terça-feira, 12 de abril de 2016

Portugal de Lés a Lés


Motivos que se prendem com o trabalho da Fundação Vox Populi, levaram-me, na última semana, a percorrer Portugal de lés a lés. Na tarde do dia 6 de Abril, estive, com a minha mulher, na Escola secundária de  Vila Real de Santo António numa sessão de formação com professores locais sobre técnicas de realização de sondagens de opinião.  No sábado, dia 9, encerrávamos um périplo de quatro dias com um jantar em Caminha, num agradável convívio com os meninos do Jardim de Infância.  Para trás ficava  a visita a uma  fábrica de burel em Manteigas, a visita à escola infantil do Corgo em Vila Real (Trás os Montes), uma reunião com o diretor da Escola de Caldas das Taipas, uma reunião com a vereadora da juventude da Câmara de Braga e uma sessão de formação, com professores do Nepso, no Centro Educativo da Facha, em Ponte de Lima.
  
Nestas digressões, evoco o Portugal da minha infância, das aldeias remotas, com agricultores, feiras de gado, tabernas, casas de hóspedes  e casas de pasto. Onde se  conduzia pelas antigas estradas "feitas ao quilómetro", serpenteando por montes e vales. O Portugal de hoje é, numa visão de relance, um país de eucaliptos e autoestradas. É, todo ele, um país urbano. As casas das aldeias, equipadas com todos os confortáveis electrodomésticos e com garagem para o automóvel, em nada diferem das casas das cidades. Nos dias de hoje, já nenhum português ganha a vida amanhando a terra com  a força dos braços e com o suor do rosto. As pensões, de restaurante no primeiro andar, transformaram-se em hotéis de charme ou em casas de turismo em que a estadia se reserva no "booking.com".  As pizzarias os Mc´donalds e os fast food  das grandes superfícies - onde se bebe cocacola e refrigerantes - substituíram as velhas tabernas e casas de pasto onde vendia vinho a granel.

Não ousarei dizer que o Portugal e 2016 é um país melhor ou pior que o Portugal de 1960, que evoco atrás. É um país diferente. Mais confortável, mais civilizado e mais culto. Com escolas mais modernas e mais bem equipadas.  Com muito  do património recuperado e com os centros históricos das localidades limpos e embelezados. Com gente mais obesa - em geral, nos restaurantes come-se mal e em demasia-, e gente mais envelhecida. E mais desesperançada. Nota-se  uma grande desordem urbanística nas novas construções, como se fossem colagens de projetos individuais  sem a preocupação da harmonia coletiva. O velho choca com o novo, o rico destoa do pobre, a nobreza convive com a vulgaridade, o bom e o mau gosto, lado a lado. Sente-se que, na sofreguidão do crescimento e da convergência com a Europa, se queimaram etapas. Tudo mudou demasiado depressa.

Desta viagem pelo Portugal integrado na Europa, recordo alguns clichés: em Vila Real de Santo António  a Escola é moderna e arejada, mas o equipamento ficou a meio; as máquinas das oficinas da antiga Escola Industrial foram vendidas a peso e ao desbarato, e os alunos não têm, agora, condições para poder trabalhar com as mãos; talvez por isso, na fábrica de burel em Manteigas dizem-nos que os jovens não gostam do trabalhar com as máquinas; uma mãe, empregada de um hotel no Minho, queixa-se da qualidade da educação que é ministrada à sua filha de 13 anos; em Ponte de Lima, no dia 8 de Abril, às 22 horas - nós, que em Lisboa nunca vamos ao teatro -,  entramos, por acaso, no velho teatro Diogo Bernardes e assistimos com mais outras sessenta pessoas a uma bem cuidada representação da "Cantora Careca" de Eugene Ionescu.

