segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Esquerda, Direita e a Quadratura do Círculo

O conceito de esquerda, centro e direita, para designar o posicionamento político dos partidos, parece remontar à assembleia legislativa que se reuniu em França nos anos que se seguiram à revolução de 1789. Na sua aceção inicial tinha a ver com a posição que os deputados dos diferentes grupos ocupavam na sala dos debates. Foram tempos conturbados, inspirados pelas ideias que tinham estado na origem da independência americana. Tempos que haviam de abrir caminho à modernidade e à democracia.

Atualmente, nas democracias ocidentais, esquerda e direita agregam eleitores e suportam grupos políticos - os partidos - que divergem entre si nos planos político, económico, social, cultural e laboral. Ser de direita é ser conservador; ser de esquerda é ser progressista; a direita privilegia a estabilidade e a ordem; a esquerda privilegia o movimento e a mudança. Historicamente a direita era monárquica e a esquerda republicana; a direita era religiosa, tradicionalista e rural, ao passo que a esquerda era agnóstica, progressista e urbana. A direita é associada aos patrões e empregadores e a esquerda aos empregados e assalariados. De alguma forma, a direita está associada à preservação do poder pelas elites que o detêm. A esquerda congrega os aspirantes a substituir as elites no poder.

No tempo da Revolução Francesa, a esquerda era predominantemente constituída pela burguesia e pelo baixo clero que se opunham ao poder e aos privilégios da nobreza e do alto clero. O século XIX e a Revolução Industrial trouxeram as ideias marxistas teorizadas à volta da dialética entre o capital - detentor dos meios de produção - e do trabalho do proletariado. Com a vitória da revolução bolchevique na Rússia czarista, em 1917, Lenine levou à prática estas ideias. Foi adotada uma nova economia - a economia socialista - em que o Estado era o detentor da propriedade da terra e dos meios de produção; a produção era planificada e não estava sujeita à concorrência baseada na lei da oferta e da procura.

No Ocidente, durante uma grande parte do século XX, a direita confundiu-se com o capitalismo e os valores da tradição cristã, e a esquerda com os princípios do marxismo-leninismo e a economia socialista. Foi o tempo da guerra fria. No período do pós guerra, o contributo de novos fatores de produção - a tecnologia e a energia - deram origem a um forte surto de desenvolvimento que criou nos países ocidentais uma ampla classe média. Foi com o apoio dessa classe media que vingou a social democracia, uma forma mais suavizada de capitalismo, que visava corrigir pela via fiscal as desigualdades sociais e promover o desenvolvimento do estado social nas áreas da saúde, da educação, e da proteção na velhice, no desemprego, nas situações de incapacidade e de pobreza.

A crise de 2008 - afinal uma profunda crise do capitalismo! - com o acentuar das desigualdades sociais, o aumento do desemprego e os cortes nas pensões, nos salários e nos benefícios do Estado Social ameaçou a classe média. Isso criou uma generalizada reação de indignação contra essa política. Muitos passaram a acreditar que só a esquerda poderia preservar o sistema e as regalias que a social democracia - numa alternância pendular do poder entre o centro e a direita – tinha criado, mas não conseguia manter. Essa indignação fez nascer uma nova esquerda que, de alguma forma, se aproxima do conceito de direita naquilo que historicamente a caracterizava, isto é, a defesa dos privilégios adquiridos e a manutenção da ordem e da estabilidade.

A classe proletária há muito definhou na Europa. A nova esquerda não discute a propriedade privada, e já ultrapassou a discussão centrada na dicotomia capital-trabalho. As ideias de Marx e de Lenine estão obsoletas e já não arrastam multidões. A indignação - traduzida numa revolta contra a austeridade e aquilo que ela implica - é, em si mesma, a grande bandeira da esquerda. Vimos isso na Espanha, na Grécia, e, embora em menor escala, também em Portugal. Esquerda que, numa expressão mais radical, chega mesmo a afirmar-se de anti capitalista, mas receando advogar a falhada economia socialista. Não existem referências, nem heróis, nem casos de sucesso que sirvam de exemplo para este movimento. Com o anunciado fim da Cuba de Fídel de Castro - vencida pela globalização - acabou a última referência do socialismo como nós o entendíamos na nossa juventude. Até o pobre Alex Tsipras, convertido à direita - algo que tínhamos visto no Brasil com Lula da Silva -, já não conta como referência.

