segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Jogos Perigosos

A brusca descida do preço do barril de petróleo, ocorrida no último trimestre de 2014, tem vindo a causar perplexidade e o assunto tem sido objeto de inúmeros comentários e análises de economistas e outros especialistas na matéria. Para quem acompanha com interesse o sector energético, o que causa mais estranheza é a rápida descida do preço, a qual, num período de poucas semanas. se cifrou em cerca de 40%, passando dos 100 dólares/barril para cerca de 60. De um modo geral,  atribuem-se como causas desta descida: a quebra na procura da matéria prima  resultado da desaceleração do crescimento económico a nível mundial; o acréscimo da produção de shale oil nos Estados Unidos; a  recente decisão da OPEP em manter inalterado, no futuro próximo, o quantitativo da sua produção.

À primeira vista os exportadores de petróleo perdem com o preço baixo; os importadores ganham. Os Estados Unidos, simultaneamente grandes produtores e grandes importadores ganham por um lado e perdem por outro. Mas, para a economia global, as consequências desta baixa de preço podem ser inesperadas. Diz Gail Tverberg, uma especialista em assuntos energéticos, que "com o preço baixo o petróleo ficará no subsolo, e isso já começou a verificar-se, nos Estados Unidos, na produção do petróleo de xisto e na produção off-shore". A perspectiva, muito badalada, de os EUA virem a tornar-se exportadores começa a fica cada vez mais longínqua. A baixa de preço do crude terá reflexos na economia  americana pois a a extração do petroleo de xisto tem forte impacto na taxa de emprego. E há que ter em conta que explosão do fracking foi ativamente estimulada pela massiva concessão de crédito. Ora, a queda dos preços vai provocar muitos imcumprimentos de pagamento das dívidas das empresas produtoras, e  pode provocar deflação. A dificuldade de pagar os débitos é  menos desejável numa altura em que o mundo está atingir níveis muito elevados do endividamento. Alguns observadores temem que a incerteza num segmento tão importante poderá ser contagiosa e tenderá a espalhar-se, secando a  liquidez e impossibilitando o financiamento de sectores de alto risco.

Diz ainda a senhora Tverberg que "a queda dos preços afeta os países exportadores e pode provocar fortes quebras na sua produção, e que, com o petróleo a baixo preço, se  mata a esperança no desenvolvimento das renováveis" . E conclui dizendo que "de um modo geral, os benefícios da queda dos preços não compensarão os malefícios provocados pela subida que, inevitavelmente, se seguirá".

Um pouco por toda a parte as empresas do sector  reavaliam os investimentos na prospecção e exploração de petróleo.  : Robin Allan, presidente de uma associação de produtores independentes diz que as perspetivas no Mar do Norte são negativas: "no Mar do Norte existe uma enorme crise. Não há novos projetos rentáveis com petróleo abaixo de 60 dólares o barril. Em consequência disso, a extração de petróleo da plataforma continental norueguesa caiu 5% apenas neste ano. E daqui a 10 anos a Noruega produzirá crude apenas para consumo interno e deixará de exportar".

David Hughes citado na press review semanal de Luís de Sousa refere que tendo analisado os dados das maiores empresas de fracking observou que o declínio da produção tende a ser muito elevado nestas jazidas (70% no primeiro ano; 85% no terceiro) .  Se considerarmos que as primeiros poços a serem explorados são os mais produtivos, no futuro o declínio será ainda maior. E acrescenta : "estamos a basear as nossas esperanças de oil independence  em falsas premissas. Pior do que isso, usamos isso para negar o pico do petróleo quando deveríamos utilizar esta reserva extra para construir as estruturas de uma nova era energética - seja qual for o seu modelo -, enquanto ainda tivermos energia disponível para o fazer".

Outras notícias citadas na mesma fonte dão conta de ter sido suspensa a  construção do pipeline que deveria ligar Dakota a Oklahoma para escoar o petróleo de xisto da bacia de Bakken . A Chevron, por sua vez , cancelou as perfurações no Ártico canadiano. E na Ucrânia foram abandonados projetos de fracking na região oeste,  significando o fim do sonho do país se tornar num grande produtor de gás de xisto para, deste modo, reduzir a sua dependência da Rússia.

