segunda-feira, 14 de Abril de 2014

A Crimeia

Os acontecimentos da atualidade noticiosa, quer se trate de conflitos armados, acidentes ou catástrofes naturais, obrigam-nos a olhar para o mapa do mundo. A propósito, recordo o professor de Geografia que tive no velho Liceu Nacional da Guarda, entre nós conhecido pelo Carlos Costa, um dos poucos que não tinha alcunha.  Era um professor da velha guarda, tão exigente quanto competente. Recordo-me  que no início duma aula do velho 5º ano nos disse: Abri o livro na página tal, onde está Congo Belga riscai e escrevei República do Congo, que é assim que se chama a partir de hoje. E sempre que um novo país ascendia à independência, nós emendávamos o livro. No final das chamadas, quando o aluno não satisfazia o interrogatório,  costumava sair-se com uma tirada que ficou célebre no liceu e na cidade: E levanta-se um padeiro à meia noite a cozer pão para um burro destes!.

As suas aulas de geografia eram viagens imaginárias pelas montanhas e vales, seguindo as grandes vias férreas, ou simulando rotas de navios navegando ao longo das costas, subindo rios e estuários, dobrando cabos, contornando penínsulas.  E foi Carlos Costa que, numa aula, nos guiou pelo Mediterrâneo Oriental, através das ilhas do mar Egeu,  em direção ao estreito de Dardanelos que conduz ao mar da Mármara, situado entre a Trácia, a oeste, e o antigo Helesponto dos Romanos, a leste. Juntos, atravessámos, depois, o apertado e celebrado Bósforo para, finalmente, entrarmos no Mar Negro com o adjacente mar de Azzoff por companheiro. E foi nessa viagem quando, pela primeira vez, ouvi falar da península da Crimeia.

O Mar Negro, o Ponto Euxino dos gregos, é um importante mar interior que banha a Bulgária, a Roménia - onde desagua o Danúbio, o maior rio da Europa- , a Moldávia, a Ucrânia, a Rússia, a Geórgia e a Turquia. Além do Danúbio, ainda desaguam  nele o Don e o Deniepr. Tem uma superfície que é cinco vezes a superfície de Portugal Continental. Nas suas margens estão situadas importantes cidades como Odessa na Ucrânia, Sebastopool na Crimeia, para já não falar de Istambul, à entrada do Bósforo,  que com mais de 15 milhões de pessoas é a maior cidade da Europa. Na mitologia Grega, o Mar Negro foi o destino da expedição dos argonautas que foram até à Cólquida (a Geórgia atual) na busca do Velo de Ouro. E, ao longo da história, por aqui passaram muitos povos, aqui se fizeram guerras.  O Mar Negro integra uma vasta região que inclui o Mediterrâneo Oriental, que se estende aos antigos domínios do império Otomano e foi o berço da Civilização Ocidental.  É nesta região, que controla o acesso às cobiçadas reservas energéticas do Golfo Pérsico, onde convergem os interesses estratégicos das novas potências: Estados Unidos, Europa, Rússia e China.

Daí a importância das recentes movimentações na Praça da Independência, em Kiev, que derrubaram o presidente Viktor Yanukovych, e tiveram como consequência a realização de um referendo na Crimeia que de facto transferiu o controlo desta província para a Federação Russa. Esta ocorrência, pelas suas imprevisíveis  consequências,  dominou e continua a dominar as notícias dos meios de comunicação. Os Estado Unidos condenaram a ocupação, os europeus concordaram com os americanos. A China mantém-se silenciosa como é seu costume, a Turquia alinhou com a União Europeia, à qual aspira vir juntar-se.

A questão da Ucrânia é fulcral para o futuro da Europa. O que está verdadeiramente em causa é saber qual vai ser o papel da Rússia e qual vai ser o seu relacionamento com a Europa na nova ordem mundial que está a emergir. Nessa nova ordem, os Estados Unidos vêm na Europa o seu principal aliado. A consolidação da aliança passa pela Nato no plano militar,  e pelo TTIP ( a parceria comercial do Atlântico Norte)  no plano económico. Na estratégia americana, a Rússia, que não pertence à Nato, ficará excluída do TTIP. Ora a Rússia, confina a leste com este novo bloco Ocidental. E a fronteira passa pelo meio da Ucrânia.

A Rússia é o maior país do mundo em território, tem vastíssimos recursos naturais nomeadamente energéticos, entre eles carvão, petróleo e gás natural. Étnica, cultural e religiosamente a Rússia pertence ao Ocidente. Excluir a Rússia das alianças, criadas para formatar e sustentar o Ocidente (Nato e TTIP), é isolá-la e deixar-lhe um entendimento com a China como única porta de saída. Os europeus estão conscientes do facto e dos perigos que ele encerra. Isso fica bem patente na opinião pública: sondagens recentes mostram que os alemães e os franceses estão divididos em relação às posições russas na Crimeia. Já os ingleses, que são o porta voz da América na Europa e o seu cavalo de Tróia, alinham pelas posições americanas. A  opinião dos países da Europa do Sul, pobres e desvalorizados, pouco conta neste jogo de interesses.

