segunda-feira, 28 de março de 2016

Gerir o Tempo

Nas gerações que nos precederam - mesmo nas que estão mais próximas de nós: as dos nossos pais e avós -, a forma das pessoas passarem o tempo era muito diferente da nossa. O homem do paleolítico, praticamente, passava todo o seu tempo de vigília a recolher alimentos e a caçar. Na Idade Média, uma boa parte do tempo era dedicado ao trabalho na terra e à religião. Na era industrial, o trabalho na fábrica passou a ocupar muito do tempo antes usado na agricultura. Na sociedade de excedentes, possibilitados pela era do carbono, ganha importância o chamado tempo livre. Ou seja, a convivência social, a televisão, a cultura, o desporto, a internet, as viagens e o shopping preenchem a maior parte do nosso tempo de lazer diário.

Há uns anos atrás, os anunciantes faziam estudos visando conhecer a forma como as pessoas repartiam o seu tempo pelos diversos meios: imprensa, rádio e televisão. A intenção era alocar os investimentos publicitários naquela mesma proporção. Em França, onde estes estudos estiveram muito em voga, chamavam-se os études budjet temps. Em Portugal não tenho conhecimento de que essas pesquisas alguma vez se tenham realizado. Por isso, como gosto de números, decidi fazer um exercício empírico e aproximativo: estimar, com base em alguns dados existentes e muito senso comum, como se distribui a ocupação das 168 horas (24x7) semanais de um português médio ativo, adulto e urbano. O resultado a que cheguei - aceito, com agrado, sugestões de alteração! - para esse balanço de tempo foi o seguinte:
    horas       %
Tempo de repouso5633,3
Tempo de trabalho47,528,3
Tempo digital 3017,9
Tempo social11,56,8
Tempo familiar 2011,9
Tempo íntimo31,8
Tempo interior e espiritual00,0
Total 168100,0
Notas: Tempo de repouso: São 8 horas por dia, 56 horas por semana; tempo de trabalho: inclui 35 horas de trabalho semanal, deslocações e refeições no trabalho; tempo digital inclui o tempo dedicado a ver televisão, a ouvir rádio, falar ao telemóvel, dedicado ao computador e à internet (incluindo o que é passado nas redes sociais); tempo social inclui refeições fora do trabalho, idas a espetáculos, cultura, leitura, tempo passado com amigos fora de casa; tempo familiar inclui refeições fora do trabalho (tomadas em casa) e o tempo passado em casa com a família e amigos; tempo íntimo refere-se ao tempo dedicado à higiene pessoal e necessidades fisiológicas; tempo interior refere-se ao tempo de reflexão interior e ao tempo espiritual e religioso.

Feito o exercício, e distribuído o tempo pelas diferentes formas de o ocupar, constatei que não me sobravam horas para atribuir à última parcela, o tempo interior e espiritual. Haverá, com certeza, pessoas que dedicam muitas horas a esta ocupação; no entanto, a estatística vive de médias e, neste caso, a média estará muito próxima de zero. Ao invés, atente-se na importância atribuída ao tempo digital (18% do total, 27% do tempo de vigília!), uma utilização recente, e que se prevê venha a aumentar muito no futuro.

Sendo o tempo a matéria prima de que é feita a vida, é surpreendente o pouco cuidado que colocamos na sua utilização. Parece que o desperdiçamos, às vezes, até voluntariamente e com prazer, pois não nos detemos a orçamentar e a planear a forma como o despendemos. Veja-se, por exemplo, o tempo passado a ver televisão - 22 horas por semana, quase 20% do nosso tempo de vigília. Esse tempo, que se traduz afinal na atenção dedicada ao pequeno ecrã, é, por sua vez, disputado pelas emissoras que o utilizam em proveito próprio, vendendo-o aos anunciantes ou valorizando-o para dar protagonismo a políticos, homens de negócios, artistas, figuras públicas etc. E o que se diz em relação à televisão pode estender-se a certo tipo de literatura e de imprensa.

A economia global, a política e a comunicação social reclamam o nosso tempo. A nós cabe-nos cuidar de o gerir, de o não desbaratar levianamente e de não deixar que outros se apropriem dele. Embora os minutos sejam todos iguais, a forma como os utilizamos pode ser diferente. Na nossa vida alguns minutos valem mais do que outros, pois só alguns são verdadeiramente nossos. O tempo interior, aquele em que nós nos confrontamos connosco próprios, é o nosso tempo mais precioso. Sem tempo interior e espiritual, o homem deixa de ser dono e senhor do seu destino. É como um barco que voga ao sabor das correntes e dos ventos. Não traça o seu rumo; deixa-se ir para onde o levam.

