

Nos últimos 10 anos, mudou muito o panorama no que respeita ao petróleo. Neste período, a extração de crude convencional praticamente estagnou nos 72 milhões de barris por dia, mas com recurso a sofisticadas tecnologias, nessa década, aumentou a produção do crude não convencional. Quando falamos de petróleo não convencional incluímos a exploração em águas profundas (como, por exemplo, na Bacia de Santos, no Brasil), a exploração a partir da areias betuminosas no Canadá (tar sands) e a partir das rochas de xisto nos Estados Unidos (fracking), os biocombustíveis e a produção de hidrocarbonetos líquidos a partir de gás ou de carvão.

O recente desanuviamento das relações do Ocidente (liderado pelos EUA) com o Irão aliviou o embargo às suas vendas de crude, e este país poderá, no ano corrente, fazer aumentar as suas exportações em cerca de 400 mil barris/dia. Mas a situação ainda não está estabilizada, e o Irão, que subsidia fortemente a gasolina doméstica, não tem feito os investimentos necessários para manter e modernizar as suas explorações. A Arábia Saudita já está perto do máximo da sua capacidade de produção (10,5 Mb/d), e não a poderá aumentar muito mais. Mas a Arábia Saudita é um inimigo declarado do Irão, e poderá ser tentada a um esforço suplementar para aumentar as exportações e assim dificultar a reentrada daquela país no negócio.

Para o ano agora iniciado, os especialistas prevêem que o Iraque (para muitos, o eldorado petrolífero) poderá aumentar as suas exportações em 300kb/d. Mas existe o risco de perturbações sociais, e alguns já começam a duvidar dessa possibilidade. O Iraque não é um estado que congregue uma nação, mas sim uma criação artificial saída dos escombros do antigo império Otomano no final da Primeira Grande Guerra. Os conflitos entre etnias e fações religiosas estão longe de ser resolvidos. Neste início de ano, os insurgentes sunitas afetos à Al Qaeda parecem dominar uma vasta área do Iraque e da Síria e controlam a cidade de Falujah com 300,000 habitantes. Está em risco o cumprimento das previsões da AIE (Agência Internacional de Energia) para o Iraque, que apontavam para uma produção de 6 milhões de barris dia em 2020 e de 9 milhões em 2035.

A situação interna na Líbia pós Kaddafi está longe de estar pacificada, e isso fará com que as exportações em 2014 fiquem abaixo dos valores de 2013, estes, por sua vez, muito aquém dos 2,5/3 milhões de b/d anteriores à revolta de 2011. Na confusão existente, as milícias criaram o governo de Cirenaica e oferecem-se para vender petróleo fora do circuito governamental.

Relativamente aos países fora da Opec prevê-se um significativo aumento da produção de 1,4 milhões de barris/dia, sendo a maior fatia proveniente dos Estados Unidos e do Canadá (1,1Mb/d) e os restantes 0,3Mb/d do Brasil e do Kazaquistão, onde a jazida de Kashagan entrará finalmente em produção depois de um longo período de modernização.

O Brasil, por sua vez, tem vindo sucessivamente a adiar os seus novos projetos de lançar a produção das jazidas sub-salinas de águas profundas. Criou-se uma elevada expectativa depois de autoridades governamentais brasileiras terem estimado as reservas em valores irrealistas, que chegaram a ser de 240 mil milhões de barris, correspondentes a 8 anos de consumo mundial e superiores às da Arábia Saudita. Os resultados de algumas perfurações experimentais têm sido dececionantes, e, para agravar a situação, alguns investidores estão a preferir colocar o seu dinheiro em áreas mais promissoras e mais seguras como as tar sands do Canadá ou o fracking nos Estados Unidos.

A grande contribuição para estabilizar a produção petrolífera virá dos Estados Unidos com um aumento previsível de 0,9M b/d, sobretudo em resultado do boom do fracking. Ainda assim, este incremento, a verificar-se, será menor do que o que foi conseguido em 2013. As perspectivas excitantes relativamente a novas zonas de exploração para além de Bakken e Eagle Ford, que até agora têm sido responsáveis por quase todo o crescimento da produção de óleo de xisto, têm levantado celeuma, havendo opiniões que consideram que no futuro as produções serão inferiores às estimadas. Bem vistas as coisas, o fracking é o responsável pela euforia que percorre o mundo e para a recuperação do sentimento otimista que tanta falta faz à economia.

