segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O Sagrado e o Profano


Num programa de televisão emitido recentemente, alguém informou que a religião católica é aquela cujo número de praticantes, a nível mundial, mais tem regredido. Este dado suscitou-me uma reflexão sobre o papel desempenhado pelas religiões ao longo da história  da Civilização Humana e sobre o papel que desempenharão no futuro. As religiões estiveram intimamente ligadas ao desenvolvimento do ser humano e o seu padrão parece ser universal pois ele repete-se - na mitologia, nas narrativas sobre a criação do mundo, nos rituais e sacrifícios - em sociedades espalhadas pelo planeta e sem contactos entre elas. Penso que se pode afirmar, com propriedade, que o  homem não é apenas um ser eminentemente social - como disse Aristóteles - mas é também um ser eminentemente religioso.

Terá sido a consciência da morte, o sofrimento físico e psíquico, as interrogações sobre a origem das coisas, sobre os fenómenos naturais, sobre a natureza da vida e sobre o destino do homem,  que criaram no homem primitivo a necessidade de encontrar explicações, de procurar conforto no sofrimento e de justificar a morte ou de tentar prolongar a vida para além dela. As primeiras religiões eram politeístas, as diferentes divindades replicavam as emoções e as paixões dos humanos. As crenças, os sacrifícios de animais e de pessoas, os rituais, fizeram surgir os templos e os altares. Surgiu a organização do culto e apareceram os seus agentes - sacerdotes e outros representantes do sagrado - que a integravam. O poder esteve sempre ligado à religião.  A igreja - considerada, no sentido lato, como a estrutura social que organiza o culto religioso - é anterior ao estado e, em paralelo com o poder militar e com a administração que coletava os impostos, tornou-se um dos principais suportes dos estados.

A invenção da escrita criou as religiões que hoje predominam no mundo ocidental: o judaísmo, o cristianismo, o maometismo. Nesse aspeto, teremos de destacar o judaísmo, uma religião com uma forte componente moral e com muitos rituais na forma de viver, de comer e até de vestir. A vida dos judeus, a sua existência como povo - e agora como estado, em Israel - está suportada pela religião e pelas crenças. O cristianismo é um enxerto da mitologia greco-romana com o judaísmo que encontrou nas sociedades fortemente hierarquizadas dos bárbaros do centro e do norte da Europa o terreno propício à sua disseminação. O seu desenvolvimento na idade média sobre os escombros do Império Romano do Ocidente está na base da construção da Europa e da Civilização Ocidental. A difusão das ideias de Lutero, que a invenção da imprensa haveria de facilitar, levou à criação de novas religiões dentro do cristianismo, criou divisões na Europa e conduziu à guerra dos 30 anos.

A partir da Renascença e da descoberta da imprensa, o desenvolvimento científico, nomeadamente com Galileu e com Darwin, começam a questionar e abalar as velhas narrativas do cristianismo sobre a criação e sobre o evolucionismo.  O último  golpe ocorre já no século XX com Sigmund Freud, quando questiona a natureza transcendental da alma humana. O desenvolvimento económico que sobreveio, sobretudo a partir da Revolução Industrial, que consolidou o estado organizado e criou as condições que permitiram o surgimento do estado social, retirou à igreja o  papel e importância que tinha no plano social nomeadamente na assistência na doença e na pobreza. Por tudo isso, no mundo atual, a religião cristã - e a religião católica em particular - perdeu muita da sua importância de outros tempos.

Eu vejo na religião três dimensões: uma dimensão espiritual, uma dimensão moral e uma dimensão social. E vejo sinais de que a dimensão espiritual da religião não foi abalada pelos desenvolvimentos científico e social. As respostas às questões fundamentais continuam por dar. O absurdo da morte, ao retirar sentido à vida, continua fonte de angústia permanente, a origem da matéria e da vida fogem à nossa compreensão. Não se pode resumir a discussão religiosa ao chavão de acreditar em Deus ou de negar a sua existência. A dimensão espiritual tem mais a ver com a forma de viver de cada um, com a compaixão com os semelhantes, com a solidariedade. Estamos no limiar de entrar  num novo ciclo civilizacional que é resultado de uma nova forma de comunicar. Quem sabe se não estaremos também no advento de uma nova religião!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Carta de Natal


