segunda-feira, 25 de julho de 2016

Alfarrobeira

Aos fins de semana, desde que  deixei de ler a edição em papel do Expresso, a minha horta ganhou mais atenção. A "minha horta" é uma força de expressão: são meia dúzia de metros quadrados roubados ao jardim de uns escassos cinquenta metros quadrados que eu tenho o raro privilégio de cuidar no bairro de Telheiras, em Lisboa. Sem contar com as minhas plantas de estimação- uma bananeira que dá bananas, uma mangueira que dá mangas  e duas jovens anoneiras que ainda não deram nada  - aí cultivo uma dúzia de alhos, meio cento de cebolas, 6  ou 7 tomateiros, 4 feijoeiros, 3 meloeiros e algumas ervas aromáticas. No passado sábado, logo pela manhãzinha iniciei o meu trabalho.  Nesta altura do ano, a horta precisa de cuidados redobrados. É preciso regar, mondar e colher. Dispunha de umas escassas três horas para as minhas tarefas, pois a partir das dez horas o sol abrasador do verão já não consente trabalho a um cidadão urbano pouco habituado ao árduo trabalho do campo.

A primeira tarefa foi a colheita de tomates. A safra deste ano está a ser generosa. Alguns tomateiros vieram de S. Pedro, do alfobre da tia Alice, e são objeto de um carinho especial. São da variedade "coração de boi", grandes, carnudos e muito saborosos. Para fazer inveja aos meus amigos, aqui mostro a produção colhida neste sábado.



Em seguida, aproveitando a terra seca de um vaso,  decidi preparar uma nova  terra enriquecida misturando-a com com a terra preta do meu compostor. Eu guardo neste compostor os restos crus da cozinha e os que resultam do corte  da relva e das podas do jardim, depois de triturados num pequeno triturador. Ao fim de uns meses, a matéria orgânica vai-se decompondo e eu posso retirar da parte inferior do compostor uma argamassa preta que irá servir para incorporar na terra do jardim. Desta vez, misturei uma quantidade de composto - aí uns dez quilos - com a mesma quantidade de terra seca. Depois, usei esta terra enriquecida para tranvasar algumas plantas que estavam a precisar de ser mudadas para vasos maiores.

A terra que sobrou utilizei-a no meu germinador de alvéolos. Coloquei  uma semente de alfarrobeira em cada um dos 80 alvéolos. A alfarrobeira (Ceratonia Siliqua) é uma árvore mediterrânica muito abundante no Sul de Portugal, sobretudo no Algarve  As suas vagens ricas em açúcar, são comestíveis tanto por animais como por humanos, e quando moídas podem ser usadas para fazer pão. A farinha de alfarroba é usada como antidiarreico sobretudo em crianças. Das suas sementes extrai-se uma goma com propriedades especiais e que é utilizada para fabricar pastilhas elásticas.

As minhas sementes tinha-as recolhido com o meu amigo Rodrigo Queiroz em Troia, nas férias do  ano passado. Estou agora esperançado que uma boa percentagem delas germine. Mais tarde, hei-de transferi-las para vasos de enraizamento e, se tudo correr bem,  um dia verei alfarrobeiras a crescer no jardim da minha casa de praia.

Uma alfarrobeira do meu jardim com algumas semanas de germinação, já transvasada

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Turquia

Foi com alguma surpresa - e uma boa dose de preocupação à mistura - que, na sexta-feira passada, muita gente recebeu a notícia da tentativa de um golpe militar na Turquia. Para o cidadão comum - é o meu caso - não parecia previsível que tal pudesse acontecer num país da Nato, encostado à Europa, e candidato a entrar na União Europeia.

