quarta-feira, 22 de junho de 2016

Informação e Poscapitalismo

No livro Pós-capitalismo: um guia para o nosso futuro, Paul Mason diz que estamos no fim de um ciclo económico e na alvorada de um novo. A informação, no entender de Mason, será o produto inovador que  ficará associado ao novo ciclo.  Na verdade, mais do que de um ciclo, o jornalista fala  de uma transformação da essência do capitalismo que dará origem ao pós-capitalismo. O homem culto e informado será o agente dessa transformação.

 A primeira pergunta que me ocorre é a seguinte: como será um mundo em que a economia é dominada pela informação? A resposta será dada pela própria dinâmica do capitalismo, e pela sua capacidade de adaptar-se e evoluir dentro do novo modelo.  Mais do que um produto, vejo na informação uma ferramenta que cria um ambiente ou um contexto novo nas relações entre as pessoas e as organizações.  Algo de semelhante ao que ocorreu com o aparecimento da escrita, que permitiu criar, preservar e transmitir registos sobre pessoas, acontecimentos e negócios. Mais tarde, associada à escrita, surgiu a grafia dos números e o cálculo. A escrita e a matemática, num dado momento, influenciaram a filosofia, a política, a justiça, a religião e o comércio. E alavancaram, de uma forma decisiva e irreversível, o curso da civilização. Com a revolução digital – afinal é disso que falamos! –, a sociedade sofrerá um novo e decisivo impulso ; nada voltará a ser como dantes.

Pensando na economia, e vistas as coisas de uma forma simplificada, verificamos que o comércio de bens e serviços é regulado por leis universais. Em primeiro lugar, pela lei da oferta e da procura, que ao formar os preços desses bens e serviços estabelece equilíbrios. Os produtores e os consumidores são os agentes económicos; o  mercado é o cenário onde a ação decorre. Após a Revolução Industrial, a produção em massa  passou a socorrer-se da comunicação para divulgar a oferta e criar a procura. Nasceu assim o marketing e a publicidade, um sector que, num ciclo que parece estar agora a fechar-se, foi motor gerador de investimentos e de emprego.  Foi a época dourada do desenvolvimento da comunicação social em que muito se falou de  emissores, recetores, meios  e mensagens.

 Ora, tudo isto parece estar a mudar. Numa sociedade dominada pela informação os produtos falam por si, apresentam-se e vendem-se a eles próprios; a  comunicação e o comércio tendem a fundir-se e o mercado transforma-se num espaço dinâmico, fluido e supranacional.  Por outro lado, a globalização associada à informação ameaça diluir as fronteiras entre Estados, põe em causa a fiscalidade, e, no final, poderá influenciar as relações de trabalho e inviabilizar o estado social. Numa sociedade de homens e mulheres cultos e informados,  até a democracia de um homem um voto pode deixar de fazer sentido.

Mais do que um avanço quantitativo - na senda do tão almejado crescimento da riqueza produzida - estamos perante um salto qualitativo, aquilo a que chamei a quarta revolução, depois da linguagem, da escrita e da imprensa. Nesse aspeto, ele difere do salto quantitativo que esteve na origem do capitalismo, e que foi o input energético trazido, primeiro pelo carvão, depois pelo petróleo e pelo gás natural.

Irá o capitalismo sobreviver ao salto qualitativo da sociedade da informação? Acredito que, no novo modelo, haverá ganhos de eficiência, sobretudo no plano energético, mas que não serão suficientes para diminuir a pegada ecológica, pois tal como postula o paradoxo de Jevons, "o aumento de eficiência na utilização de um recurso leva a um aumento do consumo global desse recurso". Se tal acontecer, a ameaça das alterações climáticas não vai ser mitigada e serão muitas as mudanças que irão ocorrer nos planos político, social e laboral. O maior de todos os riscos tem a ver com a complexidade tecnológica necessária para manter e desenvolver uma sociedade de informação. Tenho presentes as ideias de Joseph Tainter e a sua teoria que afirma: quando os custos de aumentar a complexidade superam as vantagens que ela traz a sociedade tende a colapsar. O caminho para a Era da informação não se apresenta nada fácil.  Mas, como não se vislumbra outro, vamos ter de o percorrer.


