quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Dilema Inquietante

Começado a explorar de forma continuada na segunda metade do século XIX, o petróleo rapidamente se impôs como uma matéria prima essencial à humanidade, tendo sido a grande impulsionadora da economia mundial nos últimos 100 anos. Pela sua conveniência - alto valor calórico, abundante, fácil de armazenar e de transportar -, não tem substituto como fonte de energia, nem se prevê que possa vir a ter nas próximas décadas. Foi há cerca de dez anos que comecei a interessar-me pelos assuntos relacionados com o petróleo, e muito do que escrevi no "Mundo em Transição", publicado em 2013, prende-se com alguns deles : a situação dos grandes países produtores e exportadores; as reservas existentes, a viabilidade da sua exploração; o estado de esgotamento das grandes jazidas; as prospeções em novas bacias de águas profundas, no litoral do Brasil, nas zonas Árticas e no Alaska; as novas formas de produzir derivados do petróleo a partir do carvão e do gás natural; a produção a partir das "tar sands" da província de Alberta no Canadá e a partir de  "bitumen" na  região de Orinoco, na Venezuela. Procurei conhecer e acompanhei a recente e inovadora tecnologia do fracking que permite extrair petróleo de camadas xistosas profundas, e trouxe um novo otimismo aos americanos - que voltaram a acreditar ter alcançado a sua independência energética, uma espécie de "Santo Graal", cuja busca é, sem sucesso,  perseguida pelas sucessivas administrações, desde o primeiro choque petrolífero, ocorrido no início dos anos 70 do século passado.

Durante os últimos dez anos, conheci e contactei com especialistas, participei em conferências, segui os blogs de referência, e com geólogos, engenheiros de reservatórios, economistas e outros especialistas aprendi muito sobre o sector petrolífero. Acompanhei os acesos debates acerca da iminência do chamado "pico do petróleo", expressão utilizada para significar o momento em que a produção mundial de crude começará a diminuir. Fiz-me membro da ASPO (Assotiation for the Study of Peak Oil and Gas), uma associação que estuda este assunto a nível internacional. Enfim, interessei-me pela geoestratégia do petróleo, principal causa dos conflitos do último século, e tentei perceber as motivações subjacentes à construção das teias onde se enredam diferentes interesses no Médio Oriente.

Uma das minhas mais importantes "descobertas" foi a de que  o petróleo foi o grande responsável pelos crescimentos económico e demográfico dos últimos 150 anos. Dele dependem a mobilidade, a indústria dos plásticos, a  produção de alimentos, a construção das grandes infraestruturas. Muitas das outras formas de energia (por exemplo a hídrica e a nuclear), a exploração de carvão, as novas energia renováveis (a eólica e a solar) dependem, elas próprias, do petróleo.  O consumo mundial de petróleo e o crescimento do PIB global estão perfeitamente correlacionados. A economia não consegue manter-se sem crescimento, e os instrumentos financeiros que a suportam - nomeadamente o crédito - estão intimamente associados e dependentes desse crescimento. Esta relação permitiu-me entender melhor as causas da crise de 2008 - que não foi mais do que o início de uma crise de crescimento - e confirmar o acerto das previsões do livro "The Limits to Growth" publicado em 1972, que é a minha referência pelo rigor dos seus pressupostos e pelo alcance das suas conclusões.

Não ignoro o contributo da revolução digital para termos chegado onde chegámos. Desde o início da Revolução Industrial que o consumo de  energia e o desenvolvimento tecnológico evoluíram lado a lado.  Por vezes, hesitamos na valorização relativa destes dois "inputs" - qual é o mais importante? - para o progresso económico, social e civilizacional.  A tecnologia, é certo, só tem um sentido, o do aperfeiçoamento; por outro lado, a energia fóssil é limitada e um dia irá escassear. Os dois fatores estão intimamente interligados e não se podem dissociar. A tecnologia, sobretudo a digital, está a provocar uma verdadeira mutação na  nossa espécie que só encontra paralelo na aquisição da fala e na invenção da escrita. Mas existe o reverso do salto em frente que representa a digitalização do nosso modo de viver: devido ao acréscimo de complexidade ficamos mais especializados mas, ao mesmo tempo, muito mais dependentes de ferramentas falíveis. Energia e tecnologia não são, por isso, inputs comparáveis. Para o organismo social que a é a humanidade, a tecnologia representa os neurónios que o dirigem. A indispensaável energia é o sangue que o alimenta.  E a falha de qualquer deles representará o colapso.

