segunda-feira, 21 de Julho de 2014

O Caso BES

"Todo o mundo é composto de mudança, 
tomando sempre novas qualidades"
Luís de Camões


Aquilo que está a passar-se no Grupo Espírito Santo só pode ser entendido como uma consequência tardia da crise que, desde 2008, está a abalar a economia mundial. Naquele ano, por razões várias, começou a verificar-se uma desaceleração do crescimento económico que se repercutiu em primeiro lugar no sistema financeiro e no lugar onde ele, principalmente, está sediado: os Estados Unidos. Os ajustamentos subsequentes obrigaram a reduzir o crédito à economia e a eliminar os excedentes financeiros criados artificialmente, cuja existência, tal como na pirâmide de Ponzi, só é permitida pelo roulement do crescimento.

Um grupo como o GES tinha tudo para sofrer o impacto da crise, e, para mim, só é de espantar o tempo que isso demorou a acontecer. Em países como Portugal, sem recursos naturais, a economia funcionava movida pelos drivers da construção civil e do turismo. O GES estava no coração do processo. Tinha ligações ao governo, financiava as obras públicas que sustentavam o emprego e promoviam o crescimento. Quando se tornou claro que este não era o caminho a seguir - e isso não foi logo evidente para os governantes - os grupos de cariz financeiro entraram em sofrimento. A atração de espaços com forte liquidez, injetada pelos recursos energéticos - nomeadamente os casos de Angola e do Brasil -, surgia como uma via salvadora. Mas também estes países enfrentam problemas de natureza social, e o desenvolvimento dos seus recursos desacelerou. Os ativos não financeiros do Grupo nada produzem e, para além de serviços nas áreas da saúde e do turismo, têm mais caráter especulativo do que valor produtivo intrínseco.

O Grupo teve ainda a seu favor o facto de dispor de um banco que, favorecido pela multiplicação dos depósitos captados aos clientes - uma vantagem arriscada que, como se viu, não era possível manter indefinidamente - podia ser utilizado como fabrica de dinheiro e fonte de crédito. A gestão familiar, que numa primeira fase cria resiliência, torna-se fonte de conflitos quando os elementos familiares - que sucessivas gerações vão multiplicando - se tornam ávidos dos dividendos que vão escasseando.

As ligações da Comunicação Social com o poder económico acabam também por ser relevadas como axiomas neste caso: vemos o principal colunista do Expresso (MST) emudecido sobre o assunto, ao que parece, preso em dependências familiares e incapaz de encontrar isenção - como lhe competia - para fazer uma fria análise do caso. E assistimos, na TVI, ao patético malabarismo de Marcelo, amigo de Ricardo, que, mais preocupado com a opinião de que com a verdade, se esforça em explicar e justificar o injustificável.

A grande lição a extrair deste caso prende-se com a evidência de que a política está submetida ao poder económico, e demonstra que a economia está dependente do crescimento, o qual, em ultima análise, está sujeito às leis da Física e às leis da Natureza que o limitam. Os estragos que o caso BES vai provocar em Portugal, na sua política e na sua economia, ainda estão por avaliar. Não deixa, contudo, de ser uma boa oportunidade para refletirmos sobre nós e sobre o nosso futuro comum.

segunda-feira, 14 de Julho de 2014

O Mundo e a Transição

Faz esta semana um ano que foi editado o Mundo em Transição, o livro em que foram reunidos alguns dos textos publicados neste blog. Os textos - e devo isso à preciosa ajuda de um amigo - acabaram por ficar agrupados de uma forma lógica e coerente, o que confere ao livro uma certa unidade de pensamento. Tive algumas reações simpáticas ao livro, umas inesperadas e outras até surpreendentes. Mas, num país onde se editam 10,000 títulos por ano, abordando um tema não necessariamente popular, e nas actuais condições do mercado editorial, o livro não foi - nem eu esperava isso - um êxito de livraria.

O Mundo em Transição acabou por ser um livro de divulgação, com um pendor didático, que foi colher ideias a uma corrente de pensamento em expansão, de raíz americana, que se interroga sobre o futuro da nossa civilização. A ideia forte desta corrente bebe da obra que disseminou essa linha de pensamento : Limits to Growth, publicado em 1972, que congregou um movimento que não mais deixaria de ganhar expressão. A questão dos limites e da impossibilidade do crescimento contínuo é pois a questão central do livro. Nas últimas décadas, já depois da publicação do Limits to Growth, ganhou força a questão das alterações climáticas que, por ainda estar mal estudada, não tinha sido abordada em 1972.

