segunda-feira, 2 de março de 2015

Pedra Filosofal

...tantas bocas ficaram por beijar
tantas lutas por lutar
tantos caminhos por percorrer
tanto frutos por colher
tantas asneiras por dizer
tantos filhos por nascer...


Quando a fé se desvanece e a  trivial opinião não satisfaz, quando a ciência encontra as barreiras intransponíveis  do infinitamente grande e do infinitamente pequeno,  quando os filósofos se perdem nos labirintos da metafísica, chega a vez dos poetas usarem a intuição para nos fazerem sentir aquilo que não se explica!

Os seres humanos, dotados de inteligência, são capazes de interrogar-se sobre várias questões que eu chamo  paradoxias. A primeira paradoxia: A matéria existe, quem criou a matéria? A segunda paradoxia: a matéria organiza-se para formar a vida, quem criou a vida? A terceira paradoxia: a vida adquire consciência de si própria, quem criou a inteligência? A quarta paradoxia:  Existe um destino para a evolução da matéria, da vida, da inteligência ?

Até hoje as paradoxias não tiveram resposta. Nem no plano científico, nem metafísico .  Mas a suprema paradoxia tem a ver com o sentido da Vida. E com o absurdo da Morte quando não se encontra um sentido para a Vida. Quando as construções mitológicas se desmoronam perante a lógica ou a Fé se perde perante as injustiças dos deuses, apenas no resta o sonho e a paixão dos poetas para explicar as paradoxias .

Na verdade o sonho comanda a vida e tudo vale a pena quando a Alma não é pequena. Pois não é verdade que sempre que nasce uma criança, se vence a Morte!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Guardar a Memória

Os registos que os nossos antepassados nos deixaram, esculpidos nas pedras ou escritos no papiro e na argila mole, constituem um importante património da Humanidade. Mas foi com o papel que se fez história e que se estruturou a civilização. Com a invenção da escrita nasceu a História; com a invenção da imprensa nasceu a Globalização.

Mas em tempo algum a capacidade de documentar e armazenar as ideias e os acontecimentos, isto é, a capacidade de criar memória para as gerações vindouras, foi tão ampla como na era digital. E essa capacidade está a crescer exponencialmente. Os registos digitais podem replicar-se até ao infinito e, se destruídos num local, podem preservar-se em muitos outros. No futuro, os seres humanos poderão aceder a uma quantidade gigantesca de registos digitais - de texto, de imagens e sons - sobre factos e acontecimentos produzidos ou ocorridos no tempo das gerações que os precederam.

No mundo digital os arquivos serão guardados em suportes digitais. Suportes que já existem a vários níveis: a nível das pessoas, das famílias, nas empresas, nas organizações, nos meios de informação, e nos gigantescos arquivos alojados nos servidores da Google, da Apple, do Youtube, do Facebook. Com efeito, muita da informação que produzimos - por exemplo, os emails que trocamos ou as fotografias que partilhamos - já não reside nos nossos computadores, mas nos clouds dessas grandes empresas.

No futuro, a forma como se vão arquivar e o modo de aceder aos documentos produzidos na era digital são questões com as quais vamos ter de nos confrontar. A quem caberá a incumbência de guardar e preservar os arquivos digitais? Qual a possibilidade e o risco de poderem vir a ser manipulados? Qual a longevidade e fiabilidade dos suportes que os contêm? Como assegurar a compatibilidade dos diferentes sistemas de gravação? Qual o risco de haver impedimento ou restrição no seu acesso, associado à dependência da eletricidade e das redes de comunicação? Paralelamente vão colocar-se problemas relacionados com o uso da informação, com as ameaças à liberdade das pessoas, com a invasão da sua privacidade. Basta pensar que uma informação falsa ou maldosa - uma foto, por exemplo - sobre uma pessoa, uma vez posta a circular na rede, dificilmente poderá ser apagada.

