segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Assim vai o Mundo

Na aldeia global os acontecimentos sucedem-se vertiginosamente. Trazidas pelos ávidos media, as notícias novas atropelam as velhas e remetem-nas para o esquecimento. Numa semana, deixámos de ser Charlie para passarmos a ser Tsipras. Os comentadores e os fazedores de opinião - mas também os políticos -, perante a angústia provocada pela incerteza do desfecho dos acontecimentos, começam a ficar nervosos e desorientados. O cidadão comum vai-se entretendo nas redes sociais, e fica trocando emails com anedotas e gags, à espera que as coisas aconteçam. Como a nêspera no poema (*) de Mário Henrique Leiria…

A situação na Grécia e na Europa, a prolongada crise da Ucrânia, a guerra do médio Oriente e o preço do crude são alguns sinais preocupantes de um iminente agravar da crise que ameaça o mundo global. O petróleo, caro ou barato, continua a ser o sangue da economia. Os investimentos das grandes empresas petrolíferas estão a ser congelados ou adiados, e isso vai, a breve prazo, trazer consequências gravosas na produção. Os excessos feitos, nas estimativas das reservas e nas previsões de produção, para atrair investidores do shale oil americano, criaram uma bolha de crédito que já está revelar-se tóxico e a necessitar de um urgente bail out. A decisão de baixar o preço do petróleo, acertada pelos dois países que tem capacidade para o fazer - os Estados Unidos e a Arábia Saudita -, é uma arma estratégica de dois bicos que pode provocar efeitos colaterais perversos em muitas economias.

No mundo global, terminada a guerra fria, começa a esboçar-se uma nova ordem mundial. Os EUA, levando a Europa a reboque, aspiram assegurar a liderança do mundo que sairá dessa nova ordem. No tempo mais imediato, dois obstáculos se colocam: a Rússia e o Médio Oriente. Pelas intricadas conexões que os ligam, existe ali uma situação muito complexa. Eleger a Rússia como inimigo a abater - a domesticar, talvez seja o termo mais correto - é um desiderato americano mas não deveria ser uma prioridade europeia. A Rússia, pela sua história e pela sua cultura, faz parte integrante da Europa. Estamos ainda a digerir os restos da queda do muro de Berlim. Convém não esquecer que Rússia foi um aliado do Ocidente contra a Alemanha em duas guerras mundias, e, com 20 milhões de mortos, pagou a fatura mais pesada no último desses conflitos . A unificação alemã voltou a produzir uma Alemanha muito forte e a América não pode deixar que se enamore da Rússia. O resto da Europa, enfraquecida e desorientada, assiste impotente e limita-se a seguir o mais forte.

A Grécia está a revelar-se uma peça que pode assumir um valor estratégico muito importante na luta pelo controlo do Médio Oriente. Por isso, o discurso político começa a sobrepor-se ao discurso económico. A Europa está a confrontar-se com as contradições da sua construção. Na superação dessas contradições joga o seu futuro. E a isso, nós portugueses, não podemos ser indiferentes.
(*) Uma nêspera/estava na cama/ deitada/ muito calada a ver/o que acontecia/chegou a Velha/ e disse/ olha uma nêspera/ e zás comeu-a/ é o que acontece/às nêsperas /que ficam deitadas/ caladas/ a esperar/ o que acontece.       Mário-Henrique Leiria

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O Dilema Grego

Para quem tem o coração à esquerda, a euforia com que se festejou o resultado das eleições gregas do passado dia 25 de janeiro foi um belo e excitante momento. Viu-se o erguer, como há muito não acontecia, das bandeiras do socialismo, da democracia e da liberdade; mas, para aqueles que já aprenderam as lições da história e entendem o realismo da economia e da política, a vitória do Syriza é vista como uma vaga promessa de uma nova esperança que, não sendo concretizada, poderá transformar-se num pesadelo com amargas consequências para os gregos e para a Europa.

