terça-feira, 21 de maio de 2019

Ética e Ciências da Vida


As Ciências da vida são muitas – por exemplo, a medicina, a genética, a biomédica - no sentido lato são um vasto conjunto de Ciências que estudam os seres vivos derivando de um tronco principal que é a Biologia. Surge, entretanto, a Bioética uma área interdisciplinar para a qual concorrem a Biologia, o Direito e a Ética e que estuda as condições para uma gestão(?) responsável da Vida Humana, animal e ambiental e aborda questões tais como: o controlo da natalidade ; a fertilização fora do útero; a clonagem; a manipulação genética; a morte assistida, o prolongamento da vida, as barrigas de aluguer, as leis da adopção, o casamento de pessoas do mesmo género. Todos estes temas desenvolveram-se extraordinariamente nas últimas seis ou sete décadas.

Leio, algures, uma justificação sobre a necessidade de associar a Ética a estas ciências: "o progresso técnico deve ser controlado para acompanhar a consciência da humanidade sobre os efeitos que eles podem ter no mundo e na sociedade para que as novas descobertas e suas aplicações não fiquem sujeitas a todo tipo de interesses". Procuro identificar alguns desses possíveis interesses: e a minha atenção vai, em primeiro lugar, para o que aparece associado ao valor económico desse conhecimento no comércio de embriões humanos; utilizar a fertilização artificial e a gestação laboratorial, para fazer o apuramento da raça humana com fins económicos políticos ou militares; esterilizar populações, raças ou povos através da manipulação genética; a incentivação da eutanásia. Um dia, quando desparecerem os laços familiares, receio que se venha a questionar o valor económico de cada ser humano, resultado do balanço entre a sua "utilidade social" e o custo de o manter vivo. A história já nos mostrou exemplos disso.

O impacto das opções que vierem a ser tomadas será enorme, pois poderá condicionar o futuro da espécie humana. Está em causa muita coisa: a família, a política, o amor, o sexo, a liberdade, a democracia. Penso, muitas vezes, que já se perdeu a finalidade do “instinto de procriação” na espécie humana. É verdade que a atração sexual e o prazer da união consentida se preserva, mas não a última finalidade do ato pois essa foi suprimida pela prática anti-conceptiva a qual funciona como uma forma de iludir a natureza. Preserva-se e amplia-se o prazer sexual mas elimina-se a procriação. Ora, acho eu, que o instinto de sobrevivência, só por si, não é suficiente para preservar a espécie. Dotada apenas deste único instinto, a espécie humana vai envelhecer, não se reproduzirá naturalmente, e acabará por colapsar. Perante esse cenário, a Humanidade vai ter de adotar um processo de reprodução artificial, orientado para suprir as necessidades demográficas e sociais. E esse processo será a expressão de uma nova forma de poder.

Muitas serão as implicações resultantes de tal estado de coisas. Regressamos ao admirável mundo novo, de A Huxley, onde estará ausente o Amor, e que será dominado pelo prazer. Os indivíduos terão funções predeterminadas, muita da sua vida será programada, possivelmente até a Morte. Continuará a haver, neste cenário, sentido para a Vida?

Quando um filho vai ao tribunal responsabilizar os pais por o terem trazido ao mundo - isso parece ter acontecido recentemente - estamos perante uma situação que não pode ser visa como uma simples anedota mas que requer uma reflexão especial. A partir de agora, os filhos deixaram de ser dádivas de Deus e frutos do Amor. Passarão a ser uma opção de conveniência de um ou dois indivíduos que os podem encomendar como uma simples mercadoria com especificações predefinidas. Afinal, uma forma camuflada e aceite de tráfico humano. Este teria sido um belo tema para a tragédia grega com material para re-escrever o Édipo.

Perante isto, interrogo-me sobre o que fazer ou não fazer com este novo conhecimento . Está o debate aberto. Falta-nos a contribuição da história pois não podemos contar - com sempre tem acontecido - com as opiniões dos sábios do passado, aos quis sempre recorremos quando procuramos guias: Sócrates, Platão, Séneca Tomás de Aquino, Kant, Nietzsche e até mesmo Darwin. Isto faz uma grande diferença e aumenta as nossas responsabilidades.

