segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Os Genes e as Circunstâncias

Foi uma lição magistral que, no passado dia 19 de Novembro, o professor Manuel Sobrinho Simões veio proferir ao Grémio Literário na sessão de abertura do novo ciclo de conferências sob o tema: Que Portugal queremos ser, que Portugal vamos ter. Manuel Sobrinho Simões é um médico, um cientista e um professor que expõe as suas ideias de um modo informal, e com a simplicidade que carateriza os verdadeiros homens de ciência.

O nosso território, começou por dizer, faz parte da área ocupada durante mais tempo pelo homem de Neandertal, onde permaneceu num longo período que vai desde há 300,000 até à sua extinção, há 15,000 anos. Terá mesmo havido aqui cruzamentos entre o homo neandertal com o homo sapiens. Após o final da última glaciação, ocorrido há 17,000 anos, o norte da Europa, voltou a tornar-se habitável e foi repovoado por povos oriundos do sul da Europa - da península Ibérica, da península Itálica e dos Balcãs - e do norte de África. Nessa altura haveria uma grande homogeneidade genética no continente europeu. Mas desde há 700 anos, a Europa central, uma zona de passagem, passou a ter uma grande disseminação genética, ao passo que no periférico e isolado ocidente da península Ibérica foram os imigrantes que trouxeram novos genes. Por isso, não espanta que 3% dos nossos genes provenham de povos subsarianos e 2% de ameríndios. Genes que foram introduzidos, curiosamente, por via feminina, a mostrar que as famílias aceitavam melhor a incorporação social das mulheres mestiças trazidas pelos imigrantes do que a dos homens.

Mas, os genes são o passado e não são tudo, há que ter em conta as circunstâncias. E para ilustrar isto mesmo, citou os estudos do brasileiro Sérgio Pena que mostraram que apenas no tempo de três gerações, tribos de índios caçadores passaram a ser agricultores, com as transformações físicas que essa mudança implicou. E não é verdade que os genes não mudaram e nós estamos a ficar mais gordos? Tal como o passado, o nosso futuro terá a ver com os genes, mas terá muito mais a ver com as circunstâncias: o sítio onde vivemos, a nossa educação e com a nossa cultura. Aquilo que hoje somos resulta da nossa periferia. Somos os mais periféricos da Europa. Temos um país acidentado, fomos insuficientemente romanizados, somos um país de minifúndio. Tivemos a escravatura até muito tarde e desvalorizámos o trabalho - sedimentou-se a ideia de que só trabalha quem não sabe fazer mais nada. A Inquisição deixou marcas profundas e terríveis. Com a Inquisição destruímos o valor do conhecimento e aumentámos a desconfiança entre portugueses.

No 25 de Abril éramos ainda um país de analfabetos. Nos últimos 40 anos evoluímos muito. Aumentámos a nossa auto estima, é certo, mas isso aconteceu num período de tempo muito curto. Em 1974, a nossa literacia era equivalente à da Suécia em 1830.Não criámos novas elites e conservámos muitos dos estigmas antigos. A resposta que damos ao minifúndio é familiar ou corporativa - somos todos primos uns dos outros.

Temos muito pouca tradição de avaliação e sem avaliação é muito difícil melhorar. Também não temos tradição de recompensa/castigo porque nos refugiamos na tribo ou no clube. Porém, para vencer o minifúndio e o individualismo temos de reforçar as instituições. Nós somos péssimos em termos de nos associarmos em volta de um objetivo, de fazer as perguntas certas. Isto tem incapacitado a sociedade, que se revela incapaz de fazer reformas. Não temos sido capazes de reformar a justiça ou a administração interna, nem capazes de reformar a universidade e o ensino superior. Com excessivo número de faculdades e cursos - uma vergonha! -, ou a tentativa de misturar o ensino técnico com a universidade - um disparate! - não reforçamos o valor institucional, mas reforçamos o valor individual. A fuga de uma geração qualificada de jovens é, em última análise, o resultado da ausência ou da fraqueza das nossas instituições.

Quando abordou o problema da saúde foi para dizer que estamos a ficar muito velhos. Estamos a curar o cancro e as doenças cardiovasculares e respiratórias. As pessoas vivem mais tempo mas ficam com problemas neuro-cognitivos, e a precisar de apoio que não temos condições para lhes dar. Isto poderia ser uma boa oportunidade de criar empregos em pequenas unidades de cuidados paliativos. Mas só pensamos em criar emprego em coisas grandes; somos megalómanos.