No final da Primeira Guerra Mundial, a Turquia foi construída sobre os escombros do derrotado Império Otomano. O seu primeiro Presidente foi Mustafa Kemal Ataturk, um jovem e dinâmico oficial do exército, que introduziu profundas reformas políticas, sociais, culturais e económicas – mudou, por decreto, a forma de vestir tradicional e a antiga escrita árabe - de modo a criar um país moderno inspirado nos padrões ocidentais. A Turquia atual é uma República parlamentar com uma população de mais de 75 milhões de pessoas (censo de 2012) que se distribuem por dois continentes. A capital é Ankara, situada na península da Anatólia, mas a principal cidade é Istambul que, com os seus 15 milhões de habitantes, é a maior cidade da Europa.

A Turquia tem uma grande importância geoestratégica. Os chamados estreitos turcos (Dardanelos, Mar da Mármara e Bósforo) controlam a entrada no Mar Negro, um importante mar interior onde está situada a península da Crimeia. A via marítima formada pelos estreitos constitui o único acesso da Rússia ao Mar Mediterrâneo. A Turquia ocupa uma posição charneira no Médio Oriente e faz fronteira com a Síria, com o Iraque e com o Irão. Além disso, é através deste país que flui muito do petróleo da Ásia Central, estando prevista a construção de novos e importantes oleodutos e gasodutos.

A Turquia faz parte da Nato e é um candidato a entrar na União Europeia, mas as discussões sobre este pedido arrastam-se há muitos anos, e aparentemente sem grandes progressos. Países como a França mantêm uma posição crítica em relação à entrada dos turcos na União e, de tempos a tempos, lembram o genocídio de arménios durante a primeira guerra mundial. Que os turcos nunca assumiram. A Turquia mantém, desde os tempos do Império Otomano, boas relações com a Rússia com que tem fortes relações económicas, e de onde provém uma boa parte do seu turismo. Estão em lados opostos no conflito Sírio - nomeadamente no apoio da Rússia a Bashar Al'Assad . Recentemente, parece estar a verificar-se uma reaproximação de posições – isto, apesar do insólito abate de um avião russo ocorrido há meses atrás na fronteira com a Síria.

O episódio do passado dia 14 de julho acontece, pois, num momento crítico e num local chave, e é essa a razão de ter assustado muita gente. Estão em causa eventuais consequências muito importantes que poderão afetar o equilíbrio na região: as relações com a Rússia e o futuro da cooperação entre os dois países nos domínios energético e militar; as relações com a União Europeia, a evolução do dossier integração e o futuro do acordo recentemente assinado sobre os refugiados; as relações com os Estados Unidos, a permanência na Nato e as facilidades militares cedidas aos americanos. Para não falar da delicada questão curda e do apoio - nunca admitido - que o Estado Islâmico tem encontrado na Turquia.

O presidente Erdogan emerge desta situação como o homem forte. Parece interessado em assumir uma posição não-alinhada, e querer repor um regime de concentração de poderes à semelhança dos sultões do antigo Império Otomano. Já se fala em reintroduzir a pena de morte, um claro sinal de retrocesso civilizacional. E tudo leva a crer que seja reforçado o condicionamento dos mídia, a ilegalização de partidos e a criminalização dos delitos de opinião. Aliás, as purgas a que estamos a assistir fazem lembrar o que aconteceu na Alemanha dos anos 30, na sequência do incêndio do Reichstag em Berlim, quando Hitler se aproveitou do caso para eliminar os seus inimigos internos. Viviam-se, nessa altura, tempos conturbados e muitos já veem nas prisões de milhares de juízes e soldados o ressuscitar de fantasmas que acreditávamos definitivamente enterrados.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Um País à Deriva

A palestra de encerramento do ciclo de conferências "Que Portugal queremos ser? Que Portugal vamos ter?", promovidas pelo Grémio Literário, pelo Clube Português de Imprensa e pelo Centro Nacional de Cultura, coube a Rui Ramos, historiador e comentador, que, no passado dia 28 de junho, optou por abordar o tema numa perspetiva histórica focalizada nos últimos duzentos anos.