 A importância para Portugal do resultado das eleições na Grécia, e a vitória de Alexis Tsipras, está bem patente na quantidade de opiniões – muito diversificadas e, por vezes, contrárias e contraditórias – que os jornalistas, colunistas e comentadores dos órgãos de comunicação social portugueses têm vindo a produzir desde o dia 25 de janeiro passado. De um modo geral, essas opiniões relevam a potencial gravidade da situação criada e afloram o dilema que a Europa enfrenta, o qual, como todos os dilemas, é gerador de conflitos e fonte de angústia e incerteza.

O dilema resulta da Europa não poder apoiar uma política despesista do Syriza, mas, ao mesmo tempo, não poder deixar a Grécia entregue a si própria. A Grécia tem uma dívida monstruosa, que não vai conseguir pagar. Ora o governo Tsipras está a tomar medidas que vão aumentar o deficit e a dívida. Logo, a Grécia vai continuar a precisar, cada vez mais, de ajuda económica para sobreviver. Mas não é seguro que a Europa queira continuar a ajudar a Grécia. Se a Europa recusar ajudar a Grécia, a Rússia é o único país que tem condições para o fazer. E pode ter interesse em fazê-lo.

Uma Grécia dissonante da UE – e da Nato! – tem interesse estratégico para Vladimir Putin. Situa-se numa zona quente do Globo: próximo do acesso ao Mar Negro e ao Médio Oriente. É, tal como a Turquia, um país da Nato. A Nato é, basicamente, uma aliança entre os EUA e a Europa – que não tem capacidade militar –, aliança que está a ser ativamente reforçada através do discreto (secreto!) TTIP – Aliança Norte Atlântica para o Comércio e Investimento. A Ucrânia já veio dizer que quer abandonar a politica de não alinhamento como primeiro passo para pedir a adesão à Nato. O que, a acontecer, desagrada aos russos, pois colocaria a Nato às portas de Moscovo.

Neste jogo de xadrez, Tsipras já fez os primeiros movimentos numa abertura de quem quer jogar ao ataque: aprovou as primeiras medidas anti-troika; visitou, logo após ganhar as eleições, o Embaixador da Rússia em Atenas; questionou, no seio da UE, as sanções à Rússia. Esperemos pela resposta de Merkel e da Europa. Mas começa a perceber-se que esta pode ser apenas mais uma partida do verdadeiro jogo, bem mais complexo, que se disputa no tabuleiro mundial entre Obama e Putin.

A fragilidade do Syriza decorre de não propor nada de construtivo e não ter nenhum modelo económico alternativo ao da tróika. Rejeita a austeridade, mas fala da necessidade de crescimento da economia; a mesma economia, afinal, que impôs a austeridade. Isto é, Tsipras desconfia dos mercados; mas, para sair da crise acaba por advogar a economia de mercado.

Como chegámos a este dilema é uma questão de fundo. Não vale a pena procurar culpados entre os suspeitos do costume. Atente-se antes nos verdadeiros problemas da espécie humana embrulhada nas contradições de um modelo que já não gera o almejado crescimento que todos desejam. Temo que o jovem Alexis esteja à espera que lhe abram uma porta ao pé de uma parede sem portas.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Tribos em Confronto

Os sangrentos acontecimentos de Paris, que vitimaram os jornalistas do Charlie Hebdo, estão a provocar ondas de choque um pouco por toda a parte. Houve amplas e diversificadas reações dos governos e dos meios de comunicação e, no seio da opinião pública europeia, não deixaram ninguém indiferente. A França e a Europa estão com uma ferida aberta, e os governantes não sabem bem quais os curativos para a sarar. Querer reduzir o que se passou no Charlie a um ato isolado, e apelidar os autores do massacre de terroristas ou fanáticos religiosos, é simplificar demasiado o problema. O sérvio Gavrilo Princip que, em junho de 1914, matou o arquiduque Francisco Fernando, em Serajevo, era na atual concepção do termo um terrorista. Ora, o seu ato conduziu à I Guerra Mundial, e com as consequências que todos conhecemos.