Na Europa, com o consumismo, o crédito barato, as rendas, desvalorizamos o trabalho e estamos a acabar com as profissões exigentes. A propósito, referiu que, nos dias de hoje, nenhum inglês esperto escolhe ser médico! As profissões são a coisa mais importante para um país se manter saudável. Em Portugal, vamos ter de depender mais da evolução da Europa do que de nós próprios. Temos limitações geográficas, económicas e muita dependência externa. Acima de tudo, temos de apostar no conhecimento, superar os grandes defeitos educacionais, melhorar a nossa capacidade de understanding, isto é, não aprender superficialmente, mas conhecer com profundidade a razão de ser das coisas e o que está por debaixo (under).

Esta palestra trouxe-me uma outra à memória, proferida pelo jovem Antero de Quental, há quase 150 anos, quando nas Conferências do Casino elencou as causas da decadência dos povos peninsulares no século XVI: 1) O catolicismo saído do Concílio de Trento, dogmático e limitador das liberdades, 2) O absolutismo que anulou o antigo poder local, fomentou intrigas e produziu ociosidade; 3) A expansão resultante das descobertas e das conquistas que trouxe riqueza, mas não gerou indústrias nem desenvolvimento.

Sobrinho Simões confessou que se considera pessimista na análise mas otimista na ação. Lança uma nova luz e uma nova esperança. Na minha leitura, a luz está na Europa e a esperança na Educação.


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Direitos e deveres

Na Europa medieval, no plano social, os direitos e os deveres das pessoas estavam sobretudo consignados na prática religiosa. A religião cristã - e creio que o mesmo se passa no islamismo - é, na sua essência, uma religião de deveres. Deveres não só para com Deus, mas também para com o próximo. Na sua pregação, Jesus Cristo não incitou os seus seguidores a reivindicar direitos, mas pregou a virtude, a caridade e o amor do próximo como deveres a praticar. Os Dez Mandamentos e as Obras de Misericórdia são disposições de deveres.

Nessa época, os Estados não concediam direitos nem asseguravam qualquer tipo de assistência às pessoas. Direitos sociais não se invocavam nem se reivindicavam. O apoio na doença ou nas provações resultava da prática da caridade que era vista como um dever pelo homem religioso ou pelo humanista. As Misericórdias, as ordens mendicantes e hospitaleiras organizaram-se para regular os direitos e os deveres, ou seja, para distribuir a caridade pela necessidade. Em épocas mais recentes - na esteira das ideias da Revolução Francesa e das convulsões sociais pós Revolução Industrial -, surgiram centros cívicos, associações de benemerência e associações mutualistas com o mesmo papel.

No plano assistencial, o Estado moderno substituiu-se a tudo isso. Os cidadãos dispõem hoje de direitos consignados nas leis - falo da educação, da assistência, etc.. As sociedades modernas marcadas pelo consumismo e pela abundância energética são sociedades de direitos. Todos queremos partilhar das benesses dessa abundância. Estou a falar do Estado Social.

Mas as organizações de pendor religioso e as posteriores organizações cívicas e de pensadores livres impunham - e proclamavam! - deveres que o Estado hoje não impõe nem proclama. Na verdade, os únicos deveres que o Estado hoje nos impõe é o de não infringir as leis - um dever passivo -, e o de pagar impostos. Reivindicar direitos é a palavra de ordem na política e está generalizada em muitas outras organizações. Assegurados os elementares direitos à liberdade e à livre de expressão da opinião, conquistaram-se o direito à reforma, à assistência na doença, na velhice e no desemprego. Reivindicam-se novos direitos para as crianças, para os mais velhos, para os doentes, para os menos capazes, para as mulheres. Os políticos, nos seus discursos, sabem que a promessa de mais direitos conquista mais votos do que proclamar a exigência de deveres. Por isso, não espanta que na nossa lei fundamental a palavra direito apareça 149 vezes e a palavra dever apareça apenas 11. No plural, direitos surge 116 vezes e deveres 41.

Na nossa sociedade, na nossa educação, às vezes até nas relações profissionais e familiares, está a perder-se o velho sentido do dever. E, o que é mais grave, estão a desaparecer os sistemas de valores subjacentes ao sentido do dever. Ora, uma sociedade que assegura aos seus elementos o direito de aprender e não exige o dever de ensinar, que assegura o direito a respirar ar puro e a beber água despoluída, mas não exige o dever de não poluir, que assegura o direito a usufruir a coisa pública, mas não exige o dever de a preservar, essa sociedade, repito, está condenada ao fracasso.


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Pensar o Mundo, Pensar a Europa, Pensar Portugal.


