segunda-feira, 27 de julho de 2015

A Alimentação

Com o acelerado crescimento populacional, que prevê mais 2,5 mil milhões de pessoas em 2050 e mais 3,5 mil milhões em 2100, o mundo vai precisar, num curto horizonte temporal, de produzir mais 70% dos alimentos atualmente produzidos. Como isso vai ser conseguido é uma grande incógnita. O alimento é uma necessidade básica de qualquer ser vivo, e por isso a questão não pode ser ignorada.

A lança de caça constituiu para aos homens primitivos uma enorme evolução e aportou uma rica dieta proteica às tribos nómadas de caçadores. No entanto, a grande revolução alimentar ocorreu há cerca de dez mil anos com a domesticação de animais e plantas e com o início do cultivo das terras. Primeiro junto aos cursos de água, depois em zonas irrigadas por elaboradas técnicas de canalização e aproveitamento da água. Na Idade Média, a invenção da charrua de ferro permitiu arrotear e conquistar para a exploração agrícola vastos terrenos antes ocupados por florestas. Foi o sucesso desta agricultura e os excedentes assim criados que esteve na origem da Europa das catedrais, da explosão artística da renascença e do avanço científico e tecnológico da Idade Moderna. Este modelo de agricultura foi exportado para o novo mundo, e juntamente com o trabalho escravo, originou a monocultura e permitiu a produção de alimentos em quantidades nunca antes imaginadas.

Como consequência do crescimento populacional e das lutas anti-escravatura, o modelo ameaçava esgotar-se. Na viragem do século XVIII para o século XIX, Thomas Malthus, um homem esclarecido, alertou para a sua insustentabilidade, dizendo que a população iria crescer mais rapidamente que a produção de alimentos. Mas, logo a seguir, o aproveitamento da energia fóssil iria contrariar Malthus, provocar uma inesperada revolução na agricultura e trazer uma nova prosperidade à espécie humana. A agricultura mecanizou-se, libertou os campos do trabalho escravo, ao mesmo tempo que novos fertilizantes revigoravam a terra desgastada e eficientes pesticidas combatiam as pragas e faziam as mondas. Somado a tudo isto, a ciência - com a genética e a descoberta da cura das doenças -,e a tecnologia- com a cultura intensiva e o aperfeiçoamento das alfaias -, haveriam de operar um milagre - a revolução verde - que criou grandes excedentes alimentares e foi responsável pela Idade de Ouro em que atualmente nos encontramos.

Com a revolução verde, o homem libertou-se da árdua tarefa de trabalhar a terra. Em algumas décadas o sector primário, antes o mais representativo, passou a ocupar uma percentagem de apenas um dígito...Em apenas dois séculos a população mundial cresceu seis vezes, as cidades ocuparam o lugar dos campos, enormes massas populacionais ascenderam aos serviços, nasceu a consumista classe média urbana como motor da economia. Este sucesso teve - e continua a ter! -custos ecológicos e ambientais enormes, que podem ser traduzidos num cortejo de conceitos que começam a entrar no nosso discurso diário: manipulação genética, perda de biodiversidade, criação de animais em cativeiro, utilização de hormonas e antibióticos de crescimento, solos empobrecidos e contaminados, escassez de água, alterações climáticas...

É urgente uma nova revolução alimentar. Selina Juul, uma especialista dinamarquesa em alimentação, fundadora do movimento Stop Wasting Food, diz que se não houvesse desperdícios, possivelmente os alimentos produzidos atualmente seriam suficientes para alimentar a população do futuro. John Vidal, jornalista do Guardian, escreveu que urge encontrar outras soluções para alimentar mais de 2.5 mil milhões de pessoas dentro de quatro décadas - as populações da China e da Índia somadas. Acrescenta ainda, que para enfrentar a escassez de água e de terra arável precisamos de uma  geração de novos agricultores, com novas ideias e cultivando novos produtos. Fala de algas, de carne artificial, de novos cereais e até de insectos. Outros, advogam que a solução virá do mar - estufas marítimas, dessalinização... -, enquanto outros sonham em recuperar vastas extensões de deserto, citando a propósito ambiciosos projetos como o Shara Forest Projet, ou a Great Green Wall of Africa.