Na França vivem milhões de muçulmanos árabes. Muitos deles, possivelmente a maior parte, são cidadãos franceses. Não sendo estrangeiros, eles são, contudo, vistos como estranhos. Vivem de forma diferente, quase sempre nos bairros mais pobres e periféricos, vestem de forma diferente, praticam uma religião diferente e, muitos deles, falam um idioma diferente. São também diferentes os seus valores morais e familiares - destaco aqui a forma como encaram o papel da mulher na família e na sociedade. E não vale a pena ajuizar sobre a superioridade das duas concepções de vida, dos seus valores ou das suas culturas: enquanto pessoas, os francos - não encontro melhor designação para a comunidade francesa tradicional - e os muçulmanos não são comparáveis nem devem comparar-se. Mas as diferenças e a história fazem com que exista, quer dum lado quer do outro, um forte sentimento de pertença a um grupo ou a uma tribo. E quando duas tribos ocupam ou disputam o mesmo território, e se alicerçam em valores e modos de vida diferentes, aparece inevitavelmente o confronto que, quase sempre, acaba por conduzir à guerra.

Na sociedade global, as tribos são globais. Os francos pertencem à tribo do ocidente cujas raízes estão na Europa cristã que herdou a sua matriz do Império Romano do Ocidente, mas que hoje se estende pelas Américas, parte de África e Austrália. Atualmente essa tribo já não tem mais um sustentáculo religioso, e o seu cimento é a economia. Os estados são laicos, o poder radica no voto e os seus principais valores emanam da Carta dos Direitos do Homem onde se afirmam os princípios da Igualdade e da Liberdade. Do outro lado, a tribo Islâmica radica numa vasta e rica região no seio da qual está a emergir um indefinido Estado Islâmico - sem fronteiras, a lembrar o nomadismo dos beduínos. Nestas sociedades o cimento e principal fator de agregação é a religião, os Estados e as Leis são fortemente - nalguns casos totalmente - influenciados pelos princípios do Corão.

A cultura ocidental não assimilou o Islão da mesma forma que assimilou os povos nativos americanos ou africanos. Nem se estabeleceu com estes povos uma convivência pacifica de base comercial tal como existe, por exemplo, com chineses e indianos. O Islão tem uma cultura rica e com tradições no campo da filosofia (onde se destacaram Ibn Sin-Avicena e Averrois), da ciência, da literatura, da arte, da arquitetura... Mas não passou por uma revolução industrial, não sofreu o amadurecimento da renascença, não viveu a revolução cientifica do iluminismo, nem passou pela experiência igualizadora da revolução Francesa. E as duas guerras mundiais do século passado - talvez com exepção da Turquia - só marginalmente afetaram os fundamentos das sociedades islâmicas. Além disso, existe uma longa história de confrontação entre as duas tribos - recordemos a reconquista e as cruzadas - que disputam o mesmo espaço e têm as mesmas raízes religiosas.

A França, onde o fervor medieval da cristandade se reflete na beleza gótica das suas catedrais, vive hoje o tempo das mesquitas. A presença do Islão em França - e noutros países europeus - está em crescimento, e tem uma dinâmica de progressão acelerada. Para isso contribuiu a vinda de muitos argelinos após a descolonização, a forte pressão migratória da populosa África do norte e da zona do Médio Oriente - onde o caso mais notório é a Síria. Nos últimos 20 anos, o número de mesquitas em França duplicou e atualmente outras trezentas estão a ser construídas. Na rede pesco a informação de que "existem cerca de 300 sinagogas em França, e perto de 1.700 mesquitas e locais de culto muçulmano (embora menos de 50 sejam verdadeiras mesquitas), 39.000 igrejas, 1.100 templos protestantes e uma centena de pagodes". Muitos dos muçulmanos residentes em França serão militantes ativos da causa jihadista, ou seja seguidores estritos do corão, empenhados, por todos os meios, em alcançar a fé perfeita.