No complexo contexto internacional esta situação convém à América. Os danos causados sobretudo nas economias russa iraniana e venezuelana - os seus clássicos inimigos de estimação!-, compensam os prejuízos caseiros e, no cômputo final, servem os seus interesses. O fracking é o seu trunfo principal mas é, ao que tudo indica, uma carta com menos valor do que aquele que se anuncia. Como no poker, é utilizado para fazer bluff , escudado nos lobbies e nas enormes campanhas de publicidade e de relações publicas. O principal adversário dos americanos  é Putin. Ora, o russo tem mais o perfil e o comportamento de um jogador de xadrez do que de um jogador de poker. Por isso, o desfecho do jogo é incerto... Muitas vezes estes jogos, de altas paradas, acabam mal...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Hasta Siempre Cuba

A revolução cubana faz parte do imaginário de muita gente da minha geração que viveu, na sua juventude, o tempo do maio de 68. O grupo de revolucionários que desembarcaram no Granma e, após três anos de luta de guerrilha, derrubaram o regime de Fulgêncio Batista, entre os quais Fidel de Castro e Che Guevara, eram heróis que despertavam sonhos de revolta, e  que eram celebrados nos posters afixados nas paredes dos nossos quartos de estudantes e nas canções revolucionárias dos convívios universitários. Tive um amigo que, na generosidade dos 20 anos e inspirado nos heróis da Sierra Maestra, planeava formar um grupo revolucionário na Serra da Arrábida para, a partir daí, derrubar o ditador Salazar.

Com o andar dos anos, Cuba foi perdendo muito do seu encanto e da sua magia. Fidel envelhecia; todos nós envelhecíamos! Em 1967, o Che era assassinado na Bolívia, esboçavam-se conflitos internos na luta pelo poder. Os meus amigos que visitavam Cuba traziam-me a imagem de uma espécie de Aldeia de Asterix encravada na Gália romana, sempre invencível e resistindo sempre. Descreviam-me uma sociedade carenciada mas feliz, com carros muito velhos circulando nas estradas, como se o tempo tivesse parado naquela ilha. Falavam-me de gente simples, alegre, culta e hospitaleira. E acrescentavam que os cubanos dispunham de um sistema de saúde gratuito e universal.

Foi notável a resistência de Cuba nos 56 anos que decorreram desde a tomada do poder pelos revolucionários na Sierra Maestra no dia 1 de janeiro de 1959.  Cuba foi, durante décadas, o espinho cravado nas barbas da poderosa América. A pequena república superou a invasão, ultrapassou a crise dos mísseis e Fidel sobreviveu milagrosamente a dezenas de tentativas de assassinato. Resistiu ao embargo económico e ao isolamento imposto pelos americanos. A lendária figura de Che Guevara inspirou movimentos de guerrilha em todo o mundo. A ousada intervenção cubana em Angola foi um desafio direto ao poder do Ocidente.

Cuba e os Estados Unidos anunciaram agora que vão desanuviar a tensão existente e reatar as suas relações diplomáticas. Com efeito, começava a tornar-se evidente que Cuba não podia continuar no isolamento provocado pelo fim da guerra fria. A crise financeira mundial, a morte de Hugo Chavez, a crise económica da Rússia e a abertura ao mundo através da janela da Internet, foram os golpes finais num regime isolado, desgastado e sem recursos. E contudo, não deixa de ser espantoso como este pequeno país resistiu durante tantos anos após o colapso da União Soviética.

Com este desfecho termina, no seu último reduto, o socialismo romântico. Cuba encher-se-á em breve de novos carros circulando em modernas auto-estradas, ladeadas de anúncios de Cocacola e MacDonalds. Irá integrar-se paulatinamente na economia global - insensível e predadora -, voltará a encher-se de ressorts, receberá os grandes navios de cruzeiro que, a partir de Miami, levarão milhares de americanos às Caraíbas. Voltará a ser o casino da América.

O fim de Cuba socialista vai ser bom para muitos cubanos; mas vai ser mau para muitos mais.  Com as suas insuficiências, com a sua determinação, com o seu engenho em as superar, Cuba foi um exemplo de como pode sobreviver-se com meios escassos e se podem atingir indicadores elevados na educação e na cultura. De alguma forma, este regime era uma esperança para os que acreditam que é possível uma economia alternativa. Mas ninguém poderia exigir egoisticamente que Cuba fosse o único guardião dessa esperança e pagasse sozinha o elevado preço de a conservar. Ficamos com o seu exemplo e uma grande dívida para com o povo cubano.