A inesperada queda dos preços do crude em 2014 fez instalar de novo nas pessoas a ideia de que não havia que temer a escassez de petróleo. Muitos atribuíram essa queda de preços ao sucesso do fracking americano e à abundância da matéria prima. Mas começam, entretanto, a surgir sinais de que a situação pode não ser exatamente assim. De facto, a produção de petróleo convencional já atingiu o seu máximo de 75 milhões de barris diários em 2005. Todo o aumento de produção ocorrida desde essa altura está a ser feito à custa do chamado petróleo não convencional - águas profundas, areias betuminosas, de rochas de xisto, a partir de carvão e gás... -, que tem menor qualidade e é mais caro de produzir. E terá de continuar a ser assim , no futuro, dado o progressivo esgotamento das reservas de petróleo convencional.  O preço do barril para conseguir o breakeven  (sem lucro nem prejuízo) das explorações de petróleo não convencional situa-se bem acima dos 80 dolares por barril, valor este, por sua vez, muito superior ao preço atual do mercado (50/60 dólares) . As empresas petrolíferas são obrigadas a redobrados investimentos em equipamentos - o capex, ou capital expenditure - apenas para conseguir manter os níveis de produção. Segundo um estudo da Blomberg visando um conjunto de empresas petrolíferas, entre 2000 e 2012, só para manter constante  nível de produção o capex aumentou cinco vezes. Como resultado disto - e também para continuar a distribuir dividendos -  as maiores empresas petrolíferas (como são os casos da Shell, da Exxon ou da Chevron)  estão a endividar-se a valores sem precedentes. Steven Kopits, da consultora Douglas-Westwood,  diz que face à falta de produtividade do capital investido, só com o preço da barril acima dos 100 dólares as empresas poderão libertar cash para continuar a investir e continuar a distribuir dividendos. E esta argumentação é válida também  para os países produtores, os quais já não conseguem financiar os seus orçamentos com as receitas do petróleo ao preço atual e ameaçam entrar na bancarrota. A própria Arábia Saudita -o maior exportador mundial - necessitará de vender petróleo a 100 dólares o barril para equilibrar o seu orçamento.

Esta aparente contradição tem uma explicação. A industria petrolífera é ela própria um grande consumidor de petróleo. A tal ponto, que nos já referidos processos de exploração não convencional, se necessita, grosso modo, de um barril de petróleo para produzir dois. Ou seja, a quantidade liquida de petróleo que chega à economia é metade da quantidade produzida. E a economia, precisando de petróleo para crescer,  não suporta pagar preços acima dos que estão a ser praticados atualmente. Na ordem dos 50/60 dólares por barril. Ou seja, aumentar o preço arruinaria a economia e por consequência agravaria ainda mais a debilidade das empresas do sector petrolífero. A única forma de manter a situação - isto é gerar o crescimento sem o qual a economia colapsa -  tem sido a injeção massiva de crédito, ou seja pondo os bancos centrais a imprimir moeda e criando dívida de uma forma nunca antes vista.  A tal ponto que na União Europeia - refiro como exemplo -, por cada 18 euros injetados pela via do crédito na economia  apenas se consegue um euro no crescimento da economia real. Mas a opção de aumentar o crédito não resolve o problema. Ela tem apenas o efeito de atrasar o desenlace de um eminente colapso económico e financeiro. Atraso este que pode apenas servir para que ele seja mais severo e mais destruidor quando vier a ocorrer.

Está o mundo perante um dilema: petróleo caro que inviabiliza o crescimento da economia ou petróleo barato que arruína a indústria petrolífera. As incertezas e a desorientação a que assistimos não acontecem por acaso..

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Visitar o passado para encontrar o futuro

Para falar no ciclo de palestras “ Que Portugal na Europa, que futuro para a União?” esteve, no passado dia 27 de janeiro,  no Grémio Literário o eurodeputado Paulo Rangel.  Foi uma sessão inspiradora, na qual o ilustre palestrante exibiu um grande conhecimento das questões europeias  e uma vasta cultura na área da História e da Ciência Política. Começou por dizer que se assiste a uma grande incerteza na Europa e no Mundo, o  que não o espanta pois essa tem sido a norma ao longo da atribulada história do Velho Continente. História que, na sua opinião, retoma o seu curso normal depois de ter ficado congelada durante o longo período da guerra fria.

Centrando, a seguir, a sua dissertação no conceito de Estado, confronta-nos com uma interrogação:  o que é o Estado? -  para logo nos dizer que é uma  abstração política, na sua opinião a coisa mais parecida com Deus, pois não se vê, é omnipresente e tudo comanda.  E, afinal, o Estado moderno é uma construção recente da Europa, que ocorreu no século XVII, após o tratado de Vestfália que encerrou a guerra dos 30 anos.  Lembra que existência de um Estado pressupõe três condições: um povo, um território e uma soberania. Para o exercício da soberania é, pois, essencial a dimensão territorial do Estado. E é sobre este aspecto que o eurodeputado está a ver ocorrerem alterações, considerando que no mundo de hoje, caracterizado pela facilidade de comunicações, pela economia digital  e pela mobilidade, o Estado tornou-se  permeável e está a desterritorializar-se. Considera que  as pessoas contam mais do que o território e que esta é uma tendência irreversível, pois não se pode "parar o vento com as mãos".

