segunda-feira, 26 de maio de 2014

Regressar ao Campo

No início dos anos sessenta, Portugal era ainda um país rural. As modificações entretanto ocorridas no pós guerra, no período que corresponde à segunda fase da revolução industrial - a era do marketing- , marcada por uma rápida generalização da eletricidade e do automóvel, pela revolução verde e pelo aparecimento de novos produtos e utensílios, alteraram profundamente o modo de vida das pessoas. As oportunidades de emprego passaram a estar nas cidades; o campo deixou de ser atrativo; começou o êxodo, e as aldeias rurais do interior de Portugal começaram a esvaziar-se.

 A recente crise veio revelar o desencanto das cidades e toldar o horizonte com nuvens carregadas. A austeridade, o desemprego, as difíceis condições de vida transformaram os subúrbios em guetos sem perspetivas. Muitas pessoas, conscientes do beco sem saída para onde nos está a conduzir a globalização e temendo um colapso económico e financeiro- e até ambiental-, olham com nostalgia para o campo, e sentem um forte apelo para regressar ao modo de vida simples dos nossos pais e avós. A proximidade da terra e a possibilidade de angariar dela o sustento de cada dia , constitui a principal razão deste anseio. A vida agitada das grandes cidades, a dependência dos transportes e das redes de abastecimento de água, de alimentos e de energia dão às pessoas uma sensação de insegurança que se amplia sempre que se pressente o agravar da crise.

 Na passada semana estive em Alfandega da Fé, no distrito de Bragança, para assistir à assinatura de um protocolo entre os Novos Povoadores, uma organização portuguesa, e a Fundação espanhola Abraza la Tierra. São duas organizações similares, empenhadas em fomentar e apoiar a fixação de pessoas interessadas em migrar para meios rurais. A Presidente da Câmara local, Dra. Berta Nunes, que apadrinhou o ato, falou de algumas experiências bem sucedidas de migração para o concelho e destacou a capacidade de inovação de alguns desses migrantes. Referiu-se à tendência para o crescimento das cidades, que desde há muito se verifica e se espera venha a continuar no futuro, afirmando que ela tem de ser contrariada pois, segundo disse,"tendência não tem de ser assumida como destino".

A desertificação do interior tem essencialmente causas económicas e só a economia pode inverter esta tendência. Foi a idade de ouro que esvaziou as aldeias e acelerou o forte desenvolvimento dos meios urbanos. As transformações na agricultura, o acesso à educação, o desenvolvimento dos serviços, o surgimento do estado social e os serviços que lhe estão associados, tornaram obsoleta a velha forma de vida rural baseada na agricultura tradicional feita à custa do trabalho animal e do esforço humano. Com a sociedade industrial acabaram os ofícios artesanais: alfaiates, oleiros, moleiros, ferreiros, padeiros, sapateiros, latoeiros, costureiras, tecelões, fiadeiras, etc... Os políticos não souberam ou não puderam encontrar alternativas a esta sangria. O abandono da terra aconteceu de forma pacífica e voluntária, e só quem não conheceu as agruras do mundo rural poderá pensar que ele era um paraíso.

A agricultura, apesar dos incentivos à florestação e à pecuária, foi definhando. Uma solução para a preservar teria exigido uma reconversão da propriedade, o que não aconteceu. Ora, uma política de subsídios é insustentável a prazo. Atualmente a floresta do interior norte, sem dimensão, e a pecuária, sem tradição e longe dos mercados, não têm futuro. O turismo, muito estimulado pelos programas de apoio europeus, parecia ser a única alternativa como atividade económica para promover o emprego. Mas o turismo é a indústria da prosperidade, e a prosperidade não é eterna.

Mesmo sem atividades locais sustentáveis e sem gente, o campo beneficiou do progresso global e foi-se urbanizando. O dinheiro da Europa construiu estradas;os fluxos financeiros dos emigrados permitiram edificar novas habitações e restaurar as antigas; o conforto da eletricidade e do automóvel chegaram. A nova distribuição passou a trazer de longe os produtos que a terra deixou de produzir e os artesãos deixaram de confecionar.