A educação é o caminho.  A este propósito, repesco do facebook da Câmara Municipal de Caminha o seguinte relato que nos enche de  orgulho e alimenta a esperança. O que ali se escreve, só por si, justificou a viagem:
No passado dia 9 de Abril, as crianças do jardim de Infância de Caminha promoveram um jantar-festa do bacalhau. O jantar continha todas as iguarias gastronómicas ligadas ao bacalhau e que muitos desconheciam como as caras de bacalhau, a língua de bacalhau, os samus, o bacalhau de cebolada, entre outras. As crianças orientadas pelas educadoras Manuela e Conceição  estão a concorrer ao projeto “Rato da Biblioteca” da Fundação Vox Populi com o tema “As outras caras do bacalhau”. Através deste estudo pretende-se que as crianças e a comunidade guardem para o futuro a herança, e a história dos homens - “as outras caras do bacalhau” - que durante todo o século XX andaram à pesca do bacalhau. Pretende-se, ainda, recolher depoimentos dos pescadores que partiam para as águas geladas da Terra Nova e da Gronelândia e das mulheres que ficavam com os filhos. 
Como parceiros na construção do conhecimento, estimulando os mais pequenos investigadores de Caminha, além da já referida Fundação Vox Populi, encontra-se a União de Freguesias de Caminha e Vilarelho, a Câmara Municipal de Caminha, o Museu Marítimo, Museu Navio Santo André,  o Agrupamento de Escolas Sidónio Pais, Pescadores Locais e  Encarregados de Educação.  

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O Querer e o Ser


Quem esperava - como foi o meu caso - que o jornalista Ricardo Costa fosse ao Grémio Literário dissertar sobre o tema do ciclo de conferências "Que Portugal queremos ser, que Portugal vamos ter", viu defraudada a sua expectativa. Ricardo Costa, antes diretor do Expresso e agora o novo diretor da Impresa (Grupo Balsemão), é um jornalista com um raro e apurado sentido de análise política. A esta qualidade alia rigor e independência, esta bem demonstrada pela atitude que tomou quando o seu irmão, António Costa, se candidatou a primeiro ministro. No passado dia 29 de março, no Grémio, escolheu falar sobre a atualidade política e sobre os jogos que a condicionam. O essencial da sua palestra já foi resumido pelo jornalista Silas de Oliveira no renovado site do Clube Português de Imprensa que pode ser consultado aqui.

Os jogos políticos - que são jogos de poder - lembram-me os jogos de estratégia, muito particularmente o xadrez, que jogo desde a meninice e me apaixonou na minha juventude. O jogador de xadrez tem de saber lidar com a multiplicidade das peças, de ter presente a abrangência de todo o tabuleiro, de ser capaz de antever as possíveis jogadas do adversário, de ser perspicaz para avaliar com rigor o risco de sacrificar uma peça e dessa forma ganhar uma vantagem posicional. Além disso, tem de ser psicólogo para não denunciar fraquezas, perseverante para explorar debilidades, ousado para surpreender o adversário com jogadas insólitas ou imprevistas e calculista para saber utilizar o tempo a seu favor.

Os jogos políticos exigem muitas qualidades presentes no xadrez, mas, ao contrário deste, não são jogos de soma zero como aqueles onde uns ganham aquilo que outros perdem. Na política, o contexto e até as regras do jogo mudam continuamente. O tempo, a economia, a conjuntura internacional, e não só, podem alterar as coisas e reduzir ou aumentar o prémio que está em jogo. No final, todos podem ser ganhadores ou perdedores. Os jogos políticos não são um passatempo ou um entretenimento entre jogadores, eles dizem-nos respeito e condicionam o nosso futuro coletivo. Por isso, deveriam sujeitar-se a certas regras - mesmo que se ficassem no plano da ética –, que tivessem como objetivo elevar o valor do prémio e não apenas a sua disputa. Mas, tal só é possível com um compromisso assumido por todos os intervenientes. O "Portugal que queremos ser" é, ou deveria ser, o compromisso consensual entre os jogadores que mais não são do que os políticos que governam os partidos ou nos governam a nós.