Estas ideias inspiradoras suscitaram a  a minha reflexão e, ajudado por algumas notas soltas, atrevo-me a interpretar o pensamento do conferencista. Pensando num qualquer Estado da União Europeia, damos-nos conta que o poder corporativo das instâncias de Bruxelas vem de cima - das leis, dos consensos, dos princípios -,  mas o poder democrático do Estado vem de baixo, do povo. Ora existe aqui um choque de poderes entre a democracia do Estado e a "politeia" - uso a expressão para definir o conceito de um poder que não está ligado a uma democracia representativa de base territorial - da União. Esta é uma contradição que é inerente à mal resolvida dialética da soberania no processo da construção europeia e que necessita urgentemente de ser superada. O referendum para o brexit é um bom exemplo dessa contradição pois vem colocar uma questão delicada: considerando que a saída ou a  permanência do Reino Unido na União não é um assunto exclusivamente inglês - na medida em que afeta os cidadãos de todos os outros países europeus -, podem os ingleses, sozinhos, tomar uma decisão que não lhes diz respeito só a eles? Qual deveria ser - ou deveria ter sido - o papel das instâncias da União Europeia numa situação destas? Pode argumentar-se com a insuficiência ou a deficiência dos tratados que permitem tal coisa, e, nesse caso, haverá que admitir que estão mal feitos e deverão ser corrigidos.

"É importante investigar o passado, pois isso pode conduzir-nos a descobrir o futuro", foi outra interessante ideia expressa no Grémio. Pois, certamente, encontraremos no tempo passado - anterior ao Estado - formas de governo que podem inspirar-nos para encontrar soluções de governação para o futuro. Evoco, por exemplo,  as Ligas que agregavam as cidades-estado da Grécia Antiga. E penso na importância em trazer para a UE, a experiência agregadora da Inglaterra, acumulada ao longo de séculos - que, ao contrário da França,  nunca se autodenomina de "Estado" - mas que construiu e governou um vasto império, que  uniu quatro Estados e criou a Commonwealth.  Rangel assinalou, a este propósito, que a Inglaterra nunca saiu da Idade Média - e, digo eu, talvez nunca tenha entrado na União Europeia -, e aflorou a suspeita de haver por parte dos  ingleses  ciúmes do sucesso do modelo europeu, liderado pela Alemanha, próximo, na sua concepção e filosofia, das normas e a da constituição inglesas.

Mas a incerteza de que falou Paulo Rangel está muito vinculada às vicissitudes do curto prazo. A construção europeia foi feita à sombra da América, e assentou em três pilares:  o plano Marshall, a Nato e o liberalismo económico (em oposição ao marxismo). Até agora, a aposta da Europa na questão da defesa assentou exclusivamente  na Nato, e, no plano económico, na criação de um espaço atlântico alargado, cujo primeiro passo seria o - agora já improvável - TTIP. A relação com a Rússia pós soviética tem sido ambígua: influenciada, por um lado, pelos interesses americanos e pela memória traumática dos novos membros do Leste , mas influenciada, por outro lado, pela dependência energética do gás russo. Ora, para a Europa, a questão energética é crucial. A única alternativa de abastecimento está no Médio Oriente e concretizá-la passa por manter uma forte presença americana nessa região. A eleição de Trump veio baralhar tudo: é incerto o futuro da Nato, e mais incerta ainda é a manutenção da doutrina Carter que advoga ser o Médio Oriente uma zona de interesse estratégico dos Estados Unidos.

Os governos dos Estados europeus precisam de uma União Europeia forte pois  já não conseguem resolver os seus problemas no padrão territorial. Por sua vez, para se constituir como espaço de poder super-estatal, a União Europeia precisa de resolver dois problemas: a sua debilidade militar e a sua dependência energética. A solução do primeiro, mexe com os Estados Unidos (através da Nato); a do segundo, com a  Rússia. A Europa fica, assim, condenada a ter de negociar com Trump e com Putin. A forma de os resolver é o maior desafio que se apresenta aos líderes europeus. Ou, melhor dizendo, é um problema para os alemães, pois sem a Alemanha a Europa não existe. Começa, entretanto,  a generalizar-se a ideia de que na superação deste desafio reside a grande oportunidade da Europa.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Populismo, doença grave da democracia?

A sessão que no passado dia 16 de janeiro se realizou na Sociedade de Geografia de Lisboa foi sobre a ascensão dos populismos na Europa. Logo a introduzir o tema, disse o moderador que os populismos na Europa terminam mal, saem do esquema político habitual, confrontam as elites no poder. Que surgem liderados por personalidades fortes e carismáticas, que atacam a democracia, manipulam factos, exploram sentimentos e se assumem como anti europeus. Disse ainda que a Europa está a sofrer falta de confiança dos cidadãos. Citou, a propósito, Sampaio e a sua receita à Monsieur de La Palice: "para recuperar a confiança, é necessário reforçar a democracia, aprofundar a União Europeia". Foi dito que o fenómeno em Portugal ainda não assumiu dimensão significativa. A questão, endossada aos oradores, ficou a pairar na sala: Portugal é avesso ao populismo?

