terça-feira, 19 de setembro de 2017

A segunda utopia: O homem vai encontrar resposta para todos os enigmas do Universo.

As extraordinárias conquistas da ciência e da técnica - que no último século se sucederam de forma vertiginosa - fazem-nos acreditar de que não haverá limite ao conhecimento do homem.
Os progressos no campo da inteligência artificial, na robótica, nas comunicações... os avanços sobre o conhecimento da estrutura ínfima da matéria, o infinitamente pequeno, e o alongar dos olhos do Hubble para as longínquas fronteiras do Universo, o infinitamente grande, levam-nos a acreditar que um dia encontraremos a "teoria do tudo" e teremos a unificação do conhecimento.
Cumprir-se-á, nesse, dia a aspiração mais secreta do homem  que é a de ocupar o lugar do próprio Deus

Muitos acreditam que iremos explicar a origem do universo, a origem da vida e da consciência. E que, possivelmente, um dia, encontraremos explicação para o próprio sentido da existência humana. Constatamos que, à medida que o conhecimento aumenta, menos necessária se torna a fé, mais próximos de Deus nos sentimos, e começamos a acreditar que poderemos até igualá-lo ou superá-lo. Talvez antes disso sejamos vítimas da nossa própria ambição. A expulsão do Paraíso foi o castigo de Adão que, aspirando a ser como Deus, comeu o fruto da árvore do conhecimento.


terça-feira, 12 de setembro de 2017

A economia não vai mudar

A economia, tão ajustada às ideias do Sr Adam Smith expostas no seu livro "A riqueza das nações..."e espontaneamente postas em prática nos ricos e vastos territórios recém independentes das colónias americanas que, naquele mesmo ano da publicação do livro, se separaram da Inglaterra, e que, desde então, tanta prosperidade trouxe à Humanidade, não vai mudar por dentro. Pretendo com isto dizer que mesmo quando o planeta já não suportar mais gases de efeito de estufa, a economia - que só sabe crescer e só pode crescer - vai continuar exigir mais emissões e vai continuar a poluir ainda mais o planeta, Ou seja, a economia nunca se vai autorregular a ela própria como o objetivo se manter . E esta tendência conjugada com a ambição do ser humano (que só pensa nele e não não na espécie)  só pode conduzir ao colapso do sistema económico, o qual, por sua vez fará perigar a própria existência da espécie humana que, no, desespero da sobrevivência de  alguns, se pode auto aniquilar utilizando os meios que ela própria criou para esse efeito... Por isso, temos de ser nós a mudar a economia. Como?
Ainda há quem acredite ser possível

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Uma Utopia: Colonizar o espaço

O que é uma utopia? É um acontecimento, um lugar ou um tempo imaginado, ideal ou fantasiado, onde tudo acontece segundo os nosso desejos. A sociedade perfeita que todos desejamos, e que, de um modo geral, os políticos defendem -  pacífica, ordeira, livre, igualitária, democrática e justa - é uma utopia. Não creio que tal sociedade exista ou, algum dia, venha a existir, mas ela foi e continua a ser uma aspiração dos homens de todos os tempos. Mas existem outras utopias que  proliferam - nos documentários, nas notícias, nas teses - que alimentam o imaginário da humanidade. A crença de que o destino do homem é chegar a outros planetas e colonizar o universo é uma utopia.

Foi há poucos semanas que uma notícia dava conta de uma controversa afirmação do conhecido físico Stephan Hawking: se nos próximos cem anos o Homem não for capaz de colonizar outros planetas, então existe o risco da Humanidade sucumbir perante a ameaça do esgotamento dos recursos e das perturbações dos equilíbrios responsáveis pelas alterações climáticas. Eu confesso que não esperava estas palavras - que, em boa verdade, não são recentes, pois já as tinha lido anteriormente -  dum homem de quem se esperaria uma posição mais esclarecida sobre a capacidade de concretizar esse sonho, ou essa utopia, se preferirem. Ou quererá Stephan Hawking, ao dizer isto, simplesmente alertar-nos para a inevitabilidade do colapso civilizacional?

A crença de que um dia - não muito longínquo - o homem colonizará outros planetas fora do sistema solar está muito generalizada e enraizada na opinião pública. É alimentada por notícias que dão conta de que todos os dias se estão a descobrir novos planetas que podem reunir condições necessárias à vida dos humanos. Mas são muitas as condições, entre outras, a  existência de uma atmosfera com presença de oxigénio, uma faixa de temperaturas que permita a existência de água no estado liquido, uma textura rochosa, um tamanho que determine uma força de gravidade suportável ao ser humano, a existência de um escudo protetor de radiações cósmicas letais ou até a existência de satélites (como é o caso da Lua) com funções estabilizadoras.