De acordo com J. Lahérrère, na história da exploração de petróleo existiram vários ciclos: o primeiro ciclo entre 1900 e 1945 correspondeu à descoberta e exploração das jazidas em formações (anticlinais) sedimentares de superfície; um segundo ciclo entre 1945 e 1990 correspondeu à descoberta de jazidas menos acessíveis em formações rochosas profundas com recurso a técnicas de prospeção sísmica; o terceiro ciclo, iniciado em 1990, que ainda decorre, consiste na exploração de reservatórios em águas profundas e sub-salinas. O ciclo atual, que agora está a iniciar-se, corresponde à extração mais sofisticada, pelas técnicas de fraturação hidráulica. Em cada novo ciclo acentuou-se a degradação do EROEI (Energy returned on energy invested), isto é, o retorno energético do investimento. O custo energético da extração de cada barril terá aumentado 10 vezes entre o primeiro e o terceiro ciclo, e essa tendência agrava-se no novo ciclo. Não resisto a comparar esta evolução com a que, no dizer de Joseph Tainter, levou à queda do Império Romano, obrigado a procurar, cada vez mais longe e a um custo maior, os escravos, os alimentos e matérias primas de que necessitava.

Começa a generalizar-se o sentimento de que se adiou a crise. Empurrámos o problema para a frente. E ao embalo deste efémero sucesso, nos EUA, já se fala da crise das energias renováveis (cleantech), fortemente subsidiadas. De tal forma, que há dias a CBS no programa "60 minutos" já as anunciava como mortas. Falamos essencialmente de biocombustíveis, energia solar e energia eólica. Nesta nova euforia, as alterações climáticas podem esperar. Fala-se em 2020 como data de novo pico para a exploração das formações de xisto, e a partir desse ano as coisas podem degradar-se muito rapidamente. A dependência da energia fóssil acentua-se, e a esperança de nos libertarmos dela esfuma-se.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O Quarto Sector

A economia mundial está a entrar numa nova fase, a hiperglobalização, que se carateriza pela uniformização dos gostos e dos consumos (tanto de bens físicos como culturais), pela digitalização da informação gráfica e escrita, pela interdependência das economias, pela interatividade da comunicação possibilitada pela internet. A capacidade de armazenar e processar grandes volumes de informação (big data), de manipular os genes dos seres vivos e interferir com a própria identidade das espécies, são outras caraterísticas desta nova fase. São transformações que estão a originar novos negócios, a estabelecer novas atividades, a criar novas profissões. Surgem  poderosas empresas de um novo tipo,  a inteligência passou a ser um produto comercial. Aos poucos, na nova economia, começa a definir-se e a ganhar peso um novo sector de atividade que poderemos designar de quaternário ou de quarto sector

 Tradicionalmente, as atividades económicas repartem-se por três sectores: primário que abrange a agricultura, silvicultura, pecuária, pescas e exploração mineira; secundário que inclui as indústrias transformadoras, a construção  a produção de energia; terciário que integra o comércio e os serviços. Em Portugal, o sector primário tem vindo a perder importância. Segundo dados do INE (Estatísticas do Emprego), em 1974, 35% da população ativa trabalhava no sector primário e em 2012 essa percentagem baixou para 10%. A importância do sector secundário, por sua vez, passou de 34% para 26%. Houve uma grande transferência de emprego para o sector terciário que ocupava 31%  da população ativa em 1974, e que emprega hoje 64% dessa mesma população.

No início do século XX, o sector terciário era incipiente. O aumento gradual da sua importância foi um reflexo das transformações ocorridas durante a era do carbono. Sempre que o homem conseguiu melhorar a forma de produzir mais alimentos, isso permitiu libertar pessoas para outras atividades. O mesmo  aconteceu na revolução agrícola que conduziu à sedentarização. Voltou a acontecer com a introdução de novas técnicas de regadio, com a utilização da charrua de ferro, com o recurso ao trabalho dos animais. Mas foi com a revolução industrial, resultante da máquina a vapor e do carvão, que se iniciou uma profunda alteração na organização social. A mecanização da agricultura e o uso de fertilizantes e de pesticidas deu origem à revolução verde,  que libertou pessoas das tarefas agrícolas, muitas  das quais foram absorvidas pelas fábricas.

Ao mesmo tempo, a eletricidade libertava a mulher das tarefas domésticas. Durante muito tempo, a máquina e a energia substituiram os músculos dos trabalhadores, e, mais recentemente, a robotização já lhes substitui os neurónios. A linha de montagem que era assistida por operários passou a ser automática. Nas fábricas modernas, o trabalho humano, reduzido à sua expressão mais simples, limita-se a vigiar a correta normalidade dos processos. O comércio e os serviços absorveram uma boa parte da mão de obra libertada pela automatização e pelo aumento da eficácia da indústria.

Mas o automatismo está a chegar aos serviços. Os transportes dispensam revisores e cobradores e até condutores. Os serviços financeiros, o comércio, o turismo, a hotelaria, estão também a libertar mão de obra.  A era digital está a eliminar muitas funções das indústrias gráficas e das comunicações. Isto está a criar um enorme paradoxo: a população mundial aumenta, mas o emprego diminui, pois  as necessidades de pessoas para trabalhar são agora menores. Será que o quarto sector vai absorver os excedentes de mão de obra que são o resultado destas transformações?