Quem vai participar no debate? É urgente fazê-lo, mas onde? Em cada país? A nível Global? A quem cabe a última palavra? Aos médicos, juristas, teólogos, políticos, economistas ou filósofos ? Num tema tão delicado, quando chegar a hora das grandes opções, temos o direito de usar o “referendo” como forma de decisão, entregando a uma geração o direito de decidir, egoisticamente, sobre o destino de gerações futuras?

Penso que só a Filosofia nos pode ajudar a encontrar as respostas.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

O sonho comanda a vida

Na noite do passado dia 27 de Abril  houve "Conversas sobre Almeida". Estavam anunciadas para o Terreiro Velho, e eu, encontrando-me em Almeida, não poderia faltar. Chego em cima da hora marcada e encontro o lugar deserto, mas não me espanta o facto, pois estou habituado a ver Almeida deserta. Mesmo assim, tento informar-me do sucedido, e descubro que, afinal,  as Conversas têm lugar nas portas interiores de Santo António,  para onde, apressado, me dirijo. Não conhecia a sala, uma surpresa agradável. Umas 40 pessoas estavam ali, vejo alguma caras conhecidas, poucas.

A sessão já tinha começado, o Filipe Vilhena usava da palavra. Apresentava ideias, perguntava porque razão coisas muito simples não se poem em marcha, por exemplo, um parque de campismo. Falou do castelo e da sua reconstrução - lembrando a propósito os interessantes escritos no Praça Alta do arquiteto Samuel Pinto-, referiu o rio Coa e a o urgência de o revalorizar,  mostrou estranheza pelo facto do maior monumento português não estar dignamente anunciado na fronteira de Vilar Formoso, e até falou da possibilidade de construir um pequeno aeródromo no concelho.

Mas a grande surpresa da noite estava para chegar. O Pedro Terreiro - mais tarde descubro que se apresenta no ciber espaço como Pedro Zaz -, falou em seguida. Uma figura franzina, o estilo informal, postura irrequieta de quem tem muito para dizer e sente de forma vibrante o que lhe vai na alma. Assume-se como almeidense com o orgulho e a autoconfiança de quem sabe o que quer e o que vale. Fala de Almeida com transbordante entusiasmo. Refere-se  aos Estados Unidos, à China, ao Japão, ao Brasil como se estivesse a falar de lugares comuns. Insiste em comparar Almeida a Nova York como se fossem duas localidades irmanadas na aldeia global. Os presentes ouviam com atenção, contagiados - diria até hipnotizados - com o entusiasmo do orador.

A proposta do Pedro é simples: Almeida e as suas muralhas reunem condições únicas para produzir arte efémera e, desta forma, valorizar aquilo que é único em Almeida, atraindo pessoas, investimentos, estimulando a economia. Todo o concelho ficará a ganhar. Estimulará o turismo e todas as atividades que vêm atrás dele. A ideia já está concretizada com sucesso noutros países - mostrou um interessante exemplo, no Japão.  De forma convincente, assegura um milhão de visualizações nas redes sociais. Afinal, penso eu, um investimento com um retorno  muito grande, pois se a ação proposta custar cem mil euros o custo por contacto será de 10 cêntimos,  um valor incomparavelmente inferior ao custo por contacto nos meios tradicionais. E que é muito mais eficaz pois dirige-se a um alvo qualificado.

Saio da reunião surpreendido pelo vibrante entusiasmo da proposta do jovem almeidense. Será a arte efémera uma boa aposta para Almeida? Pensando bem, na Natureza, tudo o que é temporal é efémero: A arte, os governos, os países, os impérios, a política, a  economia, a riqueza, o poder e a glória. A vida de cada ser humano é um flash no tempo universal. A própria espécie do homo sapiens  se apagará da Terra, muito antes do nosso planeta ser engolido por um Sol moribundo .