No entanto, a maior barreira à colonização de outros planetas prende-se com a distância a vencer para os atingir. Estamos a falar de distâncias que obrigariam, no mínimo a viagens de milhares de anos à velocidade das naves atuais. A nave Voyager 1 demorou 30 anos a deixar o sistema solar e, se conseguir manter-se em viagem, demorará mais de 16 000 anos a atingir a distância até à estrela mais próxima de nós, onde não sabemos se existem planetas com condições de habitabilidade. Mesmo com um futuro sistema de propulsão muito mais eficiente seriam sempre necessários séculos para fazer a viagem. Uma nave tripulada, a viajar fora do sistema solar, perderia o contacto com a Terra e ficaria entregue a si própria e não se vê como seria possível manter a funcionar os suportes da vida dos seus tripulantes (eventualmente com funções orgânicas reduzidas ao mínimo) humanos. Além disso, teria de ser alimentada com energia nuclear por perder rapidamente a capacidade de absorver radiações de fontes estelares, nomeadamente do Sol. Tenho por certo que nunca estes viajantes, ou os seus descendentes, voltariam para contar a história.

A colonização de outros planetas fora do sistema solar não está, pois, ao alcance da espécie humana. É uma Utopia, uma crença ao lado da realidade ou um acontecimento que não existe. E, acredito eu, Marte, um planeta do sistema solar, também não será colonizado por evidente inviabilidade económica de tal projeto. Muito mais fácil e mais barato do que colonizar Marte seria colonizar o deserto do Sahara, coisa que não vejo ninguém propor-se fazer. Alimentar as utopias faz parte de uma necessidade dos homens alimentarem os seus sonhos de atingir a eternidade.

A predição de Hawking é, pois, um aviso sério e pertinente de quem sabe do que fala, mas baseia-se numa impossibilidade. Qualquer lugar habitável no espaço da nossa galáxia está a centenas ou milhares de anos de viagem, e o homem nunca poderá empreender tal viagem. O homem está aprisionado no seu sistema solar, e não se irá libertar dele. Como Prometeu agrilhoado nas suas correntes, por castigo dos deuses, também nós roubámos o fogo sagrado da sabedoria que nos deu acesso aos segredos da criação. E o nosso castigo é este de perceber esses segredos sem os poder alcançar e alterar, nem descortinar o seu sentido... E, tal como acontecia a Prometeu na tragédia grega, em cada novo dia, a águia há-de vir comer mais um pedaço do nosso fígado, para nos lembrar que somos mortais.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Portugal a Arder

Os tristes acontecimentos de Pedrógão Grande, assinalados por tantas perdas de vidas, merecem uma reflexão. No rescaldo da tragédia, muitos procuram causas, outros exigem explicações, outros clamam por culpados. Como é habitual nestas situações, pedem-se inquéritos ou nomeiam-se comissões que não conduzirão a nenhuma conclusão e só servirão para que, aos poucos, o caso vá caindo nos esquecimento. O que aconteceu em Pedrógão foi aquilo a que Talim Nasseb chamou um cisne negro, um evento raro, aparentemente inverosímil e não expectável, mas com grande impacto social. Estes acontecimentos têm uma importância decisiva no desenrolar da história e, muitas vezes, constituem oportunidades para mudar o seu rumo.

A chamada zona do Pinhal Interior situada no coração de Portugal, e que integra concelhos pertencentes aos distritos de Coimbra, Leiria, Santarém  e Castelo Branco, é uma vasta e pobre região, atualmente desertificada de pessoas. Noutros tempos, quando o território era ocupado, praticava-se ali uma economia agrícola de subsistência: havia zonas de cultivo e zonas de pastagem, e, no coberto vegetal,  existiam espécies alternativas como a oliveira, o carvalho, o castanheiro ou a azinheira. A limpeza da floresta não era feita por obrigação para a proteger do fogo, mas pela necessidade de recolher lenha para as lareiras e para os fornos. Durante centenas de anos vigorou este regime e os incêndios de verão não existiam, ou, quando existiam, não eram necessariamente calamidades.