A imagem que o orador nos deixou do Portugal daquele período foi a de um país que se esforçava permanentemente em importar e adaptar os padrões económicos, sociais e culturais vigentes na Europa Central, a qual vivia o surto de progresso da Revolução Industrial: uma constituição à semelhança da França; um regime parlamentar à semelhança da Inglaterra; a escola pública, a rede ferroviária, as ideias liberais, a difusão da imprensa, as comunicações, impulsionadas pelo telégrafo e pelo telefone e as tecnologias associadas à eletricidade, que se disseminavam um pouco por toda a parte. O século XIX - sobretudo a partir das lutas liberais - foi, no nosso país, o tempo dessa adaptação, marcada por uma luta entre a elite progressista dos inovadores e os saudosistas do antigo regime. A famosa Geração de 70 deixou-nos como referência a célebre conferência proferida por Antero de Quental sobre "As causas da decadência dos povos peninsulares" e a ironia fina da prosa de Eça de Queirós que tão bem retrata as duas correntes em confronto.

Os anos do pós-guerra, já no século passado, trouxeram à Europa uma nova e enorme transformação. A reconstrução iniciada com o plano Marshall e impulsionada pela energia fóssil – nomeadamente, pelo petróleo e pelo automóvel - conduzem a uma sociedade mais urbana, mais escolarizada, já com um sistema de apoio social. Surge, por essa altura, a ideia de uma Europa Unida, e o Portugal de Salazar, apesar do dilema colocado pela manutenção das colónias africanas, não tem outra solução senão a inovação e uma lenta aproximação à Europa. O instrumento encontrado para esse fim são os conhecidos Planos de Fomento com as suas reformas na administração, na educação, na saúde, nas grandes obras, na agricultura, na indústria e nas vias de comunicação. Em 1960, Portugal adere à EFTA, uma zona de comércio livre impulsionada pela Inglaterra. O então ministro Correia de Oliveira - que participou ativamente nas negociações para a adesão à EFTA - considerava que a Europa e a continuação da nossa presença em África eram desejáveis e compatíveis para Portugal.

Entretanto, a emigração para a Europa aumenta fortemente e, ela própria, é um contributo para a integração. Perante este surto de desenvolvimento e progresso – o País registou, nesse período, as taxas de crescimento do PIB mais elevadas da sua história - a oposição está dividida entre apoiar ou rejeitar a política económica da ditadura. O Partido Socialista, adepto de uma linha europeísta, funda-se em 1973 na Alemanha, apoiado por partidos europeus.

Após o 25 de Abril, na confusão do período do PREC, Portugal torna-se um país à deriva, sem saber se deve rumar para África, para a Europa ou para o Terceiro Mundo - na altura alinhado com a esfera soviética. Porém, rapidamente se tornou claro que só a opção Europa era compatível com a democracia. Em 1977, Portugal pede a adesão à CEE, e a concretização desse objetivo passa a ser o grande projeto nacional. Seguem-se grandes reformas estruturais que recuperam a ideia dos planos de fomento da ditadura – conduzidas ainda, nalguns casos, pelas mesmas pessoas que os tinham concebido como foi o caso, entre outros, do economista José da Silva Lopes. O período 1986-1992 foi um período de grande euforia que viu nascer um País novo. A comemoração do dia de Portugal, em 10 de junho, reflete, de alguma forma, os novos tempos. Antes evocativo do passado imperial, saudosista, passou a simbolizar o Portugal das comunidades, do sucesso das novas elites, da prosperidade, dos campeões.

Todavia, a crise que adveio nos anos mais recentes volta a colocar interrogações. Muitos já perguntam se o projeto Europeu ainda faz sentido? Para Rui Ramos, a resposta é, definitivamente, afirmativa: Portugal tem de ser a casa comum de todos os portugueses. Porém, para isso precisa de estabilidade e, agora, também da Europa, entendida esta não apenas como uma democracia formal, mas como um espaço que defenda e proteja a democracia. Esta Europa trouxe a paz ao continente europeu, e em tempo algum os seus povos viveram uma situação melhor!