No quadro do nosso sistema político-partidário, como compromisso mínimo, existem duas premissas que são aceites - será que são? - por todos: a integração na Comunidade Europeia e a aceitação das regras da economia de mercado. Daqui decorre, implicitamente, a obrigatoriedade de pagar as dívidas que se contraem e o respeito pelos tratados assinados. A aceitação da economia de mercado pressupõe a adesão ao princípio sagrado de que é imperativo fazer crescer a riqueza produzida. E, deste principio, quer se queira quer não, deriva, por sua vez, o primado da economia sobre a política. Existe, é claro, a questão da soberania que ninguém põe em causa. Todavia, um país soberano não pode depender de credores, nem pode mendigar o perdão ou a renegociação da divida. Contudo, tem de ter uma estratégia para a economia e para a sua competitividade, para garantir sustentabilidade financeira, indispensável à defesa do Estado Social, à manutenção da coesão regional – de molde a não deixar desaparecer o nosso abandonado interior – à divulgação da cultura, uma herança e um património de muitos séculos. Na política externa deve merecer destaque o espaço reservado à lusofonia. Além disso, a soberania tem de compaginar-se com os direitos que a Constituição garante aos seus cidadãos, nomeadamente, em áreas tão sensíveis como a educação e a proteção na infância, na doença, na incapacitação e na velhice.

Saí do Grémio Literário interrogando-me sobre se algum político se preocupa verdadeiramente com o Portugal que queremos ser. Veio-me à memória um outro palestrante que recentemente, ali no Grémio, afirmou que muitos políticos trocam as convicções pelas conveniências. E convenço-me de que o tema da conferência esteve ausente do discurso de Ricardo Costa pela simples razão de que "o Portugal que queremos ser" não está presente no tabuleiro de jogo dos nossos políticos. E, como bom jornalista que é, ele não tem de falar sobre o que não acontece; afinal, isso não é notícia. Nesta ordem de ideias, e para nosso descontentamento, "o Portugal que vamos ter" vai continuar a ser mais do mesmo.

segunda-feira, 21 de março de 2016

A Hiperglobalização

Na classificação tradicional, as atividades económicas repartem-se por três sectores: o primário, que inclui a agricultura, a silvicultura, a pecuária, a pesca e a exploração mineira; o secundário, que inclui as indústrias transformadoras, a construção e a produção de energia; o terciário, que integra o comércio e os serviços. No início do século XX, o sector terciário era incipiente. O aumento gradual da sua importância foi uma consequência das transformações na economia e na sociedade ocorridas durante a era do carbono. Aliás, o caso português é um bom exemplo disso: segundo dados do INE (Estatísticas do Emprego), em 1974, 35% da população ativa trabalhava no sector primário, percentagem que em 2012 tinha baixado para 10%; no mesmo período, a população ativa no sector secundário passou de 34% para 26%; enquanto, em contrapartida, o sector terciário que ocupava 31% da população ativa em 1974, empregava já, em 2012, 64% dessa mesma população.

Caraterizada pela adoção da comunicação interativa possibilitada pela internet, a revolução que está em curso - a quarta na história da civilização, depois da linguagem, da escrita e da imprensa – representa um novo salto em frente da humanidade. Com ela, está a nascer a economia hiperglobal. A estrutura da população ativa, as relações de trabalho, e até a forma de viver, estão a mudar. A mobilidade e as telecomunicações estão a provocar a uniformização dos gostos e dos consumos, não só de bens físicos como culturais. Generaliza-se a adesão ao comércio on-line e aparecem novas formas de vender e de fazer publicidade. Emergem novos produtos e serviços relacionados com a nova forma de comunicar - quer de hardware quer de software. A informação flui massiva e livremente na rede, e até a inteligência, materializada numa vasta panóplia de aplicações informáticas, passou a ser um produto comercial. Afirmam-se poderosas empresas de um novo tipo – a Microsoft, a Google, a Apple, o Facebook, ... . Está a mudar o modo como as pessoas se relacionam e se informam. As redes sociais, e o livre acesso à informação e ao entretenimento, estão a provocar forte impacto nos meios de comunicação tradicionais. Lêem-se menos livros e menos jornais. Ouve-se menos rádio; vê-se menos televisão. Na atualidade, estou em crer que a maior parte do nosso tempo de vigília já é passado em interação com ferramentas digitais.

