segunda-feira, 7 de março de 2016

À Espera do Refluxo

No passado dia 2 de março, um dia depois de ter sido acusado de práticas fraudulentas em transações de terrenos, Aubrey McClendon, o célebre multimilionário fundador da Chesapeake Energy, a maior empresa de fracking americana (extração de gás e petróleo de xisto), morreu com 56 anos, num acidente de automóvel em Oklahoma. Ao que tudo indica, lançou, a grande velocidade, o seu automóvel contra um muro de betão, num aparente ato de suicídio.

A Chesapeake, a empresa que McClendon fundou e dirigiu durante vários anos, enfrenta graves problemas financeiros, ameaçando não poder cumprir os seus compromissos de dívida. Nos últimos dias, as ações da empresa, que há apenas um ano e meio cotavam a mais de 35 dólares, atingiram mínimos de 1,5 dólares. Este é o panorama generalizado do sector do fracking cuja produção, ao contrário do que se esperava, já se encontra em queda. Para muitos analistas, poderemos estar perante o princípio do fim do sonho americano de o país se tornar a curto prazo independente como produtor de energia fóssil. Sonho alimentado por uma enorme máquina de propaganda que captou poupanças de pequenos investidores, e que agora as vêem em risco de se perderem.

O que se passa nos Estados Unidos é uma consequência da crise resultante da queda do preço que afeta os países e as empresas produtores de petróleo. Entretanto, começam a emergir outras situações preocupantes e que podem ter um grande impacto no futuro. Na Venezuela, a petrolífera estatal, PDVSA, estará também em situação de falência técnica e com dificuldades em importar o petróleo leve que as refinarias precisam para misturar com o petróleo pesado local. A mexicana Pemex confronta-se com elevados prejuízos e problemas de liquidez, em parte derivados de uma significativa redução da produção que passou, nos últimos 10 anos, de 3, 2 milhões de barris/dia para 2,2 milhões de barris/dia. Em África, são os três maiores produtores (Argélia, Angola e Nigéria) que enfrentam problemas. Para já não falar da situação no Iraque, onde não tem sido possível atingir os níveis de produção que justificaram a guerra de George W. Bush, e se esperavam após a queda de Saddam Hussein. As grandes empresas petrolíferas (BP, Shell e Exxon) apresentam problema de rentabilidade, fazem despedimentos e cortam nos investimentos. Em 2015, os investimentos na prospeção de novas jazidas terão sido reduzidos em 15% e essa redução vai continuar a verificar-se pelo segundo ano consecutivo em 2016, o que é uma situação inédita no sector, e que terá, a breve prazo, consequências na produção.

Para muita gente não são percetíveis as razões que levaram a este estado de coisas. E não compreendem como foi possível a baixa do preço da matéria-prima, um facto que, pelos vistos, ameaça a curto prazo estrangular a produção. Porém, mais do que o excesso de oferta ou a redução da procura, haverá interesses geoestratégicos ligados aos conflitos no Médio Oriente e à intenção de apertar um garrote à economia russa. Interesses que parecem ser a verdadeira causa da baixa do preço do crude. Aliás, à semelhança do que já tinha acontecido nos anos do colapso da União Soviética.

O sector energético - e o sector petrolífero em particular - é o mais sensível na economia mundial. A queda dos preços a que assistimos pode ser apenas o recuo da maré que precede o tsunami - traduzido numa nova escalada de preços do barril de petróleo - que pode abater-se sobre a economia global. No longo prazo, a Humanidade, para prosperar, tem de contar com as energias alternativas onde predominam a eólica e a solar. A energia de origem fóssil é finita e um dia iniciará a sua queda inexorável. Conseguir criar as condições necessárias para se fazer a sua substituição sem sobressaltos é o maior desafio que se coloca aos vindouros.


segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O Oráculo do Índios

Quando os índios da tribo, querendo saber a quantidade de lenha que deveriam arranjar, vieram perguntar ao Grande Chefe quão rigoroso seria o próximo inverno, este, depois de invocar o espírito dos antepassados, decidiu contactar os serviços oficiais de previsão do tempo que o informaram antever-se um inverno normal. Ora, o Grande Chefe, usando das cautelas dos líderes sensatos, que aconselham valer mais prevenir do que remediar, reuniu a tribo e comunicou-lhes: "Bravos, preparem-se para um inverno ligeiramente mais frio do que o costume". Poucas luas eram ainda passadas, quando o bem avisado Chefe, achando por bem ajustar as suas recomendações, voltou a contactar os serviços de previsão do tempo. Então obteve a seguinte resposta: "Continuamos a prever um inverno normal, mas, agora acreditamos que vai ser mais frio, porque os índios estão a armazenar mais lenha do que o habitual".

Esta história deliciosa, que ilustra o risco do pensamento circular ao fazermos previsões, contou-a Emílio Rui Vilar no passado dia 23 de fevereiro, no Grémio Literário em Lisboa, a abrir a sua palestra sobre o tema "Que Portugal queremos ser, que Portugal vamos ter". Rui Vilar falou na primeira pessoa para, com base nas suas recordações pessoais, ilustrar a trajetória do Portugal desde o pós guerra até aos nossos dias. A partir de abril de 74, a Europa esteve no centro da nossa caminhada. Deu-nos uma nova esperança, uma nova moeda, reacendeu a chama da nossa criatividade - aludiu à década maravilhosa que abriu com a Europália, passou pelas capitais da cultura em Lisboa e Porto, pela feira de Frankfurt e pela Expo 98 –, em suma, permitiu o reencontro connosco próprios. Portugal abriu-se ao mundo - reconciliou-se com a Espanha e com os países da Comunidade de Língua Portuguesa -, cresceu economicamente, modernizou-se e aproximou-se da Europa.

Contudo, nem tudo foram rosas. A Europa mudou muito. A reunificação da Alemanha, o alargamento a leste e a nova arquitetura da União- ironicamente saída da cimeira de Lisboa, e de uma presidência portuguesa - remeteu-nos, outra vez, à nossa insignificância. A culminar tudo isso, a crise do subprime, as hesitações iniciais entre medidas expansivas e restritivas e, finalmente, a adopção da doutrina alemã a penalizar a dívida que nos trouxe a austeridade. Mas, até na adversidade, Portugal revelou dignidade: exportou mais produtos e tecnologia, formou quadros, melhorou a agricultura. Quando acabou o protetorado do resgate estávamos com mais dívida, com mais desemprego e tinham vindo ao de cima as más práticas de algumas empresas, aqui numa clara alusão ao BES e à PT. Ficou-nos a certeza de que Portugal, sozinho, nunca conseguirá superar o bloqueio da dívida.

A Europa e o Mundo enfrentam hoje o dilema do abrandamento - ou até do desaparecimento - do crescimento. Este dilema esvazia a retórica dos partidos do centro, socialistas e sociais democratas, antes centrada na redistribuição dos excedentes da riqueza criada e agora sem possibilidades de o fazer. E inviabilizou a via proposta pelas ideias neoliberais - de Reagan e de Thatcher - assentes no sucesso individual. Por isso, os partidos socialistas migram para os extremos (para a direita em França, para a esquerda na GB) ou esvaziam-se, como foi o caso do Pasok na Grécia.

O quadro politico português – “um caso único”, sublinhou, saído das ultimas eleições - vai enfrentar o dilema da coexistência da politica social com as exigências inflexíveis da Europa dos mercados. A agravar tudo isto, existem na União outros problemas que são hoje prioritários: o crescente fluxo dos migrantes, a contenção da Rússia, a ameaça do abandono da Grã Bretanha. Tudo se resume a uma grande questão: até que ponto será possível conciliar as preocupações do PCP e do BE com os imperativos dos mercados? Neste quadro o PS, um partido em stress, dificilmente poderá desempenhar o papel de árbitro, pois precisa de tempo para manter as negociações.

