segunda-feira, 12 de maio de 2014

Os Estados Críticos



Na Europa ocidental da Idade Média, com a economia centrada no  artesanato e na agricultura, a Igreja desempenhava um papel importante. Nos reinos medievais, a Igreja estava incumbida de funções administrativas, registava os casamentos, os batizados e os óbitos. Era também a igreja que, através da caridade, assegurava o apoio social, que ministrava a educação e os cuidados de saúde. Era o papa de Roma que  tutelava e reconhecia os Reis. As elites que administravam os estados medievais detinham a  posse e administravam as terras e asseguravam a defesa do Reino. Com a revolução industrial as coisas mudaram e a Igreja foi gradualmente perdendo a sua importância.

 Na economia mundial, hoje identificada como a economia de mercado ou o capitalismo, coexistem duas entidades  fundamentais: os estados e as grandes empresas multinacionais. Elas têm funções muito diferentes. Um Estado pressupõe um território, um governo, uma população e uma soberania. Para as empresas multinacionais apenas interessa a população, o seu poder de compra e o enquadramento legal do exercício da atividade económica. Em síntese, os estados governam países, as multinacionais exploram mercados. Numa economia próspera, a convivência entre países e mercados tem sido pacífica e até proveitosa para ambas as partes. As multinacionais pagam impostos, geram empregos, aceleram o crescimento. E os países progridem.

Duzentos anos atrás no tempo da conferência de Viena que, em 1815,  definiu fronteiras na Europa após as guerras napoleónicas, o número de países contava-se por dezenas. Atualmente existem no mundo 196 países reconhecidos, dos quais 193 são membros da ONU. Todas as partes do planeta, mesmo as mais recônditas,  pertencem a algum deles. Até o território da Antártida está atribuído à jurisdição de algum país. Mas nem todos os países são iguais. Entre a riqueza per capita do país mais rico e a do país mais pobre a relação é de 250 para 1. É entre estados que as desigualdades económicas e sociais são mais flagrantes.

Quando falamos de um país estamos também a falar de um estado e os dois conceitos apresentam-se, muitas vezes, como sinónimos.  Um país pressupõe a existência de um estado, e um estado pressupõe a existência de um país. O estado é uma estrutura orgânica que suporta a existência de um país. Está organizado, tem um governo, uma população, um território e uma soberania. Tem leis próprias, e, nos modernos estados, uma Constituição que é a sua lei fundamental.  Ao contrário do país que permanece estável, o estado é dinâmico. Podemos, por exemplo, perguntar se Portugal, a nossa pátria comum, é a mesma coisa que o Estado Português? Portugal já foi um estado monárquico, e hoje é uma república, e já teve várias constituições e vários governos. Ou seja, o país é o mesmo mas o estado pode mudar.

Com a integração de Portugal na União Europeia o papel do Estado vai alterar-se. Quando a União Europeia tiver uma constituição própria, e uma política fiscal e orçamental comum, fará sentido falar dos seus estados membros como países independentes? Podemos talvez falar de clusters de estados ou se um super Estado. Se a Europa, como tudo indica, tiver, no futuro, uma política externa e de defesa comum, então os países que a integram perdem uma das caraterísticas que os identificam como estados, que é a soberania.  Muitos acreditam que aquilo que está a acontecer na Europa será o  modelo para  organizar o mundo do futuro. Mas, para que tal se torne realidade, o caminho a percorrer em muitas zonas, nomeadamente na África, na Ásia e na América Latina, é longo e cheio de escolhos.

Na previsível  situação de profunda crise que o capitalismo do século XXI vai enfrentar, muitos mercados vão deixar de ser atrativos para as empresas multinacionais. Ora, abandonar um mercado é muito fácil para essas empresas. Haverá muitos países cujos estados vão ser abandonados à sua sorte. Serão os países mais pobres, com menos recursos, os que têm mais elevadas taxas de crescimento demográfico e menos proteção social.  E são aqueles onde o impacto das alterações climáticas se fará sentir com mais intensidade. São esses os Estados Críticos que constituem o elo mais fraco da Economia Global.