Na sociedade atual do consumismo, do descartável, da voracidade das redes sociais, da novidade permanente,  da facilidade  nas comunicações, das notícias que se atropelam e da fluente mobilidade, o tempo dos homens passa mais depressa. A única certeza que preside ao nosso dia-a-dia é a de sabermos que, amanhã, tudo será diferente e que o tempo não voltará para trás.

O efémero está na moda. E é a moda que confere valor económico aos produtos. Por isso a proposta do Pedro deve ser seriamente considerada. É uma proposta arrojada, inovadora, é criativa, envolve a comunidade local. Vem de um profissional reconhecido internacionalmente e com um currículo invejável. A sua concretização vai estimular a atenção sobre o território, para logo suscitar interesse e o desejo que leva à ação.

O Sr Presidente da Câmara não deve deixar passar ao lado esta oportunidade. O facto da ideia  não vir de nenhum académico iluminado não é um mal, é antes um bem, Mostra que existem almeidenses vivos e com uma Alma grande.

Por aquilo que percebi, os almeidenses que estavam na sala esperam da autarquia um gesto nobre e com visão de futuro. Eu comungo dessa esperança, tenho um palpite de que vai dar certo, e, se for preciso, pago para ver.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Se


Se, na adversidade da mais escura noite,
conseguires colocar-te acima das Palavras
e deixares que te guie a Voz Silenciosa da tua Alma.

Se fores capaz de enxergar a Verdade,
atrás da floresta de enganos e das sombras
que, a cada dia, os ecrãs te mostram.
Se conseguires ver na mais pequena flor o milagre da Vida,
e vislumbrar na mais longínqua estrela a mão do Criador

Se recusares usar plástico quando podes evitá-lo,
e assumires o compromisso de não sujares o ar que respiras,
nem a água que bebes, nem os alimentos que comes.
Se conseguires imaginar por detrás da carne da tua refeição
o sacrifício do animal que ta entregou

Se, para subires mais um degrau na tua Consciência,
fores - como disse o poeta - capaz de ir além da dor,
indiferente ao mavioso canto das paixões e dos prazeres.
E fores capaz de esquecer as névoas do Futuro,
quando o Aqui e o Agora reclamam a tua presença.

Se, quando o poder ou a glória te baterem à porta,
te lembrares da gota de sémen como começaste
e  do punhado de cinzas que serás um dia.
E aceitares, com a mesma serenidade, as mudanças certas
- para melhor ou para pior -  que o futuro te trouxer.

Se, com Compaixão, fores capaz de levar Esperança
a uma criança, a um necessitado ou a um  enfermo,
indiferente à sua riqueza, raça, credo ou idioma.
Se fores capaz de te dares aos outros, sem esperar recompensa,
Da mesma forma como a rosa te dá o seu perfume.

Se fizeres do Bem, do Belo, da Justiça e da Verdade
as estrelas que iluminam o teu caminho
Então, serás dono do Tempo. A Eternidade está ao teu alcance.
E - acima de tudo - meu irmão e minha irmã, contribuirás
para fazer deste Mundo um lugar melhor para os teus filhos


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Mandamentos



Primeiro: Conhece-te a ti próprio; procura dentro de ti as respostas para as tuas dúvidas.

Segundo: Pratica o Bem, ama o Belo, sê justo. Busca o conhecimento

Terceiro: Carpe Diem: Esquece o futuro porque ele é imprevisível e traiçoeiro

Quarto:  Põe o melhor de ti próprio em tudo o que fizeres. Cultiva o ócio, porque este é o único tempo que verdadeiramente te pertence.

Quinto: Aceita da mesma forma a Adversidade e o Sucesso; a Paz e a Guerra; a Vida e a Morte

Sexto: Não tomes nada como certo e definitivo, porque um dia tudo será diferente.

Sétimo Nunca te esqueças que começaste com uma gota de sémen e acabarás como um punhado de cinzas. E o mesmo acontecerá aos teus amigos e aos teus inimigos.

Oitavo. Respeita a Natureza e os seus equilíbrios. Não queiras ter mais do que aquilo que precisas.

Nono. Sê Solidário. Respeita e cuida dos mais velhos, dos mais fracos e dos mais necessitados.