Com o abandono da região, muitos campos de pastagens ou de vocação agrícola deram lugar a uma quase contínua mancha florestal de pinheiros e eucaliptos. Esta forma de ocupação revelou-se ser a mais compatível com a progressiva falta de braços, na medida em que tinha - ou parecia ter! -subjacente algum valor económico para os proprietários dos terrenos. Mas surgiu uma contradição que, ano após ano,  passou a ser evidenciada nos incêndios de verão. A ocupação florestal daquela zona não se coaduna com o regime de minifúndio. Com efeito, a floresta precisa de ser pensada como um todo e o seu planeamento não pode ser feito com a terra partilhada, em que as escolhas são feitas pelos proprietários das pequenas parcelas de terra prevalecendo o interesse particular - mais económico - sobre o interesse geral - a sustentabilidade a beleza da paisagem e, sobretudo, a segurança relativamente aos fogos.

Em síntese, alterou-se radicalmente a vocação agrícola do território mas nada se fez relativamente ao regime de propriedade. Enquanto isso não se fizer, o problema dos incêndios na floresta não será resolvido. Continuar a investir apenas no combate ao fogo - como se tem feito até agora - terá, no futuro, custos acrescidos e cada vez mais incomportáveis. A oportunidade de fazer alguma coisa pode ter chegado com a tragédia de Pedrógão. Aproveitá-la será uma forma de homenagear os que nela  ingloriamente perderam a vida e os haveres. Sobre a terra queimada deve iniciar-se a revolução que se impõe. Revolução que deverá debruçar-se sobre o regime da propriedade rural. Se não se fizer agora perdemos tempo e temos de esperar pelo próximo incêndio que poderá ser ainda mais trágico. Encontrar a forma de fazer esta revolução deve ser a primeira preocupação dos governantes.

Tudo terá de começar com a definição da zona de intervenção que pode tomar a forma de parque florestal ou de uma zona protegida. Uma vez definida a zona de intervenção, chegará o momento do fazer o projeto para a sua reocupação. Será o tempo dos técnicos - agrónomos, silvicultores, arquitectos paisagistas, ambientalistas, geólogos, climatólogos etc... -  e dos visionários  apresentarem as suas propostas e será o momento da sociedade, de forma democrática e informada,  escolher as melhores.

A nova floresta terá de ser ecológica, sustentável e diversificada, deve ter valor económico, deve ser resiliente aos incêndios e deve ter beleza paisagística. Deve, sobretudo, ter a capacidade de atrair novos ocupantes para repovoar a região. Isso será conseguido pelo desenvolvimento das atividades económicas ligadas à floresta, a um novo tipo de agricultura e pastorícia  e ao turismo de natureza.
Fazer isto, será transformar o inferno de Pedrógão num Paraíso Nacional.

A receita aqui advogada para a Pinhal Interior - com as adaptações às particularidades de cada caso - poderá aplicar-se a outros territórios do Interior que sofrem o problema da desertificação. A sua tão necessária reocupação exige um rápido e corajoso reordenamento do regime da propriedade rural. Sabendo que isso terá elevados custos políticos, tal só será possível com um alargado pacto entre as forças mais representativas. Mas valerá a pena, pois é o futuro do país que está em jogo.


terça-feira, 6 de junho de 2017

Um Programa para Almeida

Para inverter o longo processo de despovoamento em curso, os novos autarcas dos territórios do Interior Beirão - e em particular os de Almeida – necessitarão urgentemente de adotar um programa de emergência. Não poderão ficar de braços cruzados à espera que o problema da desertificação dos territórios se resolva espontaneamente, e - como está demonstrado pelo falhanço duns e de outros - não podem contar, apenas, nem com o dinheiro da Europa nem com as boas intenções do poder central para o resolver. A situação é grave, e agrava-se de ano para ano. Perdeu-se a Caixa Geral de Depósitos, podem perder-se repartições públicas, pode perder-se, a breve prazo, uma das escolas. Além disso, o comércio tradicional definha, os campos estão abandonados e os poucos jovens que ainda restam, aspiram emigrar.

Na conceção de um tal programa de emergência, haverá, antes de mais, que definir prioridades. E não precisamos de refletir muito para concluir que a primeira prioridade terão de ser as pessoas. Não apenas as do presente, mas também as do passado e as do futuro. As do passado porque são elas as nossas raízes: deixaram-nos a cultura, as crenças, os valores, o idioma e os saberes; as do futuro porque é para elas que trabalhamos, e porque são elas a esperança da continuidade da ocupação ativa dos territórios. Em síntese, um programa para Almeida tem de honrar os antepassados, cuidar e servir os seus residentes e criar condições para os mais jovens ali se fixarem e trabalharem.