Na minha juventude, ser de esquerda era acreditar naquilo que nós chamávamos a construção do homem novo. Era acreditar numa sociedade mais solidária, mais justa e mais igualitária. Na minha opinião, os novos caminhos da esquerda - entendida como a ideia de movimento e mudança - só podem ser os caminhos da Transição e da Esperança. Com todas as profundas transformações que essa opção implica. Parece que ainda estamos muito longe disso. Até lá, viveremos num labirinto, de crise em crise e de governo em governo, como que a tentar resolver o problema da quadratura do círculo.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Desenvolvimento e Luz

Por ocasião do aniversário da Asta, fui convidado a falar na Cabreira sobre o tema "Desenvolvimento e Luz". O texto que se segue resume o essencial da minha apresentação.

Na natureza, tudo flui, nada é permanente.  No Universo, nada é estático. Essa foi uma lição que aprendemos no longo caminho do percurso da civilização. Lição que veio contrariar as verdades sobre a criação,  absolutas e definitivas do Génesis e dos mitos das religiões antigas. A ordem que nos foi oferecida pela mitologia e pela Bíblia está  hoje generalizadamente contestada . E nada está definitivamente arrumado. As verdades de hoje serão negadas pelas verdades de amanhã.

Desde Edwin Hubble que ficámos a saber que o Universo - este Universo, pois começa a aceitar-se a teoria que ele será apenas um de muitos! -  teve um princípio  que ocorreu com o big bang,  há cerca de 14 mil milhões de anos!.  Com Darwin e a “Origem das Espécies” aprendemos que o homo sapiens apenas existe há alguns escassos milhões anos e que ele não é mais do que o elo de uma cadeia evolutiva, um aperfeiçoamento adaptativo a partir de outros primatas, eles próprios um outro elo dessa cadeia que se iniciou com os animais unicelulares.

Existiu, pois, um princípio de tudo, e tudo está em constante mudança. Podemos até falar de uma mudança com um sentido… caraterizado por uma crescente complexidade. Duma massa homogénea inicial, o plasma, começaram a formar-se as partículas atómicas, e o elemento mais simples o hidrogénio. Depois formaram-se as estrelas onde se deu a fusão nuclear e o hidrogénio se transformou em hélio. Em algumas estrelas, as partículas elementares e os átomos leves agregaram-se em átomos pesados e nelas se formaram os elementos químicos, entre eles o carbono, o oxigénio e o silício. Ao fim de algum tempo, por acumulação de energia, essas estrelas - as supernovas - explodiram, e projetaram esses elementos no espaço à sua volta. E foi essa poeira cósmica das supernovas que originou os planetas e outras estrelas. E que fez a Terra, onde surgiu a Vida. E é dessa poeira que nós, humanos, somos feitos.

É  na permanente busca do sentido da mudança e na apreensão do seu significado - algo que sempre nos escapa! - que reside a principal razão da angústia existencial dos humanos. Subimos a encosta da montanha carregando o peso da existência, e, chegados ao cume, vemos a pedra rolar de novo até ao vale. E recomeçamos a subir de novo, carregando outra vez e outra, o mesmo peso. É a história de Sísifo e do absurdo de Albert Camus, que nos diz que mais penoso que o esforço da subida é  a angústia da descida. A descida é o sem sentido  uma espécie de percurso ilógico e absurdo.

O sentido das mudanças - do desenvolvimento se quiserem -  é um  problema (na verdade, o problema) metafisico essencial do ser humano. As questões metafisicas subjacentes, que são aquilo que eu designo por paradoxias porque não têm resposta, nem têm explicação.  Elas  estão o centro das religiões que as dogmatizam, na impossibilidade de as explicar. A Ciência aproxima-se da explicação e explica o como - nalguns casos - mas não explica o porquê.

De onde vimos e porque estamos aqui?

Na tentativa de interpretação da criação feita pela Física, nada se diz do porquê. Esse é, tem sido, sobretudo um assunto do foro da Religião. Ou do domínio da Metafísica, para os que não aceitam a explicação trivial e dogmática das religiões. Ora, a Metafísica é um labirinto que tem uma porta de entrada, mas não tem uma porta de saída. Todos os filósofos que se debruçaram sobre o tema partilham, com Álvaro de Campos/Pessoa, a angústia de quem espera que se "abra uma porta ao pé de uma parede sem porta". E esse é o preço de querer usar a inteligência para indagar sobre as causas últimas dessa mesma inteligência. Porque a inteligência é ela própria também uma paradoxía, e uma paradoxia nunca explicará outra.