A questão da energia fóssil e do seu previsível esgotamento tem sido amplamente debatida, sobretudo a partir da viragem do século, gerando um amplo movimento de especialistas que dissecaram o tema e deixaram demonstrado que o esgotamento das reservas de carvão, gás natural e petróleo é apenas uma questão de tempo. Foi também estabelecida a relação entre energia e crescimento que os economistas, parecendo acreditar que o dinheiro significa riqueza, teimavam - e teimam! - em ignorar.

Inspirado pelos trabalhos de Joseph Tainter, procurei assinalar no Mundo em Transição os perigos do futuro e alertar para o delicado problema da complexidade das redes e organizações que suportam a nossa civilização. É uma armadilha extremamente perigosa, que poderá provocar danos irreversíveis quando a complexidade, por ser anti-económica, tiver de ser reduzida ou já não puder ser aumentada.

Aludi ao problema demográfico cuja solução aponta para a forçosa necessidade de estabilizar a população. É uma ideia já consensual e que reabilita Malthus, mas se torna paradoxal na medida em que estabilizar a população significa criar dois problemas aparentemente insolúveis: um deles, as assimetrias entre países pobres - altamente prolíferos - e países ricos a definhar em termos de vitalidade; o outro tem a ver com o envelhecimento dos seres humanos incompatível, a prazo, com a vitalidade e o futuro da espécie. O planeamento da fertilidade é algo que ofende as leis da natureza e pode ser, a prazo, a causa da degeneração e extinção do homo sapiens.

Para mim, a parte mais original do Mundo em Transição tem a ver com a condenação desta economia que nos governa e que, por ser predadora e cega relativamente aos danos ambientais, em nada contribui para a solução dos graves problemas civilizacionais que enfrentamos. Antes pelo contrário, só os agrava. O reforço da Globalização - falo da ampliação dos acordos de comércio livre e da parceria do Atlântico Norte – é uma exigência da economia, e a decisão dos políticos de a implementar só se compreende porque a política obedece cegamente à economia, e nada pode fazer contra ela.

A mensagem final, inspirada em Tim Jackson, de que é possível prosperar sem crescimento, baseia-se na recusa em aceitar o colapso. Ela é uma via estreita que não deixa margem para erros e vai obrigar a decisões corajosas e muito inconvenientes. Aliás, só possíveis de tomar quando a sustentabilidade se impuser à economia e fechar todos os caminhos de saída. Então, sobre os escombros do tsunami, que se seguirá ao abalo, poderá surgir a redenção da Luz.


segunda-feira, 7 de Julho de 2014

O Sol

A energia total do cosmos já estava presente no momento do big bang. Em última análise, todas as formas de energia são nucleares pois estão relacionadas com as ligações das partículas no núcleo dos átomos. No processo de fusão nuclear, que ocorre nas estrelas, liberta-se uma grande quantidade de energia sob a forma de radiações. Também – é o que ocorre nas centrais nucleares – se liberta energia na cisão nuclear dos átomos de certos elementos chamados isótopos. Todo o processo evolutivo do Universo – desde a formação de estrelas, ao aparecimento dos planetas e à origem da vida – implica trocas de energia. E tudo evolui no sentido do aumento da complexidade: a complexidade organizada que é a vida e a complexidade desorganizada ou o caos que é resultado do aumento contínuo da entropia universal.

Também na Terra, considerada como uma parte do sistema solar, as duas formas básicas de energia disponíveis derivam dos isótopos radioativos – a energia nuclear – ou da fusão nuclear que ocorre no Sol – a energia solar. O Sol é a principal fonte de energia ativa que atua sobre a superfície da terra em particular sobre a biosfera. As outras formas de energia – eólica, carvão, petróleo, etc – derivam dela. E o futuro da Humanidade está dependente da capacidade que a nossa espécie tiver para capturar e aproveitar a seu favor a energia solar.