O confronto, tudo o indica, vai agravar-se. O que se passou no Charlie Hebdo é apenas um episódio de guerra, e não vale a pena discutir se houve ou não exagero na publicação das gravuras. O pretexto poderia ter sido outro qualquer, por exemplo, um massacre numa escola que impedisse uma aluna de usar o véu. As chances favorecem a tribo islâmica, pois os seus elementos reproduzem-se mais, têm menos a perder e têm a crença e o empenho para alcançar a fé do lado deles - para já não falar do petróleo! Os francos, e com eles todo o Ocidente, jogam tudo na assimilação do mundo muçulmano ao modelo ocidental - entenda-se modelo económico, pois não existe outro. Isso ficou bem patente na orientação da cimeira de chefes da diplomacia Europeia - que advoga uma aproximação aos países islâmicos -, na esperança, entretanto desfeita, do ressurgimento de outra primavera árabe. Se falharem os seus intentos, chegará a vez da Senhora Marine Le Pen e dos extremistas de ambos os lados se prepararem para uma nova cruzada.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A Reguladora

Na semana passada, por ocasião de uma viagem ao Norte acompanhado do meu filho Miguel, encontrando-nos nós na cidade de Famalicão e com tempo disponível, decidimos visitar a Reguladora, uma velha fábrica de relógios fundada em 1892. Abordado na rua, um primeiro informador diz-nos que a fábrica já teria fechado e aponta-nos um velho edifício fabril. Arriscámos e, depois de passarmos uma recepção, daquelas que anotam os nomes das visitas, descobrimos que a Reguladora, afinal, ainda existe. Mas logo percebemos que o que encontrámos é apenas muito pouco daquilo que em tempos foi uma grande unidade industrial, e que chegou a empregar mais de 1000 pessoas. Agora é uma singela oficina de reparação de relógios, onde apenas trabalham duas ou três pessoas, embora venda relógios de bolso, importados de Itália, com a marca Reguladora impressa no mostrador. A pessoa que nos recebeu - imagino que fosse o gerente - era de poucas falas e mostrou pouco entusiasmo em contar-nos a longa história da empresa.

Para os possam ter curiosidade em conhecer a história desta fábrica, sirvo-me do texto de Fernando Correia de Oliveira publicado aqui  .
Foi em 1892 que se fundou, na Rua Gomes Freire, no Porto, a firma S. Paulo Carvalho, depois mudada em 1895 para Calendário, Vila Nova de Famalicão. João José de São Paulo, genial mestre relojoeiro, viria a falecer pouco depois, mas o seu sócio, José Gomes da Costa Carvalho, continuou o negócio, fazendo relógios de mesa, de parede, de caixa alta, despertadores. Ele manteve-se até hoje na família Carvalho, mas acaba de mudar de mãos. Estamos a falar da Fábrica Nacional de Relógios, depois A Boa Reguladora, a partir de 1953 apenas Reguladora.
Uma das marcas portuguesas mais perenes e conhecidas – não há praticamente casa onde um relógio seu não tenha entrado. Partindo de cópias de máquinas norte-americanas, a Reguladora fazia nos seus tempos áureos praticamente todas as peças e as caixas, dando emprego a centenas de operários. Foi um dos grandes fornecedores de relógios de Estação para os Caminhos-de-ferro Portugueses e alguns dos seus relógios domésticos atingiram alguma sofisticação, tocando melodias. Para Famalicão, a Reguladora e a família Carvalho foram cruciais – não apenas como grandes empregadores – a electrificação da zona ficou a dever-se a uma máquina a vapor importada pela fábrica de relógios. (...) 
Depois de vender a uma multinacional a sua unidade fabril de contadores eléctricos e de água, depois de várias mudanças no seio da família Carvalho, a Reguladora foi definhando nos últimos dez anos, deixando há muito de fabricar movimentos – importava-os da Alemanha. Agora, três antigos quadros da empresa, José Cunha, José Varela e Filipe Marques, compraram aos Carvalho a marca Reguladora e, partindo de uma pequena empresa de seis pessoas, incluindo dois relojoeiros, localizada ainda em Calendário, vão tentar relançá-la. (...)  Se a Reguladora desaparecer, é um bocado da História de Portugal que desaparece.
 A Reguladora foi, no seu tempo, um caso de sucesso, mas pela forma como terminou - ou está a terminar - ficará na história como um caso de insucesso. Ora nós - esta é a regra das escolas de gestão! – gostamos sempre de analisar os casos de sucesso como forma de aprendizagem, mas eu entendo que se aprende mais a estudar os casos de insucesso.