Numa economia global a teia de dependências é muito grande. A cidade depende do campo, mas o campo também depende da cidade. Uma situação de colapso económico seria trágica para o campo. Os meios rurais de hoje já não conseguem viver sem eletricidade, sem saneamento, sem água canalizada, sem automóvel. E já não dispensam o Lidl ou o Intermarché num raio de dez quilómetros. As mentalidades dos meios rurais já são urbanas. Os jovens dos meios rurais são em tudo semelhantes aos das cidades: vêem os mesmos programas de televisão, frequentam as mesmas redes sociais, vestem roupas das mesmas marcas. E, o mais preocupante de tudo, a sua máxima ambição é ir viver para as grandes cidades.

Tendência não é destino, mas mexe muito com ele. Os rios correm para o mar, e não é fácil inverter o seu curso. O que está a passar-se em Alfandega da Fé e o trabalho de organizações como os Novos Povoadores ou o Abraza la Tierra é admirável. Só por si, ele não vai alterar a orientação da mão invisível que está por detrás da globalização. Mas revela consciência da tragédia que será o destino dos subúrbios das grandes cidades se um dia tiverem de ficar entregues a si próprios. E permite alimentar o sonho de que será possível voltar a abraçar a terra!


segunda-feira, 19 de maio de 2014

Assim Vai o Mundo


Ucrânia
Sem desfecho à vista, continua o jogo de xadrez entre a Rússia e o Ocidente. Perdida a Crimeia para a Rússia, estão agora ameaçadas as posições de Donetsk e Luhansk. A arma secreta de Putin é a Gazprom e a pesada fatura que a Ucrânia - quer dizer o Ocidente - vão ter de pagar para continuar a aceder ao gás russo. No conflito que se disputa na Ucrânia estão em causa opções fundamentais para o futuro da Europa que se sente balançeada entre a fidelidade aos Estados Unidos e as vantagens objetivas de uma aproximação à Rússia. Neste momento, com forte jogo posicional de ambos os lados, parece que já se joga para empate.

Síria
Com a perda da cidade de Homs pelos rebeldes, Bashar al Assad ficou em vantagem no terreno o que lhe deverá assegurar a vitória nas próximas eleições presidenciais. São muito confusos os contornos de um conflito sangrento que nasceu na Primavera árabe, onde já se confrontaram posições russas e americanas. A Síria não tem reservas petrolíferas, faz fronteira com Israel e ocupa uma posição charneira entre a Turquia, o Irão e o Iraque.

Iraque.
O sonhado eldorado, onde os americanos tencionavam garimpar o ambicionado prémio em barris de ouro negro, continua perigoso e inseguro. As expectativas da produção de crude estão muito aquém das previsões iniciais, e os conflitos étnicos e religiosos estão longe de ser resolvidos. O Iraque é um lamaçal onde se troca petróleo por sangue.

Líbia.
Não se vê fim a este conflito que ameaça paralisar a produção de petróleo do país. Trata-se de mais um país libertado de uma ditadura pela primavera Árabe e pelos aviões da Nato, onde os problemas são bem mais profundos do que parecia à primeira vista.

O futuro do preço do crude
Em Fevereiro passado, Steven Kopits, um consultor americano na área energética, surpreendeu o mundo numa palestra sobre o futuro do petróleo. Deixou claro que já não é a procura, mas sim a oferta, que comanda o mercado. O mercado do crude convencional estagnou em 2005, e só com massivos investimentos de capital se tem conseguido manter a produção. Todo o crescimento entre 2005 e 2014 foi feito à custa do petróleo não convencional, onde se destaca a produção pelo processo de fraturação hidráulica das rochas de xisto nos Estados Unidos. Steven Kopits não antecipa uma baixa de preços da cotação do barril de crude, antes pelo contrário, e alerta que a China, em motorização acelerada, terá um papel chave no futuro deste mercado.