Os investigadores do futuro - historiadores, sociólogos, antropólogos - terão à sua disposição arquivos imensos. Como irá a Humanidade conviver com esta memória colectiva tão vasta? Será a memória acumulada uma forma de ampliar a liberdade do homem? Ou será ela limitativa dessa mesma liberdade? Não constituirá ela um pesado lastro que acabará por enredar a Humanidade, absorvida na introspeção de si mesma, e impedi-la de evoluir? A memória das catástrofes e das guerras, ao diluir-se no tempo, é benevolente e liberta-nos dos pesadelos passados. Mas a memória digital, fiel, objectiva e indestrutível, pode manter-se atuante e implacável.

A memória digital tanto pode ser a luz que guia como pode ser uma enorme teia que, ao enredar-nos, impede e limita a criatividade. Um holocausto nuclear pode reservar a esta memória colectiva o destino trágico da Biblioteca de Alexandria, de cujos escombros não restará nem Memória nem Humanidade. Mas pode também acontecer que estejamos a subir mais um degrau a caminho do ponto ómega de que falava o padre Teilhard Chardin, onde o que conta já não é o Individuo, mas a Humanidade, uma entidade nova, dotada não apenas de Memória, mas também de Alma e de Inteligência.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

As Dimensões da Política

A paleta das tonalidades partidárias é muito vasta, existindo partidos para todos os gostos: mais ou menos liberais, mais à direita ou mais à esquerda, mais ou menos inspirados pela religião, mais conservadores ou mais tolerantes, socialistas, republicanos, nacionalistas, regionalistas, anarquistas ou radicais e comunistas. E surgem de quando em quando, quase sempre de forma efémera, pequenos partidos criados com vista à defesa de interesses de pequenas minorias ou de causas pontuais.

A recente vitória do Syriza na Grécia e a ascensão do Podemos em Espanha vieram contrariar a tradicional prevalência dos partidos liberais e socialistas que, nesses países e até agora, se têm alternado no poder. Na Grécia, o partido mais sacrificado com a vitória de Tsipras foi o PASOK. Também em Espanha, o crescimento do Podemos está a ser feito à custa do PSOE, o partido socialista tradicional. Trata-se de uma tendência com causas que radicam na crise e na austeridade que lhe sobreveio, e cujo desenvolvimento e consequências ainda não são fáceis de prever.

No mundo ocidental, até à revolução francesa e independência americana, foi sobretudo a dimensão religiosa que mais influenciou a política. No século XIX, os partidos parlamentares nascidos nas monarquias constitucionais e inspirados nas tradições dos velhos regimes, formaram-se com base nas elites oriundas da nobreza rural. A revolução industrial, com a produção em massa, provoca o aparecimento de uma nova classe operária fortemente organizada em associações de classe que começam a contestar a velha ordem. A Igreja com a sua doutrina social tenta adaptar-se ao novo mundo, ao mesmo tempo que as ideias de democracia de igualdade e de liberdade avançam e se afirmam.

O marxismo - tal como foi levado à prática por Lenine na União Soviética - rompe definitivamente com as velhas elites e com a tradição cristã, e introduz uma rotura drástica na organização económica. Pela primeira vez, questiona-se a propriedade privada da terra e dos meios de produção, e a transmissão dessa propriedade aos descendentes. O Estado passa a ter um papel completamente diferente como promotor de uma economia de novo tipo baseada na planificação da produção e não nas leis da concorrência. Entretanto, a inesperada abundância de recursos energéticos e o desenvolvimento tecnológico destroem a dicotomia capital-trabalho, permitem a criação de elevados níveis de conforto, libertam a mulher das tarefas do lar, e contribuem para o aparecimento de uma vasta classe média, fortemente consumista, que acaba por submergir o modelo marxista-leninista.