Pensar portugal

Olhando para o mundo que nos rodeia, vemos um mundo cada vez mais global – suportado por uma economia exigindo um crescimento contínuo e exponencial. Por outro lado, vemos um planeta finito, esgotado e poluído, que impõe limites ao crescimento. A necessidade de conciliar estes duas realidades é o maior desafio que, num futuro próximo, se colocará à Humanidade...A economia de mercado está suportada por um sistema financeiro que vive do crédito, ou seja, que é alimentada pela expectativa de criação de riqueza no futuro. O crescimento, por permitir pagar as dívidas, é condição necessária à própria existência da economia de mercado. Sem crescimento, ou com um crescimento reduzido, a dívida deixa de poder ser paga, e o sistema entra em colapso. Vimos acontecer isso em 2008.

A resposta natural da economia de mercado para manter o crescimento é dada pelo reforço da globalização. Acessoriamente, pelo aumento da eficiência na utilização dos recursos, e pela ilusão de que tecnologia pode resolver todos os problemas... Ora, a prazo, a economia ficará sem respostas para manter o crescimento. A globalização tem os seus males: uniformiza gostos, impõe produtos transgénicos, tende a eliminar a biodiversidade, destrói o pequeno comércio e a pequena indústria. O aumento da eficiência vai confrontar-se com o paradoxo de Jevons que postula que o aumento da eficiência no consumo de um recurso acaba por aumentar o consumo desse mesmo recurso. E a ilusão tecnológica  – chamo-lhe ilusão porque a tecnologia, tal como os catalisadores na química, não influencia o resultado final, só acelera o processo – aumenta a complexidade dos sistemas, torna-se mais cara de manter, e, mais tarde ou mais cedo, acaba por ter retornos nulos ou negativos. Além disso, o acréscimo de complexidade tem a agravante de aumentar a probabilidade de ocorrência de cisnes negros, acontecimentos com fraca probabilidade de ocorrência mas de grande impacto (Nassim Taleb).

Pensar a Europa e Portugal na Europa

As mudanças estruturais da economia portuguesa provocadas pela nossa entrada na Europa são irreversíveis. A agricultura tradicional foi reduzida ao mínimo – há quem ache que com sucesso – para se ajustar aos princípios da Política Agrícola Comum (PAC); o tecido industrial praticamente desapareceu pela lógica do mercado aberto e pela abolição do protecionismo; os barcos pesqueiros foram abatidos. Portugal foi transformado num país de eucaliptos e de turismo. Sobreviveram os serviços que não exigem grandes investimentos e um frágil cluster tecnológico, reconhecido além fronteiras, a demonstrar a qualidade da nossa massa cinzenta e a nossa criatividade. Qualquer reflexão tem de levar em conta esta realidade.

Foi a Europa que desenhou este país tal como ele é hoje, e isto foi feito no interesse e na lógica da Europa. Por isso, Portugal não pode ser, agora, abandonado à sua sorte. E parece que está a ser. Portugal, na Europa, não pode nem deve ser um parceiro menor. Apesar da sua dimensão económica, ele é uma peça do puzzle que é este espaço com o qual partilha uma moeda e uma estratégia. Para ter voz, Portugal necessita de ter a autoridade que vem do rigor, da disciplina e do trabalho. A Europa, enquanto espaço económico integrado, não pode falhar. Se a Europa falhar, nós falharemos também.

Mas a  Europa não tem gente, não tem indústria não tem energia.  Tem a cultura, mas de que lhe vale a cultura?  O simples custo de a preservar pode ser demasiado elevado. Tem um serviço social sem paralelo no mundo, mas que, sabe, não poderá manter. Está empenhada em reduzir a poluição, em aumentar a eficiência energética,  e aposta nas energias renováveis.  Mas nesta cruzada, a Europa faz o papel do cavaleiro da triste figura, esgrimindo com lanças contra moinhos de vento, quando a Coreia do Norte aponta armas nucleares ao Ocidente, e a China polui em quatro meses o que a Europa, esforçadamente, deixa de poluir  em 10 anos! Mas o maior perigo para a Europa são as hostes de famélicos que se perfilam e espreitam nas suas fronteiras preparados para abocanhar a presa, ou o que dela restar, ao mais pequeno descuido.

A Europa já não lidera o Mundo, mas quem o lidera? A América, afogada nas sua responsabilidades de guardião da ordem global, que tem de manter um exército longe do seu território, e faz lembrar o decadente  Império Romano dos séculos e III e IV? A China que carrega o peso de uma civilização milenar, e tem de gerir as contradições  entre a sua cultura e o modelo económico que o Ocidente lhe impôs? A Rússia que perdeu o seu tempo e o seu espaço, e que hesita entre aliar-se à China ou à Europa? Todos estes protagonistas sabem que a resposta ainda não é definitiva, mas todos eles pressentem que o futuro do mundo se joga no Médio Oriente,  no eixo que vai de Israel  ao Paquistão.