O primeiro dos palestrantes, Ricardo Pais Mamede - o segundo seria Viriato Soromenho-Marques -, jovem académico e economista, apresentado como versado nos temas da integração europeia, iniciou a sua intervenção para dizer que não gosta da palavra populismo e que, na sua opinião, o conceito nem sempre é bem formulado.  Considerou que nem todos os populismos são iguais - exemplificou com Tsipras, Trump e Nigel Farage - que produzirão, na sua ação, diferentes resultados. Vê ele no populismo o mérito de introduzir um discurso disruptivo que rompe com o que é razoável em política e vai para lá do que é o senso comum adquirido. Não gosta dos políticos racionais e, a propósito, fala do recente referendo realizado em Itália, criticando a atitude de Renzi que apelidou de chantagista por apelar à emotividade dos eleitores, tendo tido como desfecho, na opinião do orador, a resposta que merecia. Para justificar a emergência dos populismos invoca cinco factores: 1) o desencontro entre a cultura e as vivências de governantes e governados, 2) o esvaziamento dos tradicionais partidos de massas dos trabalhadores e da democracia cristã, 3) o neoliberalismo que criou a crise e a falta de propostas políticas para a superar, 4) os fluxos migratórios, e, finalmente, 5) o bloqueio do projecto de integração europeia, considerando que a  UE tem sido um motor de aceleração da lógica de globalização neoliberal e tem restringindo o espaço da democracia.

Conclui a intervenção dizendo que  a Europa se revelou incapaz de criar uma soberania alternativa à soberania dos Estados, pela razão de que não é possível replicar o modelo democrático numa escala supranacional. Sentencia que a União Europeia tem de  respeitar os espaços da democracia mas não deve deitar fora os espaços de cooperação entre os seus membros. Fiquei com a impressão de que Pais Mamede vê num certo populismo uma boa alternativa à democracia de base partidária.

Viriato Soromenho-Marques - que falou a seguir - começou por abordar o fenómenos do populismo no plano das Ciências Político-Sociais questionando a escassez e a falta de fiabilidade dos instrumentos para o estudar, e alertando para o risco de fazer analogias históricas. Não podendo tirar conclusões estatísticas, a análise do fenómeno terá de recorrer à heurística e à hermenêutica, ou seja, procurar interpretar  dados fragmentários e fazer generalizações a partir deles. Adianta que o populismo não é um modelo estável, mas sim a degradação de um outro modelo, neste caso a decomposição de democracias representativas. Quando a democracia falha, aparecem os sinais do populismo: lideres fortes, demagógicos e com boa capacidade de comunicação; febre plebescitária, referindo aqui analogias com o que se passou no Terceiro Reich ( plebescito do Sarre, plebescito para decidir a permanência da Alemanha na Sociedade das Nações,  plebescito sobre a união com a Áustria - o anschluss); abafamento do papel dos tribunais. Refere que até partidos históricos são contagiados por alguns destes sinais plebescitários, citando como exemplos a convocação de referendos de cariz populista  por Cameron, no Reino Unido, e por Renzi, em Itália. Para Viriato Soromenho-Marques, um modelo para o populismo integrará as seguintes dimensões: 1) forte emigração; 2)  fortes desigualdades, em dinâmica de agravamento; 3) corrupção real e percebida; 4) a crise económica e financeira; 5) demagogia política

Como chegámos aqui? - pergunta o orador. Perante a inoperância dos políticos o voto populista é o protesto para ver se acontece alguma coisa, é visto como tendo uma grande capacidade de iniciativa, embora não perspective o futuro. Em síntese, o populismo surge porque a política deixou de ser a arte do possível. As considerações finais do palestrante são atravessadas de um forte pessimismo: fala do modelo de agonia português a considera que a união monetária é um muro invisível que nos aprisiona. E remata: não há saída para o Euro a não ser a implosão da União Europeia.

Escrevo este texto no dia em que Donald Trump toma posse como Presidente dos Estados Unidos. A sua eleição configura a expressão da vitória do populismo na nação mais influente do Mundo. O que é que falhou na América? Estaremos perante mais um caso de decomposição da democracia como teoriza Soromenho-Marques? Será este um processo irreversível?

Eu vejo nas causas enunciadas do populismo - a crise económica e financeira, os refugiados, as desigualdades -  uma consequência evidente do dilema que após 2008 se apresentou aos governantes: a imperiosa necessidade da economia crescer a todo o custo confrontada com as crescentes dificuldades em o conseguir. Como receita de estimular o crescimento, assistimos nos anos recentes, protagonizada  pelos Estados Unidos, a uma tentativa de reforçar ainda mais a globalização . São exemplos disso o aprofundamento os acordos de comércio livre concretizados em parcerias como o TTP  na zona da Ásia- Pacífico e o TTIP no Atlântico Norte. Mas a globalização tem efeitos perniciosos: reforço do poder das multinacionais, agravamento das desigualdades entre pessoas e entre Estados, aceleração das emissões poluentes, mais rápido esgotamento dos recursos, surgimento de conflitos regionais. E a garantia do almejado crescimento não parece assegurada.

Perante a inoperância ou ausência de soluções, o medo instala-se nas pessoas: de perder as poupanças, de perder o emprego, de perder a segurança, de perder a reforma, de perder as regalias do Estado Social. Também os políticos de carreira - que nada mais têm feito do que servir a economia do crescimento, a única que conhecem - incapazes de  encontrarem respostas dentro do sistema, começam a temer perder as regalias e acoitam-se nas suas conveniências e nos seus interesses pessoais e partidários, refugiam-se na demagogia, agarram-se ao poder a todo o custo. Quando impera o medo e se fecham as saídas surgem os profetas. Chega o tempo do populismo que, como disse Viriato Soromenho-Marques, é uma rutura com a democracia, não é uma alternativa a esta.