Claro que o insucesso da Reguladora tem muitas causas, e ocorre-me enumerar algumas: a evolução tecnológica da relojoaria que passou do mecânico para o digital; a globalização e o fim dos protecionismos; a obsolescência dos produtos; a ausência de uma política de marketing e de design ; o facto de ser uma empresa familiar, o envelhecimento do pessoal; a falta de investimentos para renovar os equipamentos de produção; etc. Podíamos traduzir tudo na ideia simples de "má gestão" e ficarmos por aqui. Mas existindo em Portugal sobrantes casos de insucesso - poderíamos citar muitos e terminar na PT em desagregação! - julgo que valeria bem a pena dedicar um curso em qualquer das nossas faculdades de gestão ao estudo deste caso.

O previsível fim da Reguladora não deve confundir-se com os casos dessas empresas que abrem e fecham aqui e acolá, deslocalizando-se à procura do lugar onde têm mais vantagens fiscais ou onde a mão de obra é mais barata. A Reguladora foi criada por portugueses, é uma marca portuguesa, e o seu desaparecimento constitui um grave prejuízo para Portugal, pois estamos a falar de parte do nosso património económico.

Na prática, a Reguladora já não existe nem como empresa nem como marca. Depois de a visitar fiquei com a convicção de que teria sido possível salvá-la com uma gestão correta, atuando no momento certo. As empresas nascem e morrem. Mas as grandes empresas sobrevivem aos seus fundadores. É na capacidade de projetar e prolongar a vida das empresas e das marcas que se revela a pujança de uma economia e se afirma a soberania dos países.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

2015

Obedecendo ao implacável Chronos, os anos sucedem-se inexoravelmente no calendário. Uns partem e outros nascem, alternam-se governos e suas políticas, mudam-se vontades, alimentam-se esperanças, surgem desilusões. No virar da página, que ocorre após cada solstício de Inverno - a festa do ano novo e do renascer da Vida -, assumem-se propósitos de mudança para melhor, que rapidamente são esquecidos e raramente se cumprem.

O ano de 2015 da Era Cristã, que agora começa, assinala a entrada da civilização no terceiro século da moderna era global. Foi há 200 anos que, numa guerra feita com cavalos, pólvora e artilharia, Napoleão e a França foram derrotados em Waterloo. Acreditava-se que se seguiria uma longa paz. A conferência de Viena, que teve lugar nesse mesmo ano, organizou - de forma estável, acreditava-se – a Europa dos Estados. Tudo isto parece que aconteceu há muito tempo. Mas foi por essa época que nasceu o avô do meu avô, tendo decorrido, desde então, apenas o breve tempo de seis gerações.

Nos anos seguintes, a Inglaterra iria dominar os mares e construir um grande império disperso por todo o globo. Mas há 100 anos atrás - já o meu pai era nascido!-, a Europa já estava de novo em guerra. Foi um conflito destruidor - desta vez centrado na mobilidade proporcionada pelo carvão e pela máquina a vapor - que acabou mal resolvido e que, volvidos apenas 20 anos, iria ter uma sequela ainda mais destruidora. Foi uma sangria de pessoas e bens, que acabou por marcar a emergência da poderosa América e o declínio definitivo duma Europa colonialista e desprovida de recursos.