Pensar Portugal

Na nossa vida pessoal, mas também na existência coletiva dos povos, é sempre bom, de vez em quando, parar por um momento para olhar à nossa volta e refletir sobre o caminho que trilhamos. E, se necessário, arrepiar esse caminho e escolher outro. Em Portugal, entendo eu, estamos agora a sentir essa necessidade. É um tempo propício para avaliar o presente, pensar o futuro e colocar interrogações. Como é que chegámos a esta crise? Como é que vamos sair dela? Poderemos ir mais longe, e questionar a nossa identidade, o nosso lugar no Mundo e o nosso destino coletivo. A verdade é que Portugal não está bem. Vamos, pois, olhar para este país como se de um “doente” se tratasse, fazer o diagnóstico, arriscar o prognóstico e receitar o tratamento. Depois escolher o caminho da cura, e enfrentar com ânimo, e sem vacilar, a tarefa de o percorrer.

O diagnóstico

Como referi no ponto inicial, esta crise mundial é, na minha opinião, a consequência da incapacidade de sustentar, de forma continuada, a taxa de crescimento que o atual modelo económico mundial exige para se manter. A globalização, que é um produto do capitalismo global inspirado nas doutrinas de liberalismo económico, criou o enquadramento organizativo que se impôs no pós guerra, e vigorou nos últimos 65 anos. Até aqui funcionou bem, pois permitiu um crescimento elevado do PIB mundial, destronou as experiências das economias “socialistas”, centralizadas e planeadas, permitiu inúmeras façanhas tecnológicas e descobertas científicas admiráveis. Foi a causa do forte acréscimo da população mundial, proporcionou a uma grande parte dessa população elevados níveis de conforto e bem-estar, permitiu construir e consolidar o “Estado Social e Democrático” que conhecemos e apreciamos na Europa.

A globalização, ao favorecer esse crescimento exponencial da população e da produção, criou uma enorme pressão de procura sobre os recursos naturais: terra arável, água potável, matérias-primas, produtos alimentares e energéticos. Mas, porque esses recursos são finitos, a partir dos anos 90, o mundo começou a pressentir a sua escassez, e a economia passou a confrontar-se com essa realidade. Fatores como o despertar da China e da Índia, com uma grande avidez de matérias-primas para suportar o seu acelerado crescimento, só serviram para aumentar essa pressão de procura e evidenciar o risco de ruturas no abastecimento. Ora, de todos os recursos em risco de escassez, o petróleo é o mais sensível pelos efeitos diretos que produz na economia e, por não existir alternativa que o substitua, nomeadamente na mobilidade.

Associadas a este quadro de escassez de recursos, não podemos ignorar as alterações climáticas provocadas pelo Homem, as suas previsíveis e alarmantes consequências, mas que são desvalorizadas ou consideradas como um problema de menos importância pelos agentes económicos. Todavia, os seus efeitos são percebidos como sendo longínquos e difusos, ao contrário da crise financeira, que sendo o sintoma e não a doença, está muito mais próxima de nós e afeta as decisões económicas do nosso dia-a-dia. Crise financeira que é tão valorizada face à míngua do crédito, que chega a ser considerada a causa da atual recessão económica e não uma sua consequência.

O prognóstico

Embora estejamos, no que à crise diz respeito, perante uma pandemia, e não sendo Portugal um caso isolado, é sobre o nosso país que incide este prognóstico. É que a perspetiva de evolução futura do nosso país é muito sombria.

Apesar da ilusão de abundância que o conjuntural baixo preço do petróleo provoca, não tenhamos ilusões: a energia abundante e barata está a chegar ao fim, e embora as soluções energéticas alternativas sejam boas, são caras e insuficientes. O aumento da eficiência energética leva apenas a um maior consumo global da energia. A retoma é uma ilusão, e o buraco da dívida afunda-se com mais dívida. O “deficit” das contas públicas vai custar muito a reduzir, a divida vai crescer, e com ela as dificuldades de a pagar.