No dia de Natal, durante o alvoroço dos presentes, entre as minhas prendas, nada mais do que a biografia de Marcelo Rebelo de Sousa, do jornalista Vitor Matos, que já vai na quarta edição. Por sorte, eu já tinha recebido, oferecido pelo editor, o livro "Sampaio da Nóvoa, Evidentemente a Liberdade" de Fernando Madaíl. E,assim, posso agora ajuizar melhor sobre os candidatos antes de tomar a minha decisão, pois tenho a convicção de que um deles será o próximo presidente da República. Acredito que as chances favorecem Marcelo que, logo na primeira volta, terá mais votos do que  Cavaco teve há 5 anos atrás, e de que  Sampaio da Nóvoa não irá superar a votação de Manuel Alegre nas anteriores eleições. Se assim for, de nada valerá o meu voto. Mas convém não desvalorizar o poder do voto democrático e lá irei eu cumprir  o dever cívico - agora com mais comodidade, depois que a Junta de Freguesia do Lumiar trouxe as urnas para a escola que fica junto à nossa porta. Porém, estou com muitas dúvidas. Marcelo Rebelo de Sousa, acho-o inteligente de mais para ser verdadeiro - o aforismo é de Pessoa -, constrói esquemas mentais tão elaborados que não tardará a perder-se e a contradizer-se a si próprio; Sampaio da Nóvoa está ainda muito verde, parece enredado na euforia da maioria de esquerda e ainda não percebeu as contradições - a ideia foi expressa por Cavaco - entre a economia e a ideologia. A candidata Marisa Matias apresenta-se com ares de atriz de telenovela, sem ideias políticas e parece assentar-lhe bem a referência do VPV relativamente a Catarina Martins quando se referiu ao sucesso do BE como a vitória da insignificância; o ex-padre Edgar Silva do PCP não traz para a campanha ideias próprias, nem precisa, pois Cunhal já tinha dito tudo o que havia para dizer - e tão disse-o tão bem que o discurso dele, reciclado, ainda hoje arrasta muita gente. O irreverente estatístico Paulo Morais - que eu conheço de ginjeira! - dispara para tudo o que é sítio, na sua ânsia de protagonismo pessoal. Henrique Neto, acredita que é dono da verdade, é uma reedição requentada de Nobre e será apenas um candidato na primeira pessoa. Restam mais dois ou três que não ficarão para a história. E - já me esquecia! -  ainda temos Maria de Belém a quem, sinceramente, ainda não ouvi uma ideia com princípio meio e fim - e que aparece na corrida para subtrair ao Marcelo os votos de alguns católicos e moderados do centro ou da esquerda que não se reveem nos outros candidatos. É assim que as coisas andam por Lisboa, onde o governo de esquerda, no gozo da graça dos seus primeiros 100 dias, promete um tempo novo, sem austeridade, e até já fala em retoma, em crescimento, e convida os jovens emigrados a regressar - a ver vamos! Agora andam todos indignados com a falência do Banif - à procura dos buracos por onde se esfumou o dinheiro -  e com a defesa do Estado Social - alguns não sabem bem do que falam!- após a morte de um jovem que, por ser fim de semana, não foi tratado como devia no Hospital de S. José. Nas vésperas de Natal, estivemos na Baixa para ver o espetáculo de luz, apoiado pela CML e pela Coca-Cola, que passava no Terreiro do Paço. Em dois ou três anos, animada pela vaga de turistas, a Baixa mudou - parece a reedição da movida que em tempos ocorreu em Madrid -, há esplanadas sem fim na Rua Augusta e no Terreiro do Paço e o pastel de belém já tem um concorrente de peso: o pastel de bacalhau. Ando a ler um livro sobre o Eça, com histórias pouco conhecidas do escritor trazidas pelo especialista  Campos de Matos; e comecei a ler um livro muito interessante sobre a vida de Alexandre Herculano - que mal conheço e que é uma personagem cativante - que viveu no segundo e terceiro quartéis do século XIX, numa época que também conheço mal. Com votos de Bom Ano. LQ

