segunda-feira, 17 de Novembro de 2014

Eça de Queirós

Já passaram 114 anos sobre a morte do grande romancista e a obra que nos deixou continua a atrair a atenção de leitores, literatos e outros estudiosos. Ainda hoje, os seus livros são reeditados e, os mais representativos, adaptados ao teatro e ao cinema. As personagens dos seus romances - que sugerem uma tipologia social -,  fazem parte da nossa história e da nossa cultura. Pensamentos, apreciações e comentários, retirados dos seus escritos, são frequentemente citados e circulam na net, plenos de atualidade por encaixarem a preceito nos protagonistas e nas situações da nossa vida política e social. De onde vem a força desta escrita e a atualidade deste escritor?

Eça foi, acima de tudo, um atento e perspicaz observador de Portugal e do mundo. Da sociedade portuguesa da segunda metade do século XIX deixou-nos, enquanto romancista, um retrato fiel e cru. Dos conflitos e dos meandros da política mundial deixou-nos, enquanto jornalista, análises minuciosas e vaticínios acertados. A sua infância ficou marcada pela ausência de uma família que lhe deu o nome mas que lhe negou o aconchego do lar. O carinho tê-lo-á ele encontrado na ama que o amamentou em Vila do Conde e nos avós paternos que, perto de Aveiro, o acolheram e educaram na meninice. Ao contrário da mãe, fria e ausente, a figura e a personalidade do pai acompanhou-o e influenciou-o pela vida fora. A singularidade do seu nascimento fez dele um outsider e deu- lhe a autonomia afetiva que lhe conferiu  distanciamento e independência crítica.  A ironia, que em Eça revela argúcia e inteligência, foi a marca desse distanciamento.

O lustro de Coimbra foi o tempo de aprendizagem e de gestação, estimulada pelo fermento da cultura francesa e pelo contacto com amigos, dos quais se destacou Antero de Quental, que nele exerceu uma forte impressão. Lisboa, onde viveu durante algum tempo depois de terminado o curso, foi a descoberta da grande cidade, o contacto com a política e com a sociedade. Em Évora, como diretor e único redator do Distrito de Évora foi destilando o seu jeito para a crítica e apurando a mão para a escrita. A viagem ao Egipto, onde assistiu à inauguração do Canal de Suez, e o deslumbramento da Terra Santa abriram-lhe a primeira janela para o mundo e marcaram-no para sempre.

Leiria, cidade onde desempenhou o cargo de administrador do distrito, foi o palco do seu primeiro romance,  o Crime do Padre Amaro – o livro que ele trazia no ventre - onde ousa pôr em pratica o realismo como escola literária e abordar os temas tabú da religião e do sexo. O estilo da prosa, que vai ser apurado nos romances subsequentes, já evidencia o arrojo da inovação tão bem caraterizada por Ernesto Guerra da Cal, o autor galego que mais profundamente estudou a sua linguagem e o seu estilo. Já nessa primeira obra se evidencia a prosa criativa em que os adjetivos geradores de contrastes e conferindo tonalidades e melodia à narrativa, parecem desempenhar o papel da luz nos quadros dos pintores impressionistas.

A primeira experiência consular foi em Cuba e a partir daí não deixaria nunca mais de ser um expatriado, primeiro em Inglaterra e depois em França. Mas o seu campo de observação estava em Portugal, nunca fez amigos estrangeiros, o universo da sua ficção foi sempre português. Três romances, laboriosamente escritos e dolorosamente revistos, sempre na busca da perfeição, constituem o esqueleto da sua obra: O Crime do Padre Amaro, é a explosão e a vitalidade da juventude; O Primo Basílio, o grande ensaio de estudo e caracterização de personagens e o apuramento do estilo; Os Maias são a sua obra prima, longamente pensada e amadurecida. Nestes seus romances não existem heróis, apenas pessoas, enredadas nos seus defeitos, atormentadas nas suas dúvidas. Amélia d'O Crime do Padre Amaro e Luísa d'O Primo Basílio são os personagens centrais  da ação, motivadas pelo fogo da paixão a pela força do enleio amoroso. N'Os Maias a arquitetura da narrativa ganha outra dimensão: a figura central, onde, como num quadro, converge o ponto de fuga de toda a trama, é Afonso da Maia, o patriarca da família. Não será por coincidência que todas estas figuras centrais dos seus romances, incapazes de resolver ou superar as paixões - casos de Amélia e de Luísa - ou abandonar as convicções - caso de Afonso da Maia -,  morrem no final dos romances.