As obras públicas e o investimento público e privado vão afrouxar. O consumo vai reduzir-se e, com isso, os serviços que o suportam, tais como a grande distribuição, a publicidade e o marketing. O turismo flutuará ao sabor da conjuntura, mas, tendencialmente, irá contrair-se; o desemprego no sector, que é fortemente empregador, vai aumentar. A mobilidade vai reduzir-se, os combustíveis, a prazo, vão aumentar de preço e o automóvel vai ficar mais difícil de manter. E mais grave que tudo isso, o Estado Social, que foi criado pela prosperidade do pós-guerra, não poderá manter-se nos moldes atuais.

Começa a generalizar-se a crença de que alguém há-de vir para nos salvar! A consciência da gravidade da situação, sem solução à vista, ameaça conduzir-nos ao desespero. Portugal está mais pobre, sem estratégia, e muitos perguntam: o que fazer?

A receita

“Para grandes males, grandes remédios”, diz o ditado popular, e que se aplica ao nosso caso. Em primeiro lugar, aconselharia os governantes a falar verdade aos portugueses. Ao falar verdade, as pessoas começam a preparar-se para o pior e aceitam melhor a adversidade. Explicar o que está mal, e por que está mal. Explicitar a nossa dependência alimentar e energética, explicar o pico do petróleo, a insustentabilidade do Estado Social.

Como tratamento de continuidade, receitaria o ELP, sigla de Economizar, Localizar, Produzir. Com esta receita, bem aplicada, vamos voltar a cultivar os nossos campos, a reativar a pequena indústria e comércio local, a diminuir a nossa dependência do exterior, e com isso reganhar a independência que estamos a perder. Claro que tem de existir a clarividência necessária para contrariar a desertificação do nosso interior rural, o que exige medidas ousadas sobre o regime da propriedade da terra. Na verdade, o problema do envelhecimento e da não reposição da nossa população ativa é o mais grave que enfrentamos.

Mas acima de tudo há que mudar a atitude das pessoas. Temos de ser mais exigentes com nós próprios. Os portugueses precisam de trabalhar mais e melhor, com mais empenhamento, mais rigor e menos corrupção. Reduzir as gorduras da administração central e local, desconfiar dos subsídios fáceis, orientar a educação para o rigor, mas também para a cidadania. Optar por uma alimentação mais saudável, mais amiga do ambiente, que produza corpos mais sãos e menos obesos– como eu já ouvi alguém dizer, temos de satisfazer o estômago e não a boca. Reduzir fortemente a mobilidade, abandonar a cultura do automóvel particular e da televisão alienante. Desenvolver o orgulho de ser português e de pertença à Comunidade.

Insisto na prioridade da educação: quando a globalização tiver esgotado o espaço de crescimento, quando os recursos tiverem de ser racionados e forem impostos limites às emissões poluentes, vai ser necessário mudar a educação pois a que temos hoje - desenhada com outros pressupostos -  de pouco nos servirá. Vamos precisar de mais cidadania e de menos matemática; vamos ter de voltar a utilizar mais as mãos e de aprender a reciclar; vamos ter de redescobrir a medicina antiga, baseada em produtos naturais; vamos ter de aprender que a verdade nem sempre é aquilo que a televisão nos diz. Acima de tudo, vamos ter de atribuir à educação o seu papel essencial de ensinar a descobrir. 

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A Educação

O envolvimento que, através dos projetos da Fundação Vox Populi, tive nos últimos anos  com o nosso sistema de ensino, permitiu-me ter dele um melhor e mais direto conhecimento. Esse facto tem despertado a minha atenção para este sector. Com o decorrer do tempo, vou consolidando a convicção de que, para assegurarmos um futuro de prosperidade aos nossos jovens, devemos-nos focalizar sobretudo no tema Educação. São duas as questões com que temos de nos confrontar: como educar e para quê? E, para elas, urge encontrar as respostas.

A educação e o sistema de ensino ensino que a suporta, aquela nos seus propósitos e este na sua organização, são sempre pensados no pressuposto que o mundo não muda. Educamos as nossas crianças para a realidade presente e não para a realidade futura, que é aquela em que elas irão viver. Ora, tendo em conta que tudo está a mudar muito depressa, existe um grande risco de que, o mundo - pensado à imagem do mundo de hoje - para o qual educámos os nossos jovens, seja muito diferente do mundo em que eles irão viver. Desse,  já hoje notório,  desajustamento decorrem muitas das angústias, das incertezas e da desorientação que grassa nos jovens.