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O Lado Escuro do Universo


O século XX abriu-nos portas para uma nova compreensão do Universo. Sabemos hoje que o nosso planeta não passa de um pequeníssimo ponto azul - a expressão é de Carl Sagan - perdido nos confins de uma galáxia, a Via Láctea, que está, ela própria, perdida nos confins de um Universo cujas dimensões e natureza se apresentam ainda difusas. Nomes como Edwin Hubble - que identificou  miríades de novas galáxias -  e Albert Einstein - que relacionou o espaço e tempo - aportaram contribuições decisivas para nos ajudar a compreender o Universo. É espantoso o avanço ocorrido neste domínio, considerando que há até apenas quatro séculos - até Galileu Galilei -  ainda se considerava a Terra como estando no centro do Universo.

E as novas descobertas não param de nos surpreender. Para explicar a coerência do movimento de rotação das galáxias foi necessário admitir a existência de uma partícula vastamente espalhada no espaço e com características diferentes das da matéria conhecida. Trata-se daquilo que foi designado dark matter que aparece, em português, traduzido algumas vezes por matéria escura outras vezes por matéria negra. Essa nova matéria não interage com a matéria visível não emite luz mas tem gravidade o que faz com que deflita a luz que nos chega de galáxias distantes. Esse facto faz com que as aglomerações de matéria negra, ao curvar a trajetória da luz,  funcionem com lentes gravíticas que permitem assinalar a sua presença e fazer o seu mapeamento no universo.

A descoberta da continua expansão do universo foi outra das descobertas das primeiras décadas do Século XX. As galáxias estão a afastar-se uma das outras , isto é, o universo expande-se em todas as direções. Isso mesmo foi demonstrado porque esse afastamento produz um fenómeno designado por redshift - desvio da luz para o vermelho - que faz com que o comprimento de onda da luz emitida por essas galáxias se apresente desviado para a zona vermelha do espectro. Inicialmente pensava-se - era essa a lógica do Big Bang, a explosão inicial que originou o Universo - que essa expansão estaria a reduzir-se e que chegaria um momento em que ela terminaria e, a partir desse momento, o Universo se passaria a contrair. Mas a conclusão das observações científicas foi a oposta: o Universo não só está a expandir-se como essa expansão está a acelerar. Para explicar este fenómeno foi necessário introduzir o conceito de black energy, a energia escura também conhecida por energia cinzenta.

De acordo com as conclusões dos astrónomos, da massa total do Universo 20% são de matéria escura e 75% são de energia cinzenta o que deixa apenas 5% para a matéria visível aquela que nos é  familiar. São muita e enormes as implicações destas descobertas. Sabemos que nada é estável e que tudo está relacionado. O lado escuro do universo faz também parte de nós, teve e terá tido um papel decisivo na criação da vida e na evolução dos seres vivos. Fazendo um analogia com o se humano, a matéria visível é como o nosso consciente, a matéria invisível é o nosso inconsciente.

Temos a sensação de que estamos perto de encontrar a teoria de tudo, a fórmula que unificará as forcas electromagnética, gravítica e nucleares. Mas quando isso acontecer não teremos ainda todas as respostas. A explicação do como nunca será suficiente para aqueles que procuram a justificação do porquê. Seguramente. continuaremos  à procura do alfa e do ómega que são o princípio e o fim de tudo.

Mas não vale a pena desesperar. Procuremos as respostas possíveis e essas só podem ser dadas pela intuição ou pela fé, cuja origem está no inconsciente, o nosso lado escuro. Tal como diz um amigo meu: Não temos outro destino que não seja sermos. Simplesmente. Os poetas sabem-no, ou intuem-no.  Bom Natal 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

A Voz dos Sábios e o Futuro

Sobre o futuro da Humanidade são muitas as interrogações e muitos os foruns - foi o caso de um recente encontro de personalidades na Fundação Champalimaud - onde esse futuro se debate. A velocidade das mudanças, consequência do rápido desenvolvimento científico e tecnológico e do reforço da globalização, alterou - e está a modificar - o nosso modo de viver. Mudanças que nuns estão a provocar desorientação - onde é que este progresso nos vai levar? - e noutros a dar lugar à incerteza - será que estamos a seguir no caminho certo?