 Fidel, o herói de Moncada, velho, doente e retirado, já foi há muito absolvido pela História. Em artigos que, de vez em quando, publica no Granma, o jornal oficial do regime, revela ainda uma grande lucidez e neles tem alertado contra os caminhos perigosos do mundo global, no que respeita aos riscos ambientais e à escassez de recursos. Mesmo nesta rendição inevitável, Cuba manteve uma postura digna e não se ajoelhou perante a América. Hasta siempre Cuba! 


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Natal

O calendário, o frio, os anúncios dos perfumes e dos chocolates, dizem-nos que estamos, mais uma vez, na quadra natalícia. Nas lojas dos centros comerciais, iluminadas e decoradas com bolas, fitas e luzernas, vive-se a animação das compras. Este frenesim dos presentes apossou-se e confunde-se com o significado ou com aquilo que se designa pelo espírito de natal. Foi no século IV que, na cristandade, começou a festejar-se o Natal no final de dezembro. A comemoração assinala o nascimento de Jesus e fez-se coincidir a sua data, propositadamente, com a da celebração pagã do solstício de inverno, quando, no hemisfério norte, o Sol inverte a sua marcha descendente no horizonte que encurtou os dias e retoma, de forma promissora, a ascensão que haverá de voltar a ungir a terra e despertar as sementes no prenúncio da luminosa primavera.

No fervor religioso da Idade Média e da Renascença, o culto da Virgem e da sua maternidade, evocado no dia 25 de dezembro, inspirou artistas e os construtores das catedrais. O Natal era figurado nos presépios e nas telas magnificas das escolas dos mestres das escolas italiana e flamenga. Era uma época de vivência interior e familiar à volta do aconchego de uma lareira e de uma mesa farta; era também um tempo de renovação inspirada no ciclo da natureza. Penso que é esse ainda o Natal do nosso imaginário e, para os mais velhos, o da sua infância.

No ocidente pós industrial, global, dessacralizado e consumista, o Natal divorciou-se do presépio e dos evangelhos. A economia apropriou-se do Natal. Muitos negócios sobrevivem com as vendas da época natalícia. Há produtos e marcas que concentram nesta quadra a maioria das vendas anuais. Mas, o reverso é que as compras de Natal não são feitas para satisfazer necessidades e muitas vezes não têm utilidade prática, o que lhe reduz o valor económico.

O presépio já não é o ícone do natal, mas o Pai Natal. Esta figura simpática que é inspirada em S. Nicolau - um arcebispo generoso na sua versão americana -, nasceu no final do século XIX fruto da imaginação criativa do cartunista Thomas Nast . Mas foram as campanhas publicitárias da Coca-Cola que divulgaram e internacionalizaram o ícone do Natal na sua atual versão consumista.

As crianças são os principais destinatários dos presentes natalícios. São inundadas de brinquedos, livros, jogos, sei lá o quê!. A sua atenção reparte-se entre os inúmeros presentes recebidos e muitos deles são rapidamente arrumados e esquecidos. É a sociedade que começa a formatar as mentes infantis para a sociedade de consumo! Talvez devêssemos refletir no exemplo de uma escola de um país nórdico onde foram retirados os brinquedos das salas de aula, facto que teve como consequência aumentar a curiosidade e a criatividade dos alunos.

Nalguns países, as crianças escrevem cartas ao Pai Natal - para um endereço na Lapónia - a pedir os presentes. Não tardará que as mensagens sejam enviadas por email, de preferência com cc. para pais e amigos, de modo a assegurar maior rapidez e eficácia nas entregas. A mim, ocorreu-me hoje falar deste tema para desejar a todos os meus amigos e aos leitores do blog
Um Feliz Natal

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Sócrates vs. Sócrates

Há 2500 anos, na Grécia antiga, viveu em Atenas um filósofo de nome Sócrates que foi imortalizado por alguns dos seus discípulos, de entre os quais se destacou Platão, que nos livros que escreveu deu a conhecer o pensamento do grande filósofo. A frase lapidar de Sócrates, "só sei que nada sei", simboliza a sua incessante procura da Verdade e revela a humildade de quem reconhece a dificuldade - ou a impossibilidade! - em atingir o verdadeiro conhecimento, o espistemé. Por amor à Verdade e à Justiça, Sócrates aceitou o veredito de quem o acusava de não obedecer aos deuses e de, com as suas ideias, perverter os jovens. Bebeu voluntariamente, até à última gota, a cicuta letal para cumprir a sentença à pena capital a que fora condenado pelos juízes de Atenas.