Com a rápida ocupação da Crimeia, a Rússia de Putin deu um forte sinal de que pretende ter um papel a desempenhar na zona. A sua principal arma é a energia, e vai usá-la com toda a força. Ele sabe que a Europa não tem alternativa ao gás natural russo.  A importação do gás de xisto americano, sugerida por alguns,  é vista pelos especialistas como uma anedota, e o pipeline para chegar às enormes reservas de gás natural do Irão e do Qatar terá de passar pela Síria. Uma das respostas às sanções económicas dos americanos será uma aproximação da Rússia ao Irão, dois dos maiores produtores mundiais de petróleo. Já se comenta que estes países querem abandonar o dólar como moeda de referência nas transações dessa matéria prima. Para isso, poderão vir a criar um novo padrão para o crude (o Uralis), em paralelo ao WTI americano e ao Brent europeu, em que o preço do barril seria cotado em Euros ou Rublos. Uma tal decisão, a ter sucesso, constituiria um duríssimo golpe para a hegemonia da moeda americana no mercado mundial de petróleo.

Não vai ser fácil resolver a questão ucraniana. A Europa depende energeticamente da Rússia, não tem força militar, está dividida e tem muitos problemas internos para resolver. Os Estados Unidos estão conscientes do risco do seu envolvimento num conflito com a Rússia. O silêncio da China é significativo, e isso não quer dizer que não esteja atenta ao problema. As armas já disparam no leste da Ucrânia, naquilo que poderá ser o prelúdio de uma guerra do Ocidente contra o Ocidente. Pode ter-se aberto a caixa de Pandora na Praça da Independência, em  Kiev.

segunda-feira, 7 de Abril de 2014

IPCC: Um Sério Aviso

O painel intergovernamental para o estudo das alterações climáticas (IPCC), criado pela Organização Meteorológica Mundial (WMO) e pelas Nações Unidas, é constituído por três grupos de trabalho. Em setembro de 2013, foi produzido pelo Grupo I o relatório que se ocupou da análise dos aspetos físicos e científicos relacionados com o clima e as suas alterações. A conclusão desse relatório foi clara: o homem está a interferir com o equilíbrio da hidrosfera e da atmosfera, e, com esta interferência, afeta a biosfera e a vida que ela integra. Por outras palavras, a atividade do homem está a pôr em causa o futuro da própria espécie humana.

O relatório do Grupo II, que é a sua quinta avaliação - a quarta tinha sido em 2007 -, e foi publicado no último dia de Março, analisa o impacto ambiental e económico das alterações climáticas. Mais tarde, o relatório do Grupo III ocupar-se-á das medidas a tomar para mitigar os efeitos desses impactos. Baseado no contributo de 436 autores e um total de 1729 revisores, o relatório agora publicado intitula-se Climate Change 2014: Impacts, Adaptation and Vulnerability. A conclusão sintese é de que os efeitos das alterações climáticas já estão a ocorrer em todos os continentes e em todos os oceanos. O impacto desses efeitos é, na maioria dos casos, prejudicial à economia e acarreta prejuízos ambientais. Alguns sistemas e algumas regiões estão mais expostos e serão mais vulneráveis.

O relatório está redigido com grande rigor científico. Não se fala de certezas, fala-se de probabilidades. Para cada possível ocorrência apresenta-se o grau de probabilidade dela acontecer, e também o grau de probabilidade de ela ter como causa as alterações climáticas. Para evitar alarmismos, não se fazem previsões, apresentam-se cenários. Faz lembrar a forma como os médicos apresentam o prognóstico de evolução de uma doença grave. Não se exclui o milagre da cura, mas para o médico é sinónimo de certeza quando há 99% de probabilidade da doença evoluir de uma certa forma.