terça-feira, 14 de junho de 2016

A Agenda de Bilderberg

O grupo de Bilderberg é um grupo informal de elites do mundo ocidental que se reúnem anualmente para discutir os problemas do mundo. A conferência inaugural foi realizada em 1954 no Hotel Bilderberg  na Holanda - daí a designação pela qual o grupo passou a ser conhecido. Na reunião anual participam 120 a 150 delegados ligados à política, à grande indústria, ao mundo das finanças, aos mídia e às universidades . Cerca de dois terços dos participantes são oriundos da Europa e um terço da América anglo-saxónica (Estados Unidos e Canadá). As reuniões são informais, de carácter privado, sem comunicado final, realizadas longe dos jornalistas e das câmaras de televisão. O grupo é conhecido pela sua capacidade de influenciar políticos e governantes e é acusado de ser uma estrutura lobista e muito pouco transparente.  A agenda da reunião de Dresden, realizada há dias, distribuída pelos organizadores revela bem as preocupações dos participantes. Mas ela é também um reflexo do complexo e confuso estado da civilização e do mundo.

Pontos da agenda da reunião de Dresden do Grupo Bilderberg
  1. Acontecimentos correntes 
  2. A China 
  3. Europa: migrações, crecimento, reformas, visão, unidade 
  4. Médio Oriente 
  5. A Rússia 
  6. A situação politica e económica dos Estados Unidos: crescimento, dívida, reformas
  7. Ciber Segurança 
  8. Geopolítica da energia e preços das matérias primas. 
  9. Precariedade e classe Média 
  10. Inovação tecnológica 
Eu teria proposto uma agenda com menos pontos, mas mais abrangente por contemplar dois aspetos extremamente importantes: as alterações climáticas e a segurança nuclear.

A minha agenda para debater a forma de cuidar do mundo seria a seguinte:
  1. A  crise do capitalismo, a globalização, o papel do Ocidente (crescimento, reformas); 
  2. A demografia, as migrações, o futuro da classe média; 
  3. Os recursos não renováveis, em particular a energia fóssil e a geopolítica associada; 
  4. A revolução digital e as suas implicações na segurança e na economia; 
  5. As alterações climáticas; 
  6. A segurança nuclear;
  7. Os conflitos religiosos, o terrorismo;
  8. Nos Estados Unidos e no Reino Unido a curto prazo: A eventual eleição deTrump e Brexit
A crise do capitalismo, a globalização, o papel do ocidente (crescimento, reformas) 
Apesar dos sucessos da economia de mercado, e da esperança que alguns acordos (como é o caso do TTIP) possam trazer o seu  prolongamento por mais algum tempo,  existe por parte das elites esclarecidas a consciência de que, a breve prazo, vai ser necessária uma nova ordem mundial. Isso vai pôr em causa muita coisa, como por exemplo a organização por estados soberanos, a democracia e a economia. Estou em crer que o grupo de Bilderberg - dominado pela ideologia do lobby americano-judaico - já interiorizou essa necessidade, mas entende que deve ser o Ocidente a liderar a implementação dessa nova ordem. Aliás, acredito que este tema é central nas reuniões do grupo.

A demografia, as migrações, a classe média

O crescimento demográfico, para lá dos limites suportáveis pelo planeta, constitui a maior ameaça ao futuro da humanidade. Os limites ao crescimento populacional estão à vista, as tensões já se libertaram na Síria e na orla norte do Mediterrâneo e acumulam-se na África Subsariana, no Paquistão, na Índia, no Bengladesh e em países latino americanos. A classe média urbana é o resultado da sociedade de consumo e do conforto  do estado social proporcionados pela Revolução Industrial e pela Revolução Tecnológica. Os limites ao crescimento e a escassez de recursos já ameaçam o emprego e o estado social. A classe média, pilar da estabilidade social, começa a sentir a ameaça e reage. Surgem os indignados, as políticas monetárias falham como antídotos. Voltam a ser questionados os fundamentos do capitalismo. E, desta vez, sem alternativa.

