segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

O Elevador Social

Há quem critique os pastores
por eles nãos serem estudados
Se fossem todos doutores
que seria dos nossos gados?
 Quadra afixada numa queijaria da Beira Baixa
Autor desconhecido



Nos anos 30 do século passado, uma vez estabilizadas as finanças públicas, Salazar idealizou para Portugal um modelo de sociedade corporativa assente na boa ordem social, no amor da Pátria,  na família e na tradição católica. O condicionamento industrial visava preservar a concorrência desenfreada e proteger os grupos económicos em ascensão. Portugal continuaria, pois, a ser um país essencialmente rural. As colónias eram ainda vistas como mercados de exportação e fontes de matérias primas.  As elites governantes da República radicavam na indústria e  na agricultura latifundiária, mas estavam em ascensão as hierarquias militares e académicas.  A educação superior destinava-se aos jovens provenientes dessas  elites. Para as massas populares bastava aprender a lêr escrever e contar. Ocasionalmente, o seminário - tinha sido o caso do ditador - entreabria uma estreita via de acesso às camadas superiores.

Mas no pós guerra o mundo passava por transformações muito profundas que não se compadeciam com este bucólico modelo. Estava a ocorrer a segunda revolução industrial, a revolução da mobilidade, que iria transformar radicalmente a forma de viver das sociedades ocidentais. O automóvel iria provocar o desenvolvimento das cidades, a mecanização e os fertilizantes estavam a  transformar a agricultura. O mundo entrava aceleradamente na era da globalização. O desenvolvimento, atraía a Portugal as grandes multinacionais, favorecia-se o consumismo. Nesse período, florescem as atividades ligadas à banca e aos seguros, nasce o marketing e funções com ele relacionadas: vendas, publicidade, merchandising, estudos de mercado. Emergem novas e mais sofisticadas formas de distribuição dos produtos. A rádio primeiro, depois a televisão generalizam-se, empregam gente e afirmam-se como poderosos meios de comunicação e de publicidade.

Fruto do desenvolvimento, cresce o emprego, surgem novas profissões que requerem novas exigências. O acesso à educação explode nos anos 60. Como consequência, os campos começam a esvaziar-se. A educação transforma os filhos dos agricultores em doutores que passam a relacionar-se e a conviver, de igual para igual, com os filhos das velhas elites. A partir dos anos sessenta do século passado, o acesso das camadas menos favorecidas à universidade foi a causa principal para a criação de novas elites. A educação foi  o elevador social, que favoreceu a ascensão.

Em abril de 1974, o Portugal que fez a revolução dos cravos já era um país diferente . E foram já, em grande parte,  as novas elites que assumiram o poder e a liderança. Durante as décadas que se seguiram,  foram criadas novas universidades, proliferaram os cursos. Os mais jovens que aspiravam a seguir a carreira dos pais habituaram-se a ver no diploma o passaporte para o emprego e para o sucesso.  Ser engenheiro, economista, médico ou professor era sinónimo de emprego garantido.

Com a crise as coisas mudaram. Ter um diploma deixou de ser garantia de emprego. O elevador social está fechado à chave -acessível a muito poucos - ou só conduz à cave. Os lugares na  base da pirâmide foram, entretanto, ocupados por imigrantes e aos jovens licenciados resta-lhes, como opção ao desemprego, a emigração.

Chegou o momento de rever o papel da educação. Nós temos de formar a geração que vai fazer a Transição. As palavras de ordem terão a ver com sustentabilidade e responsabilidade. Vai ser preciso formar jovens com capacidade critica e com criatividade.  Será preciso mudar os valores no sentido que um dia Ernâni Lopes apontou, substituindo aqueles que, passo a citar, "hoje lhes servem de referência, que mostram que para se ter sucesso – poder e dinheiro – o trabalho, a honestidade e o conhecimento não fazem falta."
E foi aquele economista que nos deixou a tabela da conversão do que é para o que deve ser:
Facilitismo ------- Exigência
Vulgaridade ------ Excelência
Ignorância -------- Conhecimento
Mandriice -------- Trabalho
Aldrabice ---------Honestidade
Videirismo ------- Honra
Golpada ---------- Seriedade
Moleza ----------- Dureza

segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

A Entrevista de Hawking

Stephen Hawking, o conhecido físico inglês, concedeu uma entrevista ao jornal madrileno El Mundo, a qual foi reproduzida pelo  Expresso. É fascinante ouvir um homem paralisado por uma atrofia muscular, todo ele neurónios e inteligência, falar-nos da paradoxia que é a criação da matéria. Para Hawking, a Física Quântica estará, concetualmente, muito próximo de identificar as partículas e explicar as forças e os mecanismos que estão subjacentes à organização da matéria. Para ele, isso vem resolver a paradoxia, o que permite dispensar Deus. Em resumo: Hawking declara-se ateu.

O Universo é muito antigo e é muito grande. A idade e o tamanho do Universo - falamos do Tempo e o Espaço de Einstein -, confundem-se e confundem-nos.  O Universo continua a envelhecer  e a dilatar-se. A seta unidirecional do Tempo confere um sentido à evolução da matéria criada.  É neste sentido, focalizados na intenção de o perceber, que nos devemos deter. Tudo começou no plasma indiferenciado; depois formaram-se os átomos dos diferentes elementos: primeiro os mais leves, depois os mais pesados. Num determinado momento, no mundo que habitamos, as moléculas de certos compostos de carbono aprenderam a replicar-se: nasceu a vida. No nosso planeta, nos últimos 750 milhões de anos, sucederam-se os impactos de meteoritos, as convulsões vulcânicas, as glaciações. Espécies proliferaram em terra e nos oceanos; em certas ocasiões extinguiram-se em massa; noutras ressurgiram sob novas formas. Impelida por uma estranho desígnio - que a Física Quântica não explicou-, a Vida floresceu, resistiu e os organismos vivos adaptaram-se e evoluíram.

Há quatro milhões de anos um primata, caminhando ereto e com uma grande agilidade manual, adquire consciência da sua existência e do seu ser.  Muito mais recentemente, há apenas cerca de dez mil anos, um descendente daquele, o homo sapiens, dotado de inteligência reflexiva e criativa, adquiriu um grande ascendente sobre as outras espécies, começou a espalhar-se e, em muito pouco tempo, ocupou o planeta.  A  Vida, a Inteligência e a complexidade crescente são os marcos que balizam o sentido da evolução da matéria.

Voltemos a Stephen Hawking, ele próprio um fruto da evolução.  Foi, sem dúvida, enorme o avanço que, nos últimos cem anos,  a ciência nos trouxe sobre a estrutura da matéria.  Mas o conhecimento científico explica o como, mas não justifica o porquê. Será que já não precisamos de Deus para responder às nossas dúvidas mais profundas, para entender o sentido da evolução? Ou, ter-se-á finalmente cumprido a ambição de Adão no Paraíso Terrestre e seremos nós o próprio Deus? A coisa criada poderá ocupar o lugar do Criador?

Desde Galileu que a Terra deixou de ser o centro do Sistema Solar. E com Edwin Hubble aprendemos que o nosso lugar no Universo é discreto, sem especial relevância nem centralidade. Ganhámos um conhecimento novo, mas abandonámos crenças antigas e ficámos perdidos diante da vastidão do que nos rodeia. E suspeitamos de que haverá outras revelações surpreendentes, provavelmente outros universos para além do nosso. Cada nova descoberta, parece trazer mais dúvidas do que respostas.

Entre as convicções de Hawking estará também a de que a civilização humana não tem futuro na Terra. A extinção da espécie pode ser provocada por um cataclismo, pelo impacto de um meteorito, por uma glaciação ou outra alteração climática. Muito provavelmente, à semelhança do que aconteceu com outras,  acontecerá a esta espécie entrar num cul-de-sac evolutivo,  provocado pela rutura do complexo sistema ecológico que ela própria criou: uma grande especialização e interdependência entre indivíduos baseada em complexos sistemas externos, vulnerabilidade a doenças infeciosas, dependência crítica de recursos escassos e não renováveis.