O carvão, e os outros combustíveis fósseis incorporam a energia solar acumulada durante milhões de anos. Foi o Sol que fez desenvolver os organismos que se acumularam e decompuseram nas jazidas de petróleo, que fez crescer as plantas que originaram a turfa e a antracite, e é o Sol que produz os alimentos que sustentam as espécies animais. Quando um dia os homens se confrontarem com a escassez dos combustíveis fósseis terão de procurar no Sol a energia para preservar a sociedade organizada. O futuro da Humanidade estará, como sempre esteve, ligado à energia solar. Quando estiver esgotado o tesouro fóssil terá de voltar a colher-se essa energia no dia-a-dia, como acontecia na pré-era fóssil, mas agora necessariamente em quantidades muito superiores para manter a grande complexidade técnica e social entretanto criada.

A produção de energia elétrica pelo efeito fotovoltaico será a forma privilegiada de a capturar e a rede elétrica será a forma de a distribuir. Vão ter de melhorar-se as formas de a armazenar para que possa ser usada quando for precisa, faça sol ou faça chuva.

Uma sociedade baseada na energia solar será muito diferente da atual baseada nos combustíveis fósseis. O fim do motor de combustão interna terá fortes implicações na agricultura e na mobilidade. O motor elétrico não tem, em rapidez e em potência, a resposta do motor de combustão interna, tão vantajosa para trabalhos pesados ou para movimentar grandes cargas. As grandes obras de engenharia tais como estradas, barragens, ou arranha-céus, ficarão muito condicionadas. Em particular, o sector da aeronáutica sofrerá um grande impacto, pois não existem alternativas energéticas ao jetfuel capazes de propulsionar – de forma conveniente - as aeronaves da atualidade.

Vistas as coisas no plano económico, uma redução da energia disponível provocará um retrocesso civilizacional. Mas as aquisições da ciência, da informática e das comunicações poderão compensar essa perda. Afinal, a Internet permite uma nova forma de mobilidade muito menos consumidora de energia e a realidade virtual poderá levar-nos a todos os lugares sem sair das nossas casas.

Na Era Solar, a economia será forçosamente de outro tipo. Será uma economia de racionalização e de eficiência. Será mais frugal e mais vegetariana, e o consumo deixará de ser o motor do crescimento e do desenvolvimento. Haverá uma rigorosa planificação demográfica e uma grande parcimónia na utilização dos recursos. Os valores da democracia, da liberdade e dos direitos do homem darão lugar uma política nova, onde o coletivo terá primazia sobre o individual. Terá de ser uma sociedade mais igualitária, governada por outros valores e com outros objetivos que não sejam o ter de crescer a todo o custo.

segunda-feira, 30 de Junho de 2014

Notas de Viagem


A cimeira

Foi organizada pela Associação dos Territórios do Vale do Côa e teve lugar em Vilar Formoso, no passado dia 27 de junho. O tema - algo ambicioso - era a  Identidade dos Territórios do Interior.

Convidado como um dos oradores da conferência, falei no segundo painel da manhã onde participou o Dr José Manuel Felix Ribeiro, um prestigiado e conhecido economista, autor de um livro recentemente publicado: Portugal a Economia de uma Nação Rebelde. Na minha apresentação alertei para o grave problema da desertificação do Interior e do envelhecimento da população, e aconselhei que voltar a povoar esta região deveria ser a grande prioridade para perspetivar o futuro. Insisti na cultura como sendo o produto mais indicado para Almeida, e abordei a questão da terra, opinando que a agricultura poderá voltar a  desempenhar  um importante papel, mas que para obter resultados se deverá enfrentar e resolver a delicada questão do emparcelamento rural. Com as escopetas  apontadas à caça grossa dos fundos europeus suspeito que, para os presentes, a mensagem não valeu a pólvora do cartucho e não terá ficado registada. Mas tive  a grata surpresa de, no intervalo do café,  que se seguiu,  assinalar o interesse pelos meus pontos de vista por parte de alguns jovens presentes na assistência.

Acho que se passou ao lado do tema, pois os territórios  - como bem salientou o antropólogo que interveio na parte da tarde -  só fazem sentido, só têm identidade, com a sua população, com a sua história e com as tradições e as lendas que lhe estão associadas.  Na cimeira falou-se de muita coisa e pouco - quase nada - do que resta da população dos territórios do  Interior. Na minha opinião, como  atrás referi, esta conferência centrou-se sobretudo nos fundos da UE que virão dos novos quadros de apoio. Esta pareceu-me ser a  preocupação da grande maioria dos presentes: autarcas, consultores, dirigentes de associações/entidades ligadas à região e ao sector do turismo.  No final, com a longa, inflamada e desenquadrada intervenção de Álvaro Amaro, o Presidente da Câmara da Guarda, parecia que estávamos num comício.