Os recursos não renováveis, em particular a energia fóssil e a geopolítica associada

As lutas pela água e pelo solo arável (agricultura, caça e pastagens)  estiveram na base de todas as guerras da antiguidade. Nos nossos dias luta-se e fazem-se guerras pelo controlo das jazidas de energia fóssil. Foi assim nas duas Guerras Mundiais do século passado e é assim nas guerras sem fim do Médio Oriente onde convergem os interesses do Ocidente, da Rússia e da China. Ora, precisamente por este motivo, o Médio Oriente, a China e a Rússia são três pontos autónomos da agenda oficial de Dresden.

 A revolução digital e as implicações na segurança e na economia

A revolução digital está a mudar o mundo, ameaça a velha ordem política social e económica. As elites instaladas sentem uma urgente necessidade de controlar o fluxo de informação e o fluxo de bens e serviços que circulam na Rede.  Estão em causa questões de segurança e questões que têm a ver com a taxação das transações. A solução destas questões são exigências imperiosas da nova ordem. O Ocidente - que tem o controlo da Rede - sente que não pode perder nenhuma oportunidade de se antecipar neste domínio.

As alterações climáticas

Este ponto não consta da agenda de Bilderberg. Acredito, no entanto, que os participantes da reunião de Dresden já se deram conta que esta é uma luta perdida, uma luta que o Ocidente sozinho não poderá ganhar. Ora, aqui entramos no domínio da cooperação, uma palavra que não parece inspirar muito os membros deste grupo.

A segurança nuclear

O mesmo que se disse para as alterações climáticas pode dizer-se para a segurança nuclear. Porém, os assuntos que têm a ver com armamento são tabu nas agendas americanas.

Os conflitos religiosos, o terrorismo

Os Estados Unidos saíram da Segunda Guerra  Mundial convencidos de que eram invencíveis.  Que a força das armas poderia ser usada para sanar e resolver todos os conflitos locais. Mas a experiência do Vietnam mostrou que as armas não vencem as convicções. Neste caso concreto mostrou-se mais eficiente a arma económica, e foi o dólar e a exportação de um modelo de desenvolvimento que conseguiu aquilo que os bombardeamentos e o napalm não tinham conseguido. Após as experiências falhadas das primaveras árabes e com o inusitado sucesso do Daesh - um estado sem território -, começa a ser aceite a ideia de que o fundamentalismo é imune tanto às armas como à economia.  O Ocidente assiste impotente ao sangramento de atos terroristas e desespera à procura de soluções. Estou em crer que em Dresden pouco se terá adiantado sobre este ponto.

O curto prazo nos Estados Unidos e no Reino Unido : Trump e brexit
Duas ocorrências - imprevisíveis até há bem pouco tempo - com elevada probabilidade de acontecerem, na minha opinião maior na eleição de Trump do que no brexit.  Elas escapam aos cânones do pensamento de Bilderberg e contêm em si um elevado potencial explosivo. Mas, caso se concretizem, será a democracia a funcionar, mas a tornar evidente que nem sempre a democracia é conveniente para esta economia.  Porque a democracia só convém quando produz soluções adequadas aos interesses das elites instaladas. O que, até agora, tem sido conseguido. Nada garante que continue a ser assim, e este terá sido o amargo de boca com que os políticos e os magnates deixaram Dresden.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Ciclos de Esperança

Se olharmos para o que foi o mundo dos últimos 250 anos encontramos saltos qualitativos e quantitativos extraordinários. Tudo começou com a Revolução Industrial, que transformou o velho mundo rural num mundo comandado por máquinas e fábricas que vieram ocupar o lugar dos artesãos e das suas oficinas. Nesse período, o comboio substituiu o cavalo para levar os homens mais longe, ao mesmo tempo que o trator agrícola e os fertilizantes permitiram retirar mais alimentos da terra ocupando menos gente nesse labor. Contrariando as teses de Malthus a população aumentou sete vezes e as pessoas passaram a ter mais conforto. O progresso chegou a quase todas as partes do planeta; atenuou-se a divisão entre países industrializados e países do terceiro mundo.

