segunda-feira, 30 de maio de 2016

O Fio da Meada

No último post que publiquei neste blogue, a propósito do livro de Paul Mason (Pós- capitalismo - Um guia para o nosso futuro), interroguei-me sobre o futuro do capitalismo como sistema económico. Convenhamos que tal futuro não se mostra risonho por dois motivos: ter associado um sistema financeiro baseado no crédito, o qual não pode subsistir sem crescimento - cujos limites já estão à vista! -,e ser, na sua essência, um sistema predador de recursos, cego relativamente às questões sociais e ambientais. Na ausência de crescimento não existirão correções ou ajustamentos políticos que lhe valham, tanto na área social como ambiental. Então, após o inevitável colapso do sector financeiro, o capitalismo ruirá. Para mim, a grande questão consiste em saber se o atual sistema pode regenerar-se a si próprio de uma forma progressiva, suave e adaptativa ou se, pelo contrário, dará lugar a um outro sistema económico, pensado e criado de raiz para o substituir. Tanto num caso como no outro, a solução tem de contemplar, para ser económica e socialmente viável, um cenário prolongado de crescimento zero ou mesmo negativo. Porém, não está excluída a reedição de uma nova experiência marxista, embora prejudicada pelo falhanço da ex-URSS. Ora, havendo previsivelmente muitos perdedores, a transição deverá ser tudo menos pacífica.

Até à explosão demográfica que ocorreu no século passado - e fez quadruplicar a população do planeta -, o progresso parecia ilimitado. Era festejado, propalado e desejado por todos. Hoje existem muitas reservas, até mesmo pessimismo, sobre o futuro baseado no progresso e no crescimento. Ao fim e ao cabo, a espécie humana insere-se na biosfera e tem de respeitar as suas leis. Existem muitas condicionantes externas: a finitude dos recursos - energia fóssil, água e terreno arável - e as leis da física e da termodinâmica. E há que considerar ainda as contradições internas, ou seja, o incontrolado crescimento demográfico, o envelhecimento populacional, e os desequilíbrios ecológicos provocados pelas monoculturas - em detrimento da diversidade biológica - necessárias para alimentar a população em crescimento. Além disso, os problemas sociais estão longe de estar resolvidos, nem sequer de parecer atenuados. No mundo de hoje, ao lado das grandes invenções e dos progressos científicos, as desigualdades agravam-se, persiste o tribalismo, agudizam-se os conflitos religiosos, renascem os extremismos, aumenta o terrorismo e engrossam as migrações.

A sociedade complexa e globalizada em que vivemos é o resultado de transformações muito recentes quando vistas a uma escala temporal universal. Nos últimos dez mil anos, ocorreram grandes impulsos civilizacionais - verdadeiros choques evolutivos. A linguagem, a escrita, a imprensa e a internet, na forma de comunicar; o domínio do fogo, a pólvora, o carvão, o petróleo e o gás natural, na apropriação de recursos energéticos; a máquina a vapor, a eletricidade, as ondas hertzianas, na tecnologia. O progresso científico fez maravilhas nas áreas da saúde, das comunicações e da nanotecnologia. Ora, tanto a globalização como a complexidade têm o seu reverso. A globalização, levada ao extremo, ocupará de forma interdependente todos os territórios, deixando de existir válvulas de escape numa situação de stress. E a complexidade, para manter-se, exigirá ainda mais complexidade, a qual terá custos progressivamente crescentes que provocarão o envelhecimento entrópico da sociedade global.

Dotada de inteligência, a espécie humana é diferente de todas outras. É a única que através do pensamento reflexivo pode tomar decisões e fazer escolhas. E isso faz-nos acreditar que o homem pode superar todas as dificuldades, resolver todos os problemas e reinventar-se a si próprio. Será o ser humano, o terceiro chimpanzé de que fala Jared Diamond, capaz de escolher o seu destino e evitar a decadência? Ou estaremos sujeitos ao determinismo universal que nos mostra que tudo é cíclico e que para todas as coisas existe um princípio e um fim? Entretanto, e para já, é importante não ficarmos parados. No emaranhado em que vivemos é urgente começar a procurar a ponta do fio da meada.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

O Fim do Capitalismo?