A globalização, a tecnologia, a forma de comunicar e consumir informação, estão a roubar o tempo interior do homem. Os que nos fornecem informação e nos viciam no seu consumo acabam por processá-la e digeri-la por nós e para nós. E ao compelirem-nos a consumir sempre mais e mais, acabam, desta forma, por criar um círculo vicioso e uma perigosa adição. Por isso, acredito que muitas das depressões do nosso tempo são provocadas pela sofreguidão no consumo do tempo e pela má gestão na sua utilização.

A forma como um povo gasta o seu tempo mostra o seu estado de saúde como sociedade, e é revelador do que podemos esperar quanto ao seu futuro. Muitos dos nossos hábitos de vida estão dependentes de redes muito frágeis cuja sustentabilidade está ameaçada. Ora isso ilustra a pouca resiliência desses hábitos e as contingências que o futuro nos pode revelar. A boa gestão do tempo terá de ser uma forte e permanente preocupação daqueles que acreditam e querem empenhar-se na caminhada para um mundo novo.

segunda-feira, 21 de março de 2016

A Hiperglobalização

Na classificação tradicional, as atividades económicas repartem-se por três sectores: o primário, que inclui a agricultura, a silvicultura, a pecuária, a pesca e a exploração mineira; o secundário, que inclui as indústrias transformadoras, a construção e a produção de energia; o terciário, que integra o comércio e os serviços. No início do século XX, o sector terciário era incipiente. O aumento gradual da sua importância foi uma consequência das transformações na economia e na sociedade ocorridas durante a era do carbono. Aliás, o caso português é um bom exemplo disso: segundo dados do INE (Estatísticas do Emprego), em 1974, 35% da população ativa trabalhava no sector primário, percentagem que em 2012 tinha baixado para 10%; no mesmo período, a população ativa no sector secundário passou de 34% para 26%; enquanto, em contrapartida, o sector terciário que ocupava 31% da população ativa em 1974, empregava já, em 2012, 64% dessa mesma população.

Caraterizada pela adoção da comunicação interativa possibilitada pela internet, a revolução que está em curso - a quarta na história da civilização, depois da linguagem, da escrita e da imprensa – representa um novo salto em frente da humanidade. Com ela, está a nascer a economia hiperglobal. A estrutura da população ativa, as relações de trabalho, e até a forma de viver, estão a mudar. A mobilidade e as telecomunicações estão a provocar a uniformização dos gostos e dos consumos, não só de bens físicos como culturais. Generaliza-se a adesão ao comércio on-line e aparecem novas formas de vender e de fazer publicidade. Emergem novos produtos e serviços relacionados com a nova forma de comunicar - quer de hardware quer de software. A informação flui massiva e livremente na rede, e até a inteligência, materializada numa vasta panóplia de aplicações informáticas, passou a ser um produto comercial. Afirmam-se poderosas empresas de um novo tipo – a Microsoft, a Google, a Apple, o Facebook, ... . Está a mudar o modo como as pessoas se relacionam e se informam. As redes sociais, e o livre acesso à informação e ao entretenimento, estão a provocar forte impacto nos meios de comunicação tradicionais. Lêem-se menos livros e menos jornais. Ouve-se menos rádio; vê-se menos televisão. Na atualidade, estou em crer que a maior parte do nosso tempo de vigília já é passado em interação com ferramentas digitais.

Na nova economia, aos poucos, começa a definir-se e a ganhar peso um novo sector de atividade que poderemos designar de quaternário ou de quarto sector. O automatismo e a robotização estão a chegar aos serviços. Os transportes dispensam cobradores, revisores e até condutores. Os serviços financeiros, o comércio, o turismo, a hotelaria, estão a libertar mão de obra. A era digital está a eliminar muitas das antigas funções das indústrias gráficas e das comunicações. Enfrentamos este paradoxo: a população mundial aumenta, mas o emprego diminui, pois as necessidades de pessoas para trabalhar são agora menores. Será que o quarto sector vai absorver os excedentes de mão de obra provocados pelas transformações em curso?

Com a hiperglobalização, na minha opinião, a sociedade enfrentará novos e graves problemas. Não se criarão empregos suficientes para compensar os que se destroem. Estamos a afundar-nos na perigosa e arriscada dependência da crescente complexidade. A hiperglobalização irá acentuar ainda mais as dissonâncias entre a natureza e a economia. Os recursos continuarão a consumir-se de forma irracional, o planeta continuará a aquecer, as abelhas continuarão a morrer, a biodiversidade continuará a reduzir-se. Estamos já a manipular os genes dos seres vivos e a interferir com a própria identidade das espécies.