Nígéria: os dramas de um Estado Crítico.
O rapto de duas centenas de meninas chama a atenção para a Nigéria, o país mais populoso de África com 175 milhões de pessoas - a população do Brasil!- ,que enfrenta graves problemas étnicos religiosos e económicos. O forte crescimento populacional origina uma população extremamente jovem. E não se vê forma, no futuro próximo, de contrariar este crescimento. Muitos destes jovens, sem perspectivas, começam a olhar para o norte, para Lampedusa e para o estreito de Gibraltar, sentem o apelo da Europa despovoada, e vêm naquelas entradas a porta para o Paraíso.

Brasil 
O sistema aquífero da Cantareira, que dá de beber a 9 milhões de paulistas, atingiu no passado dia 15 de maio o nível de 8,2%. A ameaça de deixar à seca os torcedores da Copa, levou a afundar a captação de água para um nível situado abaixo da cota atual, para poder aproveitar o que eles designam por "volume morto". A seca prolongada parece ser um daqueles fenómenos extremos para que alertava o grupo internacional que estuda as alterações climáticas. No Brasil já se reza para que a próxima época de chuvas que começa no verão austral, a partir de outubro, reponha os níveis de água da Cantareira.

Antártida : glaciares em vais de desaparecimento
Dois relatórios independentes elaborados por cientista dão-nos conta de fenómenos preocupantes que podem agravar os efeitos das alterações climáticas e antecipar a subida de água dos oceanos. Ao que parece os glaciares da Antártida estão a desfazer-se e a derreter de forma irreversível.

Portugal: tratamento suspenso até ver
Já sabemos que Portugal sofre de doença prolongada. Sob a supervisão da troika, Portugal terminou a primeira sessão de quimioterapia, e os marcadores da doença parecem agora mais satisfatórios. Nos meios políticos e económicos nota-se a euforia habitual nestes casos, e muitos acreditam que a doença estará debelada. Mas não nos iludamos com esta momentânea remissão dos sintomas. Vai haver recidivas, vão ser necessários novos tratamentos, e o prognóstico continua reservado.

Nas notícias que nos chegam não se veêm verdadeiras iniciativas para mudar o mundo. A solução dos problemas vai-se adiando, as tensões vão aumentando. Prevejo que teremos a seguir, novas notícias vindas do Egito, da Turquia, do Brasil, do Paquistão, que não vão iluminar o horizonte sombrio que paira sobre o nosso futuro .

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Os Estados Críticos



Na Europa ocidental da Idade Média, com a economia centrada no  artesanato e na agricultura, a Igreja desempenhava um papel importante. Nos reinos medievais, a Igreja estava incumbida de funções administrativas, registava os casamentos, os batizados e os óbitos. Era também a igreja que, através da caridade, assegurava o apoio social, que ministrava a educação e os cuidados de saúde. Era o papa de Roma que  tutelava e reconhecia os Reis. As elites que administravam os estados medievais detinham a  posse e administravam as terras e asseguravam a defesa do Reino. Com a revolução industrial as coisas mudaram e a Igreja foi gradualmente perdendo a sua importância.

 Na economia mundial, hoje identificada como a economia de mercado ou o capitalismo, coexistem duas entidades  fundamentais: os estados e as grandes empresas multinacionais. Elas têm funções muito diferentes. Um Estado pressupõe um território, um governo, uma população e uma soberania. Para as empresas multinacionais apenas interessa a população, o seu poder de compra e o enquadramento legal do exercício da atividade económica. Em síntese, os estados governam países, as multinacionais exploram mercados. Numa economia próspera, a convivência entre países e mercados tem sido pacífica e até proveitosa para ambas as partes. As multinacionais pagam impostos, geram empregos, aceleram o crescimento. E os países progridem.