O que é que preside à organização da matéria para criar a vida?

Num momento posterior ao da criação da matéria, surge a segunda paradoxía, a da criação da vida.  O código do ADN, o princípio da reprodução e da evolução, inerentes à vida já estavam presentes no plasma indiferenciado do momento inicial. Ou não estariam? É o segundo big bang, o da explosão da vida. Este segundo principio criador não terá acontecido num único lugar. Na Terra, a vida irrompeu em múltiplos lugares, milhões, biliões, quem sabe. A vida é a matéria organizada, capaz de se reproduzir, de evoluir e de se aperfeiçoar. A lei da vida contraria a lei da entropia, que diz que a matéria tem tendência a desorganizar-se. Qual a força que organiza a matéria, que cria o ADN, que determina a reprodução?

A consciência: como é que um ser vivo se tornou consciente?

Sabemos hoje que a vida surgiu na Terra e evoluiu ao longo de milhões de anos. As primeiras espécies nasceram na água, e passaram para a terra sólida. Algumas desenvolveram-se, reproduziram-se, evoluíram e adquiriram um sistema nervoso. Um dia, uma espécie adquiriu a consciência do ser, da vida e da morte. Como foi isto possível, ninguém explicou. A consciência é um dom extraordinário apenas dado ao ser humano. A consciência do eu e a consciência da morte foi o terceiro big bang, a terceira paradoxía.

O sentido da evolução

Matéria, vida e consciência, são os elos de uma cadeia num processo evolutivo. Mas falta-nos perceber o porquê e o sentido dessa evolução. Se é que ele existe. Será que algum dia o compreenderemos? Esta é a quarta paradoxía e é aquela que mais aflige o ser consciente. Admitir que um dia a espécie humana pode extinguir-se sem ter chegado a entender as paradoxías referidas é o maior dos absurdos.

A Luz como resposta

Até hoje as paradoxias não tiveram resposta. Nem no plano científico, nem no plano metafísico. Quando as construções mitológicas se desmoronam perante a lógica ou a Fé se perde perante as injustiças dos deuses, apenas no resta o sonho e a paixão dos poetas e dos artistas para explicar as paradoxias. Creio que é no sentir dos poetas e na criatividade dos artistas que se intui a resposta. Só uma iluminação vinda não se sabe de onde permite superar a angústia do homem perante o absurdo existencial.

O oposto da angústia provocada pelo absurdo é o êxtase da iluminação espiritual . Pode ser uma redescoberta de Deus. Um Deus porventura diferente daqueles que foram criados pelos homens.   Luz é Amor. No Amor  não há lugar para o absurdo  pois tudo tem resposta. O Amor é a vitória de Eros sobre Thanatos.  Sempre que nasce uma criança, é como se vencêssemos a lei da Morte.

Nada melhor que este espaço sagrado da Asta, com o  ambiente purificador que nos envolve, para procurar a  Luz redentora  que permite alcançar o estado de graça libertador das angústias existenciais.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

As Casas de Bistagon

Foto de Maria da Paz Braga
Na manhã do passado dia 20 de setembro, muito cedo, partimos do Hotel Dwarikas em Katmandu, numa carrinha. Íamos ter o nosso primeiro contacto com o trabalho da missão Obrigado Portugal, nós também somos Nepal, na aldeia de Bistagon. Éramos quinze voluntários, quase todos portugueses, entre eles médicos, arquitectos, advogados, um veterinário, jovens generosos que não ficaram indiferentes ao apelo da missão. Uma voluntária catalã, a Maria Boix, que estava ali há dois meses partiria no dia seguinte. E já se pressentia a emoção da despedida que antecederia a sua partida.