Décimo. Educa as crianças ao teu redor. Dá-lhes tudo e nada lhes peças em troca. Procura que elas sejam melhores e mais sábias do que aquilo que tu foste.


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O Rio Côa


Um rio é uma benesse da natureza. Foi nas margens dos rios que se fixaram, pela primeira vez, os nómadas das tribos de caçadores-recoletores, e foi nelas que se construiriam as grandes cidades da antiguidade. O Jardim do Éden ficava nas margens dos rios da Mesopotâmia, a região que foi o berço da civilização. O Egito Antigo era, no dizer do historiador Heródoto, uma dádiva do Nilo. E foi nas purificadoras águas do celebrado rio Jordão que Jesus Cristo foi batizado.

Na sua geomorfologia, os rios têm um dinamismo próprio. Nascem, límpidos e cristalinos, pequenos fios de água escorrendo das neves das montanhas. Na sua  juventude, correm velozes, apertados entre margens abruptas, alimentam uma fauna e uma flora diversificadas. Na velhice, espraiam-se nos vales para onde arrastam os sedimentos que nutrem a terra e fazem florescer as culturas.  Mas os rios nunca morrem. As suas  águas fluem sempre diferentes, sempre renovadas, pois eles são um elo dessa maravilhosa corrente fechada que é o ciclo da água. Foi o filósofo grego Heráclito que disse que nunca nos podemos voltar a banhar nas mesmas águas de um rio, porque um rio nunca é igual a si próprio.

No seu percurso, o Côa, o rio da nossa terra, é indomado, selvagem e agreste. As suas margens foram habitadas pelos homens que,  há, talvez, uma dezena de milhares anos, nos deixaram gravuras esculpidas na rocha, testemunhos de uma fauna abundante e diversificada.  Uma parte importante do percurso do rio Côa fica no concelho de Almeida e está ligado à sua História: nas sua margens travou-se dura batalha em 1810, para defender a única ponte que permitia a entrada em Portugal pela fronteira da Beira; as principais pontes sobre o Côa, nas estradas e no caminho de ferro que nos ligam à  Europa, estão no nosso concelho; a eletricidade que iluminou Almeida pela primeira vez era produzida no rio; e até as termas da Fonte Santa lhe estão intimamente ligadas.

Na margem esquerda, onde se situa a maior parte da bacia do rio e onde correm as principais ribeiras que nele confluem - das quais a principal é a ribeira das Cabras -, está a Asta.  Pela proximidade, por tudo o que ele representa, a relação da Asta com o Côa tem de ser uma relação forte.  O rio tem muito para lhe dar: a inspiradora paisagem que convida à meditação, à introspeção, à poesia e à arte, o desafio da aventura e da descoberta, o espaço de descanso e lazer, a excelência de um cenário para desportos de ar livre, tais como, a pesca desportiva - com os seus benefícios terapêuticos -, as caminhadas, a canoagem, o campismo, a natação.

Urge, pois, conhecermos melhor o nosso rio. Vamos redescobri-lo na sua beleza natural,  tomar consciência dos riscos que ameaçam o seu equilibro e a sua saúde;  identificar e catalogar a sua fauna, a sua flora, fotografar os seus mais belos recantos; analisar a qualidade das suas águas; revisitar as marcas que os homens nele deixaram:  as gravuras, as pontes, os açudes, as noras, as veigas, a etnografia, as lendas e os costumes.

Vamos trazer o Rio Côa de volta  para a nossa convivência, voltar a percorrer as suas margens e voltar a mergulhar nas suas águas.  Sem termos de o represar nem ter de o poluir, é urgente que lhe demos valor económico, criando riqueza para ela, por sua vez, crie empregos e fixe pessoas. Sobretudo, envolver a nessa tarefa toda a comunidade - nomeadamente os mais jovens e os alunos das escolas -, pois o rio é de todos.. Enfim, vamos todos trabalhar para criar uma sólida relação de afecto com  o Rio Côa, com a certeza que que só podemos amar aquilo que conhecemos.




domingo, 4 de novembro de 2018

Conhecimento, Opinião, Democracia e Educação

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O tema que escolhi para este artigo foi inspirado pelas experiências que, nos últimos 10 anos, na Fundação Vox Populi,  temos tido  com o programa "A Pesquisa que Ensina" sobre novas abordagens pedagógicas junto de algumas escolas portuguesas. O objetivo deste texto é relacionar quatro importantes conceitos, conhecimento, opinião, democracia e educação, procurando, em jeito de conclusão, realçar a extraordinária importância da educação para o nosso futuro coletivo.

