segunda-feira, 17 de março de 2014

O Último Cerco de Almeida


No Verão de 1810, as tropas francesas de André Massena decididas a conquistar e ocupar Lisboa, escolhem fazê-lo pela rota da Beira, que entra por Almeida e  segue por Pinhel, Trancoso e vale do Mondego até Coimbra, que ficava já na estrada que ia do Porto para a capital do Reino. Wellington, que chefiava as forças opositoras, opta por retardar o mais possível a progressão dos franceses, procura dificultar-lhes o aprovisionamento através da política de terra queimada, e estabelece um reduto defensivo a norte de Lisboa, as famosas Linhas de Torres. Com esta estratégia, esperava o general inglês que as tropas de Massena fossem surpreendidas pelas chuvas outonais, as quais deixariam as estradas em mau estado, enfraquecendo-as e dificultando-lhes a progressão para a capital.

No início do século XIX, A Inglaterra e a França lutavam pela supremacia na Europa. As estrondosas vitórias da Grande Armée de Napoleão frente aos austríacos, aos russos e aos prussianos, permitiam-lhe alimentar o sonho de vencer esta disputa.  A Inglaterra detinha a supremacia nos mares a qual saiu reforçada e incontestada depois da vitória de Nelson em Trafalgar, em 1805. Para os franceses, a península Ibérica, e sobretudo Portugal, tinha uma grande importância. Lisboa com o amplo fundeadouro do Tejo ocupava uma importante posição estratégica que controlava o acesso ao mediterrâneo e à rota da Índia, cruciais para os ingleses. O Brasil com as suas riquezas, onde desde 1808 se encontrava a família real, era outro prémio apetecível. Ora, fechar os portos portugueses aos ingleses era fundamental para os objetivos de Bonaparte.

Pela sua localização e inacessibilidade na extremidade da península Ibérica, Lisboa era uma cidade difícil de conquistar. E foi isto que justificou a secular independência de Portugal.  No início do século XIX, as vias de comunicação terrestres eram más e os rios dificilmente navegáveis. Para quem vem de França, a rota da Beira é o caminho mais direto para Lisboa. Como principais dificuldades, a travessia do Côa e da cordilheira (entre o Caramulo e o Bussaco) que separa o planalto da meseta das planícies do litoral. O primeiro obstáculo militar a vencer era Almeida, um baluarte de fronteira. Ali, entre 1640 e 1810, tinham sido levantadas imponentes fortificações, pensadas e projetadas para uma guerra de artilharia. O local não seria o ideal,  e a configuração do terreno, num plano levemente inclinado, apresentava inúmeras fragilidades. Mas sem alternativas, naqueles 170 anos, as muralhas com os seus baluartes e os seus revelins foram, aos poucos, tomando forma. A fortaleza tinha sido cercada e resistido em 1663, na Guerra da Restauração, e tinha capitulado perante os espanhóis no Verão de 1762, na guerra que se seguiu à recusa de Portugal em assinar o Pacto de Família. O conde de Lippe, contratado por Pombal para reorganizar o exército português, visitou a praça em 1764, e contribuiu para dar um impulso decisivo na finalização das fortificações.

Em agosto de 1810, guarnecida por 5000 homens, bem provida de pólvora e mantimentos, Almeida era um sério obstáculo que Massena tinha de superar. Wellington tinha fixado uma  missão: resistir o máximo de tempo, três semanas, um mês se fosse possível. Naquele embate, Almeida iria ter a oportunidade de mostrar que o esforço de construir tão dispendiosas fortificações, tinha valido a pena. Apesar de que  esta não era uma guerra portuguesa, não se defendia Portugal, nem se lutava na defesa de nenhuma ideologia nacional. O regente tinha fugido para o Brasil e não existia verdadeiramente um governo português. O que restava do nosso exército, uma parte estava na Legião Portuguesa combatendo sob a bandeira das águias do Corso , outra parte estava integrada no exercito inglês e sob o seu comando. Em Portugal, os ingleses ocuparam o vazio existente, e faziam aqui a sua guerra longe do seu território.

Mas naquele fatídico dia 26 de Agosto, escassos dias depois de ter começado o cerco, o destino não deixou que Almeida cumprisse o fim para que fora construída. Um acidente ocorrido no paiol provoca a explosão do castelo e a sua derrocada. Terão morrido cerca de 500 pessoas e ficaram danificadas a maior parte das casas da povoação.  A fortaleza que deveria resistir por semanas não aguenta mais de três dias, e capitula dilacerada e sem glória. Mais tarde, o governador português da praça, que, naquelas condições, pouco mais poderia ter feito a não ser a render-se, haveria de ser acusado de traição e sentenciado à morte pela justiça dos ingleses.