Para o famoso físico, a sobrevivência da Humanidade  estará na colonização de outros planetas. Sobre este ponto, discordo totalmente. O homem está prisioneiro do sistema solar. Tal como a Moisés, a quem antes de morrer, foi apenas mostrada a terra prometida no Monte Nebo, também as estrelas e as galáxias foram reveladas ao Homem mas está-lhe vedado o acesso, e nunca as alcançará. Imaginar elementos da espécie humana preservados pelo frio, viajando durante milhões de anos até outros ambientes habitáveis, situados em lugares incertos, só pode acontecer no domínio da ficção.

A definição do sentido da evolução  nunca esteve nas mãos do homem. Ele próprio é um efeito desse processo evolutivo. Mas esse sentido existe  e o homem não o poderá contrariar. Deus já não faz falta a Hawking, mas o vazio provocado pela angústia instigada pela consciência do eu - que Deus veio preencher - persiste em manter-se. Duvido que, algum dia, a  ciência  o venha substituir.


segunda-feira, 6 de Outubro de 2014

Pensar o Futuro

Noutros tempos, a rentrée marcava o início das aulas, a abertura da caça e assinalava a chegada da temporada dos espetáculos teatrais e musicais. Agora, está dominada pelas conferências e pelos debates. Depois de, na semana passada, se ter falado de Liberdade no CCB, a Fundação Gulbenkian vai por estes dias promover um debate sobre o tema - Pensar o Futuro de Portugal. Os promotores da iniciativa pretendem que se debatam as políticas para o futuro do nosso país, por constatarem que esse debate e essas políticas têm estado ausentes da governação e da discussão. No clima de desorientação estratégica em que nos encontramos, e em vésperas da apresentação do orçamento para 2015, convenhamos que a iniciativa é oportuna e louvável.

Na Gulbenkian vão estar a apresentar os tópicos quinze personalidades, quase todas ligadas ao mundo académico. Auxiliados por um vídeo promocional, em que cada um dos palestrantes surge a apresentar resumidamente qual o tema da sua intervenção, ficamos com uma ideia antecipada do que ali se vai dizer. É importante debater o futuro de Portugal, mas falta neste debate, na minha opinião, um enquadramento mais amplo que ajude a contextualizar o tema. No tempo da Globalização já não se pode falar do futuro de um país ou de uma região como se ele fosse uma coisa isolada. Não é possível pensar o futuro de Portugal, nem fazer propostas sobre políticas a adotar, sem ter em conta o futuro do mundo ou sem equacionar os caminhos da Europa.

Neste caso, seria útil ao debate mostrar ou antever o pano de fundo onde se jogará o futuro de Portugal. Para esse efeito, poderia recorrer-se ao trabalho já feito por outros e assumir os pressupostos fundamentais que hoje são aceites de forma amplamente consensual. Falo, por exemplo, da escassez de recursos - especialmente energéticos, hídricos e alimentares -, das alterações climáticas, da poluição e do problema demográfico. Mesmo que o livro de Al Gore, O Futuro, pelo seu pendor - orientado para os mass media - não agrade a muitos académicos, depois de expurgado de algum conteúdo mais sensacionalista e especulativo, poderia servir de base de trabalho e cumprir a função referida.

Na antevisão das conferências perpassa a trivialidade dos temas ou o déjà vu - numa conferência destas valerá a pena perder tempo com mais propostas de revisões eleitorais?! -,insiste-se na via do crescimento, na inovação sem precisar o sentido, faltam claramente ideias criativas e propostas ousadas de rutura. Estão ausentes da discussão alguns dos temas mais fraturantes da sociedade portuguesa, temas que têm a ver, por exemplo, com a educação (educar para quê?), com a agricultura - a que está associada a delicada questão da terra -, com a energia, com a demografia, com a imigração, com a Europa e com a soberania.