Também eu estou convicto que não há portugalxit possível. Mas, fala-se e discute-se ainda como se houvesse. Os políticos digladiam-se ainda entre si, lutando pelo poder e pelas suas benesses como se fôssemos um país soberano. Na realidade teimamos em não querer discutir o Portugal que queremos ser. E isso mergulha-nos na angústia e ansiedade que suscitam a imprevisibilidade do Portugal que vamos ter.

Saio desta última conferência com a convicção de que Portugal está condenado a ser um país inconformado, hesitante, sem rumo e sem consensos. Como se tivéssemos de cumprir este fado de ser um país à deriva, recusando a praxis que nos oferecem. Como se fizesse parte dos nossos genes a crença sebastianista e saudosista de que Portugal só se cumprirá nas névoas do Quinto Império...

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Brexit

O Brexit acontece em contracorrente com a lógica da evolução natural da economia e do progresso civilizacional. A economia exige mais globalização, porém, o Brexit vai no caminho oposto. O mundo exige mais integração e mais diálogo; com o Brexit um país isola-se e fecha-se aos outros. O mundo apela ao fim das fronteiras; o sentido do Brexit orienta-se para o reerguer de muros e para a colocação de barreiras. A transição, necessária para um futuro de prosperidade, exige mais igualdade e mais solidariedade. O Brexit foi uma escolha egoísta dos mais favorecidos para proteger as suas regalias e direitos em detrimento dos mais desfavorecidos. Quando tudo isto é feito em nome da democracia e do sagrado direito dos povos a escolher o seu destino, nós perguntamos se a democracia pode ser usada em todas as circunstâncias? E até se, em situações como esta, não servirão para a enfraquecer?

A laboriosa e lenta construção da Europa foi iniciada há 70 anos sobre os escombros da devastação produzida na Segunda Guerra Mundial. A Holanda, a Bélgica, a França, o Reino Unido tinham perdido, ou estavam em vias de perder, as suas colónias na Oceânia, na Ásia e em África. O acentuar da sua dependência energética era previsível, visto que escasseavam na Europa os combustíveis fósseis, nomeadamente o carvão e o petróleo (pois ainda não se tinham descoberto as jazidas do Mar do Norte). A guerra tinha produzido duas novas super potências: os Estados Unidos e a União Soviética. Qualquer delas com um poderio militar e económico muito superior ao do conjunto dos países europeus. A linha que as separava - "uma cortina de ferro que se estendia desde Stettin, no Báltico, até Trieste, no Adriático (discurso de Churchill, 1946) "- dividia a Europa ao meio. Em 1949, os norte-americanos lançaram o Plano Marshall que permitiu aos europeus uma rápida recuperação das suas economias para os níveis anteriores ao conflito. No dia 9 de maio de 1950, cinco anos após a rendição do regime nazi, Robert Schuman lançou um apelo à Alemanha Ocidental e aos países europeus para que instituíssem uma única autoridade comum para administração das respectivas produções de aço e carvão. Assim nasceu a CECA, Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, assinada por seis países: França, Alemanha, Itália e os três países do Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo).

O impulso mais importante tem lugar em 1957 com a assinatura do Tratado de Roma. Os países constituintes da Europa dos Seis decidem avançar na cooperação nos domínios económico, social e político. Os acordos tinham como objetivo implantar um mercado comum, que permitisse a livre circulação de pessoas, bens e capitais. A Comunidade Económica Europeia (CEE) foi a entidade internacional instituída por este tratado, de tipo supranacional e dotada de capacidade autónoma de financiamento.

Para muitos dos países que - como é o caso de Portugal – hoje integram a União Europeia, a adesão à Europa e ao Euro significou a promessa de um futuro de paz com uma prosperidade sem fim. Mas, agora, esse futuro apresenta-se incerto e perigoso. A recessão, que nos anos recentes se abateu sobre a economia mundial, está a produzir insegurança no emprego, nas reformas e a fragilidade do sector financeiro; a austeridade e as migrações agravaram o descontentamento de muitas pessoas, sobretudo da classe média. Para muitas delas, o capitalismo e a Europa que o representa são o bode expiatório. Os indignados, que fazem crescer, por toda a parte, partidos de um novo tipo, não são os filhos da classe operária, mas são os filhos dos revolucionários do maio de 68 que prosperaram no capitalismo. E ainda não perceberam que, sem uma Europa coesa e forte, o futuro que os espera só pode ser pior.