Na nova economia, aos poucos, começa a definir-se e a ganhar peso um novo sector de atividade que poderemos designar de quaternário ou de quarto sector. O automatismo e a robotização estão a chegar aos serviços. Os transportes dispensam cobradores, revisores e até condutores. Os serviços financeiros, o comércio, o turismo, a hotelaria, estão a libertar mão de obra. A era digital está a eliminar muitas das antigas funções das indústrias gráficas e das comunicações. Enfrentamos este paradoxo: a população mundial aumenta, mas o emprego diminui, pois as necessidades de pessoas para trabalhar são agora menores. Será que o quarto sector vai absorver os excedentes de mão de obra provocados pelas transformações em curso?

Com a hiperglobalização, na minha opinião, a sociedade enfrentará novos e graves problemas. Não se criarão empregos suficientes para compensar os que se destroem. Estamos a afundar-nos na perigosa e arriscada dependência da crescente complexidade. A hiperglobalização irá acentuar ainda mais as dissonâncias entre a natureza e a economia. Os recursos continuarão a consumir-se de forma irracional, o planeta continuará a aquecer, as abelhas continuarão a morrer, a biodiversidade continuará a reduzir-se. Estamos já a manipular os genes dos seres vivos e a interferir com a própria identidade das espécies.

A nova economia herdou da velha o seu carácter mercantilista. Não resolverá problemas sociais e não promoverá igualdades. Alguns ricos ficarão mais ricos; muitos pobres ficarão ainda mais pobres. O desemprego crescente alimentará uma onda imparável de indignação e revolta. Os políticos e os economistas, obcecados apenas com o crescimento, só acordarão quando a casa comum estiver a arder.

segunda-feira, 14 de março de 2016

A Quarta Revolução

Se uma máquina do tempo nos transportasse ao início da glaciação de Wurm, que ocorreu há cerca de 35.000 anos na Europa, encontraríamos, no território que é hoje Portugal, dois tipos de homens: o homem de neanderthal e o homem de cro-magnon. Estas subespécies do homo sapiens eram diferentes. Na aparência física, no modo de vida, nas armas e utensílios que utilizavam e até nas suas habilidades para caçar. Não se sabe ao certo como se relacionavam nem se chegaram a acasalar. Mas sabe-se que lutaram entre si na disputa pelos melhores territórios e pelos melhores abrigos. Do confronto entre eles, havia de emergir, como vencedor, o homem de cro-magnon, o nosso direto antepassado.

Não terão sido nem a força física nem o tamanho do cérebro os fatores que determinaram o ascendente do homem de cro-magnon (homo sapiens, sapiens) sobre o homem de neanderthal (homo sapiens, neanderthalensis). Na opinião de Jared Diamond, expressa no livro "O Terceiro Chimpanzé", o fator decisivo foi um pensamento mais inovador, e, sobretudo, a linguagem. A linguagem permitiu ao homem de cro-magnon exprimir-se, partilhar conhecimentos, experiências e emoções; ordenar, comandar, enfim, relacionar-se socialmente. E, deste modo, cooperar e trabalhar em equipa. Com a linguagem deu-se o primeiro grande salto em frente; iniciou-se a empolgante caminhada da Humanidade.

A escrita, que terá surgido em mais do que um lugar há cinco ou seis mil anos, foi o segundo grande salto. A escrita permitiu criar registos e fixar conhecimentos. Sem escrita, não teria havido Bíblia nem Corão, e nada saberíamos hoje do luminoso pensamento dos filósofos gregos, nem do rigor dos códices romanos. É difícil imaginar a história sem a escrita. Ora, em boa verdade, sem escrita não teria havido história.