Rui Vilar terminou a sua intervenção defendendo a solução federativa como a única saída lógica para a Europa e para Portugal. Ora isto implica a criação de um orçamento europeu, mecanismos de mutualização da dívida, com um banco central com poderes semelhantes aos da FED ou do Banco de Inglaterra, e que não se limite a estar preocupado com a inflação. Deixou uma mensagem: aproxima-se um tempo de grande exigência no qual precisamos acreditar em que será possível superar as dificuldades. É um imperativo ético conseguir fazê-lo, perante nós próprios e perante as gerações futuras. Terminou, aconselhando prudência e rigor: "No fundo, é começarmos a guardar mais lenha para os invernos que estão para vir."

Entretanto, imagino eu, os grandes chefes de Bruxelas andarão baralhados com as previsões de severidade dos próximos tempos. É que os índios da Praia Ocidental, não só não estão a guardar mais lenha para os invernos que estão para vir, como estão a gastar a pouca que lhes sobrou do rigoroso inverno passado.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

As Duas Espanhas

Oitenta anos passados sobre as eleições, que em 16 de fevereiro de 1936 deram, por uma escassa margem, a vitória à Frente Popular, paira de novo sobre o país vizinho o fantasma das duas Espanhas, que se confrontaram durante os sangrentos anos da Guerra Civil. Há oitenta anos, enfrentavam-se, de um lado, a Espanha católica, ordeira, latifundiária, hierarquizada e monárquica, e do outro, a Espanha republicana, laica, operária, anarquista, sindicalista que via na revolução bolchevista de outubro o modelo para a criação do homem novo e que fez dela a sua bandeira...

Não tendo participado no conflito da Primeira Guerra Mundial, que libertou tensões e redesenhou o mapa da Europa, a Espanha do início dos anos 30 refletia tardiamente as transformações e as contradições resultantes da revolução industrial e do surgimento de uma forte classe operária. Criou-se um amplo movimento sindical com ideais libertários, antipatronais, antireligiosos e antimonárquicos. A experiência de um país governado pelo poder operário, que se desenvolvia na Rússia soviética, era seguida com particular atenção. Em 1931, o rei Alfonso XIII, sem abdicar formalmente, exilou-se na sequência de uma derrota eleitoral regional. Implantou-se a República e promulgou-se uma nova constituição. Surgiu um governo republicano e de esquerda, a Espanha dividiu-se. Sobre o País começaram a pairar as nuvens da agitação social.

Na sequência da vitória eleitoral da Frente Popular, em Fevereiro de 1936, constituiu-se um Governo de coligação liderado por Largo Caballero, extremaram-se posições, instalou-se o revanchismo, atacou-se a Igreja Católica, ocuparam-se terras, mataram-se pessoas, cometeram-se muitos excessos. Em julho desse ano, um levantamento militar separou a Espanha em duas. Seguiram-se três anos de uma guerra sangrenta, que seria o prelúdio da II Guerra Mundial. Alinhamentos externos apoiaram estas duas Espanhas, testaram-se armas, lutou-se com bravura e heroísmo. As brigadas internacionais, que se formaram com voluntários idealistas vindos de todo o mundo para apoiar a causa republicana, ajudaram a criar o mito da última guerra romântica.

A situação da Espanha de hoje não é comparável à situação que se vivia em 1936. A Espanha já não é um país predominantemente agrícola. Está integrada na Europa, tem uma economia moderna que assenta nos serviços, com destaque para o turismo. E a religião já não é o que era. A esquerda da Espanha de hoje - embora cada vez mais expressiva e a crescer - já não tem para erguer a bandeira do bolchevismo nem o exemplo do país dos sovietes. É uma esquerda que se apoia na classe média, uma esquerda indignada. Mas que não apresenta uma alternativa económica ao sistema vigente.