A linha de raciocínio dos relatores é esta: as alterações climáticas são perigosas (hazardous em Inglês) e estão associadas a vários riscos. O relatório enumera concretamente oito desses riscos cuja ocorrência, para todos eles, é considerada com um grau muito elevado de probabilidade estatística (uma simpática perífrase para significar que elas vão de certeza acontecer). Esses riscos estão associados a:
  1. Subida do nível médio das águas do mar, acompanhadas de tempestades e inundações, afetando as regiões costeiras e ilhas baixas. 
  2. Inundações em zonas baixas urbanas 
  3. Ocorrência de danos sistémicos provocados pela rutura de redes elétricas, de abastecimento de água, de sistemas de saúde e de emergência. 
  4. Ocorrência de vagas de calor afetando zonas urbanas e trabalhadores de ar livre. 
  5. Rutura dos circuitos alimentares e escassez de alimentos provocada por calor, inundações e excesso de precipitação que pode afetar sobretudo as populações mais pobres. 
  6. Limitações no acesso à água para rega e consumo, provocando redução da produtividade na agricultura e na pastorícia, sobretudo em regiões semiáridas. 
  7. Desaparecimento de ecossistemas marítimos e costeiros, acompanhadas de extinção de espécies, afetando, sobretudo, os trópicos e as regiões árticas. 
  8. Perda de aquíferos e águas interiores, afetando a biodiversidade, a produção de bens e limitando as funções que desempenham para a subsistência das populações. 
O cidadão comum, mais familiarizado com o discurso político do que com relatos científicos, ouve estas notícias e acredita que as anunciadas desgraças ainda vêm longe, e tudo se há-de resolver. Ele preocupa-se com o dia de hoje e com o que se passa à sua volta, importando-se pouco se algumas ilhas no Índico irão ficar submergidas ou se o mesmo acontecerá no delta do Nilo ou no delta do Mekong onde se produzem grandes quantidades de alimentos. E porque havia de preocupar-se, quando continua a ver: a televisão a transmitir as mesmas novelas, a austeridade a corroer o nosso poder de compra e o Benfica a marcar golos?

A partir da revolução industrial ocorrida na viragem do século XVIII para o XIX, introduziu-se uma dinâmica de crescimento na economia nunca antes vista. Até essa altura, e durante milhares de anos, o homem viveu em paz com o planeta, extraindo dele recursos que na maior parte dos casos eram repostos naturalmente de uma forma cíclica. O carvão e a máquina a vapor criaram a produção em série e aumentaram a mobilidade. De uma forma rápida e acelerada, o homem começou a extrair cada vez mais recursos, e a produzir cada vez mais poluição. Em duzentos anos a população do planeta multiplicou-se por seis. O automóvel, a eletricidade, o computador pessoal e a revolução urbana alteraram o nosso modo de vida de forma irreversível. Mas os sinais são preocupantes e o planeta parece estar a reagir.

O aviso dos cientistas do IPCC é um aviso sério. Suspeito que pouco ou nada será feito para contrariar as tendências expressas, e que tudo não passará de boas intenções. Imagino que - à semelhança do que já se faz nos pacotes de cigarros - se imponha um autocolante nos automóveis dizendo "Andar de carro ajuda a destruir espécies". Tal como acontece com os fumadores, o efeito do aviso será muito reduzido. E os estragos continuarão a ocorrer, de forma irreversível. A economia e o planeta estão em rota de colisão. Quando se der o embate, será a economia que sofrerá os maiores estragos. Sem economia a espécie humana ficará desprotegida e poderá caminhar para a extinção. Mas a Terra continuará a fazer uma rotação sobre o seu eixo a cada vinte e quatro horas, e a completar o seu percurso em redor do Sol em cada ano!

segunda-feira, 31 de Março de 2014

Uma Fuga em Frente?

Começa a ser consensual, mesmo para o cidadão comum, que sem crescimento económico esta economia não tem futuro, e a crise que enfrentamos não terá solução. A resposta, que o sistema tem dado à urgente e imperiosa necessidade desse crescimento, tem apontado no sentido do reforço da globalização. Um exemplo bem ilustrativo desse caminho é o chamado TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership), também conhecido por TAFTA (Transatlantic Free Trade Area), um acordo ou parceria para o comércio e o investimento que está a ser negociado entre os Estados Unidos e a União Europeia. Foi há cerca de um ano, em fevereiro de 2013, que Barack Obama no discurso sobre o Estado da União, pela primeira vez, se referiu ao acordo. No dia seguinte, Durão Barroso respondia em consonância, apoiando a ideia. E as negociações iniciavam-se.

 O TTIP é apresentado como um acordo altamente vantajoso para os dois lados do Atlântico. Ele visa reduzir as tarifas alfandegárias já baixas, em virtude dos acordos existentes no âmbito da Organização Mundial do Comércio, e eliminar outras barreiras ao comércio livre, uniformizando nomeadamente regulamentos, normas de fabrico, e as exigências de segurança, permitindo que bens produzidos em qualquer dos lados do Atlântico possam assim circular no outro sem qualquer impedimento. Serão incluídos direitos de autor e patentes, mas não o audiovisual. Espera-se que este acordo venha a ter grande impacto na agricultura. Isto, apesar das dificuldades que se advinham no que toca à aceitação, por parte dos europeus, das regras americanas sobre os alimentos geneticamente modificados, sobre a certificação de sementes ou o uso de certo tipo de aditivos na alimentação animal.

