Comemora-se este ano o centenário da proclamação da República em Portugal. É o momento oportuno para uma reflexão sobre o que foi primeiro século da República. E nada como uma comparação entre o Portugal de 1910 e o Portugal de 2010 para nos ajudar a perceber de onde vimos, onde estamos e para onde vamos.
O Portugal do início do século XX era um país à procura de si próprio: as crises sucediam-se; o Brasil tinha sido perdido em 1822, havia quase cem anos, as lutas liberais tinham trazido, na segunda metade do século anterior, a alternância de poder e alguma prosperidade; a África que tinha saído da conferência de Berlim e do sangramento nacional que fora o Ultimatum, era já uma esperança mas era ainda uma miragem.
Na Europa vivia-se um longo período de paz; desde 1870 que não havia grandes conflitos, e, como Eça de Queirós já tinha comentado anos antes, “podia viajar-se tranquilamente de Lisboa a Moscovo com um simples passaporte". O reinado do carvão estava no seu auge. Carvão que tinha sido responsável pela revolução industrial, mas tinha permitido também o aparecimento de uma nova classe, os proletários, com os conflitos inerentes a uma condição social precária. Adensavam-se já sobre a Europa as nuvens negras que em breve levariam a um conflito generalizado.
Em 1910, Portugal era um país rural e essencialmente agrícola; 78% da população era analfabeta. A maioria das casas não tinha saneamento, nem electricidade, nem sequer casa de banho. O automóvel era uma raridade. A natalidade era elevada, a mortalidade infantil também. As aldeias portuguesas produziam os bens alimentares que o país consumia, mas as importações (sobretudo de bens manufaturados) já superavam as exportações.
A máquina a vapor, o comboio e o paquete transatlântico tinham, entretanto, vencido distâncias e aproximado os continentes. O desabrochar das Américas atraía uma elevada emigração, e todos os anos saíam de Portugal entre dez a vinte mil pessoas sobretudo para o Brasil e para os Estados Unidos.
Nos 100 anos da República o reinado do carvão deu lugar, progressivamente, ao reinado do petróleo, o mundo tranformou-se, surgiu a globalização. O século da República viu multiplicar por quatro a população mundial. Na verdade foi apenas o tempo de um “flash” na história do homem. A televisão, o automovel, o avião e o turismo fizeram do planeta uma “aldeia global”.
Portugal perdeu a Africa, democratizou-se, integrou-se na Europa. Mas acompanhou o progresso, e alterou a sua forma de viver, passou para o clube dos ricos. Em Portugal temos hoje um estado social, ensino gratuito e generalizado, acesso aos cuidados de saúde. A electricidade trouxe o conforto aos nossos lares, e libertou a mulher para o trabalho fora do lar. As pessoas estão protegidas no desemprego e na reforma. E até os mais carenciados não precisam de estender a mão à caridade pois o estado garante-lhes o sustento.
Mas ao terminar o século da República o mundo começa a perceber que o planeta tem limites, que os recursos são escassos, e que estamos perigosamente a chegar à linha de fronteira, onde se advinha o fim da estrada. E é quando, paradoxalmente, nos pedem para acelerar, em vez de parar e esperar.
Durante o Século da República ganhámos o automóvel, a televisão, o serviço nacional de saúde, mas perdemos a água cristalina dos nossos rios, e perdemos o viço das nossas hortas; trocámos o bucolismo das nossas aldeias pela aridez e pela insegurança dos subúrbios das grandes cidades; ganhámos o direito à reforma mas perdemos o direito de morrer junto dos nossos filhos.
Vamos entrar no segundo século da República, e tudo parece indicar que acaba um ciclo e vai começar outro. Alguns já dizem que nós viemos do pior para o melhor, mas que os nossos filhos e os nossos netos irão do melhor para o pior!
Não sabemos se as pessoas são hoje mais felizes do que eram há cem anos, e é pena não termos esse indicador. Para perceber se valeu a pena.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
O dilema da opção nuclear
Construídas essencialmente nos anos 70 e 80, estão actualmente em funcionamento em todo o mundo cerca de 450 centrais nucleares, com uma potência instalada de 370 Gigawatts (GW). Elas encontram-se sobretudo nos EUA (104 centrais produzem 40% da electricidade consumida), na França (59, produzem 78%), e ainda no Japão, na Rússia, no Reino Unido, na Coreia do Sul e na Índia. A energia produzida por todas as centrais nucleares existentes equivale a 16% de toda a energia eléctrica produzida a nível mundial. É de notar que em 2006 este valor era próximo da produção hidroeléctrica total do planeta!
Depois do acidente de Chernobyl, em 1986, houve uma diminuição na construção de novas centrais nucleares, alimentada pelos baixos preços do petróleo e pelo desenvolvimento das centrais a gás natural e ainda, naturalmente, pelo reflexo que tal acidente teve no conceito da segurança do nuclear. Daí resulta que 90% das centrais hoje existentes tenham mais de 15 anos e sejam de 2.ª geração. Neste momento constroem-se centrais de 3.ª geração, e já se prepara o desenvolvimento de uma 4.ª geração, mais seguras e mais eficientes. Em Março de 2007 estavam em construção 24 novas centrais na China, Índia, Rússia, Finlândia, Coreia e Japão. E muitos outros países anunciam novos projectos.
A construção de uma central nuclear constitui um longo processo. Para além da fase inicial de discussão e planeamento, a construção propriamente dita demorará pelo menos cinco anos, e o seu tempo de vida útil pode variar entre 40 e 60 anos. Isto significa que muitas terão que ser construídas nas próximas décadas, se se quiser repor o número das que, entretanto, irão ser desactivadas.
O custo do KWh produzido por uma central nuclear é comparável ao das centrais térmicas a carvão. Porém, se considerarmos o custo adicional a pagar pelas emissões de CO2, o KWh da fonte nuclear pode ficar mais barato do que o produzido numa central térmica. Tenha-se em conta que uma central nuclear de 1 GW evita que 6 a 7 milhões de toneladas de CO2 sejam libertadas por ano para a atmosfera.