Com o nervosismo que se instalou após as eleições inconclusivas de dezembro passado, a Espanha começa a perder a serenidade. Regressam velhas tensões, cavam-se trincheiras nas mentes, há divisões nas famílias, dispara-se a artilharia das palavras. Porventura, haverá reedições da paixão do libertário Buenaventura Durruti, da empolgante passionária Dolores Ibarruri, do jovem idealista José António Primo de Rivera. Mas, a não ser que a Europa se suicide, que o mundo enlouqueça ou que a economia - sobretudo na sua vertente financeira - destrua o frágil equilibro onde se apoia, não voltará a haver duas Espanhas, e não irá reeditar-se a Guerra Civil.

Porém, começa a desenhar-se o risco de uma outra divisão: passarem a existir não duas, mas várias Espanhas. A atração pela independência das regiões -mais notória na Catalunha e no País Basco - ameaça a unidade de Espanha. Como será o desfecho de uma Espanha partida em três ou quatro é uma incógnita para a qual ninguém tem resposta.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Branca e Leve, Branca e Fria

Há quanto tempo a não via! Chegou no domingo de manhã, e foi através da vidraça do velho Hotel Santos, na Guarda, que eu a vi, esfarrapada e dançante, teimando em agarrar-se ao chão. "Finalmente, parece que chegou o Inverno", desabafa o empregado do Hotel, acrescentando: - "Mas já não é como antigamente quando os grandes nevões cobriam a cidade, em Dezembro e em Janeiro".

Da minha cidade, resta hoje muito pouco que me identifique com ela. Há a familiaridade das ruas, mas as pessoas são-me completamente estranhas. A cidade já está contaminada com o vírus da desertificação que, como uma infeção, vai corroendo os corpos e as almas. Que alastra e ameaça destruir todo o interior beirão. Indústria não existe; a cultura eclipsou-se com o Américo Rodrigues; o comércio ainda resiste, mas está deprimido. Faltam as pessoas, faltam crianças, falta a esperança... E este frio cortante que se entranha pelos ossos, levou-me a evocar uma fria mansarda no Largo dos Correios onde, sem aquecimento e sem qualquer conforto, um jovem, esperançoso, sonhava partir à descoberta do mundo.

O que me levou, desta vez, à Guarda foi esta serôdia cruzada que prego pela educação. Estive na reunião do Conselho Geral do Agrupamento de Escolas de Almeida para dar o meu contributo à única causa que ainda merece esforço: a educação. A única que pode contrariar o lento definhar da terra e das gentes. Mas não é uma tarefa fácil transformar mentalidades, lutar contra a anemia das vontades, contra o conforto das reformas e dos subsídios. É uma luta perdida tentar estimular os mais velhos, olhando resignados o desfiar dos dias à espera de nada.

Na Guarda, acompanho a Paula à missa das dez e um quarto na Igreja de São Vicente. Na assistência, cinco ou seis dezenas de pessoas, de cabelos brancos, a evidenciar a decadência do fervor religioso. No meio da missa, alguns deles, com ar mais debilitado, perfilam-se em direção ao altar para uma insólita cerimónia: a unção dos doentes. Era o primeiro domingo da Quaresma, o domingo das tentações como se lhe referiu o celebrante. A leitura do evangelho, segundo Mateus, contava a ida de Cristo para o deserto onde jejuou durante quarenta dias, e onde no fim desse jejum, faminto, foi tentado por Satanás. - "Se és Deus, transforma estas pedras em pão". Ao que Cristo respondeu, invocando os livros: - "Nem só de pão vive o Homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus!"