Na minha opinião, a hiperglobalização enfrentará graves problemas. Não criará empregos suficientes para compensar os que destrói; está na perigosa e arriscada dependência da complexidade; varre para debaixo do tapete os graves problemas da escassez de recursos e da poluição. Não promove igualdades. Não resolve os problemas sociais.  Na verdade, a hiperglobalização irá acentuar as dissonâncias entre  a natureza e a economia. Os recursos continuarão a consumir-se de forma irracional, o planeta continuará a aquecer, as abelhas continuarão a morrer, a biodiversidade vai reduzir-se. No plano social, as grandes contradições não serão resolvidas: alguns ricos ficarão mais ricos, e muitos pobres ficarão ainda mais pobres. O desemprego crescente alimentará uma onda imparável de indignação. E os políticos, obcecados com o crescimento, só acordarão quando a casa comum já estiver a arder.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O Futuro das Cidades


Nas antevisões que fazemos do futuro, temos tendência a valorizar mais o lado bom das coisas e a deixar de lado os aspetos negativos. Foi assim que os nossos avós imaginavam o século XXI: com paz, harmonia social, curas milagrosas e bem estar generalizado. Por isso quando pensamos no futuro das cidades somos levados a imaginar as cidades do futuro. E imaginamos espaços mais verdes e limpos, mais funcionais, mais seguros, mais feitos à medida do homem. Penso que foi esse o sonho de Oscar Niemeyer ao projetar Brasília. Mas as cidades que as novas gerações irão habitar já existem hoje com os seus problemas e com  as suas distorções. Cidades que não foram feitas à medida do homem mas sim à medida do automóvel. Que são o produto duma civilização que se globalizou e que cresceu desmesuradamente.

Em 1950, mais de 70% da população mundial vivia em habitats rurais; em 2050 haverá uma inversão, e essa percentagem reduzir-se-á a 30%. Por outras palavras, a população urbana do planeta era, em 1950,  de menos de mil milhões de pessoas; em 2050 esse valor será superior a seis mil milhões. A urbanização acelerada foi o resultado de um processo que tem a ver com as grandes transformações ocorridas no pós guerra. Ela é uma consequência direta da revolução industrial, mas está relacionada com  a disponibilidade energética proporcionada pela Era do Carbono. Na verdade, o automóvel que criou os subúrbios e o elevador que criou o arranha céus  são os dois principais fatores responsáveis pela urbanização. E atrás deles está, num caso, o petróleo e, no outro, a eletricidade. Ou seja, energia abundante e barata.

 Países emergentes como a China viram, na última década, a sua população urbana crescer desmesuradamente. E o fenómeno das migrações do campo para as cidades continua.  Uma das causas que lhe deram origem foi a  revolução verde que permitiu elevadas produtividades agrícolas como resultado da mecanização e do uso de fertilizantes, e criou  mão de obra excedentária no  espaço rural. E a revolução verde foi, ela própria, resultado da evolução tecnológica, mas, sobretudo, da energia barata.

O tecido urbano das modernas cidades é, hoje, muito diferenciado: mantém-se o velho centro histórico rodeado de uma zona envolvente de serviços e, mais afastados, os subúrbios ou dormitórios. Algumas cidades atingiram dimensão crítica, e podem enfrentar problemas de gestão das redes através das quais fluem os  recursos de que necessitam (alimentos, água, energia)  e os desperdícios que produzem (lixo, esgotos). Por outro lado, o comércio das modernas cidades desenvolveu-se em grandes superfícies centrado no automóvel e que contribuíram para ajudar a desertificar os velhos centros tradicionais e históricos dessas cidades.

Mas o ciclo de crescimento urbano parece estar a terminar. São várias as razões para isso acontecer: a estabilização  da capitação energética, o fim do crescimento económico, o fim da revolução verde, o acréscimo populacional, o desemprego, enfim a crise económica. E as grandes cidades, numa economia em recessão, poderão enfrentar enormes problemas. Cenários de carências, de degradação e de insegurança podem ser a consequência.

Mais importante do idealizar a cidade do futuro, é pensar - e urgentemente - no futuro das nossas cidades. Esse futuro só em parte está nas nossas mãos. As pressões que afetam a economia que são responsáveis pela presente crise económica, vão deixar-nos pouco tempo para divagações arquitetónicas sobre o novo urbanismo. Penso que é altura de nos centrarmos no plano dos princípios: queremos cidades mais à medida dos homens, com mais sustentabilidade, com mais espírito comunitário, menos dependentes do automóvel e com um florescente comércio de proximidade. Afinal, são estes os princípios da Transição.