As grandes multinacionais vêm enormes vantagens nestes acordos, e um reforço dos mecanismos de proteção aos seus investimentos em qualquer dos lados do Atlântico. A uniformização de normas certificadoras, de rótulos de embalagens, da comunicação e marketing terá um forte impacto nos custos finais dos produtos. A quantificação dos benefícios gerados pelo TTIP, feita pela UE, apontam para crescimentos de 120 mil milhões euros/ano do lado da Europa e 90 mil milhões euros/ano do lado dos Estados Unidos, acompanhadas de um forte crescimento do emprego. Na propaganda subtil que está a fazer-se para cativar a opinião pública, diz-se que uma família europeia de quatro pessoas terá um benefício anual de 545 dólares. E diz-se, também, que toda economia mundial ganhará com isso.

Este acordo envolverá cerca de 50% do Pib mundial, mas apenas 12% da população. O reforço do comércio entre as duas partes não deverá agradar à China ou à Rússia, que provavelmente serão obrigadas a aceitar dialogar com um bloco muito reforçado. Ele terá impacto na China, que terá de adaptar os seus produtos às novas regras ou confrontar-se com fortes limitações à contrafação e à pirataria. O acordo está a ser negociado ao mais alto nível em grupos de trabalho que incluem representantes das grandes multinacionais, mas com um certo secretismo. Não se sabe se depois de aprovado pelo Parlamento Europeu ele terá de ser ratificado ou não pelos parlamentos nacionais de cada um dos Estados Membros. Até agora os grandes meios de comunicação social não têm dado muita atenção ao assunto.

Portugal não pode ficar indiferente a este acordo, embora possa fazer muito pouco para o contrariar. Comparado com o que aconteceu na nossa integração na CEE e as suas consequências, este é um grande passo em frente cujo efeito se fará sentir fortemente no nosso modo de vida e no nosso dia a dia. A nossa soberania vai reduzir-se ainda mais, não sendo seguro que isto venha a aliviar a pressão sobre a dívida nem a reduzir a austeridade.

O acordo é, assim, uma boa noticia para os mercados e para o sistema financeiro, pois favorecerá a manutenção do status quo. Vai animar a economia e servirá para manter as expectativas elevadas. É quase certo que os índices bolsistas vão subir. Ao abrir novos mercados vai aumentar a competitividade, uniformizar gostos, valorizar ainda mais as marcas globais. Talvez, por tudo isso, ele está a ser fortemente incentivado pelas grandes empresas e corporações multinacionais.

Mas a assinatura do TTIP é uma má notícia para a Humanidade e para o seu futuro. Vão servir-nos mais do mesmo, quando o bom senso aconselharia soluções de um novo tipo. Por este caminho, vão aumentar as emissões de CO2, haverá mais mobilidade, maior consumo de recursos, crescerá a complexidade dos processos, haverá uma maior interdependencia entre as economias. E ao afetar a pequena indústria e o pequeno comércio, o acordo será mais um golpe para a ideia de localização da economia, tal como a entendem os movimentos de transição. As alterações climáticas vão acelerar-se, o nível dos oceanos subirá e as calotes polares derreterão a um ritmo mais acelerado. E, sobretudo, as desigualdades sociais irão acentuar-se: os fortes ficarão mais fortes e os fracos mais fracos.

Com o caminho que está a ser seguido, isto é, mais e mais globalização, cada nova crise terá efeitos mais devastadores que a anterior. Vai haver uma maior procura de energia fóssil, existindo sérias dúvidas sobre se a oferta a poderá satisfazer. O secretismo e a opacidade que têm envolvido as negociações, terá a ver com o receio de ele vir a ampliar a indignação dos desprotegidos e dos desempregados de todo o mundo, que acreditarão que nada de bom este acordo lhes poderá trazer.

Seria interessante ouvir a opinião de Al Gore sobre as consequências deste massivo investimento na debilitada Terra, SA.

segunda-feira, 24 de Março de 2014

Crédito e Crescimento

O pressuposto básico para a economia de mercado funcionar sem problemas é que exista crescimento continuo da riqueza produzida. E esse pressuposto condiciona todos os outros. As grandes opções da política económica tais como os acordos de comércio livre, a sofisticação dos instrumentos financeiros, a internacionalização dos fluxos de capital, o desenvolvimento tecnológico, a procura de recursos e a otimização da sua exploração e utilização, numa palavra a globalização, são tomadas sempre no sentido de estimular o crescimento da riqueza.