Um dia, algum iluminado quererá referendar o fim da miséria, do sofrimento e, quiçá, até da Morte. O sim, como resposta a estes anseios ancestrais, até pode vencer. Mas, não será por isso que entraremos no Paraíso ou alcançaremos a Vida Eterna.


quarta-feira, 22 de junho de 2016

Informação e Poscapitalismo

No livro Pós-capitalismo: um guia para o nosso futuro, Paul Mason diz que estamos no fim de um ciclo económico e na alvorada de um novo. A informação, no entender de Mason, será o produto inovador que  ficará associado ao novo ciclo.  Na verdade, mais do que de um ciclo, o jornalista fala  de uma transformação da essência do capitalismo que dará origem ao pós-capitalismo. O homem culto e informado será o agente dessa transformação.

 A primeira pergunta que me ocorre é a seguinte: como será um mundo em que a economia é dominada pela informação? A resposta será dada pela própria dinâmica do capitalismo, e pela sua capacidade de adaptar-se e evoluir dentro do novo modelo.  Mais do que um produto, vejo na informação uma ferramenta que cria um ambiente ou um contexto novo nas relações entre as pessoas e as organizações.  Algo de semelhante ao que ocorreu com o aparecimento da escrita, que permitiu criar, preservar e transmitir registos sobre pessoas, acontecimentos e negócios. Mais tarde, associada à escrita, surgiu a grafia dos números e o cálculo. A escrita e a matemática, num dado momento, influenciaram a filosofia, a política, a justiça, a religião e o comércio. E alavancaram, de uma forma decisiva e irreversível, o curso da civilização. Com a revolução digital – afinal é disso que falamos! –, a sociedade sofrerá um novo e decisivo impulso ; nada voltará a ser como dantes.

Pensando na economia, e vistas as coisas de uma forma simplificada, verificamos que o comércio de bens e serviços é regulado por leis universais. Em primeiro lugar, pela lei da oferta e da procura, que ao formar os preços desses bens e serviços estabelece equilíbrios. Os produtores e os consumidores são os agentes económicos; o  mercado é o cenário onde a ação decorre. Após a Revolução Industrial, a produção em massa  passou a socorrer-se da comunicação para divulgar a oferta e criar a procura. Nasceu assim o marketing e a publicidade, um sector que, num ciclo que parece estar agora a fechar-se, foi motor gerador de investimentos e de emprego.  Foi a época dourada do desenvolvimento da comunicação social em que muito se falou de  emissores, recetores, meios  e mensagens.

 Ora, tudo isto parece estar a mudar. Numa sociedade dominada pela informação os produtos falam por si, apresentam-se e vendem-se a eles próprios; a  comunicação e o comércio tendem a fundir-se e o mercado transforma-se num espaço dinâmico, fluido e supranacional.  Por outro lado, a globalização associada à informação ameaça diluir as fronteiras entre Estados, põe em causa a fiscalidade, e, no final, poderá influenciar as relações de trabalho e inviabilizar o estado social. Numa sociedade de homens e mulheres cultos e informados,  até a democracia de um homem um voto pode deixar de fazer sentido.

Mais do que um avanço quantitativo - na senda do tão almejado crescimento da riqueza produzida - estamos perante um salto qualitativo, aquilo a que chamei a quarta revolução, depois da linguagem, da escrita e da imprensa. Nesse aspeto, ele difere do salto quantitativo que esteve na origem do capitalismo, e que foi o input energético trazido, primeiro pelo carvão, depois pelo petróleo e pelo gás natural.