Ao olharmos para as etapas que marcaram esse período, verificamos que elas constituem ciclos de desenvolvimento que vão surgindo a intervalos regulares:

A Revolução Industrial - 1776
O ciclo dos navios a vapor e dos caminhos de ferro - 1830
O ciclo do aço e da indústria pesada - 1875
O ciclo do petróleo e do automóvel - 1908
O ciclo do eletrodoméstico e da produção em massa - 1948
O ciclo da informação e telecomunicações -1971
O ciclo da Internet - em curso

Muitos economistas, alinhados com as conclusões do trabalho do russo Nikolai Kondratieff, não aceitam uma crise final do capitalismo, mas apenas ciclos com as suas fases: expansão, maturidade, declínio e depressão. Desde o início da revolução industrial que esses ciclos se têm sucedido a períodos regulares, sempre associados a inovações tecnológicas. Na fase de expansão verifica-se a adoção progressiva das novas tecnologias, acompanhada da criação de empregos nos sectores emergentes. Na fase de maturidade assiste-se a uma a explosão do crédito o que, já na fase de declínio, provoca um desajustamento entre esse crédito e a produção. Finalmente, na fase da depressão, rebenta a bolha de crédito e instala-se a crise.

Com diferentes argumentos, a teoria dos ciclos económicos foi contestada por Karl Marx e por Lenine e também pelos ideólogos do bolchevismo, Leon Trotsky e Nikolai Buckharin, que advogavam a ideia de que o capitalismo estaria irremediavelmente condenado ao fracasso. Ainda hoje persiste a discussão acerca desta questão. Por isso, não admira que ela tenha sido reintroduzida no ensaio de Paul Mason de que tenho vindo a falar - Pós- capitalismo- Um guia para o nosso futuro. Nesta teoria dos ciclos tem-se menosprezado o factor energético, privilegiando-se o factor tecnológico e a inovação. No entanto, bem vistas as coisas, desde o início da revolução industrial tivemos apenas dois grandes ciclos: o ciclo do carvão e o ciclo do petróleo. O novo ciclo da informação e da Internet - uma revolução na forma de comunicar - é já um ciclo de uma natureza diferente.

Assim, estaremos na iminência de um novo ciclo do capitalismo que trará uma nova fase de progresso ou estamos perante um declínio irreversível do capitalismo como sistema? Se é certo que existem variáveis de natureza cíclica como o crédito, a rentabilidade, as taxas de juro e até a produção per capita, também é verdade que algumas variáveis têm tido uma preocupante progressão unidireccional. Estão neste caso o consumo energético per capita, a produtividade agrícola, a população mundial, a complexidade organizativa, a concentração de gases de efeito de estufa na atmosfera e o aquecimento global. Vivemos um desafiante tempo de transição. Será o pós-capitalismo a resposta para o ressurgimento?



segunda-feira, 30 de maio de 2016

O Fio da Meada

No último post que publiquei neste blogue, a propósito do livro de Paul Mason (Pós- capitalismo - Um guia para o nosso futuro), interroguei-me sobre o futuro do capitalismo como sistema económico. Convenhamos que tal futuro não se mostra risonho por dois motivos: ter associado um sistema financeiro baseado no crédito, o qual não pode subsistir sem crescimento - cujos limites já estão à vista! -,e ser, na sua essência, um sistema predador de recursos, cego relativamente às questões sociais e ambientais. Na ausência de crescimento não existirão correções ou ajustamentos políticos que lhe valham, tanto na área social como ambiental. Então, após o inevitável colapso do sector financeiro, o capitalismo ruirá. Para mim, a grande questão consiste em saber se o atual sistema pode regenerar-se a si próprio de uma forma progressiva, suave e adaptativa ou se, pelo contrário, dará lugar a um outro sistema económico, pensado e criado de raiz para o substituir. Tanto num caso como no outro, a solução tem de contemplar, para ser económica e socialmente viável, um cenário prolongado de crescimento zero ou mesmo negativo. Porém, não está excluída a reedição de uma nova experiência marxista, embora prejudicada pelo falhanço da ex-URSS. Ora, havendo previsivelmente muitos perdedores, a transição deverá ser tudo menos pacífica.