O prognóstico não é otimista. A democracia representativa está doente. E o populismo parece não ser a cura mas a expressão da própria doença.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O Ano das Incertezas

Neste início de 2017, o futuro do mundo não se mostra risonho, antes pelo contrário, apresenta-se cada vez mais incerto e perigoso. Ora, o tempo das incertezas é sempre favorável ao aparecimento de surpresas, para as quais, e por boa prudência, nos devemos ir preparando. Segundo uma previsão do Conselho Nacional de Informações (National Intelligence Council - NIC) dos Estados Unidos, anunciada neste mês de janeiro, "desde a Segunda Guerra Mundial que não existia tanto risco de conflitos internacionais e os próximos cinco anos serão marcados por um aumento ainda maior das tensões internacionais. Para o bem ou para o mal, o cenário global que agora emerge encerra a era do domínio norte-americano que se seguiu à Guerra Fria". Saber o que se seguirá, é a grande questão.

1 A incerteza da América
Na poderosa América é visível a perturbação e a desorientação dos loosers, surpreendidos por uma imprevisível e inesperada derrota nas eleições presidenciais. Entretanto, o mundo espera ansiosamente as primeiras decisões do consulado Trump: que tipo de relações estabelecerá com a Rússia; que movimentos se seguirão no Médio Oriente, nomeadamente na Síria; se irá ser construído o prometido muro na fronteira do México; se serão renegociados os acordos comerciais com o Canadá e com o México no âmbito da NAFTA; qual será o futuro do TTIP, a tão falada parceria comercial entre a Europa e os Estados Unidos; se irá ser revertido o obamacare ; que tipo de protecionismo será implementado em relação à China; se será adotada uma nova doutrina energética que sucederá à doutrina Carter de 1980 que, após a intervenção soviética no Afeganistão, considerou o Médio Oriente como território integrado na esfera do interesse estratégico americano. Estamos perante o encerrar de um ciclo, depois do qual sairá uma nova América, e até, talvez, uma nova ordem mundial. Que pode ser muito diferente da atual!

2. O dilema da Europa
A Europa pós Brexit vive a angústia do dilema da construção ou da desconstrução e procura uma saída. Existe uma crise de valores e uma ausência de estratégia e de identidade corporativa que só serve para dificultar as soluções. O Estado Social, o conforto, a sociedade de serviços, veio amolecer a fibra da gente que um dia indicou ao mundo o caminho da civilização. As pessoas começaram a produzir menos, a consumir mais e a viver mais tempo, não à custa do exercício físico, mas devido aos sucessos da ciência médica. Com as necessidades satisfeitas, diminuiu a criatividade e embotou-se o engenho. A natalidade diminuiu, as crianças escasseiam. Crianças que foram elevadas à condição de bem primeiro, mas são educadas sem valores, desarmadas das suas defesas naturais, preparadas para usufruir e não para conquistar, educadas para o prazer e não para o esforço, adormecidas pela televisão e pelos jogos de computador, saciadas de gorduras e de guloseimas que entorpecem o corpo e a mente. Nas fronteiras do leste e do sul da Europa, os refugiados - necessários para revitalizar a população envelhecida, mas nem sempre desejados! - ameaçam romper o equilíbrio que a prosperidade criou.

3. O Médio Oriente, o lugar onde tudo se vai decidir
A reconquista de Aleppo na Síria pelo exército de Al Assad apoiado pela Rússia, pelo Irão e pelo Hezbolah, a que se seguiu o acordo de cessar fogo que envolveu a Turquia, marca um ponto de viragem no Médio Oriente. Ele representa uma derrota para os Estados Unidos que falharam o seu objetivo principal: apear Al Assad. Pela primeira vez em muitos anos perdem a liderança na solução de um conflito e vêm a Turquia, um membro da Nato, aliar-se à Rússia; derrota também para a Europa que não soube manter a neutralidade e se colocou do lado errado; finalmente, derrota também para a Arábia Saudita que se empenhou a fundo na derrocada do regime sírio e arrisca perder a sua primazia na região que lhe advém do facto de ser um grande exportador de petróleo e, de facto, líder da OPEP. Com uma Síria pacificada e com a manutenção da presença russa, fica comprometida a possibilidade da construção do gasoduto que teria origem no Qatar e, passando pela Arábia Saudita, traria para as praias sírias do Mediterrâneo - e por conseguinte, para a Europa - o gás natural das grandes reservas do Golfo Pérsico. Impedir esta construção terá sido o principal motivo do envolvimento russo - que, doutro modo, veria ameaçada a sua posição de maior fornecedor de gás da Europa -, e também do envolvimento do Irão que disputa com o Qatar a corrida à exploração das jazidas de gás natural - as maiores do mundo - que os dois países partilham debaixo das águas do Golfo. A aliança da Turquia com a Rússia configura a posição pragmática de um país que viu fecharem-se-lhe as portas da UE e necessita de ter aliados fortes na região. Neste caso, a Rússia e o Irão. Por outro lado, julgo não ser exagerado concluir que estão criadas as condições para um agravamento do conflito Israelo-Palestiniano.

