segunda-feira, 25 de abril de 2016

Notícias

As notícias, que já têm direito a um museu em Sintra, são um fenómeno dos tempos modernos. Foi em 1832 que o escritor, tradutor e jornalista Charles-Louis Havas fundou, em Paris, a primeira agência de notícias (a qual, mais tarde, se transformaria na France Press). Anos depois, dois ex-colaboradores da Havas levaram o conceito a Londres (Paul Reuter) e a Berlim (Bernhard Wolff). A comunicação social, tal como hoje a entendemos, começava a sua extraordinária aventura.

No século XVI, em Veneza, já tinha surgido uma folha mensal: a Gazzeta. Mas a produção e difusão em massa de notícias nasce e acompanha as grandes mudanças trazidas pela revolução industrial. O século XIX é o século de ouro do jornalismo que vê nascer muitas novas profissões: o editor, o jornalista, o repórter, o correspondente, o redator, o revisor, o colunista... Os jornais proliferam por toda a Europa e nos Estados Unidos. Em 1821 surge em Inglaterra The Guardian, e em Nova York são editados primeiro o New York Sun em 1833 e, mais tarde, o New York Times em 1851. Joseph Pulitzer e William Hearst investem na nova indústria e são os protótipos dos magnates da imprensa. São criadas agências de notícias um pouco por toda a parte. Em 1846, na América, são os próprios jornais que se associam para criar a Associated Press.

O homem culto do século XIX é um ávido leitor de jornais. O prezado assinante não dispensa a leitura diária da folha que lhe traz as notícias da sua cidade, do seu país e do mundo. Em Portugal, ninguém melhor do que Eça de Queirós representa esse homem e essa época: ele foi o diretor e jornalista irreverente do Distrito de Évora, foi, juntamente com Ramalho Ortigão, o crítico mordaz das Farpas, foi o repórter atento que noticiou a inauguração do canal de Suez, foi diretor e editor de revistas, foi folhetinista. E foi ainda como correspondente de jornais portugueses e brasileiros que, a partir de Newcastle e de Paris, escreveu crónicas admiráveis, as quais foram reunidas, postumamente, nas Cartas de Inglaterra, nas Notas Contemporâneas ou nos Ecos de Paris.

O jornalismo e a globalização evoluem de braço dado, e, por vezes, confundem-se. A comunicação social é um espelho onde a sociedade se revê. E esse espelho, pelo efeito da reflexividade (tal como a definiu Karl Popper), condiciona o comportamento coletivo, desencadeia paixões, estimula polémicas, incendeia ideais, fomenta revoluções. Com a rádio e a televisão, impulsionados pelo consumismo e pela publicidade, instala-se e floresce o império dos media. As classes influentes na economia, na política, no desporto e no espetáculo passam a existir na comunicação social e para a comunicação social.

Através das notícias vemos e percebemos a sociedade; elas são os nossos olhos e, no complexo mundo globalizado, temos necessidade de notícias para ter referenciais. Sem notícias perdemos o sentido de orientação social. Mas, da mesma forma que os nossos sentidos apenas nos permitem apreender a imagem da realidade exterior, também as noticias não são a realidade social, mas apenas uma representação desta. E tal como os sentidos distorcem a realidade exterior também as notícias, com frequência, deformam e adulteram a realidade social.

Diz-se que Havas e Reuter usavam pombos correios para receber as noticias do estrangeiro que difundiam em França, na Inglaterra e na Alemanha. Mas o telégrafo e, sobretudo, as ondas hertzianas, que levaram a voz e a imagem a todo o planeta, pareciam ser o impulso tecnológico definitivo e insuperável. Mas eis que na última década do século XX advém um novo sobressalto: a Internet. Esta nova forma de comunicar está a interferir no mundo globalizado com a cumplicidade entre a economia e a indústria da comunicação social. A produção da notícia democratizou-se, o comentário pode ser feito pelo cidadão comum, a informação extravasou dos canais tradicionais. Por sua vez, as redes sociais interferem perigosamente com a ordem global.