Até à explosão demográfica que ocorreu no século passado - e fez quadruplicar a população do planeta -, o progresso parecia ilimitado. Era festejado, propalado e desejado por todos. Hoje existem muitas reservas, até mesmo pessimismo, sobre o futuro baseado no progresso e no crescimento. Ao fim e ao cabo, a espécie humana insere-se na biosfera e tem de respeitar as suas leis. Existem muitas condicionantes externas: a finitude dos recursos - energia fóssil, água e terreno arável - e as leis da física e da termodinâmica. E há que considerar ainda as contradições internas, ou seja, o incontrolado crescimento demográfico, o envelhecimento populacional, e os desequilíbrios ecológicos provocados pelas monoculturas - em detrimento da diversidade biológica - necessárias para alimentar a população em crescimento. Além disso, os problemas sociais estão longe de estar resolvidos, nem sequer de parecer atenuados. No mundo de hoje, ao lado das grandes invenções e dos progressos científicos, as desigualdades agravam-se, persiste o tribalismo, agudizam-se os conflitos religiosos, renascem os extremismos, aumenta o terrorismo e engrossam as migrações.

A sociedade complexa e globalizada em que vivemos é o resultado de transformações muito recentes quando vistas a uma escala temporal universal. Nos últimos dez mil anos, ocorreram grandes impulsos civilizacionais - verdadeiros choques evolutivos. A linguagem, a escrita, a imprensa e a internet, na forma de comunicar; o domínio do fogo, a pólvora, o carvão, o petróleo e o gás natural, na apropriação de recursos energéticos; a máquina a vapor, a eletricidade, as ondas hertzianas, na tecnologia. O progresso científico fez maravilhas nas áreas da saúde, das comunicações e da nanotecnologia. Ora, tanto a globalização como a complexidade têm o seu reverso. A globalização, levada ao extremo, ocupará de forma interdependente todos os territórios, deixando de existir válvulas de escape numa situação de stress. E a complexidade, para manter-se, exigirá ainda mais complexidade, a qual terá custos progressivamente crescentes que provocarão o envelhecimento entrópico da sociedade global.

Dotada de inteligência, a espécie humana é diferente de todas outras. É a única que através do pensamento reflexivo pode tomar decisões e fazer escolhas. E isso faz-nos acreditar que o homem pode superar todas as dificuldades, resolver todos os problemas e reinventar-se a si próprio. Será o ser humano, o terceiro chimpanzé de que fala Jared Diamond, capaz de escolher o seu destino e evitar a decadência? Ou estaremos sujeitos ao determinismo universal que nos mostra que tudo é cíclico e que para todas as coisas existe um princípio e um fim? Entretanto, e para já, é importante não ficarmos parados. No emaranhado em que vivemos é urgente começar a procurar a ponta do fio da meada.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

O Fim do Capitalismo?

O jornalista inglês Paul Mason é o autor de um livro intitulado O Pós-capitalismo - Um Guia Para o Nosso Futuro no qual defende a ideia de que o capitalismo, enquanto sistema económico e social, está esgotado e tem de ser substituído. Não vê o novo sistema como uma ideia utópica difícil de ser concretizada na prática, mas acha que - tal como o capitalismo que floresceu nos últimos 200 anos - terá de ser um sistema robusto, capaz de se impor e de alimentar-se a si próprio. Ele surgirá como resultado de uma evolução natural operada no seio do capitalismo. Para Mason o capitalismo é como um organismo vivo, tem vida própria, adapta-se e mutaciona-se. Comporta-se como que movido por um instinto de sobrevivência, comandado pelas mudanças tecnológicas que estão a ocorrer no mundo.

Paul Mason acha que o capitalismo, por ser incapaz de adaptar-se às mudanças tecnológicas em curso, está moribundo, e que dos seus escombros, tal como a Fénix, irá renascer o pós-capitalismo. As organizações, e mesmo o comportamento das pessoas, já começaram a adaptar-se para explorar as mudanças tecnológicas. Relativamente a essas mudanças, enuncia os três fatores que, nos últimos 25 anos, tiveram maior impacto: 1) a informação reduziu a necessidade de mão de obra e alterou a relação salário trabalho, e, além disso, a relação entre o tempo livre e o que é dedicado ao trabalho; 2) os mecanismos de mercado para formação de preços não funcionam para os produtos de informação; 3) o aparecimento de uma nova forma de produção - a produção colaborativa -, citando como exemplo a Wikipedia, fruto do contributo voluntário de milhares de pessoas. E sintetiza, dizendo: a informação dissolve os mercados, destrói a propriedade e rompe a relação entre trabalho e salário.