Massena nunca entrará a Lisboa. Em 1815, a França vê os seus sonhos de dominar a Europa desfeitos em Waterloo. Nos 100 anos seguintes, nenhuma potência faria frente à Inglaterra. A partir daí, Almeida como fortaleza deixa de fazer sentido. Quando, em 1914, a Alemanha unificada e forte volta a desafiar os ingleses, a guerra que se segue é já de outro tipo e as escaramuças decorrem noutra geografia. A Espanha também já não constitui uma ameaça à nossa independência. Almeida e as suas muralhas deixaram de ter qualquer sentido estratégico. No século XIX, as casas-matas ainda serviriam de prisão nas lutas liberais.  Em 1927, o último soldado abandona a praça militar.

A fortaleza impensável, erguida no meio de nada, teve 170 anos de vida e sacrificou-se no último cerco. A sua história, a do suor dos seus construtores e a do sofrimento da gente da sua região, ainda está por escrever. As muralhas resistem, praticamente intactas, como seriam há 200 anos. Mas ninguém sabe ao certo o que fazer com elas.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Anos Sessenta

Para a gente da minha geração, parece que foi nos anos sessenta que tudo aconteceu: o rock and roll, os beatles, os rolling stones, o woodstock, os hippies, as calças à boca-de- sino, a minissaia, a vulgarização da pílula, o make love not war, o começar a percorrer o mundo de mochila às costas, a emancipação da mulher, a urbanização, o aparecimento dos subúrbios, o marketing, a ida à Lua, a contestação à guerra por imperativo de consciência, a emancipação dos negros na América e a libertação dos povos africanos. No cinema e na música os nomes dos anos sessenta, formam uma constelação de estrelas: Fellini, Visconti, Hitchcock, Ingmar Bergman, Kubrick, Chabrol, Brigitte Bardot, Sofia Loren, Claudia Cardinali, Jane Birkin, Marilyn Monroe, Elvis Presley, Bob Dylan, Joan Baez, Bob Marley. E tantos outros! E não faltam os mitos e os heróis : Che Guevara, Luther King, John Kennedy, Fidel de Castro, Mao Tse Tung, João XXIII, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira...

 No mundo ocidental, que durante muito tempo foi sinónimo de mundo civilizado e industrializado, esses anos são tempo de mudanças, durante os quais a sociedade se transformou de forma irreversível. De repente, a velha ordem hierárquica e tradicional, baseada nos valores da família, da religião e do amor pátrio, começou a ruir. Foi uma revolução social, direi mesmo uma revolução civilizacional. Aparentemente o driver destas transformações foi uma movimentação dos mais jovens, que interiorizaram a sua predestinação para realizar as mudanças e não hesitaram em tomar nas suas mãos essa missão. O maio de 68 em França e a crise académica de 69 em Portugal são momentos dessa afirmação.

No início da década de sessenta, a geração nascida durante a guerra e nos anos seguintes começava a chegar às universidades. Mas já não eram apenas os filhos das elites que ascendiam ao ensino superior. Na velha sociedade hierárquica e estruturada, a Universidade era o filtro de malha fina que limitava a ascensão social. Isso era muito evidente no nosso País onde, ao contrário do que se passava nos EUA, a via do sucesso empresarial ou comercial foi sempre mal vista como forma de reconhecimento social. Entre nós, desde que acabou a fidalguia, a pertença ao mundo dos doutores passou a ser a principal marca do elitismo.

Em Portugal, os anos sessenta são ainda tempos de ditadura, de censura, mas agora também das grandes migrações (para a Europa, para as cidades do litoral) , das crises académicas, da guerra colonial, das canções de protesto. Apesar da exaltação nacional que foi o campeonato do mundo de futebol de 1966, e das glórias europeias do Benfica, a repressão gerava a contracultura: éramos anti-regime, anti-fado, anti-futebol, anti-nacional-cançonetismo e anti-religião. Ao som dos long plays, da rádio, da música inglesa, do em órbita viviam-se os últimos tempos românticos. Tempos em que o amor começava com la main dans la main, les yeux dans les yeux.

Mas, nessa década, quase sem nos darmos conta, teve também lugar uma revolução energética que transformou a nossa forma de viver. Em 1960, a economia mundial absorvia 20 milhões de barris de petróleo por dia que corria abundante e barato. O crescimento precisava de mais e mais crude. E ele jorrava fácil no Texas, no deserto da Arábia, no Irão e no Iraque. No final da década, o consumo mundial de petróleo era já de 50 milhões de barris por dia. Foi essa energia que levou o conforto aos lares e fez esquecer o tempo das privações, provocando uma mobilidade social nunca antes imaginada.