Nas democracias modernas, saídas do pós-guerra, temos assistido a uma alternância entre dois partidos de ideais muito próximos que aceitam, ambos, as leis da economia de mercado - propriedade privada, livre iniciativa e transmissão da propriedade - e se inspiram nos direitos do homem. A única receita que conhecem e propõem para o desenvolvimento social é a do crescimento económico. Divergem em aspetos relacionadas com a maior ou menor intervenção do Estado na economia, na maior ou menor abrangência do serviço social e na política fiscal que incentiva a criação e promove a distribuição da riqueza. Estes partidos alicerçam-se em novas elites que tudo fazem para influenciar a opinião pública -que vota!- e, assim, se perpetuar no poder.

Os novos partidos emergentes - falo do Syriza e do Podemos - são a consequência do progressivo esvaziamento de uma classe média devorada pela crise económica, pelo cortejo do desemprego e pela perda do poder de compra. Os apoiantes destes partidos já perderam praticamente tudo o que tinham a perder; só lhes resta a contestação. Votam neles por razões de protesto, embalados por promessas de inversão da espiral de pobreza e da austeridade. Mas estes partidos não apresentam um ideário de rompimento com os partidos do arco do poder. Não propõem uma nova economia nem anunciam uma nova moral ou uma nova forma de viver ou de consumir. São fraturantes, apenas porque são do contra, porque questionam as elites, porque rompem com o estado das coisas e acabam, desta forma, por provocar agitação social e obrigar a ajustamentos.

Não serão ainda estes os movimentos que transportam no seu ideário as sementes para a Transição que o planeta exige e a Humanidade aspira para se regenerar. Nesse aspeto estão mais próximos os partidos ecologistas, resultado da consciência de que existe um choque entre a economia e a sustentabilidade ambiental. Mas estes partidos também não têm uma proposta económica viável, apenas são a expressão de uma vaga crença de que é possível prosperar sem crescimento. E na angústia provocada por um futuro incerto e perigoso, o cidadão comum espera as respostas que tardam em aparecer!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Assim vai o Mundo

Na aldeia global os acontecimentos sucedem-se vertiginosamente. Trazidas pelos ávidos media, as notícias novas atropelam as velhas e remetem-nas para o esquecimento. Numa semana, deixámos de ser Charlie para passarmos a ser Tsipras. Os comentadores e os fazedores de opinião - mas também os políticos -, perante a angústia provocada pela incerteza do desfecho dos acontecimentos, começam a ficar nervosos e desorientados. O cidadão comum vai-se entretendo nas redes sociais, e fica trocando emails com anedotas e gags, à espera que as coisas aconteçam. Como a nêspera no poema (*) de Mário Henrique Leiria…

A situação na Grécia e na Europa, a prolongada crise da Ucrânia, a guerra do médio Oriente e o preço do crude são alguns sinais preocupantes de um iminente agravar da crise que ameaça o mundo global. O petróleo, caro ou barato, continua a ser o sangue da economia. Os investimentos das grandes empresas petrolíferas estão a ser congelados ou adiados, e isso vai, a breve prazo, trazer consequências gravosas na produção. Os excessos feitos, nas estimativas das reservas e nas previsões de produção, para atrair investidores do shale oil americano, criaram uma bolha de crédito que já está revelar-se tóxico e a necessitar de um urgente bail out. A decisão de baixar o preço do petróleo, acertada pelos dois países que tem capacidade para o fazer - os Estados Unidos e a Arábia Saudita -, é uma arma estratégica de dois bicos que pode provocar efeitos colaterais perversos em muitas economias.

No mundo global, terminada a guerra fria, começa a esboçar-se uma nova ordem mundial. Os EUA, levando a Europa a reboque, aspiram assegurar a liderança do mundo que sairá dessa nova ordem. No tempo mais imediato, dois obstáculos se colocam: a Rússia e o Médio Oriente. Pelas intricadas conexões que os ligam, existe ali uma situação muito complexa. Eleger a Rússia como inimigo a abater - a domesticar, talvez seja o termo mais correto - é um desiderato americano mas não deveria ser uma prioridade europeia. A Rússia, pela sua história e pela sua cultura, faz parte integrante da Europa. Estamos ainda a digerir os restos da queda do muro de Berlim. Convém não esquecer que Rússia foi um aliado do Ocidente contra a Alemanha em duas guerras mundias, e, com 20 milhões de mortos, pagou a fatura mais pesada no último desses conflitos . A unificação alemã voltou a produzir uma Alemanha muito forte e a América não pode deixar que se enamore da Rússia. O resto da Europa, enfraquecida e desorientada, assiste impotente e limita-se a seguir o mais forte.