Quando isso acontecer vai colocar-se a questão da solidariedade, conceito que a economia dos mercados entende mal. E a humanidade terá de enfrentar uma situação nova, e, a bem ou a mal, muita coisa vai ter de mudar.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

As Sementes da Democracia


Não há machado que corte a raiz ao pensamento,
não há morte para o vento...
Manuel Feire/Carlos Oliveira

Durante os vinte séculos que precederam a Era Cristã, floresceram na parte leste do Mediterrâneo civilizações onde conviveram diferentes povos: os eólios, os jónios, os aqueus e os dórios. Tinham em comum a língua e a religião, e eram providos de um pensamento criativo, fecundo e curioso. A cultura, as obras literárias, artísticas e monumentais que estes povos nos legaram, formam aquilo que ficou conhecido como a Civilização Grega. Terá sido o mais importante contributo para o progresso da Civilização Ocidental, que haveria de estender-se primeiro à Europa, e depois a todo o planeta.

Percorrer a Grécia atual é sentir a emoção do reencontro com essas nossas raízes culturais e civilizacionais. Foi sobretudo na Grécia do período clássico - o famoso século de Pericles -  que o homem se libertou de crenças e preconceitos sociais e religiosos e, pela primeira vez de forma sistemática, se interrogou sobre o mundo que o rodeava. Foi ali, durante esse mesmo período, quando deixaram de existir os condicionalismos psicológicos, educacionais e religiosos que anteriormente aprisionavam a mente humana, que nasceu o conceito de Liberdade tal como hoje o entendemos. Na medida em que questionava até o próprio conhecimento - só sei que nada sei! -, a Filosofia, nascida na Grécia, é a expressão máxima da Liberdade do pensamento humano. A forma de governo que foi adotada em Atenas no início do século V (AD), no período de reconstrução que se seguiu à destruição da cidade provocada pelas Guerras Persas, representa um avanço civilizacional extraordinário. Seria necessário esperar mais de vinte séculos pela Independência Americana e pela Revolução Francesa para se recuperar o princípio de que o poder dos governantes reside na demos e só dela emana.

Como se alcançou tão extraordinário momento é algo que ainda hoje podemos sentir viajando pela Grécia. Favorecidas pela geografia que lhes abria o mar para novas culturas e novas rotas comerciais, pela acidentada orografia que as protegia das invasões e dos ataques inimigos, pela amenidade do clima que convidava à discussão nas ágoras e nos areópagos, as cidades gregas reuniram as condições para a ocorrência da mutação civilizacional que foi o aparecimento da democracia. Nesse processo, a mitologia e a escrita desempenharam um papel importante. A mitologia grega contextualiza uma religião aberta que aproxima os homens dos deuses. Entre uns e outros não se criaram barreiras intransponíveis. O homem podia aspirar a ser um deus, e os deuses sentiam e sofriam como os homens, podiam ser coléricos ou ciumentos, ter arrebatamentos e paixões.

A língua e a escrita dos gregos tiveram uma grande importância na difusão das ideias, na consolidação do seu pensamento e na estruturação das suas crenças. Nos primórdios, em Creta e em Micenas, a escrita grega era pictográfica, fazendo lembrar os hieróglifos egípcios, onde certamente se inspirou. Foi nessa escrita que se gravaram as famosas tábuas de argila descobertas no palácio de Cnossos, em Creta, que o arqueólogo Arthur Evans revelou ao mundo. E o genial Michael Ventris, que as decifrou, demonstrou que elas tinham por base a fonética e a língua grega. Foi nesse período - chamado de período arcaico - que têm raízes as grandes lendas e mitos que lhe estão associados: as lutas de titãs e a criação do mundo, a guerra de Tróia, a Odisseia, Hércules, o Minotauro, Dédalo e Ícaro, os Argonautas e tantos outros.

A Ilíada de Homero - e em certa medida a Odisseia - grafada já na nova escrita baseada no alfabeto dos fenícios, sintetiza a cultura grega e representa para eles a mesma referência de crenças e valores que a Bíblia representa para os judeus. Mas, ao contrário do pensamento judeu que é teocêntrico, nos gregos tudo é humano, e tudo se realiza à escala humana. Isso é bem visível na escultura, onde se exalta o corpo humano dos jovens rapazes nus (os korai) ou das jovens raparigas (as kouroi) discreta e pudicamente vestidas com as suas longas túnicas. Nunca os judeus representaram assim os seus heróis. Na renascença italiana, seria Miguel Ângelo quem haveria de esculpir no mármore, à maneira dos gregos, o jovem David!