A segunda prioridade deverá ser a preservação e valorização do património: não só o património edificado - as casas, as igrejas, os monumentos, as estradas, as infraestruturas, mas também do património natural, paisagístico e cultural que é importante preservar e respeitar. A terceira prioridade é voltar a cuidar da terra que durante séculos ocupou as populações e foi a fonte do seu sustento.

Depois de definidas as prioridades haverá que construir um programa de ação do qual constem os princípios orientadores, os objetivos e os meios necessários para os alcançar. Nos princípios devem constar os valores a respeitar - entre outros, a liberdade, a democracia, a sustentabilidade. Os objetivos, por sua vez, têm de ser definidos em função daquilo que realmente se pretende para o concelho, tendo em conta a especificidade do território e das suas componentes. Almeida, Vilar Formoso e as Aldeias do concelho constituem realidades singulares, com aspirações e vocações que têm de ser encaradas de forma distinta, sempre em cooperação e nunca em concorrência. Almeida pode encontrar na sua vocação cultural, termalista e turística o seu caminho de desenvolvimento, enquanto Vilar Formoso tem de apostar tudo na fronteira e no comércio. As Aldeias poderão desenvolver valências diferenciadas, na agricultura, na economia social, no artesanato...

Um tal programa deverá ser desenhado e executado por gente movida nos seus propósitos por convicções, e não por conveniências, com um profundo conhecimento da situação do concelho. Preferencialmente, como já referimos atrás, deverá ser pensado sem os condicionalismos dos interesses partidários e dos programas de apoio europeus, os quais já demonstraram não terem sido capazes de contrariar a desertificação da região. Não pode ir a reboque de planos organizados por estruturas supraconcelhias, por serem lentos e, muitas vezes, desfocados de cada realidade particular. Um concelho de matriz rural, territorialmente marginalizado - caso de Almeida -, não tem nada a ver com outros concelhos urbanos do interior como é o caso de Guarda, ou mesmo Seia ou Gouveia. Nem pode ficar à espera das diretivas do poder central - mau grado recentes iniciativas, como a criação de uma unidade de missão para o interior - que têm mostrado grande desorientação e grande insensibilidade para encontrar soluções.

Vivemos um momento crítico. Temos pela frente uma oportunidade de mudar. Há que aproveitá-la, mobilizar forças - todas as forças do concelho -, ultrapassar divergências. Numa situação de crise tão grave não faz sentido que os interesses e objetivos partidários se sobreponham aos interesses do concelho. Perante situação tão grave, com o arrastar da crise e a inoperância das medidas tomadas, muita gente começa a duvidar da capacidade de se dar a volta ao problema. Recomendaríamos a vereação que sair das novas eleições a aceitar este repto. Com determinação e humildade, começando por ouvir as pessoas. Porque o principal objetivo deste programa são as pessoas, nele tem de ser reservado um papel muito importante para a Educação.


sexta-feira, 2 de junho de 2017

O Rumo da Europa

Na minha opinião, as declarações da Sra Merkel na Baviera - proferidas no rescaldo da cimeira do G7, em Taormina- podem ser o sinal de uma mudança de rumo para a Europa. No essencial, a Sra. Merkel sentenciou que "os europeus têm de cuidar de si próprios e resolver os seus problemas, e que a Europa tem de continuar a manter boas relações com  os Estados Unidos e com ao Reino Unido, mas também com outros países, incluindo  - na medida do possível - a Rússia". Com o previsível falhanço da parceria económica transatlântica que seria o TTIP, com os Estados Unidos a quererem passar para os europeus uma fatura maior das despesas da Nato, com o lavar de mãos americano sobre a crise dos refugiados - como quem diz o problema é vosso resolvam-no - , com o brexit que deixa fora da União o seu principal elo com a América, a Europa precisa de ter uma agenda política própria. E tem de ser a Alemanha  a defini-la, e a França a apoiá-la.