A Grécia está a revelar-se uma peça que pode assumir um valor estratégico muito importante na luta pelo controlo do Médio Oriente. Por isso, o discurso político começa a sobrepor-se ao discurso económico. A Europa está a confrontar-se com as contradições da sua construção. Na superação dessas contradições joga o seu futuro. E a isso, nós portugueses, não podemos ser indiferentes.
(*) Uma nêspera/estava na cama/ deitada/ muito calada a ver/o que acontecia/chegou a Velha/ e disse/ olha uma nêspera/ e zás comeu-a/ é o que acontece/às nêsperas /que ficam deitadas/ caladas/ a esperar/ o que acontece.       Mário-Henrique Leiria

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O Dilema Grego

Para quem tem o coração à esquerda, a euforia com que se festejou o resultado das eleições gregas do passado dia 25 de janeiro foi um belo e excitante momento. Viu-se o erguer, como há muito não acontecia, das bandeiras do socialismo, da democracia e da liberdade; mas, para aqueles que já aprenderam as lições da história e entendem o realismo da economia e da política, a vitória do Syriza é vista como uma vaga promessa de uma nova esperança que, não sendo concretizada, poderá transformar-se num pesadelo com amargas consequências para os gregos e para a Europa.

 A importância para Portugal do resultado das eleições na Grécia, e a vitória de Alexis Tsipras, está bem patente na quantidade de opiniões – muito diversificadas e, por vezes, contrárias e contraditórias – que os jornalistas, colunistas e comentadores dos órgãos de comunicação social portugueses têm vindo a produzir desde o dia 25 de janeiro passado. De um modo geral, essas opiniões relevam a potencial gravidade da situação criada e afloram o dilema que a Europa enfrenta, o qual, como todos os dilemas, é gerador de conflitos e fonte de angústia e incerteza.

O dilema resulta da Europa não poder apoiar uma política despesista do Syriza, mas, ao mesmo tempo, não poder deixar a Grécia entregue a si própria. A Grécia tem uma dívida monstruosa, que não vai conseguir pagar. Ora o governo Tsipras está a tomar medidas que vão aumentar o deficit e a dívida. Logo, a Grécia vai continuar a precisar, cada vez mais, de ajuda económica para sobreviver. Mas não é seguro que a Europa queira continuar a ajudar a Grécia. Se a Europa recusar ajudar a Grécia, a Rússia é o único país que tem condições para o fazer. E pode ter interesse em fazê-lo.

Uma Grécia dissonante da UE – e da Nato! – tem interesse estratégico para Vladimir Putin. Situa-se numa zona quente do Globo: próximo do acesso ao Mar Negro e ao Médio Oriente. É, tal como a Turquia, um país da Nato. A Nato é, basicamente, uma aliança entre os EUA e a Europa – que não tem capacidade militar –, aliança que está a ser ativamente reforçada através do discreto (secreto!) TTIP – Aliança Norte Atlântica para o Comércio e Investimento. A Ucrânia já veio dizer que quer abandonar a politica de não alinhamento como primeiro passo para pedir a adesão à Nato. O que, a acontecer, desagrada aos russos, pois colocaria a Nato às portas de Moscovo.

Neste jogo de xadrez, Tsipras já fez os primeiros movimentos numa abertura de quem quer jogar ao ataque: aprovou as primeiras medidas anti-troika; visitou, logo após ganhar as eleições, o Embaixador da Rússia em Atenas; questionou, no seio da UE, as sanções à Rússia. Esperemos pela resposta de Merkel e da Europa. Mas começa a perceber-se que esta pode ser apenas mais uma partida do verdadeiro jogo, bem mais complexo, que se disputa no tabuleiro mundial entre Obama e Putin.