Mas foi nos anos sessenta que lançámos à terra as sementes do diabo. E os frutos amargos que hoje delas colhemos são o consumismo, a poluição, a globalização, a extinção das espécies, os transgénicos e o aquecimento global. Frutos que por sua vez são causas da crise, das desigualdades e do desemprego. Estamos ainda a digerir as transformações dos anos sessenta, e a adaptarmo-nos a elas. Em 1965, a população mundial era de 3,5 mil milhões de pessoas, e, desde esse ano até hoje, ela duplicou. Mas o planeta é o mesmo, e está mais maltratado. Já percebemos que, nalguns aspetos, fomos longe demais. Acreditámos que não havia limites, e agora sabemos que eles existem. E estão à vista.

Foi esse o nosso tempo.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

25 de Abril, 40 Anos Depois

Nos anos que se seguiram ao final da Segunda Grande Guerra, o esforço de reconstrução dos estragos provocados pelo conflito, o recurso a novas tecnologias desenvolvidas pela indústria militar e a disponibilidade de uma energia abundante e barata (o petróleo), provocaram um elevado crescimento económico acompanhado de um grande progresso social. No mundo ocidental, reeditou-se a febre consumista dos loucos anos vinte americanos. Entre as mudanças que contribuíram para a prosperidade e para o pleno emprego, contam-se a urbanização, a emigração, a ascensão social da mulher - libertada de tarefas do lar pela vulgarização dos eletrodomésticos -, a generalização do uso do automóvel, o acesso dos jovens de camadas sociais mais desfavorecidas à educação. Os acordos de comércio livre impulsionaram as trocas comerciais,  afirmou-se a globalização, as multinacionais ganharam um grande poder, acentuou-se a  interdependência entre Estados e economias. Em muitos países começou a ganhar forma o Estado Social.

Fora do mundo industrializado, estavam em curso mudanças históricas, impensáveis trinta anos antes. Uma grande parte do então chamado terceiro mundo começou a libertar-se das potências administrantes. A  Indonésia proclamou a independência da Holanda  em agosto de 1945, dois dias após a rendição do Japão, a Índia tornou-se independente em 1947, a Indochina e a Argélia ascendem à independência depois de conflitos sangrentos com a França.  Chegou a vez da África subsariana, onde a partir dos anos 60, as colónias francesas, inglesas e o Congo Belga proclamam a independência. O antigo mundo colonial estava a dar origem a um  mundo novo ávido de aprender, de crescer e de se industrializar.

Apesar da famosa afirmação de Churchill, feita após a vitória dos aliados,  que das ditaduras europeias não ficaria pedra sobre pedra, Portugal conseguiu manter, após 1945, um regime ditatorial obsoleto, sem liberdade, sem partidos políticos, com censura e com forte repressão.  Acompanhado da Espanha, os dois países constituíam uma espécie de mundo à parte na Europa Ocidental. A economia portuguesa apoiava-se nas colónias que forneciam matérias primas e eram o destino de uma boa parte das suas exportações. As remessas dos emigrantes (que abandonavam a salto o país a caminho da Europa), o turismo, o protecionismo industrial e a entrada de multinacionais trouxeram algum progresso.

Quando, em 1961, os ventos da independência chegam às colónias portuguesas de África, o desafio que se colocou ao regime, pondo à prova a sua força e coesão foi saber qual a decisão a tomar. A opção  pela guerra fez abrirem-se, num ápice, três frentes de combate em Angola, Moçambique e Guiné. O governo português ao tomar esta decisão acreditou poder manter um império colonial à portuguesa, pluricontinental e plurirracial (com o Brasil apontado como exemplo) . Os governantes terão admitido terem a seu favor o facto de poderem apresentar-se ao Ocidente como um bastião para conter o avanço comunista e, assim, obter o seu apoio. Mas a América, saída do pós guerra como o líder do mundo ocidental, sendo anti-comunista, era também anti-colonialista. A possibilidade de emergir na África Austral um bloco com relevância económica e enormes recursos, liderado pela África do Sul, terá pesado também na decisão de fazer a guerra.

Nessa altura, os interesses económicos da elite dominante centrados em África, sobrepuseram-se a uma visão desapaixonada da história. Saber se naquelas condições era possível ou viável outra opção é a questão que ficará sem resposta.  Seguiu-se uma guerra longa e desgastante. Muitos se  interrogam ainda hoje, como foi possível a um pequeno país - pobre e isolado internacionalmente - mantê-la durante 13 anos! No seu início, certamente,poucos previam essa tenacidade e essa capacidade. Terá sido a força ou a teimosia (mas não há teimosia sem força!) do regime ou a fraqueza da oposição?