O jornalista inglês Paul Mason é o autor de um livro intitulado O Pós-capitalismo - Um Guia Para o Nosso Futuro no qual defende a ideia de que o capitalismo, enquanto sistema económico e social, está esgotado e tem de ser substituído. Não vê o novo sistema como uma ideia utópica difícil de ser concretizada na prática, mas acha que - tal como o capitalismo que floresceu nos últimos 200 anos - terá de ser um sistema robusto, capaz de se impor e de alimentar-se a si próprio. Ele surgirá como resultado de uma evolução natural operada no seio do capitalismo. Para Mason o capitalismo é como um organismo vivo, tem vida própria, adapta-se e mutaciona-se. Comporta-se como que movido por um instinto de sobrevivência, comandado pelas mudanças tecnológicas que estão a ocorrer no mundo.

Paul Mason acha que o capitalismo, por ser incapaz de adaptar-se às mudanças tecnológicas em curso, está moribundo, e que dos seus escombros, tal como a Fénix, irá renascer o pós-capitalismo. As organizações, e mesmo o comportamento das pessoas, já começaram a adaptar-se para explorar as mudanças tecnológicas. Relativamente a essas mudanças, enuncia os três fatores que, nos últimos 25 anos, tiveram maior impacto: 1) a informação reduziu a necessidade de mão de obra e alterou a relação salário trabalho, e, além disso, a relação entre o tempo livre e o que é dedicado ao trabalho; 2) os mecanismos de mercado para formação de preços não funcionam para os produtos de informação; 3) o aparecimento de uma nova forma de produção - a produção colaborativa -, citando como exemplo a Wikipedia, fruto do contributo voluntário de milhares de pessoas. E sintetiza, dizendo: a informação dissolve os mercados, destrói a propriedade e rompe a relação entre trabalho e salário.

Quando falamos de capitalismo referimo-nos à economia de mercado, um conceito que se consolidou no século passado, quando nós acreditámos que existiam duas economias, a economia de mercado e a economia planificada, e que reduzíamos as opções alternativas à dicotomia: capitalismo versus socialismo. A economia de mercado (com os seus benefícios e malefícios!), graduada por maior ou menor intervenção dos estados (podendo ser mais conservadora ou mais liberal), afirmou-se como a economia natural. A mão invisível de que falava Adam Smith, que empurra, cegamente, tudo e todos para o crescimento, faz lembrar a lei da seleção natural - o que não se adapta, morre! - de que falou Charles Darwin.

A tendência de evolução, apontada no livro que temos vindo a seguir, já está a alterar o quadro político tradicional com dois partidos alternantes: a direita e a esquerda. No século passado, a esquerda imaginou que o fim do capitalismo seria ditado pelo sucesso das economias socialistas. Ora, nessas sociedades o individualismo destruiu o coletivismo e, afinal, foi o projeto apresentado como o ideal da esquerda que faliu. A economia colaborativa de que fala Mason é um novo caminho, concluindo que a esquerda perdeu a liderança para apontar a mudança. Surgiu um novo tipo de contestação, novos partidos e novos movimentos, e com eles a necessidade de novas etiquetas para os nomear. O movimento dos indignados veio mostrar que algo se quebrou no capitalismo; as futuras revoluções serão de um tipo muito diferente das anteriores. A rede global já não pode ser silenciada, e já não é possível desinstalar a Internet. O infocapitalismo criou um novo agente de mudança. O homem em rede é esse agente. O pós-capitalismo será o resultado dessa mudança.