O ano que agora começa vai encontrar o mundo num turbilhão de conflitos. Não se vêem sinais de melhoria na solução dos grandes problemas que lhes estão subjacentes. Estamos no limiar de uma nova era, confrontados com novos desafios: as desigualdades, a sobrepopulação, as alterações climáticas, a escassez de recursos, os limites ao crescimento económico. Muitas das nossas convicções, tais como a crença na tecnologia e na ciência, a perenidade dos valores éticos e religiosos, a crença numa sociedade mais justa e igualitária, a irreversibilidade das conquistas sociais, estão a ser profundamente questionadas.

O futuro do mundo joga-se no eixo que vai da Turquia ao Paquistão, dominado pelo mundo islâmico, e onde convergem os interesses dos Estados Unidos, da Rússia, da China e da Europa. Guardada pela sentinela do ocidente que é o Estado de Israel, aqui se encontra a cobiçada bacia petrolífera do Golfo Pérsico, o maior recurso energético da humanidade. E na fronteira norte encontram-se a Ucrânia e a Crimeia, região que continuará a ser uma área de conflito entre a Rússia e a coligação EUA-Europa.

O excesso populacional, sobretudo em África, é um problema sem solução aparente: os africanos - e também os refugiados dos conflitos no Médio Oriente - vão continuar a pressionar as fronteiras da Europa do sul. Os males da globalização criam tensões, um pouco por toda a parte: o urbanismo está a acentuar bolsas de miséria, os recursos - a começar pela água potável - vão escasseando, o planeta reage à poluição extremando secas e enchentes, facilitando, desse modo, incêndios e perdas de culturas.

Vive-se o ambiente que precede os grandes conflitos. Mas não se espere a reedição das grandes guerras de antigamente. As guerras atuais são localizadas e intermináveis. A guerra entre as grandes potências vai ser uma guerra de outro tipo, possivelmente mais destruidora que as anteriores. Vai ser uma guerra insidiosa, de natureza económica e financeira, e alargada ao ciberespaço. Uma guerra onde a informação e os novos media terão um papel determinante. Alguns acreditam que já terá mesmo começado!


segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Jogos Perigosos

A brusca descida do preço do barril de petróleo, ocorrida no último trimestre de 2014, tem vindo a causar perplexidade e o assunto tem sido objeto de inúmeros comentários e análises de economistas e outros especialistas na matéria. Para quem acompanha com interesse o sector energético, o que causa mais estranheza é a rápida descida do preço, a qual, num período de poucas semanas. se cifrou em cerca de 40%, passando dos 100 dólares/barril para cerca de 60. De um modo geral,  atribuem-se como causas desta descida: a quebra na procura da matéria prima  resultado da desaceleração do crescimento económico a nível mundial; o acréscimo da produção de shale oil nos Estados Unidos; a  recente decisão da OPEP em manter inalterado, no futuro próximo, o quantitativo da sua produção.

À primeira vista os exportadores de petróleo perdem com o preço baixo; os importadores ganham. Os Estados Unidos, simultaneamente grandes produtores e grandes importadores ganham por um lado e perdem por outro. Mas, para a economia global, as consequências desta baixa de preço podem ser inesperadas. Diz Gail Tverberg, uma especialista em assuntos energéticos, que "com o preço baixo o petróleo ficará no subsolo, e isso já começou a verificar-se, nos Estados Unidos, na produção do petróleo de xisto e na produção off-shore". A perspectiva, muito badalada, de os EUA virem a tornar-se exportadores começa a fica cada vez mais longínqua. A baixa de preço do crude terá reflexos na economia  americana pois a a extração do petroleo de xisto tem forte impacto na taxa de emprego. E há que ter em conta que explosão do fracking foi ativamente estimulada pela massiva concessão de crédito. Ora, a queda dos preços vai provocar muitos imcumprimentos de pagamento das dívidas das empresas produtoras, e  pode provocar deflação. A dificuldade de pagar os débitos é  menos desejável numa altura em que o mundo está atingir níveis muito elevados do endividamento. Alguns observadores temem que a incerteza num segmento tão importante poderá ser contagiosa e tenderá a espalhar-se, secando a  liquidez e impossibilitando o financiamento de sectores de alto risco.