Quando falamos de capitalismo referimo-nos à economia de mercado, um conceito que se consolidou no século passado, quando nós acreditámos que existiam duas economias, a economia de mercado e a economia planificada, e que reduzíamos as opções alternativas à dicotomia: capitalismo versus socialismo. A economia de mercado (com os seus benefícios e malefícios!), graduada por maior ou menor intervenção dos estados (podendo ser mais conservadora ou mais liberal), afirmou-se como a economia natural. A mão invisível de que falava Adam Smith, que empurra, cegamente, tudo e todos para o crescimento, faz lembrar a lei da seleção natural - o que não se adapta, morre! - de que falou Charles Darwin.

A tendência de evolução, apontada no livro que temos vindo a seguir, já está a alterar o quadro político tradicional com dois partidos alternantes: a direita e a esquerda. No século passado, a esquerda imaginou que o fim do capitalismo seria ditado pelo sucesso das economias socialistas. Ora, nessas sociedades o individualismo destruiu o coletivismo e, afinal, foi o projeto apresentado como o ideal da esquerda que faliu. A economia colaborativa de que fala Mason é um novo caminho, concluindo que a esquerda perdeu a liderança para apontar a mudança. Surgiu um novo tipo de contestação, novos partidos e novos movimentos, e com eles a necessidade de novas etiquetas para os nomear. O movimento dos indignados veio mostrar que algo se quebrou no capitalismo; as futuras revoluções serão de um tipo muito diferente das anteriores. A rede global já não pode ser silenciada, e já não é possível desinstalar a Internet. O infocapitalismo criou um novo agente de mudança. O homem em rede é esse agente. O pós-capitalismo será o resultado dessa mudança.

Aqui deixo estas notas de leitura do livro de Mason recentemente publicado entre nós. O assunto é muito interessante, e abre uma janela de esperança para a prosperidade da humanidade que muitos de nós julgávamos definitivamente perdida. Porém, ele não se esgota aqui. Então, voltarei ao tema, para detalhar melhor o pensamento do autor, tentar perceber os seus argumentos e, eventualmente, detetar e apontar aquilo que julgo serem as suas falhas e contradições.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

TTIP


Desde que o conteúdo reservado dos documentos em discussão vazou para a os meios de informação começa a falar-se muito deste tratado. O TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership), também conhecido por TAFTA (Transatlantic Free Trade Area), é um acordo ou parceria para o comércio e o investimento que está a ser negociado entre os Estados Unidos e a União Europeia. Foi  em fevereiro de 2013 que Barack Obama no discurso sobre o Estado da União, se referiu pela primeira vez ao acordo. No dia seguinte, Durão Barroso respondia em consonância apoiando a ideia. E iniciaram-se as negociações.

 O TTIP é apresentado como um acordo altamente vantajoso para os dois lados do Atlântico. Ele visa reduzir as tarifas alfandegárias, já baixas em virtude dos acordos existentes no âmbito da Organização Mundial do Comércio, e eliminar outras barreiras ao comércio livre, ao uniformizar nomeadamente regulamentos, normas de fabrico e exigências de segurança, permitindo que bens produzidos em qualquer dos lados do Atlântico possam circular no outro sem qualquer impedimento. Nele serão incluídos direitos de autor e patentes, mas não o audiovisual. Espera-se que este acordo venha a ter grande impacto na agricultura. Isto apesar das dificuldades que se advinham no que respeita à aceitação, por parte dos europeus, das regras americanas sobre os alimentos geneticamente modificados, a certificação de sementes ou o uso de certo tipo de aditivos na alimentação animal.

As grandes multinacionais dos dois lados do Atlântico vêem nestes acordos  um reforço dos mecanismos de proteção aos seus investimentos. A uniformização das normas certificadoras, dos rótulos das embalagens, da comunicação e marketing terá um grande impacto nos custos finais dos produtos. A quantificação, feita pela UE, dos benefícios gerados pelo TTIP apontam para crescimentos anuais do PIB de 120 mil milhões de euros do lado da Europa e 90 mil milhões de euros do lado dos Estados Unidos. Com reflexos, naturalmente, no crescimento do emprego. Daí que na propaganda subtil que está a fazer-se para cativar a opinião pública se diga que uma família europeia de quatro pessoas terá um benefício anual de 545 dólares. E se acrescente também, que toda economia mundial ganhará com isso.