O urânio, combustível das centrais nucleares, é abundante na natureza. E aos preços actuais a extracção só se justifica se a concentração do minério permitir a produção de urânio a um custo inferior a 40 dólares por quilo. Porém, neste escalão, as reservas são limitadas. E a manter-se o actual consumo de urânio, de acordo com um estudo do Energy Watch Group, o mundo poderá ter de recorrer aos escalões de menor concentração já em 2030. O que significa urânio mais caro a breve prazo! Portugal ocupa neste aspecto uma modesta posição, pertencendo as suas reservas ao escalão de baixa concentração. A mineração só se justificará com preços de urânio acima de 80 dólares o quilo.
Em termos energéticos, sobretudo nos transportes e nas utilizações domésticas, o futuro da humanidade gravitará em torno da electricidade, a qual terá de ser produzida pelas chamadas fontes de energia primárias. Com o progressivo esgotamento dos combustíveis fósseis e com os problemas do aquecimento global, o recurso crescente às centrais nucleares parece inevitável. As fontes renováveis de produção de energia eléctrica (hídrica, eólica, solar) não concorrem nem poderão substituir as chamadas centrais de base. E, nestas, as opções no futuro serão apenas o carvão e o nuclear.
Em Portugal a discussão sobre o nuclear vai certamente aprofundar-se no futuro. Os prós e os contras são muitos e de peso. Mas o dilema da decisão irá certamente ter que ser enfrentado pelos governantes mais cedo do que eles porventura desejariam. O afrouxamento dos motores do crescimento económico baseado no turismo e na construção civil podem obrigar a repensar alternativas de investimento às opções actuais. E esta é uma questão de estado, que não pode ser deixada ao sabor dos interesses do mercado nem à iniciativa de particulares.
Depois do acidente de Chernobyl, em 1986, houve uma diminuição na construção de novas centrais nucleares, alimentada pelos baixos preços do petróleo e pelo desenvolvimento das centrais a gás natural e ainda, naturalmente, pelo reflexo que tal acidente teve no conceito da segurança do nuclear. Daí resulta que 90% das centrais hoje existentes tenham mais de 15 anos e sejam de 2.ª geração. Neste momento constroem-se centrais de 3.ª geração, e já se prepara o desenvolvimento de uma 4.ª geração, mais seguras e mais eficientes. Em Março de 2007 estavam em construção 24 novas centrais na China, Índia, Rússia, Finlândia, Coreia e Japão. E muitos outros países anunciam novos projectos.
A construção de uma central nuclear constitui um longo processo. Para além da fase inicial de discussão e planeamento, a construção propriamente dita demorará pelo menos cinco anos, e o seu tempo de vida útil pode variar entre 40 e 60 anos. Isto significa que muitas terão que ser construídas nas próximas décadas, se se quiser repor o número das que, entretanto, irão ser desactivadas.
O custo do KWh produzido por uma central nuclear é comparável ao das centrais térmicas a carvão. Porém, se considerarmos o custo adicional a pagar pelas emissões de CO2, o KWh da fonte nuclear pode ficar mais barato do que o produzido numa central térmica. Tenha-se em conta que uma central nuclear de 1 GW evita que 6 a 7 milhões de toneladas de CO2 sejam libertadas por ano para a atmosfera.
O urânio, combustível das centrais nucleares, é abundante na natureza. E aos preços actuais a extracção só se justifica se a concentração do minério permitir a produção de urânio a um custo inferior a 40 dólares por quilo. Porém, neste escalão, as reservas são limitadas. E a manter-se o actual consumo de urânio, de acordo com um estudo do Energy Watch Group, o mundo poderá ter de recorrer aos escalões de menor concentração já em 2030. O que significa urânio mais caro a breve prazo! Portugal ocupa neste aspecto uma modesta posição, pertencendo as suas reservas ao escalão de baixa concentração. A mineração só se justificará com preços de urânio acima de 80 dólares o quilo.
Em termos energéticos, sobretudo nos transportes e nas utilizações domésticas, o futuro da humanidade gravitará em torno da electricidade, a qual terá de ser produzida pelas chamadas fontes de energia primárias. Com o progressivo esgotamento dos combustíveis fósseis e com os problemas do aquecimento global, o recurso crescente às centrais nucleares parece inevitável. As fontes renováveis de produção de energia eléctrica (hídrica, eólica, solar) não concorrem nem poderão substituir as chamadas centrais de base. E, nestas, as opções no futuro serão apenas o carvão e o nuclear.
Em Portugal a discussão sobre o nuclear vai certamente aprofundar-se no futuro. Os prós e os contras são muitos e de peso. Mas o dilema da decisão irá certamente ter que ser enfrentado pelos governantes mais cedo do que eles porventura desejariam. O afrouxamento dos motores do crescimento económico baseado no turismo e na construção civil podem obrigar a repensar alternativas de investimento às opções actuais. E esta é uma questão de estado, que não pode ser deixada ao sabor dos interesses do mercado nem à iniciativa de particulares.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
O tempo da transição aproxima-se
Nos anos recentes, a Agencia Internacional de Energia – AIE (e sobretudo o seu economista chefe, o Dr Fatih Birol) tem vindo paulatinamente a tomar posições muito “realistas”, e a alertar o mundo para situações previsíveis de iminente quebra na produção de crude. Ano após ano, têm vindo a ser revistas, sucessivamente em baixa, as estimativas de produção para o ano-meta de 2030: em 2005 eram 120 milhões de barris/dia; em 2006 baixou-se para 115 milhões; em 2009 a previsão apontava para não mais do que 105 milhões de barris/dia.