Eça foi um eterno insatisfeito, parecia hesitar entre o que era e o que gostaria de ser. As suas opções pessoais, raramente afirmadas na primeira pessoa, oscilavam entre o o espírito progressista do Cenáculo na juventude, e o pendor conservador dos Vencidos da Vida, na idade madura. A sua personalidade parece flutuar entre o laicismo e a religião, entre a república e a monarquia, entre a cultura e a aristocracia, entre a vida familiar e a vida social, entre a tradição e a civilização. Fradique Mendes é o seu alter-ego, um contraponto paradoxal de si próprio que, tal como os espelhos das feiras, reflete as imagem invertidas e deformadas.

Morreu em Paris, aos 55 anos, no primeiro ano do século XX. Se não tivesse morrido tão novo, podemos imaginar como teriam sido os anos da sua velhice, depois de regressado a Portugal: os seus últimos escritos sugerem-nos um Eça, vivendo em Tormes - lembrando os retiros de Herculano ou Lev Tolstoi -, procurando as coisas simples da vida, rendido à natureza, inspirado pela vida dos santos.

Eça libertou-se do tempo e foi um visionário. Foi um artista que deu um novo fôlego à língua portuguesa. Para muitos ele foi, depois de Camões, o nosso maior escritor de todos os tempos.



segunda-feira, 10 de Novembro de 2014

Grécia e Portugal

A Grécia é um santuário, berço da Civilização Ocidental. Aí nasceu a Filosofia, mãe das ciências, e a Democracia, mãe do moderno estado organizado. O grego foi a língua que formatou o nosso pensamento cientifico e deu nomes às ciências, e significantes aos conceitos que utilizam. Não podemos ignorar os contributos dos romanos e do latim; dos judeus cujo pensamento, enxertado no pensamento grego, produziu o cristianismo; do ressurgimento renascentista ligado às artes e ao comércio das repúblicas italianas; da expansão ibérica que revelou os novos mundos; das luzes do iluminismo francês e da revolução industrial nascida em Inglaterra, que foi a antecâmara da moderna economia e da globalização. Mas são gregos os genes da Civilização que domina a Terra.

No passado mês de Abril, convidado por um casal amigo, visitei a Grécia acompanhado pela minha mulher. Escrevi, então, sobre as fortes impressões que essa viagem me causou num texto que intitulei as sementes da democracia, o qual acabou por ser publicado nas páginas do semanário Expresso.  Foi com emotiva surpresa que, passados alguns dias após essa publicação, recebi na Fundação uma chamada telefónica da  Embaixada da Grécia dizendo que o Embaixador tinha gostado de ler o artigo e gostaria de me conhecer.

A oportunidade chegou na semana passada . Recebi um convite do Sr. Embaixador Panos Kalogeropoulos para assistir a uma cerimónia na sua residência em Lisboa. Tratava-se de homenagear a professora jubilada Maria Helena da Rocha Pereira, a quem iria ser entregue a Cruz da Ordem da Fénix que lhe fora atribuída pelo presidente da República Grega. E, assim, no final da tarde de quarta feira, dia 5 de novembro, vesti o meu fato-de-ver-a-Deus e lá fui ao Restelo.

Fui recebido pela secretária da embaixada que me introduziu na sala de estar onde o embaixador recebia os convidados. Ao ouvir o meu nome, cumprimentou-me com um sorriso afetuoso e um breve comentário, associando-me de imediato ao artigo do Expresso: - As sementes da democracia ! Apontou-me a homenageada: junto a uma lareira, sentada numa cadeira e denunciando uma clara dificuldade de locomoção, estava uma senhora de proveta idade e aspeto franzino. Era a professora Maria Helena da Rocha Pereira,  a primeira mulher que ascendeu à cátedra na secular Universidade de Coimbra, arqueóloga, helenista, investigadora e uma impressionante obra produzida. Parecia incrível e irreal que aquelas mãos tivessem escrito tantos artigos e que aquela mente pudesse ter traduzido a República de Platão, as Bacantes de Eurípedes ou a Antígona de Sófocles. Senti-me tentado  a  ir cumprimentá-la, e beijar-lhe as mãos. Mas não o fiz, por temer que a minha insignificância e limitada cultura pudessem profanar aquela serena e doce figura.