Chegámos a Chapagon, depois de uma autêntica aventura de duas horas para percorrer vinte quilómetros, aos solavancos, por caminhos incríveis, com um trânsito infernal onde predominam as motorizadas e o código rodoviário se resume ao vale tudo. Chapagon é uma pequena localidade de ruas térreas e casas de  tijolo situada no Vale de Katmandu, no coração do Nepal. Cada porta da rua principal é uma loja onde tudo se vende: frutas e legumes, tecidos, sapatos, materiais de construção, utensílios de toda a espécie.  No ar um cheiro inconfundível do garam masala - o condimento local -, misturado com o cheiro de excremento de vaca. Nas ruas de terra batida, poças de lama  - de uma cor ocre e que se cola à sola dos sapatos - são a marca das chuvas do final da monção. Um pouco por toda a parte ainda se vêm amontoados destroços e montes de ruínas a recordar o tremor de terra do dia 25 de Abril passado.

Mas para chegarmos ao o nosso destino final, Bistagon, uma pequena aldeia próxima de Chapagon ainda  falta percorrer uns escassos dois quilómetros de um caminho de terra em terreno acidentado. Entramos agora no âmago do Nepal rural. Predominam aqui os campos de arroz - a cultura da monção - que já começa a amarelecer e será colhido dentro de um mês.  Pendurado junto às casas, já se vê a secar o milho, acabado de colher. Montes de malaguetas a secar ao sol ou já ensacada esperam para ir para o mercado ou servirão para confecionar  o dal bhat, o prato típico  local.

As casas de Bistagon são simples e contruídas de  adobes crús. Muitas ruíram e muitas famílias vivem  em abrigos improvisados, muitas vezes partilhando o espaço com vacas e cabras.  Recebe-nos o Permashor Mahat , um jovem aparentando cerca de 30 anos, fluente em inglês, que é o interprete da missão. A nova casa de  Permashor já está acabada, é uma das 22 que a missão Obrigado Portugal está a construir naquela localidade.

Enquanto a maior parte dos voluntários inicia o trabalho no estaleiro do bambú ou nas fundações de novas construções, outros levam-nos a visitar as outras casas da missão que  estão espalhadas pela aldeia, umas em pequenos socalcos umas, outras encravadas entre montes de tijolos ou de construções arruinadas ou ameaçando ruína.  Caminhamos por pequenas veredas de chão lamacento. Em certos pontos, temos de subir algumas encostas mais íngremes e temos de segurar-nos para não escorregar e cair. Uma parte das novas casas em construção está numa extremidade da aldeia sobre uma espécie de promontório que abre sobre uma vista espetacular de campos de arroz plantado em socalcos. A vegetação envolvente é exuberante típica dum clima tropical húmido. A cor das bainhas das nossas calças e dos sapatos começa a confundir-se com o amarelo da terra .

Cruzamos com pessoas, saudando sempre com as mãos postas e dizendo namasté. As mulheres são bonitas, têm uma postura altiva, vestindo os seus trajes típicos onde predomina o vermelho.  Hoje não há escola, é o dia de aprovação da nova constituição do país. Magotes de crianças deambulam por toda a aldeia, sempre cumprimentando e sorrindo. Algumas, como são o caso da Ruska e do Sameer recebem um carinho especial dos voluntários que retribuem afetuosamente. Numa das casas, já construída, uma senhora mais velha convida-nos a entrar e aceitamos o convite.  O chão aqui é de barro, o que não impede que deixemos os sapatos à entrada. Está com duas crianças de tenra idade - seus netos, presumo - enquanto a filha trabalha a terra no campo exterior. Abençoa-nos ungindo-nos com  a tikka na testa, uma mistura de iogurte, vermelhão e grãos de arroz.

O ambiente da aldeia é de uma ruralidade primitiva. Todo o trabalho é manual, pois os terrenos em socalcos e com parcelas diminutas não permitem a entrada de vacas, nem de de alfaias mecanizadas. Não existem animais de carga  - não vi nenhum burro em Bistagon. As mulheres transportam nas costas pesadas cargas que prendem com uma cinta  à volta da testa .

As casas que os voluntários portugueses da missão projetaram e estão a construir foram pensadas de forma a serem o melhor compromisso entre o custo e as suas funcionalidades. Têm dimensões de 6x4 metros, tem fundações nos quatro cantos de onde se levantam pilaretes. Toda a estrutura das paredes e telhado é feita em bambú previamente tratado. Na parte interior para revestir as  paredes aplicam-se várias camadas de uma argamassa feita de barro amassado com esterco de vaca.  O chão é revestido de cimento ou barro e a cobertura do telhado é de chapa de zinco ondulada. A construção é anti sísmica, as casas podem durar vários anos e estão pensadas para evoluir para habitações permanentes se os proprietários assim o entenderem.