A encerrar a sessão, a Dra. Ana Abrunhosa a presidente da Comissão de Coordenação da Região Centro  que é quem regulamenta a corrida aos fundos, falou claro sobre as regras do jogo, e, na minha opinião desempenhou bem o seu papel.

Apesar de tudo, a cimeira foi uma boa iniciativa que mostrou o dinamismo da Dra Dulcineia Moura, Coordenadora da Associação dos Territórios do Côa, e que está, assim, de parabéns. Para repetir.

O Nepso e Rato de Biblioteca

O que se passou no sábado, dia 28 de junho, em Almeida, de tão intenso e emocionante que foi, não é fácil de traduzir. Centenas de professores e alunos vindos de norte a sul de Portugal deslocaram-se à Vila-Fortaleza  para o encontro de encerramento das atividades do Nepso e do Rato de Biblioteca referentes ao ano escolar 2013/2014. Os alunos de cerca de duas dezenas de Escolas apresentaram os seus trabalhos num ambiente de festa. Vimos crianças, do pré-escolar e 1º ciclo, vindas de Vila Real e de Estorãos falarem de lixo, de resíduos e de reciclagem. Vimos alunos de Ovar  apresentarem de forma surpreendente as recomendações para higiene oral e os de Vila Nova de Cerveira abordarem o tema da poupança.  Os alunos  do Agrupamento de Escolas de Almeida, servindo-se de uma linda melodia, entoada de forma cristalina por uma aluna, contaram a caminhada do Rio Côa desde a serra das Mesas até ao Douro. Vimos o grupo de Braga falar-nos de bullying e o grupo de Matosinhos abordar a questão - tão importante e tão decisiva para o futuro da Humanidade - da manipulação da fertilidade. Não quero - nem posso - deixar de referir os grupos de Arcozelo, da Lousã, de Viseu, de Santa Cruz da Trapa, das Caldas das Taipas, de Aveiras de Cima, de A-Ver-o-Mar, de Portimão, de Vila Real de Santo António, do Bairro Padre Cruz de Lisboa que nos apresentaram os seus trabalhos,  com brilho, com criatividade, com  entusiasmo, com alegria e com a satisfação do dever cumprido.

Tudo isto, e muito mais, foi o coroar de uma ano de trabalho de dezenas de professores e quase mil alunos que aderiram aos programas da Fundação Vox Populi e embarcaram na aventura da investigação dos temas que eles próprios escolheram.

A família, os amigos.

Em Almeida, eu e a Paula, a minha mulher,  tivemos a alegria de partilhar estes momentos com a São e o João, com o Américo e com a Paula Pato, com o Rau, com os meus filhos Pedro e Luísa. E até o Whisky, o nosso cão, participou.  Vivemos momentos únicos que justificam todo o esforço que dedicamos, de forma voluntariosa e desinteressada, a estes projetos.

segunda-feira, 23 de Junho de 2014

A Questão da Terra

Em 1375, após os anos da peste negra, numa situação de fome, de crise e de abandono dos campos, o Rei D. Fernando manda publicar a Lei das Sesmarias, determinando que os possuidores das terras incultas eram obrigados a cultivá-las ou, caso o não fizessem, perderiam a sua posse. Naqueles tempos as terras pertenciam à Coroa, aos senhores feudais ou às ordens religiosas; eram distribuídas aos agricultores pelo sesmeiro em regime de enfiteuse ou de aforamento. Os agricultores, por sua vez, pagavam uma renda e podiam transmitir os direitos aos seus descendentes por um certo número de gerações ou de forma perpétua. Com o decorrer do tempo, esses contratos foram sendo resolvidos e acabou por prevalecer o regime de propriedade plena em que a posse da terra é reconhecida como perpétua e transmissível. A Lei das Sesmarias ficou para a História mais pela sua intenção do que pelos resultados obtidos - que não se conhecem, mas os quais, imagino eu, não terão sido notáveis.