Com as suas contradições, as suas guerras, as suas ambições, a sua diversidade, o mundo grego representa um modelo que pode servir para representar o mundo atual. Estudar aquela cultura e os seus caminhos é estimulante, e pode ajudar-nos a compreender o mundo de hoje e antever o seu destino. As dimensões são diferentes, a Ática e o Peloponeso deram lugar aos novos continentes - América e a Ásia à cabeça - e os mares Egeu e Jónico são agora todos os oceanos da terra. Mas, ao contrário do mundo dos gregos que eles imaginavam infinito, o nosso tem as fronteiras à vista. E, em cada dia que passa, tomamos disso dolorosa consciência.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Na Terra dos Deuses

Estou em Atenas. Ficaram para trás Micenas, Pylos, Olympia e Delfos. Foi o meu encontro serôdio com os vestígios da juventude duma Civilização que agora, velha e desgastada, se esforça por se afirmar na confusão babélica dos aeroportos ou na impessoalidade dos hotéis de turismo. Fica também para trás a simpatia calorosa da Ana e do Nikos que nos trouxeram à Grécia, e, por uns dias no sul do Peloponeso, nos fizeram sentir gregos, orgulhosamente gregos.

Na terra dos deuses, a primeira reflexão vai para Chronos, o mais poderoso entre eles, que se revela em cada ruína e em cada pedra desgastada. E a minha simpatia vai para Nestor, o velho rei de Pylos, que foi levado na expedição a Tróia não por ser o maior guerreiro, mas por ser considerado, entre os gregos, o que tinha maior bom senso e mais sabedoria.

Hei-de voltar a estes temas. Para já, o blogue pode esperar.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Demografia

Segundo uma teoria cientificamente fundamentada, há cerca de 75.000 anos, a super-erupção de um vulcão na Indonésia, conhecida como a catástrofe de Toba, provocou um inverno vulcânico em todo o planeta, dizimou espécies e terá reduzido a população do homo sapiens a uns escassos 10.000 indivíduos. Durante milhares de anos, esse reduzido grupo conseguiu reproduzir-se, dispersar-se e crescer, e já seriam de cerca de 200.000 quando, há aproximadamente 10.000 anos, ocorreu a revolução agrícola. Isso aconteceu no Médio Oriente, nos vales onde correm o Tigre e o Eufrates, quando o homem domesticou animais e abandonou a vida nómada para começar a fixar-se, cultivar cereais e outras plantas, e criar animais que lhe forneciam alimento e o ajudavam a amanhar a terra.

Apesar da introdução de alfaias, de novas técnicas de cultivo e de irrigação, já Thomas Malthus há 200 anos se questionava sobre a possibilidade da agricultura tradicional poder satisfazer as necessidades de uma população em crescimento geométrico. Mas a Revolução Industrial, que teve uma componente tecnológica e outra energética, veio permitir a apropriação pelo homem de imensos recursos e desvanecer os receios existentes. Os recursos foram as imensas reservas de combustíveis fósseis acumulados durante milhões de anos. E foi a sua utilização, particularmente na agricultura, que permitiram produzir o alimento e criar o conforto que, nos séculos seguintes, haveriam de possibilitar a explosão exponencial da população humana.

Com efeito, o crescimento da população dos seres humanos, ocorrido entre 1800 e 2000, foi impressionante. Nesse curto período de tempo, o número de pessoas à face da Terra passou de mil milhões para seis mil milhões. A taxa máxima anual de crescimento, de 2,2%, foi atingida em 1963. Este facto tem levado algumas pessoas a comparar a disseminação da espécie humana ao das pragas de outras espécies, onde a característica comum é a propagação rápida e exponencial da sua população. Ocorrências como esta têm lugar sempre que se cumprem quatro condições: abundância de alimento, boa capacidade de reprodução, meio ambiente favorável, e, finalmente, a ausência de predadores.