Prever, adivinhar ou antever o futuro era dom dos demiurgos através dos quais se manifestavam as divindades. Mas o futuro já não pertence a Deus. A ciência e o determinismo já explicam muita coisa e sabemos hoje, pela imprevisível complexidade da matéria, que o futuro também se joga entre a harmonia da ordem e a atração do caos. Mas muito do que irá ser o futuro - para nosso bem e para nosso mal - está nas mãos dos homens. E seria bom que a tarefa de fazer as opções sobre os caminhos a seguir fosse entregue aos melhores e aos mais esclarecidos.


segunda-feira, 29 de Setembro de 2014

A Liberdade

Nesta semana, numa conferência pública, vão reunir-se no Centro Cultural de Belém, em Lisboa,  para falar de Liberdade perto de uma centena de individualidades ligadas à comunicação social, à cultura e ao mundo académico. A recebê-los e a abrir os trabalhos estará o Sr. Alexandre Soares dos Santos, o dono dos supermercados Pingo Doce e mecenas fundador da Fundação Francisco Manuel dos Santos que promove o mediático evento. Não vi entre os intervenientes , e julgo que isso terá sido intencional, membros do governo ou figuras ligadas à política ativa. Mas vai estar Eduardo Lourenço, e poder ir escutá-lo ao vivo é para mim razão suficiente para  pagar os 30 Euros, que é o custo da inscrição.

O conceito de Liberdade deu nome a estátuas e avenidas. Os grandes pensadores, os políticos, os maiores leaders ao longo da História falaram de Liberdade. De tão usada  que a palavra tem sido, está a ficar desgastada e até a perder significado. No meu entendimento, a Liberdade é o espaço vital - entendido no plano pessoal e social - que permite a cada homem crescer, afirmar-se e reproduzir-se.  E tal como o ar que respiramos ou a água que bebemos são mais valorizados quando faltam, do mesmo modo a Liberdade adquire mais importância e é melhor percecionada quando se não tem.

Um animal na natureza é, talvez, o melhor exemplo de um ser livre.  Mas essa liberdade natural está condicionada, entre outras coisas, pelo clima, pelos predadores, pela disponibilidade de alimento. E até a liberdade de se  reproduzir está condicionada pela lei do mais forte ou pela capacidade de seduzir e atrair. Nessa medida, o homem mais livre terá sido o caçador-recoletor  que em cada manhã partia, de lança em punho, a procurar o sustento familiar de cada dia. A natureza estendia-se à sua frente, ele era livre de escolher o seu caminho, livre de gritar, de lutar, de matar e de morrer.

A inteligência veio conferir uma nova dimensão  ao conceito de Liberdade. O filósofo que se interroga sobre as coisas e procura explicá-las é o homem livre. Galileu foi um homem livre apesar de ter sido impedido de expressar a sua opinião e  até ter sido obrigado a negar a Verdade. O progresso e a inovação são consequências da Liberdade. O homem mais forte, o mais sensato, o mais justo é o mais livre. A Liberdade é um atributo da mente, e não  há homens livres sem uma mente liberta. O homem verdadeiramente livre é o homem incondicionado.

Na economia da sociedade global, valoriza-se e defende-se a liberdade de produzir, de concorrer, de consumir e de possuir. É uma liberdade, por sua vez, associada à liberdade de destruir, de desperdiçar e de poluir, e isso irá limitar fortemente a Liberdade das gerações futuras. Começamos agora a perceber melhor que os limites da Liberdade são, de alguma forma, impostos pelo limite ao crescimento.

O evento do Centro Cultural de Belém tem tudo para ser uma grande feira de vaidades, e acredito que os quase cem portugueses que ali vão debater o conceito de Liberdade não vão chegar a grandes resultados. Irão certamente concluir que austeridade limita a Liberdade e que sem pão não haverá Liberdade. Ora, isto é tão verdade como dizer que quando o oxigénio escasseia as pessoas ficam com falta de ar. Aos que não têm pão - e infelizmente são cada vez mais! -  resta-lhe a liberdade de se reproduzirem e, dessa forma, contribuir para apertar mais o garrote demográfico que ameaça sufocar a espécie humana.

segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

Escócia

O referendum que teve lugar na Escócia  no passado dia 18 de setembro, veio colocar  uma serie de interrogações sobre a construção da Europa e sobre o seu futuro. Estamos muito longe de 1707, quando foi assinado o tratado de União entre a Inglaterra e a Escócia que criou o Reino Unido. Desde então, o conceito de soberania afirmado no poder económico e militar, e que prevaleceu no século XIX e em grande parte do Século XX, alterou-se profundamente. Por um lado, a globalização, os acordos de comércio livre, a internacionalização do capital financeiro mudaram a economia, e, por outro lado, a sofisticação do armamento, as comunicações, a mobilidade demográfica, a expansão das organizações terroristas, a dissuasão nuclear,  mudaram o conceito de defesa e a forma de fazer as guerras. Alterado o conceito de soberania, altera-se também o conceito de independência.  Alex Salmond percebeu isso e foi a votos.

A Europa, no pós guerra,  começou por ser construída por nações soberanas, mas, sobretudo após o alargamento a Leste, com a adesão de pequenos países  desmembrados de estados - como foi  o caso dos estados Bálticos ou países da ex-Jugoslávia como a Eslovénia,  ou a Bósnia - passou a desenhar-se como um espaço de regiões. Terá sido esse facto que excitou os impulsos independentistas de regiões com tradição de autonomia como é o caso - para citar apenas os dois exemplos mais notórios - da Escócia e da Catalunha.  Neste novo contexto,  os escoceses e os catalães não encontram- mesmo sendo  países pequenos-  razões para não ter assento direto em Strasbourg à semelhança do que  acontece com aqueles outros atrás referidos.

A União Europeia  é uma construção que se baseia numa força centripeta. E, tal como acontece num sistema planetário, essa força atrativa exige uma centralidade. Ora, no caso da União Europeia - e mesmo que isso custe a outros países - , essa centralidade é a Alemanha. A Inglaterra vive ainda a nostalgia do Império que a Commonwealth tenta preservar; a França nunca se recompôs do desaire de Waterloo; e a Espanha estiolou com a Inquisição e sucumbiu de vez com a derrota da Armada Invencível. A Itália, com atores da envergadura de Berlusconi, tem sido e continuará a ser o palco de uma opera cómica. Apenas a Alemanha que perdeu duas guerras, mas que não tem fantasmas de glórias passadas a ensombrar-lhe o presente, se pode assumir - e tem-no feito - como centralidade europeia. E isto apesar da  Inglaterra aspirar a ter um papel no Novo Ocidente que se pretende construir à volta do Atlântico Norte sob a proteção do dólar e da Nato.  Em conclusão, o "sim" da Escócia, enfraquecendo a Inglaterra, que atua como força centrifuga, fortaleceria a Europa.

A Escócia fez o seu primeiro ensaio. Voltará a jogo nos próximos anos, e auguro que,  dessa vez,o resultado será diferente. Cada crise, cada insucesso, cada nova ingerência nos seus destinos, saldará-se-á num reforço do "sim". A Catalunha e o País Basco espreitam. A Córsega poderá vir a seguir. Não se advinha fácil a tarefa de construir a Europa.


segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

Stress Hídrico

Entre os recursos naturais ameaçados pela Sociedade Industrial e pela Globalização, a água é um dos mais sensíveis. Sem água potável a vida das espécies animais e vegetais e, em particular, a dos humanos ficará seriamente ameaçada. O uso doméstico, a indústria, a agricultura e a pecuária reclamam quantidades cada vez maiores de água. As alterações climáticas favorecem a ocorrência de fenómenos extremos de seca e de inundações, fenómenos esses que agravam o problema. A escassez de água afeta já grandes massas populacionais em muitas zonas do planeta. Se não forem tomadas medidas adequadas, a humanidade, num futuro não muito longínquo, poderá enfrentar graves problemas no abastecimento de água potável .

São bem conhecidas secas cíclicas no nordeste do Brasil. Mas, pela sua urgência e dimensão, a situação que se vive atualmente na grande metrópole de  São Paulo assume contornos preocupantes. Apesar de estar localizada não muito longe do mar, separada dele pela imponente cordilheira da Serra do Mar, a grande cidade fica na cabeceira de rios - dos quais o mais importante é o Tietê- que correm para o interior do estado e pertencem à grande bacia do rio Paraná, cujas águas são entregues ao oceano, milhares de quilómetros a sul,  no mar da Plata.  Não existindo um volumoso curso de água na proximidade da cidade, a captação de recursos hídricos para a abastecer  tem de ser feita em pequenas bacias de montanha.