A fragilidade do Syriza decorre de não propor nada de construtivo e não ter nenhum modelo económico alternativo ao da tróika. Rejeita a austeridade, mas fala da necessidade de crescimento da economia; a mesma economia, afinal, que impôs a austeridade. Isto é, Tsipras desconfia dos mercados; mas, para sair da crise acaba por advogar a economia de mercado.

Como chegámos a este dilema é uma questão de fundo. Não vale a pena procurar culpados entre os suspeitos do costume. Atente-se antes nos verdadeiros problemas da espécie humana embrulhada nas contradições de um modelo que já não gera o almejado crescimento que todos desejam. Temo que o jovem Alexis esteja à espera que lhe abram uma porta ao pé de uma parede sem portas.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Tribos em Confronto

Os sangrentos acontecimentos de Paris, que vitimaram os jornalistas do Charlie Hebdo, estão a provocar ondas de choque um pouco por toda a parte. Houve amplas e diversificadas reações dos governos e dos meios de comunicação e, no seio da opinião pública europeia, não deixaram ninguém indiferente. A França e a Europa estão com uma ferida aberta, e os governantes não sabem bem quais os curativos para a sarar. Querer reduzir o que se passou no Charlie a um ato isolado, e apelidar os autores do massacre de terroristas ou fanáticos religiosos, é simplificar demasiado o problema. O sérvio Gavrilo Princip que, em junho de 1914, matou o arquiduque Francisco Fernando, em Serajevo, era na atual concepção do termo um terrorista. Ora, o seu ato conduziu à I Guerra Mundial, e com as consequências que todos conhecemos.

Na França vivem milhões de muçulmanos árabes. Muitos deles, possivelmente a maior parte, são cidadãos franceses. Não sendo estrangeiros, eles são, contudo, vistos como estranhos. Vivem de forma diferente, quase sempre nos bairros mais pobres e periféricos, vestem de forma diferente, praticam uma religião diferente e, muitos deles, falam um idioma diferente. São também diferentes os seus valores morais e familiares - destaco aqui a forma como encaram o papel da mulher na família e na sociedade. E não vale a pena ajuizar sobre a superioridade das duas concepções de vida, dos seus valores ou das suas culturas: enquanto pessoas, os francos - não encontro melhor designação para a comunidade francesa tradicional - e os muçulmanos não são comparáveis nem devem comparar-se. Mas as diferenças e a história fazem com que exista, quer dum lado quer do outro, um forte sentimento de pertença a um grupo ou a uma tribo. E quando duas tribos ocupam ou disputam o mesmo território, e se alicerçam em valores e modos de vida diferentes, aparece inevitavelmente o confronto que, quase sempre, acaba por conduzir à guerra.

Na sociedade global, as tribos são globais. Os francos pertencem à tribo do ocidente cujas raízes estão na Europa cristã que herdou a sua matriz do Império Romano do Ocidente, mas que hoje se estende pelas Américas, parte de África e Austrália. Atualmente essa tribo já não tem mais um sustentáculo religioso, e o seu cimento é a economia. Os estados são laicos, o poder radica no voto e os seus principais valores emanam da Carta dos Direitos do Homem onde se afirmam os princípios da Igualdade e da Liberdade. Do outro lado, a tribo Islâmica radica numa vasta e rica região no seio da qual está a emergir um indefinido Estado Islâmico - sem fronteiras, a lembrar o nomadismo dos beduínos. Nestas sociedades o cimento e principal fator de agregação é a religião, os Estados e as Leis são fortemente - nalguns casos totalmente - influenciados pelos princípios do Corão.