À primeira vista, na economia de mercado, crédito e crescimento são equivalentes. O crédito implica crescimento e o crescimento implica crédito. E o contrário também parece válido: sem crescimento não há crédito e sem crédito não há crescimento.  Quando pela concessão de crédito se cria dívida  está a injetar-se dinheiro na economia. Esse dinheiro vai ter um efeito alavancador sobre outros sectores. Quem beneficia do crédito compra máquinas e produtos, emprega pessoas que por sua vez consomem bens, fazem viagens, compram casas e equipamentos. Este efeito propaga-se sucessivamente gerando nova riqueza. Mas a relação entre crédito e crescimento, parecendo simples, não é linear. O crédito, só por si, não é causa de crescimento, embora tenha, tal como um catalisador numa reação química, o efeito de o acelerar. Hoje sabemos que a causa real do crescimento é outra.

O sistema económico é alimentado exogenamente. Os inputs são exteriores e limitados: terra, recursos e (sobretudo) energia. A poluição e a degradação ambiental são condicionantes exteriores. Além disso, existem muitos outros fatores internos à economia que condicionam o crescimento, de entre os quais destaco: o estado das infraestruturas,  a qualidade das instituições, a eficiência na apropriação e utilização dos recursos, a complexidade das redes, a população e a sua estrutura etária,  os conflitos sociais e laborais, as despesas sociais, a gestão ambiental. Tanto aqueles inputs e condicionantes exteriores como os fatores internos são os responsáveis pelo crescimento e pela ausência dele. No momento que atravessamos, o aumento do crédito pouco tem feito e pouco poderá fazer para contrariar a forte pressão daqueles fatores. E isso desespera os economistas.  Que mais desesperados ficam por perceberem que as coisas não estão a melhorar, antes pelo contrário.

Para mitigar o incumprimento, a concessão de crédito é precedida de cuidada avaliação do devedor: um jovem empreendedor, dinâmico e num sector próspero tem mais probabilidades de criar riqueza do que um velho sem ambição e sem ideias. Por isso, mais facilmente pode beneficiar da concessão de crédito. Da mesma forma, os Estados devedores são avaliados sobre a sua capacidade de pagar os empréstimos.

 Portugal enfrenta um grave problema de dívida. Está demasiado velho e com excesso de gorduras para inspirar confiança nos credores sobre a sua capacidade de criar riqueza no futuro. Estes credores desconfiam que Portugal quer aliviar a dívida para engordar ainda mais. Eles acreditam que a dieta forçada é ainda insuficiente e vão recomendando que se continue a reduzir a ração. Faz lembrar a história do burro do Irlandês, que morreu quando já estava quase desabituado de comer...
Convém moderar o rigor da dieta! E começar a fazer exercício.

segunda-feira, 17 de Março de 2014

O Último Cerco de Almeida


No Verão de 1810, as tropas francesas de André Massena decididas a conquistar e ocupar Lisboa, escolhem fazê-lo pela rota da Beira, que entra por Almeida e  segue por Pinhel, Trancoso e vale do Mondego até Coimbra, que ficava já na estrada que ia do Porto para a capital do Reino. Wellington, que chefiava as forças opositoras, opta por retardar o mais possível a progressão dos franceses, procura dificultar-lhes o aprovisionamento através da política de terra queimada, e estabelece um reduto defensivo a norte de Lisboa, as famosas Linhas de Torres. Com esta estratégia, esperava o general inglês que as tropas de Massena fossem surpreendidas pelas chuvas outonais, as quais deixariam as estradas em mau estado, enfraquecendo-as e dificultando-lhes a progressão para a capital.

No início do século XIX, A Inglaterra e a França lutavam pela supremacia na Europa. As estrondosas vitórias da Grande Armée de Napoleão frente aos austríacos, aos russos e aos prussianos, permitiam-lhe alimentar o sonho de vencer esta disputa.  A Inglaterra detinha a supremacia nos mares a qual saiu reforçada e incontestada depois da vitória de Nelson em Trafalgar, em 1805. Para os franceses, a península Ibérica, e sobretudo Portugal, tinha uma grande importância. Lisboa com o amplo fundeadouro do Tejo ocupava uma importante posição estratégica que controlava o acesso ao mediterrâneo e à rota da Índia, cruciais para os ingleses. O Brasil com as suas riquezas, onde desde 1808 se encontrava a família real, era outro prémio apetecível. Ora, fechar os portos portugueses aos ingleses era fundamental para os objetivos de Bonaparte.