Na era do consumidor alterou-se profundamente a nossa dieta alimentar. Vivemos na época dos alimentos processados, do excesso de açúcar, dos aditivos, da carne feita à pressa, do exagero dos produtos lácteos. Consumimos mais alimentos do que aqueles que precisamos para viver. As novas gerações são mais altas e mais atléticas, mas também mais obesas. É muito difícil contrariar este estado de coisas, pois a indústria alimentar é um dos pilares da nossa economia. Argumenta-se, por exemplo, com a importância das bebidas refrigerantes para a economia e para o emprego e quase não se fala dos danos que elas causam à saúde.

Para fugir ao ditado popular, que diz que pela boca morre o peixe, um dia teremos de mudar os nossos hábitos alimentares. E quem sabe se, para tal, não teremos primeiro de mudar de economia.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Ferramentas

Já estamos muito longe da idade da pedra lascada e do machado de sílex. Mas foi com essas ferramentas rudimentares que se iniciou a caminhada do homo sapiens e se construiu aquilo que designamos por Civilização Humana. O progresso civilizacional foi fruto da inteligência e das ferramentas. As mãos e o cérebro fizeram a Civilização.

Neste longo caminho, assistimos à extraordinária capacidade inventiva do ser humano para criar novas ferramentas, ampliar com elas as funções sensoriais, realizar tarefas e explorar os recursos da natureza. Primeiro, com o carro de bois e com o arado, o homem aproveitou a seu favor o trabalho animal; depois, com as velas, aproveitou a força do vento para atravessar os oceanos; misturou o clorato, o carvão e o enxofre para fazer a pólvora e criou as bombardas para fazer a guerra. Fez a máquina a vapor e o motor de explosão para extrair o trabalho que está nas entranhas do carvão e do petróleo. Com o reator nuclear foi buscar a energia do átomo e adquiriu a capacidade de destruir tudo aquilo que antes tinha construído.

Com a permanente invenção de novas ferramentas o homem espalhou-se, subjugou todas as outras espécies e dominou a terra. Cada nova ferramenta representa um salto e uma ameaça. Um salto, pois permite adquirir novas capacidades, explorar novos recursos, alimentar mais pessoas; uma ameaça, pois acelera o esgotamento desses recursos e contribui para aumentar a poluição e acelerar os danos causados à qualidade do ambiente, mormente da água que bebe e do ar que respira.

Apesar disso, uma vez aqui chegado, o homem tomou consciência de que não pode parar, pois a economia pede-lhe emprego e crescimento. Tornou-se lugar comum a crença de que a sobrevivência da Humanidade passa pelos caminhos do progresso e da inovação. Com a inovação mecânica e a inovação elétrica libertou a mulher das tarefas do lar. E já dá para perceber que o homem do futuro terá ao seu dispor novas ferramentas mais complexas e sofisticadas. Falo das ferramentas digitais, resultado da miniaturização, da informática e das telecomunicações, que começam a invadir o nosso dia a dia.

As ferramentas digitais são ferramentas inteligentes munidas de sensores que são capazes de tomar decisões. No sector da saúde vão permitir uma vida mais longa; no sector da energia vão aumentar a eficiência na captação e no consumo dos recursos energéticos tanto dos renováveis como dos não renováveis; no sector alimentar - sobretudo na produção alimentar - vão otimizar a utilização de animais e plantas domesticados e geneticamente aperfeiçoados, transformando-os em meros vetores alimentares humanos, que servirão para monitorizar e tornar mais eficiente o consumo de água potável, tanto para consumo direto humano, como para uso na agricultura e pecuária.

Com essas novas ferramentas, mais sofisticadas e mais complexas, o homem passará a depender cada vez mais delas. Aos poucos vai desaprender a viver de forma natural, tal como a natureza o preparou ao longo de milhões de anos. O aumento populacional e o agravamento das desigualdades sociais - a inovação tende a favorecer em primeiro lugar as elites - vão ser duas das consequências com que as sociedades do futuro vão ter de se confrontar.