Saio da igreja a pensar se aquele homem terá mesmo existido, como terá vivido o tempo entre os doze e os trinta anos - sobre o qual os evangelistas lançaram um manto escuro -, quando se forma a personalidade, se afirmam os ideais e se consolidam as crenças. Não foi esse tempo passado, certamente, na oficina de carpintaria de seu pai. Conhecer a sua vida nesse tempo, ajudaria a compreender o mistério que o rodeia, contribuiria para perceber a génese da filosofia que transformou o Império de Roma e ajudou a formatar o Ocidente! Conhecer como foi a vida de Cristo nos seus verdes anos, talvez nos desse a pista para, no tempo de hoje, nos ajudar a sair do Inverno do nosso descontentamento.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Uma Entrevista Oportuna

É um lugar comum dizer-se que o ensino está mal, que os alunos são desinteressados e indisciplinados. Mas preocupante mesmo, a acreditarmos nas notícias dos jornais, é constatarmos que um terço dos professores das nossas escolas sofre de depressão. O que é preocupante, porque o professor é a alma do ensino. O professor é o agente que transmite conhecimentos, que guia, que observa, que ajuda a libertar as mentes e as leva à descoberta. Sem professores pode haver aprendizagem ; mas, seguramente, não há educação.

Por isso, a entrevista que sobre o tema educação o catalão Josep Menéndez, semanas atrás, concedeu ao Diário de Notícias reveste-se de uma importância crucial para o nosso futuro coletivo. Menéndez diz que o mundo mudou, mas que o modelo educativo que continuamos a utilizar estagnou. Que o ensino é aborrecido e desmotivador. E, acima de tudo, é muito limitativo, pois muitos alunos não encontram na Escola espaço para desenvolver as suas aptidões. Urge, segundo ele, alterar esta situação.

A história que Menéndez nos conta é inspiradora. Encarregado pelos jesuítas de Barcelona de alterar o modelo educativo tradicional da congregação religiosa - com fortes tradições na área do ensino, diga-se -, decidiu deitar mãos à obra. Tarefa que, desde logo, se lhe afigurou ser difícil. Pois alterar o atual estado de coisas leva tempo, e são precisos muitos anos para mudar. Basicamente, o catalão diz -nos que o currículo é excessivo, demasiado grande, que é necessário libertar a criatividade dos alunos, reduzir ao mínimo os conteúdos memorizáveis, para deixar espaço aos alunos para criarem o seu projeto de vida. O modelo que está gradualmente a implementar - em parte apoiado na Teoria das Inteligências Múltiplas de Gardner - baseia-se muito no trabalho interdisciplinar por projetos. Uma parte da aprendizagem é baseada em problemas e uma outra em trabalho colaborativo.

A entrevista publicada pelo DN surge num momento oportuno, é muito importante e leva-nos a acreditar que existem alternativas. Haverá outras, mas vale a pena  refletir nesta experiência. E não é o facto de ter sido uma ordem religiosa a tomar esta iniciativa que lhe retira mérito ou importância. A entrevista vale a pena ser lida, e pode ser acedida neste link.

A educação é o único caminho para a construção do homem novo. Não sabemos como será; nem devemos ficar à espera que um profeta nos venha indicar o caminho para o construir. O homem novo será o fruto da permanente descoberta que tem sido a caminhada da Humanidade. O caminho faz-se caminhando – como intuía o poeta -, e as descobertas surpreendem-nos em cada curva da viagem. O papel da educação é preparar os jovens para fazer a caminhada! Com a sua mente liberta, a sua criatividade, a sua generosidade, eles já são, em parte, o homem novo!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Convicções e Conveniências

Não tivesse havido a sessão de perguntas e respostas e teria sido trivial a prestação de Luís Marques Mendes na sessão que, no passado dia 28 de janeiro, teve lugar no Grémio Literário sobre o tema "Que Portugal queremos ter, que Portugal vamos ser". Marques Mendes é um político profissional, filho de político, que desde muito jovem se iniciou nas lides partidárias, e que conta com uma longa experiência governativa e parlamentar. Ele conhece como poucos os meandros da política e da vida partidária, conhecimentos que utiliza agora como comentador residente num canal televisivo.