Aqui deixo estas notas de leitura do livro de Mason recentemente publicado entre nós. O assunto é muito interessante, e abre uma janela de esperança para a prosperidade da humanidade que muitos de nós julgávamos definitivamente perdida. Porém, ele não se esgota aqui. Então, voltarei ao tema, para detalhar melhor o pensamento do autor, tentar perceber os seus argumentos e, eventualmente, detetar e apontar aquilo que julgo serem as suas falhas e contradições.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

TTIP


Desde que o conteúdo reservado dos documentos em discussão vazou para a os meios de informação começa a falar-se muito deste tratado. O TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership), também conhecido por TAFTA (Transatlantic Free Trade Area), é um acordo ou parceria para o comércio e o investimento que está a ser negociado entre os Estados Unidos e a União Europeia. Foi  em fevereiro de 2013 que Barack Obama no discurso sobre o Estado da União, se referiu pela primeira vez ao acordo. No dia seguinte, Durão Barroso respondia em consonância apoiando a ideia. E iniciaram-se as negociações.

 O TTIP é apresentado como um acordo altamente vantajoso para os dois lados do Atlântico. Ele visa reduzir as tarifas alfandegárias, já baixas em virtude dos acordos existentes no âmbito da Organização Mundial do Comércio, e eliminar outras barreiras ao comércio livre, ao uniformizar nomeadamente regulamentos, normas de fabrico e exigências de segurança, permitindo que bens produzidos em qualquer dos lados do Atlântico possam circular no outro sem qualquer impedimento. Nele serão incluídos direitos de autor e patentes, mas não o audiovisual. Espera-se que este acordo venha a ter grande impacto na agricultura. Isto apesar das dificuldades que se advinham no que respeita à aceitação, por parte dos europeus, das regras americanas sobre os alimentos geneticamente modificados, a certificação de sementes ou o uso de certo tipo de aditivos na alimentação animal.

As grandes multinacionais dos dois lados do Atlântico vêem nestes acordos  um reforço dos mecanismos de proteção aos seus investimentos. A uniformização das normas certificadoras, dos rótulos das embalagens, da comunicação e marketing terá um grande impacto nos custos finais dos produtos. A quantificação, feita pela UE, dos benefícios gerados pelo TTIP apontam para crescimentos anuais do PIB de 120 mil milhões de euros do lado da Europa e 90 mil milhões de euros do lado dos Estados Unidos. Com reflexos, naturalmente, no crescimento do emprego. Daí que na propaganda subtil que está a fazer-se para cativar a opinião pública se diga que uma família europeia de quatro pessoas terá um benefício anual de 545 dólares. E se acrescente também, que toda economia mundial ganhará com isso.

Ora, este acordo diz respeito a dois territórios responsáveis por cerca de 50% do PIB mundial, mas apenas 12% da população. O reforço do comércio entre as duas partes não deverá agradar à China e/ou à Rússia, que provavelmente serão obrigadas a aceitar dialogar com um bloco muito reforçado. Terá maior impacto na China, pois vai ter de adaptar os seus produtos às novas regras ou confrontar-se com fortes limitações à contrafação e à pirataria. O acordo está a ser negociado ao mais alto nível em grupos de trabalho que incluem representantes das grandes multinacionais, mas com um elevado secretismo. Por enquanto não se sabe se depois de aprovado pelo Parlamento Europeu ele terá de ser ratificado ou não pelos parlamentos nacionais de cada um dos Estados Membros. Apesar da sua enorme importância, até agora os grandes meios de comunicação social não têm dado muita atenção ao assunto.

Embora possa fazer muito pouco para o contrariar, Portugal não pode ficar indiferente a este acordo,  Comparado com o que aconteceu na nossa integração na CEE e as suas consequências, este é um grande passo em frente cujo efeito se fará sentir fortemente no nosso modo de vida e no nosso dia a dia. A nossa soberania vai reduzir-se ainda mais, não sendo seguro que isto venha a aliviar a pressão sobre a dívida nem a reduzir a austeridade. O acordo é sobretudo uma boa noticia para os mercados. Vai animar a economia e servirá para manter as expectativas elevadas, favorecendo as transações de  ativos financeiros. É quase certo que os índices bolsistas subirão. A abertura de novos mercados vai aumentar a competitividade, uniformizar gostos, valorizar ainda mais as marcas globais. Talvez, por tudo isso, ele está a ser fortemente incentivado pelas grandes empresas e corporações multinacionais.