Na atualidade portuguesa, suspeito de enriquecimento ilícito, um outro Sócrates enche os noticiários das televisões e as páginas dos jornais. A suspeição, que recai sobre este ex-governante, liberta incontidas emoções nos espíritos, causa polémica nos debates e incendeia paixões. A opinião sobre a sua pessoa e os factos que levaram à sua detenção - raramente vista com indiferença -, é o assunto mais fraturante da sociedade portuguesa nos dias que correm.

Estas duas personagens parecem ter em comum apenas o nome. O ateniense valoriza a verdade, está desapegado do poder e das riquezas materiais. Ele sabe que só o verdadeiro conhecimento lhe traz a sabedoria. O lusitano mostra acreditar que só tem certezas: "sabe que tudo sabe". Neste aspeto, estará próximo dos sofistas gregos que usavam a retórica para convencer o povo e para quem a doxa importava mais do que o epistemê. O português faz lembrar os príncipes da renascença ciosos dos seus séquitos e amantes da envolvência perfumada do poder. E traz-nos à memória O Príncipe de Nicolau Maquiavel, a cartilha para conquistar e preservar o poder e que, neste domínio, defende o princípio de que os fins justificam os meios.

Na Europa Medieval, e nos anos que precederam a Revolução Francesa e a independência da América, o poder era considerado como tendo origem divina. O soberano administrava a justiça e só prestava contas a Deus ou à igreja que o representava. De tal modo, que na Inglaterra de Henrique VIII a igreja incómoda foi subjugada ao poder do soberano. Mas, em última análise e na ausência de uma moderação acima dos homens, só a força das armas ou os jogos de poder asseguravam a sua manutenção.

Nos modernos estados ocidentais laicos a religião - mais propriamente a igreja - já tem pouca influência. O poder democrático emana do povo e são as leis produzidas pelos seus representantes que o regulam e limitam. Mas a democracia tem-se revelado imperfeita: após a revolução industrial a economia e a sua exigência em fortalecer o poder industrial e financeiro sobrepuseram-se e condicionaram o poder político. No nosso tempo a globalização - afinal a economia! -, impondo a submissão dos governos aos mercados, é um outro forte condicionante do poder. Não esquecendo o poder dos media que, quando manipulados fazem opinião, constroem e destroem a imagem dos políticos e, deste modo, interferem com o sentido do voto.

No plano das leis e dos princípios - se quisermos até no plano moral, pois legal e moral tendem a confundir-se-, o poder da Justiça acaba por ser a única limitação ao poder político e económico. Por isso, nos estados democráticos o poder judicial independente adquire uma nova força. O caso do impeachment do presidente Nixon ocorrido nos EUA, depois de um complexo e prolongado processo judicial, ficará para a história como um caso exemplar. No Portugal recente temos tido exemplos desta situação, veja-se, por exemplo, a atuação do Tribunal Constitucional. E não existe alternativa nem proposta para outro poder moderador que não seja o judicial.

Sócrates está, assim, nas antípodas de Sócrates. Nas encruzilhadas da vida que, a cada momento, surgem na nossa frente uma escolha exclui a outra. E não se trata apenas de escolher entre pessoas, mas entre arquétipos subjacentes a valores éticos. A opção, que fizermos, irá condicionar o nosso futuro.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A encruzilhada do G20

Criado em 1999, o G20 ou Grupo dos 20 integra as dezanove mais importantes economias mundiais a que se juntou a União Europeia. Para debater a economia global, reúnem-se anualmente os chefes de governo, os ministros das finanças e os presidentes dos bancos centrais dos países mais importantes (os pertencentes ao G7). Este grupo assume-se como cão de guarda da economia liberal e global. Os seus princípios ficaram consignados no acordo saído da reunião de 2004 que teve lugar em Berlim. No comunicado, aprovado nessa reunião, defendem-se claramente como objetivos do grupo as ideias do liberalismo económico e do reforço da globalização: a eliminação das restrições ao movimento do capital internacional; a implementação de políticas de desregulação; a flexibilização do mercado de trabalho; a defesa da propriedade intelectual e da propriedade privada; a liberalização do comércio global, tanto de forma bilateral como no seio da Organização Mundial do Comércio (OMC).