Pela sua localização e inacessibilidade na extremidade da península Ibérica, Lisboa era uma cidade difícil de conquistar. E foi isto que justificou a secular independência de Portugal.  No início do século XIX, as vias de comunicação terrestres eram más e os rios dificilmente navegáveis. Para quem vem de França, a rota da Beira é o caminho mais direto para Lisboa. Como principais dificuldades, a travessia do Côa e da cordilheira (entre o Caramulo e o Bussaco) que separa o planalto da meseta das planícies do litoral. O primeiro obstáculo militar a vencer era Almeida, um baluarte de fronteira. Ali, entre 1640 e 1810, tinham sido levantadas imponentes fortificações, pensadas e projetadas para uma guerra de artilharia. O local não seria o ideal,  e a configuração do terreno, num plano levemente inclinado, apresentava inúmeras fragilidades. Mas sem alternativas, naqueles 170 anos, as muralhas com os seus baluartes e os seus revelins foram, aos poucos, tomando forma. A fortaleza tinha sido cercada e resistido em 1663, na Guerra da Restauração, e tinha capitulado perante os espanhóis no Verão de 1762, na guerra que se seguiu à recusa de Portugal em assinar o Pacto de Família. O conde de Lippe, contratado por Pombal para reorganizar o exército português, visitou a praça em 1764, e contribuiu para dar um impulso decisivo na finalização das fortificações.

Em agosto de 1810, guarnecida por 5000 homens, bem provida de pólvora e mantimentos, Almeida era um sério obstáculo que Massena tinha de superar. Wellington tinha fixado uma  missão: resistir o máximo de tempo, três semanas, um mês se fosse possível. Naquele embate, Almeida iria ter a oportunidade de mostrar que o esforço de construir tão dispendiosas fortificações, tinha valido a pena. Apesar de que  esta não era uma guerra portuguesa, não se defendia Portugal, nem se lutava na defesa de nenhuma ideologia nacional. O regente tinha fugido para o Brasil e não existia verdadeiramente um governo português. O que restava do nosso exército, uma parte estava na Legião Portuguesa combatendo sob a bandeira das águias do Corso , outra parte estava integrada no exercito inglês e sob o seu comando. Em Portugal, os ingleses ocuparam o vazio existente, e faziam aqui a sua guerra longe do seu território.

Mas naquele fatídico dia 26 de Agosto, escassos dias depois de ter começado o cerco, o destino não deixou que Almeida cumprisse o fim para que fora construída. Um acidente ocorrido no paiol provoca a explosão do castelo e a sua derrocada. Terão morrido cerca de 500 pessoas e ficaram danificadas a maior parte das casas da povoação.  A fortaleza que deveria resistir por semanas não aguenta mais de três dias, e capitula dilacerada e sem glória. Mais tarde, o governador português da praça, que, naquelas condições, pouco mais poderia ter feito a não ser a render-se, haveria de ser acusado de traição e sentenciado à morte pela justiça dos ingleses.

Massena nunca entrará a Lisboa. Em 1815, a França vê os seus sonhos de dominar a Europa desfeitos em Waterloo. Nos 100 anos seguintes, nenhuma potência faria frente à Inglaterra. A partir daí, Almeida como fortaleza deixa de fazer sentido. Quando, em 1914, a Alemanha unificada e forte volta a desafiar os ingleses, a guerra que se segue é já de outro tipo e as escaramuças decorrem noutra geografia. A Espanha também já não constitui uma ameaça à nossa independência. Almeida e as suas muralhas deixaram de ter qualquer sentido estratégico. No século XIX, as casas-matas ainda serviriam de prisão nas lutas liberais.  Em 1927, o último soldado abandona a praça militar.

A fortaleza impensável, erguida no meio de nada, teve 170 anos de vida e sacrificou-se no último cerco. A sua história, a do suor dos seus construtores e a do sofrimento da gente da sua região, ainda está por escrever. As muralhas resistem, praticamente intactas, como seriam há 200 anos. Mas ninguém sabe ao certo o que fazer com elas.

segunda-feira, 10 de Março de 2014

Anos Sessenta

Para a gente da minha geração, parece que foi nos anos sessenta que tudo aconteceu: o rock and roll, os beatles, os rolling stones, o woodstock, os hippies, as calças à boca-de- sino, a minissaia, a vulgarização da pílula, o make love not war, o começar a percorrer o mundo de mochila às costas, a emancipação da mulher, a urbanização, o aparecimento dos subúrbios, o marketing, a ida à Lua, a contestação à guerra por imperativo de consciência, a emancipação dos negros na América e a libertação dos povos africanos. No cinema e na música os nomes dos anos sessenta, formam uma constelação de estrelas: Fellini, Visconti, Hitchcock, Ingmar Bergman, Kubrick, Chabrol, Brigitte Bardot, Sofia Loren, Claudia Cardinali, Jane Birkin, Marilyn Monroe, Elvis Presley, Bob Dylan, Joan Baez, Bob Marley. E tantos outros! E não faltam os mitos e os heróis : Che Guevara, Luther King, John Kennedy, Fidel de Castro, Mao Tse Tung, João XXIII, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira...