Todavia a assinatura do TTIP é uma má notícia para a Humanidade e para o seu futuro coletivo. Vão servir-nos mais do mesmo, quando o bom senso aconselharia soluções de um novo tipo. Por este caminho, as emissões de CO2 vão aumentar, haverá mais mobilidade, maior consumo de recursos, crescerá a complexidade dos processos, haverá uma maior interdependência entre as economias. E ao afetar a pequena indústria e o pequeno comércio, o acordo será mais um golpe para a ideia de localização da economia, tal como a entendem os movimentos de transição. As alterações climáticas vão acelerar-se, o nível dos oceanos subirá e as calotes polares derreterão a um ritmo mais acelerado. E, sobretudo, as desigualdades sociais irão acentuar-se: os fortes ficarão mais fortes e os fracos mais fracos.

Ou seja, com o caminho que está a ser seguido de mais e mais globalização, cada nova crise produzirá efeitos ainda mais devastadores do que a anterior. Haverá, com certeza,  uma maior procura de energia fóssil, existindo porém sérias dúvidas sobre se a oferta a poderá satisfazer. O secretismo e a opacidade que têm envolvido as negociações, terão a ver com o receio de ele vir a ampliar a indignação dos desprotegidos e dos desempregados de todo o mundo, que acreditarão que nada de bom este acordo lhes poderá trazer.

Até mesmo para o cidadão comum começa a ser consensual que sem crescimento económico esta economia  não tem futuro, e que assim sendo a crise que enfrentamos não terá solução. A resposta que o sistema tem dado à urgente e imperiosa necessidade desse crescimento, tem apontado no sentido do reforço da globalização. O TTIP é um  exemplo bem ilustrativo desse caminho. Mas, será que não existem caminhos alternativos?

segunda-feira, 9 de maio de 2016

O Grande Livro do Vale do Côa


O rio Côa do friso das minhas memórias de adolescente é o rio selvagem e agreste da velha ponte de S. Roque e das curvas da camioneta de carreira para a Guarda. Sempre suspeitei que esta imagem do rio era incompleta e redutora e que havia algo mais para descobrir. Quando, há um par de anos - num gesto simpático da Associação dos Territórios do Côa -, fui nomeado embaixador de Ribacôa, entendi que chegara a altura de conhecer melhor o rio e o território adjacente que me cabia representar e promover. No ano passado, fui com a Paula em peregrinação à nascente do rio na bonita serra de Malcata. E foi num sábado chuvoso do início deste mês de maio, aproveitando uma viagem a terras da Beira,  que resolvemos conhecer um pouco mais do rio na primeira parte do seu percurso, em terras do Sabugal.

Desta vez, ficámos hospedados no novíssimo hotel das Termas do Cró e foi a partir daí que decidimos aventurar-nos a percorrer a pé um pequeno troço da grande Rota do Vale do Coa. A intenção era conhecer a famosa ponte de Sequeiros. Saímos do hotel pelas 10 horas da manhã e fomos deixar o carro junto à igreja de Seixo do Côa. Na aldeia deserta, procurámos informações sobre o caminho a seguir. Um jovem que nos disse conhecer a zona, afinal, nada sabia dos caminhos do rio nem da Ponte de Sequeiros. Com a incredulidade não disfarçada de quem acha que as pessoas da cidade foram feitas para andar de carro e não a pé, uma senhora de meia idade indica-nos o caminho a seguir.