O terceiro grande salto ocorreu no final do século XV com o aparecimento da imprensa. Então, criaram-se condições para difusão da ciência e da informação, até essa altura, guardadas em manuscritos, gravados em papiro ou pergaminho, nas bibliotecas conventuais. A circulação dos livros e dos folhetos fez nascer a literatura - no sentido com que hoje a entendemos - , criou a opinião pública e abriu as mentes ao livre pensamento. A Reforma resultou da difusão das objeções aos dogmas do catolicismo. A Renascença surge da possibilidade de revisitar e difundir a literatura, a filosofia e o pensamento clássico. O grande desenvolvimento da ciência, o iluminismo, os enciclopedistas são outras consequências da nova forma de comunicar proporcionada pela imprensa...

Agora estamos a viver o tempo do quarto grande salto em frente. Refiro-me à internet, que nas duas últimas décadas se impôs como forma de comunicar. Trata-se de uma nova etapa na linha da evolução, precedida que foi pela linguagem, pela escrita e pela imprensa. Estes saltos estão associados a um aumento da complexidade. A linguagem resultou de uma mera evolução anatómica. Com a escrita, à nova capacidade associaram-se algumas ferramentas: o estilete, a argila mole, a tinta e o papiro. A imprensa precisou de uma tecnologia mais elaborada: a fusão dos caracteres, a mesa de composição, a tipografia, para já não falar da fabricação do papel. A internet  exige uma complexa base tecnológica e energética. Falo da computação (o software) e dos suportes de escrita, visualização e arquivo de dados (o hardware), sem esquecer a base de tudo que são a rede elétrica que fornece a energia e a rede de comunicações que transporta os sinais digitais. Com a internet, a espécie humana entrou num caminho evolutivo irreversível. Um caminho que não admite retorno, pois a natureza não aceita a desevolução. E um apagão digital interferiria seriamente nas nossas vidas. A acontecer seria o caos nas transações financeiras, na cobrança de impostos, nos pagamentos, nas comunicações, na logística das redes de abastecimentos, na saúde, na educação, na justiça, etc.

Estamos no limiar de uma nova era, e ainda mal nos apercebemos das transformações que ela irá trazer. Entre cada novo grande salto o tempo que os separou encurtou-se de forma drástica: trinta mil anos mediaram entre a linguagem e a escrita, cinco mil entre a escrita e a imprensa, quinhentos entre a imprensa e a internet. A manter-se esta progressão decrescente, podemos deduzir que estaremos a uns meros cinquenta anos do quinto grande salto. Porém, não vale a pena arriscar previsões sobre a sua natureza, mas é seguro que ele trará mais complexidade - e também riscos acrescidos! - à organização da sociedade.

Cada vez estamos mais distanciados do homem de cro-magnon que há 35.000 anos deu o primeiro grande salto e se impôs ao homem de neanderthal. Às vezes, interrogo-me sobre o que mudou verdadeiramente na nossa natureza, e se não terá chegado o tempo de começarmos a contabilizar tudo o que ganhámos e tudo o que perdemos ao longo destes anos.

segunda-feira, 7 de março de 2016

À Espera do Refluxo

No passado dia 2 de março, um dia depois de ter sido acusado de práticas fraudulentas em transações de terrenos, Aubrey McClendon, o célebre multimilionário fundador da Chesapeake Energy, a maior empresa de fracking americana (extração de gás e petróleo de xisto), morreu com 56 anos, num acidente de automóvel em Oklahoma. Ao que tudo indica, lançou, a grande velocidade, o seu automóvel contra um muro de betão, num aparente ato de suicídio.