Os avanços da medicina e das condições sanitárias permitiram controlar infeções provocadas por vírus e bactérias que, durante muitos milhares de anos, foram os principais predadores da espécie humana. Ao mesmo tempo os avanços extraordinários registados na prevenção e tratamento das doenças – com destaque para a prática cirúrgica - foram responsáveis pela redução da mortalidade e pelo aumento da esperança de vida. O crescimento populacional tem vindo a desacelerar de forma progressiva desde 1963 e, segundo algumas previsões, pode chegar a anular-se ainda durante este século. Ora, quando isso acontecer as taxas de natalidade e mortalidade tornar-se-ão iguais, e a população na Terra estabilizará nos dez mil milhões de pessoas.

Quando a população estabilizar – como resultado de serem iguais as taxas de natalidade e mortalidade –, ter-se-á completado um processo designado por transição populacional. Mas a estabilização conseguida não pode ser comparada com aquela que existia antes de 1800. Na previsível situação que ocorrerá a partir de 2050, as taxas de natalidade e mortalidade, embora igualadas, registarão ambas valores mais baixos do que antes de 1800. A estabilização acontecerá com uma população com maior esperança de vida, mais envelhecida, na qual a percentagem de mulheres em idade fértil será também inferior. A população, embora estável em número, tenderá a envelhecer de forma continua. E, tudo o indica, haverá uma degradação das condições ambientais, provocadas pelo aquecimento global. E a generalização das práticas de contraceção será uma forma de iludir a atração sexual, que é a principal arma natural para a propagação das espécies.

A demografia é o maior desafio que a humanidade enfrentará no próximo século. A população não vai poder crescer face à finitude e progressiva escassez de recursos, nomeadamente de energia, de água doce e de solo arável. Mas, paradoxalmente, a sua estabilização nos pressupostos da transição populacional, resultará num progressivo envelhecimento e perda de vitalidade da espécie. Haverá fortes assimetrias regionais: em algumas regiões - como será o caso de África - a população continuará a crescer e noutras, o caso da Europa, passará a decrescer. E isso poderá provocar pressões e conflitos inter-regionais.

Até agora todo o progresso económico, social e cientifico tem visado a pessoa humana, isto é, o individuo. Poderá chegar um dia em que esse progresso tenha forçosamente de se orientar para a espécie humana. Nessa altura conceitos como Propriedade, Democracia, Liberdade e Direitos do Homem terão de ser revistos. E as consequências serão imprevisíveis.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

A Crimeia

Os acontecimentos da atualidade noticiosa, quer se trate de conflitos armados, acidentes ou catástrofes naturais, obrigam-nos a olhar para o mapa do mundo. A propósito, recordo o professor de Geografia que tive no velho Liceu Nacional da Guarda, entre nós conhecido pelo Carlos Costa, um dos poucos que não tinha alcunha.  Era um professor da velha guarda, tão exigente quanto competente. Recordo-me  que no início duma aula do velho 5º ano nos disse: Abri o livro na página tal, onde está Congo Belga riscai e escrevei República do Congo, que é assim que se chama a partir de hoje. E sempre que um novo país ascendia à independência, nós emendávamos o livro. No final das chamadas, quando o aluno não satisfazia o interrogatório,  costumava sair-se com uma tirada que ficou célebre no liceu e na cidade: E levanta-se um padeiro à meia noite a cozer pão para um burro destes!.

As suas aulas de geografia eram viagens imaginárias pelas montanhas e vales, seguindo as grandes vias férreas, ou simulando rotas de navios navegando ao longo das costas, subindo rios e estuários, dobrando cabos, contornando penínsulas.  E foi Carlos Costa que, numa aula, nos guiou pelo Mediterrâneo Oriental, através das ilhas do mar Egeu,  em direção ao estreito de Dardanelos que conduz ao mar da Mármara, situado entre a Trácia, a oeste, e o antigo Helesponto dos Romanos, a leste. Juntos, atravessámos, depois, o apertado e celebrado Bósforo para, finalmente, entrarmos no Mar Negro com o adjacente mar de Azzoff por companheiro. E foi nessa viagem quando, pela primeira vez, ouvi falar da península da Crimeia.