Não é fácil prever quais as consequências desta sofisticada inovação para a espécie humana e para a Civilização. Mas acredito que ela não nos vai levar de volta à quietude do Paraíso Terrestre!


segunda-feira, 13 de julho de 2015

Grécia: A Austeridade e a Soberania

A Grécia tem um importante valor estratégico. Situa-se na fronteira leste do futuro espaço Atlântico - uma zona alargada de comércio livre com grande impacto económico - que a Europa e os Estados Unidos se propõem construir com base num acordo chamado TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership). A Grécia é a porta da Europa para o Médio Oriente e controla o acesso ao mar de Marmara e ao mar Negro. Está no caminho dos gasodutos e dos pipelines que hão-de trazer a energia fóssil da Rússia, da Ásia Central e do Golfo Pérsico para a depauperada Europa. Além disso, fala-se que sob as águas do mar Egeu estarão importantes jazidas de petróleo e gás natural à espera de serem exploradas. Por todas estas razões a Grécia é vital para o Ocidente, mas também para os interesses russos - e para um futuro eixo Pequim-Moscovo, que será a resposta natural de russos e chineses ao TTIP. Por isso mesmo, a Grécia é cobiçada por Putin. Alexis Tsipras sabe tudo isso, e acredita que a Europa e os Estados Unidos nunca deixarão a Grécia entregue a si própria.

Mas a Europa está ela própria numa encruzilhada. A crise iniciada em 2008 interrompeu um período de prosperidade e veio demonstrar que o generoso estado social europeu, nascido na euforia económica do pós guerra, não é sustentável no longo prazo. A crise subsequente da dívida soberana grega serviu para fazer, mais uma vez, vir ao de cima os verdadeiros problemas da Europa: o problema económico, o problema social e o problema da governação. Problemas que estão interligados entre si. O problema económico - que tem a ver com a emergência de economias industriais mais ágeis, com a quebra da natalidade e a escassez de recursos - resulta da dificuldade em fazer crescer a riqueza e em manter os orçamentos equilibrados. O problema social, em última análise, radica na crise de valores, no peso crescente de minorias desintegradas, e também na pressão sobre as suas fronteiras das populações que procuram fugir à pobreza, aos conflitos e à sobrepopulação do Norte de África e do Médio Oriente. O problema da governação - talvez o mais urgente no momento que vivemos - é um problema político que resulta da própria organização e da génese da União Europeia. Este último problema está a provocar um permanente conflito entre poder central das estruturas da união e poder nacional dos países.

Na Grécia atual extremam-se os problemas da Europa.É uma zona de entrada de imigrantes indesejados; tem uma economia frágil e insustentável, geradora de deficits crónicos que têm sido financiados pelo FMI e pela União Europeia; e tem um poder rebelde que teima em afirmar a soberania da Grécia e dos gregos. A Europa está perante um dilema: pagar ou não pagar a fatura dos gregos. Até poderá estar disposta a pagar, se o fizer a troco da disciplina orçamental e do sacrifício da soberania. Na mesa das negociações jogam-se os trunfos: do lado da Grécia a ameaça de romper a coesão e a sua valia geopolítica; do lado da Europa, para vergar os gregos, usa-se a tortura financeira e a ameaça do seu prolongamento indefinido. No final haverá acordo. A Grécia vai ficar na Europa e no euro, mas vai ter, no futuro, mais austeridade e menos soberania. De pouco lhe vai servir ter um governo de esquerda ou brandir a arma do referendo.

A União Europeia - paulatinamente construída - foi a saída que a Alemanha, derrotada em 1945, aceitou liderar com o apoio de uma França descaracterizada e nunca reencontrada em si mesma desde Waterloo. Mas, esta Europa que colonizou o mundo, que já teve exércitos, que teve uma religião e construiu fábricas; agora, é um museu. Está na economia global, tem um idioma e uma moeda. Mas não tem ideais, não produz inovação comercializável, nem tem soluções de crescimento fora da economia global. Aceitou abrigar-se sob a liderança americana - mesmo que isso implique virar as costas a Moscovo - tanto no plano económico como militar. Mas a Europa dos países não está morta e ressurge a cada crise. E a Inglaterra escuda-se na sua ilha e acha que terá sempre a última palavra.

A Grécia vai continuar a fazer parte da Europa. Para esta conclusão não é preciso invocar a história, nem a geografia, nem a mitologia. Alexis Tsipras vai ficar na história como o último líder grego que tentou manter a soberania do seu país. E já se terá convencido de que, sem pão, a democracia pouco valor tem!


segunda-feira, 6 de julho de 2015

A Inovação

Carlos Moedas esteve no Grémio Literário no passado dia 25 de junho para encerrar o ciclo de conferências: “Portugal pós - Troika: que Moeda, que Economia, que Futuro?”. Em plena crise grega, tinha criado uma certa expectativa em relação a esta conferência, mas o jovem comissário - o primeiro comissário Erasmus, como ele próprio se definiu - evitou o tema e escolheu falar de Ciência e Inovação.