A Chesapeake, a empresa que McClendon fundou e dirigiu durante vários anos, enfrenta graves problemas financeiros, ameaçando não poder cumprir os seus compromissos de dívida. Nos últimos dias, as ações da empresa, que há apenas um ano e meio cotavam a mais de 35 dólares, atingiram mínimos de 1,5 dólares. Este é o panorama generalizado do sector do fracking cuja produção, ao contrário do que se esperava, já se encontra em queda. Para muitos analistas, poderemos estar perante o princípio do fim do sonho americano de o país se tornar a curto prazo independente como produtor de energia fóssil. Sonho alimentado por uma enorme máquina de propaganda que captou poupanças de pequenos investidores, e que agora as vêem em risco de se perderem.

O que se passa nos Estados Unidos é uma consequência da crise resultante da queda do preço que afeta os países e as empresas produtores de petróleo. Entretanto, começam a emergir outras situações preocupantes e que podem ter um grande impacto no futuro. Na Venezuela, a petrolífera estatal, PDVSA, estará também em situação de falência técnica e com dificuldades em importar o petróleo leve que as refinarias precisam para misturar com o petróleo pesado local. A mexicana Pemex confronta-se com elevados prejuízos e problemas de liquidez, em parte derivados de uma significativa redução da produção que passou, nos últimos 10 anos, de 3, 2 milhões de barris/dia para 2,2 milhões de barris/dia. Em África, são os três maiores produtores (Argélia, Angola e Nigéria) que enfrentam problemas. Para já não falar da situação no Iraque, onde não tem sido possível atingir os níveis de produção que justificaram a guerra de George W. Bush, e se esperavam após a queda de Saddam Hussein. As grandes empresas petrolíferas (BP, Shell e Exxon) apresentam problema de rentabilidade, fazem despedimentos e cortam nos investimentos. Em 2015, os investimentos na prospeção de novas jazidas terão sido reduzidos em 15% e essa redução vai continuar a verificar-se pelo segundo ano consecutivo em 2016, o que é uma situação inédita no sector, e que terá, a breve prazo, consequências na produção.

Para muita gente não são percetíveis as razões que levaram a este estado de coisas. E não compreendem como foi possível a baixa do preço da matéria-prima, um facto que, pelos vistos, ameaça a curto prazo estrangular a produção. Porém, mais do que o excesso de oferta ou a redução da procura, haverá interesses geoestratégicos ligados aos conflitos no Médio Oriente e à intenção de apertar um garrote à economia russa. Interesses que parecem ser a verdadeira causa da baixa do preço do crude. Aliás, à semelhança do que já tinha acontecido nos anos do colapso da União Soviética.

O sector energético - e o sector petrolífero em particular - é o mais sensível na economia mundial. A queda dos preços a que assistimos pode ser apenas o recuo da maré que precede o tsunami - traduzido numa nova escalada de preços do barril de petróleo - que pode abater-se sobre a economia global. No longo prazo, a Humanidade, para prosperar, tem de contar com as energias alternativas onde predominam a eólica e a solar. A energia de origem fóssil é finita e um dia iniciará a sua queda inexorável. Conseguir criar as condições necessárias para se fazer a sua substituição sem sobressaltos é o maior desafio que se coloca aos vindouros.


segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O Oráculo do Índios

Quando os índios da tribo, querendo saber a quantidade de lenha que deveriam arranjar, vieram perguntar ao Grande Chefe quão rigoroso seria o próximo inverno, este, depois de invocar o espírito dos antepassados, decidiu contactar os serviços oficiais de previsão do tempo que o informaram antever-se um inverno normal. Ora, o Grande Chefe, usando das cautelas dos líderes sensatos, que aconselham valer mais prevenir do que remediar, reuniu a tribo e comunicou-lhes: "Bravos, preparem-se para um inverno ligeiramente mais frio do que o costume". Poucas luas eram ainda passadas, quando o bem avisado Chefe, achando por bem ajustar as suas recomendações, voltou a contactar os serviços de previsão do tempo. Então obteve a seguinte resposta: "Continuamos a prever um inverno normal, mas, agora acreditamos que vai ser mais frio, porque os índios estão a armazenar mais lenha do que o habitual".