O Embaixador Kalogeropoulos fez o elogio da homenageada, destacou a sua obra, o seu impacto tanto a nível nacional como internacional, antes de lhe colocar no peito a insígnia que lhe tinha sido atribuída. 
A professora, de uma forma clara e concisa, leu um discurso em que se referiu à importância da cultura grega e à beleza da sua linguagem, onde destacou o dialeto Ático. Com a  sabedoria de quem sabe do que fala, aquela ilustre professora apresentava-se, aos meus olhos e  naquele momento, como uma ponte cultural  que ligava Portugal e a Grécia.

No cocktail que se seguiu, de copo na mão, senti-me perdido no meio daquela gente onde não conhecia ninguém; arrisquei estabelecer conversa com um grupo que estava mais perto, declarei-me náufrago e pedi ajuda. Os meus solícitos salvadores eram arqueólogos, antigos alunos e colaboradores da professora, também eles agora professores, um no Porto outro em Coimbra. E estava também um sobrinho da homenageada. Respirei fundo; estava salvo. Falámos da Grécia, de Creta, de Micenas e de Delfos. Foi com imenso prazer que 
ouvi aqueles ilustres professores falar de escavações e de fragmentos de vasos gregos descobertos em Trás-os-Montes. Um deles tinha, inclusive, escavado na Ágora, em Atenas.  E ocorreu-me comparar a Psicologia,  a ciência que se ocupa do estudo da alma do Homem, com a Arqueologia, que é a ciência que se ocupa do estudo da alma da Humanidade.

No final, despedi-me do embaixador com um Kalinixta, desejando-lhe uma boa noite e agradecendo-lhe tão honroso convite. A minha aventura grega não podia ter terminado de melhor forma.

PS: As sementes da democracia pode ser lido aqui

segunda-feira, 3 de Novembro de 2014

Homo Sapiens Digitalis

Uma notícia recente sobre o volume de mensagens de correio eletrónico, que circulam na Internet, despertou a minha atenção. No essencial, dizia que a primeira mensagem de correio eletrónico foi enviada há 45 anos e que, na atualidade, em média, são enviados 100 milhões de emails em cada minuto. Considerando os múltiplos destinatários imagino que serão recebidas muitos mais. A referida noticia acrescentava ainda que, só em 2012, foram criadas 3,3 mil milhões de novas contas de email, e apenas um terço delas por motivos profissionais. No entanto, apenas 14% das mensagens recebidas são consideradas importantes. Em determinadas profissões, o tempo de trabalho dedicado ao email chega a representar 28% por cento do total.

 A magnitude destes números não espantará muitos de nós, conscientes como estamos de quão dependente está a nossa vida diária do computador e da Internet. Mas importa refletir sobre o seu significado e a revolução digital que lhe está subjacente, da qual eles apenas representam uma pequena parte. A verdadeira explosão na utilização do correio eletrónico ocorreu nos últimos 20 anos, com o crescimento exponencial do acesso à Internet e da difusão dos dispositivos digitais - computadores, notebooks, ipads, e smartphones. A humanidade está ligada por uma rede gigantesca que, aos poucos, está a transformar a nossa maneira de viver: o comércio, o entretenimento, a informação, a cultura, a comunicação, a literatura e a publicidade. Mais recentemente, as redes sociais começaram a apropriar-se do convívio entre as pessoas; a contestação social achou eco na rede: os indignados encontram-se na net e planeiam aí as suas manifestações.

Os jovens já não dispensam a Internet. Um estudo recente do ISPA (Instituto Superior de Psicologia Aplicada), feito junto de adolescentes entre os 14 e os 25 anos, mostra que três quartos da população desse grupo apresenta sinais de dependência da internet. E conclui que 13% dos casos estudados são graves: caracterizam-se por isolamento, comportamentos violentos, e inclusive, podem obrigar a tratamento. Ora, o uso da Internet começa cada vez mais cedo, mesmo na mais tenra idade. Quando um bebé carrega furiosamente com o dedo nas páginas ilustradas de um livro para tentar interagir com as imagens, como se se tratasse de imagens no ecrã de um ipad, isso revela que esse comportamento já faz parte da uma aprendizagem muito profunda e sugere a aquisição de uma capacidade que começa a incorporar-se nos genes da espécie humana.