Duzentos anos atrás no tempo da conferência de Viena que, em 1815,  definiu fronteiras na Europa após as guerras napoleónicas, o número de países contava-se por dezenas. Atualmente existem no mundo 196 países reconhecidos, dos quais 193 são membros da ONU. Todas as partes do planeta, mesmo as mais recônditas,  pertencem a algum deles. Até o território da Antártida está atribuído à jurisdição de algum país. Mas nem todos os países são iguais. Entre a riqueza per capita do país mais rico e a do país mais pobre a relação é de 250 para 1. É entre estados que as desigualdades económicas e sociais são mais flagrantes.

Quando falamos de um país estamos também a falar de um estado e os dois conceitos apresentam-se, muitas vezes, como sinónimos.  Um país pressupõe a existência de um estado, e um estado pressupõe a existência de um país. O estado é uma estrutura orgânica que suporta a existência de um país. Está organizado, tem um governo, uma população, um território e uma soberania. Tem leis próprias, e, nos modernos estados, uma Constituição que é a sua lei fundamental.  Ao contrário do país que permanece estável, o estado é dinâmico. Podemos, por exemplo, perguntar se Portugal, a nossa pátria comum, é a mesma coisa que o Estado Português? Portugal já foi um estado monárquico, e hoje é uma república, e já teve várias constituições e vários governos. Ou seja, o país é o mesmo mas o estado pode mudar.

Com a integração de Portugal na União Europeia o papel do Estado vai alterar-se. Quando a União Europeia tiver uma constituição própria, e uma política fiscal e orçamental comum, fará sentido falar dos seus estados membros como países independentes? Podemos talvez falar de clusters de estados ou se um super Estado. Se a Europa, como tudo indica, tiver, no futuro, uma política externa e de defesa comum, então os países que a integram perdem uma das caraterísticas que os identificam como estados, que é a soberania.  Muitos acreditam que aquilo que está a acontecer na Europa será o  modelo para  organizar o mundo do futuro. Mas, para que tal se torne realidade, o caminho a percorrer em muitas zonas, nomeadamente na África, na Ásia e na América Latina, é longo e cheio de escolhos.

Na previsível  situação de profunda crise que o capitalismo do século XXI vai enfrentar, muitos mercados vão deixar de ser atrativos para as empresas multinacionais. Ora, abandonar um mercado é muito fácil para essas empresas. Haverá muitos países cujos estados vão ser abandonados à sua sorte. Serão os países mais pobres, com menos recursos, os que têm mais elevadas taxas de crescimento demográfico e menos proteção social.  E são aqueles onde o impacto das alterações climáticas se fará sentir com mais intensidade. São esses os Estados Críticos que constituem o elo mais fraco da Economia Global.

Quando isso acontecer vai colocar-se a questão da solidariedade, conceito que a economia dos mercados entende mal. E a humanidade terá de enfrentar uma situação nova, e, a bem ou a mal, muita coisa vai ter de mudar.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

As Sementes da Democracia


Não há machado que corte a raiz ao pensamento,
não há morte para o vento...
Manuel Feire/Carlos Oliveira

Durante os vinte séculos que precederam a Era Cristã, floresceram na parte leste do Mediterrâneo civilizações onde conviveram diferentes povos: os eólios, os jónios, os aqueus e os dórios. Tinham em comum a língua e a religião, e eram providos de um pensamento criativo, fecundo e curioso. A cultura, as obras literárias, artísticas e monumentais que estes povos nos legaram, formam aquilo que ficou conhecido como a Civilização Grega. Terá sido o mais importante contributo para o progresso da Civilização Ocidental, que haveria de estender-se primeiro à Europa, e depois a todo o planeta.

Percorrer a Grécia atual é sentir a emoção do reencontro com essas nossas raízes culturais e civilizacionais. Foi sobretudo na Grécia do período clássico - o famoso século de Pericles -  que o homem se libertou de crenças e preconceitos sociais e religiosos e, pela primeira vez de forma sistemática, se interrogou sobre o mundo que o rodeava. Foi ali, durante esse mesmo período, quando deixaram de existir os condicionalismos psicológicos, educacionais e religiosos que anteriormente aprisionavam a mente humana, que nasceu o conceito de Liberdade tal como hoje o entendemos. Na medida em que questionava até o próprio conhecimento - só sei que nada sei! -, a Filosofia, nascida na Grécia, é a expressão máxima da Liberdade do pensamento humano. A forma de governo que foi adotada em Atenas no início do século V (AD), no período de reconstrução que se seguiu à destruição da cidade provocada pelas Guerras Persas, representa um avanço civilizacional extraordinário. Seria necessário esperar mais de vinte séculos pela Independência Americana e pela Revolução Francesa para se recuperar o princípio de que o poder dos governantes reside na demos e só dela emana.