No artigo publicado no Guardian em Novembro de 2009 , intitulado “Key oil figures were distorted by US pressure”, uma fonte não identificada da AIE afirmava que o início do esgotamento do petróleo está muito mais próximo do que aquilo que se diz. E que só não se diz toda a verdade em virtude da pressão exercida pelos Estados Unidos, os quais, desta forma, pretendem evitar o pânico e a pressão sobre os preços.
Num outro artigo, o Guardian publicava as conclusões de um estudo da Universidade de Upsala, que contraria e revê em baixa as previsões da AIE. O artigo baseava-se nos estudos do Dr Kjell Aleklett para concluir que, em 2030, o mundo não extrairá mais do que 75 milhões de barris de petróleo por dia. Ou seja, menos 30 milhões do que aquilo que indicam as previsões da AIE.
Numa apresentação de Dezembro de 2009, o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli de Azevedo, revela um preocupante “deficit” de 35 milhões de barris por dia já em 2020.
Todo este circunstancialismo veio colocar de novo no centro das atenções o problema do pico do petróleo. Tudo começou em 1956 com o alerta de Hubbert King, que anunciou correctamente para 1970 o pico de produção nos Estados Unidos. Seguiu-se em 1957 a esclarecida palestra do contra-almirante Rickover, o pai do submarino nuclear. E finalmente, em 2005, o relatório Hirsh, que concluiu pela necessidade de um largo período de preparação para mitigar os efeitos de uma crise no abastecimento de petróleo.
Estamos a falar do maior desafio que a Humanidade vai ter de enfrentar nos próximos anos. Um desafio que não se resolve com paliativos, nem com hidrogénio, nem com energias renováveis, e possivelmente nem com energia nuclear. Só uma corajosa política de verdade por parte dos dirigentes, e uma mudança nas formas de vida das sociedades, pode contribuir para ajudar a resolver este problema. Preparar a transição com tempo é uma obrigação de todos. Na associação Rio Vivo iremos trabalhar para trilhar esse caminho.
No artigo publicado no Guardian em Novembro de 2009 , intitulado “Key oil figures were distorted by US pressure”, uma fonte não identificada da AIE afirmava que o início do esgotamento do petróleo está muito mais próximo do que aquilo que se diz. E que só não se diz toda a verdade em virtude da pressão exercida pelos Estados Unidos, os quais, desta forma, pretendem evitar o pânico e a pressão sobre os preços.
Num outro artigo, o Guardian publicava as conclusões de um estudo da Universidade de Upsala, que contraria e revê em baixa as previsões da AIE. O artigo baseava-se nos estudos do Dr Kjell Aleklett para concluir que, em 2030, o mundo não extrairá mais do que 75 milhões de barris de petróleo por dia. Ou seja, menos 30 milhões do que aquilo que indicam as previsões da AIE.
Numa apresentação de Dezembro de 2009, o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli de Azevedo, revela um preocupante “deficit” de 35 milhões de barris por dia já em 2020.
Todo este circunstancialismo veio colocar de novo no centro das atenções o problema do pico do petróleo. Tudo começou em 1956 com o alerta de Hubbert King, que anunciou correctamente para 1970 o pico de produção nos Estados Unidos. Seguiu-se em 1957 a esclarecida palestra do contra-almirante Rickover, o pai do submarino nuclear. E finalmente, em 2005, o relatório Hirsh, que concluiu pela necessidade de um largo período de preparação para mitigar os efeitos de uma crise no abastecimento de petróleo.
Estamos a falar do maior desafio que a Humanidade vai ter de enfrentar nos próximos anos. Um desafio que não se resolve com paliativos, nem com hidrogénio, nem com energias renováveis, e possivelmente nem com energia nuclear. Só uma corajosa política de verdade por parte dos dirigentes, e uma mudança nas formas de vida das sociedades, pode contribuir para ajudar a resolver este problema. Preparar a transição com tempo é uma obrigação de todos. Na associação Rio Vivo iremos trabalhar para trilhar esse caminho.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Haiti: um problema de difícil solução
Os lamentáveis sucessos decorrentes do terramoto de Port-au-Prince têm servido para dar a conhecer ao Mundo um país muito pobre e cheio de contradições. O Haiti parece um país deslocado no espaço e no tempo: é um país de africanos longe de África, e é um país de pobres mesmo ao lado do império dos ricos; é um país onde os benefícios do progresso não chegaram, onde a esperança de vida à nascença não ultrapassa os 60 anos, onde o futuro não é risonho para o jovens.
A ilha onde se situa o Haiti é a Ilha Hispaniola onde aportou Colombo, em Dezembro de 1492, quando chegou às Índias Ocidentais e onde, pela primeira vez, tomou contacto com os índios americanos (os quais, passado pouco tempo, desapareceram completamente da ilha).
Os haitianos são hoje 10 milhões, a viver num território do tamanho do Alentejo. Mas em 1950 eram 3 milhões o que mostra bem o elevado crescimento populacional (o Haiti tem a taxa de natalidade mais alta do hemisfério ocidental). 50% do haitianos têm menos de 20 anos e 50% são analfabetos. Existem ainda 2 milhões a viver fora do país, sobretudo na República Dominicana e nos EUA.
O Haiti já terá sido um país, nos séculos XVII e XVIII, agricolamente rico (sobretudo açúcar), e terá sido essa uma das razões que fez levar milhares de escravos para a ilha. Mas hoje o solo está esgotado, erodido e empobrecido pela desflorestação e pela agricultura intensiva. Uma escassa produção agrícola (café, manga) é insuficiente para alimentar a população; 40% do orçamento do Haiti é assegurado pela ajuda internacional; 1% dos mais ricos detêm 50% da riqueza. Isto ilustra bem as contradições existentes.
Se tivesse ocorrido há mais de 100 anos a destruição de Port-au-Prince seria um processo irreversível. A selva voltaria a crescer no lugar dos edifícios tal como cresceu nas cidades abandonadas dos Maias. E os haitianos estariam condenados a estiolar à míngua de recursos. Seria mais um exemplo de colapso social à semelhança de tantos que se verificaram ao longo da história da Humanidade.