Estamos efetivamente perante algo que foi adquirido, que passou a fazer parte de um processo evolutivo no sentido que lhe deu Charles Darwin. Trata-se de uma nova etapa na linha da evolução, que começou com a linguagem, com a escrita e a imprensa. Estes saltos estão associados a um aumento da complexidade. Com a escrita, à nova capacidade associaram-se ferramentas: o estilete, a argila mole, a tinta e o papiro. Com a internet a complexidade exige uma base tecnológica e energética - falo dos suportes, da eletricidade e das ondas hetzianas que transportam os sinais digitais -, a que corresponde uma grande vulnerabilidade e um elevado risco de colapso.

Ora quando, como resultado do processo evolutivo, uma espécie adquire uma nova capacidade, já não existe caminho de retrocesso, isto é, a natureza não aceita a desevolução. E se a ferramenta ou transformação morfológica associada à nova capacidade deixar de ser útil, o caminho pode ser o da extinção da espécie. Então, tal como acontece num formigueiro com a capacidade de comunicação e orientação das formigas, a capacidade digital do homem, sendo essencial, já não depende da habilidade individual, mas passou a ser um atributo da espécie como entidade social.

Em conclusão: nos últimos 20 anos a espécie humana entrou num caminho evolutivo irreversível. Por isso, já não é admissível um blackout digital, embora não seja desprezível o risco de isso acontecer. Pode resultar de quebra prolongada da rede eléctrica, de um vírus altamente eficaz, de uma interferência nas infraestruturas que suportam a rede ou até de uma tempestade solar. Um apagão digital interferiria seriamente nas nossas vidas: seria o caos nas transações financeiras, na cobrança de impostos, nos pagamentos, nas comunicações, na logística das redes de abastecimentos, na saúde, na educação, na justiça, etc. É bom irmos tomando consciência dos riscos associados às malhas que vamos tecendo.

segunda-feira, 27 de Outubro de 2014

As Tribos


Na vida nómada de caçador-recoletor a força e o sucesso do homo sapiens residia na tribo. Era a entreajuda entre os seus vários elementos que lhe permitia  preservar a vida, enfrentar os perigos do dia-a-dia, ter êxito nas caçadas, proteger os mais fracos e enfrentar os inimigos. Havia uma chefatura reconhecida - era o macho mais forte e mais astuto. O chefe invocava as divindades, conduzia os rituais, oferecia os sacrifícios, distribuía os alimentos. As diferentes tribos disputavam entre si os territórios e os seus recursos, e, ocasionalmente, uniam-se contra um inimigo comum.

A sedentarização ocorrida após a domesticação de animais e plantas, há dez mil anos, foi o início de uma caminhada que conduziu à sociedade industrial e à globalização. A organização social que se seguiu à fixação dos seres humanos nos primeiros povoados terá sido  muito simples e baseada na experiência tribal. Mas a exigência provocada pelo crescimento das aglomerações obrigava a novas funções e à sua especialização. A consequência foi um grande avanço organizativo em relação à tribo. Surgiram os construtores de casas, os agricultores, os pastores, os defensores. A diferenciação social esteve na base de um estado rudimentar com as suas hierarquias e a sua administração.

A complexa sociedade atual globalizada e interdependente, dominada pela economia, está muito longe da tribo. Mas, se atentarmos bem, constatamos que continuam a existir tribos dentro da sociedade global: a tribo dos ricos e a tribo dos pobres, as tribos do futebol, as tribos da política, as tribos da cultura, as tribos elitistas, as tribos religiosas. São tribos que, muitas vezes, partilham os mesmos territórios e que se interpenetram. Nalguns casos organizam-se de forma secreta e têm interesses ocultos que se sobrepõem ao interesse dos Estados. Na política partidária, o partido desempenha o papel da tribo, e, quando  trata de favorecer os seus membros, isso tem reflexos na corrupção, no carreirismo, nos lobbies e na promiscuidade das relações entre economia e política.