Descemos pela estrada até à ponte que separa as aldeia de Seixo do Côa e de Vale Longo e, antes de chegar à ponte, viramos à esquerda por uma estrada de terra ao longo da margem do rio. Nesta zona, o Côa ainda não corre apertado entre margens pedregosas e escarpadas como acontece no concelho de Almeida.  Entre freixos, choupos e prados verdes,vai  muito caudaloso em resultado das chuvas dos últimos dias. Alguns  trechos são dignos de postais ilustrados. Umas vezes espraiando-se em açudes espelhados, ouras rumorejando em velozes rápidos. Mais adiante, um pontão que ainda permite atravessá-lo mas já não é utilizado, assinala antigos caminhos usados pelos vizinhos destas terras..

Estamos em plena época da floração.A exuberância da primavera  revela-se em toda a sua força: rosmaninhos, dedaleiras, juncos, urzes  e margaridas espalham uma suave fragrância; giestas brancas, xaras, tojos e espinheiros exibem a  sua farta floração; os ramos das moitas de carvalhos começam a rodear-se do suave verde da folhagem; marmeleiros ostentam delicadas flores de um rosa pálido. Em tempos não muito recuados, nas veigas destas margens tudo se cultivava. Restos ferrugentos de noras atestam que aqui se irrigavam culturas, imagino batatas melões, melancias e hortícolas de todo o tipo. Hoje os campos das margens estão incultos e abandonados. Não se vêm sinais de labor na terra.  Apenas umas vacas, surpreendidas pela rara presença humana, interrompem o pasto e olham-nos com curiosidade.

Nessa manhã o tempo deu-nos tréguas, a chuva não apareceu, a temperatura fria da manhã amenizou, a luz filtrada pela calote de nuvens suavizava a claridade do sol e permitia fotografar a natureza. Após uma escassa hora de caminhada surge ao longe a ponte de Sequeiros.  É uma bela obra com três arcos redondos e sua torre portageira de que em Portugal só existe em Ucanha, no concelho de Tarouca, outro exemplar. Parece não haver consenso sobre a história desta ponte, se é romana ou se é medieval, mas sabe-se que na época anterior ao tratado de Alcanizes ficava na raia que separava Portugal de Leão e Castela

O regresso foi feito pela margem direita, em direcção a Vale Longo. Na nossa cabeça começamos a imaginar os alunos das escolas de Almeida, do Sabugal e de Vila Nova de Foz Côa a explorar os 200 Kms do percurso do rio. O plano é simples: grupos de 5 a 10 alunos ficam responsáveis por pequenos troços (5 a 10 kms). Cada grupo tem de caminhar ao longo do rio, estudar a geologia e a geomorfologia. explorar a fauna e a flora, desenhar, fotografar a paisagem, identificar e listar o património edificado.  Conhecer os habitantes e os seus costumes, ouvir as suas histórias. Integrar toda a informação na narrativa etnográfica e histórica da região. O resultado final será o grande Livro do Vale do Côa.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Educação: Reformar ou Revolucionar?

A palestra que no passado dia 26 de abril,  no âmbito do ciclo "Que Portugal queremos ser, que Portugal vamos ter?", o Engenheiro Eduardo Marçal Grilo foi proferir ao Grémio Literário, consistiu na apresentação de uma análise SWOT sobre nosso país.  É uma forma muito utilizada pelos gestores para equacionar ou abordar um problema . Trata-se, aliás, de  construir uma matriz com quatro quadrantes correspondentes às quatro letras do acrónimo SWOT;  S (strenghts) refere-se aos pontos fortes ; W  (weaknesses) diz respeito aos pontos fracos; O (opportunities) são as oportunidades ; e, finalmente, o T (threats) refere-se às ameaças . Perante uma análise deste tipo, as decisões orientam-se no sentido de eliminar ou reduzir os pontos fracos, aproveitando os pontos fortes para explorar as oportunidades, e poder assim eliminar ou reduzir o risco das ameaças. A sessão prometia!