Ora, este acordo diz respeito a dois territórios responsáveis por cerca de 50% do PIB mundial, mas apenas 12% da população. O reforço do comércio entre as duas partes não deverá agradar à China e/ou à Rússia, que provavelmente serão obrigadas a aceitar dialogar com um bloco muito reforçado. Terá maior impacto na China, pois vai ter de adaptar os seus produtos às novas regras ou confrontar-se com fortes limitações à contrafação e à pirataria. O acordo está a ser negociado ao mais alto nível em grupos de trabalho que incluem representantes das grandes multinacionais, mas com um elevado secretismo. Por enquanto não se sabe se depois de aprovado pelo Parlamento Europeu ele terá de ser ratificado ou não pelos parlamentos nacionais de cada um dos Estados Membros. Apesar da sua enorme importância, até agora os grandes meios de comunicação social não têm dado muita atenção ao assunto.

Embora possa fazer muito pouco para o contrariar, Portugal não pode ficar indiferente a este acordo,  Comparado com o que aconteceu na nossa integração na CEE e as suas consequências, este é um grande passo em frente cujo efeito se fará sentir fortemente no nosso modo de vida e no nosso dia a dia. A nossa soberania vai reduzir-se ainda mais, não sendo seguro que isto venha a aliviar a pressão sobre a dívida nem a reduzir a austeridade. O acordo é sobretudo uma boa noticia para os mercados. Vai animar a economia e servirá para manter as expectativas elevadas, favorecendo as transações de  ativos financeiros. É quase certo que os índices bolsistas subirão. A abertura de novos mercados vai aumentar a competitividade, uniformizar gostos, valorizar ainda mais as marcas globais. Talvez, por tudo isso, ele está a ser fortemente incentivado pelas grandes empresas e corporações multinacionais.

Todavia a assinatura do TTIP é uma má notícia para a Humanidade e para o seu futuro coletivo. Vão servir-nos mais do mesmo, quando o bom senso aconselharia soluções de um novo tipo. Por este caminho, as emissões de CO2 vão aumentar, haverá mais mobilidade, maior consumo de recursos, crescerá a complexidade dos processos, haverá uma maior interdependência entre as economias. E ao afetar a pequena indústria e o pequeno comércio, o acordo será mais um golpe para a ideia de localização da economia, tal como a entendem os movimentos de transição. As alterações climáticas vão acelerar-se, o nível dos oceanos subirá e as calotes polares derreterão a um ritmo mais acelerado. E, sobretudo, as desigualdades sociais irão acentuar-se: os fortes ficarão mais fortes e os fracos mais fracos.

Ou seja, com o caminho que está a ser seguido de mais e mais globalização, cada nova crise produzirá efeitos ainda mais devastadores do que a anterior. Haverá, com certeza,  uma maior procura de energia fóssil, existindo porém sérias dúvidas sobre se a oferta a poderá satisfazer. O secretismo e a opacidade que têm envolvido as negociações, terão a ver com o receio de ele vir a ampliar a indignação dos desprotegidos e dos desempregados de todo o mundo, que acreditarão que nada de bom este acordo lhes poderá trazer.

Até mesmo para o cidadão comum começa a ser consensual que sem crescimento económico esta economia  não tem futuro, e que assim sendo a crise que enfrentamos não terá solução. A resposta que o sistema tem dado à urgente e imperiosa necessidade desse crescimento, tem apontado no sentido do reforço da globalização. O TTIP é um  exemplo bem ilustrativo desse caminho. Mas, será que não existem caminhos alternativos?

segunda-feira, 9 de maio de 2016

O Grande Livro do Vale do Côa


O rio Côa do friso das minhas memórias de adolescente é o rio selvagem e agreste da velha ponte de S. Roque e das curvas da camioneta de carreira para a Guarda. Sempre suspeitei que esta imagem do rio era incompleta e redutora e que havia algo mais para descobrir. Quando, há um par de anos - num gesto simpático da Associação dos Territórios do Côa -, fui nomeado embaixador de Ribacôa, entendi que chegara a altura de conhecer melhor o rio e o território adjacente que me cabia representar e promover. No ano passado, fui com a Paula em peregrinação à nascente do rio na bonita serra de Malcata. E foi num sábado chuvoso do início deste mês de maio, aproveitando uma viagem a terras da Beira,  que resolvemos conhecer um pouco mais do rio na primeira parte do seu percurso, em terras do Sabugal.