Como se alcançou tão extraordinário momento é algo que ainda hoje podemos sentir viajando pela Grécia. Favorecidas pela geografia que lhes abria o mar para novas culturas e novas rotas comerciais, pela acidentada orografia que as protegia das invasões e dos ataques inimigos, pela amenidade do clima que convidava à discussão nas ágoras e nos areópagos, as cidades gregas reuniram as condições para a ocorrência da mutação civilizacional que foi o aparecimento da democracia. Nesse processo, a mitologia e a escrita desempenharam um papel importante. A mitologia grega contextualiza uma religião aberta que aproxima os homens dos deuses. Entre uns e outros não se criaram barreiras intransponíveis. O homem podia aspirar a ser um deus, e os deuses sentiam e sofriam como os homens, podiam ser coléricos ou ciumentos, ter arrebatamentos e paixões.

A língua e a escrita dos gregos tiveram uma grande importância na difusão das ideias, na consolidação do seu pensamento e na estruturação das suas crenças. Nos primórdios, em Creta e em Micenas, a escrita grega era pictográfica, fazendo lembrar os hieróglifos egípcios, onde certamente se inspirou. Foi nessa escrita que se gravaram as famosas tábuas de argila descobertas no palácio de Cnossos, em Creta, que o arqueólogo Arthur Evans revelou ao mundo. E o genial Michael Ventris, que as decifrou, demonstrou que elas tinham por base a fonética e a língua grega. Foi nesse período - chamado de período arcaico - que têm raízes as grandes lendas e mitos que lhe estão associados: as lutas de titãs e a criação do mundo, a guerra de Tróia, a Odisseia, Hércules, o Minotauro, Dédalo e Ícaro, os Argonautas e tantos outros.

A Ilíada de Homero - e em certa medida a Odisseia - grafada já na nova escrita baseada no alfabeto dos fenícios, sintetiza a cultura grega e representa para eles a mesma referência de crenças e valores que a Bíblia representa para os judeus. Mas, ao contrário do pensamento judeu que é teocêntrico, nos gregos tudo é humano, e tudo se realiza à escala humana. Isso é bem visível na escultura, onde se exalta o corpo humano dos jovens rapazes nus (os korai) ou das jovens raparigas (as kouroi) discreta e pudicamente vestidas com as suas longas túnicas. Nunca os judeus representaram assim os seus heróis. Na renascença italiana, seria Miguel Ângelo quem haveria de esculpir no mármore, à maneira dos gregos, o jovem David!

Com as suas contradições, as suas guerras, as suas ambições, a sua diversidade, o mundo grego representa um modelo que pode servir para representar o mundo atual. Estudar aquela cultura e os seus caminhos é estimulante, e pode ajudar-nos a compreender o mundo de hoje e antever o seu destino. As dimensões são diferentes, a Ática e o Peloponeso deram lugar aos novos continentes - América e a Ásia à cabeça - e os mares Egeu e Jónico são agora todos os oceanos da terra. Mas, ao contrário do mundo dos gregos que eles imaginavam infinito, o nosso tem as fronteiras à vista. E, em cada dia que passa, tomamos disso dolorosa consciência.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Na Terra dos Deuses

Estou em Atenas. Ficaram para trás Micenas, Pylos, Olympia e Delfos. Foi o meu encontro serôdio com os vestígios da juventude duma Civilização que agora, velha e desgastada, se esforça por se afirmar na confusão babélica dos aeroportos ou na impessoalidade dos hotéis de turismo. Fica também para trás a simpatia calorosa da Ana e do Nikos que nos trouxeram à Grécia, e, por uns dias no sul do Peloponeso, nos fizeram sentir gregos, orgulhosamente gregos.