Começou por falar da Europa, espaço onde uns escassos 7% da população mundial produzem mais de 30% do conhecimento global. No velho continente destacou três particularidades: uma plataforma de convergência e de bem estar, um espaço de conhecimento, e um estado social forte. Algo que todo o mundo gostaria de imitar. Entende que é necessário conservar estas características e explorar aquele pilar - referia-se à inovação e ao conhecimento! -, o único que realmente pode gerar riqueza e promover crescimento. Porque, acrescentou ele, a inovação foi o grande responsável pelo crescimento, sendo-lhe atribuído 62% do crescimento verificado na Europa entre 1995 e 2007.

Não advoga uma inovação, embora sustentada, que apenas sirva para substituir produtos ou aumentar a eficiência na sua utilização. Defende sim, uma inovação criadora de mercado, logo, de emprego. Isto é, novos produtos-verdadeiramente novos! –, e com novas aplicações. Como exemplos desses produtos que, nas últimas décadas, ajudaram a mudar radicalmente a nossa forma de viver indicou: o telemóvel e o computador pessoal. Poderia ainda ter referido a máquina fotográfica digital, o vídeo gravador, o walkman, que muito ajudaram a prosperar o Japão do pós guerra.

Para Carlos Moedas, vivemos plenamente a revolução digital. Comparou a máquina a vapor, símbolo da revolução industrial, com o transístor desenvolvido na Bell em 1940, símbolo da revolução digital. Serviu-se deste dispositivo eletrónico para exemplificar aquilo que ele designou por investigação fundamental, a investigação sistemática realizada dentro de uma empresa com a intervenção de vários especialistas. O palestrante acha que a Europa não tem tido no sector digital o sucesso que tem no sector industrial. E questionou-se sobre as causas desse insucesso, considerando que o que falha na Europa resulta da sua fragmentação, são as barreiras invisíveis entre países.

Depois falou da sua visão para o futuro, da necessidade de uma grande abertura: open inovation, open science e open to the world. Enfatizou o papel dos consumidores como motores da inovacão. É o conceito de user inovation, que pode motivar um engenheiro a descobrir a cura de uma doença. Entretanto, aproveitou para informar que para falar sobre o tema, estará na Gulbenkian, neste mês de julho, o maior especialista mundial da matéria, o professor da Sloan Management Scholl do MIT, Eric von Hippel. Referindo às interações, cada vez maiores, entre o mundo físico e o mundo digital - a internet das coisas! – apontou quatro sectores que, no futuro, serão muito afetados por esta interação entre o físico e o digital: os sectores da alimentação, da água, da energia e da saúde.

A ciência tem de ser open, o conhecimento tem de ser difundido de forma gratuita - não podemos pagar para ler. Sobre o terceiro pilar, a abertura ao mundo, que ele designou de Ciência e Diplomacia, mencionou uma recente visita à Jordânia para visitar o único centro acelerador de partículas no médio oriente. Aí viu irmanados pelo conhecimento árabes e judeus, partilhando uma linguagem comum : a linguagem da ciência. A propósito deste pilar, e citando a obra Os Inovadores de Walter Isaacson, evocou uma filha do poeta Lord Byron, Ada Lovelace, nascida em 1815, colaboradora do inventor do computador Charles Babbage e que foi o primeiro programador da história. Ada anteviu a economia digital e referiu que a Arte - a literatura, a música e a pintura, por exemplo - um dia seria reduzida a números.

Carlos Moedas é um tecnocrata com uma visão simplista das coisas. É um crente da economia liberal, acredita no crescimento ilimitado, e vê na inovação o caminho para o conseguir. A Europa, com a sua baixa natalidade, sem recursos energéticos, começa a enfrentar uma grave crise de crescimento. Ora a inovação, só por si, não vai gerar o crescimento que a Europa necessita para manter o atual nível de conforto e o seu generoso estado social. Além disso, tem o espartilho da fragmentação entre países e uma estrutura de produção de conhecimento essencialmente académica, que é demasiado pesada num sector onde é preciso correr riscos e tomar decisões rápidas...Aquilo que os académicos não sabem ou não gostam de fazer!