Vivemos na emergência de uma crise civilizacional, provocada pela escassez de recursos, pelo excesso demográfico e pela degradação ambiental. As tribos, na ânsia de conquistar território ou de ganhar poder, foram sempre a causa das guerras. Mas na economia global e interdependente já não sobra lugar para guerras tribais, pois o seu custo seria doloroso e representaria um grave retrocesso da humanidade. Como único caminho, capaz de salvar a civilização, resta-nos unificar as tribos belicosas. Nalguns casos, quando o seu objetivo é mafioso, racista, sectário ou terrorista será mesmo necessário eliminá-las. O caminho não vai ser fácil.

segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

O Elevador Social

Há quem critique os pastores
por eles não serem estudados
Se fossem todos doutores
que seria dos nossos gados?
 Quadra afixada numa queijaria da Beira Baixa
Autor desconhecido



Nos anos 30 do século passado, uma vez estabilizadas as finanças públicas, Salazar idealizou para Portugal um modelo de sociedade corporativa assente na boa ordem social, no amor da Pátria,  na família e na tradição católica. O condicionamento industrial visava preservar a concorrência desenfreada e proteger os grupos económicos em ascensão. Portugal continuaria, pois, a ser um país essencialmente rural. As colónias eram ainda vistas como mercados de exportação e fontes de matérias primas.  As elites governantes da República radicavam na indústria e  na agricultura latifundiária, mas estavam em ascensão as hierarquias militares e académicas.  A educação superior destinava-se aos jovens provenientes dessas  elites. Para as massas populares bastava aprender a lêr, escrever e contar. Ocasionalmente, o seminário - tinha sido o caso do ditador - entreabria uma estreita via de acesso às camadas superiores.

Mas o mundo no pós guerra  passava por transformações muito profundas que se não  compadeciam com este bucólico modelo. Estava a ocorrer a segunda revolução industrial, a da mobilidade, que iria transformar radicalmente a forma de viver das sociedades ocidentais. O automóvel iria provocar o desenvolvimento das cidades, a mecanização e os fertilizantes estavam a  transformar a agricultura. O mundo entrava aceleradamente na era da globalização. O desenvolvimento atraía a Portugal as grandes multinacionais, favorecia-se o consumismo. Nesse período, florescem as atividades ligadas à banca e aos seguros, nasce o marketing e as funções com ele relacionadas: vendas, publicidade, merchandising, estudos de mercado. Emergem novas e mais sofisticadas formas de distribuição dos produtos. A rádio primeiro,  a televisão depois generalizam-se; empregam gente e afirmam-se como poderosos meios de comunicação e de publicidade.

Fruto do desenvolvimento, cresce o emprego e surgem novas profissões que requerem novas exigências. O acesso à educação explode nos anos 60. Como consequência, os campos começam a esvaziar-se. A educação transforma os filhos dos agricultores em doutores que passam a relacionar-se e a conviver, de igual para igual, com os filhos das velhas elites. A partir dos anos sessenta do século passado, o acesso das camadas menos favorecidas à universidade foi a causa principal para a criação de novas elites. A educação foi  o elevador social que favoreceu a ascensão.

Em abril de 1974, o Portugal que fez a revolução dos cravos era já um país diferente . E foram já, em grande parte,  as novas elites que assumiram o poder e a liderança. Durante as décadas que se seguiram,  foram criadas novas universidades, proliferaram os cursos. Os mais jovens, que aspiravam a seguir a carreira dos pais, habituaram-se a ver no diploma o passaporte para o emprego e para o sucesso.  Ser engenheiro, economista, médico ou professor era sinónimo de emprego garantido.

Com a crise as coisas mudaram e o diploma deixou de ser garantia de emprego. O elevador social está fechado à chave -acessível a muito poucos -, ou só conduz à cave. Entretanto os lugares na  base da pirâmide foram ocupados por imigrantes e aos jovens licenciados resta-lhes, em alternativa ao desemprego, a emigração.