A grande maioria das pessoas vê nos avanços científicos e tecnológicos a evidência de que o engenho do homem tudo pode, e de que ele será capaz de vencer os desafios do futuro. Acredita que, como resultado desses avanços, as coisas só podem melhorar no futuro. Com os surpreendentes progressos nas ciências médicas estaremos muito perto de aumentar a longevidade até aos 120 anos. Num futuro próximo, será possível fundir seres humanos com robots e poder-se-á fazer o backup do cérebro humano num computador e reativá-lo mais tarde. Um dia, o homem irá viajar no espaço e colonizará outros planetas. É a concretização do velho sonho da imortalidade do ser humano que, creem muitos, vai ser possível realizar-se. Como resultado destas conquistas e desta crença, Deus foi relegado para segundo plano. O homem parece acreditar que a divindade está ao seu alcance...

Num curto espaço de tempo, à escala cósmica, a espécie humana - a única dotada de inteligência!– deu saltos evolutivos espetaculares. Tudo começou com a linguagem; depois, foi a escrita e a imprensa e, já no nosso tempo, a internet. Com a linguagem nasceu a organização social. Com a escrita, criaram-se ferramentas: o estilete, a argila mole, a tinta e o papiro. Com a imprensa, nasceu a comunicação de massas, surgiu a tipografia, o panfleto e o livro. A internet é suportada por uma panóplia de novas ferramentas: a rede elétrica, a rede de comunicações, os computadores, os smartphones. Com os registos escritos e os registos digitais podemos acumular o conhecimento adquirido em cada geração, preservá-lo, e transmiti-lo para as gerações seguintes. Estamos perante capacidades adquiridas pela espécie, que as integra, e que passam a fazer parte do seu processo evolutivo no sentido que lhe deu Charles Darwin.

Ora, estes saltos estão associados a um aumento da complexidade das ferramentas e a uma crescente dependência do seu uso. Particularmente com a internet, a complexidade assenta numa sofisticada base tecnológica e energética - falamos dos suportes, da eletricidade e das ondas hertzianas que transportam os sinais digitais. E o processo de inovação continua e parece não ter fim à vista. Avizinha-se a época da internet das coisas, esperam-se grandes avanços da ciência na computação, nas comunicações, na saúde, na eficiência energética e na produção alimentar.

Vivemos um tempo de limites, numa encruzilhada evolutiva. O homem é, ao mesmo tempo, sujeito e objeto do sentido evolutivo. Nesta situação, não pode haver lugar para erros, pois, os erros pagam-se caros. Preocupamo-nos com a longevidade dos indivíduos e, em termos evolutivos, o que interessa é a longevidade da espécie. Ao longo da história da vida na terra muitas espécies se extinguiram. As causas dessas extinções tiveram a ver com o desaparecimento ou escassez do seu recurso principal, ou com o aparecimento de novos predadores, mas tiveram também a ver com a excessiva especialização que reduz a sua capacidade de adaptação. Quando, como resultado do processo evolutivo, uma espécie adquire uma nova capacidade, já não existe caminho de retrocesso, isto é, a natureza não aceita a desevolução. Essa é a nossa principal vulnerabilidade, e o maior risco que enfrentamos como espécie - apenas uma entre tantas! - é o de entrar num cul-de-sac evolutivo.

No programa Prós e Contras da semana passada os sábios convidados pela Fundação Champalimaud - António Damásio, Fernando Henrique Cardoso, Manuel Castells, Jorge Sampaio e Leonor Beleza - vieram falar destas coisas. Realçaram a divergência entre caminhos da ciência - caminhos de esperança - e os caminhos da política e da economia - caminhos de descredibilidade e de desencanto. Damásio, o mais incisivo entre eles, falou da inteligência artificial e da possibilidade, no futuro, de ser possível fundir homens com robots, logo acrescentando que as máquinas não têm consciência e, por isso, não sentem nem o prazer nem a dor, sentimento que é apanágio dos seres vivos. Que não existe ética sem prazer, sem sofrimento e sem dor. E concluiu que só podemos melhorar o estado do mundo, depois de o compreender. Aqui, acrescento eu: para compreender o mundo temos de perceber o nosso destino, e a isso a ciência nunca dará resposta. Estamos muito longe de o alcançar, se é que algum dia o conseguiremos.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Alterações Climáticas