Mas neste tempo de globalização a tragédia entra nas nossas casas, e o mundo não pode ficar indiferente. Os países mais ricos, com os EUA à frente, vão, por isso, reconstruir o Haiti, e já se fala de um novo plano Marshall. A ajuda americana será acima de tudo concretizada por uma forte injecção de dólares, a reconstrução será feita com materiais americanos e até servirá para ajudar a estimular a economia americana e a criar emprego. Mas aos americanos interessa sobretudo evitar a emigração em massa dos haitianos para os Estados Unidos.
Hoje, o Haiti é claramente um país com uma população acima da sua capacidade de carga, um forte candidato a uma ruptura eminente. A sua população, a manter-se a actual taxa de natalidade, será de 20 milhões daqui a 50 anos. Ora o bom senso mostra que isto é uma impossibilidade económica e ecológica. Dá que pensar e revela a dimensão do problema para o qual é difícil antever uma solução.
O futuro do Haiti é, pois, sombrio. Ajudar o Haiti, como tem sido feito até agora, é uma solução transitória, e nada resolve a longo prazo. A ferida está aberta, mas não se pense que isto é só um problema dos haitianos. Mais tarde ou mais cedo, as réplicas deste tremor de terra irão chegar ao mundo dos ricos. Porque o Haiti faz parte de todos nós. E se o Haiti colapsar tal não será bom para ninguém. O mundo inteiro, quando chegar a hora, pagará a factura. Possivelmente mais cedo do que se imagina.
A ilha onde se situa o Haiti é a Ilha Hispaniola onde aportou Colombo, em Dezembro de 1492, quando chegou às Índias Ocidentais e onde, pela primeira vez, tomou contacto com os índios americanos (os quais, passado pouco tempo, desapareceram completamente da ilha).
Os haitianos são hoje 10 milhões, a viver num território do tamanho do Alentejo. Mas em 1950 eram 3 milhões o que mostra bem o elevado crescimento populacional (o Haiti tem a taxa de natalidade mais alta do hemisfério ocidental). 50% do haitianos têm menos de 20 anos e 50% são analfabetos. Existem ainda 2 milhões a viver fora do país, sobretudo na República Dominicana e nos EUA.
O Haiti já terá sido um país, nos séculos XVII e XVIII, agricolamente rico (sobretudo açúcar), e terá sido essa uma das razões que fez levar milhares de escravos para a ilha. Mas hoje o solo está esgotado, erodido e empobrecido pela desflorestação e pela agricultura intensiva. Uma escassa produção agrícola (café, manga) é insuficiente para alimentar a população; 40% do orçamento do Haiti é assegurado pela ajuda internacional; 1% dos mais ricos detêm 50% da riqueza. Isto ilustra bem as contradições existentes.
Se tivesse ocorrido há mais de 100 anos a destruição de Port-au-Prince seria um processo irreversível. A selva voltaria a crescer no lugar dos edifícios tal como cresceu nas cidades abandonadas dos Maias. E os haitianos estariam condenados a estiolar à míngua de recursos. Seria mais um exemplo de colapso social à semelhança de tantos que se verificaram ao longo da história da Humanidade.
Mas neste tempo de globalização a tragédia entra nas nossas casas, e o mundo não pode ficar indiferente. Os países mais ricos, com os EUA à frente, vão, por isso, reconstruir o Haiti, e já se fala de um novo plano Marshall. A ajuda americana será acima de tudo concretizada por uma forte injecção de dólares, a reconstrução será feita com materiais americanos e até servirá para ajudar a estimular a economia americana e a criar emprego. Mas aos americanos interessa sobretudo evitar a emigração em massa dos haitianos para os Estados Unidos.
Hoje, o Haiti é claramente um país com uma população acima da sua capacidade de carga, um forte candidato a uma ruptura eminente. A sua população, a manter-se a actual taxa de natalidade, será de 20 milhões daqui a 50 anos. Ora o bom senso mostra que isto é uma impossibilidade económica e ecológica. Dá que pensar e revela a dimensão do problema para o qual é difícil antever uma solução.
O futuro do Haiti é, pois, sombrio. Ajudar o Haiti, como tem sido feito até agora, é uma solução transitória, e nada resolve a longo prazo. A ferida está aberta, mas não se pense que isto é só um problema dos haitianos. Mais tarde ou mais cedo, as réplicas deste tremor de terra irão chegar ao mundo dos ricos. Porque o Haiti faz parte de todos nós. E se o Haiti colapsar tal não será bom para ninguém. O mundo inteiro, quando chegar a hora, pagará a factura. Possivelmente mais cedo do que se imagina.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
O terceiro choque petrolífero
Nos anais da história económica, o ano de 2008 vai ficar assinalado como o ano do terceiro choque petrolífero. O primeiro ocorreu em 1973, na sequência do embargo de fornecimento ao Ocidente por parte dos países árabes. O segundo teve lugar em 1980 e está associado aos cortes de produção de crude, como resultado do conflito armado que opôs o Irão ao Iraque.
Mais do que um choque, o que aconteceu em 2008, no plano energético, foi um verdadeiro tsunami. O preço do crude, que atingiu 147 dólares por barril em Julho de 2008, foi a crista duma vaga destruidora que se abateu sobre a economia mundial. No entanto não parece existir uma causa única e directa, facilmente identificável, para este terceiro choque. É certo que a escalada dos preços ocorreu após o desencadear da crise financeira nos EUA, que ficou conhecida pela crise do subprime, em que terá havido uma forte pressão especulativa sobre os preços das matérias-primas. Mas a relação de causa e efeito entre estes dois acontecimentos ainda não é clara.