O crescimento baseado na inovação pode ser um crescimento limpo e desejável para a velha Europa... mas, duvido muito que vá acontecer...Estou mais próximo de Robert Ayres que considera a energia o mais importante fator de crescimento. E, sobre a inovação, partilho da linha de pensamento de Joseph Tainter: acredito que é muito elevado o risco de, através dela, aumentar a complexidade social e criar condições para aumentar a ocorrência de Cisnes Negros

Uma questão, talvez filosófica, será a de saber se o telemóvel é, afinal, uma coisa boa ou uma coisa má... E o mesmo se pode perguntar sobre a televisão, sobre os jogos de computadores etc... De alguma forma, a Europa se quer ter futuro, tem de ter a coragem de desinovar e reencontrar-se no que é simples e espiritual. Para tornar as pessoas mais fortes, mais humanas e mais felizes.

Julgo que Carlos Moedas ainda não percebeu que o futuro da Europa vai jogar-se em Kiev, na Crimeia e em Lampedusa, e não no Cern ou nos meandros da economia digital.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Ensinar a Descobrir

O Nepso (A Nossa Escola Pesquisa a Sua Opinião) é o programa baseado numa metodologia de ensino inovadora que a Fundação Vox Populi está, desde há 5 anos, a levar com êxito a dezenas de escolas portuguesas. Professores e alunos candidatam-se a realizar um projeto de investigação tendo como base um estudo de opinião. Estudar o bullying, perceber as razões do insucesso escolar, entender as causas da crise, implementar comportamentos de cidadania, são alguns dos temas já tratados no Nepso. O Rato de Biblioteca é outro programa da Fundação através do qual se procura ensinar os alunos a pesquisar, criticar e conciliar a informação disponível e oriunda de diferentes fontes. No ano letivo que agora terminou, o tema sugerido pela Fundação para o Rato de Biblioteca foi A Origem das Coisas. E as surpresas foram muitas.

No ensino tradicional, os alunos são preparados para dar as respostas convencionais dos manuais escolares. Tanto no Nepso como no Rato de Biblioteca procura-se estimular os alunos a partir à descoberta das respostas. A fazerem perguntas e a questionarem o mundo à sua volta. O resultado é a aquisição de conhecimento, fruto de um trabalho em equipa. O professor deixa de ser o sabe tudo para ser o condutor da pesquisa. Nestes programas, tudo começa com a escolha do tema. Quando o professor, com os seus alunos, escolhem um tema de pesquisa, eles iniciam, em conjunto, uma caminhada, partem para uma espécie de aventura. Não há temas bons nem maus. Logo no início, debruçam-se e começam a explorar e a contextualizar o tema: perceber os conceitos, o significado das palavras, aprender o que outros já estudaram, identificar as perguntas que ainda não têm resposta. Às vezes, nesta fase ainda preliminar, a vastidão do que encontram por debaixo da parte visível do "iceberg" deixa-os surpresos. E anima-os a prosseguir.

Com o Rato de Biblioteca procuramos estimular a pesquisa da informação que circula em grandes quantidades, sobretudo na Internet, e que é um convite ao copy-paste acrítico. Saber usar a informação, filtrá-la, compará-la, relacioná-la e transformá-la em conhecimento, é o principal objetivo deste programa. Em cada ano é sugerido um tema. Há dois anos foi "Nós portugueses quem somos", no ano passado foi "Os portugueses e a sustentabilidade". Este ano, como já disse atrás, o tema foi A origem das coisas.

O acompanhamento destes projetos tem sido para a Fundação Vox Populi e, para mim, pessoalmente, uma extraordinária experiência. A convivência com professores e alunos, a envolvência com o ambiente escolar, coloca-nos cara a cara com o futuro. Porque falar da educação é falar do futuro. Quando se desmorona o edifício da educação, caem os alicerces do nosso futuro coletivo. Voltar à escola devia ser uma obrigação para todos aqueles que atingem a idade da reforma. Isso far-nos-ia perceber quanto envelhecemos ou sentir quão jovens ainda somos!

Eu dediquei uma boa parte da minha vida profissional ao estudo e à produção de informação, e isso permitiu-me perceber que existem diferenças entre informação, conhecimento e saber. A informação acumula-se, degrada-se e perde-se. Pode ser boa ou má, pode ser certa ou errada, pode ser útil ou inútil. O conhecimento é a informação processada e digerida. É o resultado da interação entre a inteligência e a informação. Não evolui com a quantidade de informação processada, mas com a experiência e o refinamento do processo de a tratar e criticar. Se a informação é a matéria prima, o conhecimento é a ferramenta.