Os gregos identificavam dois tipos de conhecimento, o episteme - que designo por conhecimento científico, e o techne - que designo por conhecimento técnico. Existe outro conhecimento, a gnose,  que designarei por conhecimento gnóstico.  O termo gnose deriva do termo grego "gnosis". É um conhecimento intuitivo, baseado em crenças e narrativas mitológicas. A existência de um Deus transcendente é aceite pelos gnósticos, que vêem na Religião e na Fé um caminho para atingir um conhecimento mais profundo da realidade do mundo. Quando, a partir de agora, referir "conhecimento", não incluo a gnose, falo apenas de conhecimento técnico-científico que é uma “fusão” entre episteme e techne, considerando que estes dois tipos de conhecimento, evoluem paralelamente, fundem-se e potenciam-se mutuamente.

O conhecimento está associado ao progresso da espécie humana e intimamente relacionado com a linguagem e com o pensamento, pois sem linguagem não há pensamento produtivo. Foi o conhecimento que transformou o homo sapiens no ser superior que ele é no seio da criação e foi responsável pelas grandes conquistas civilizacionais. O conhecimento é a causa dessa tão surpreendente ocorrência cósmica que Teilhard de Chardin designou por Fenómeno Humano.

Eu vejo o conhecimento como uma aptidão (no sentido darwiniano da palavra) da espécie humana, aperfeiçoada ao longo de milénios. Mas, ao contrário do que se passa noutras espécies, enquanto aptidão adquirida, o conhecimento não se incorpora na informação genética dos homens, mas preserva-se externamente - sob a forma de informação -, e transmite-se pela educação às gerações seguintes. Considerando as suas características, a aquisição, preservação e difusão do conhecimento só foi possível devido a capacidade de comunicação entre indivíduos. Por isso, a evolução do conhecimento está associado às quatro grandes revoluções na forma comunicar que se sucederam a intervalos sucessivamente mais curtos: a) a linguagem há cerca 50000 anos, b) a escrita há cerca de 5000 anos, c) a imprensa há pouca mais de 500 anos e a d) internet, cujo início, para manter a cadência exponencial da série, podemos datar de há 50 anos atrás. Nestas revoluções, verificou-se um salto significativo no desenvolvimento de novas capacidades e criação de novas ferramentas,  progressivamente mais sofisticadas e complexas. Condições, que foram, elas próprias, uma consequência do conhecimento acumulado. Que outras revoluções nos esperam no futuro próximo? Quais os riscos associados à crescente complexidade das novas ferramentas? Dado que nas leis de Darwin não se admite a desevolução, poderá a espécie ficar prisioneira dessa complexidade e entrar num cul-de-sac evolutivo?

 Para os gregos, como contraponto ao episteme, a opinião era chamada de doxa, sufixo que reconhecemos em palavras tais como ortodoxo, paradoxo. Doxa era a opinião comum que os sofistas procuravam influenciar com argumentos não necessariamente verdadeiros, e que  Platão opunha ao episteme. Nos dias de hoje, por vezes, confundimos opinião com conhecimento, embora se  trate de conceitos muito diferentes.

O conhecimento é um atributo da espécie, é cumulativo e de base racional (produzido pelo pensamento), ao passo que a opinião é um atributo do indivíduo, não cumulativa e de base emocional (e, nessa medida, influenciada pelo medo, pela raiva, pela vingança e pela inveja); o conhecimento está comprometido com a ética e com a verdade, ao passo que a opinião que é pessoal, é descomprometida com a verdade, íntima e nem sempre confessável; o conhecimento é universal e não manipulável, e a opinião é tribal, populista e nacionalista, e pode ser manipulada; finalmente, no conhecimento prevalece o realismo, a ponderação e a análise de longo prazo, e na opinião prevalece a paixão, o imediatismo e a crença nas utopias.