Em 1974, Portugal estava já exaurido de recursos humanos e económicos para manter as três frentes da guerra colonial. A crise mundial de 1973, resultante  do choque petrolífero provocado pelo embargo dos países da OPEP, só veio agravar a situação. Estava em ascensão, tanto no plano civil como militar, a geração que tinha nascido no pós guerra, que tinha vivido o maio de 68; ao mesmo tempo, estava a desaparecer a geração que tinha implantado e consolidado o regime e testemunhado os anos da guerra civil  espanhola. No regime, desaparecida a figura tutelar, abriam-se fendas, e surgia a ala liberal. O isolamento internacional era sufocante. Portugal já não tinha aliados.

É certo que a guerra colonial não estava perdida no terreno, mas era cada vez mais evidente que não se podia vencer. O tempo e os ventos da história estavam contra nós. A causa estava perdida.  O desfecho não podia ser outro: o sistema que atara o nó nunca mais o poderia desfazer. Alguém tinha de o fazer por ele. O dia da derrocada não estava marcado no calendário, mas o 25 de Abril estava inscrito na História. Nesse dia o regime velho de 48 anos caiu de podre, desfez-se, entregou-se sem luta, sem honra e sem dignidade. Portugal chegava à democracia com trinta anos de atraso.

Eu tinha 28 anos no 25 de Abril. Era a idade do sonho, da esperança e da generosidade. Inebriei-me com a explosão da Liberdade e assisti ao tempo do 25 de Abril na primeira fila.  Depois da euforia, quando a poeira começou a assentar, decidi subir a escada da vida, e Abril ficou lá atrás. Hoje, passados 40 anos sobre aquela manhã incrível, em que tudo parecia irreal, torna-se obrigatório refletir sobre o que foi aquele momento, perceber qual o seu significado e indagar sobre as causas que lhe deram origem.

Para a minha geração, o 25 de Abril representou também uma libertação interior.  Uma paixão que não se repetirá. E que me faz evocar o filme Casablanca, quando Rick (Humphrey Boggart), ciente de que o antigo amor vivido na Paris ocupada, já não poderia ser revivido em Casablanca, diz a  Ilsa (Ingrid Bergmann):  We'll always have Paris. Da mesma forma, eu digo: I'll always have AbrilPerdi o sonho e a esperança, esforço-me por manter a generosidade.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Viagem à Capital do Reich

Não conhecia Berlim. A minha ideia da cidade era um leve esboço, resultado de leituras da adolescência, enquadrado pelo ambiente que envolvia o filme Cabaret com Liza Minelli. Nesse quadro predominava a Berlim do início dos anos 30, povoada de femmes fatales, estilo Marlene Dietrich dos filmes de Sternberg. Depois, havia a outra faceta: a Berlim da guerra, dos desfiles nazis, das perseguições aos judeus, da cidade bombardeada e da famosa fotografia dos soldados soviéticos a hastear a bandeira vermelha no Reichstag em ruínas. Mais recentemente, a Berlim dividida pelo muro, do Ich bin ein Berliner de Kennedy. E, finalmente, a cidade reunificada. Renascida das cinzas, como a Fénix, Berlim volta a ser a capital do Reich, e aspira ser a capital duma Europa à procura de si própria.

Foi esta nova Berlim que eu fui conhecer no fim de semana passado. Uma cidade ampla, acolhedora e em movimento. Uma cidade com gente jovem. Uma cidade de cultura. Chega-se a Berlim pelo velho aeroporto de Schönefeld, que servia a antiga parte oriental, e que vai, muito em breve, dar lugar a um novo aeroporto, mais moderno. O comboio leva-nos ao centro da cidade. Deu para perceber a eficiência de um sistema de transportes baseado no metro e no comboio urbano. Ficamos num hotel familiar perto do centro, na antiga parte oriental, situado numa rua comercial com restaurantes sírios, vietnamitas, japoneses, italianos, e onde não falta uma livraria portuguesa, uma espécie de alfarrabista.

A nova Berlim recuperou o seu centro monumental onde sobressaem o Reichstag, a porta de Brandenburgo, e o memorial ao Holocausto construído exatamente no lugar  do bunker onde, em Abril de 1945, Hitler se suicidou juntamente com Eva Braun. O Tieregarten é um parque citadino, orgulho dos berlinenses que o comparam ao Central Parque de Nova Iorque. Não pudemos visitar o imponente Reichstag, pois era necessário marcar a visita com semanas de antecedência. Fizemos o circuito turístico que deu para ficar com uma ideia da cidade,  e ver  o que resta do muro, no celebrado Check Point Charlie.