Todos os custos dos materiais e o essencial da mão de obra são suportados pela Missão. Mas houve que enfrentar e ultrapassar problemas de vária natureza: quais as famílias beneficiárias das casas, a obrigatoriedade dos proprietários contribuirem com horas de trabalho, a escolha do local exato da implantação da casa, etc... Bistagon, como qualquer aldeia em qualquer parte do mundo, é uma pequena amostra da sociedade, com os conflitos de interesses, os dramas, as invejas, as quezílias familiares.

Na hora do almoço a reunião foi na casa da Babita, mãe da Ruska, uma simpática nepalesa que todos os dias confeciona para os voluntários o obrigatório dal bath.  Bhat é o arroz que pode ser substituído pelo feijão ou pelo milet e dal é uma sopa de lentilhas que leva cebola, alho, gengibre, pimenta, tomate e tamarindo, condimentada com as especiarias do garam masala - uma mistura moída contendo grãos de pimenta preta e branca, cravinho, louro, canela, cardamomo preto, castanho e verde, noz-moscada, anis e sementes de coentro, cominho e açafrão.

Estávamos ali, a oito mil quilómetros de Lisboa, rodeados de crianças, desfrutando da simplicidade da vida. Eu estava a reviver o ambiente duro e austero da minha meninice. E fazia comparações, avaliava as diferenças, e tentava perspetivar o futuro daquelas crianças...

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

No Nepal



Estou em Katmandu no Nepal. Irei escrevendo no blog quando o tempo e a logística o
permitirem

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Migrantes II


Em épocas recuadas as migrações sempre existiram. Muitas dessas migrações ficaram conhecidas na História pela designação de invasões. Os bárbaros invadiram o império romano; os árabes invadiram a península ibérica; os mongóis invadiram a Rússia; povos germânicos e celtas invadiram os territórios limítrofes para se expandirem. Eram invasores e procuravam conquistar territórios pela força. Mas no fundo eram migrações e na base estava a necessidade de conquistar um espaço vital para a tribo ou para o povo.

O envelhecimento da população, a economia acéfala, predadora e consumista, a falta de ideais, as contradições do projeto de construção, a submissão militar à América, a falta de liderança centralizada e a generosa proteção proporcionada pelo estado social enfraqueceram a  Europa. O espaço europeu ficou altamente vulnerável a ser invadido. Na verdade, a invasão da Europa já começou há muito, de uma forma lenta mas contínua. Os episódios de Malta e de Lampedusa já indiciavam que o surto era para continuar. Acredito que não estava na previsão dos dirigentes europeus esta repentina invasão pacífica e massiva do seu espaço. Por isso a desorientação que ela está a provocar.

Este fluxo de refugiados/migrantes/invasores é apenas uma primeira onda. Neste momento, os refugiados vêm sobretudo da Síria mas a próxima onda pode vir do Paquistão, do Afeganistão, do Egito ou de toda a África subsariana. Quem sabe, se até da própria Índia. E se os ucranianos se entusiasmarem com o exemplo? Essa onde pode tomar a forma de um tsunami imparável. As causas são várias e complexas, mas a principal será o desequilíbrio demográfico e económico entre espaços contíguos. E tudo fica facilitado pela globalização e pela facilidade de transporte. Entretanto, do outro lado do Atlântico, a América assiste e não se pronúncia. América que na sua avaliação da situação na Síria, ao rejeitar apoiar Bashar Al Assad, esteve, como causa mais próxima, na origem da tragédia humana que se vive nas fronteiras europeias. Foi uma visão míope, possivelmente motivada pelo receio da influência da Rússia junto do presidente sírio, que  provocou a escalada do conflito armado e precipitou os acontecimentos.

A questão dos refugiados, migrantes ou invasores - a designação para o caso pouco interessa - é muito mais importante do que pode parecer à primeira vista. Não se trata de pessoas que procuram temporariamente fugir aos horrores da guerra e da fome. São pessoas que deixaram de ter condições de subsistência nos seus países de origem e por isso migram para onde vêm uma solução, um espaço vital. Como é que a Europa vai fazer a integração destes refugiados? Esta é a grande questão. Estas pessoas precisam de trabalho - escasso! - e de assistência  - cara! E têm uma cultura que, sob muitos aspetos, choca com as dos países de acolhimento. Não será um processo fácil, pois não se trata de pessoas dóceis mas de pessoas que rapidamente irão reivindicar direitos. O aspeto religioso não é menos importante. No conflito tribal que se começou a desenhar com o ataque ao Charlie Hebdo, as chances favorecem a tribo invasora, pois os seus elementos reproduzem-se mais, têm menos a perder e têm a crença religiosa e a fé do lado deles.  Os europeus tradicionais - entenda-se, de formatação cristã -, vão jogar tudo na assimilação dos emigrantes/invasores ao modelo ocidental -  modelo político e económico, pois não têm outro. Existem fortes motivos para duvidar que isto possa  ser feito de forma pacífica.