A Europa enfrenta três graves problemas: o problema da defesa, o problema energético e o problema dos refugiados.  A Nato deixou de se justificar após a queda do muro de Berlim. Mantê-la corresponde a considerar a Rússia como o inimigo principal do Ocidente. Algo que não tem razão de ser, considerando que a Rússia está, hoje, remetida a uma posição defensiva e não tem qualquer ambição de expansão de território - que não precisa - ou de ideologias - que não tem.  Casos como o da Crimeia têm de ser analisados numa perspectiva histórica. É certo que persistem ainda os traumas dos países do Leste da Europa que temem o regresso de uma hegemonia russa. Algo que hoje já não faz sentido e que o tempo acabará por sanar. No atual estado de coisas, a estrutura militar da Nato só pode justificar-se para manter o estado de Israel e permitir assegurar para o Ocidente, a prazo, o domínio  das reservas de combustíveis fósseis do Médio Oriente, nomeadamente da Arábia Saudita, do Iraque e dos Emiratos Árabes Unidos. Mas essa, tem sido, para a América, outra guerra feita à sua própria custa, com um esforço adicional que se vem somar aos custos da Aliança.

Em termos energéticos, a Europa é extremamente dependente do exterior. Praticamente já não produz carvão, as únicas jazidas de petróleo - cuja produção está em declínio - são as do mar do Norte divididas entre a Noruega, que não faz parte da UE, e o Reino Unido. Por outro lado, a escassa produção europeia de gás natural já está em declínio, e a Europa tem de recorrer cada vez mais ao abastecimento da Rússia e do Norte de África. A expectativa de recorrer às grandes reservas de gás natural do Golfo Pérsico - sobretudo às do Qatar - esta a desvanecer-se perante o arrastar do conflito da Síria, país que terá sempre de ser atravessado pelos gasodutos necessários ao seu transporte. A entrada da Rússia no conflito - justificada em parte para defender a sua posição no negócio do gás e proteger as reservas do Irão - apenas vai servir para tornar mais longínqua essa possibilidade.

O problema dos refugiados  é, talvez, o problema mais grave que a Europa enfrenta, e para o qual não se vê solução.  Falo dos milhares de homens, mulheres e crianças, famélicos, sem terra, sem pão, e sem outros haveres para lá da escassa roupa que lhes cobre o corpo que veem na Europa o eldorado. Vêm da Líbia, da Tunísia, da Etiópia, da Eritreia, da Somália e da Síria, atravessando desertos, cruzando fronteiras. Entregaram o pouco que tinham a passadores e engajadores que lhes prometeram o paraíso do outro lado do mar! Nada os detém, e nada os irá deter no futuro: não temem o mar, nem as autoridades, nem as grades de qualquer prisão. A  esperança de chegar à outra margem sobrepõe-se a tudo, e desvaloriza os riscos de sucumbirem na caminhada, de naufragarem no mar revolto ou de serem devolvidos à procedência. A Europa hesita na resposta a dar. As opiniões dividem-se, não existe uma politica comum coerente. A saída do Reino Unido da União tem a ver com isto. Os Estados Unidos não vão ajudar. Tal como disse a Sra Merkel, a Europa tem de passar a contar apenas com ela própria.

A chegada do Sr. Trump ao poder teve o mérito de ajudar a clarificar as dissonâncias entre os dois lados do Atlântico. Para muitos europeus, terá chegado o momento de estender a mão à Rússia. É certo que existem muitos anticorpos, mas são mais as coisas que nos unem do que as que nos separam: a história comum, a cultura, a matriz religiosa. A Rússia tem os recursos que faltam à Europa. E é um mercado com grande potencial para os seus produtos. Se este for o caminho escolhido, ele fica facilitado pelo brexit e pelo insólito discurso autista de Trump.

Mas um entendimento entre a Europa e a Rússia não será pacifico pois fará deslocar centro de gravidade do poder do Atlântico para a Eurásia. Será um novo grande cisma do Ocidente, ao qual a China não ficará indiferente. A Nato ficará obsoleta! Haverá equilíbrios que se rompem e  ninguém poderá prever o que poderá sair da caixa de Pandora. 

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Nuno Crato e a Educação

A ida de Nuno Crato ao Grémio Literário, no passado dia 5 de maio, para falar no Ciclo “Que Portugal na Europa, que futuro para a União?” só pode ter acontecido por um erro de casting. O orador não disse uma palavra sobre o tema do ciclo que já trouxe àquela sala figuras como Freitas do Amaral, Paulo Rangel ou Francisco Seixas da Costa. Preferiu falar sobre educação, discorrendo longamente sobre o que ele considerou terem sido os bons resultados alcançados no período em que foi ministro. Cometeu a notável proeza de, no seu discurso, nunca ter pronunciado a palavra pedagogia.