Como pontos fracos, Marçal Grilo enuncia o problema demográfico -  um país de velhos!, na caricatura que eu faço da análise, -, as debilidades da economia e do sistema financeiro - um país pobre e perdulário! -, o baixo nível médio da instrução e o desinteresse pelo conhecimento - um país de incultos e analfabetos! -, o fraco peso e a desprestigiada imagem das instituições - um país de amadores! -, o maior pendor da gente para concentrar-se nos problemas e não nas soluções - um país de preguiçosos! -, a tendência para o negativismo e para a auto-flagelação - um pais de derrotistas !- as debilidades do sistema eleitoral, a ineficácia da justiça, o afastamento entre eleitos e eleitores, a falta de dialogo ao centro - enfim, um país que não se sabe governar, nem se deixa governar !. Termina considerando que os portugueses sofrem do mal da inveja e se centram mais nos direitos do que nos deveres, ou seja, que somos um país de mal-agradecidos!

Quanto aos pontos fortes, o palestrante enumerou os 800 anos de Portugal, a estabilidade política das últimas décadas, a localização única entre o Mar e a Europa - o velho dilema português, nunca resolvido! - e a centralidade atlântica onde convergem as rotas das Américas e África. Aludiu ainda  aos casos de sucesso - virtudes das elites e motivo do nosso orgulho! - de algumas empresas de excelência, tão boas como as melhores,  de alguns quadros muito qualificados e com boa capacidade de adaptação, sem deixar de mencionar algumas  universidades, classificadas entre as melhores do mundo. Só faltou falar de alguns dos nossos futebolistas e treinadores de futebol. E, claro, não se esqueceu de referir a amenidade do clima.  Sobre esta vantagem - evocando eu uma velha teoria que diz que o bom clima adormece o engenho - dei comigo a pensar se este será um ponto forte ou,  pelo contrário, se deveria ser incluído nos pontos fracos.

As ameaças são referidas a seguir: o distanciamento dos eleitores - a indiferença pela coisa pública -, a possibilidade de ocorrer instabilidade política, a corrupção, uma eventual deriva esquerdista, o terrorismo, o falhanço das politicas económicas centradas no consumo, o declínio económico  de países nossos parceiros comerciais (por exemplo, Angola), a possível ocorrência de problemas económicos na Europa e o eventual falhanço da moeda única.

Finalmente, temos as oportunidades. A maior de todas centrada no Mar, especificamente nas riquezas da plataforma continental, algo que mais tarde explicaria quando questionado por um presente. E referiu também o turismo, as universidades projetando-se internacionalmente e atraindo estudantes de todo o mundo, e o crescimento do produto baseado nas exportações, explicando que  "o crescimento ou se faz com base nas exportações ou não se faz". Marçal Grilo vê ainda oportunidades na diáspora, nos países da CPLP e na China - o eldorado da modernidade.

Vistas as coisas de uma forma sintética - e lembrando a palestra de Manuel Sobrinho Simões - o nosso fraco são os genes e o nosso forte as circunstâncias. As ameaças ou vêm de fora ou são a incapacidade de sairmos do  fado da nossa pobreza ou da nossa incompetência. As oportunidades estão no Mar ou no mundo - nas exportações e no Turismo. Muito em particular na China.  Tudo baseado numa grande fé, a lembrar vagamente o sonho do Quinto Império.

Na parte de perguntas, arrisquei interpelar o orador sobre a educação como oportunidade, e utilizei o termo Revolução Educacional. A expressão não pareceu agradar ao palestrante que advogou as reformas como forma de melhorar o sistema educativo. Talvez eu não tenha sabido explicar o alcance da minha pergunta: julgo, porém, que a forma de contrariar os pontos fracos - os genes, a acomodação, a preguiça, a inveja, o derrotismo - é formar os nossos jovens. Não pela memorização dos currículos; mas por estimular a chama da criatividade, por criar entusiasmo na investigação pluridisciplinar da descoberta, por sedimentar os valores perenes da Verdade, da Justiça, da Liberdade e da Solidariedade. E para conseguir isto, eu antevejo a necessidade de uma Revolução na Educação.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Notícias

As notícias, que já têm direito a um museu em Sintra, são um fenómeno dos tempos modernos. Foi em 1832 que o escritor, tradutor e jornalista Charles-Louis Havas fundou, em Paris, a primeira agência de notícias (a qual, mais tarde, se transformaria na France Press). Anos depois, dois ex-colaboradores da Havas levaram o conceito a Londres (Paul Reuter) e a Berlim (Bernhard Wolff). A comunicação social, tal como hoje a entendemos, começava a sua extraordinária aventura.