O Mar Negro, o Ponto Euxino dos gregos, é um importante mar interior que banha a Bulgária, a Roménia - onde desagua o Danúbio, o maior rio da Europa- , a Moldávia, a Ucrânia, a Rússia, a Geórgia e a Turquia. Além do Danúbio, ainda desaguam  nele o Don e o Deniepr. Tem uma superfície que é cinco vezes a superfície de Portugal Continental. Nas suas margens estão situadas importantes cidades como Odessa na Ucrânia, Sebastopool na Crimeia, para já não falar de Istambul, à entrada do Bósforo,  que com mais de 15 milhões de pessoas é a maior cidade da Europa. Na mitologia Grega, o Mar Negro foi o destino da expedição dos argonautas que foram até à Cólquida (a Geórgia atual) na busca do Velo de Ouro. E, ao longo da história, por aqui passaram muitos povos, aqui se fizeram guerras.  O Mar Negro integra uma vasta região que inclui o Mediterrâneo Oriental, que se estende aos antigos domínios do império Otomano e foi o berço da Civilização Ocidental.  É nesta região, que controla o acesso às cobiçadas reservas energéticas do Golfo Pérsico, onde convergem os interesses estratégicos das novas potências: Estados Unidos, Europa, Rússia e China.

Daí a importância das recentes movimentações na Praça da Independência, em Kiev, que derrubaram o presidente Viktor Yanukovych, e tiveram como consequência a realização de um referendo na Crimeia que de facto transferiu o controlo desta província para a Federação Russa. Esta ocorrência, pelas suas imprevisíveis  consequências,  dominou e continua a dominar as notícias dos meios de comunicação. Os Estado Unidos condenaram a ocupação, os europeus concordaram com os americanos. A China mantém-se silenciosa como é seu costume, a Turquia alinhou com a União Europeia, à qual aspira vir juntar-se.

A questão da Ucrânia é fulcral para o futuro da Europa. O que está verdadeiramente em causa é saber qual vai ser o papel da Rússia e qual vai ser o seu relacionamento com a Europa na nova ordem mundial que está a emergir. Nessa nova ordem, os Estados Unidos vêm na Europa o seu principal aliado. A consolidação da aliança passa pela Nato no plano militar,  e pelo TTIP ( a parceria comercial do Atlântico Norte)  no plano económico. Na estratégia americana, a Rússia, que não pertence à Nato, ficará excluída do TTIP. Ora a Rússia, confina a leste com este novo bloco Ocidental. E a fronteira passa pelo meio da Ucrânia.

A Rússia é o maior país do mundo em território, tem vastíssimos recursos naturais nomeadamente energéticos, entre eles carvão, petróleo e gás natural. Étnica, cultural e religiosamente a Rússia pertence ao Ocidente. Excluir a Rússia das alianças, criadas para formatar e sustentar o Ocidente (Nato e TTIP), é isolá-la e deixar-lhe um entendimento com a China como única porta de saída. Os europeus estão conscientes do facto e dos perigos que ele encerra. Isso fica bem patente na opinião pública: sondagens recentes mostram que os alemães e os franceses estão divididos em relação às posições russas na Crimeia. Já os ingleses, que são o porta voz da América na Europa e o seu cavalo de Tróia, alinham pelas posições americanas. A  opinião dos países da Europa do Sul, pobres e desvalorizados, pouco conta neste jogo de interesses.

Com a rápida ocupação da Crimeia, a Rússia de Putin deu um forte sinal de que pretende ter um papel a desempenhar na zona. A sua principal arma é a energia, e vai usá-la com toda a força. Ele sabe que a Europa não tem alternativa ao gás natural russo.  A importação do gás de xisto americano, sugerida por alguns,  é vista pelos especialistas como uma anedota, e o pipeline para chegar às enormes reservas de gás natural do Irão e do Qatar terá de passar pela Síria. Uma das respostas às sanções económicas dos americanos será uma aproximação da Rússia ao Irão, dois dos maiores produtores mundiais de petróleo. Já se comenta que estes países querem abandonar o dólar como moeda de referência nas transações dessa matéria prima. Para isso, poderão vir a criar um novo padrão para o crude (o Uralis), em paralelo ao WTI americano e ao Brent europeu, em que o preço do barril seria cotado em Euros ou Rublos. Uma tal decisão, a ter sucesso, constituiria um duríssimo golpe para a hegemonia da moeda americana no mercado mundial de petróleo.