A explicação poderá também estar associada ao elevado crescimento das economias emergentes, sobretudo da China e da Índia, que levou a uma pressão na procura de crude por carência energética. Uma consequência dessa carência foi a reactivação do consumo de carvão. Entre 2001 e 2006, este consumo teve um crescimento espectacular de 5,5% ao ano, contrariando a tendência anterior de estagnação na década anterior, em que o crescimento do consumo de carvão se ficara, em média, pelos 1% ao ano.
Em 2008, no auge da alta de preços, falou-se insistentemente no pico da produção de petróleo como principal causa do aumento do seu preço. Estranhava-se que apesar da elevada cotação da matéria-prima, desde 2004 que a produção teimasse em estagnar nos 86 milhões de barris por dia. E era evidente que as novas áreas de produção de Angola e da Ásia Central dificilmente compensavam as perdas em áreas produtoras tradicionais, como o México e o Mar do Norte.
Os preços do petróleo recuaram e o consumo diminuiu. Recorde-se que também após o segundo choque, em 1980, houve uma quebra nos preços e no consumo de petróleo. O mundo assistiu então ao rápido desenvolvimento de novas áreas de exploração fora da OPEC, nomeadamente no Golfo do México, no Alasca, e sobretudo no Mar do Norte. Foi também após 1980 que se assistiu ao acelerado desenvolvimento da exploração do gás natural, que aliviou muito a pressão sobre a procura de petróleo. Também nesse período se verificou a entrada em actividade de muitas centrais nucleares, sector que entre 1980 e 1985 duplicou a sua importância. Tudo isso permitiu relançar a economia mundial que prosperou nas duas décadas seguintes.
As perspectivas apresentam-se agora com tons mais sombrios. Para o Dr. Fatih Birol, economista chefe da Agência Internacional de Energia (AIE), a crise financeira e o baixo preço do petróleo já estão a provocar adiamentos em projectos de exploração em empresas independentes, e também no Médio Oriente. A crise, e a premência da sua ultrapassagem, veio relegar para segundo plano muitas das preocupações dos governos, no plano das energias alternativas e da eficiência energética.
Em particular para o petróleo, ele antevê um mar de dificuldades. As grandes jazidas estão a esgotar-se ao ritmo de 6,4% ao ano. E antecipa que esse esgotamento vai acelerar-se no futuro, porque se extrai agora mais petróleo em jazidas mais pequenas, e em plataformas marítimas, onde os ciclos de exploração têm períodos mais curtos. Só para compensar esse esgotamento, diz Birol, vai ser necessário desenvolver, até 2030, novos projectos capazes de produzir 45 milhões de barris por dia, o equivalente à produção de quatro Arábias Sauditas. Além desse valor, será ainda necessário produzir diariamente mais 20 milhões de barris, para satisfazer o natural aumento da procura.
Ou seja: cerca de 60% do petróleo a produzir em 2030 terá ainda que ser encontrado, ou colocado em exploração; e para conseguir tal objectivo será necessário investir; porém, o investimento só será possível com preços do barril acima dos 80 dólares, aceites como custo marginal para produzir um novo barril de crude.
Vive-se hoje no mundo um angustiante clima de recessão. Para sair desta situação, urge recuperar o crescimento económico. E essa recuperação vai depender do crescimento da produção de energia. O tsunami de 2008 está agora na fase de regressão, e deixou o lodo a descoberto. Esperemos que não tenha réplicas.
Mais do que um choque, o que aconteceu em 2008, no plano energético, foi um verdadeiro tsunami. O preço do crude, que atingiu 147 dólares por barril em Julho de 2008, foi a crista duma vaga destruidora que se abateu sobre a economia mundial. No entanto não parece existir uma causa única e directa, facilmente identificável, para este terceiro choque. É certo que a escalada dos preços ocorreu após o desencadear da crise financeira nos EUA, que ficou conhecida pela crise do subprime, em que terá havido uma forte pressão especulativa sobre os preços das matérias-primas. Mas a relação de causa e efeito entre estes dois acontecimentos ainda não é clara.
A explicação poderá também estar associada ao elevado crescimento das economias emergentes, sobretudo da China e da Índia, que levou a uma pressão na procura de crude por carência energética. Uma consequência dessa carência foi a reactivação do consumo de carvão. Entre 2001 e 2006, este consumo teve um crescimento espectacular de 5,5% ao ano, contrariando a tendência anterior de estagnação na década anterior, em que o crescimento do consumo de carvão se ficara, em média, pelos 1% ao ano.
Em 2008, no auge da alta de preços, falou-se insistentemente no pico da produção de petróleo como principal causa do aumento do seu preço. Estranhava-se que apesar da elevada cotação da matéria-prima, desde 2004 que a produção teimasse em estagnar nos 86 milhões de barris por dia. E era evidente que as novas áreas de produção de Angola e da Ásia Central dificilmente compensavam as perdas em áreas produtoras tradicionais, como o México e o Mar do Norte.
Os preços do petróleo recuaram e o consumo diminuiu. Recorde-se que também após o segundo choque, em 1980, houve uma quebra nos preços e no consumo de petróleo. O mundo assistiu então ao rápido desenvolvimento de novas áreas de exploração fora da OPEC, nomeadamente no Golfo do México, no Alasca, e sobretudo no Mar do Norte. Foi também após 1980 que se assistiu ao acelerado desenvolvimento da exploração do gás natural, que aliviou muito a pressão sobre a procura de petróleo. Também nesse período se verificou a entrada em actividade de muitas centrais nucleares, sector que entre 1980 e 1985 duplicou a sua importância. Tudo isso permitiu relançar a economia mundial que prosperou nas duas décadas seguintes.
As perspectivas apresentam-se agora com tons mais sombrios. Para o Dr. Fatih Birol, economista chefe da Agência Internacional de Energia (AIE), a crise financeira e o baixo preço do petróleo já estão a provocar adiamentos em projectos de exploração em empresas independentes, e também no Médio Oriente. A crise, e a premência da sua ultrapassagem, veio relegar para segundo plano muitas das preocupações dos governos, no plano das energias alternativas e da eficiência energética.