A minha geração - que é a geração nascida nos anos do pós guerra - viveu numa época de grande abundância e de grande crescimento. Foi uma época marcada por transformações económicas e sociais, na qual muitas pessoas de classes mais baixas ascenderam às novas elites que nesse período de euforia consumista e tecnológica se formaram. Essas novas elites resultaram e  refletiram  o sucesso económico das grandes empresas, o poder dos novos media,  a importância do desporto e do entretenimento.  A principal condição para ascender às novas elites foi a educação que funcionou como um elevador social. Nesta época, embalados pela euforia do crescimento, e acreditando que ele continuaria indefinidamente, educámos os jovens para a competição e para o sucesso:  sucesso nas empresas, sucesso  na política, sucesso desportivo e sucesso académico.

A crise de 2008 trouxe-nos para uma encruzilhada. O crescimento atenuou-se. A revolução digital anuncia extraordinárias mudanças na nossa forma de viver. Vamos interiorizando a ideia de que quando o crescimento estagnar muita coisa terá de mudar. Nasce a consciência das incertezas e dos riscos do futuro, relacionada com a sustentabilidade da economia e dos recursos. Para muitos, começa a consolidar-se a crença que o  mundo do futuro será mais rural, mais frugal,  que a alimentação será mais vegetariana e que haverá menos mobilidade.

Quando a globalização tiver esgotado o espaço de crescimento, quando os recursos tiverem de ser racionados e forem impostos limites às emissões poluentes, vai ser necessário mudar a educação pois a que temos hoje - desenhada com outros pressupostos -  de pouco nos servirá. Vamos precisar de mais cidadania e de menos matemática; vamos ter de voltar a utilizar mais as mãos e de aprender a reciclar; vamos ter de redescobrir a medicina antiga, baseada em produtos naturais; vamos ter de aprender que a verdade nem sempre é aquilo que a televisão nos diz. Vamos, acima de tudo, ter de atribuir à educação o seu papel essencial de ensinar a descobrir. 

O homem novo que a nova educação terá de produzir é o Homem da Transição. Não pode ser o homo economicus mas tem de ser um homem consciente dos limites do planeta, vivendo em harmonia com a natureza, preocupado com a humanidade como um todo. Tem de ter a humildade que resulta da consciência da sua insignificância cósmica. E tem de encontrar o equilíbrio necessário entre o material e o espiritual. Só assim encontrará a prosperidade e a felicidade, afinal duas palavras com o mesmo significado

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Oráculo

Confesso que gostava de saber prever o futuro. E desse modo poder surpreender-me com a antevisão onírica dos amanhãs que cantam. Surpresa sim, porque os últimos anos fizeram de mim um pessimista. Não totalmente desesperançado, é certo, mas muito cético. Olho à minha volta e vejo tantos escolhos no caminho da espécie que as probabilidades de um fracasso civilizacional me parecem muito grandes e parece-me muito pequena a esperança de continuar a haver prosperidade na sociedade dos humanos. Vejo a Europa sem recursos, sem energia, sem gente,- sobretudo sem gente! -, adormecida e obesa em resultado do sucesso consumista dos últimos 60 anos, cada vez mais enredada na burocracia de uma construção labiríntica. E vejo o meu país também ele envelhecido e acomodado, sem alma nem rumo, nem sonhos de quinto império.

Vejo os recursos do planeta esgotarem-se paulatinamente; vejo a poluição  tornar o ar irrespirável, contaminar as nascentes e envenenar os alimentos que comemos; vejo o planeta ameaçando revoltar-se para repor os equilíbrios que estão a ser destruídos pelo homem. Como saída para este estado de coisas, a economia - o monstro que nos governa! - apenas sugere uma fuga em frente. Para o implacável crescimento, aponta apenas o caminho do reforço da globalização. No nosso ocidente, (a Europa e a América),  a dívida sufoca os países mais pobres, o famigerado crescimento - que todos anseiam e prometem e ninguém contesta!-, tarda em aparecer. Indignada, a classe média conta os tostões das reformas, vê a vida a andar para trás e vê os filhos e netos partir em frente á procura de emprego, em remotos destinos...

Desacreditada está a social democracia que nos prometeu o paraíso e que agora corta salários e pensões. No espectro político, o centro esvazia-se, as posições extremam-se. Revivem-se os tempos de frentismo, a lembrar os anos 30 do século passado, tempos esses que  não foram prenúncio de coisa boa. As fronteiras da Europa, onde há espaço e dinheiro, são a porta do eldorado para as gentes dos pobres e massacrados países que ainda há meia dúzia de anos faziam revoluções e anunciavam  a democracia ao virar da esquina.

