sábado, 23 de novembro de 2019

O Eu e a Mente

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Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!
José Régio
Quando o meu cão se vem enrolar aos meus pés e se mostra agradado pela minha companhia, eu interrogo-me sobre o que se passa no cérebro deste dócil companheiro. O meu cão vive apenas o momento presente, ele tem passado mas não o evoca, e também não se preocupa com o futuro. A cada dia basta-lhe o seu cuidado. Tudo no meu cão se orienta para a vida e para a reprodução. A fome, a sede e  o sexo são as suas pulsões. Eu posso condicioná-lo, como fez Pavlov, e com isso provocar-lhe prazer ou conflitos e sofrimento.

Ele não sabe que a Terra é redonda, nem conhece a importância do ar que respira.  E  não sabe que vai morrer um dia. Eu sei que o meu cão não pensa, mas sente. E sei todas aquelas coisas que o meu cão não sabe, mas, às vezes, tenho inveja dele. Como gostaria de desligar, a meu bel-prazer e pelo tempo que quisesse, a corrente do pensamento, e ficar, como este fiel amigo, apenas a respirar e a viver plenamente o aqui e o agora.

O pensamento e a consciência do eu são atributos exclusivos da espécie humana. Um dia, no caminho da evolução, um hominídeo, pela primeira vez, ter-se-á apercebido de que existia como indivíduo: eu sou este individuo; eu estou aqui; eu faço isto; eu quero aquilo.  E, por analogia, ao perceber que existia, adquiriu a consciência da existência do outro. A observação da morte do seu semelhante (do outro) e a consciência do eu, produziram uma revelação extraordinária: a perceção da sua própria morte. Esta tomada de consciência do eu e da morte foi a prodigiosa mutação que transformou a espécie humana. Criou o Ego que se transmitiu aos descendentes, e que, pela seleção natural, permitiu desenvolver o cortex cereberal. O homem mais inteligente passou a ser o mais apto. E a evolução, como nos ensinou Charles Darwin, fez o resto.

A linguagem, permitindo a representação verbal dos conceitos, deu-lhes expressão e significado. Primeiro às coisas, depois às ações e aos sentimentos, e, finalmente, às emoções. A observação e a experiência conduziram à dedução e ao pensamento lógico. As representações expressas pela linguagem, articularam-se entre si, e produziram o pensamento que, por sua vez, permitiu criar o conhecimento científico. Esses conceitos foram integrados no espaço (aqui, acolá, perto, longe) e no tempo (agora, logo, antes e depois).

Através do pensamento, o homem  antecipa o futuro, imagina e cria. Transformou-se num ser superior consciente e inteligente.  Mas o eu das pulsões e dos instintos não desapareceu.  O homem passa a ficar dividido: a consciência passou a ser um eu superior, que é  o Ego ou o Ich (em alemão) ,  e o outro eu, o inconsciente, é o Id  que é o eu do meu cão. O eu inferior não distingue o pensamento da realidade, pois não distingue as coisas das suas representações. A presença do leão ameaçador provoca medo e faz libertar adrenalina; mas a representação mental do leão imaginado, confunde o Id e pode provocar as mesmas reações.

Foi Sigmund Freud quem propôs este modelo da mente humana. O conceito subjetivo de Bem e de Mal levou Freud a acrescentar ao Id (que sente)  e ao Ich (que conhece, pensa e prevê),  o Uber-Ich ou Superego que é o eu que julga. O superego é o eu social que deriva da moral, da  religião, e das normas sociais.  E está na origem do pecado, da culpa e de muitas neuroses. Com este modelo, Freud explicou a Alma, Deus e o Diabo, como Galileu tinha explicado, dois séculos antes, o funcionamento do sistema solar.

A complexidade e a fragmentação da mente humana leva ao conflito interior, à divisão, ao sofrimento e ao medo psicológico (perante a ameaça imaginada, em oposição ao medo natural, perante a ameça real). O pensamento condicionado, pela cultura, pela memória, pela religião e pela educação, não é libertador, antes pelo contrário, projeta-nos no tempo passado e no tempo futuro, e conduz à ansiedade e à depressão. Cria-se um circulo vicioso, vivemos nos meandros de um labirinto, e quanto mais lutamos para saír dele, mais fragilizados ficamos, e mais se nos obscurece o caminho da saída.

Felizmente, não estamos condenados ao castigo de Sísifo, aquele de ter de carregar perpetuamente a pedra montanha acima e, chegados ao cume, desesperados, vê-la rolar de novo pela encosta abaixo, e termos de recomeçar tudo outra vez. A fórmula da libertação deste absurdo sofrimento, estava inscrita no Pórtico de Delfos: "Conhece-te a ti próprio e conhecerás o Univeso e as suas leis".  Foi este o caminho percebido por tantas mentes superiores, as Almas Grandes, os filósofos que viveram orientados pela busca do Bem, da Justiça e da Verdade.

A grande e angustiante interrogação do homem consiste em saber se existe alguma coisa para lá do pensamento e do tempo. Algo eterno, intemporal. Para responder a esta questão o homem construiu e sacralizou a figura  de Deus, organizou-a conferiu-lhe uma imagem, deu-lhe atributos.  Surgiram as religiões e o circo que as envolve. A interrogação permanece.

Mas a evolução do Homem não pára.  Eu acredito que podemos estar a adquirir um eu metafisico, uma espécie de eu universal, uma simbiose do Homem com o Universo e com o Criador. Será este eu que nos libertará do ódio, da ambição e das neuroses e nos permitirá atingir a permanente clarividência. Acredito mesmo que a aquisição desse eu será o salto no processo evolutivo que nos abrirá o caminho da Transição para uma Nova Humanidade.

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