 Na sua palestra inicial, não foi além da defesa do politicamente correto. Invocou os fatores que, na sua opinião, vão condicionar o Portugal que queremos ter: a competitividade, que deve assentar no conhecimento, para produzir melhor e para exportar mais; a coesão social, para manter a grande conquista que é o Estado Social; a coesão regional, para não deixar desaparecer o nosso abandonado interior; a sustentabilidade financeira, que é o suporte da saúde de qualquer economia; a política externa - destacando o espaço da lusofonia –,para afirmarmos o pouco que ainda nos resta de soberania; a cultura, que é uma herança e um património de muitos séculos. Terminou, considerando que, para fazer reformas e mudar as coisas, é urgente o compromisso e a convergência entre os portugueses e, sobretudo, entre os grandes partidos.

Mas foi na parte de perguntas e respostas, quando questionado por um deputado presente na sala sobre as reformas no sistema político e partidário, que Luís Marques Mendes soltou as amarras do seu discurso e deu largas à expressão do seu desencanto pelo sistema partidário, pela política e pelos políticos. Apresentou um quadro negro da situação vigente, afirmando que na feitura dos programas partidários não há debate, não há pensamento organizado e estruturado. Chegou mesmo a afirmar que os programas eleitorais são feitos em cima da hora, e que os candidatos a deputados nem sequer os leem antes das campanhas. E que tudo isso faz com que as promessas das campanhas não sejam cumpridas na governação. Em resumo, na opinião do orador, vivemos mergulhados numa crise de credibilidade dos políticos e das instituições. Os partidos - todos os partidos, fez questão de sublinhar - estão cada vez mais divorciados das pessoas e da sociedade. E o facto que será mais grave é o cidadão comum estar, também ele, divorciado da política, dos políticos e dos partidos.

Referiu-se muito criticamente à qualidade dos nossos deputados. Explanando que, na preparação das eleições, "a única coisa que se debate é a colocação das clientelas", e que nas listas entra tudo, o bom e o mau. O parlamento resulta assim desequilibrado, com gente competente ao lado de gente que nunca lá deveria estar, pois ao lado do mérito existe um deficit de competência, de qualidade e de credibilidade. Num sistema eleitoral em que as pessoas votam no partido e no candidato a primeiro ministro, os deputados, porque não respondem individualmente perante quem os elegeu, ficam desresponsabilizados. Felizmente nas eleições autárquicas é diferente, porque aí os eleitores votam em pessoas. E, talvez por isso, só aí os partidos recorrem a independentes para não correrem o risco de perderem votos e eleições.

Para Marques Mendes, não só a vida política se vai degradando, mas também a seriedade e a autenticidade. Só um grande exercício de cidadania pode alterar este estado de coisas. É urgente debater o sistema e, só depois disso, fazer um choque cívico. Tem de haver uma política de compromisso. Defendeu um sistema eleitoral como o alemão, com um círculo nacional e círculos nominais. Todavia, não acredita que a reforma algum dia se faça a partir do interior do sistema, justificando que os chefes partidários, sobretudo a nível local, não vão querer perder o seu poder.

Quando as conveniências superam as convicções - a expressão é do orador - a democracia, acho eu, corre perigo. A indignação aparece, a revolta e a revolução são, muitas vezes, a resposta. Há que procurar o tal compromisso para mudar as coisas, enquanto é tempo e dentro dos mecanismos que a própria Constituição prevê, antes que alguém se lembre de as mudar de uma outra forma qualquer.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O Caderno em Branco