No século XVI, em Veneza, já tinha surgido uma folha mensal: a Gazzeta. Mas a produção e difusão em massa de notícias nasce e acompanha as grandes mudanças trazidas pela revolução industrial. O século XIX é o século de ouro do jornalismo que vê nascer muitas novas profissões: o editor, o jornalista, o repórter, o correspondente, o redator, o revisor, o colunista... Os jornais proliferam por toda a Europa e nos Estados Unidos. Em 1821 surge em Inglaterra The Guardian, e em Nova York são editados primeiro o New York Sun em 1833 e, mais tarde, o New York Times em 1851. Joseph Pulitzer e William Hearst investem na nova indústria e são os protótipos dos magnates da imprensa. São criadas agências de notícias um pouco por toda a parte. Em 1846, na América, são os próprios jornais que se associam para criar a Associated Press.

O homem culto do século XIX é um ávido leitor de jornais. O prezado assinante não dispensa a leitura diária da folha que lhe traz as notícias da sua cidade, do seu país e do mundo. Em Portugal, ninguém melhor do que Eça de Queirós representa esse homem e essa época: ele foi o diretor e jornalista irreverente do Distrito de Évora, foi, juntamente com Ramalho Ortigão, o crítico mordaz das Farpas, foi o repórter atento que noticiou a inauguração do canal de Suez, foi diretor e editor de revistas, foi folhetinista. E foi ainda como correspondente de jornais portugueses e brasileiros que, a partir de Newcastle e de Paris, escreveu crónicas admiráveis, as quais foram reunidas, postumamente, nas Cartas de Inglaterra, nas Notas Contemporâneas ou nos Ecos de Paris.

O jornalismo e a globalização evoluem de braço dado, e, por vezes, confundem-se. A comunicação social é um espelho onde a sociedade se revê. E esse espelho, pelo efeito da reflexividade (tal como a definiu Karl Popper), condiciona o comportamento coletivo, desencadeia paixões, estimula polémicas, incendeia ideais, fomenta revoluções. Com a rádio e a televisão, impulsionados pelo consumismo e pela publicidade, instala-se e floresce o império dos media. As classes influentes na economia, na política, no desporto e no espetáculo passam a existir na comunicação social e para a comunicação social.

Através das notícias vemos e percebemos a sociedade; elas são os nossos olhos e, no complexo mundo globalizado, temos necessidade de notícias para ter referenciais. Sem notícias perdemos o sentido de orientação social. Mas, da mesma forma que os nossos sentidos apenas nos permitem apreender a imagem da realidade exterior, também as noticias não são a realidade social, mas apenas uma representação desta. E tal como os sentidos distorcem a realidade exterior também as notícias, com frequência, deformam e adulteram a realidade social.

Diz-se que Havas e Reuter usavam pombos correios para receber as noticias do estrangeiro que difundiam em França, na Inglaterra e na Alemanha. Mas o telégrafo e, sobretudo, as ondas hertzianas, que levaram a voz e a imagem a todo o planeta, pareciam ser o impulso tecnológico definitivo e insuperável. Mas eis que na última década do século XX advém um novo sobressalto: a Internet. Esta nova forma de comunicar está a interferir no mundo globalizado com a cumplicidade entre a economia e a indústria da comunicação social. A produção da notícia democratizou-se, o comentário pode ser feito pelo cidadão comum, a informação extravasou dos canais tradicionais. Por sua vez, as redes sociais interferem perigosamente com a ordem global.