4. A China, e a geoestratégia
Os chineses andam muito calados. Mas não devem andar desatentos do que se passa no resto do mundo. Sem assumir uma posição declarada, alinham-se com a Rússia, com a Turquia e com o Irão para defender a sua soberania e enfrentar a hegemonia da América que se verificou após a queda do muro de Berlim. A estratégia chinesa é uma estratégia de envolvência  que passa por projetos alternativos ao americano TTP relativamente à Ásia-Pacifico. Um dos objetivos destas novas alianças é a desdolarização da economia internacional impondo o yuan como moeda de referência nas trocas entre países. Com estes novos alinhamentos, começa a esboçar-se um bloco asiático - o famoso heartland baseado na teoria geoestratégica que postula que virá o dia em que o poder mundial será sediado no coração da Ásia Central, circundado por um rimland , um arco de países que vão de Portugal à Coreia passando pela Índia - que se irá contrapor à centralidade norte-atlântica liderada pelos Estados Unidos e inspirada no ideais do ocidente.

5. Portugal: à procura de uma estratégia com muito por fazer
Como as trotinetes das crianças que não têm motor e só andam a descer, também o governo português apregoando direitos e calando deveres, de concessão em concessão, de reversão em reversão, ajudado pelo bom momento do turismo, pelo dinheiro fácil do BCE e pelo baixo preço do crude, segue a sua trajetória de descida veloz. Fala-se em crescimento, mas não existe estratégia para o conseguir. Nem planos para enfrentar a subida, prenunciada pelo agravamento dos juros da dívida e que parece cada vez mais próxima. Quem vier a seguir que apague o fogo, parece ser a palavra de ordem.

Um grupo de economistas da escola Felix Ribeiro fez publicar, nos dias 13 e 14 de dezembro passados, no Jornal de Negócios, um manifesto no qual se advoga para Portugal uma estratégia de desenvolvimento centrada nos seguintes pontos:  1) oferecer claras vantagens diferenciais; 2)orientar a economia para a exportação de bens, serviços, conteúdos e conceitos, diversificados e inovadores; 3) aumentar a produtividade nos setores exportadores que gire à volta das seguintes plataformas de negócio: acolhimento, lazer e saúde, serviços às empresas prestados à distância, conceção e fabrico de produtos inteligentes e de engenharia industrial, atividades globais que valorizem os nossos ativos geográficos distintivos.
No entanto, pasme-se com as medidas propostas apenas para criar as condições necessárias para a implementação da referida estratégia:
  • Superar no curto prazo custos de contexto da atividade empresarial  - burocracia, corrupção, lentidão no funcionamento do sistema de justiça;
  • Reorganizar o sistema financeiro...
  • Reformar  sistema fiscal
  • Avançar na consolidação orçamental,
  • Prosseguir, o apoio à investigação científica e tecnológica...
  • Adequar a formação profissional às mudanças tecnológicas em curso
  • Redesenhar um mapa de relacionamentos económicos internacionais,
  • Definir opções energéticas que sendo mais sustentáveis ambientalmente constituam um fator favorável à competitividade global da economia.
Se somarmos a  isto a imperiosa necessidade de pagar a dívida, estamos perante um programa que implica um consenso alargado, uma verdadeira revolução de mentalidades. Um programa nacional que só será possível executar se alicerçado em sólidas convicções, muito longe das conveniências dos políticos que são o pão nosso de cada dia.


terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Refletindo a Educação

Educar não é encher o balde, é atear o fogo.
William Butler Yeats

Nos últimos tempos, o tema da Educação tem ocupado muito do meu tempo de reflexão. São muitas as questões, maiores as dúvidas, inseguras as respostas. Deixo aqui, de forma incompleta e desorganizada, alguns tópicos das minhas reflexões. 
  • Qual deve ser a missão da Educação?
  • A quem compete defini-la?
  • Educar para o sucesso, para a competitividade?
  • A educação deve privilegiar a pessoa ou o cidadão?
  • O papel do professor, a importância da formação dos professores
  • A importância dos afetos, da empatia, dos relacionamentos sociais
  • O papel da família na educação.
  • Educação e Religião...
  • Educação e Moral...
  • Educação e Cultura...
  • Educação e Ciência...
  • A inteligência emocional. Pensar, sentir e agir.
  • Educar para a inclusão, para a aceitação das diferenças.
  • Educar para a sustentabilidade económica e ambiental.
  • O foco no aluno ou nos conteúdos.
  • Qual a maior virtude do ser humano? A Justiça? A Tolerância? A Generosidade?
  • Educação e Democracia...
  • ....
Para produzir ideias preciso ouvir quem sabe, preciso de inspiração, preciso de tempo...
Alguém quer ajudar? 