Não vai ser fácil resolver a questão ucraniana. A Europa depende energeticamente da Rússia, não tem força militar, está dividida e tem muitos problemas internos para resolver. Os Estados Unidos estão conscientes do risco do seu envolvimento num conflito com a Rússia. O silêncio da China é significativo, e isso não quer dizer que não esteja atenta ao problema. As armas já disparam no leste da Ucrânia, naquilo que poderá ser o prelúdio de uma guerra do Ocidente contra o Ocidente. Pode ter-se aberto a caixa de Pandora na Praça da Independência, em  Kiev.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

IPCC: Um Sério Aviso

O painel intergovernamental para o estudo das alterações climáticas (IPCC), criado pela Organização Meteorológica Mundial (WMO) e pelas Nações Unidas, é constituído por três grupos de trabalho. Em setembro de 2013, foi produzido pelo Grupo I o relatório que se ocupou da análise dos aspetos físicos e científicos relacionados com o clima e as suas alterações. A conclusão desse relatório foi clara: o homem está a interferir com o equilíbrio da hidrosfera e da atmosfera, e, com esta interferência, afeta a biosfera e a vida que ela integra. Por outras palavras, a atividade do homem está a pôr em causa o futuro da própria espécie humana.

O relatório do Grupo II, que é a sua quinta avaliação - a quarta tinha sido em 2007 -, e foi publicado no último dia de Março, analisa o impacto ambiental e económico das alterações climáticas. Mais tarde, o relatório do Grupo III ocupar-se-á das medidas a tomar para mitigar os efeitos desses impactos. Baseado no contributo de 436 autores e um total de 1729 revisores, o relatório agora publicado intitula-se Climate Change 2014: Impacts, Adaptation and Vulnerability. A conclusão sintese é de que os efeitos das alterações climáticas já estão a ocorrer em todos os continentes e em todos os oceanos. O impacto desses efeitos é, na maioria dos casos, prejudicial à economia e acarreta prejuízos ambientais. Alguns sistemas e algumas regiões estão mais expostos e serão mais vulneráveis.

O relatório está redigido com grande rigor científico. Não se fala de certezas, fala-se de probabilidades. Para cada possível ocorrência apresenta-se o grau de probabilidade dela acontecer, e também o grau de probabilidade de ela ter como causa as alterações climáticas. Para evitar alarmismos, não se fazem previsões, apresentam-se cenários. Faz lembrar a forma como os médicos apresentam o prognóstico de evolução de uma doença grave. Não se exclui o milagre da cura, mas para o médico é sinónimo de certeza quando há 99% de probabilidade da doença evoluir de uma certa forma.

A linha de raciocínio dos relatores é esta: as alterações climáticas são perigosas (hazardous em Inglês) e estão associadas a vários riscos. O relatório enumera concretamente oito desses riscos cuja ocorrência, para todos eles, é considerada com um grau muito elevado de probabilidade estatística (uma simpática perífrase para significar que elas vão de certeza acontecer). Esses riscos estão associados a:
  1. Subida do nível médio das águas do mar, acompanhadas de tempestades e inundações, afetando as regiões costeiras e ilhas baixas. 
  2. Inundações em zonas baixas urbanas 
  3. Ocorrência de danos sistémicos provocados pela rutura de redes elétricas, de abastecimento de água, de sistemas de saúde e de emergência. 
  4. Ocorrência de vagas de calor afetando zonas urbanas e trabalhadores de ar livre. 
  5. Rutura dos circuitos alimentares e escassez de alimentos provocada por calor, inundações e excesso de precipitação que pode afetar sobretudo as populações mais pobres. 
  6. Limitações no acesso à água para rega e consumo, provocando redução da produtividade na agricultura e na pastorícia, sobretudo em regiões semiáridas. 
  7. Desaparecimento de ecossistemas marítimos e costeiros, acompanhadas de extinção de espécies, afetando, sobretudo, os trópicos e as regiões árticas. 
  8. Perda de aquíferos e águas interiores, afetando a biodiversidade, a produção de bens e limitando as funções que desempenham para a subsistência das populações. 
O cidadão comum, mais familiarizado com o discurso político do que com relatos científicos, ouve estas notícias e acredita que as anunciadas desgraças ainda vêm longe, e tudo se há-de resolver. Ele preocupa-se com o dia de hoje e com o que se passa à sua volta, importando-se pouco se algumas ilhas no Índico irão ficar submergidas ou se o mesmo acontecerá no delta do Nilo ou no delta do Mekong onde se produzem grandes quantidades de alimentos. E porque havia de preocupar-se, quando continua a ver a televisão a transmitir as mesmas novelas, a austeridade a corroer o nosso poder de compra e o Benfica a marcar golos?