A recente reunião do Grupo em Brisbane, na Austrália, trouxe ao de cima algumas das tensões existentes no seu seio, das quais destaco: a questão da Ucrânia e o futuro papel da Rússia na economia global; o adiamento - que estava agendado - da discussão sobre as alterações climáticas; a velada contestação à liderança do cluster anglosaxónico por parte dos países emergentes. Um pouco por toda a parte, com o desenvolvimento da crise e a crescente dificuldade em encontrar respostas pela via da economia, começam a ser defendidas políticas protecionistas e restrições à livre circulação de pessoas. Movimentos independentistas - como acontece na Escócia e na Catalunha - contrariam a política do G20, ao mesmo tempo que se assiste a uma ascensão de partidos e movimentos conservadores e ao renascer de ideais xenófobos e racistas.

A questão da Ucrânia, onde as sanções económicas contrariam frontalmente o neoliberalismo defendido pelo G20, acabou por se impor à agenda da reunião e dominou a cimeira. Os quatro países anglosaxónicos (EUA, UK, Canadá e Austrália) presentes na cimeira, protagonizaram o papel anti-Rússia. Por seu lado, a Europa vacila: Hollande faz birra, protelando a entrega do submarino encomendado pelos russos, e a Alemanha está confusa e dividida perante o efeito boomerang das sanções sobre a sua própria economia.

Entretanto, liderados pela Rússia e pela China, os países emergentes parecem querer afirmar uma agenda própria dentro do Grupo. Identificaram a ameaça do TTIP - a anunciada parceria para o comércio e investimento do Atlântico Norte -, e procuram combater a hegemonia do dólar.

As alterações climáticas estiveram ausentes da agenda de Brisbane. Com o adiamento desta questão, procurou evitar-se a parte inconveniente da discussão, pois a urgência do tema põe em causa a orientação económica e desenvolvimentista do Grupo. Mas o planeta tem a sua agenda própria que não coincide necessariamente com a do G20. Não aceitará tréguas, não suspenderá as reações adversas, nem amenizará a ocorrência de fenómenos climáticos extremos, a que vamos assistindo um pouco por toda a parte.


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Eça de Queirós

Já passaram 114 anos sobre a morte do grande romancista e a obra que nos deixou continua a atrair a atenção de leitores, literatos e outros estudiosos. Ainda hoje, os seus livros são reeditados e, os mais representativos, adaptados ao teatro e ao cinema. As personagens dos seus romances - que sugerem uma tipologia social – fazem parte da nossa história e da nossa cultura. Pensamentos, apreciações e comentários, retirados dos seus escritos, são frequentemente citados e circulam na net, plenos de atualidade por encaixarem a preceito nos protagonistas e nas situações da nossa vida política e social. De onde vem a força desta escrita e a atualidade deste escritor?

Eça foi, acima de tudo, um atento e perspicaz observador de Portugal e do mundo. Da sociedade portuguesa da segunda metade do século XIX deixou-nos, enquanto romancista, um retrato cru e fiel. Dos conflitos e dos meandros da política mundial deixou-nos, enquanto jornalista, análises minuciosas e vaticínios acertados. A sua infância ficou marcada pela ausência de uma família que lhe deu o nome, mas lhe negou o aconchego do lar. O carinho tê-lo-á ele encontrado na ama que o amamentou em Vila do Conde e nos avós paternos que, perto de Aveiro, o acolheram e educaram na meninice. Ao contrário da mãe, fria e ausente, a figura e a personalidade do pai acompanhou-o e influenciou-o pela vida fora. A singularidade do seu nascimento fez dele um outsider e deu- lhe a autonomia afetiva que lhe conferiu distanciamento e independência crítica. A ironia, em que Eça revela argúcia e inteligência, foi a marca desse distanciamento.