Em particular para o petróleo, ele antevê um mar de dificuldades. As grandes jazidas estão a esgotar-se ao ritmo de 6,4% ao ano. E antecipa que esse esgotamento vai acelerar-se no futuro, porque se extrai agora mais petróleo em jazidas mais pequenas, e em plataformas marítimas, onde os ciclos de exploração têm períodos mais curtos. Só para compensar esse esgotamento, diz Birol, vai ser necessário desenvolver, até 2030, novos projectos capazes de produzir 45 milhões de barris por dia, o equivalente à produção de quatro Arábias Sauditas. Além desse valor, será ainda necessário produzir diariamente mais 20 milhões de barris, para satisfazer o natural aumento da procura.
Ou seja: cerca de 60% do petróleo a produzir em 2030 terá ainda que ser encontrado, ou colocado em exploração; e para conseguir tal objectivo será necessário investir; porém, o investimento só será possível com preços do barril acima dos 80 dólares, aceites como custo marginal para produzir um novo barril de crude.
Vive-se hoje no mundo um angustiante clima de recessão. Para sair desta situação, urge recuperar o crescimento económico. E essa recuperação vai depender do crescimento da produção de energia. O tsunami de 2008 está agora na fase de regressão, e deixou o lodo a descoberto. Esperemos que não tenha réplicas.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
O psicodrama das obras públicas
Há uns meses atrás, assisti no auditório da estação do metro do Alto dos Moinhos a uma mesa redonda sobre um tema candente: as prioridades nos investimentos previstos para as Obras Públicas. O evento foi promovido pela Adfer, a Associação dos Amigos do Caminho de Ferro. Na mesa, três economistas, estavam em maioria: Eduardo Catroga, António Mendonça (à época ainda não era Ministro das Obras Públicas) e Victor Bento. Ao team dos engenheiros pertencia o anfitrião, Mário Lopes, da Adfer, acompanhado por Fernando Santo, o bastonário da Ordem.
Disse-se que o TGV para Madrid foi negociado à pressa. Que ele interessa sobretudo aos espanhóis, correndo nós o risco de passarmos a ser mais uma região autónoma de Espanha. Que o mesmo não será rentável, tendo em vista a escassa utilização da auto-estrada A6. E que a situação económica do país não aconselha a sua construção. Diz Catroga, Bento reforça: - Não se construa, pelo menos para já!
Discorda Mendonça: - Pois construa-se! É uma oportunidade a não perder, porque o pior é ficarmos parados! Vejam só o que teria sido, se não se tivesse construído a ponte 25 de Abril! Vamos deixar aos nossos filhos o passivo, é certo, mas vamos deixar-lhes também os activos! Olhem para o caso da Irlanda, não quis fazer auto-estradas, investiu na tecnologia e na educação, e agora está pior que nós. E ainda por cima não tem obra feita.
Uma voz na assistência chama à colação a “falácia” do novo aeroporto, e logo explana o conceito: é uma mentira apresentada como se fosse uma verdade. Quando a verdade é que a procura de passageiros está a diminuir. - Aguente-se a Portela, temos tempo! Façam-se os estudos de pormenor para evitar derrapagens nos custos!
- Nada disso – alguém replica -, haja juízo, o aeroporto é a nossa janela para o mundo, temos de o construir, pensemos no turismo! - Pois que se faça – já concedera a Adfer - mas corrija-se o absurdo da TTT (terceira travessia do Tejo) para o Barreiro! Lance-se a nova ponte para o Montijo, mais directa, mais barata, mais elegante, e leve-se a linha do Norte pela margem esquerda até alturas de Santarém!
Algum consenso chegou quanto às novas auto-estradas: acabar com exageros, e considerar apenas as excepções. E, se é verdade que o plano rodoviário só está cumprido em 60%, também é verdade que a dívida externa, de 60% do PIB há dois anos, ronda agora os 100%.
Consenso existiu também, no mais simples e trivial: as exportações portuguesas para a Europa além Pirenéus, através da ferrovia, valem zero, por causa da bitola ibérica que é diferente da europeia. Mude-se pois a bitola para a da rede europeia, refaça-se a ferrovia pelo caminho natural para a Europa por Vilar Formoso, e negoceie-se com urgência a continuação espanhola, entre Fuentes e Valladolid. Porém esta questão, que deferia ser prioritária, parece arredada da discussão, nas mais altas instâncias governamentais.
Registe-se ainda um alerta do bastonário da Ordem dos Engenheiros: Portugal importa 85% da energia que utiliza, e 75% dos bens alimentares que chegam às nossas mesas, uma vez que se destruiu o sistema produtivo no sector agrícola e nas pescas. Estamos falidos e pobres, mas temos ambições de ricos, parecia querer dizer. Foi, na minha opinião, o momento mais alto da sessão.
Catroga, professor, ensinou ainda que a ultima vez que Portugal teve uma balança comercial positiva foi no inicio dos anos 40, durante a guerra. Que a década terminada em 2007 foi, em termos de crescimento, a pior dos últimos 80 anos. E que só em 2014, na melhor das hipóteses, o nosso PIB vai regressar aos valores de 2007. No meio da discussão entre dois economistas, que avaliavam o impacto futuro das obras públicas no PIB, falava um de 0,1%, enquanto o outro subia a parada para 8,3%. Aqui fica o registo, apenas para ilustrar a ordem de grandeza da baralhação.
Estas coisas só acontecem assim, concluo eu, porque falta às elites dirigentes uma estratégia para o país. Uma linha geral, um rumo, uma orientação colectiva. Aos políticos apenas preocupam as próximas eleições. Os economistas e engenheiros fazem lembrar autistas centrados no umbigo. Faltaram juristas no debate, é verdade, a esgrimir subtilezas retóricas. Para os cidadãos restantes, sobra apenas o conselho de Einstein: se querem resolver um problema, não confiem a solução àqueles que o criaram.