A Conferência das Nações Unidas sobre as alterações climáticas, que esta semana reúne em Paris representantes de quase todos os países do planeta, ocorre pela vigésima primeira vez desde a Cimeira da Terra, realizada no Rio de Janeiro em 1992. Na sessão inaugural, estiveram em Paris os líderes dos principais países do planeta, o que mostra a importância atribuída a esta questão. Na verdade, o problema das alterações climáticas já não pode ser ignorado, nem relegado para segundo plano, tal o impacto que pode vir a ter sobre o nosso próximo futuro coletivo. Mas, estamos muito longe de encontrar soluções e reunir consensos.

No essencial, estamos perante um dilema. Se continuamos a lançar para a atmosfera gases com efeito de estufa a sua temperatura média vai aumentar, e as consequências, possivelmente irreversíveis, daí decorrentes - extinção de espécies, subida do nível dos oceanos, ocorrência de fenómenos climáticos extremos, escassez de água potável, prejuízos na agricultura, deslocações de populações - terão fortes impactos na economia. Mas, se deixarmos de fazer essas emissões vamos pôr em causa o crescimento, e com isso agravar o desemprego, criando condições para o ressurgimento de uma nova e severa crise económica que todos querem evitar.

As alterações climáticas provocadas pela atividade humana são, já hoje, um fenómeno de indiscutível evidência. Elas surgem como consequência direta ou indireta do uso dos combustíveis fósseis, que se iniciou com a Revolução Industrial no início do século XIX e se acelerou durante o século XX, sobretudo, após o final da Segunda Guerra Mundial. Energia, economia e alterações climáticas estão correlacionadas. Existe a convicção amplamente difundida de que a mitigação do aquecimento global estará na adoção generalizada de formas não poluentes de produção de energia. Isso tem vindo a ser feito com recurso à energia nuclear, à energia hídrica, à energia eólica e à energia solar. Estas duas últimas formas têm vindo a ganhar importância na geração de energia elétrica, e são promissoras. Mas, elas ainda não fizeram infletir, a nível mundial, a tendência sempre crescente do aumento do consumo da energia fóssil. É certo que nos países da OCDE já se verifica a estagnação ou até a uma diminuição desse consumo. Porém, isso está a ser conseguido por virtude de uma desaceleração do crescimento económico, e pela deslocalização de muitas indústrias poluentes para fora daquele espaço geográfico.

Sinceramente, não vejo saída para o dilema. A consciência da gravidade do problema já é importante, mas, só por si, isso não chega. Não será a consciência das alterações climáticas que reduzirá o consumo de combustíveis fósseis; mas, sim, a sua escassez. Grandes zonas do planeta - nomeadamente a Índia, a China e o Paquistão - estão longe de atingir os consumos energéticos per capita dos países ocidentais. O petróleo, pela sua importância na mobilidade será o mais sensível. Quando a China atingir a capitação no consumo de petróleo da Coreia do Sul ou do Japão, será necessário extrair, a nível mundial, mais 30% de crude para responder ao excesso de procura.

Em 1997, os objetivos de Kyoto em reduzir as emissões de CO2 falharam. Em 2009, a conferência de Copenhaga ficou longe dos seus propósitos. Em 2015, os delegados à Conferência de Paris pretendem limitar a 2º Celsius o aumento médio da temperatura global até 2100. O sucesso desta Conferência só será avaliado daqui a algumas dezenas de anos. Possivelmente, tarde demais.


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Impressões de uma Viagem pela Europa

Os franceses da região de Lille parecem ignorar que há cem anos, muito perto dali, nas linhas das trincheiras da Primeira Guerra Mundial, se jogava o futuro da Europa e do Mundo. Aparentam um ar grave e triste. Parecem felizes nas superfícies comerciais a transportar carrinhos de mão, abarrotados de compras, e nos restaurantes aquecidos devorando suculentos pratos de carne: filets, côtelettes, rotis e cassoulets.

Atravessa-se a França de carro e as cidades ficam-nos ao lado: Rouen, Amiens, Le Mans, Tours, Angoulême ... As auto estradas são canais assépticos que só revelam a monotonia da paisagem e camuflam a atividade humana. Eu ainda conheci a outra França, das pequenas aldeias balzaquianas, das mobillettes e das pessoas levando na mão as longas baguettes de pão.