A cultura ocidental não assimilou o Islão da mesma forma que assimilou os povos nativos americanos ou africanos. Nem se estabeleceu com estes povos uma convivência pacifica de base comercial tal como existe, por exemplo, com chineses e indianos. O Islão tem uma cultura rica e com tradições no campo da filosofia (onde se destacaram Ibn Sin-Avicena e Averrois), da ciência, da literatura, da arte, da arquitetura... Mas não passou por uma revolução industrial, não sofreu o amadurecimento da renascença, não viveu a revolução cientifica do iluminismo, nem passou pela experiência igualizadora da revolução Francesa. E as duas guerras mundiais do século passado - talvez com exepção da Turquia - só marginalmente afetaram os fundamentos das sociedades islâmicas. Além disso, existe uma longa história de confrontação entre as duas tribos - recordemos a reconquista e as cruzadas - que disputam o mesmo espaço e têm as mesmas raízes religiosas.

A França, onde o fervor medieval da cristandade se reflete na beleza gótica das suas catedrais, vive hoje o tempo das mesquitas. A presença do Islão em França - e noutros países europeus - está em crescimento, e tem uma dinâmica de progressão acelerada. Para isso contribuiu a vinda de muitos argelinos após a descolonização, a forte pressão migratória da populosa África do norte e da zona do Médio Oriente - onde o caso mais notório é a Síria. Nos últimos 20 anos, o número de mesquitas em França duplicou e atualmente outras trezentas estão a ser construídas. Na rede pesco a informação de que "existem cerca de 300 sinagogas em França, e perto de 1.700 mesquitas e locais de culto muçulmano (embora menos de 50 sejam verdadeiras mesquitas), 39.000 igrejas, 1.100 templos protestantes e uma centena de pagodes". Muitos dos muçulmanos residentes em França serão militantes ativos da causa jihadista, ou seja seguidores estritos do corão, empenhados, por todos os meios, em alcançar a fé perfeita.

O confronto, tudo o indica, vai agravar-se. O que se passou no Charlie Hebdo é apenas um episódio de guerra, e não vale a pena discutir se houve ou não exagero na publicação das gravuras. O pretexto poderia ter sido outro qualquer, por exemplo, um massacre numa escola que impedisse uma aluna de usar o véu. As chances favorecem a tribo islâmica, pois os seus elementos reproduzem-se mais, têm menos a perder e têm a crença e o empenho para alcançar a fé do lado deles - para já não falar do petróleo! Os francos, e com eles todo o Ocidente, jogam tudo na assimilação do mundo muçulmano ao modelo ocidental - entenda-se modelo económico, pois não existe outro. Isso ficou bem patente na orientação da cimeira de chefes da diplomacia Europeia - que advoga uma aproximação aos países islâmicos -, na esperança, entretanto desfeita, do ressurgimento de outra primavera árabe. Se falharem os seus intentos, chegará a vez da Senhora Marine Le Pen e dos extremistas de ambos os lados se prepararem para uma nova cruzada.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Siga o Cantareira

Uma provável escassez de água potável é uma das ameaças do mundo global e urbanizado. Grandes aglomerações urbanas como Cidade do México, São Paulo ou Los Angeles podem vir a enfrentar problemas no abastecimento de água. A situação de abastecimento de São Paulo, uma mega-urbe com 22 milhões de almas,  tem vindo a agravar-se nos últimos meses, e a cidade está muito perto de ter de enfrentar uma situação de emergência hídrica.

Analisar dados e fazer previsões foi a atividade profissional a que me dediquei durante dezenas de anos.. Terá sido essa a razão pela qual decidi construir uma base de dados sobre o maior reservatório de São Paulo - O CANTAREIRA -  compilando os dados publicados desde 2003 pela SABESP, a empresa que gere a distribuição de água na cidade. A partir dos dados coligidos, estou a produzir tabelas e gráficos que atualizo diariamente num blogue que criei para o efeito a que chamei "Siga o Cantareira". Faço-o com prazer, e vejo nisso uma forma de ajudar os meus amigos paulistanos a entender o problema e a acautelar-se para os dias secos que se avizinham.



Hoje, convido-o a Seguir o Cantareira