A democracia moderna, que remonta ao final do século XVIII,  tem origem nos princípios saídos da Revolução Francesa e postos em prática pelos homens que declararam a independência dos Estados Unidos da América, numa altura em, por virtude do progresso (que é uma consequência do conhecimento, ou se identifica com o próprio conhecimento!), se iniciava uma importante transformação económica que foi a Revolução Industrial, cujo impacto se veio a revelar nas grandes mudanças científicas, tecnológicas e sociais,  que prosseguem até aos nossos dias. Os princípios da moderna democracia estão bem expressos na frase de Abraham Lincoln: “the people, by the people and for the people”. O poder emana do povo, é exercido pelo povo, para servir o povo.

Mas existe um grande paradoxo (já expresso por Platão) que questiona o valor da democracia: a legitimação do poder dos governantes e dos representantes do povo que fazem as leis e escrevem as constituições, sustenta-se na opinião que é expressa no voto dos cidadãos; ora, sendo, como vimos acima, a opinião descomprometida com a verdade e com a ética, e sendo influenciável (ou mesmo manipulável), o valor da democracia será o apenas valor da opinião sobre a qual ela se fundamenta. E, por toda a parte, em crescendo, vão-se sucedendo exemplos que nos levam a questionar o valor da democracia. A eleição democrática de líderes (falo do caso da Alemanha nazi) que cometeram crimes contra a humanidade ilustra bem a pertinência do argumento.

E, no entanto, a democracia funciona e não sendo porventura o melhor sistema ele será o menos mau, pois não se vê outro melhor que o possa substituir. É certo que a imprensa livre contribuiu, nos últimos 200 anos, com o seu papel vigilante e formador de opinião para fortalecer o sistema e iludir as suas fraquezas. Mas isso pode estar em causa na Era Digital, dado que essa vigilância está-se a diluir no labirinto das redes sociais.

Com a democracia debilitada, a Humanidade enfrenta uma época em que se lhe apresentam grandes desafios: o futuro do homo sapiens enquanto espécie pode estar ameaçado pois o seu tremendo sucesso, no reino da criação foi conseguido à custa de um preço elevado: aniquilação de outras espécies, forte pressão demográfica, esgotamento de recursos, poluição, alterações climáticas. A economia (ela própria e, paradoxalmente, fruto do conhecimento) que suporta o sucesso da espécie, exige crescimento contínuo, é poluidora e predadora de recursos, e precisa de ser rapidamente substituída.

Um sistema político baseado apenas na doxa será incapaz de inverter a tendência para o colapso da espécie. Só um sistema baseado no conhecimento capaz de alterar tanto o atual sistema político como económico, permitirá à Humanidade fazer as escolhas necessárias à sua sobrevivência e determinar livremente o seu destino. Mas temos de estar atentos aos riscos. A quem caberá a incumbência de guardar e preservar os arquivos digitais? Qual a possibilidade e o risco de poderem vir a ser manipulados? Qual a longevidade e fiabilidade dos suportes que os contêm? Como assegurar a compatibilidade dos diferentes sistemas de gravação? Qual o risco de haver impedimento ou restrição no seu acesso, associado à dependência da rede eléctrica e das redes de comunicação? Paralelamente vão colocar-se problemas relacionados com o uso da informação, com as ameaças à liberdade das pessoas, com a invasão da sua privacidade.

A Wikipedia pode desempenhar um papel importante para se institucionalizar como um sólido guardião do conhecimento, se conseguir proteger-se de intrusões oportunistas, preservar a sua independência, colocando-se definitivamente ao serviço do episteme e não da doxa.