Berlim é uma cidade com muitos museus. Mas como não se pode visitar tudo, optámos pelo museu Pergamon . No final do século XIX, após a conferência de Berlim, uma grande parte do mundo, fora da Europa, estava debaixo da alçada do império britânico. Foi a época das grandes explorações. Os alemães, sem a tradição marítima e sem os imensos territórios de África, da Ásia e da Austrália dos ingleses, não quiseram ficar atrás deles. Voltaram-se para os territórios do Império Otomano: Turquia, Síria, Líbano, Egipto. Aí pesquisaram, descobriram, escavaram, e, sempre que os deixaram, levaram tudo o que encontraram para Berlim. No Pergamon podemos ver, em três reconstituições fabulosas, uma parte desse espólio: a porta de Ishtar na Babilónia, com os seus dragões, o portal da entrada do mercado de Mileto, e o altar de Pérgamo. O extraordinário trabalho de recuperação realizado, e a possibilidade de o visitar em condições ótimas, retira qualquer significado à discussão sobre se havia ou não o direito de desviar estes achados dos seus locais de origem. Depois desta visita, pela parte que me toca, absolvo os alemães de qualquer pecado sobre este assunto...O esplendor das civilizações da Mesopotâmia poderia ter-se perdido para sempre, e nunca chegar a ser conhecido em toda a sua amplitude, sem este fabuloso trabalho de recuperação, catalogação, restauro e enquadramento museológico.

A noite de sexta feira foi dedicada a assistir  a um concerto da famosa Filarmónica de Berlim.  Dirigia a orquestra o maestro americano Herbert Blomstedt, já nonagenário. Na segunda parte, a orquestra  interpretou a famosa Sinfonia Fantástica de Hector Berlioz. Um drama instrumental como aparecia referido no programa.  É um privilégio poder ouvir uma das melhores orquestras do mundo, para muitos a melhor, numa sala que, dizem os entendidos, reúne condições acústicas excecionais. 

No sábado foi tempo de visitar o mercado de antiguidades, na rua, junto ao Jardim Zoológico, num canto do Tieregarten. Depois de um almoço bem alemão  (wurst, a famosa salsicha, com mostarda e choucroute),  foi o deslumbramento do consumismo na visita aos grandes armazéns  KaDeWe, situados no centro comercial da antiga Berlim Ocidental. Ficamos esmagados pela diversidade e pela abundância cornucopiana dos produtos expostos. E pela avidez dos consumidores.

A Alemanha, sem história, não é verdadeiramente uma  nação como a Inglaterra ou a França. E só uma não-nação com o peso económico da Alemanha, libertada de ambições imperialistas e de preconceitos rácicos, pode liderar a construção de uma Europa que precisa de se libertar do espartilho das nações (onde se inclui a  própria Alemanha) que há um século atrás a mergulharam em duas guerras sangrentas. Berlim aspira, com razão, a ser a capital dessa Europa. Não é seguro que o consiga, mas sem Alemanha não haverá Europa.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Opinião e Educação

Na opinião de muitos dos professores participantes  no Nepso - a nossa Escola pesquisa a sua opinião - da Fundação Vox Populi, o programa tem-se revelado ser uma ferramenta útil e importante para a aprendizagem.  Os alunos pesquisam, trabalham em equipa, vencem obstáculos, criam conhecimento. E, em muitos casos, entusiasmam-se e mostram-se empolgados com os resultados. No ensino tradicional, tudo se orienta para o saber que. Com os projetos do Nepso procura-se que os alunos fiquem a saber como.  No início, ao escolherem o tema que vão pesquisar, os participantes acham que sabem muito sobre ele. Mas rapidamente descobrem quão pouco sabem. Ao longo do projeto, assiste-se a uma evolução que parte da opinião sobre um assunto para chegar ao conhecimento sobre esse assunto.

Os gregos utilizavam a palavra doxa (que encontramos em ortodoxo, por exemplo) para significar  as crenças, os juízos, as tradições do povo, que constituem a sabedoria popular. O conceito  corresponde ao de opinião pública no sentido que hoje lhe damos; por oposição, eles designavam por epistemê o saber científico, fundamentado e reservado a uma elite estudiosa, esforçada e desejosa de aprender.  Platão, que se ocupou do assunto nos seus diálogos, considerava que a doxa era manipulada pela retórica dos sofistas. E que isso punha em causa a própria democracia. Porque, em democracia, o poder detido pelos governantes, emana do povo que os elege. Ora a força do povo está no voto, que traduz e representa a opinião pública. E se a opinião publica não é o verdadeiro conhecimento, e pode ser manipulada, então a democracia que dela deriva assenta em sofismas e não na verdade.  Penso que será este o argumento dos que defendem que a democracia tem de evoluir para a meritocracia.