Na terra dos deuses, a primeira reflexão vai para Chronos, o mais poderoso entre eles, que se revela em cada ruína e em cada pedra desgastada. E a minha simpatia vai para Nestor, o velho rei de Pylos, que foi levado na expedição a Tróia não por ser o maior guerreiro, mas por ser considerado, entre os gregos, o que tinha maior bom senso e mais sabedoria.

Hei-de voltar a estes temas. Para já, o blogue pode esperar.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Demografia

Segundo uma teoria cientificamente fundamentada, há cerca de 75.000 anos, a super-erupção de um vulcão na Indonésia, conhecida como a catástrofe de Toba, provocou um inverno vulcânico em todo o planeta, dizimou espécies e terá reduzido a população do homo sapiens a uns escassos 10.000 indivíduos. Durante milhares de anos, esse reduzido grupo conseguiu reproduzir-se, dispersar-se e crescer, e já seriam de cerca de 200.000 quando, há aproximadamente 10.000 anos, ocorreu a revolução agrícola. Isso aconteceu no Médio Oriente, nos vales onde correm o Tigre e o Eufrates, quando o homem domesticou animais e abandonou a vida nómada para começar a fixar-se, cultivar cereais e outras plantas, e criar animais que lhe forneciam alimento e o ajudavam a amanhar a terra.

Apesar da introdução de alfaias, de novas técnicas de cultivo e de irrigação, já Thomas Malthus há 200 anos se questionava sobre a possibilidade da agricultura tradicional poder satisfazer as necessidades de uma população em crescimento geométrico. Mas a Revolução Industrial, que teve uma componente tecnológica e outra energética, veio permitir a apropriação pelo homem de imensos recursos e desvanecer os receios existentes. Os recursos foram as imensas reservas de combustíveis fósseis acumulados durante milhões de anos. E foi a sua utilização, particularmente na agricultura, que permitiram produzir o alimento e criar o conforto que, nos séculos seguintes, haveriam de possibilitar a explosão exponencial da população humana.

Com efeito, o crescimento da população dos seres humanos, ocorrido entre 1800 e 2000, foi impressionante. Nesse curto período de tempo, o número de pessoas à face da Terra passou de mil milhões para seis mil milhões. A taxa máxima anual de crescimento, de 2,2%, foi atingida em 1963. Este facto tem levado algumas pessoas a comparar a disseminação da espécie humana ao das pragas de outras espécies, onde a característica comum é a propagação rápida e exponencial da sua população. Ocorrências como esta têm lugar sempre que se cumprem quatro condições: abundância de alimento, boa capacidade de reprodução, meio ambiente favorável, e, finalmente, a ausência de predadores.

Os avanços da medicina e das condições sanitárias permitiram controlar infeções provocadas por vírus e bactérias que, durante muitos milhares de anos, foram os principais predadores da espécie humana. Ao mesmo tempo os avanços extraordinários registados na prevenção e tratamento das doenças – com destaque para a prática cirúrgica - foram responsáveis pela redução da mortalidade e pelo aumento da esperança de vida. O crescimento populacional tem vindo a desacelerar de forma progressiva desde 1963 e, segundo algumas previsões, pode chegar a anular-se ainda durante este século. Ora, quando isso acontecer as taxas de natalidade e mortalidade tornar-se-ão iguais, e a população na Terra estabilizará nos dez mil milhões de pessoas.

Quando a população estabilizar – como resultado de serem iguais as taxas de natalidade e mortalidade –, ter-se-á completado um processo designado por transição populacional. Mas a estabilização conseguida não pode ser comparada com aquela que existia antes de 1800. Na previsível situação que ocorrerá a partir de 2050, as taxas de natalidade e mortalidade, embora igualadas, registarão ambas valores mais baixos do que antes de 1800. A estabilização acontecerá com uma população com maior esperança de vida, mais envelhecida, na qual a percentagem de mulheres em idade fértil será também inferior. A população, embora estável em número, tenderá a envelhecer de forma continua. E, tudo o indica, haverá uma degradação das condições ambientais, provocadas pelo aquecimento global. E a generalização das práticas de contraceção será uma forma de iludir a atração sexual, que é a principal arma natural para a propagação das espécies.