A Grande São Paulo teve um crescimento fulgurante, sobretudo na segunda metade do século passado. Teria pouco mais de 1 milhão de habitantes no início dos anos 40, e conta hoje com 22 milhões. O abastecimento de água e o tratamento dos esgotos tornaram-se um dos maiores problemas da cidade. No final dos anos sessenta, liderada por Abreu Sodré, a prefeitura da cidade, então já com 8 milhões de habitantes, resolveu atacar o problema. Foi nessa altura que, para reforçar o abastecimento de água,  foi projetado um complexo sistema que  consistia na captação em várias bacias de pequenos rios interligadas entre si. Essas bacias situam-se na zona a norte de São Paulo, ocupando uma vasta área que se estende até ao estado de Minas Gerais.  O sistema, inaugurado em meados dos anos 70,  ficou conhecido como sistema Cantareira e é, atualmente, o mais importante de São Paulo. Com um débito de 33 metros cúbicos por segundo, fornece água para cerca de 9 milhões de pessoas que representam 40% da população.

O sistema foi pensado para aguentar sete anos consecutivos de seca. Mas os dois últimos anos hidrológicos, com precipitação  muito abaixo da média, e o consumo acima das previsões, secaram o Cantareira. Em maio passado, foi necessário recorrer ao "volume morto", bombeando para as condutas a água da barragem que fica abaixo da cota de captação. Essa reserva prevê-se que se esgote dentro de mês e meio. Estamos no começo da primavera austral, e os paulistanos rezam pela chegada das habituais chuvas de verão. Se elas não ocorrerem, numa intensidade suficiente, São Paulo morrerá de sede. As autoridades do Estado, nomeadamente o Governador Geraldo Alckmin, em ano eleitoral, asseguram que a chuva virá e que o problema ficará resolvido. Mas muita gente, sobretudo entre as camadas mais esclarecidas da população, começa a ficar seriamente preocupada.

Gritantes desigualdades sociais, graves erros urbanísticos, falta de casas, perdas de 40% de água nas condutas, elevados níveis de poluição, são outros enormes problemas, não resolvidos, da Grande São Paulo. Os investimentos para despoluir os rios, para ampliar as captações, para rever todo o sistema de condutas serão astronómicos. No horizonte de décadas - o tempo da próxima geração! -, São Paulo é uma cidade ameaçada. Que acontecerá no futuro? Continuará a haver crescimento como exige a economia ou  deixará de haver crescimento como exige a sustentabilidade? Se  houver crescimento a cidade corre o risco de colapsar à mingua de água; se não houver crescimento, o colapso resultará do sufoco económico. Estamos perante a impossibilidade do "crescimento sustentável", o oximoron de que falava Albert Bartlett.

Este exemplo ilustra bem o problema dos limites ao crescimento, o mais urgente da nossa Civilização.

segunda-feira, 8 de Setembro de 2014

Palavras Solenes

 Disse ao meu coração: «Olha por quantos
 Caminhos vãos andámos! Considera
 Agora, desta altura fria e austera,
 Os ermos que regaram nossos prantos...

 Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
 E noite, onde foi luz de Primavera!
 Olha a teus pés o Mundo e desespera,
 Semeador de sombras e quebrantos!»

 Porém o coração, feito valente
 Na escola da tortura repetida,
 E no uso do penar tornado crente,

 Respondeu: «Desta altura vejo o Amor!
 Viver não foi em vão, se é isto a vida,
 Nem foi de mais o desengano e a dor.»

Este belo soneto de Antero de Quental (Solemnia Verba) está gravado na parede da casa que o poeta habitou em Vila do Conde, hoje transformada em Centro de Estudos Anterianos. Ele encerra uma profunda lição de filosofia. Trata-se de uma reflexão sobre o paradoxo da Vida Humana e sobre o significado do Tempo. "Pó e cinzas, onde houve flor e encantos! / E noite, onde foi luz de Primavera!" poderia traduzir-se por " Pó e cinzas, quando houve flor e encantos! / E noite, quando foi luz de Primavera!"