Eu gostava de prever o futuro... Perceber como se vai desatar este nó de produzir cada menos e querer gastar cada vez mais; saber que destino espera os sitiantes da Europa quando as fronteiras  se fecharem - porque se irão fechar! ; que caminho vão escolher  os britânicos quando votarem a saída ou a permanência na União Europeia - num país em que ser de esquerda é ser patriota, prevejo que o voto será pela saída. Gostava de saber se os catalães vão ou não separar-se do Reino de Espanha, enfim, saber como vai terminar o conflito da Síria onde americanos, russos, iranianos e tudo o resto, dançam à volta de uma fogueira armadilhada.

Afinal, pessimista confesso, eu até teria muitas boas razões para ser  otimista. Devia estar feliz porque em Portugal há mais telemóveis do que pessoas, porque posso sintonizar quase duas centenas de canais de televisão, por já ter o último modelo do Iphone, por estar a chegar ao nosso país a netflix americana, por ver o Marcelo já com um pé na presidência da república, por ver finalmente uma maioria de esquerda a governar Portugal e a austeridade a ter os dias contados.

Eu gostava de prever o futuro para saber se se vai reconstruir uma aldeia - com um templo e uma escola - no sopé dos Himalaias para albergar os meninos do Campo Esperança, em Kathmandu. Gostava, sobretudo, de saber como vai ser a minha aldeia dentro de 20 anos, depois de morrer o último habitante.


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Viajando pelo Centro e Norte

Em viagem pelo país - segunda-feira na Lousã, terça-feira em Braga - para acompanhar o germinar de sementes lançadas em projetos  Nepso (A Nossa Escola Pesquisa a Sua Opinião) da Fundação Vox Populi,  realizados em anos letivos transatos. Professores e alunos levam a investigação a sério e surpreendem as suas comunidades com ideias e propostas de ação baseadas nas conclusões dos estudos por eles realizados.

Na Lousã, os alunos da professora Berta Bem-Haja foram, na segunda feira passada, apresentar aos vereadores da Autarquia local, o trabalho do Nepso, realizado no ano letivo transato. E para representar a Fundação Vox Populi, eu e a Paula, convidados pela autarquia, não podíamos deixar de estar presentes. Aliás o tema do trabalho, pela sua importância e atualidade,  era convidativo: A Alimentação Saudável.

O objetivo do trabalho consistiu em comparar as crenças dos encarregado de educação, no que respeita à alimentação, com as suas atitudes e com a prática efetiva no dia a dia. Não espanta, por isso, que a quasi totalidade dos encarregados de educação considerem que uma refeição deve ter uma sopa mas só 30%  a incluam assiduamente nas refeições. E muitas outras foram as conclusões de um inquérito de 80 perguntas fechadas, feito em papel, por auto preenchimento, e conduzido  junto de uma expressiva  (e muito significativa! ) amostra de 580 encarregados de educação.

O trabalho foi apresentado pelo Francisco, pela Ema, pela Laura e pela Mariana, os jovens alunos que realizaram o trabalho -  quando frequentavam a  turma C do 9º ano, e  agora já a frequentar o 10º ano. Os vereadores presentes, a começar pelo Presidente da Câmara, mostraram surpresa pela qualidade do trabalho realizado, que muito elogiaram, declarando o interesse da autarquia em apoiar o plano de ação proposto pelos alunos.

Na hora do almoço foi um agradável convívio com os alunos, com o vereador da educação Helder Bruno e com a Professora Berta, onde mais uma vez ficou patente o papel da professora, o entusiasmo destes jovens e o interesse da autarquia em o apoiar estas iniciativas.

Da Lousã, continuámos para Braga onde fomos assistir, no dia seguinte,  à tomada de posse dos membros dos órgãos sociais de uma recém criada associação antibullying que nasceu pela mão do professor Paulo Costa. Tudo começou pela participação, já há alguns anos, no Nepso, deste professor com os seus alunos  com um projeto em que o tema escolhido foi o bullying.

A determinação do professor coordenador não deixou cair o trabalho feito, que os alunos prosseguiram de várias formas - através de conferências, colóquios, sensibilização dos media. etc, - e que culminou, passados alguns anos, com a constituição da associação juvenil que conta com o envolvimento de toda a comunidade e até da autarquia. Ideia que já está a ser replicada noutras localidades.

É gratificante ver os frutos do trabalho realizado. Estes exemplos são um forte estímulo para prosseguir a caminhada iniciada há seis anos.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Esquerda, Direita e a Quadratura do Círculo

O conceito de esquerda, centro e direita, para designar o posicionamento político dos partidos, parece remontar à assembleia legislativa que se reuniu em França nos anos que se seguiram à revolução de 1789. Na sua aceção inicial tinha a ver com a posição que os deputados dos diferentes grupos ocupavam na sala dos debates. Foram tempos conturbados, inspirados pelas ideias que tinham estado na origem da independência americana. Tempos que haviam de abrir caminho à modernidade e à democracia.