Disse-se que o TGV para Madrid foi negociado à pressa. Que ele interessa sobretudo aos espanhóis, correndo nós o risco de passarmos a ser mais uma região autónoma de Espanha. Que o mesmo não será rentável, tendo em vista a escassa utilização da auto-estrada A6. E que a situação económica do país não aconselha a sua construção. Diz Catroga, Bento reforça: - Não se construa, pelo menos para já!
Discorda Mendonça: - Pois construa-se! É uma oportunidade a não perder, porque o pior é ficarmos parados! Vejam só o que teria sido, se não se tivesse construído a ponte 25 de Abril! Vamos deixar aos nossos filhos o passivo, é certo, mas vamos deixar-lhes também os activos! Olhem para o caso da Irlanda, não quis fazer auto-estradas, investiu na tecnologia e na educação, e agora está pior que nós. E ainda por cima não tem obra feita.
Uma voz na assistência chama à colação a “falácia” do novo aeroporto, e logo explana o conceito: é uma mentira apresentada como se fosse uma verdade. Quando a verdade é que a procura de passageiros está a diminuir. - Aguente-se a Portela, temos tempo! Façam-se os estudos de pormenor para evitar derrapagens nos custos!
- Nada disso – alguém replica -, haja juízo, o aeroporto é a nossa janela para o mundo, temos de o construir, pensemos no turismo! - Pois que se faça – já concedera a Adfer - mas corrija-se o absurdo da TTT (terceira travessia do Tejo) para o Barreiro! Lance-se a nova ponte para o Montijo, mais directa, mais barata, mais elegante, e leve-se a linha do Norte pela margem esquerda até alturas de Santarém!
Algum consenso chegou quanto às novas auto-estradas: acabar com exageros, e considerar apenas as excepções. E, se é verdade que o plano rodoviário só está cumprido em 60%, também é verdade que a dívida externa, de 60% do PIB há dois anos, ronda agora os 100%.
Consenso existiu também, no mais simples e trivial: as exportações portuguesas para a Europa além Pirenéus, através da ferrovia, valem zero, por causa da bitola ibérica que é diferente da europeia. Mude-se pois a bitola para a da rede europeia, refaça-se a ferrovia pelo caminho natural para a Europa por Vilar Formoso, e negoceie-se com urgência a continuação espanhola, entre Fuentes e Valladolid. Porém esta questão, que deferia ser prioritária, parece arredada da discussão, nas mais altas instâncias governamentais.
Registe-se ainda um alerta do bastonário da Ordem dos Engenheiros: Portugal importa 85% da energia que utiliza, e 75% dos bens alimentares que chegam às nossas mesas, uma vez que se destruiu o sistema produtivo no sector agrícola e nas pescas. Estamos falidos e pobres, mas temos ambições de ricos, parecia querer dizer. Foi, na minha opinião, o momento mais alto da sessão.
Catroga, professor, ensinou ainda que a ultima vez que Portugal teve uma balança comercial positiva foi no inicio dos anos 40, durante a guerra. Que a década terminada em 2007 foi, em termos de crescimento, a pior dos últimos 80 anos. E que só em 2014, na melhor das hipóteses, o nosso PIB vai regressar aos valores de 2007. No meio da discussão entre dois economistas, que avaliavam o impacto futuro das obras públicas no PIB, falava um de 0,1%, enquanto o outro subia a parada para 8,3%. Aqui fica o registo, apenas para ilustrar a ordem de grandeza da baralhação.
Estas coisas só acontecem assim, concluo eu, porque falta às elites dirigentes uma estratégia para o país. Uma linha geral, um rumo, uma orientação colectiva. Aos políticos apenas preocupam as próximas eleições. Os economistas e engenheiros fazem lembrar autistas centrados no umbigo. Faltaram juristas no debate, é verdade, a esgrimir subtilezas retóricas. Para os cidadãos restantes, sobra apenas o conselho de Einstein: se querem resolver um problema, não confiem a solução àqueles que o criaram.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Automóveis eléctricos
Contrariamente ao que sucedeu na informática ou nas telecomunicações, a tecnologia dos transportes e o motor de combustão interna pouco evoluíram nos últimos 100 anos. Mas podemos estar a viver no limiar de uma grande transformação: o surgimento do veículo eléctrico rodoviário, como forma massiva de transporte de passageiros, para substituir o automóvel a gasóleo ou gasolina.
Neste momento parecem estar finalmente criadas as condições técnicas e políticas, sem dúvida originadas pela degradação económica que se vive a nível global, para que se dê esse salto tecnológico. As modernas baterias de iões de lítio, com elevada capacidade de armazenagem e com um impressionante número de 7000 ciclos de carga, poderão ter uma vida útil de mais de 200.000 km. O veículo eléctrico ainda estará longe do desempenho dos actuais, mas parece que se vai no bom caminho. As vantagens são a maior eficiência energética, menos poluição e manutenção mais barata.
O passo seguinte será assegurar uma boa rede de abastecimento dos veículos, incluindo cargas rápidas (apenas alguns minutos) em estações de alta voltagem, e garantir uma produção eléctrica ajustada à nova realidade.
Um automóvel propulsionado por um motor eléctrico consumirá 200 watt-hora de energia por quilómetro. Contas feitas, os cerca de 5 milhões de veículos ligeiros de passageiros do nosso parque automóvel, circulando em média 12.000 km por ano, consumirão cerca de 12 Terawatt-hora de energia eléctrica, que é um quarto da que se consome em cada ano actualmente em Portugal.
Não considerando as perdas resultantes da sua integração na rede e no transporte, esta energia não andará longe daquilo que pode ser a produção de uma central nuclear de 1,5 Gigawatt de potência. Ou, em alternativa, a que produzem 5.000 turbinas eólicas de potência média de 1 Megawatt e um factor de rendimento de 30%.