A partir da revolução industrial ocorrida na viragem do século XVIII para o XIX, introduziu-se uma dinâmica de crescimento na economia nunca antes vista. Até essa altura, e durante milhares de anos, o homem viveu em paz com o planeta, extraindo dele recursos que na maior parte dos casos eram repostos naturalmente de uma forma cíclica. O carvão e a máquina a vapor criaram a produção em série e aumentaram a mobilidade. De uma forma rápida e acelerada, o homem começou a extrair cada vez mais recursos, e a produzir cada vez mais poluição. Em duzentos anos a população do planeta multiplicou-se por seis. O automóvel, a eletricidade, o computador pessoal e a revolução urbana alteraram o nosso modo de vida de forma irreversível. Mas os sinais são preocupantes e o planeta parece estar a reagir.

O aviso dos cientistas do IPCC é um aviso sério. Suspeito que pouco ou nada será feito para contrariar as tendências expressas, e que tudo não passará de boas intenções. Imagino que - à semelhança do que já se faz nos pacotes de cigarros - se imponha um autocolante nos automóveis dizendo "Andar de carro ajuda a destruir espécies". Tal como acontece com os fumadores, o efeito do aviso será muito reduzido. E os estragos continuarão a ocorrer, de forma irreversível. A economia e o planeta estão em rota de colisão. Quando se der o embate, será a economia que sofrerá os maiores estragos. Sem economia a espécie humana ficará desprotegida e poderá caminhar para a extinção. Mas a Terra continuará a fazer uma rotação sobre o seu eixo a cada vinte e quatro horas, e a completar o seu percurso em redor do Sol em cada ano!

segunda-feira, 17 de março de 2014

O Último Cerco de Almeida


No Verão de 1810, as tropas francesas de André Massena decididas a conquistar e ocupar Lisboa, escolhem fazê-lo pela rota da Beira, que entra por Almeida e  segue por Pinhel, Trancoso e vale do Mondego até Coimbra, que ficava já na estrada que ia do Porto para a capital do Reino. Wellington, que chefiava as forças opositoras, opta por retardar o mais possível a progressão dos franceses, procura dificultar-lhes o aprovisionamento através da política de terra queimada, e estabelece um reduto defensivo a norte de Lisboa, as famosas Linhas de Torres. Com esta estratégia, esperava o general inglês que as tropas de Massena fossem surpreendidas pelas chuvas outonais, as quais deixariam as estradas em mau estado, enfraquecendo-as e dificultando-lhes a progressão para a capital.

No início do século XIX, A Inglaterra e a França lutavam pela supremacia na Europa. As estrondosas vitórias da Grande Armée de Napoleão frente aos austríacos, aos russos e aos prussianos, permitiam-lhe alimentar o sonho de vencer esta disputa.  A Inglaterra detinha a supremacia nos mares a qual saiu reforçada e incontestada depois da vitória de Nelson em Trafalgar, em 1805. Para os franceses, a península Ibérica, e sobretudo Portugal, tinha uma grande importância. Lisboa com o amplo fundeadouro do Tejo ocupava uma importante posição estratégica que controlava o acesso ao mediterrâneo e à rota da Índia, cruciais para os ingleses. O Brasil com as suas riquezas, onde desde 1808 se encontrava a família real, era outro prémio apetecível. Ora, fechar os portos portugueses aos ingleses era fundamental para os objetivos de Bonaparte.