A partir do momento em que o homem se sedentarizou e começou a produzir os seus alimentos, a questão da propriedade e da posse da terra passou a ser uma questão central dos estados organizados. A posse da terra conferia poder, era disputada, passava de pais para filhos. O sistema hereditário de morgadio foi instituído para manter a unidade das explorações, e o seu abandono favoreceu a divisão da terra. Durante séculos, nas serras e nos planaltos da Beira Interior, a área dos terrenos, sucessivamente divididos pelos filhos, foi-se reduzindo, ao mesmo tempo que se começaram a levantar muros à volta dessas parcelas progressivamente mais minúsculas.

O sistema de minifúndio vigorou pacificamente no norte de Portugal durante centenas de anos: cultivava-se a terra e apascentava-se o gado nas pastagens. Toda a vida das comunidades decorria à volta destas atividades. Mas a era industrial alterou este estado de coisas. A utilização de uma energia armazenada durante milhões de anos - a energia fóssil - permitiu concentrar a produção de alimentos nas regiões mais convenientes e mais produtivas, e criar um sistema de transportes e de distribuição para levar, a preços mais baixos, esses alimentos a outras regiões. Foi isso que matou a agricultura de subsistência baseada nas pequenas explorações familiares . Os agricultores, privados da sua fonte de rendimento, abandonaram a terra, emigraram para as cidades, e muitos campos foram deixados incultos.

Na atualidade, a crise, o desemprego, o desencanto dos subúrbios das megaurbes leva as pessoas a voltar a olhar para o campo, e muitos começam a acreditar que esse pode voltar a ser o destino de uma Humanidade despojada dos recursos fáceis mas esgotáveis da era do carbono. Neste contexto, volta a colocar-se a questão do ordenamento do território agrícola e da necessidade de valorizar e viabilizar as explorações para voltar a atrair pessoas para o campo. Volta a falar-se de emparcelamento. O regime de minifúndio não permite fazer uma agricultura nos moldes modernos e isso tem de ser rapidamente alterado.

O futuro da agricultura de vastas zonas - sobretudo no norte de Portugal - depende da capacidade de modificar o regime da propriedade rural. Disso mesmo se aperceberam os governantes que, desde o século XIX, têm legislado no sentido de promover o emparcelamento. Terá sido Salazar quem, em 1962, com a publicação das leis do emparcelamento - Lei n.º 2116, de 14 de Agosto, e o Decreto n.º 44647, de 26 de Outubro - procurou de forma mais consistente resolver esta questão. No entanto, os resultados foram parcos, pode dizer-se praticamente nulos, e a questão de fundo prevalece sem alteração. Em 1988 uma nova tentativa - o Decreto-Lei n.º 384/88 de 25 de Outubro - teria o mesmo insucesso. Chegou o momento de investigar as causas destes falhanços, e regressar ao assunto de forma mais consequente.

Para alimentar a população em crescimento, durante milhares de anos os campos da Europa foram desflorestados, arroteados, desbastados, lavrados. A irrigação, a lavoura, a charrua de ferro, os fertilizantes importados de outras paragens (os fosfatos, o guano,...) permitiram aumentar a produtividade da terra. As regiões bastavam-se a elas próprias; prosperaram. Nas terras semeadas, tratadas, irrigadas, a energia solar transformava-se em alimento. As grandes catedrais da idade média, as viagens de exploração iniciadas no século XVI, a renascença, o desenvolvimento científico, nasceram da terra.

Nos nossos dias já não é a terra cultivada que move o mundo, mas sim o líquido negro que jorra das suas entranhas. Porém, a nossa civilização tem as suas raízes no amanho terra. Só a seiva que flui dessas raízes poderá trazer a prosperidade a que todos aspiramos. Temos de as cuidar e preservar se queremos ter futuro!

segunda-feira, 16 de Junho de 2014

Crepúsculo nas Serras

A globalização da economia, que é uma consequência da disponibilidade de abundantes quantidades de energia fóssil, provocou um tsunami civilizacional. Os seus efeitos, sobretudo a partir de 1945, fizeram sentir-se de várias formas na vida das pessoas e das comunidades. Em qualquer continente, na mais remota das localidades, o modo de vida da geração atual é muito diferente do das gerações que a precederam. A chamada revolução verde transformou a agricultura tradicional, introduziu novos fertilizantes, dispensou a mão de obra humana, substituiu os animais pelas máquinas, esvaziou os campos e atraiu a gente do mundo rural para as cidades em crescimento. A urbanização - tornada possível pelo automóvel e pelo elevador - é a marca mais evidente da globalização.