Por outro lado, se a questão for bem gerida, estes refugiados podem ser uma grande oportunidade para a Europa. Esta invasão pode funcionar como uma espécie de transfusão de sangue num corpo moribundo. Tenho a impressão que a Alemanha já pressentiu isso. Existe, desde o tempo do Império Otomano, uma inclinação dos alemães por estes povos de raiz ariana.  Se tivesse vingado o projeto do Kaiser Guilherme II de construir uma via férrea entre Berlim e Bagdad, tudo estaria facilitado neste momento para os refugiados.

Na minha opinião, Portugal deveria tomar uma posição proativa neste assunto pois  precisa destes emigrantes como pão para a boca. Eles poderiam servir para repovoar o nosso interior desertificado e para voltar a ocupar os terrenos agrícolas e as casas vazias e semi abandonadas das nossas zonas rurais. Não acredito que os nossos governantes entretidos com a pequena política tenham visão estratégica para considerar, dessa forma, a integração desta gente. E a oportunidade vai perder-se.

Na Europa, terão de ser os países mais ricos a suportar o principal esforço de integração. Vai haver forte divisão interna - vão extremar-se posições entre conservadores e  progressistas - e poderão ter de ser tomadas fortes medidas restritivas à circulação de pessoas, opostas ao espírito de tolerância que norteou a construção europeia. Os países periféricos, como Portugal,  vão passar a receber menos ajuda pois estes deslocados vão absorver uma parte dela. e os orçamentos não são elásticos. A prazo, o próprio serviço social estará ameaçado e as nossas reformas também. Em suma, a já fraca coesão europeia vai ser posta à prova. E pode acontecer que não resista!

Nada vai ser com dantes,  O futuro será muito diferente daquilo que tínhamos imaginado. E as surpresas vão continuar...


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Migrantes


Em 1845 e nos anos imediatamente a seguir,  viveu-se na Irlanda uma situação dramática que ficou conhecida na História com a Grande Fome. Ela foi o resultado de uma economia rural  precária baseada na posse da terra pelos senhorios ingleses, pelo  excesso populacional, pelo mau governo, e sobretudo pela peste da batata que atingiu o principal sustento dos irlandeses.

Nos anos da Grande Fome, milhões de irlandeses emigraram para a América, para o Canadá para a Austrália.   E fizeram-no em condições muito precárias.  Dos 100 000 irlandeses que viajaram para o Canadá em 1847, estima-se em um quinto os que morreram de fome e desnutrição durante a travessia. Outras fontes referem que atingir uma mortalidade de 30% em alguns dos navios que transportavam estes migrantes era coisa comum.

Para os irlandeses da época da Grande Fome, emigrar era a alternativa a uma morte certa, e, por isso, eles estavam preparados para correr todos os riscos. Como consequência desta emigração massiva, a Irlanda perdeu metade da sua população . Mas as cidades americanas e canadianas cresceram exponencialmente à custa destes emigrantes. De facto, eles ajudaram a fazer a prosperidade da América.

Aquilo que está a acontecer na Europa com os migrantes da África e do Médio Oriente - algo previsível desde há muito! - é um fenómeno de grande impacto económico e social e terá consequências muito importantes para o futuro do Velho Continente.  A onda de migrantes não vai parar, antes pelo contrário vai aumentar. As pessoas que migram não têm condições de subsistência nos seus territórios de origem. Fogem à morte e arriscam tudo para chegar ao destino que imaginam salvador. Nada nem ninguém os vai deter.