Na situação actual, o consumo dos automóveis ligeiros de passageiros do nosso parque é assegurado pela refinação de uns 100.000 barris de petróleo por dia, cuja combustão lança para a atmosfera mais de 30 mil toneladas de CO2.
A electricidade não é uma energia primária, pois não existe na natureza. Tem de ser produzida. Ela é, contudo, a forma mais conveniente de agregar e distribuir todas as outras formas de energia. Para satisfazer a procura em cada minuto do dia, a gestão da produção tem que ser feita de forma centralizada: por exemplo, fechar as turbinas hidráulicas quando sopra o vento, ou abri-las em dias de calmaria.
Por isso a rede eléctrica será certamente o principal suporte da energia no futuro. Muitas serão as energias primárias a contribuir para aquilo que já se designa como smart-grid: barragens, centrais térmicas a carvão, a gás ou biomassa, turbinas eólicas, painéis solares, ou até, quem sabe, uma central nuclear localizada algures em Espanha.
Perante as várias alternativas, há que escolher as formas mais adequadas: mais baratas, menos poluentes, mais seguras e mais complementares em termos de intermitência. Isto é, que melhor se complementem aquando da interrupção conveniente das outras formas de produção. A energia eólica tem ganho uma grande importância e tem vindo a afirmar-se como uma solução viável e cada vez mais adoptada. Presta-se bem a ser combinada com a produção hidráulica, e isso é uma vantagem para Portugal.
Mas, perante as fragilidades que se podem antever para o gás natural, assaz exemplificadas com o recente (e ainda actual) diferendo entre a Rússia e a Ucrânia, o carvão e o nuclear continuarão a ser a base da produção de electricidade, e a opção entre as duas terá que ser discutida, mais tarde ou mais cedo. E quanto mais cedo melhor.
A actual civilização está num importante e complexo ponto de viragem, de que a presente crise económica e financeira é apenas um sinal. Estamos no zénite da era fóssil, e o mundo começa a sentir a urgência de se preparar para sobreviver ao esgotamento, a breve prazo, dos recursos energéticos que moldaram a nossa maneira de viver nos últimos 150 anos.
Neste momento parecem estar finalmente criadas as condições técnicas e políticas, sem dúvida originadas pela degradação económica que se vive a nível global, para que se dê esse salto tecnológico. As modernas baterias de iões de lítio, com elevada capacidade de armazenagem e com um impressionante número de 7000 ciclos de carga, poderão ter uma vida útil de mais de 200.000 km. O veículo eléctrico ainda estará longe do desempenho dos actuais, mas parece que se vai no bom caminho. As vantagens são a maior eficiência energética, menos poluição e manutenção mais barata.
O passo seguinte será assegurar uma boa rede de abastecimento dos veículos, incluindo cargas rápidas (apenas alguns minutos) em estações de alta voltagem, e garantir uma produção eléctrica ajustada à nova realidade.
Um automóvel propulsionado por um motor eléctrico consumirá 200 watt-hora de energia por quilómetro. Contas feitas, os cerca de 5 milhões de veículos ligeiros de passageiros do nosso parque automóvel, circulando em média 12.000 km por ano, consumirão cerca de 12 Terawatt-hora de energia eléctrica, que é um quarto da que se consome em cada ano actualmente em Portugal.
Não considerando as perdas resultantes da sua integração na rede e no transporte, esta energia não andará longe daquilo que pode ser a produção de uma central nuclear de 1,5 Gigawatt de potência. Ou, em alternativa, a que produzem 5.000 turbinas eólicas de potência média de 1 Megawatt e um factor de rendimento de 30%.
Na situação actual, o consumo dos automóveis ligeiros de passageiros do nosso parque é assegurado pela refinação de uns 100.000 barris de petróleo por dia, cuja combustão lança para a atmosfera mais de 30 mil toneladas de CO2.
A electricidade não é uma energia primária, pois não existe na natureza. Tem de ser produzida. Ela é, contudo, a forma mais conveniente de agregar e distribuir todas as outras formas de energia. Para satisfazer a procura em cada minuto do dia, a gestão da produção tem que ser feita de forma centralizada: por exemplo, fechar as turbinas hidráulicas quando sopra o vento, ou abri-las em dias de calmaria.
Por isso a rede eléctrica será certamente o principal suporte da energia no futuro. Muitas serão as energias primárias a contribuir para aquilo que já se designa como smart-grid: barragens, centrais térmicas a carvão, a gás ou biomassa, turbinas eólicas, painéis solares, ou até, quem sabe, uma central nuclear localizada algures em Espanha.
Perante as várias alternativas, há que escolher as formas mais adequadas: mais baratas, menos poluentes, mais seguras e mais complementares em termos de intermitência. Isto é, que melhor se complementem aquando da interrupção conveniente das outras formas de produção. A energia eólica tem ganho uma grande importância e tem vindo a afirmar-se como uma solução viável e cada vez mais adoptada. Presta-se bem a ser combinada com a produção hidráulica, e isso é uma vantagem para Portugal.
Mas, perante as fragilidades que se podem antever para o gás natural, assaz exemplificadas com o recente (e ainda actual) diferendo entre a Rússia e a Ucrânia, o carvão e o nuclear continuarão a ser a base da produção de electricidade, e a opção entre as duas terá que ser discutida, mais tarde ou mais cedo. E quanto mais cedo melhor.
A actual civilização está num importante e complexo ponto de viragem, de que a presente crise económica e financeira é apenas um sinal. Estamos no zénite da era fóssil, e o mundo começa a sentir a urgência de se preparar para sobreviver ao esgotamento, a breve prazo, dos recursos energéticos que moldaram a nossa maneira de viver nos últimos 150 anos.
Subscrever:
Mensagens (Atom)