 No mundo ocidental, que durante muito tempo foi sinónimo de mundo civilizado e industrializado, esses anos são tempo de mudanças, durante os quais a sociedade se transformou de forma irreversível. De repente, a velha ordem hierárquica e tradicional, baseada nos valores da família, da religião e do amor pátrio, começou a ruir. Foi uma revolução social, direi mesmo uma revolução civilizacional. Aparentemente o driver destas transformações foi uma movimentação dos mais jovens, que interiorizaram a sua predestinação para realizar as mudanças e não hesitaram em tomar nas suas mãos essa missão. O maio de 68 em França e a crise académica de 69 em Portugal são momentos dessa afirmação.

No início da década de sessenta, a geração nascida durante a guerra e nos anos seguintes começava a chegar às universidades. Mas já não eram apenas os filhos das elites que ascendiam ao ensino superior. Na velha sociedade hierárquica e estruturada, a Universidade era o filtro de malha fina que limitava a ascensão social. Isso era muito evidente no nosso País onde, ao contrário do que se passava nos EUA, a via do sucesso empresarial ou comercial foi sempre mal vista como forma de reconhecimento social. Entre nós, desde que acabou a fidalguia, a pertença ao mundo dos doutores passou a ser a principal marca do elitismo.

Em Portugal, os anos sessenta são ainda tempos de ditadura, de censura, mas agora também das grandes migrações (para a Europa, para as cidades do litoral) , das crises académicas, da guerra colonial, das canções de protesto. Apesar da exaltação nacional que foi o campeonato do mundo de futebol de 1966, e das glórias europeias do Benfica, a repressão gerava a contracultura: éramos anti-regime, anti-fado, anti-futebol, anti-nacional-cançonetismo e anti-religião. Ao som dos long plays, da rádio, da música inglesa, do em órbita viviam-se os últimos tempos românticos. Tempos em que o amor começava com la main dans la main, les yeux dans les yeux.

Mas, nessa década, quase sem nos darmos conta, teve também lugar uma revolução energética que transformou a nossa forma de viver. Em 1960, a economia mundial absorvia 20 milhões de barris de petróleo por dia que corria abundante e barato. O crescimento precisava de mais e mais crude. E ele jorrava fácil no Texas, no deserto da Arábia, no Irão e no Iraque. No final da década, o consumo mundial de petróleo era já de 50 milhões de barris por dia. Foi essa energia que levou o conforto aos lares e fez esquecer o tempo das privações, provocando uma mobilidade social nunca antes imaginada.

Mas foi nos anos sessenta que lançámos à terra as sementes do diabo. E os frutos amargos que hoje delas colhemos são o consumismo, a poluição, a globalização, a extinção das espécies, os transgénicos e o aquecimento global. Frutos que por sua vez são causas da crise, das desigualdades e do desemprego. Estamos ainda a digerir as transformações dos anos sessenta, e a adaptarmo-nos a elas. Em 1965, a população mundial era de 3,5 mil milhões de pessoas, e, desde esse ano até hoje, ela duplicou. Mas o planeta é o mesmo, e está mais maltratado. Já percebemos que, nalguns aspetos, fomos longe demais. Acreditámos que não havia limites, e agora sabemos que eles existem. E estão à vista.

Foi esse o nosso tempo.

segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2014

25 de Abril, 40 Anos Depois

Nos anos que se seguiram ao final da Segunda Grande Guerra, o esforço de reconstrução dos estragos provocados pelo conflito, o recurso a novas tecnologias desenvolvidas pela indústria militar e a disponibilidade de uma energia abundante e barata (o petróleo), provocaram um elevado crescimento económico acompanhado de um grande progresso social. No mundo ocidental, reeditou-se a febre consumista dos loucos anos vinte americanos. Entre as mudanças que contribuíram para a prosperidade e para o pleno emprego, contam-se a urbanização, a emigração, a ascensão social da mulher - libertada de tarefas do lar pela vulgarização dos eletrodomésticos -, a generalização do uso do automóvel, o acesso dos jovens de camadas sociais mais desfavorecidas à educação. Os acordos de comércio livre impulsionaram as trocas comerciais,  afirmou-se a globalização, as multinacionais ganharam um grande poder, acentuou-se a  interdependência entre Estados e economias. Em muitos países começou a ganhar forma o Estado Social.

Fora do mundo industrializado, estavam em curso mudanças históricas, impensáveis trinta anos antes. Uma grande parte do então chamado terceiro mundo começou a libertar-se das potências administrantes. A  Indonésia proclamou a independência da Holanda  em agosto de 1945, dois dias após a rendição do Japão, a Índia tornou-se independente em 1947, a Indochina e a Argélia ascendem à independência depois de conflitos sangrentos com a França.  Chegou a vez da África subsariana, onde a partir dos anos 60, as colónias francesas, inglesas e o Congo Belga proclamam a independência. O antigo mundo colonial estava a dar origem a um  mundo novo ávido de aprender, de crescer e de se industrializar.