Pela sua localização e inacessibilidade na extremidade da península Ibérica, Lisboa era uma cidade difícil de conquistar. E foi isto que justificou a secular independência de Portugal.  No início do século XIX, as vias de comunicação terrestres eram más e os rios dificilmente navegáveis. Para quem vem de França, a rota da Beira é o caminho mais direto para Lisboa. Como principais dificuldades, a travessia do Côa e da cordilheira (entre o Caramulo e o Bussaco) que separa o planalto da meseta das planícies do litoral. O primeiro obstáculo militar a vencer era Almeida, um baluarte de fronteira. Ali, entre 1640 e 1810, tinham sido levantadas imponentes fortificações, pensadas e projetadas para uma guerra de artilharia. O local não seria o ideal,  e a configuração do terreno, num plano levemente inclinado, apresentava inúmeras fragilidades. Mas sem alternativas, naqueles 170 anos, as muralhas com os seus baluartes e os seus revelins foram, aos poucos, tomando forma. A fortaleza tinha sido cercada e resistido em 1663, na Guerra da Restauração, e tinha capitulado perante os espanhóis no Verão de 1762, na guerra que se seguiu à recusa de Portugal em assinar o Pacto de Família. O conde de Lippe, contratado por Pombal para reorganizar o exército português, visitou a praça em 1764, e contribuiu para dar um impulso decisivo na finalização das fortificações.

Em agosto de 1810, guarnecida por 5000 homens, bem provida de pólvora e mantimentos, Almeida era um sério obstáculo que Massena tinha de superar. Wellington tinha fixado uma  missão: resistir o máximo de tempo, três semanas, um mês se fosse possível. Naquele embate, Almeida iria ter a oportunidade de mostrar que o esforço de construir tão dispendiosas fortificações, tinha valido a pena. Apesar de que  esta não era uma guerra portuguesa, não se defendia Portugal, nem se lutava na defesa de nenhuma ideologia nacional. O regente tinha fugido para o Brasil e não existia verdadeiramente um governo português. O que restava do nosso exército, uma parte estava na Legião Portuguesa combatendo sob a bandeira das águias do Corso , outra parte estava integrada no exercito inglês e sob o seu comando. Em Portugal, os ingleses ocuparam o vazio existente, e faziam aqui a sua guerra longe do seu território.

Mas naquele fatídico dia 26 de Agosto, escassos dias depois de ter começado o cerco, o destino não deixou que Almeida cumprisse o fim para que fora construída. Um acidente ocorrido no paiol provoca a explosão do castelo e a sua derrocada. Terão morrido cerca de 500 pessoas e ficaram danificadas a maior parte das casas da povoação.  A fortaleza que deveria resistir por semanas não aguenta mais de três dias, e capitula dilacerada e sem glória. Mais tarde, o governador português da praça, que, naquelas condições, pouco mais poderia ter feito a não ser a render-se, haveria de ser acusado de traição e sentenciado à morte pela justiça dos ingleses.

Massena nunca entrará a Lisboa. Em 1815, a França vê os seus sonhos de dominar a Europa desfeitos em Waterloo. Nos 100 anos seguintes, nenhuma potência faria frente à Inglaterra. A partir daí, Almeida como fortaleza deixa de fazer sentido. Quando, em 1914, a Alemanha unificada e forte volta a desafiar os ingleses, a guerra que se segue é já de outro tipo e as escaramuças decorrem noutra geografia. A Espanha também já não constitui uma ameaça à nossa independência. Almeida e as suas muralhas deixaram de ter qualquer sentido estratégico. No século XIX, as casas-matas ainda serviriam de prisão nas lutas liberais.  Em 1927, o último soldado abandona a praça militar.

A fortaleza impensável, erguida no meio de nada, teve 170 anos de vida e sacrificou-se no último cerco. A sua história, a do suor dos seus construtores e a do sofrimento da gente da sua região, ainda está por escrever. As muralhas resistem, praticamente intactas, como seriam há 200 anos. Mas ninguém sabe ao certo o que fazer com elas.