Chegou o momento de rever o papel da educação. Nós temos de formar a geração que vai fazer a Transição. As palavras de ordem terão a ver com sustentabilidade e responsabilidade. Vai ser preciso formar jovens com capacidade critica e com criatividade.  Será preciso mudar os valores no sentido que um dia Ernâni Lopes apontou, substituindo aqueles que, passo a citar, "hoje lhes servem de referência, que mostram que para se ter sucesso – poder e dinheiro – o trabalho, a honestidade e o conhecimento não fazem falta."
E foi aquele economista que nos deixou a tabela da conversão do que é para o que deve ser:
Facilitismo ------- Exigência
Vulgaridade ------ Excelência
Ignorância -------- Conhecimento
Mandriice -------- Trabalho
Aldrabice ---------Honestidade
Videirismo ------- Honra
Golpada ---------- Seriedade
Moleza ----------- Dureza

segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

A Entrevista de Hawking

Stephen Hawking, o conhecido físico inglês, concedeu uma entrevista ao jornal madrileno El Mundo, a qual foi reproduzida pelo  Expresso. É fascinante ouvir um homem paralisado por uma atrofia muscular, todo ele neurónios e inteligência, falar-nos da paradoxia que é a criação da matéria. Para Hawking, a Física Quântica estará, concetualmente, muito próximo de identificar as partículas e explicar as forças e os mecanismos que estão subjacentes à organização da matéria. Para ele, isso vem resolver a paradoxia, o que permite dispensar Deus. Em resumo: Hawking declara-se ateu.

O Universo é muito antigo e é muito grande. A idade e o tamanho do Universo - falamos do Tempo e o Espaço de Einstein -, confundem-se e confundem-nos.  O Universo continua a envelhecer  e a dilatar-se. A seta unidirecional do Tempo confere um sentido à evolução da matéria criada.  É neste sentido, focalizados na intenção de o perceber, que nos devemos deter. Tudo começou no plasma indiferenciado; depois formaram-se os átomos dos diferentes elementos: primeiro os mais leves, depois os mais pesados. Num determinado momento, no mundo que habitamos, as moléculas de certos compostos de carbono aprenderam a replicar-se: nasceu a vida. No nosso planeta, nos últimos 750 milhões de anos, sucederam-se os impactos de meteoritos, as convulsões vulcânicas, as glaciações. Espécies proliferaram em terra e nos oceanos; em certas ocasiões extinguiram-se em massa; noutras ressurgiram sob novas formas. Impelida por uma estranho desígnio - que a Física Quântica não explicou-, a Vida floresceu, resistiu e os organismos vivos adaptaram-se e evoluíram.

Há quatro milhões de anos um primata, caminhando ereto e com uma grande agilidade manual, adquire consciência da sua existência e do seu ser.  Muito mais recentemente, há apenas cerca de dez mil anos, um descendente daquele, o homo sapiens, dotado de inteligência reflexiva e criativa, adquiriu um grande ascendente sobre as outras espécies, começou a espalhar-se e, em muito pouco tempo, ocupou o planeta.  A  Vida, a Inteligência e a complexidade crescente são os marcos que balizam o sentido da evolução da matéria.

Voltemos a Stephen Hawking, ele próprio um fruto da evolução.  Foi, sem dúvida, enorme o avanço que, nos últimos cem anos,  a ciência nos trouxe sobre a estrutura da matéria.  Mas o conhecimento científico explica o como, mas não justifica o porquê. Será que já não precisamos de Deus para responder às nossas dúvidas mais profundas, para entender o sentido da evolução? Ou, ter-se-á finalmente cumprido a ambição de Adão no Paraíso Terrestre e seremos nós o próprio Deus? A coisa criada poderá ocupar o lugar do Criador?

Desde Galileu que a Terra deixou de ser o centro do Sistema Solar. E com Edwin Hubble aprendemos que o nosso lugar no Universo é discreto, sem especial relevância nem centralidade. Ganhámos um conhecimento novo, mas abandonámos crenças antigas e ficámos perdidos diante da vastidão do que nos rodeia. E suspeitamos de que haverá outras revelações surpreendentes, provavelmente outros universos para além do nosso. Cada nova descoberta, parece trazer mais dúvidas do que respostas.

Entre as convicções de Hawking estará também a de que a civilização humana não tem futuro na Terra. A extinção da espécie pode ser provocada por um cataclismo, pelo impacto de um meteorito, por uma glaciação ou outra alteração climática. Muito provavelmente, à semelhança do que aconteceu com outras,  acontecerá a esta espécie entrar num cul-de-sac evolutivo,  provocado pela rutura do complexo sistema ecológico que ela própria criou: uma grande especialização e interdependência entre indivíduos baseada em complexos sistemas externos, vulnerabilidade a doenças infeciosas, dependência crítica de recursos escassos e não renováveis.