São as agências noticiosas e os donos dos media que organizam o mundo. Entretanto, criou-se uma preocupante cumplicidade entre a globalização (entenda-se a economia global) e a comunicação social. Elas alimentam-se uma da outra. A comunicação social pode ser incómoda mas é necessária à economia, pois dá-lhe um sentido e alimenta as expectativas que a movimentam. Ela constituiu-se como um novo poder. A sua enorme força e influência, em regimes políticos desestruturados, leva à censura. Nas democracias suportadas pela economia liberal é o poder económico através da dependência laboral, dos lobbies e das agências de relações públicas que, muitas vezes, dita a conveniência ou inconveniência das notícias. Isso coloca os profissionais dos media, mormente os jornalistas, perante um dilema. Serão eles capazes de manter a independência e de o superar? A divulgação das notícias relativas aos offshores do Panamá levam-nos a crer que sim.


segunda-feira, 18 de abril de 2016

ASTA, o Reino Improvável


Imaginem uma aldeia perdida nas terras ingratas e agrestes de Riba-Côa, abrasadas no verão pelo sol das calmarias e endurecidas no inverno pelo frio das geadas. São terras de pastagens magras para cabras e ovelhas, onde cresce a esteva e a giesta  e onde afloram as formas bizarras dos barrocos de granito. Nelas, noutros tempos, cultivava- se centeio nas tapadas de sequeiro  e batatas nas leiras junto às ribeiras, ou nos hortos regados pela água tirada dos poços com recurso às noras ou aos desajeitados picanços ou cegonhas.

Imaginem essa aldeia quase deserta, esvaziada por sucessivas sangrias das suas gentes. Primeiro, no final do século XIX, quando o comboio as levou para a África e para o Brasil. Depois, na segunda metade do século XX, quando saltaram fronteiras atraídas pela prosperidade da Europa em reconstrução. Os mais velhos que ficaram, e ainda guardam as memórias das duras labutas com a terra madrasta, são frugais, rudes e, às vezes, desconfiados. Escondem-se em casas fechadas e defendem a terra herdada - que já velhos deixaram de cultivar - atrás de muros de pedra, que as não protegem de ninguém nem de coisa nenhuma.

Conta uma lenda - todas as histórias belas acabam em lendas! - que, certo dia, um insólito grupo, vindo não se sabe de onde, resolveu preencher o vazio criado nestas terras e voltar a dar-lhes vida. Chegaram  comandados por uma mulher que, à semelhança de Joana d'Arc, vinha montada num cavalo branco e ostentava uma armadura resplandecente. Não usava lança, não trazia arco, nem flechas. A sua arma era a vontade indómita de voltar a fazer renascer a vida. As suas munições eram o amor pelos mais fracos e a crença de que todos somos diferentes e, afinal, todos somos iguais. Os soldados que a acompanhavam não desfilavam em pose marcial, mais pareciam um bando de pardalitos caídos dos ninhos, um de asa derreada, outro coxeando, outro com o pio rouco e desafinado. Mas entoavam cânticos de esperança e enchiam o ar com a alegria dos seus chilreios. Foi este exército improvável que, pacificamente, com a sua felicidade conquistou e ocupou a aldeia.

E o milagre aconteceu. As casas voltaram a ter gente. Nos campos abandonados cresceram de novo batatas, cebolas, feijão... As ferramentas das velhas oficinas de carpintaria voltaram a afagar a madeira. Voltou a ouvir-se o som ritmado dos teares. O barro ganhou expressão e novas formas. A lã voltou a ser fio e a ser tecida. A criatividade produziu arte e beleza. Até os velhos resistentes da aldeia, contagiados pela luz que tudo envolvia, começaram a derrubar os muros e a abrir de novo as portas das suas casas.

A heroína desta lenda imaginada é Maria José Dinis. A Cabreira do Côa a aldeia que revitalizou. A ASTA o reino que inventou. Os companheiros são os príncipes desse reino que dão sentido à lenda.