Esta história deliciosa, que ilustra o risco do pensamento circular ao fazermos previsões, contou-a Emílio Rui Vilar no passado dia 23 de fevereiro, no Grémio Literário em Lisboa, a abrir a sua palestra sobre o tema "Que Portugal queremos ser, que Portugal vamos ter". Rui Vilar falou na primeira pessoa para, com base nas suas recordações pessoais, ilustrar a trajetória do Portugal desde o pós guerra até aos nossos dias. A partir de abril de 74, a Europa esteve no centro da nossa caminhada. Deu-nos uma nova esperança, uma nova moeda, reacendeu a chama da nossa criatividade - aludiu à década maravilhosa que abriu com a Europália, passou pelas capitais da cultura em Lisboa e Porto, pela feira de Frankfurt e pela Expo 98 –, em suma, permitiu o reencontro connosco próprios. Portugal abriu-se ao mundo - reconciliou-se com a Espanha e com os países da Comunidade de Língua Portuguesa -, cresceu economicamente, modernizou-se e aproximou-se da Europa.

Contudo, nem tudo foram rosas. A Europa mudou muito. A reunificação da Alemanha, o alargamento a leste e a nova arquitetura da União- ironicamente saída da cimeira de Lisboa, e de uma presidência portuguesa - remeteu-nos, outra vez, à nossa insignificância. A culminar tudo isso, a crise do subprime, as hesitações iniciais entre medidas expansivas e restritivas e, finalmente, a adopção da doutrina alemã a penalizar a dívida que nos trouxe a austeridade. Mas, até na adversidade, Portugal revelou dignidade: exportou mais produtos e tecnologia, formou quadros, melhorou a agricultura. Quando acabou o protetorado do resgate estávamos com mais dívida, com mais desemprego e tinham vindo ao de cima as más práticas de algumas empresas, aqui numa clara alusão ao BES e à PT. Ficou-nos a certeza de que Portugal, sozinho, nunca conseguirá superar o bloqueio da dívida.

A Europa e o Mundo enfrentam hoje o dilema do abrandamento - ou até do desaparecimento - do crescimento. Este dilema esvazia a retórica dos partidos do centro, socialistas e sociais democratas, antes centrada na redistribuição dos excedentes da riqueza criada e agora sem possibilidades de o fazer. E inviabilizou a via proposta pelas ideias neoliberais - de Reagan e de Thatcher - assentes no sucesso individual. Por isso, os partidos socialistas migram para os extremos (para a direita em França, para a esquerda na GB) ou esvaziam-se, como foi o caso do Pasok na Grécia.

O quadro politico português – “um caso único”, sublinhou, saído das ultimas eleições - vai enfrentar o dilema da coexistência da politica social com as exigências inflexíveis da Europa dos mercados. A agravar tudo isto, existem na União outros problemas que são hoje prioritários: o crescente fluxo dos migrantes, a contenção da Rússia, a ameaça do abandono da Grã Bretanha. Tudo se resume a uma grande questão: até que ponto será possível conciliar as preocupações do PCP e do BE com os imperativos dos mercados? Neste quadro o PS, um partido em stress, dificilmente poderá desempenhar o papel de árbitro, pois precisa de tempo para manter as negociações.

Rui Vilar terminou a sua intervenção defendendo a solução federativa como a única saída lógica para a Europa e para Portugal. Ora isto implica a criação de um orçamento europeu, mecanismos de mutualização da dívida, com um banco central com poderes semelhantes aos da FED ou do Banco de Inglaterra, e que não se limite a estar preocupado com a inflação. Deixou uma mensagem: aproxima-se um tempo de grande exigência no qual precisamos acreditar em que será possível superar as dificuldades. É um imperativo ético conseguir fazê-lo, perante nós próprios e perante as gerações futuras. Terminou, aconselhando prudência e rigor: "No fundo, é começarmos a guardar mais lenha para os invernos que estão para vir."