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

As Fraturas da Europa

António Vitorino foi o orador convidado pelo Clube Português de Imprensa para a terceira conferência, subordinada ao tema “ Que Portugal na Europa, que futuro para a União?”, e que o Clube promove em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário. António Vitorino é um conhecido jurista, ex-Deputado, ex-Comissário Europeu, que ali, neste jantar-debate, foi apresentado como um homem inteligente, e muitos veem como uma reserva da Nação, integrando quase sempre a lista de personalidades a considerar para poder ocupar os lugares de maior responsabilidade e destaque na estrutura do Estado.

O ilustre conferencista repetiu algumas das ideias já anteriormente expressas naquela sala, afirmando que a crise profunda que se vive na Europa é uma crise diferente das anteriores e que, para a superar, temos de pensar fora da caixa. E nesse sentido questionou-se sobre se, na construção da Europa, não teremos andado depressa de mais e se não teremos ido longe de mais. Ao concretizar esta dúvida, interrogou-se sobre se o euro terá sido mesmo necessário, e se a sua criação não terá sido um erro histórico. No que diz respeito a Portugal – um País fraco, periférico, endividado e sem competitividade – ele acha que a margem de manobra é estreita e pouco pode fazer sozinho, pelo que a saída do euro só avolumaria as dificuldades. Acrescentou que o próprio mercado interno está incompleto, havendo sectores que estão mal resolvidos, e refere, como exemplos: a energia, os serviços, o mercado de capitais e as fragilidades do sistema financeiro. Abriu um parêntesis para afirmar que a política  monetária do BCE (baseada na criação e injeção de moeda na economia, o quantitative easing) gerou uma falsa ilusão de estabilidade financeira. Todavia, deixou um alerta para a anunciada nova política económica americana, de cariz expansionista (infraestruturas e obras públicas), já que ela poderá gerar inflação e aumento das taxas de juro, cujos efeitos podem vir a fazer sentir-se de forma negativa na Europa e em Portugal. Referiu-se enfaticamente à revolução digital em curso, um processo de mudança acelerada que não reconhece fronteiras e causa de grandes mudanças em vários sectores, nomeadamente na medicina, nos quais pode vir a reduzir drasticamente o emprego. Na linha do que Carlos Moedas já tinha dito, numa conferência anterior ali no Grémio, acha que a Europa ainda não soube materializar em negócios toda a sua elevada capacidade de inovação e criatividade neste domínio.

Na minha opibnião, António Vitorino colocou o dedo na ferida quando se referiu à União Europeia como um espaço de conveniência e não de pertença afetiva, pois não a vemos como a nossa Pátria. O cimento da união são os resultados produzidos, e são os resultados, e apenas eles, que, em última análise, são pesados quando um país avalia o interesse e as vantagens de  pertencer à Europa. Durante muito tempo, havia a sensação de que a União era vantajosa para todos. Nos tempos de crise económica, financeira e social - pensemos nos refugiados - que atravessamos, tal já não acontece: há ganhadores e perdedores e isso está a fraturar a Europa entre uns e outros. Uma das causas do brexit terá sido exatamente a constatação que muitos ingleses fizeram de que estariam a ser prejudicados na União dando mais do que aquilo que recebiam em troca.

Alertou ainda para os perigos da desconstrução da Europa: os países europeus isolados vão perdendo influência no contexto das nações, e em 2035 nenhum país europeu estará individualmente representado no G7. Apontou três domínios prioritários a ter em atenção no futuro: 1) a consolidação do Euro 2) o crescimento económico, que passará pelo reforço da globalização e não pelas políticas protecionistas;  3) e a captacão para a democracia das camadas mais jovens. Estas, tanto no brexit como na eleição de Trump, assumiram com a sua intervenção no espaço publico as posições mais progressistas, ao mesmo tempo, que revelaram, pela sua elevada abstenção nas urnas, estar muito descrentes das propostas e dos políticos que as apresentam.

Nesta conferência, na linha das anteriores, predominou o pessimismo na análise. Todavia, parece-me haver aqui uma insuficiente leitura das causas desta crise, que é diferente das anteriores pela sua natureza, pela sua persistência, pela sua dimensão e pela sua complexidade. Esta não é uma das crises dos ciclos curtos da economia; esta tem de ser contextualizada no tempo longo da história. Factores como o envelhecimento populacional no Ocidente, a intensificação da pressão demográfica na fronteira sul, a descentralização da produção industrial para os países emergentes, o fim dos regimes coloniais e o advento da era digital são importantes. Mas, não menos importantes são os excessos do consumismo, a busca incessante de mais conforto proporcionado pela energia fóssil,  o exagero no uso de recursos escassos e as emissões poluentes. Em síntese, são os limites naturais ao crescimento a impor-se, e a exigir urgentemente que se comece a pensar numa nova economia. Está em causa sermos capazes de contrariar  a visão economicista de curto prazo, que se manifesta pelo egoísmo, pelos interesses populistas, tribalistas e elitistas. Isto remete-nos para uma questão delicada: estamos a assistir à evidência de que a democracia, tal como a conhecemos, favorece essa visão de curto prazo. E impõe-se uma última pergunta: será possível romper o ciclo vicioso?