O sistema de educação que Nuno Crato defendeu no Grémio é o sistema criado na Revolução Industrial que advoga que se deve encher a cabeça dos alunos com conteúdos programáticos predefinidos e que o sucesso do ensino se mede pela avaliação, a qual consiste em saber até que ponto o aluno conseguiu absorver e é capaz de reproduzir esses conteúdos. Foi o sistema que formatou o ensino ocidental, que deu origem à sala de aula, à lição de 50 minutos e aos exames. E que, hoje, é responsável por um rosário de deprimidos, de angustiados, de stressados e de falhados.

Hoje questiona-se esse modelo. A base de educandos alargou-se às classes mais baixas, diferentes culturas interpenetram-se, as famílias estão mais desestruturadas, as mães trabalham. Muita da preparação que era feita em casa ou nas oficinas dos mestres cabe hoje à Escola. A educação laica suprimiu muitos dos valores, crenças e rituais da educação religiosa de há um século atrás. Os meios de comunicação - sobretudo a internet -, permitem um acesso generalizado a todo o tipo de conteúdos. Nas escolas que seguem o método antigo, os alunos passam a maior parte do tempo a assistir a programas que nada lhes dizem e a ouvir respostas a perguntas que nunca fizeram. Grassa a indisciplina, aumenta a desmotivação dos professores e dos alunos. O que se aprende para a prova rapidamente se esquece, e a aprendizagem para a vida e para a descoberta fica por fazer.
Alguém disse que estamos a educar crianças para o século XXI com professores do século XX e métodos do século XIX. Está a generalizar-se a ideia de que o ensino está desadequado em relação a este novo tempo de grandes transformações. E começa instalar-se nas mentes de alguns pais, de educadores e até de cidadãos comuns a convicção de que urge criar a escola nova. Um pouco por toda a parte, surgem ideias, organizam-se grupos, animam-se debates, propõem-se e discutem-se diferentes modelos sobre como deve ser essa escola nova, quais os conteúdos a incluir nos programas, qual o papel do professor e qual a forma de avaliar os alunos. Até os insuspeitos jesuítas, guardiões de uma longa tradição no ensino, atentos às mudanças, estão a adotar, na Catalunha, novos métodos de educar.

A Internet está a mudar rapidamente - sobretudo nos mais jovens - os padrões de comportamento económico, social e cultural.  Trata-se de uma nova literacia suportada por novos instrumentos que, alterando a nossa forma de viver, nos vai obrigar a mudar a forma de educar. Na antiguidade, os caçadores e os guerreiros eram educados pela tribo e preparados para seguirem as pisadas dos seus antepassados. Era uma educação feita com regras, valores, crenças e rituais.  Mas, hoje, a tribo - que é a tribo global -  é difusa, está mal definida e carente de valores.

Na nossa sociedade - condicionada pela economia de mercado e formatada pela comunicação social -, o único valor  transversal é o dinheiro, e aquilo que lhe está associado: o consumismo, a competição e a ambição pelo poder. E isso reflete-se na educação, também ela orientada para a competição e  para o sucesso profissional. Ora, a incerteza que persiste na economia, a tomada de consciência dos malefícios do crescimento a todo o custo  - a predação dos recursos, o desperdício e a poluição -,  o desemprego e a ausência de valores  já estão a criar nos mais jovens angústia e desorientação. Para cumprir a sua missão de educar, continua a ser essencial que a escola se envolva e seja envolvida pela comunidade. Uma nova sociedade exige, pois, uma nova escola e uma nova escola tem de ser a semente de uma nova sociedade.

Algumas questões fundamentais sobre a educação estiveram ausentes do discurso do matemático Nuno Crato:
  • Qual deve ser a missão da Educação?
  • A quem compete defini-la?
  • A educação deve privilegiar a pessoa ou o cidadão?
  • Qual o papel do professor, e qual a importância da formação dos professores?
  • Qual a importância dos afetos, da empatia, dos relacionamentos sociais no processo educativo?
  • Qual deve ser o papel da família na educação?
  • Qual deve ser o papel da comunidade na educação?
  • Como desenvolver a inteligência emocional nos alunos? 
  • Como educar para a inclusão, para a aceitação das diferenças?
  • Como educar para a sustentabilidade económica e ambiental?
  • O foco da educação deve estar no aluno ou nos conteúdos?
  • Como educar para os valores? A Justiça? A Tolerância? A Generosidade? A Ética?
  • Como educar para a Democracia?
Este tema é central na sociedade atual. O Clube Português de Imprensa, o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário poderão encontrar nestas perguntas inspiração para um próximo ciclo de conferências. Interesse pelo assunto e especialistas para falar dele não faltarão...