A história da Civilização Humana é uma história de migrações. Ao longo dos últimos dez mil anos, elas moldaram a Europa que hoje conhecemos. Com as facilidade de transporte, as migrações ocorrem agora com maior rapidez. Para a Europa envelhecida, acomodada e gasta chegou a hora da verdade. Estes emigrantes são simultaneamente necessários - pela força de trabalho que representam - e incómodos - por ameaçarem o sistema de privilégios garantidos pelo estado social, e por serem vistos como uma ameaça à velha ordem cristã do Ocidente.

Vamos ter de conviver com esta realidade e com as transformações que ela vai trazer consigo. A Europa vai mudar, e Portugal mudará também!

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

As Verdades


Um texto de 2012 reeditado

O cristianismo, que moldou a Civilização Ocidental, é um compromisso entre a mitologia greco-romana e o judaísmo. É como se fosse a Odisseia enxertada na Bíblia, a tentativa de conciliar a forma clara - base do pensamento grego e o conteúdo moralista - base do pensamento judaico. Para mim é claro que um judeu nunca poderia ter escrito a Odisseia nem inventado a geometria. O tempo judeu não caberia nunca nos dez anos que Ulisses viajou de Tróia para Ítaca. E, avessos às formas e às imagens, os judeus nunca foram capazes de retratar o deus de Abraão e de Moisés. Jeová não tem rosto. Ele é o oposto da forma elegante de Afrodite ou da força insensual de Atena.

Costuma-se dizer: para cada um sua verdade. O que é a Verdade e onde está a Verdade?  Todos buscamos e todos desejamos encontrá-la, mas primeiro temos que defini-la. Pesquisando a etimologia da palavra talvez encontremos o fio da meada para conduzir a nossa reflexão. Cada civilização parece ter um conceito diferente de verdade. Vamos olhar para alguns deles, e talvez encontremos algumas respostas para as nossas dúvidas.

Na Grécia antiga, a verdade é aletheia ("a" indica negação e "léthe" significa esquecimento), que é aquilo que se mostra e se revela, na sua forma, aos nossos olhos. Já para os judeus a verdade é emunah  (palavra de onde deriva amen). É a virtude, o que há de vir e que há de cumprir-se. Para os romanos a verdade é veritas que é um conceito quase jurídico. Verdade é o que relata ou traduz fielmente o que aconteceu. Na fórmula "juro dizer a verdade e só a verdade", é o conceito veritas que estamos a utilizar.

Temos, pois, uma verdade para os Gregos (aletheia), as coisas como são e sempre serão, tais como se manifestam no momento presente ao nosso espírito; uma verdade para os Romanos (veritas) que diz respeito aos fatos que foram ocorridos e relatados; e uma verdade para os Hebreus (emunah) relativa às coisas que serão (e que foram prometidas). Em síntese, para os gregos a Verdade vê-se; para os romanos diz-se; para os judeus crê-se.

Mas para nós, que transportamos a herança genética e cultural daqueles povos,  qual é a verdade? A verdade geométrica, a verdade jurídica ou a verdade moral ? Quem são os guias que orientam a nossa vida, os oráculos gregos, os profetas bíblicos, ou as sibilas romanas?

No mundo de símbolos e de sinais que, massivamente, nos envolvem a verdade aparece camuflada. Qual é, por exemplo, a Verdade que está por detrás de um anúncio da Coca-Cola, uma das mensagens mais insinuantes dos nossos dias? Ou qual a verdade por detrás dos discursos dos políticos, dos governantes, dos economistas?  E qual  verdade que os meios de comunicação nos mostram e nos apontam?

Temos, antes de mais, de saber descodificar os sinais, que se tornaram  ilegíveis na complexidade das novas formas de comunicar. Temos de recorrer às virtudes da semiótica, da hermenêutica e da interpretação que estão na base de novos oráculos, e de novas profecias. A verdade possível foi, no passado, reservada aos iluminados, aos escolhidos e às elites. Julgámos que as novas literacias viriam, finalmente, revelá-la. Mas ela parece teimar em camuflar-se.

A ciência foi a nossa esperança de vulgarizar a verdade, mas à medida que exploramos o átomo encontramos novas revelações, e as certezas deixam de o ser para serem incertezas. Ficamos confrontados com os limites do célebre princípio de Heisenberg que diz mais ou menos isto: a busca da realidade mais ínfima torna-se incerta pois a observação interfere com a coisa observada, e altera a própria realidade.

Estamos pois condenados a deambular neste labirinto, onde a verdade se parece esvair como a água por entre os dedos da mão. E a angústia persiste...