A construção da Europa foi feita por idealistas que viram muito à frente do seu tempo. A memória da Guerra vai-se desvanecendo aos poucos. Ora, perante as dificuldades, a natureza humana parece ter uma irresistível atração pelo abismo. No entanto, a  Europa foi o berço da economia que hoje governa o mundo. Por isso, temos de estar à altura dos que tiveram a visão de construir a Europa e sermos líderes outra vez na procura de novos caminhos...


terça-feira, 22 de novembro de 2016

A Europa depois do Brexit

No passado dia 10 de Novembro, voltei à Sociedade de Geografia de Lisboa. Desta vez, foi para ouvir Carlos Gaspar e Nuno Rogeiro falarem sobre a Europa depois do brexit. A conferência estava inserida num ciclo denominado: A Europa numa encruzilhada. Foi com um discurso breve e conciso mas marcadamente pessimista que Carlos Gaspar - um especialista em relações internacionais - abriu o debate. Disse que a construção da Europa foi feita para ser uma ever closed union, significando com isto que no edifício europeu havia uma porta de entrada, mas não havia uma porta de saída. Tudo começou com o grupo dos seis do Tratado de Roma, que haveria de crescer primeiro para nove, depois para quinze e por aí fora até aos atuais 28. Ora, ainda havia países a bater à porta da União quando aconteceu aquilo que não estava na cabeça de ninguém: a saída de um membro. E logo um membro de peso: o Reino Unido. Para o palestrante, isto é uma reversão da ideia original e marca o início da desconstrução da Europa.

Carlos Gaspar considera esta saída paradoxal tendo em conta que, no rescaldo da II Guerra Mundial,  a Inglaterra foi um dos grandes impulsionadores da ideia de criar uma Europa Unida. Lembra, a propósito, o pensamento de  Churchill e associa-o à ideia da formação de um exército europeu e à criação da NATO pelo o tratado de Washington. Refere ainda que, mais recentemente, o Reino Unido dentro da Europa estava no centro do programa de governo de Tony Blair. Considera que a Nato e a Inglaterra são dois pilares onde assenta a construção europeia, razão pela qual não consegue imaginar a Europa sem o Reino Unido. Ela ficará desequilibrada pelo peso da Alemanha, país que, na sua opinião, não reúne nem as qualidades políticas nem diplomáticas para substituir a Inglaterra. E remata a sua intervenção concluindo: o brexit tem tudo para correr mal.

Nuno Rogeiro, um conhecido jornalista interessado pelos temas da politica internacional, falou a seguir. Num tom menos fatalista, começou por comparar o e brexit e a eleição de Trump. Encontra analogias nos dois acontecimentos, chamando-lhes processos dinâmicos, visto não estarmos perante situações definitivas. São, no seu ponto de vista, processos regulares, não irreversíveis. Um dia, tudo pode vir a mudar: o Reino Unido poderá voltar à casa comum dos europeus e  virá tempo em que Donald Trump deixará a Casa Branca e os democratas poderão voltar a ocupá-la. Tanto o resultado do referendo no Reino Unido como a eleição de Trump têm a ver com a percepção dos eleitores de que alguma coisa não está a ir bem. No caso do brexit refere-se à complexidade do processo considerando que existem, no Reino Unido, três tipos de partidários da saída da União Europeiaos envergonhados, os assumidos, e os independentistas radicais  do UKIP. Acrescenta que os ingleses invocaram três  razões para o brexit : 1) que o Reino Unido dá mais do que aquilo que recebe da Europa; 2) que existe um excesso da burocracia e do peso legislativo na UE e que 3) o problema dos refugiados veio criar uma grande insegurança das fronteiras. Para explicar a eleição de Trump fala da existência de bolsas de pobreza nos Estados Unidos e na subversão dos conceitos de direita e de esquerda. 

Generaliza-se a ideia de que existe um caminho de retrocesso na Europa. Alguns acreditam que depois de um passo atrás poderá haver dois para a frente. Que a Inglaterra pode voltar ao seio da União, e que Trump pode deixar a Casa Branca. Mas, acho eu, nada voltará a ser como dantes. Não se podem já apagar as marcas dos ventos da história que levaram os homens à Lua, que emanciparam os povos das antigas colónias europeias, que ergueram e derrubaram muros, que trouxeram o conforto às nossas casas, a mobilidade e o estado social. E que trouxeram uma nova forma planetária de comunicar. 

O regresso dos nacionalismos é contrária à corrente implacável das leis da evolução. O encerramento de fronteiras e o regresso do protecionismo económico  - este, curiosamente, defendido tanto pela esquerda como pela direita radical - vai ao arrepio da exigência do crescimento económico. Só pode levar à recessão e às consequências que ela acarreta nos planos financeiro, social e assistencial. Mas a globalização consumista, predadora de recursos e poluidora também não é solução. Estamos perante um dilema. E convém não esquecer que são os dilemas que estão na origem das guerras.

A virtude só pode estar no meio: nem protecionismo nem globalização selvagem. Ora, a virtude emana dos homens bons e sensatos. No ruído da confusão que está a percorrer o mundo e a extremar posições já ninguém parece querer ouvir a sua voz.