No mundo atual, dominado pelos regimes democráticos, a questão da opinião pública e da democracia não pode ser ignorada. Na Alemanha dos anos 30, a opinião pública era favorável a Hitler, condenava os judeus, aceitava naturalmente a supremacia da raça ariana.  Também no Portugal do Estado Novo a doxa era salazarista. Serão casos extremos, concordo, onde não existia liberdade e se manipulava a opinião das pessoas pela propaganda. Mas o essencial mantém-se: o objetivo do discurso político não é o epistemê, mas sim a doxa. Entre um discurso demagógico ou sofista que traz votos e um discurso realista e verdadeiro que afasta votos, o político opta pelo primeiro.  E sabendo que é a opinião pública que está na base do poder, recorre-se a técnicas para formar ou deformar essa opinião. A importância e o papel dos meios de comunicação  e das sondagens é mais do que conhecida. O efeito de entrar no bandwagon (à letra o carro da banda, em português traduzido no ditado maria vai com as outras) diz-nos que uma opinião reconhecida como dominante tende a atrair cada vez mais pessoas. E em tudo, na política e até na economia, procura criar-se a moda favorável, seja a que preço for.

A Escola deve formar homens e mulheres preparados para tomarem as suas decisões, e fazerem as suas opções com base no epistemê e não na doxa. Para a formação das crenças, para a afirmação dos valores, para a construção da personalidade contribuem vários fatores: familiares, sociais e, sobretudo, educacionais. No tempo que vivemos, o papel da escola dilui-se. A televisão e a internet absorvem uma boa parte do nosso tempo, e têm uma enorme influência na formação da personalidade e da opinião acéfala. Mas a Escola pode e deve contrariar a retórica sofista como a definia Platão.

O Nepso é uma ferramenta orientada para o epistemê, que ajuda os jovens a encontrar o caminho para construir opinião crítica e fundamentada.



segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Espanha, aqui tão perto!

A República da Catalunha chegou a ser proclamada unilateralmente, com a criação da II República Espanhola em 1931. No ano de 1932, depois de prolongadas negociações, aprovou-se o seu Estatuto. Foi criada a Comunidade Autónoma da Catalunha, tendo sido eleito Presidente da Generalitat Francesc Macià. Com a derrota dos Republicanos na Guerra Civil (1936-1939), a Catalunha perdeu novamente a sua autonomia. Todas as instituições do governo catalão foram banidas, e seguiu-se uma importante e pesada repressão cultural e linguística por parte do Estado franquista. Em 1975, a região recuperou novamente a sua autonomia e o seu idioma. A luta pelo reforço da autonomia prosseguiu, e após um longo período de conflito aberto com o Governo Central, o chefe do governo regional da Catalunha está agora determinado a convocar um referendo sobre a independência da região. E, segundo as sondagens, conta com o apoio da maioria dos catalães.

 Artur Mas, o Presidente da Generalitat, anunciou para o dia 9 de Novembro deste ano a realização de um referendo sobre a independência da Catalunha. Será uma consulta com duas perguntas: 1) Quer que a Catalunha seja um Estado? 2) Em caso afirmativo, quer que seja um Estado independente? O presidente do Governo espanhol, Mariano Rajoy, já veio dizer que o referendo é ilegal por ser inconstitucional, e que só o Governo central tem competência para o convocar, lembrando ainda que o assunto diz respeito a todos os espanhóis e não apenas aos catalães. O presidente da União Europeia, Herman Van Rompuy, já declarou que caso a Catalunha se torne independente será considerado um novo Estado fora da União Europeia, devendo, para reingressar, obter o apoio de todos os outros 27 estados membros. Também a Nato se mostrou desfavorável à independência. Outros governantes Europeus têm-se remetido ao silêncio, dizendo que esta questão é do foro interno dos espanhóis.

O caso da Catalunha não é único na Europa. Não pode desligar-se aquilo que se passa na Catalunha com o que se passa na Escócia, onde um referendo com um propósito semelhante terá lugar em Setembro. E também a Bélgica se depara com o problema das nacionalidades. O precedente do Kosovo, que se autonomizou da Sérvia e acabou sendo reconhecido pela comunidade internacional, será invocado pelos catalães. A independência da Catalunha teria um efeito de dominó sobre muitas outras nacionalidades em toda a Europa.