Entretanto, imagino eu, os grandes chefes de Bruxelas andarão baralhados com as previsões de severidade dos próximos tempos. É que os índios da Praia Ocidental, não só não estão a guardar mais lenha para os invernos que estão para vir, como estão a gastar a pouca que lhes sobrou do rigoroso inverno passado.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

As Duas Espanhas

Oitenta anos passados sobre as eleições, que em 16 de fevereiro de 1936 deram, por uma escassa margem, a vitória à Frente Popular, paira de novo sobre o país vizinho o fantasma das duas Espanhas, que se confrontaram durante os sangrentos anos da Guerra Civil. Há oitenta anos, enfrentavam-se, de um lado, a Espanha católica, ordeira, latifundiária, hierarquizada e monárquica, e do outro, a Espanha republicana, laica, operária, anarquista, sindicalista que via na revolução bolchevista de outubro o modelo para a criação do homem novo e que fez dela a sua bandeira...

Não tendo participado no conflito da Primeira Guerra Mundial, que libertou tensões e redesenhou o mapa da Europa, a Espanha do início dos anos 30 refletia tardiamente as transformações e as contradições resultantes da revolução industrial e do surgimento de uma forte classe operária. Criou-se um amplo movimento sindical com ideais libertários, antipatronais, antireligiosos e antimonárquicos. A experiência de um país governado pelo poder operário, que se desenvolvia na Rússia soviética, era seguida com particular atenção. Em 1931, o rei Alfonso XIII, sem abdicar formalmente, exilou-se na sequência de uma derrota eleitoral regional. Implantou-se a República e promulgou-se uma nova constituição. Surgiu um governo republicano e de esquerda, a Espanha dividiu-se. Sobre o País começaram a pairar as nuvens da agitação social.

Na sequência da vitória eleitoral da Frente Popular, em Fevereiro de 1936, constituiu-se um Governo de coligação liderado por Largo Caballero, extremaram-se posições, instalou-se o revanchismo, atacou-se a Igreja Católica, ocuparam-se terras, mataram-se pessoas, cometeram-se muitos excessos. Em julho desse ano, um levantamento militar separou a Espanha em duas. Seguiram-se três anos de uma guerra sangrenta, que seria o prelúdio da II Guerra Mundial. Alinhamentos externos apoiaram estas duas Espanhas, testaram-se armas, lutou-se com bravura e heroísmo. As brigadas internacionais, que se formaram com voluntários idealistas vindos de todo o mundo para apoiar a causa republicana, ajudaram a criar o mito da última guerra romântica.

A situação da Espanha de hoje não é comparável à situação que se vivia em 1936. A Espanha já não é um país predominantemente agrícola. Está integrada na Europa, tem uma economia moderna que assenta nos serviços, com destaque para o turismo. E a religião já não é o que era. A esquerda da Espanha de hoje - embora cada vez mais expressiva e a crescer - já não tem para erguer a bandeira do bolchevismo nem o exemplo do país dos sovietes. É uma esquerda que se apoia na classe média, uma esquerda indignada. Mas que não apresenta uma alternativa económica ao sistema vigente.

Com o nervosismo que se instalou após as eleições inconclusivas de dezembro passado, a Espanha começa a perder a serenidade. Regressam velhas tensões, cavam-se trincheiras nas mentes, há divisões nas famílias, dispara-se a artilharia das palavras. Porventura, haverá reedições da paixão do libertário Buenaventura Durruti, da empolgante passionária Dolores Ibarruri, do jovem idealista José António Primo de Rivera. Mas, a não ser que a Europa se suicide, que o mundo enlouqueça ou que a economia - sobretudo na sua vertente financeira - destrua o frágil equilibro onde se apoia, não voltará a haver duas Espanhas, e não irá reeditar-se a Guerra Civil.

Porém, começa a desenhar-se o risco de uma outra divisão: passarem a existir não duas, mas várias Espanhas. A atração pela independência das regiões -mais notória na Catalunha e no País Basco - ameaça a unidade de Espanha. Como será o desfecho de uma Espanha partida em três ou quatro é uma incógnita para a qual ninguém tem resposta.