Mas, é na educação que estará a chave da solução do problema.  No futuro, para contornar as armadilhas do progresso e da democracia, temos de ser muito cautelosos na forma como iremos preparar as novas gerações. Temos de educar para o conhecimento, fortalecendo as opiniões que permitam fazer as escolhas certas. Mas não podemos transmitir o conhecimento como se ele fosse apenas um conjunto de informações compartimentadas e descontextualizadas. Temos de ser capazes de transmitir os valores que lhe estão associados, mostrar o caminho - nem sempre fácil - para lá chegarmos, e, sobretudo, alertar para o perigo de decidir com base numa opinião que não esteja comprometida com a verdade e pela ética e que não seja alimentada pelo conhecimento.

Só com uma opinião fundamentada e expurgada das ciladas que lhe estão associadas poderemos continuar a afirmar que Vox Populi, Vox Dei - ou seja, que a  Voz do Povo é a Voz de Deus. O primeiro passo poderá ser pesquisar a própria opinião. É essa a proposta da Fundação Vox Populi nos projetos do Programa  "A Pesquisa que Ensina", que documentamos neste  pequeno vídeo.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Rio Vivo

Foi com um sentimento de tristeza, mitigado pela satisfação do cumprimento de um dever, que, no passado dia 16 de junho, pelas 15 horas, me reuni com um pequeno grupo de dez pessoas, na Casa do Quartel, em S. Pedro do Rio Seco, para oficializar o fim da Associação Rio Vivo. Quando, no verão de 2009, no lagar do Ti Norberto, os seis fundadores - eu, a Paula, o Manuel Alcino, o António André, o Amândio Caldeira e o Jorge Carvalheira-, assinaram uma bela e bem intencionada carta de princípios, fizeram-no movidos pelo impulso de quem não aceita ver morrer aquilo que se ama. 

Durante a curta vida da associação muita coisa se fez. Recuperou-se o edifício da sede no antigo quartel da Guarda Fiscal, cedido pela Junta de Freguesia, vieram dezenas de jovens animar a aldeia, tentou-se introduzir uma nova forma de cultivar a terra, criou-se um mercado de produtos locais, espalhou-se arte pelas ruas, dançou-se na igreja, fizeram-se cursos e workshops na velha escola, tocou-se concertina em alegres arruadas de adega em adega. No verão de 2011, recebemos gente importante para homenagear o nosso conterrâneo, professor Eduardo Lourenço, e oferecemos à aldeia um singelo monumento evocativo do evento. Fizeram-se projetos e tentativas de recuperar ruínas. E, animados pelo espírito romântico e ecologista do Amândio Caldeira, até tentámos reintroduzir o mexilhão de água doce na Ribeira de Toirões. Com o nascimento do filho da Caetana e do Zé Lambuça, o Zacarias, assistimos, em terras de gente envelhecida, ao improvável milagre da renovação da vida.

Eu e a minha família investimos neste projeto tempo, algum dinheiro e muita energia. Pessoalmente, não me arrependo de nada, e até lamento não ter podido ir ainda mais longe. Apesar de saber, hoje, que tudo não passou de uma ilusão. Quando faltam as pessoas unidas por interesses comuns, esgota-se a razão de ser das associações pois elas são feitas de pessoas e para as pessoas. Em S. Pedro começam a escassear as duas coisas: há cada vez menos pessoas e não um existe um objetivo que as agregue para a construção do futuro.

Com o desaparecimento da Associação Rio Vivo, é também uma parte de S. Pedro que desaparece. A lição que me fica desta experiência é que pouco se pode fazer para contrariar o progresso e o determinismo das mudanças que afetam sociedades e civilizações. Sei, agora, que nada voltará a ser com era antes. Não haverá mais garotos descalços a correr as ruas e a jogar à chona ou ao pica-chão, nem moços e moças dançando ao som das concertinas. Não haverá mais matanças do porco no outono, nem bodas fartas nas primaveras, nem fatos domingueiros nos dias de festa. Acabou a dureza da vida no campo quando a ceifa, a debulha e a trilha se faziam com o esforço dos homens e dos animais.

Mas outro tempo, certamente, virá. Sobre os escombros do tempo antigo, irá iniciar-se um novo ciclo, talvez uma nova forma de povoamento. Que o exemplo da Associação Rio Vivo sirva para ajudar os vindouros a construir um futuro melhor.