A leitura deste belo soneto lembra um  outro de Camões "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades"  E, no último terceto do poema, eu consigo identificar Pessoa: "Tudo vale a pena, se a Alma não é pequena". Os grandes poetas sofrem das mesmas angústias e abordam os mesmos temas universais. E a língua portuguesa é maravilhosa para exprimir a subtileza do pensamento destes poetas filósofos.

Foi neste Verão que eu conheci a bela Cidade de Vila do Conde, a cidade com "mais escritores por metro quadrado" no dizer do meu amigo da Guarda, o professor e especialista em Literatura, Tozé  Dias de Almeida,  que me levou à descoberta dos caminhos e dos lugares que, na cidade, assinalam as suas ligações a  Antero de Quental, a José Régio, a Camilo Castelo Branco, a Agustina Bessa-Luís e a Eça de Queirós.

Eu não tenho pretensões a ser literato.  Com pena minha, e à exceção de Eça que sempre me acompanhou desde a adolescência, conheço mal as obras destes escritores. Mas senti sempre uma especial atração por Antero despertada pela magistral evocação que dele faz Eça de Queirós no artigo que escreveu após o seu suicídio nos Açores, em 1891, e que termina desta forma sublime: "um santo que muito padeceu  porque muito pensou, que muito  amou porque muito compreendeu, e que,  simples entre os simples, pondo a sua vasta  alma em curtos versos – era um  Génio e era um Santo". 

Inspirado por esta visita a Vila do Conde,  e sem o indispensável tempo sereno para me aventurar nos poemas de Antero - seguramente, pela amostra deste Solemnia Verba, a parte mais interessante da sua obra  -, fui reler o texto da conferência que ele, então um jovem de 29 anos,  proferiu no Casino de Lisboa - uma das célebres Conferências Democráticas do Casino - no dia 27 de maio de 1871 e que intitulou "Causas da decadência dos povos peninsulares nos últimos trezentos  anos".

Ao longo da sua longa intervenção, Antero compara a pujança medieval dos povos ibéricos com os seus cientistas, os seus artistas, os seus literatos, as suas universidades, e interroga-se sobre o que terá provocado - num curto período de algumas décadas, em meados do Século XVI- a ruína deste esplendor e a transformação da gente da península numa sombra do seu passado. As causas que ele aponta são três : 1) O catolicismo saído do Concílio de Trento, dogmático e limitador das liberdades, em oposição à corrente evangélica saída da Reforma e dolorosamente afirmada na Guerra dos 30 anos; 2) O absolutismo que anulou o antigo poder local, fomentou intrigas e produziu ociosidade; 3) A expansão resultante das descobertas e das conquistas que trouxe riqueza, mas não gerou indústrias nem desenvolvimento, contrariamente ao que fizeram os ingleses na Índia, caso que ele cita como exemplo.

É estimulante acompanhar o discurso do jovem Antero, perceber o sentido revolucionário que emana da sua mente. Antero chega a citar Adam Smith, o grande inspirador da nova economia então nascente; revolta-se contra o imobilismo, o compadrio e a corrupção. Ao terminar o seu discurso, depois de afirmar que Cristo nunca poderia ter sido católico, lembra o papel do cristianismo na transformação do Império Romano e aponta os seus princípios como inspiradores de uma nova e urgente revolução. Cento e quarenta e três anos depois daquela memorável noite em que Antero lança um grito cujo eco só chegaria ao povo português mais de cem anos depois, numa manhã de Abril, nós não questionamos o sentir republicano e democrático de Antero, mas duvidamos das causas por ele apontadas para a decadência dos povos ibéricos. Pois, eliminadas que foram as causas, não se deveria ter invertido a trajetória decadente?

Na ruidosa e inquietante confusão do nosso tempo, é salutar e revitalizador beber do pensamento tonificante de  um português esclarecido que foi um homem livre, um puro democrata e um verdadeiro socialista.