Desta vez, ficámos hospedados no novíssimo hotel das Termas do Cró e foi a partir daí que decidimos aventurar-nos a percorrer a pé um pequeno troço da grande Rota do Vale do Coa. A intenção era conhecer a famosa ponte de Sequeiros. Saímos do hotel pelas 10 horas da manhã e fomos deixar o carro junto à igreja de Seixo do Côa. Na aldeia deserta, procurámos informações sobre o caminho a seguir. Um jovem que nos disse conhecer a zona, afinal, nada sabia dos caminhos do rio nem da Ponte de Sequeiros. Com a incredulidade não disfarçada de quem acha que as pessoas da cidade foram feitas para andar de carro e não a pé, uma senhora de meia idade indica-nos o caminho a seguir.

Descemos pela estrada até à ponte que separa as aldeia de Seixo do Côa e de Vale Longo e, antes de chegar à ponte, viramos à esquerda por uma estrada de terra ao longo da margem do rio. Nesta zona, o Côa ainda não corre apertado entre margens pedregosas e escarpadas como acontece no concelho de Almeida.  Entre freixos, choupos e prados verdes,vai  muito caudaloso em resultado das chuvas dos últimos dias. Alguns  trechos são dignos de postais ilustrados. Umas vezes espraiando-se em açudes espelhados, ouras rumorejando em velozes rápidos. Mais adiante, um pontão que ainda permite atravessá-lo mas já não é utilizado, assinala antigos caminhos usados pelos vizinhos destas terras..

Estamos em plena época da floração.A exuberância da primavera  revela-se em toda a sua força: rosmaninhos, dedaleiras, juncos, urzes  e margaridas espalham uma suave fragrância; giestas brancas, xaras, tojos e espinheiros exibem a  sua farta floração; os ramos das moitas de carvalhos começam a rodear-se do suave verde da folhagem; marmeleiros ostentam delicadas flores de um rosa pálido. Em tempos não muito recuados, nas veigas destas margens tudo se cultivava. Restos ferrugentos de noras atestam que aqui se irrigavam culturas, imagino batatas melões, melancias e hortícolas de todo o tipo. Hoje os campos das margens estão incultos e abandonados. Não se vêm sinais de labor na terra.  Apenas umas vacas, surpreendidas pela rara presença humana, interrompem o pasto e olham-nos com curiosidade.

Nessa manhã o tempo deu-nos tréguas, a chuva não apareceu, a temperatura fria da manhã amenizou, a luz filtrada pela calote de nuvens suavizava a claridade do sol e permitia fotografar a natureza. Após uma escassa hora de caminhada surge ao longe a ponte de Sequeiros.  É uma bela obra com três arcos redondos e sua torre portageira de que em Portugal só existe em Ucanha, no concelho de Tarouca, outro exemplar. Parece não haver consenso sobre a história desta ponte, se é romana ou se é medieval, mas sabe-se que na época anterior ao tratado de Alcanizes ficava na raia que separava Portugal de Leão e Castela

O regresso foi feito pela margem direita, em direcção a Vale Longo. Na nossa cabeça começamos a imaginar os alunos das escolas de Almeida, do Sabugal e de Vila Nova de Foz Côa a explorar os 200 Kms do percurso do rio. O plano é simples: grupos de 5 a 10 alunos ficam responsáveis por pequenos troços (5 a 10 kms). Cada grupo tem de caminhar ao longo do rio, estudar a geologia e a geomorfologia. explorar a fauna e a flora, desenhar, fotografar a paisagem, identificar e listar o património edificado.  Conhecer os habitantes e os seus costumes, ouvir as suas histórias. Integrar toda a informação na narrativa etnográfica e histórica da região. O resultado final será o grande Livro do Vale do Côa.