O lustro de Coimbra foi o tempo de aprendizagem e de gestação, estimulada pelo fermento da cultura francesa e pelo contacto com amigos, dos quais se destacou Antero de Quental, que exerceu nele uma forte impressão. Lisboa, onde viveu durante algum tempo depois de terminado o curso, foi a descoberta da grande cidade, o contacto com a política e com a sociedade. Em Évora, como diretor e único redator do Distrito de Évora foi destilando o seu jeito para a crítica e apurando a mão para a escrita. A viagem ao Egipto, onde assistiu à inauguração do Canal de Suez, e o deslumbramento da Terra Santa abriram-lhe a primeira janela para o mundo e marcaram-no para sempre.

Leiria, onde desempenhou o cargo de administrador do distrito, foi o palco do seu primeiro romance. No Crime do Padre Amaro, o livro que ele trazia no ventre, ousa pôr em pratica o realismo como escola literária e abordar os temas tabú da religião e do sexo. O estilo da prosa, que irá apurar nos romances subsequentes, evidencia já o arrojo da inovação tão bem caraterizado por Ernesto Guerra da Cal, o autor galego que mais profundamente estudou a sua linguagem e o seu estilo. Já nessa primeira obra se mostra a prosa criativa em que os adjetivos geradores de contrastes, conferindo tonalidades e melodia à narrativa, parecem desempenhar o papel da luz nos quadros dos pintores impressionistas.

A primeira experiência consular foi em Cuba, a partir daí não deixaria nunca mais de ser um expatriado, primeiro em Inglaterra e depois em França. Nunca fez amigos estrangeiros, pois o seu campo de observação estava em Portugal e o universo da sua ficção foi sempre português. Três romances, laboriosamente escritos e dolorosamente revistos, sempre na busca da perfeição, constituem o esqueleto da sua obra: O Crime do Padre Amaro, a explosão e a vitalidade da juventude; O Primo Basílio, o grande ensaio de estudo e caracterização de personagens e apuramento do estilo; Os Maias que são a sua obra prima, longamente pensada e amadurecida. Nestes três romances não existem heróis, apenas pessoas, enredadas nos seus defeitos e atormentadas nas suas dúvidas. Amélia d'O Crime do Padre Amaro e Luísa d'O Primo Basílio são os personagens centrais da ação, motivadas pelo fogo da paixão a pela força do enleio amoroso. N'Os Maias a arquitetura da narrativa ganha outra dimensão: a figura central é Afonso da Maia, o patriarca da família, onde, como num quadro, converge o ponto de fuga de toda a trama. Não será por coincidência que todas estas figuras centrais dos seus romances, incapazes de resolver ou superar as paixões - casos de Amélia e de Luísa - ou abandonar as convicções - caso de Afonso da Maia -, morrem no final dos romances.

Eça foi um eterno insatisfeito, parecia hesitar entre o que era e o que gostaria de ter sido. As suas opções pessoais, raramente afirmadas na primeira pessoa, oscilavam entre o espírito progressista do Cenáculo na juventude e o pendor conservador dos Vencidos da Vida, na idade madura. A sua personalidade parece flutuar entre o laicismo e a religião, entre a república e a monarquia, entre a cultura e a aristocracia, entre a vida familiar e a vida social, entre a tradição e a civilização. Fradique Mendes é o seu alter-ego, um contraponto paradoxal de si próprio que, tal como os espelhos das feiras, refletem as imagens invertidas e deformadas.

Morreu em Paris, aos 55 anos, no primeiro ano do século XX. Se não tivesse morrido tão novo, podemos imaginar como teriam sido os anos da sua velhice, depois de regressado a Portugal. Os seus últimos escritos sugerem-nos um Eça a viver em Tormes, à semelhança dos retiros de Herculano ou Lev Tolstoi, rendido à natureza, inspirado pela vida dos santos e procurando as coisas simples da vida.

Eça libertou-se do tempo e foi um visionário. Foi um artista que deu um novo fôlego à língua portuguesa. Para muitos, depois de Camões, ele foi o nosso maior escritor de todos os tempos.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Grécia e Portugal

A Grécia é um santuário, berço da Civilização Ocidental. Aí nasceu a Filosofia, mãe das ciências, e a Democracia, mãe do moderno estado organizado. O grego foi a língua que formatou o nosso pensamento cientifico e deu nomes às ciências, e significantes aos conceitos que utilizam. Não podemos ignorar os contributos dos romanos e do latim; dos judeus cujo pensamento, enxertado no pensamento grego, produziu o cristianismo; do ressurgimento renascentista ligado às artes e ao comércio das repúblicas italianas; da expansão ibérica que revelou os novos mundos; das luzes do iluminismo francês e da revolução industrial nascida em Inglaterra, que foi a antecâmara da moderna economia e da globalização. Mas são gregos os genes da Civilização que domina a Terra.