Apesar da famosa afirmação de Churchill, feita após a vitória dos aliados,  que das ditaduras europeias não ficaria pedra sobre pedra, Portugal conseguiu manter, após 1945, um regime ditatorial obsoleto, sem liberdade, sem partidos políticos, com censura e com forte repressão.  Acompanhado da Espanha, os dois países constituíam uma espécie de mundo à parte na Europa Ocidental. A economia portuguesa apoiava-se nas colónias que forneciam matérias primas e eram o destino de uma boa parte das suas exportações. As remessas dos emigrantes (que abandonavam a salto o país a caminho da Europa), o turismo, o protecionismo industrial e a entrada de multinacionais trouxeram algum progresso.

Quando, em 1961, os ventos da independência chegam às colónias portuguesas de África, o desafio que se colocou ao regime, pondo à prova a sua força e coesão foi saber qual a decisão a tomar. A opção  pela guerra fez abrirem-se, num ápice, três frentes de combate em Angola, Moçambique e Guiné. O governo português ao tomar esta decisão acreditou poder manter um império colonial à portuguesa, pluricontinental e plurirracial (com o Brasil apontado como exemplo) . Os governantes terão admitido terem a seu favor o facto de poderem apresentar-se ao Ocidente como um bastião para conter o avanço comunista e, assim, obter o seu apoio. Mas a América, saída do pós guerra como o líder do mundo ocidental, sendo anti-comunista, era também anti-colonialista. A possibilidade de emergir na África Austral um bloco com relevância económica e enormes recursos, liderado pela África do Sul, terá pesado também na decisão de fazer a guerra.

Nessa altura, os interesses económicos da elite dominante centrados em África, sobrepuseram-se a uma visão desapaixonada da história. Saber se naquelas condições era possível ou viável outra opção é a questão que ficará sem resposta.  Seguiu-se uma guerra longa e desgastante. Muitos se  interrogam ainda hoje, como foi possível a um pequeno país - pobre e isolado internacionalmente - mantê-la durante 13 anos! No seu início, certamente,poucos previam essa tenacidade e essa capacidade. Terá sido a força ou a teimosia (mas não há teimosia sem força!) do regime ou a fraqueza da oposição?

Em 1974, Portugal estava já exaurido de recursos humanos e económicos para manter as três frentes da guerra colonial. A crise mundial de 1973, resultante  do choque petrolífero provocado pelo embargo dos países da OPEP, só veio agravar a situação. Estava em ascensão, tanto no plano civil como militar, a geração que tinha nascido no pós guerra, que tinha vivido o maio de 68; ao mesmo tempo, estava a desaparecer a geração que tinha implantado e consolidado o regime e testemunhado os anos da guerra civil  espanhola. No regime, desaparecida a figura tutelar, abriam-se fendas, e surgia a ala liberal. O isolamento internacional era sufocante. Portugal já não tinha aliados.

É certo que a guerra colonial não estava perdida no terreno, mas era cada vez mais evidente que não se podia vencer. O tempo e os ventos da história estavam contra nós. A causa estava perdida.  O desfecho não podia ser outro: o sistema que atara o nó nunca mais o poderia desfazer. Alguém tinha de o fazer por ele. O dia da derrocada não estava marcado no calendário, mas o 25 de Abril estava inscrito na História. Nesse dia o regime velho de 48 anos caiu de podre, desfez-se, entregou-se sem luta, sem honra e sem dignidade. Portugal chegava à democracia com trinta anos de atraso.

Eu tinha 28 anos no 25 de Abril. Era a idade do sonho, da esperança e da generosidade. Inebriei-me com a explosão da Liberdade e assisti ao tempo do 25 de Abril na primeira fila.  Depois da euforia, quando a poeira começou a assentar, decidi subir a escada da vida, e Abril ficou lá atrás. Hoje, passados 40 anos sobre aquela manhã incrível, em que tudo parecia irreal, torna-se obrigatório refletir sobre o que foi aquele momento, perceber qual o seu significado e indagar sobre as causas que lhe deram origem.

Para a minha geração, o 25 de Abril representou também uma libertação interior.  Uma paixão que não se repetirá. E que me faz evocar o filme Casablanca, quando Rick (Humphrey Boggart), ciente de que o antigo amor vivido na Paris ocupada, já não poderia ser revivido em Casablanca, diz a  Ilsa (Ingrid Bergmann):  We'll always have Paris. Da mesma forma, eu digo: I'll always have AbrilPerdi o sonho e a esperança, esforço-me por manter a generosidade.