A demografia é o maior desafio que a humanidade enfrentará no próximo século. A população não vai poder crescer face à finitude e progressiva escassez de recursos, nomeadamente de energia, de água doce e de solo arável. Mas, paradoxalmente, a sua estabilização nos pressupostos da transição populacional, resultará num progressivo envelhecimento e perda de vitalidade da espécie. Haverá fortes assimetrias regionais: em algumas regiões - como será o caso de África - a população continuará a crescer e noutras, o caso da Europa, passará a decrescer. E isso poderá provocar pressões e conflitos inter-regionais.

Até agora todo o progresso económico, social e cientifico tem visado a pessoa humana, isto é, o individuo. Poderá chegar um dia em que esse progresso tenha forçosamente de se orientar para a espécie humana. Nessa altura conceitos como Propriedade, Democracia, Liberdade e Direitos do Homem terão de ser revistos. E as consequências serão imprevisíveis.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

A Crimeia

Os acontecimentos da atualidade noticiosa, quer se trate de conflitos armados, acidentes ou catástrofes naturais, obrigam-nos a olhar para o mapa do mundo. A propósito, recordo o professor de Geografia que tive no velho Liceu Nacional da Guarda, entre nós conhecido pelo Carlos Costa, um dos poucos que não tinha alcunha.  Era um professor da velha guarda, tão exigente quanto competente. Recordo-me  que no início duma aula do velho 5º ano nos disse: Abri o livro na página tal, onde está Congo Belga riscai e escrevei República do Congo, que é assim que se chama a partir de hoje. E sempre que um novo país ascendia à independência, nós emendávamos o livro. No final das chamadas, quando o aluno não satisfazia o interrogatório,  costumava sair-se com uma tirada que ficou célebre no liceu e na cidade: E levanta-se um padeiro à meia noite a cozer pão para um burro destes!.

As suas aulas de geografia eram viagens imaginárias pelas montanhas e vales, seguindo as grandes vias férreas, ou simulando rotas de navios navegando ao longo das costas, subindo rios e estuários, dobrando cabos, contornando penínsulas.  E foi Carlos Costa que, numa aula, nos guiou pelo Mediterrâneo Oriental, através das ilhas do mar Egeu,  em direção ao estreito de Dardanelos que conduz ao mar da Mármara, situado entre a Trácia, a oeste, e o antigo Helesponto dos Romanos, a leste. Juntos, atravessámos, depois, o apertado e celebrado Bósforo para, finalmente, entrarmos no Mar Negro com o adjacente mar de Azzoff por companheiro. E foi nessa viagem quando, pela primeira vez, ouvi falar da península da Crimeia.

O Mar Negro, o Ponto Euxino dos gregos, é um importante mar interior que banha a Bulgária, a Roménia - onde desagua o Danúbio, o maior rio da Europa- , a Moldávia, a Ucrânia, a Rússia, a Geórgia e a Turquia. Além do Danúbio, ainda desaguam  nele o Don e o Deniepr. Tem uma superfície que é cinco vezes a superfície de Portugal Continental. Nas suas margens estão situadas importantes cidades como Odessa na Ucrânia, Sebastopool na Crimeia, para já não falar de Istambul, à entrada do Bósforo,  que com mais de 15 milhões de pessoas é a maior cidade da Europa. Na mitologia Grega, o Mar Negro foi o destino da expedição dos argonautas que foram até à Cólquida (a Geórgia atual) na busca do Velo de Ouro. E, ao longo da história, por aqui passaram muitos povos, aqui se fizeram guerras.  O Mar Negro integra uma vasta região que inclui o Mediterrâneo Oriental, que se estende aos antigos domínios do império Otomano e foi o berço da Civilização Ocidental.  É nesta região, que controla o acesso às cobiçadas reservas energéticas do Golfo Pérsico, onde convergem os interesses estratégicos das novas potências: Estados Unidos, Europa, Rússia e China.