Para o famoso físico, a sobrevivência da Humanidade  estará na colonização de outros planetas. Sobre este ponto, discordo totalmente. O homem está prisioneiro do sistema solar. Tal como a Moisés, a quem antes de morrer, foi apenas mostrada a terra prometida no Monte Nebo, também as estrelas e as galáxias foram reveladas ao Homem mas está-lhe vedado o acesso, e nunca as alcançará. Imaginar elementos da espécie humana preservados pelo frio, viajando durante milhões de anos até outros ambientes habitáveis, situados em lugares incertos, só pode acontecer no domínio da ficção.

A definição do sentido da evolução  nunca esteve nas mãos do homem. Ele próprio é um efeito desse processo evolutivo. Mas esse sentido existe  e o homem não o poderá contrariar. Deus já não faz falta a Hawking, mas o vazio provocado pela angústia instigada pela consciência do eu - que Deus veio preencher - persiste em manter-se. Duvido que, algum dia, a  ciência  o venha substituir.


segunda-feira, 6 de Outubro de 2014

Pensar o Futuro

Noutros tempos, a rentrée marcava o início das aulas, a abertura da caça e assinalava a chegada da temporada dos espetáculos teatrais e musicais. Agora, está dominada pelas conferências e pelos debates. Depois de, na semana passada, se ter falado de Liberdade no CCB, a Fundação Gulbenkian vai por estes dias promover um debate sobre o tema - Pensar o Futuro de Portugal. Os promotores da iniciativa pretendem que se debatam as políticas para o futuro do nosso país, por constatarem que esse debate e essas políticas têm estado ausentes da governação e da discussão. No clima de desorientação estratégica em que nos encontramos, e em vésperas da apresentação do orçamento para 2015, convenhamos que a iniciativa é oportuna e louvável.

Na Gulbenkian vão estar a apresentar os tópicos quinze personalidades, quase todas ligadas ao mundo académico. Auxiliados por um vídeo promocional, em que cada um dos palestrantes surge a apresentar resumidamente qual o tema da sua intervenção, ficamos com uma ideia antecipada do que ali se vai dizer. É importante debater o futuro de Portugal, mas falta neste debate, na minha opinião, um enquadramento mais amplo que ajude a contextualizar o tema. No tempo da Globalização já não se pode falar do futuro de um país ou de uma região como se ele fosse uma coisa isolada. Não é possível pensar o futuro de Portugal, nem fazer propostas sobre políticas a adotar, sem ter em conta o futuro do mundo ou sem equacionar os caminhos da Europa.

Neste caso, seria útil ao debate mostrar ou antever o pano de fundo onde se jogará o futuro de Portugal. Para esse efeito, poderia recorrer-se ao trabalho já feito por outros e assumir os pressupostos fundamentais que hoje são aceites de forma amplamente consensual. Falo, por exemplo, da escassez de recursos - especialmente energéticos, hídricos e alimentares -, das alterações climáticas, da poluição e do problema demográfico. Mesmo que o livro de Al Gore, O Futuro, pelo seu pendor - orientado para os mass media - não agrade a muitos académicos, depois de expurgado de algum conteúdo mais sensacionalista e especulativo, poderia servir de base de trabalho e cumprir a função referida.

Na antevisão das conferências perpassa a trivialidade dos temas ou o déjà vu - numa conferência destas valerá a pena perder tempo com mais propostas de revisões eleitorais?! -,insiste-se na via do crescimento, na inovação sem precisar o sentido, faltam claramente ideias criativas e propostas ousadas de rutura. Estão ausentes da discussão alguns dos temas mais fraturantes da sociedade portuguesa, temas que têm a ver, por exemplo, com a educação (educar para quê?), com a agricultura - a que está associada a delicada questão da terra -, com a energia, com a demografia, com a imigração, com a Europa e com a soberania.

Prever, adivinhar ou antever o futuro era dom dos demiurgos através dos quais se manifestavam as divindades. Mas o futuro já não pertence a Deus. A ciência e o determinismo já explicam muita coisa e sabemos hoje, pela imprevisível complexidade da matéria, que o futuro também se joga entre a harmonia da ordem e a atração do caos. Mas muito do que irá ser o futuro - para nosso bem e para nosso mal - está nas mãos dos homens. E seria bom que a tarefa de fazer as opções sobre os caminhos a seguir fosse entregue aos melhores e aos mais esclarecidos.