No passado mês de Abril, convidado por um casal amigo, visitei a Grécia acompanhado pela minha mulher. Escrevi, então, sobre as fortes impressões que essa viagem me causou num texto que intitulei as sementes da democracia, o qual acabou por ser publicado nas páginas do semanário Expresso.  Foi com emotiva surpresa que, passados alguns dias após essa publicação, recebi na Fundação uma chamada telefónica da  Embaixada da Grécia dizendo que o Embaixador tinha gostado de ler o artigo e gostaria de me conhecer.

A oportunidade chegou na semana passada . Recebi um convite do Sr. Embaixador Panos Kalogeropoulos para assistir a uma cerimónia na sua residência em Lisboa. Tratava-se de homenagear a professora jubilada Maria Helena da Rocha Pereira, a quem iria ser entregue a Cruz da Ordem da Fénix que lhe fora atribuída pelo presidente da República Grega. E, assim, no final da tarde de quarta feira, dia 5 de novembro, vesti o meu fato-de-ver-a-Deus e lá fui ao Restelo.

Fui recebido pela secretária da embaixada que me introduziu na sala de estar onde o embaixador recebia os convidados. Ao ouvir o meu nome, cumprimentou-me com um sorriso afetuoso e um breve comentário, associando-me de imediato ao artigo do Expresso: - As sementes da democracia ! Apontou-me a homenageada: junto a uma lareira, sentada numa cadeira e denunciando uma clara dificuldade de locomoção, estava uma senhora de proveta idade e aspeto franzino. Era a professora Maria Helena da Rocha Pereira,  a primeira mulher que ascendeu à cátedra na secular Universidade de Coimbra, arqueóloga, helenista, investigadora e uma impressionante obra produzida. Parecia incrível e irreal que aquelas mãos tivessem escrito tantos artigos e que aquela mente pudesse ter traduzido a República de Platão, as Bacantes de Eurípedes ou a Antígona de Sófocles. Senti-me tentado  a  ir cumprimentá-la, e beijar-lhe as mãos. Mas não o fiz, por temer que a minha insignificância e limitada cultura pudessem profanar aquela serena e doce figura.

O Embaixador Kalogeropoulos fez o elogio da homenageada, destacou a sua obra, o seu impacto tanto a nível nacional como internacional, antes de lhe colocar no peito a insígnia que lhe tinha sido atribuída. 
A professora, de uma forma clara e concisa, leu um discurso em que se referiu à importância da cultura grega e à beleza da sua linguagem, onde destacou o dialeto Ático. Com a  sabedoria de quem sabe do que fala, aquela ilustre professora apresentava-se, aos meus olhos e  naquele momento, como uma ponte cultural  que ligava Portugal e a Grécia.

No cocktail que se seguiu, de copo na mão, senti-me perdido no meio daquela gente onde não conhecia ninguém; arrisquei estabelecer conversa com um grupo que estava mais perto, declarei-me náufrago e pedi ajuda. Os meus solícitos salvadores eram arqueólogos, antigos alunos e colaboradores da professora, também eles agora professores, um no Porto outro em Coimbra. E estava também um sobrinho da homenageada. Respirei fundo; estava salvo. Falámos da Grécia, de Creta, de Micenas e de Delfos. Foi com imenso prazer que 
ouvi aqueles ilustres professores falar de escavações e de fragmentos de vasos gregos descobertos em Trás-os-Montes. Um deles tinha, inclusive, escavado na Ágora, em Atenas.  E ocorreu-me comparar a Psicologia,  a ciência que se ocupa do estudo da alma do Homem, com a Arqueologia, que é a ciência que se ocupa do estudo da alma da Humanidade.

No final, despedi-me do embaixador com um Kalinixta, desejando-lhe uma boa noite e agradecendo-lhe tão honroso convite. A minha aventura grega não podia ter terminado de melhor forma.

PS: As sementes da democracia pode ser lido aqui