Uma Catalunha independente seria uma má notícia para a já muito fragmentada União Europeia. Mas negar o sagrado princípio, que advoga o direito que um povo tem de escolher o seu destino, será uma posição muito difícil de sustentar para uma comunidade construída sobre esse mesmo fundamento. Os argumentos legais são fracos e terão de ser usados outros. A dissuasão da intenção dos catalães irá ser feita pela via económica e política. Haverá negociações, e o mais certo será tudo acabar com um reforço da autonomia, no plano fiscal, no plano judicial e no plano diplomático.

Se a chama da independência deflagrar na Catalunha, o incêndio irá alastrar-se ao País Basco e a outras comunidades autonómicas. Uma solução de compromisso poderá ser o federalismo. E a posição de Lisboa, com uma Espanha federada, até seria reforçada. Mas em Portugal pouco se fala deste assunto, pensa-se que o tempo irá decidir as coisas, e que uma solução será encontrada. Para salvaguardar uma identidade separada das outras nações ibéricas, temos a nosso favor a história e a lusofonia. Na verdade, e com uma Espanha federada, a grande força de Portugal (possivelmente a única), e que justificará a sua independência, são os 220 milhões de pessoas que falam português.

Como irão evoluir as coisas, saber se haverá ou não referendo, e quais as consequências de um "sim" às perguntas formuladas é a grande interrogação do momento. Sabe-se como este processo começou, que as coisas já foram demasiado longe, e que o seu desfecho é imprevisível. Dificilmente os catalães recuarão na sua pretensão, e dificilmente o governo de Madrid a aceitará. A Catalunha representa 20% do PIB espanhol (superior ao PIB português), um quarto produção industrial e 17% da população. O braço de ferro vai intensificar-se.

A construção da Europa está muito longe de estar terminada. E convém estarmos atentos ao que vai passar -se na Catalunha, pois o desfecho deste processo poderá ter importantes reflexos no nosso país.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Petróleo: Previsões para 2014

A energia fóssil e em especial o petróleo, que é a sua forma mais conveniente de usar, tem sido o fator determinante para o desempenho da economia (uma coisa boa ou má, um dia saberemos!). A longa crise que assola a economia global desde 2008 foi a consequência da escassez e do elevado preço desta matéria prima, que ao condicionar o crescimento económico quebrou a pirâmede de Ponzi do crédito e as suas extravagancias financeiras, com a sequela de estragos que todos conhecemos e os portugueses bem sentiram (e continuam a sentir) na própria pele.

 Estamos no limiar de mais um ano de calendário. A abundância ou a escassez de petróleo e o preço do barril nas bolsas de matérias primas (o Brent, na bolsa de Londres, e o WTI, nos EUA) vão constituir os maiores condicionalismos ao crescimento da economia global no ano que agora começa. E sobre isto existem boas, más e péssimas notícias. Para 2014 a boa notícia é a de que não haverá escassez da matéria prima. A má notícia é a de que o preço do barril se vai manter nos altos valores dos últimos anos, ou seja, à volta dos 100 dólares. A péssima notícia é que, a cada dia que passa, se agrava o conflito entre a natureza e a economia.

Nos últimos 10 anos, mudou muito o panorama no que respeita ao petróleo. Neste período, a extração de crude convencional praticamente estagnou nos 72 milhões de barris por dia, mas com recurso a sofisticadas tecnologias, nessa década, aumentou a produção do crude não convencional. Quando falamos de petróleo não convencional incluímos a exploração em águas profundas (como, por exemplo, na Bacia de Santos, no Brasil), a exploração a partir da areias betuminosas no Canadá (tar sands) e a partir das rochas de xisto nos Estados Unidos (fracking), os biocombustíveis e a produção de hidrocarbonetos líquidos a partir de gás ou de carvão.

O recente desanuviamento das relações do Ocidente (liderado pelos EUA) com o Irão aliviou o embargo às suas vendas de crude, e este país poderá, no ano corrente, fazer aumentar as suas exportações em cerca de 400 mil barris/dia. Mas a situação ainda não está estabilizada, e o Irão, que subsidia fortemente a gasolina doméstica, não tem feito os investimentos necessários para manter e modernizar as suas explorações. A Arábia Saudita já está perto do máximo da sua capacidade de produção (10,5 Mb/d), e não a poderá aumentar muito mais. Mas a Arábia Saudita é um inimigo declarado do Irão, e poderá ser tentada a um esforço suplementar para aumentar as exportações e assim dificultar a reentrada daquela país no negócio.