 Nos anos que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial, na Europa em reconstrução, a atração das zonas urbanas - em franco desenvolvimento e ávidas de mão de obra – provocaram, dentro do continente, fluxos populacionais que convergiram das periferias pobres e rurais para o centro rico e industrializado. Em zonas mais deprimidas e com menos recursos, essas migrações sentiram-se muito fortemente e vieram alterar equilíbrios e modos de vida seculares. Nessas zonas, a agricultura e a pecuária, baseadas em pequenas explorações familiares de baixa produtividade, não podiam competir com as explorações intensivas e subsidiadas da Europa Central. Muitos campos foram deixados ao abandono. A União Europeia não criou alternativas economicamente viáveis para estas regiões, que rapidamente começaram a definhar, a perder população e a envelhecer.

Ao longo da raia que divide os países ibéricos, dum lado e do outro, existe uma vasta região que sofreu, talvez como nenhuma outra, o impacto da globalização. E isso é perfeitamente notório no interior beirão, mais propriamente na região de Ribacôa, que pode identificar-se, grosso modo, com os concelhos de Figueira Castelo Rodrigo, Sabugal, Almeida e Pinhel.

Durante séculos, Ribacôa foi um útero fecundo que gerou gente de qualidade, forjada no trabalho duro do amanho da terra madrasta. Gente que encheu seminários, escolas e universidades, e de onde saíram militares, clérigos, políticos, pensadores, escritores, professores, médicos e artistas. Foi também essa gente que se aglomerou nas cobertas das terceiras classes dos paquetes que demandavam a América, a África e o Brasil, novas terras que ajudaram a povoar e a progredir. Uma boa parte dessa gente desenraízou-se. Alguns aguardarão saudosos no cativeiro dos subúrbios de metrópoles europeias o dia do regresso. Mas a matriz da fecundidade secou. O esvaziamento levou a população ativa e em idade fértil, as escolas fecharam, o panorama é desolador.

Nas atuais condições, estas regiões - e em particular a região de Ribacôa - são altamente subsidiadas e passaram a representar para o país um elevado custo social e administrativo. Não produzem riqueza, mas absorvem recursos. Têm de ser governadas e administradas juridicamente com meios sobre-dimensionados para a sua população e economia; e, dada a sua extensão geográfica, o custo do serviço social é elevado e ineficiente. Numa lógica economicista o país ficaria a ganhar se construísse um bairro na periferia de uma grande cidade e para lá fizesse deslocar toda população dos concelhos mais pobres do interior. A crise, ao escrutinar e contabilizar o custo/beneficio das rubricas do Orçamento do Estado, veio evidenciar esta realidade escondida.

Um crepúsculo sereno vai caindo sobre as serranias e sobre os planaltos da Beira. Nota-se já alguma resignação na expectativa com que se olha para o breu da noite que se aproxima. Mas uma chama ténue persiste ainda em manter-se, esperando que os guardiões da luz venham com a sua criatividade preparar uma nova alvorada.

segunda-feira, 9 de Junho de 2014

Sinais de Borrasca

O petróleo é uma matéria prima indispensável à economia. Sem petróleo, os aviões ficarão em terra, as autoestradas ficarão vazias e a economia ficará paralisada. A escassez de petróleo e o aumento dos preços que lhe está associado é, só por si, a causa principal das crises económicas cíclicas e, em particular, daquela com que nos defrontamos. Entre os especialistas da matéria existe hoje um vasto consenso: a insuficiência de crude vai acontecer antes de estarem encontradas alternativas energéticas viáveis para o sector dos transportes. Aliás, essa escassez já está a verificar-se; e apesar das tentativas para a ocultar, os sinais da penúria surgem por todo o lado.