Daí a importância das recentes movimentações na Praça da Independência, em Kiev, que derrubaram o presidente Viktor Yanukovych, e tiveram como consequência a realização de um referendo na Crimeia que de facto transferiu o controlo desta província para a Federação Russa. Esta ocorrência, pelas suas imprevisíveis  consequências,  dominou e continua a dominar as notícias dos meios de comunicação. Os Estado Unidos condenaram a ocupação, os europeus concordaram com os americanos. A China mantém-se silenciosa como é seu costume, a Turquia alinhou com a União Europeia, à qual aspira vir juntar-se.

A questão da Ucrânia é fulcral para o futuro da Europa. O que está verdadeiramente em causa é saber qual vai ser o papel da Rússia e qual vai ser o seu relacionamento com a Europa na nova ordem mundial que está a emergir. Nessa nova ordem, os Estados Unidos vêm na Europa o seu principal aliado. A consolidação da aliança passa pela Nato no plano militar,  e pelo TTIP ( a parceria comercial do Atlântico Norte)  no plano económico. Na estratégia americana, a Rússia, que não pertence à Nato, ficará excluída do TTIP. Ora a Rússia, confina a leste com este novo bloco Ocidental. E a fronteira passa pelo meio da Ucrânia.

A Rússia é o maior país do mundo em território, tem vastíssimos recursos naturais nomeadamente energéticos, entre eles carvão, petróleo e gás natural. Étnica, cultural e religiosamente a Rússia pertence ao Ocidente. Excluir a Rússia das alianças, criadas para formatar e sustentar o Ocidente (Nato e TTIP), é isolá-la e deixar-lhe um entendimento com a China como única porta de saída. Os europeus estão conscientes do facto e dos perigos que ele encerra. Isso fica bem patente na opinião pública: sondagens recentes mostram que os alemães e os franceses estão divididos em relação às posições russas na Crimeia. Já os ingleses, que são o porta voz da América na Europa e o seu cavalo de Tróia, alinham pelas posições americanas. A  opinião dos países da Europa do Sul, pobres e desvalorizados, pouco conta neste jogo de interesses.

Com a rápida ocupação da Crimeia, a Rússia de Putin deu um forte sinal de que pretende ter um papel a desempenhar na zona. A sua principal arma é a energia, e vai usá-la com toda a força. Ele sabe que a Europa não tem alternativa ao gás natural russo.  A importação do gás de xisto americano, sugerida por alguns,  é vista pelos especialistas como uma anedota, e o pipeline para chegar às enormes reservas de gás natural do Irão e do Qatar terá de passar pela Síria. Uma das respostas às sanções económicas dos americanos será uma aproximação da Rússia ao Irão, dois dos maiores produtores mundiais de petróleo. Já se comenta que estes países querem abandonar o dólar como moeda de referência nas transações dessa matéria prima. Para isso, poderão vir a criar um novo padrão para o crude (o Uralis), em paralelo ao WTI americano e ao Brent europeu, em que o preço do barril seria cotado em Euros ou Rublos. Uma tal decisão, a ter sucesso, constituiria um duríssimo golpe para a hegemonia da moeda americana no mercado mundial de petróleo.

Não vai ser fácil resolver a questão ucraniana. A Europa depende energeticamente da Rússia, não tem força militar, está dividida e tem muitos problemas internos para resolver. Os Estados Unidos estão conscientes do risco do seu envolvimento num conflito com a Rússia. O silêncio da China é significativo, e isso não quer dizer que não esteja atenta ao problema. As armas já disparam no leste da Ucrânia, naquilo que poderá ser o prelúdio de uma guerra do Ocidente contra o Ocidente. Pode ter-se aberto a caixa de Pandora na Praça da Independência, em  Kiev.