São as agências noticiosas e os donos dos media que organizam o mundo. Entretanto, criou-se uma preocupante cumplicidade entre a globalização (entenda-se a economia global) e a comunicação social. Elas alimentam-se uma da outra. A comunicação social pode ser incómoda mas é necessária à economia, pois dá-lhe um sentido e alimenta as expectativas que a movimentam. Ela constituiu-se como um novo poder. A sua enorme força e influência, em regimes políticos desestruturados, leva à censura. Nas democracias suportadas pela economia liberal é o poder económico através da dependência laboral, dos lobbies e das agências de relações públicas que, muitas vezes, dita a conveniência ou inconveniência das notícias. Isso coloca os profissionais dos media, mormente os jornalistas, perante um dilema. Serão eles capazes de manter a independência e de o superar? A divulgação das notícias relativas aos offshores do Panamá levam-nos a crer que sim.


segunda-feira, 18 de abril de 2016

ASTA, o Reino Improvável


Imaginem uma aldeia perdida nas terras ingratas e agrestes de Riba-Côa, abrasadas no verão pelo sol das calmarias e endurecidas no inverno pelo frio das geadas. São terras de pastagens magras para cabras e ovelhas, onde cresce a esteva e a giesta  e onde afloram as formas bizarras dos barrocos de granito. Nelas, noutros tempos, cultivava- se centeio nas tapadas de sequeiro  e batatas nas leiras junto às ribeiras, ou nos hortos regados pela água tirada dos poços com recurso às noras ou aos desajeitados picanços ou cegonhas.

Imaginem essa aldeia quase deserta, esvaziada por sucessivas sangrias das suas gentes. Primeiro, no final do século XIX, quando o comboio as levou para a África e para o Brasil. Depois, na segunda metade do século XX, quando saltaram fronteiras atraídas pela prosperidade da Europa em reconstrução. Os mais velhos que ficaram, e ainda guardam as memórias das duras labutas com a terra madrasta, são frugais, rudes e, às vezes, desconfiados. Escondem-se em casas fechadas e defendem a terra herdada - que já velhos deixaram de cultivar - atrás de muros de pedra, que as não protegem de ninguém nem de coisa nenhuma.

Conta uma lenda - todas as histórias belas acabam em lendas! - que, certo dia, um insólito grupo, vindo não se sabe de onde, resolveu preencher o vazio criado nestas terras e voltar a dar-lhes vida. Chegaram  comandados por uma mulher que, à semelhança de Joana d'Arc, vinha montada num cavalo branco e ostentava uma armadura resplandecente. Não usava lança, não trazia arco, nem flechas. A sua arma era a vontade indómita de voltar a fazer renascer a vida. As suas munições eram o amor pelos mais fracos e a crença de que todos somos diferentes e, afinal, todos somos iguais. Os soldados que a acompanhavam não desfilavam em pose marcial, mais pareciam um bando de pardalitos caídos dos ninhos, um de asa derreada, outro coxeando, outro com o pio rouco e desafinado. Mas entoavam cânticos de esperança e enchiam o ar com a alegria dos seus chilreios. Foi este exército improvável que, pacificamente, com a sua felicidade conquistou e ocupou a aldeia.

E o milagre aconteceu. As casas voltaram a ter gente. Nos campos abandonados cresceram de novo batatas, cebolas, feijão... As ferramentas das velhas oficinas de carpintaria voltaram a afagar a madeira. Voltou a ouvir-se o som ritmado dos teares. O barro ganhou expressão e novas formas. A lã voltou a ser fio e a ser tecida. A criatividade produziu arte e beleza. Até os velhos resistentes da aldeia, contagiados pela luz que tudo envolvia, começaram a derrubar os muros e a abrir de novo as portas das suas casas.