Em fevereiro deste ano, numa desassombrada palestra proferida na Universidade da Colúmbia , Steven Kopits - um especialista da agência de estudos de mercado Douglas Westwood - referiu-se, clara e detalhadamente, à situação mundial do mercado de petróleo. Começou por afirmar que a previsível evolução da produção e dos preços da matéria prima já não se ajustam ao modelo que tem estado em vigor, em que a procura determina a oferta. Considera que já não é válida a premissa - estabelecida no tempo em que a torneira da OPEC parecia inesgotável - de que o petróleo aparece sempre, e nas quantidades necessárias, desde que exista procura para ele. Ao contrário, estamos agora numa fase em que o consumo tem de adaptar-se a uma oferta cada vez mais escassa. Entenda-se, existe menos petróleo, é mais difícil de extrair e é mais caro. Ora, esta nova realidade vai ter um efeito direto no crescimento do PIB mundial.

 Desde 2005, na opinião daquele especialista, que a resposta da produção ao acréscimo de procura é assegurada apenas por um esforço suplementar baseado nas formas de crude não convencionais (petróleo de águas profundas, areias betuminosas, petróleo de xisto, conversão de gás em petróleo...). Era esta realidade que os americanos pretendiam ver alterada após a invasão do Iraque. Mas isso não aconteceu, antes pelo contrário. A China e a Índia , em fase de motorização acelerada, estão a aumentar o seu consumo, e isso só tem sido possível, sem distorções nos preços, porque os países da OCDE - em parte como consequência da crise - têm consumido menos, como aconteceu nos Estados Unidos e na Europa.

A parte mais interessante da palestra de Kopits - para muitos uma novidade - foi focada na situação financeira das grandes empresas petrolíferas internacionais (as IOC´s -Internacional Oil Companies), que ele considerou estar a degradar-se, na medida em que os investimentos feitos na pesquisa e desenvolvimento de novas explorações, não têm sido compensados pelo retorno da produção. Isso tem levado algumas delas a abandonar ou adiar projetos menos rentáveis e até a vender ativos. Como exemplo, citou o caso da Shell que, por dificuldades de liquidez, recentemente pediu dinheiro emprestado para pagar dividendos aos seus acionistas. Algo impensável há alguns anos atrás. Segundo Steven Kopits, os atuais preços do crude e a estrutura de custos das produtoras já não permitem a libertação de fundos para suportar os investimentos crescentes que é necessário fazer e para pagar os dividendos exigidos pelo acionistas. Daí a conclusão de que estas empresas necessitam de preços bem acima dos 100 dólares por barril, possivelmente 20 ou 30 dólares acima das cotações atuais das bolsas de Londres e de Nova York. Só que a economia dificilmente suportará esses preços.

Outras fontes dão conta da situação na Líbia, um país tradicionalmente exportador, onde, devido aos conflitos internos, está praticamente paralisada a exploração e onde podem cair a zero as exportações, pois a quantidade produzida mal chega para abastecer e manter em funcionamento as refinarias locais que abastecem o mercado interno. Outro país problemático é o Iraque, país onde o custo da fatura da guerra, suportada pelos Estados Unidos, foi de 800 mil milhões de dólares e os almejados resultados tardam em aparecer. O Kurdistão teima em reivindicar a apropriação do crude produzido no seu território e já exporta diretamente. Numa outra zona geográfica, no Brasil, as jazidas pré-salinas da bacia de Santos, devido a dificuldades técnicas, ainda estão longe de produzir as quantidades previstas. O Brasil que, há quatro anos, se preparava para entrar no grupo dos exportadores, continua a importar a matéria prima.

Entretanto, depois da euforia que, desde 2011, tem grassado nos media americanos face às épicas promessas do fracking e do petróleo de xisto, as notícias são agora bem mais desanimadoras. A EIA (Energy Information Administration) informou, no passado mês de Maio, que as reservas recuperáveis de petróleo de xisto, em Monterey, na Califórnia - só por si representando dois terços da totalidade das reservas americanas - antes estimadas em 13,7 mil milhões de barris, não são, afinal, mais do que 600 milhões de barris, ou seja, apenas 4% do valor inicialmente previsto. Um autêntico balde de água fria que desfaz o sonho da tão propalada independência energética dos Estados Unidos.

As civilizações, tal como os seres vivos, quando deixam de crescer começam a morrer. O petróleo é o sangue da economia que sustenta a civilização Global. A escassez desse fluido vital está a provocar uma anemia, com prognóstico pouco otimista. No horizonte acumulam-se nuvens escuras, as quais podem vir a transformar-se naquilo que já alguém chamou a tempestade perfeita.