Para o viajante ou o turista de hoje o digital domina tudo. Já não precisamos de mapas nem de guias. Com um smartphone e as facilidades do roaming estamos conectados com o mundo inteiro.

Na noite da meseta, o céu volta a ganhar a dimensão e o mistério que a luz elétrica e o néon das cidades lhe roubou há muito. Até a Lua grande, que já a começou a minguar, não consegue esconder o esplendor da bela constelação de Orion. E o esbranquiçado dos aglomerados da Via Láctea deixa voar a nossa imaginação para o infinito, e remete-nos à nossa insignificância.

Na judiaria de Hervas, tento compreender o drama provocado pelo Édito de Expulsão promulgado pelos Reis Católicos. Muitos judeus foram dali empurrados e vieram povoar as terras da raia portuguesa: Belmonte, Trancoso e Castelo Rodrigo. Imagino que alguma daquelas casas teria sido ocupada por um dos meus antepassados de Mata de Lobos. A Inquisição é, ainda hoje, algo que escapa ao meu entendimento.

Nas primeiras horas após o nascer do Sol, a Estremadura espanhola tem uma beleza estonteante: milhafres e águias elevam-se no ar, impulsionadas pelas correntes ascendentes do ar que o Sol começa a aquecer. A terra, esbranquiçada pela geada, reflete a luz solar e brilha como um espelho. A vista espraia-se por um horizonte sem fim com farrapos de neblina alongando-se sobre os vales.

Já depois de Cáceres, na berma da estrada jaz uma coruja das torres que, imagino, não terá escapado a tempo do choque com um carro a alta velocidade. É um animal que tinha um significado muito especial para as populações rurais. Chamavam-lhe rasga mortalhas, porque o seu grito agourento faz lembrar o ruído rouco do rasgar de um tecido.

Em Estremoz, havia feira Gastronómica de Caça e Pesca. Com ar de sofreguidão, as famílias aglomeravam-se à espera de lugar na entrada dos restaurantes que serviam migas e outras especiarias. Ficavam indiferentes ao trabalho do Eduardo, um taxidermista que na sua banca exibia patos, perdizes, pombos, estorninhos malhados e tordos. Confessou-nos que trabalhava aquela arte, com amor, desde os onze anos de idade. E nós logo ali imaginámos a coruja das torres conservada pelo Eduardo para ficar como recordação desta memorável viagem pela Europa.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Os Genes e as Circunstâncias

Foi uma lição magistral que, no passado dia 19 de Novembro, o professor Manuel Sobrinho Simões veio proferir ao Grémio Literário na sessão de abertura do novo ciclo de conferências sob o tema: Que Portugal queremos ser, que Portugal vamos ter. Manuel Sobrinho Simões é um médico, um cientista e um professor que expõe as suas ideias de um modo informal, e com a simplicidade que carateriza os verdadeiros homens de ciência.

O nosso território, começou por dizer, faz parte da área ocupada durante mais tempo pelo homem de Neandertal, onde permaneceu num longo período que vai desde há 300,000 até à sua extinção, há 15,000 anos. Terá mesmo havido aqui cruzamentos entre o homo neandertal com o homo sapiens. Após o final da última glaciação, ocorrido há 17,000 anos, o norte da Europa, voltou a tornar-se habitável e foi repovoado por povos oriundos do sul da Europa - da península Ibérica, da península Itálica e dos Balcãs - e do norte de África. Nessa altura haveria uma grande homogeneidade genética no continente europeu. Mas desde há 700 anos, a Europa central, uma zona de passagem, passou a ter uma grande disseminação genética, ao passo que no periférico e isolado ocidente da península Ibérica foram os imigrantes que trouxeram novos genes. Por isso, não espanta que 3% dos nossos genes provenham de povos subsarianos e 2% de ameríndios. Genes que foram introduzidos, curiosamente, por via feminina, a mostrar que as famílias aceitavam melhor a incorporação social das mulheres mestiças trazidas pelos imigrantes do que a dos homens.