O saber, vejo-o como estando um degrau acima do conhecimento. Constitui uma espécie de mutação pessoal, algo que nos dá uma nova qualidade e nos transforma enquanto indivíduos. O saber não se ensina, não se transmite como a informação através de um sistema de vasos comunicantes. O saber constrói-se num processo lento e laborioso, à custa de tentativas, de sucessos e de fracassos. Quase se poderia dizer que a informação está nos neurónios, o conhecimento está nas sinapses, e o saber está nos genes. Porque o homem sábio atingiu um patamar superior no processo da evolução.

O Nepso e o Rato de Biblioteca são uma caminhada de professores e de alunos. São ferramentas que nos ajudam a subir um degrau na escada do saber. Na próxima quarta feira, dia 2 de julho, marcamos encontro em Ponte de Lima com quase mil professores e alunos para a festa do Nepso e do Rato de Biblioteca. Para espalhar alegria, para partilhar saberes, para sentir emoções, para alimentar a Esperança no futuro!

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Um Longo Caminho

Foi há cerca de seis anos que comecei a publicar textos neste blogue. Um tempo que passou veloz, em que muita coisa aconteceu e se percorreu um longo caminho. Em 2009, estava a generalizar-se a consciência sobre o pico do petróleo, a teoria de que as reservas de petróleo são limitadas e que um dia a sua extração começará a diminuir. Na peugada de Hubbert King surgiram diversos estudos de geólogos, engenheiros petrolíferos e outros analistas ligados aos assuntos do crude. De entre eles, destacaram-se o irlandês Colin Campbell e o francês Jean Lahérrère que, em março de 1998, tinham publicado na revista Scientific American um estudo seminal, The end of Cheap Oil, sobre as perspetivas de produção de petróleo para os anos vindouros. Uma nova geração de estudiosos, provenientes das mais diversas áreas, desde a sociologia à história, passando pela filosofia e pela antropologia, começavam a debruçar-se sobre as implicações da escassez dos recursos energéticos e a divulgar as suas conclusões. A internet permitia difundir a informação e fomentava a troca de pontos de vista. Foram os anos do despertar de consciências para a importância crucial da energia fóssil, o verdadeiro motor da era industrial. Recuperaram-se as ideias do Limits to Growth, publicado em 1972. Matt Simmons tinha acabado de publicar o Twilight in the Desert alertando para o iminente esgotamento das grandes jazidas da Arábia Saudita. De forma consensual, o diagnóstico para os anos seguintes era, claramente, pessimista. No blogue The Oil Drum, um fórum de discussão que foi uma referência para muitos, surgiram análises que pela sua acutilância e pertinência muito contribuíram para alterar de forma irreversível a minha visão do mundo.

A questão energética é central para a sociedade industrial. O século XX foi o século do petróleo e da mobilidade. O petróleo, tanto na Europa e Ásia Menor como no Pacífico, tinha desempenhado um importante papel nos dois conflitos mundiais. No final da II Guerra Mundial, os Estados Unidos firmaram acordos com a Arábia Saudita para assegurar o controlo das maiores reservas conhecidas. No período que se seguiu a 1945, o grande desenvolvimento económico, as transformações sociais e a febre da urbanização ficaram a dever-se à abundância energética. O grande dilema era que o crescimento, que a economia exigia, obrigava a dispor dessa energia de forma continuada e crescente. Em 1973, depois do embargo dos países árabes, constatou-se que só a disponibilidade de petróleo barato poderia assegurar esse crescimento. Nessa altura, os Estados Unidos, que já não eram auto suficientes, focalizaram toda a sua atenção no Médio Oriente. Começaram a preparar a ocupação do Iraque, considerado uma espécie de eldorado petrolífero, com potencialidades de produção semelhantes às da Arábia Saudita. E o pretexto para a conseguir iria surgir em setembro de 2001.