A heroína desta lenda imaginada é Maria José Dinis. A Cabreira do Côa a aldeia que revitalizou. A ASTA o reino que inventou. Os companheiros são os príncipes desse reino que dão sentido à lenda.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Portugal de Lés a Lés


Motivos que se prendem com o trabalho da Fundação Vox Populi, levaram-me, na última semana, a percorrer Portugal de lés a lés. Na tarde do dia 6 de Abril, estive, com a minha mulher, na Escola secundária de  Vila Real de Santo António numa sessão de formação com professores locais sobre técnicas de realização de sondagens de opinião.  No sábado, dia 9, encerrávamos um périplo de quatro dias com um jantar em Caminha, num agradável convívio com os meninos do Jardim de Infância.  Para trás ficava  a visita a uma  fábrica de burel em Manteigas, a visita à escola infantil do Corgo em Vila Real (Trás os Montes), uma reunião com o diretor da Escola de Caldas das Taipas, uma reunião com a vereadora da juventude da Câmara de Braga e uma sessão de formação, com professores do Nepso, no Centro Educativo da Facha, em Ponte de Lima.
  
Nestas digressões, evoco o Portugal da minha infância, das aldeias remotas, com agricultores, feiras de gado, tabernas, casas de hóspedes  e casas de pasto. Onde se  conduzia pelas antigas estradas "feitas ao quilómetro", serpenteando por montes e vales. O Portugal de hoje é, numa visão de relance, um país de eucaliptos e autoestradas. É, todo ele, um país urbano. As casas das aldeias, equipadas com todos os confortáveis electrodomésticos e com garagem para o automóvel, em nada diferem das casas das cidades. Nos dias de hoje, já nenhum português ganha a vida amanhando a terra com  a força dos braços e com o suor do rosto. As pensões, de restaurante no primeiro andar, transformaram-se em hotéis de charme ou em casas de turismo em que a estadia se reserva no "booking.com".  As pizzarias os Mc´donalds e os fast food  das grandes superfícies - onde se bebe cocacola e refrigerantes - substituíram as velhas tabernas e casas de pasto onde vendia vinho a granel.

Não ousarei dizer que o Portugal e 2016 é um país melhor ou pior que o Portugal de 1960, que evoco atrás. É um país diferente. Mais confortável, mais civilizado e mais culto. Com escolas mais modernas e mais bem equipadas.  Com muito  do património recuperado e com os centros históricos das localidades limpos e embelezados. Com gente mais obesa - em geral, nos restaurantes come-se mal e em demasia-, e gente mais envelhecida. E mais desesperançada. Nota-se  uma grande desordem urbanística nas novas construções, como se fossem colagens de projetos individuais  sem a preocupação da harmonia coletiva. O velho choca com o novo, o rico destoa do pobre, a nobreza convive com a vulgaridade, o bom e o mau gosto, lado a lado. Sente-se que, na sofreguidão do crescimento e da convergência com a Europa, se queimaram etapas. Tudo mudou demasiado depressa.

Desta viagem pelo Portugal integrado na Europa, recordo alguns clichés: em Vila Real de Santo António  a Escola é moderna e arejada, mas o equipamento ficou a meio; as máquinas das oficinas da antiga Escola Industrial foram vendidas a peso e ao desbarato, e os alunos não têm, agora, condições para poder trabalhar com as mãos; talvez por isso, na fábrica de burel em Manteigas dizem-nos que os jovens não gostam do trabalhar com as máquinas; uma mãe, empregada de um hotel no Minho, queixa-se da qualidade da educação que é ministrada à sua filha de 13 anos; em Ponte de Lima, no dia 8 de Abril, às 22 horas - nós, que em Lisboa nunca vamos ao teatro -,  entramos, por acaso, no velho teatro Diogo Bernardes e assistimos com mais outras sessenta pessoas a uma bem cuidada representação da "Cantora Careca" de Eugene Ionescu.