Diz ainda a senhora Tverberg que "a queda dos preços afeta os países exportadores e pode provocar fortes quebras na sua produção, e que, com o petróleo a baixo preço, se  mata a esperança no desenvolvimento das renováveis" . E conclui dizendo que "de um modo geral, os benefícios da queda dos preços não compensarão os malefícios provocados pela subida que, inevitavelmente, se seguirá".

Um pouco por toda a parte as empresas do sector  reavaliam os investimentos na prospecção e exploração de petróleo.  : Robin Allan, presidente de uma associação de produtores independentes diz que as perspetivas no Mar do Norte são negativas: "no Mar do Norte existe uma enorme crise. Não há novos projetos rentáveis com petróleo abaixo de 60 dólares o barril. Em consequência disso, a extração de petróleo da plataforma continental norueguesa caiu 5% apenas neste ano. E daqui a 10 anos a Noruega produzirá crude apenas para consumo interno e deixará de exportar".

David Hughes citado na press review semanal de Luís de Sousa refere que tendo analisado os dados das maiores empresas de fracking observou que o declínio da produção tende a ser muito elevado nestas jazidas (70% no primeiro ano; 85% no terceiro) .  Se considerarmos que as primeiros poços a serem explorados são os mais produtivos, no futuro o declínio será ainda maior. E acrescenta : "estamos a basear as nossas esperanças de oil independence  em falsas premissas. Pior do que isso, usamos isso para negar o pico do petróleo quando deveríamos utilizar esta reserva extra para construir as estruturas de uma nova era energética - seja qual for o seu modelo -, enquanto ainda tivermos energia disponível para o fazer".

Outras notícias citadas na mesma fonte dão conta de ter sido suspensa a  construção do pipeline que deveria ligar Dakota a Oklahoma para escoar o petróleo de xisto da bacia de Bakken . A Chevron, por sua vez , cancelou as perfurações no Ártico canadiano. E na Ucrânia foram abandonados projetos de fracking na região oeste,  significando o fim do sonho do país se tornar num grande produtor de gás de xisto para, deste modo, reduzir a sua dependência da Rússia.

No complexo contexto internacional esta situação convém à América. Os danos causados sobretudo nas economias russa iraniana e venezuelana - os seus clássicos inimigos de estimação!-, compensam os prejuízos caseiros e, no cômputo final, servem os seus interesses. O fracking é o seu trunfo principal mas é, ao que tudo indica, uma carta com menos valor do que aquele que se anuncia. Como no poker, é utilizado para fazer bluff , escudado nos lobbies e nas enormes campanhas de publicidade e de relações publicas. O principal adversário dos americanos  é Putin. Ora, o russo tem mais o perfil e o comportamento de um jogador de xadrez do que de um jogador de poker. Por isso, o desfecho do jogo é incerto... Muitas vezes estes jogos, de altas paradas, acabam mal...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Hasta Siempre Cuba

A revolução cubana faz parte do imaginário de muita gente da minha geração que viveu, na sua juventude, o tempo do maio de 68. O grupo de revolucionários que desembarcaram no Granma e, após três anos de luta de guerrilha, derrubaram o regime de Fulgêncio Batista, entre os quais Fidel de Castro e Che Guevara, eram heróis que despertavam sonhos de revolta, e  que eram celebrados nos posters afixados nas paredes dos nossos quartos de estudantes e nas canções revolucionárias dos convívios universitários. Tive um amigo que, na generosidade dos 20 anos e inspirado nos heróis da Sierra Maestra, planeava formar um grupo revolucionário na Serra da Arrábida para, a partir daí, derrubar o ditador Salazar.