A nova economia herdou da velha o seu carácter mercantilista. Não resolverá problemas sociais e não promoverá igualdades. Alguns ricos ficarão mais ricos; muitos pobres ficarão ainda mais pobres. O desemprego crescente alimentará uma onda imparável de indignação e revolta. Os políticos e os economistas, obcecados apenas com o crescimento, só acordarão quando a casa comum estiver a arder.

segunda-feira, 14 de março de 2016

A Quarta Revolução

Se uma máquina do tempo nos transportasse ao início da glaciação de Wurm, que ocorreu há cerca de 35.000 anos na Europa, encontraríamos, no território que é hoje Portugal, dois tipos de homens: o homem de neanderthal e o homem de cro-magnon. Estas subespécies do homo sapiens eram diferentes. Na aparência física, no modo de vida, nas armas e utensílios que utilizavam e até nas suas habilidades para caçar. Não se sabe ao certo como se relacionavam nem se chegaram a acasalar. Mas sabe-se que lutaram entre si na disputa pelos melhores territórios e pelos melhores abrigos. Do confronto entre eles, havia de emergir, como vencedor, o homem de cro-magnon, o nosso direto antepassado.

Não terão sido nem a força física nem o tamanho do cérebro os fatores que determinaram o ascendente do homem de cro-magnon (homo sapiens, sapiens) sobre o homem de neanderthal (homo sapiens, neanderthalensis). Na opinião de Jared Diamond, expressa no livro "O Terceiro Chimpanzé", o fator decisivo foi um pensamento mais inovador, e, sobretudo, a linguagem. A linguagem permitiu ao homem de cro-magnon exprimir-se, partilhar conhecimentos, experiências e emoções; ordenar, comandar, enfim, relacionar-se socialmente. E, deste modo, cooperar e trabalhar em equipa. Com a linguagem deu-se o primeiro grande salto em frente; iniciou-se a empolgante caminhada da Humanidade.

A escrita, que terá surgido em mais do que um lugar há cinco ou seis mil anos, foi o segundo grande salto. A escrita permitiu criar registos e fixar conhecimentos. Sem escrita, não teria havido Bíblia nem Corão, e nada saberíamos hoje do luminoso pensamento dos filósofos gregos, nem do rigor dos códices romanos. É difícil imaginar a história sem a escrita. Ora, em boa verdade, sem escrita não teria havido história.

O terceiro grande salto ocorreu no final do século XV com o aparecimento da imprensa. Então, criaram-se condições para difusão da ciência e da informação, até essa altura, guardadas em manuscritos, gravados em papiro ou pergaminho, nas bibliotecas conventuais. A circulação dos livros e dos folhetos fez nascer a literatura - no sentido com que hoje a entendemos - , criou a opinião pública e abriu as mentes ao livre pensamento. A Reforma resultou da difusão das objeções aos dogmas do catolicismo. A Renascença surge da possibilidade de revisitar e difundir a literatura, a filosofia e o pensamento clássico. O grande desenvolvimento da ciência, o iluminismo, os enciclopedistas são outras consequências da nova forma de comunicar proporcionada pela imprensa...

Agora estamos a viver o tempo do quarto grande salto em frente. Refiro-me à internet, que nas duas últimas décadas se impôs como forma de comunicar. Trata-se de uma nova etapa na linha da evolução, precedida que foi pela linguagem, pela escrita e pela imprensa. Estes saltos estão associados a um aumento da complexidade. A linguagem resultou de uma mera evolução anatómica. Com a escrita, à nova capacidade associaram-se algumas ferramentas: o estilete, a argila mole, a tinta e o papiro. A imprensa precisou de uma tecnologia mais elaborada: a fusão dos caracteres, a mesa de composição, a tipografia, para já não falar da fabricação do papel. A internet  exige uma complexa base tecnológica e energética. Falo da computação (o software) e dos suportes de escrita, visualização e arquivo de dados (o hardware), sem esquecer a base de tudo que são a rede elétrica que fornece a energia e a rede de comunicações que transporta os sinais digitais. Com a internet, a espécie humana entrou num caminho evolutivo irreversível. Um caminho que não admite retorno, pois a natureza não aceita a desevolução. E um apagão digital interferiria seriamente nas nossas vidas. A acontecer seria o caos nas transações financeiras, na cobrança de impostos, nos pagamentos, nas comunicações, na logística das redes de abastecimentos, na saúde, na educação, na justiça, etc.