Foi uma vaga reminiscência associada ao nome Bigotte e à Guarda que, no dia 19 de Janeiro, me levou ao Grémio Literário para assistir a uma sessão cultural. Ora, isso aconteceu no dia em que na RTP decorria o último debate presidencial. Acabei por trocar a feira de vaidades e o deserto de ideias por uma interessante conferência sobre literatura e crítica literária. Um velho escritor, Eugénio Lisboa, apresentava a obra de outro velho escritor, João Bigotte Chorão. Para mim, eram ambos praticamente desconhecidos. Porém, o nome Bigotte trazia-me á memória alguma coisa do meu tempo de estudante na Guarda. Como quem expia a culpa de ter andado desatento das pessoas importantes da minha cidade, penitencio-me agora disso, segurando as pontas dos fios a elas alusivos, sempre que passam ao meu alcance. Assim, a modos de quem constrói uma teia, tento agora deslindar esses fios para ver se, mais velho, ainda consigo perceber o que me escapou na meninice.

João Bigotte Chorão, num discurso pausado e cativante, falou do seu gosto pela literatura e pela leitura. Recordou a forma como o seu pai lhe lia, em complemento de outros lidos nas aulas, textos de autores escolhidos. E fez referência a um seu professor do Liceu normal de D. João III, em Coimbra, esclarecendo que se chamavam normais os Liceus onde os professores aprendiam a ser professores. Ao ouvir o nome de Domingos Romão Pechincha, reconheci que ele me era familiar, pois terá sido, no meu tempo, professor de português do Liceu Nacional da Guarda. Então, depois do que ouvi acerca dele, fiquei com pena de não ter sido seu aluno. Na verdade, não guardo muito gratas recordações dos meus mestres do Liceu da Guarda. Algumas excepções foram Carlos Costa, professor de Geografia, que me fez viajar por todos os mares e me fazia sonhar com países longínquos; Artur de Sousa Ramalho, a quem ouvi, pela primeira vez, falar em ecologia; Francisco Pissarra, professor de Filosofia, espécie de irmão mais velho, que nos guiou - a mim e a mais um pequeno grupo -, na aventura de editar o Riacho, um jornal juvenil; e Adriano Vasco Rodrigues, eclético e motivador, naquela altura ainda jovem e irreverente.

João Bigotte Chorão contou no Grémio que o professor Pechincha entregava aos alunos um caderno em branco onde eles poderiam escrever o que quisessem. E confessou, que foi a apreciação que aquele professor fez dos seus escritos nesse caderno, que muito o motivou para continuar a escrever. Esta história mexeu comigo. Porque ando a magicar, desde há uns tempos a esta parte, que se pode aprender mais num caderno em branco do que num livro cheio de fórmulas e esquemas. É que no caderno em branco os alunos tiram de dentro deles alguma coisa. Afinal, na etimologia da palavra, educação significa extrair e não introduzir. Educação vem de ex-ducere, que, traduzido à letra, poderia ter dado extraduzir, o movimento de dentro para fora. Exatamente o oposto de introduzir, o movimento de fora para dentro, que está na base do método que se impôs como paradigma do nosso sistema educativo.

O meu pai nunca me leu livros. Aliás, na nossa casa da Guarda não havia livros. Que me lembre, só tínhamos lá em casa A Velhice do Padre Eterno, do qual eu sabia recitar de cor inúmeros poemas e que o meu pai, anticlerical e do contra, muito se orgulhava de possuir. Mas havia a Biblioteca do Liceu, a Biblioteca Municipal e as Bibliotecas itinerantes da Gulbenkian. Foi nelas que encontrei muitos dos livros que mataram a minha sede de ler e de aprender. Também não tive a sorte de um professor Pechincha me ter posto à frente um caderno em branco, onde poderia ter vertido os poemas e as teorias que inflamavam o meu espírito juvenil. Em contrapartida, e "gracias a la vida, que me ha dado tanto", encontrei nos amigos, na vida profissional e na família um interminável fólio branco, onde fui escrevendo, e quero continuar a escrever, com perseverança e entusiasmo, um hino à alegria de viver...