Com o andar dos anos, Cuba foi perdendo muito do seu encanto e da sua magia. Fidel envelhecia; todos nós envelhecíamos! Em 1967, o Che era assassinado na Bolívia, esboçavam-se conflitos internos na luta pelo poder. Os meus amigos que visitavam Cuba traziam-me a imagem de uma espécie de Aldeia de Asterix encravada na Gália romana, sempre invencível e resistindo sempre. Descreviam-me uma sociedade carenciada mas feliz, com carros muito velhos circulando nas estradas, como se o tempo tivesse parado naquela ilha. Falavam-me de gente simples, alegre, culta e hospitaleira. E acrescentavam que os cubanos dispunham de um sistema de saúde gratuito e universal.

Foi notável a resistência de Cuba nos 56 anos que decorreram desde a tomada do poder pelos revolucionários na Sierra Maestra no dia 1 de janeiro de 1959.  Cuba foi, durante décadas, o espinho cravado nas barbas da poderosa América. A pequena república superou a invasão, ultrapassou a crise dos mísseis e Fidel sobreviveu milagrosamente a dezenas de tentativas de assassinato. Resistiu ao embargo económico e ao isolamento imposto pelos americanos. A lendária figura de Che Guevara inspirou movimentos de guerrilha em todo o mundo. A ousada intervenção cubana em Angola foi um desafio direto ao poder do Ocidente.

Cuba e os Estados Unidos anunciaram agora que vão desanuviar a tensão existente e reatar as suas relações diplomáticas. Com efeito, começava a tornar-se evidente que Cuba não podia continuar no isolamento provocado pelo fim da guerra fria. A crise financeira mundial, a morte de Hugo Chavez, a crise económica da Rússia e a abertura ao mundo através da janela da Internet, foram os golpes finais num regime isolado, desgastado e sem recursos. E contudo, não deixa de ser espantoso como este pequeno país resistiu durante tantos anos após o colapso da União Soviética.

Com este desfecho termina, no seu último reduto, o socialismo romântico. Cuba encher-se-á em breve de novos carros circulando em modernas auto-estradas, ladeadas de anúncios de Cocacola e MacDonalds. Irá integrar-se paulatinamente na economia global - insensível e predadora -, voltará a encher-se de ressorts, receberá os grandes navios de cruzeiro que, a partir de Miami, levarão milhares de americanos às Caraíbas. Voltará a ser o casino da América.

O fim de Cuba socialista vai ser bom para muitos cubanos; mas vai ser mau para muitos mais.  Com as suas insuficiências, com a sua determinação, com o seu engenho em as superar, Cuba foi um exemplo de como pode sobreviver-se com meios escassos e se podem atingir indicadores elevados na educação e na cultura. De alguma forma, este regime era uma esperança para os que acreditam que é possível uma economia alternativa. Mas ninguém poderia exigir egoisticamente que Cuba fosse o único guardião dessa esperança e pagasse sozinha o elevado preço de a conservar. Ficamos com o seu exemplo e uma grande dívida para com o povo cubano.

 Fidel, o herói de Moncada, velho, doente e retirado, já foi há muito absolvido pela História. Em artigos que, de vez em quando, publica no Granma, o jornal oficial do regime, revela ainda uma grande lucidez e neles tem alertado contra os caminhos perigosos do mundo global, no que respeita aos riscos ambientais e à escassez de recursos. Mesmo nesta rendição inevitável, Cuba manteve uma postura digna e não se ajoelhou perante a América. Hasta siempre Cuba!