Marion Hubbert King, em 1956, foi o primeiro a alertar para a finitude das reservas de combustíveis fosseis e para o seu previsível esgotamento. Ora, como a economia exigia mais e mais energia, esta previsão era inconveniente. O engenheiro da Shell foi desacreditado e os seus avisos ignorados. Como resposta, os prospetores desenvolveram novas técnicas de pesquisa e os engenheiros começaram a cavar mais fundo e a rapar tudo o que ainda sobrava nas antigas jazidas abandonadas. Perfurou-se nas profundezas dos oceanos, esventrou-se a terra no Canadá, poluíram-se rios em Atabasca, enfrentaram-se os climas hostis do Alaska e do Ártico. Pelo petróleo, fizeram-se guerras, engendraram-se golpes de estado, minou-se até ao colapso a economia do antigo bloco de Leste. Na América, espremeu-se até à ultima gota a rocha xistosa do Texas e do Dakota. Entretanto, a necessidade de crescer conduziu à globalização e acelerou o despertar da China. E, assim, a ilusão do eterno crescimento era continuamente alimentada. Albert Bartlet ensinava que as consequências do crescimento exponencial não são bem percebidas pela mente humana. E a ameaça das alterações climáticas ia pesando sobre o destino da Civilização Industrial. A crise financeira de 2008 foi na sua essência uma crise de crescimento. Pouco a pouco, as pessoas começaram a tomar consciência que a Idade de Ouro - que se acreditava perpétua - poderia chegar ao fim.

A partir desta tomada de consciência, ganhou expressão uma corrente de pensamento orientada para as questões à volta do futuro da humanidade, e para o destino da espécie humana. Eu bebi dessas ideias: a filosofia, a antropologia, a astronomia, passaram a ser o centro dos meus interesses. Vi-me confrontado com as paradoxias - a origem da matéria, a origem da vida, a origem da inteligência, o destino do homem - que são as questões centrais do ser humano e que, na minha opinião, nunca serão cabalmente respondidas pelos mortais. Mas, cedo percebi que a humanidade se encontrava num processo de crescimento exponencial e que a economia comandava esse processo. A rapidez com que tudo estava a acontecer tornava mais difícil a perceção dos malefícios desse crescimento e camuflava as suas consequências. No entanto, pressentia-se que os riscos associados eram muito elevados.

Passados seis anos, continuo a perguntar-me onde estamos e para onde vamos. Resisto a partilhar, com algum otimismo, a generalizada crença de que, afinal tudo isto é normal, que não estamos perante o fim da história. Hesito em confiar que o homem mais uma vez vai encontrar remédio para todos os males. Continuo convencido que os pressupostos do Limits to Growth continuam válidos. E que as leis da física vão opor-se aos princípios da economia. Os números, os gráficos, os indicadores mostram que estamo-nos a aproximar dum turning point civilizacional.

À primeira vista, o acontecimento mais provável será um colapso económico provocado pela ausência de crescimento. Mas, a economia tem hoje um grande poder de adaptação a situações adversas. As soluções que encontra são aquilo que vulgarmente se designa de uma fuga para a frente. A resposta da economia estará no desenvolvimento da tecnologia, no reforço da economia digital, na promoção do consumo favorecida por novos acordos de comércio - como o TTIP e outros acordos regionais. Afinal, um aumento da complexidade, um reforço da globalização, a continuação da exploração dos recursos e o aumento da produtividade à custa do sacrifício da biodiversidade e do equilíbrio ecológico!

A pressão demográfica e os seus efeitos são outro fator de instabilidade a ter em consideração no futuro próximo. Grandes zonas do planeta - confinando com zonas economicamente mais desenvolvidas e de baixa natalidade - estão a ficar sobrepovoadas. São exemplos disso as pressões na margem africana do Mediterrâneo sobre a Europa do Sul, do Bengladesh sobre a Índia, do México e da América Latina sobre os Estados Unidos. A escassez de recursos tenderá a ser contrariada pelo aumento da eficiência na sua utilização e pela procura de fontes alternativas - energia solar, renováveis, acumuladores de grande capacidade. Porém, o problema persiste. O pico do petróleo foi relegado para segundo plano com a ilusão do shale oil americano. Mas, no essencial nada se alterou: acabou o petróleo barato, está a haver desinvestimento na prospeção, o petróleo ainda não tem substituto no sector da mobilidade. Existe muita incerteza, muita desinformação sobre o estado das reservas e sobre o grau de esgotamento das grandes jazidas... Pressinto que seremos, muito em breve, confrontados com um novo choque de graves consequências...

A economia vai continuar a agravar as desigualdades sociais entre países e dentro de cada país. Muitas das conquistas sociais dos países desenvolvidos - proteção na saúde, no desemprego, direitos assegurados na educação, etc. - vão ser reduzidas à medida que a taxa de criação de riqueza for diminuindo, à medida que a esperança de vida for aumentando e à medida que a criação de novos postos de trabalho se reduzir. Será também este um um fator de instabilidade, gerador de conflitos sociais.