Para o ano agora iniciado, os especialistas prevêem que o Iraque (para muitos, o eldorado petrolífero) poderá aumentar as suas exportações em 300kb/d. Mas existe o risco de perturbações sociais, e alguns já começam a duvidar dessa possibilidade. O Iraque não é um estado que congregue uma nação, mas sim uma criação artificial saída dos escombros do antigo império Otomano no final da Primeira Grande Guerra. Os conflitos entre etnias e fações religiosas estão longe de ser resolvidos. Neste início de ano, os insurgentes sunitas afetos à Al Qaeda parecem dominar uma vasta área do Iraque e da Síria e controlam a cidade de Falujah com 300,000 habitantes. Está em risco o cumprimento das previsões da AIE (Agência Internacional de Energia) para o Iraque, que apontavam para uma produção de 6 milhões de barris dia em 2020 e de 9 milhões em 2035.

A situação interna na Líbia pós Kaddafi está longe de estar pacificada, e isso fará com que as exportações em 2014 fiquem abaixo dos valores de 2013, estes, por sua vez, muito aquém dos 2,5/3 milhões de b/d anteriores à revolta de 2011. Na confusão existente, as milícias criaram o governo de Cirenaica e oferecem-se para vender petróleo fora do circuito governamental.

Relativamente aos países fora da Opec prevê-se um significativo aumento da produção de 1,4 milhões de barris/dia, sendo a maior fatia proveniente dos Estados Unidos e do Canadá (1,1Mb/d) e os restantes 0,3Mb/d do Brasil e do Kazaquistão, onde a jazida de Kashagan entrará finalmente em produção depois de um longo período de modernização.

O Brasil, por sua vez, tem vindo sucessivamente a adiar os seus novos projetos de lançar a produção das jazidas sub-salinas de águas profundas. Criou-se uma elevada expectativa depois de autoridades governamentais brasileiras terem estimado as reservas em valores irrealistas, que chegaram a ser de 240 mil milhões de barris, correspondentes a 8 anos de consumo mundial e superiores às da Arábia Saudita. Os resultados de algumas perfurações experimentais têm sido dececionantes, e, para agravar a situação, alguns investidores estão a preferir colocar o seu dinheiro em áreas mais promissoras e mais seguras como as tar sands do Canadá ou o fracking nos Estados Unidos.

A grande contribuição para estabilizar a produção petrolífera virá dos Estados Unidos com um aumento previsível de 0,9M b/d, sobretudo em resultado do boom do fracking. Ainda assim, este incremento, a verificar-se, será menor do que o que foi conseguido em 2013. As perspectivas excitantes relativamente a novas zonas de exploração para além de Bakken e Eagle Ford, que até agora têm sido responsáveis por quase todo o crescimento da produção de óleo de xisto, têm levantado celeuma, havendo opiniões que consideram que no futuro as produções serão inferiores às estimadas. Bem vistas as coisas, o fracking é o responsável pela euforia que percorre o mundo e para a recuperação do sentimento otimista que tanta falta faz à economia.

De acordo com J. Lahérrère, na história da exploração de petróleo existiram vários ciclos: o primeiro ciclo entre 1900 e 1945 correspondeu à descoberta e exploração das jazidas em formações (anticlinais) sedimentares de superfície; um segundo ciclo entre 1945 e 1990 correspondeu à descoberta de jazidas menos acessíveis em formações rochosas profundas com recurso a técnicas de prospeção sísmica; o terceiro ciclo, iniciado em 1990, que ainda decorre, consiste na exploração de reservatórios em águas profundas e sub-salinas. O ciclo atual, que agora está a iniciar-se, corresponde à extração mais sofisticada, pelas técnicas de fraturação hidráulica. Em cada novo ciclo acentuou-se a degradação do EROEI (Energy returned on energy invested), isto é, o retorno energético do investimento. O custo energético da extração de cada barril terá aumentado 10 vezes entre o primeiro e o terceiro ciclo, e essa tendência agrava-se no novo ciclo. Não resisto a comparar esta evolução com a que, no dizer de Joseph Tainter, levou à queda do Império Romano, obrigado a procurar, cada vez mais longe e a um custo maior, os escravos, os alimentos e matérias primas de que necessitava.

Começa a generalizar-se o sentimento de que se adiou a crise. Empurrámos o problema para a frente. E ao embalo deste efémero sucesso, nos EUA, já se fala da crise das energias renováveis (cleantech), fortemente subsidiadas. De tal forma, que há dias a CBS no programa "60 minutos" já as anunciava como mortas. Falamos essencialmente de biocombustíveis, energia solar e energia eólica. Nesta nova euforia, as alterações climáticas podem esperar. Fala-se em 2020 como data de novo pico para a exploração das formações de xisto, e a partir desse ano as coisas podem degradar-se muito rapidamente. A dependência da energia fóssil acentua-se, e a esperança de nos libertarmos dela esfuma-se.