Irá o capitalismo sobreviver ao salto qualitativo da sociedade da informação? Acredito que, no novo modelo, haverá ganhos de eficiência, sobretudo no plano energético, mas que não serão suficientes para diminuir a pegada ecológica, pois tal como postula o paradoxo de Jevons, "o aumento de eficiência na utilização de um recurso leva a um aumento do consumo global desse recurso". Se tal acontecer, a ameaça das alterações climáticas não vai ser mitigada e serão muitas as mudanças que irão ocorrer nos planos político, social e laboral. O maior de todos os riscos tem a ver com a complexidade tecnológica necessária para manter e desenvolver uma sociedade de informação. Tenho presentes as ideias de Joseph Tainter e a sua teoria que afirma: quando os custos de aumentar a complexidade superam as vantagens que ela traz a sociedade tende a colapsar. O caminho para a Era da informação não se apresenta nada fácil.  Mas, como não se vislumbra outro, vamos ter de o percorrer.


terça-feira, 14 de junho de 2016

A Agenda de Bilderberg

O grupo de Bilderberg é um grupo informal de elites do mundo ocidental que se reúnem anualmente para discutir os problemas do mundo. A conferência inaugural foi realizada em 1954 no Hotel Bilderberg  na Holanda - daí a designação pela qual o grupo passou a ser conhecido. Na reunião anual participam 120 a 150 delegados ligados à política, à grande indústria, ao mundo das finanças, aos mídia e às universidades . Cerca de dois terços dos participantes são oriundos da Europa e um terço da América anglo-saxónica (Estados Unidos e Canadá). As reuniões são informais, de carácter privado, sem comunicado final, realizadas longe dos jornalistas e das câmaras de televisão. O grupo é conhecido pela sua capacidade de influenciar políticos e governantes e é acusado de ser uma estrutura lobista e muito pouco transparente.  A agenda da reunião de Dresden, realizada há dias, distribuída pelos organizadores revela bem as preocupações dos participantes. Mas ela é também um reflexo do complexo e confuso estado da civilização e do mundo.

Pontos da agenda da reunião de Dresden do Grupo Bilderberg
  1. Acontecimentos correntes 
  2. A China 
  3. Europa: migrações, crecimento, reformas, visão, unidade 
  4. Médio Oriente 
  5. A Rússia 
  6. A situação politica e económica dos Estados Unidos: crescimento, dívida, reformas
  7. Ciber Segurança 
  8. Geopolítica da energia e preços das matérias primas. 
  9. Precariedade e classe Média 
  10. Inovação tecnológica 
Eu teria proposto uma agenda com menos pontos, mas mais abrangente por contemplar dois aspetos extremamente importantes: as alterações climáticas e a segurança nuclear.

A minha agenda para debater a forma de cuidar do mundo seria a seguinte:
  1. A  crise do capitalismo, a globalização, o papel do Ocidente (crescimento, reformas); 
  2. A demografia, as migrações, o futuro da classe média; 
  3. Os recursos não renováveis, em particular a energia fóssil e a geopolítica associada; 
  4. A revolução digital e as suas implicações na segurança e na economia; 
  5. As alterações climáticas; 
  6. A segurança nuclear;
  7. Os conflitos religiosos, o terrorismo;
  8. Nos Estados Unidos e no Reino Unido a curto prazo: A eventual eleição deTrump e Brexit
A crise do capitalismo, a globalização, o papel do ocidente (crescimento, reformas) 
Apesar dos sucessos da economia de mercado, e da esperança que alguns acordos (como é o caso do TTIP) possam trazer o seu  prolongamento por mais algum tempo,  existe por parte das elites esclarecidas a consciência de que, a breve prazo, vai ser necessária uma nova ordem mundial. Isso vai pôr em causa muita coisa, como por exemplo a organização por estados soberanos, a democracia e a economia. Estou em crer que o grupo de Bilderberg - dominado pela ideologia do lobby americano-judaico - já interiorizou essa necessidade, mas entende que deve ser o Ocidente a liderar a implementação dessa nova ordem. Aliás, acredito que este tema é central nas reuniões do grupo.