Mas, os genes são o passado e não são tudo, há que ter em conta as circunstâncias. E para ilustrar isto mesmo, citou os estudos do brasileiro Sérgio Pena que mostraram que apenas no tempo de três gerações, tribos de índios caçadores passaram a ser agricultores, com as transformações físicas que essa mudança implicou. E não é verdade que os genes não mudaram e nós estamos a ficar mais gordos? Tal como o passado, o nosso futuro terá a ver com os genes, mas terá muito mais a ver com as circunstâncias: o sítio onde vivemos, a nossa educação e com a nossa cultura. Aquilo que hoje somos resulta da nossa periferia. Somos os mais periféricos da Europa. Temos um país acidentado, fomos insuficientemente romanizados, somos um país de minifúndio. Tivemos a escravatura até muito tarde e desvalorizámos o trabalho - sedimentou-se a ideia de que só trabalha quem não sabe fazer mais nada. A Inquisição deixou marcas profundas e terríveis. Com a Inquisição destruímos o valor do conhecimento e aumentámos a desconfiança entre portugueses.

No 25 de Abril éramos ainda um país de analfabetos. Nos últimos 40 anos evoluímos muito. Aumentámos a nossa auto estima, é certo, mas isso aconteceu num período de tempo muito curto. Em 1974, a nossa literacia era equivalente à da Suécia em 1830.Não criámos novas elites e conservámos muitos dos estigmas antigos. A resposta que damos ao minifúndio é familiar ou corporativa - somos todos primos uns dos outros.

Temos muito pouca tradição de avaliação e sem avaliação é muito difícil melhorar. Também não temos tradição de recompensa/castigo porque nos refugiamos na tribo ou no clube. Porém, para vencer o minifúndio e o individualismo temos de reforçar as instituições. Nós somos péssimos em termos de nos associarmos em volta de um objetivo, de fazer as perguntas certas. Isto tem incapacitado a sociedade, que se revela incapaz de fazer reformas. Não temos sido capazes de reformar a justiça ou a administração interna, nem capazes de reformar a universidade e o ensino superior. Com excessivo número de faculdades e cursos - uma vergonha! -, ou a tentativa de misturar o ensino técnico com a universidade - um disparate! - não reforçamos o valor institucional, mas reforçamos o valor individual. A fuga de uma geração qualificada de jovens é, em última análise, o resultado da ausência ou da fraqueza das nossas instituições.

Quando abordou o problema da saúde foi para dizer que estamos a ficar muito velhos. Estamos a curar o cancro e as doenças cardiovasculares e respiratórias. As pessoas vivem mais tempo mas ficam com problemas neuro-cognitivos, e a precisar de apoio que não temos condições para lhes dar. Isto poderia ser uma boa oportunidade de criar empregos em pequenas unidades de cuidados paliativos. Mas só pensamos em criar emprego em coisas grandes; somos megalómanos.

Na Europa, com o consumismo, o crédito barato, as rendas, desvalorizamos o trabalho e estamos a acabar com as profissões exigentes. A propósito, referiu que, nos dias de hoje, nenhum inglês esperto escolhe ser médico! As profissões são a coisa mais importante para um país se manter saudável. Em Portugal, vamos ter de depender mais da evolução da Europa do que de nós próprios. Temos limitações geográficas, económicas e muita dependência externa. Acima de tudo, temos de apostar no conhecimento, superar os grandes defeitos educacionais, melhorar a nossa capacidade de understanding, isto é, não aprender superficialmente, mas conhecer com profundidade a razão de ser das coisas e o que está por debaixo (under).

Esta palestra trouxe-me uma outra à memória, proferida pelo jovem Antero de Quental, há quase 150 anos, quando nas Conferências do Casino elencou as causas da decadência dos povos peninsulares no século XVI: 1) O catolicismo saído do Concílio de Trento, dogmático e limitador das liberdades, 2) O absolutismo que anulou o antigo poder local, fomentou intrigas e produziu ociosidade; 3) A expansão resultante das descobertas e das conquistas que trouxe riqueza, mas não gerou indústrias nem desenvolvimento.

Sobrinho Simões confessou que se considera pessimista na análise mas otimista na ação. Lança uma nova luz e uma nova esperança. Na minha leitura, a luz está na Europa e a esperança na Educação.