Atualmente, nas democracias ocidentais, esquerda e direita agregam eleitores e suportam grupos políticos - os partidos - que divergem entre si nos planos político, económico, social, cultural e laboral. Ser de direita é ser conservador; ser de esquerda é ser progressista; a direita privilegia a estabilidade e a ordem; a esquerda privilegia o movimento e a mudança. Historicamente a direita era monárquica e a esquerda republicana; a direita era religiosa, tradicionalista e rural, ao passo que a esquerda era agnóstica, progressista e urbana. A direita é associada aos patrões e empregadores e a esquerda aos empregados e assalariados. De alguma forma, a direita está associada à preservação do poder pelas elites que o detêm. A esquerda congrega os aspirantes a substituir as elites no poder.

No tempo da Revolução Francesa, a esquerda era predominantemente constituída pela burguesia e pelo baixo clero que se opunham ao poder e aos privilégios da nobreza e do alto clero. O século XIX e a Revolução Industrial trouxeram as ideias marxistas teorizadas à volta da dialética entre o capital - detentor dos meios de produção - e do trabalho do proletariado. Com a vitória da revolução bolchevique na Rússia czarista, em 1917, Lenine levou à prática estas ideias. Foi adotada uma nova economia - a economia socialista - em que o Estado era o detentor da propriedade da terra e dos meios de produção; a produção era planificada e não estava sujeita à concorrência baseada na lei da oferta e da procura.

No Ocidente, durante uma grande parte do século XX, a direita confundiu-se com o capitalismo e os valores da tradição cristã, e a esquerda com os princípios do marxismo-leninismo e a economia socialista. Foi o tempo da guerra fria. No período do pós guerra, o contributo de novos fatores de produção - a tecnologia e a energia - deram origem a um forte surto de desenvolvimento que criou nos países ocidentais uma ampla classe média. Foi com o apoio dessa classe media que vingou a social democracia, uma forma mais suavizada de capitalismo, que visava corrigir pela via fiscal as desigualdades sociais e promover o desenvolvimento do estado social nas áreas da saúde, da educação, e da proteção na velhice, no desemprego, nas situações de incapacidade e de pobreza.

A crise de 2008 - afinal uma profunda crise do capitalismo! - com o acentuar das desigualdades sociais, o aumento do desemprego e os cortes nas pensões, nos salários e nos benefícios do Estado Social ameaçou a classe média. Isso criou uma generalizada reação de indignação contra essa política. Muitos passaram a acreditar que só a esquerda poderia preservar o sistema e as regalias que a social democracia - numa alternância pendular do poder entre o centro e a direita – tinha criado, mas não conseguia manter. Essa indignação fez nascer uma nova esquerda que, de alguma forma, se aproxima do conceito de direita naquilo que historicamente a caracterizava, isto é, a defesa dos privilégios adquiridos e a manutenção da ordem e da estabilidade.

A classe proletária há muito definhou na Europa. A nova esquerda não discute a propriedade privada, e já ultrapassou a discussão centrada na dicotomia capital-trabalho. As ideias de Marx e de Lenine estão obsoletas e já não arrastam multidões. A indignação - traduzida numa revolta contra a austeridade e aquilo que ela implica - é, em si mesma, a grande bandeira da esquerda. Vimos isso na Espanha, na Grécia, e, embora em menor escala, também em Portugal. Esquerda que, numa expressão mais radical, chega mesmo a afirmar-se de anti capitalista, mas receando advogar a falhada economia socialista. Não existem referências, nem heróis, nem casos de sucesso que sirvam de exemplo para este movimento. Com o anunciado fim da Cuba de Fídel de Castro - vencida pela globalização - acabou a última referência do socialismo como nós o entendíamos na nossa juventude. Até o pobre Alex Tsipras, convertido à direita - algo que tínhamos visto no Brasil com Lula da Silva -, já não conta como referência.

Na minha juventude, ser de esquerda era acreditar naquilo que nós chamávamos a construção do homem novo. Era acreditar numa sociedade mais solidária, mais justa e mais igualitária. Na minha opinião, os novos caminhos da esquerda - entendida como a ideia de movimento e mudança - só podem ser os caminhos da Transição e da Esperança. Com todas as profundas transformações que essa opção implica. Parece que ainda estamos muito longe disso. Até lá, viveremos num labirinto, de crise em crise e de governo em governo, como que a tentar resolver o problema da quadratura do círculo.