A demografia, as migrações, a classe média

O crescimento demográfico, para lá dos limites suportáveis pelo planeta, constitui a maior ameaça ao futuro da humanidade. Os limites ao crescimento populacional estão à vista, as tensões já se libertaram na Síria e na orla norte do Mediterrâneo e acumulam-se na África Subsariana, no Paquistão, na Índia, no Bengladesh e em países latino americanos. A classe média urbana é o resultado da sociedade de consumo e do conforto  do estado social proporcionados pela Revolução Industrial e pela Revolução Tecnológica. Os limites ao crescimento e a escassez de recursos já ameaçam o emprego e o estado social. A classe média, pilar da estabilidade social, começa a sentir a ameaça e reage. Surgem os indignados, as políticas monetárias falham como antídotos. Voltam a ser questionados os fundamentos do capitalismo. E, desta vez, sem alternativa.

Os recursos não renováveis, em particular a energia fóssil e a geopolítica associada

As lutas pela água e pelo solo arável (agricultura, caça e pastagens)  estiveram na base de todas as guerras da antiguidade. Nos nossos dias luta-se e fazem-se guerras pelo controlo das jazidas de energia fóssil. Foi assim nas duas Guerras Mundiais do século passado e é assim nas guerras sem fim do Médio Oriente onde convergem os interesses do Ocidente, da Rússia e da China. Ora, precisamente por este motivo, o Médio Oriente, a China e a Rússia são três pontos autónomos da agenda oficial de Dresden.

 A revolução digital e as implicações na segurança e na economia

A revolução digital está a mudar o mundo, ameaça a velha ordem política social e económica. As elites instaladas sentem uma urgente necessidade de controlar o fluxo de informação e o fluxo de bens e serviços que circulam na Rede.  Estão em causa questões de segurança e questões que têm a ver com a taxação das transações. A solução destas questões são exigências imperiosas da nova ordem. O Ocidente - que tem o controlo da Rede - sente que não pode perder nenhuma oportunidade de se antecipar neste domínio.

As alterações climáticas

Este ponto não consta da agenda de Bilderberg. Acredito, no entanto, que os participantes da reunião de Dresden já se deram conta que esta é uma luta perdida, uma luta que o Ocidente sozinho não poderá ganhar. Ora, aqui entramos no domínio da cooperação, uma palavra que não parece inspirar muito os membros deste grupo.

A segurança nuclear

O mesmo que se disse para as alterações climáticas pode dizer-se para a segurança nuclear. Porém, os assuntos que têm a ver com armamento são tabu nas agendas americanas.

Os conflitos religiosos, o terrorismo

Os Estados Unidos saíram da Segunda Guerra  Mundial convencidos de que eram invencíveis.  Que a força das armas poderia ser usada para sanar e resolver todos os conflitos locais. Mas a experiência do Vietnam mostrou que as armas não vencem as convicções. Neste caso concreto mostrou-se mais eficiente a arma económica, e foi o dólar e a exportação de um modelo de desenvolvimento que conseguiu aquilo que os bombardeamentos e o napalm não tinham conseguido. Após as experiências falhadas das primaveras árabes e com o inusitado sucesso do Daesh - um estado sem território -, começa a ser aceite a ideia de que o fundamentalismo é imune tanto às armas como à economia.  O Ocidente assiste impotente ao sangramento de atos terroristas e desespera à procura de soluções. Estou em crer que em Dresden pouco se terá adiantado sobre este ponto.