Na minha opinião, o maior risco é o ambiental. Trata-se de um problema crónico que vai agravar-se. O crescimento urbano vai continuar a reduzir a disponibilidade de terra arável. Algumas megaurbes estão próximo da rutura, com problemas nas redes de saneamento e de abastecimento de água. A qualidade da água e do ar estão ameaçadas pela poluição. A concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera vai aumentar. A introdução da manipulação genética nas sementes, o uso imoderado de fertilizantes e pesticidas vão ter consequências na saúde das pessoas e na qualidade dos solos agrícolas. A extinção de espécies em terra e no mar vai destruir equilíbrios conseguidos ao longo de milhões de anos!

Passados seis anos não posso dizer que estou mais otimista... Creio que, em geral, estamos todos mais realistas...

segunda-feira, 15 de junho de 2015

O Óscar

Neste passado e chuvoso domingo de junho um grupo de vinte e nove pessoas, entre as quais oito crianças, convidados pela Fundação Vox Populi, foram de autocarro visitar uns insólitos imigrantes. Entre eles o Bruno, o Miguel e o Óscar. Daquele grupo de sul americanos confesso que gostei particularmente do Óscar - por ser dócil e ter um olhar meigo. O Óscar e os amigos foram parar à Benfeita, uma aldeia de xisto perdida entre Coja e o Piodão, por causa da globalização. Vieram dos Andes, não sei se do Perú se da Bolívia, onde existem em grande número e são venerados pelos habitantes locais. A tal ponto que estão representados na bandeira do Perú.

O Óscar recém tosquiado, fotografado na
localidade de Benfeita
O Oscar é um alpaca. O nome científico desta espécie é vicugna pacos. Trata-se de um mamífero ruminante estreitamente aparentado com a vicunha - que ainda vive no estado selvagem - e, de forma um pouco mais distante, com o guanaco e com a lama. Todos estes animais pertencem à família dos camelídeos. Como estas espécies são originárias e vivem na cordilheira dos Andes, em altitudes superiores aos 4000 metros, para se adaptarem à escassez de oxigénio, o seu sangue tem uma elevada percentagem de hemoglobina que no caso dos guanacos pode ser quatro vezes superior à do sangue dos humanos. O corpo das alpacas é revestido por uma lã de excecionais características: leve, suave, comprida, fácil de lavar e de fiar, e tem uma grande capacidade isoladora. Na tosquia que é feita na primavera, cada animal dá cerca de quatro quilos dessa apreciada lã.

O Óscar e os amigos foram trazidos para a aldeia da Benfeita por uns ingleses que os albergam e tratam nas terras onde há 50 anos portugueses, hoje emigrados - quem sabe, em algum subúrbio poluído da Inglaterra -, arroteavam socalcos em que se cultivava o milho, e onde se produzia azeite e vinho. A água ainda hoje corre cristalina nesses pendores da serra do Açor, à espera de voltar fertilizar as terras úberes das várzeas que ladeiam as ribeiras.

A desertificação das aldeias de xisto ocorreu no pós guerra, durante o período de emigração para a Europa e para as cidades do litoral. Os terrenos agrícolas estão hoje abandonados. Algumas casas recuperadas são usadas como efémeras residências de verão e não são sustentáveis no médio prazo. Outras em ruínas são, sobretudo, habitadas por velhos que ainda ali vivem. A economia local, que criava valor e fazia prosperar, desapareceu. Então, atraídos pela beleza natural e pelo vácuo populacional, começam a aparecer por ali um novo tipo de ocupantes: estrangeiros do centro e do norte da Europa, marginais da economia de consumo. A escassa população local olha-os com desconfiança : estão linguística e culturalmente desenraizados; têm poucas condições para educar os filhos; resistem com dificuldade ao ambiente socialmente hostil, e muitos deles acabam por partir.

A visita às alpacas, terem assistido à tosquia do Óscar e terem manuseado e feltrado a lã de alpaca, foi, quer para os adultos e quer para as crianças que participaram na excursão do domingo, uma oportunidade de sair da rotina da cidade. Entretanto, começam as férias, e muitas das crianças deste país preparam-se para o despreocupado tempo da praia e para o alheamento da televisão e dos jogos de computador. Longe dos dramas que se vivem noutras latitudes, mas que já se vislumbram bem perto das fronteiras da velha Europa e ameaçam agitar este doce e despreocupado remanso lusitano.