Estamos no limiar de uma nova era, e ainda mal nos apercebemos das transformações que ela irá trazer. Entre cada novo grande salto o tempo que os separou encurtou-se de forma drástica: trinta mil anos mediaram entre a linguagem e a escrita, cinco mil entre a escrita e a imprensa, quinhentos entre a imprensa e a internet. A manter-se esta progressão decrescente, podemos deduzir que estaremos a uns meros cinquenta anos do quinto grande salto. Porém, não vale a pena arriscar previsões sobre a sua natureza, mas é seguro que ele trará mais complexidade - e também riscos acrescidos! - à organização da sociedade.

Cada vez estamos mais distanciados do homem de cro-magnon que há 35.000 anos deu o primeiro grande salto e se impôs ao homem de neanderthal. Às vezes, interrogo-me sobre o que mudou verdadeiramente na nossa natureza, e se não terá chegado o tempo de começarmos a contabilizar tudo o que ganhámos e tudo o que perdemos ao longo destes anos.

segunda-feira, 7 de março de 2016

À Espera do Refluxo

No passado dia 2 de março, um dia depois de ter sido acusado de práticas fraudulentas em transações de terrenos, Aubrey McClendon, o célebre multimilionário fundador da Chesapeake Energy, a maior empresa de fracking americana (extração de gás e petróleo de xisto), morreu com 56 anos, num acidente de automóvel em Oklahoma. Ao que tudo indica, lançou, a grande velocidade, o seu automóvel contra um muro de betão, num aparente ato de suicídio.

A Chesapeake, a empresa que McClendon fundou e dirigiu durante vários anos, enfrenta graves problemas financeiros, ameaçando não poder cumprir os seus compromissos de dívida. Nos últimos dias, as ações da empresa, que há apenas um ano e meio cotavam a mais de 35 dólares, atingiram mínimos de 1,5 dólares. Este é o panorama generalizado do sector do fracking cuja produção, ao contrário do que se esperava, já se encontra em queda. Para muitos analistas, poderemos estar perante o princípio do fim do sonho americano de o país se tornar a curto prazo independente como produtor de energia fóssil. Sonho alimentado por uma enorme máquina de propaganda que captou poupanças de pequenos investidores, e que agora as vêem em risco de se perderem.

O que se passa nos Estados Unidos é uma consequência da crise resultante da queda do preço que afeta os países e as empresas produtores de petróleo. Entretanto, começam a emergir outras situações preocupantes e que podem ter um grande impacto no futuro. Na Venezuela, a petrolífera estatal, PDVSA, estará também em situação de falência técnica e com dificuldades em importar o petróleo leve que as refinarias precisam para misturar com o petróleo pesado local. A mexicana Pemex confronta-se com elevados prejuízos e problemas de liquidez, em parte derivados de uma significativa redução da produção que passou, nos últimos 10 anos, de 3, 2 milhões de barris/dia para 2,2 milhões de barris/dia. Em África, são os três maiores produtores (Argélia, Angola e Nigéria) que enfrentam problemas. Para já não falar da situação no Iraque, onde não tem sido possível atingir os níveis de produção que justificaram a guerra de George W. Bush, e se esperavam após a queda de Saddam Hussein. As grandes empresas petrolíferas (BP, Shell e Exxon) apresentam problema de rentabilidade, fazem despedimentos e cortam nos investimentos. Em 2015, os investimentos na prospeção de novas jazidas terão sido reduzidos em 15% e essa redução vai continuar a verificar-se pelo segundo ano consecutivo em 2016, o que é uma situação inédita no sector, e que terá, a breve prazo, consequências na produção.

Para muita gente não são percetíveis as razões que levaram a este estado de coisas. E não compreendem como foi possível a baixa do preço da matéria-prima, um facto que, pelos vistos, ameaça a curto prazo estrangular a produção. Porém, mais do que o excesso de oferta ou a redução da procura, haverá interesses geoestratégicos ligados aos conflitos no Médio Oriente e à intenção de apertar um garrote à economia russa. Interesses que parecem ser a verdadeira causa da baixa do preço do crude. Aliás, à semelhança do que já tinha acontecido nos anos do colapso da União Soviética.

O sector energético - e o sector petrolífero em particular - é o mais sensível na economia mundial. A queda dos preços a que assistimos pode ser apenas o recuo da maré que precede o tsunami - traduzido numa nova escalada de preços do barril de petróleo - que pode abater-se sobre a economia global. No longo prazo, a Humanidade, para prosperar, tem de contar com as energias alternativas onde predominam a eólica e a solar. A energia de origem fóssil é finita e um dia iniciará a sua queda inexorável. Conseguir criar as condições necessárias para se fazer a sua substituição sem sobressaltos é o maior desafio que se coloca aos vindouros.