O curto prazo nos Estados Unidos e no Reino Unido : Trump e brexit
Duas ocorrências - imprevisíveis até há bem pouco tempo - com elevada probabilidade de acontecerem, na minha opinião maior na eleição de Trump do que no brexit.  Elas escapam aos cânones do pensamento de Bilderberg e contêm em si um elevado potencial explosivo. Mas, caso se concretizem, será a democracia a funcionar, mas a tornar evidente que nem sempre a democracia é conveniente para esta economia.  Porque a democracia só convém quando produz soluções adequadas aos interesses das elites instaladas. O que, até agora, tem sido conseguido. Nada garante que continue a ser assim, e este terá sido o amargo de boca com que os políticos e os magnates deixaram Dresden.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Ciclos de Esperança

Se olharmos para o que foi o mundo dos últimos 250 anos encontramos saltos qualitativos e quantitativos extraordinários. Tudo começou com a Revolução Industrial, que transformou o velho mundo rural num mundo comandado por máquinas e fábricas que vieram ocupar o lugar dos artesãos e das suas oficinas. Nesse período, o comboio substituiu o cavalo para levar os homens mais longe, ao mesmo tempo que o trator agrícola e os fertilizantes permitiram retirar mais alimentos da terra ocupando menos gente nesse labor. Contrariando as teses de Malthus a população aumentou sete vezes e as pessoas passaram a ter mais conforto. O progresso chegou a quase todas as partes do planeta; atenuou-se a divisão entre países industrializados e países do terceiro mundo.

Ao olharmos para as etapas que marcaram esse período, verificamos que elas constituem ciclos de desenvolvimento que vão surgindo a intervalos regulares:

A Revolução Industrial - 1776
O ciclo dos navios a vapor e dos caminhos de ferro - 1830
O ciclo do aço e da indústria pesada - 1875
O ciclo do petróleo e do automóvel - 1908
O ciclo do eletrodoméstico e da produção em massa - 1948
O ciclo da informação e telecomunicações -1971
O ciclo da Internet - em curso

Muitos economistas, alinhados com as conclusões do trabalho do russo Nikolai Kondratieff, não aceitam uma crise final do capitalismo, mas apenas ciclos com as suas fases: expansão, maturidade, declínio e depressão. Desde o início da revolução industrial que esses ciclos se têm sucedido a períodos regulares, sempre associados a inovações tecnológicas. Na fase de expansão verifica-se a adoção progressiva das novas tecnologias, acompanhada da criação de empregos nos sectores emergentes. Na fase de maturidade assiste-se a uma a explosão do crédito o que, já na fase de declínio, provoca um desajustamento entre esse crédito e a produção. Finalmente, na fase da depressão, rebenta a bolha de crédito e instala-se a crise.

Com diferentes argumentos, a teoria dos ciclos económicos foi contestada por Karl Marx e por Lenine e também pelos ideólogos do bolchevismo, Leon Trotsky e Nikolai Buckharin, que advogavam a ideia de que o capitalismo estaria irremediavelmente condenado ao fracasso. Ainda hoje persiste a discussão acerca desta questão. Por isso, não admira que ela tenha sido reintroduzida no ensaio de Paul Mason de que tenho vindo a falar - Pós- capitalismo- Um guia para o nosso futuro. Nesta teoria dos ciclos tem-se menosprezado o factor energético, privilegiando-se o factor tecnológico e a inovação. No entanto, bem vistas as coisas, desde o início da revolução industrial tivemos apenas dois grandes ciclos: o ciclo do carvão e o ciclo do petróleo. O novo ciclo da informação e da Internet - uma revolução na forma de comunicar - é já um ciclo de uma natureza diferente.

Assim, estaremos na iminência de um novo ciclo do capitalismo que trará uma nova fase de progresso ou estamos perante um declínio irreversível do capitalismo como sistema? Se é certo que existem variáveis de natureza cíclica como o crédito, a rentabilidade, as taxas de juro e até a produção per capita, também é verdade que algumas variáveis têm tido uma preocupante progressão unidireccional. Estão neste caso o consumo energético per capita, a produtividade agrícola, a população mundial, a complexidade organizativa, a concentração de gases de efeito de estufa na atmosfera e o aquecimento global. Vivemos um desafiante tempo de transição. Será o pós-capitalismo a resposta para o ressurgimento?