A educação é o caminho.  A este propósito, repesco do facebook da Câmara Municipal de Caminha o seguinte relato que nos enche de  orgulho e alimenta a esperança. O que ali se escreve, só por si, justificou a viagem:
No passado dia 9 de Abril, as crianças do jardim de Infância de Caminha promoveram um jantar-festa do bacalhau. O jantar continha todas as iguarias gastronómicas ligadas ao bacalhau e que muitos desconheciam como as caras de bacalhau, a língua de bacalhau, os samus, o bacalhau de cebolada, entre outras. As crianças orientadas pelas educadoras Manuela e Conceição  estão a concorrer ao projeto “Rato da Biblioteca” da Fundação Vox Populi com o tema “As outras caras do bacalhau”. Através deste estudo pretende-se que as crianças e a comunidade guardem para o futuro a herança, e a história dos homens - “as outras caras do bacalhau” - que durante todo o século XX andaram à pesca do bacalhau. Pretende-se, ainda, recolher depoimentos dos pescadores que partiam para as águas geladas da Terra Nova e da Gronelândia e das mulheres que ficavam com os filhos. 
Como parceiros na construção do conhecimento, estimulando os mais pequenos investigadores de Caminha, além da já referida Fundação Vox Populi, encontra-se a União de Freguesias de Caminha e Vilarelho, a Câmara Municipal de Caminha, o Museu Marítimo, Museu Navio Santo André,  o Agrupamento de Escolas Sidónio Pais, Pescadores Locais e  Encarregados de Educação.  

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O Querer e o Ser


Quem esperava - como foi o meu caso - que o jornalista Ricardo Costa fosse ao Grémio Literário dissertar sobre o tema do ciclo de conferências "Que Portugal queremos ser, que Portugal vamos ter", viu defraudada a sua expectativa. Ricardo Costa, antes diretor do Expresso e agora o novo diretor da Impresa (Grupo Balsemão), é um jornalista com um raro e apurado sentido de análise política. A esta qualidade alia rigor e independência, esta bem demonstrada pela atitude que tomou quando o seu irmão, António Costa, se candidatou a primeiro ministro. No passado dia 29 de março, no Grémio, escolheu falar sobre a atualidade política e sobre os jogos que a condicionam. O essencial da sua palestra já foi resumido pelo jornalista Silas de Oliveira no renovado site do Clube Português de Imprensa que pode ser consultado aqui.

Os jogos políticos - que são jogos de poder - lembram-me os jogos de estratégia, muito particularmente o xadrez, que jogo desde a meninice e me apaixonou na minha juventude. O jogador de xadrez tem de saber lidar com a multiplicidade das peças, de ter presente a abrangência de todo o tabuleiro, de ser capaz de antever as possíveis jogadas do adversário, de ser perspicaz para avaliar com rigor o risco de sacrificar uma peça e dessa forma ganhar uma vantagem posicional. Além disso, tem de ser psicólogo para não denunciar fraquezas, perseverante para explorar debilidades, ousado para surpreender o adversário com jogadas insólitas ou imprevistas e calculista para saber utilizar o tempo a seu favor.

Os jogos políticos exigem muitas qualidades presentes no xadrez, mas, ao contrário deste, não são jogos de soma zero como aqueles onde uns ganham aquilo que outros perdem. Na política, o contexto e até as regras do jogo mudam continuamente. O tempo, a economia, a conjuntura internacional, e não só, podem alterar as coisas e reduzir ou aumentar o prémio que está em jogo. No final, todos podem ser ganhadores ou perdedores. Os jogos políticos não são um passatempo ou um entretenimento entre jogadores, eles dizem-nos respeito e condicionam o nosso futuro coletivo. Por isso, deveriam sujeitar-se a certas regras - mesmo que se ficassem no plano da ética –, que tivessem como objetivo elevar o valor do prémio e não apenas a sua disputa. Mas, tal só é possível com um compromisso assumido por todos os intervenientes. O "Portugal que queremos ser" é, ou deveria ser, o compromisso consensual entre os jogadores que mais não são do que os políticos que governam os partidos ou nos governam a nós.

No quadro do nosso sistema político-partidário, como compromisso mínimo, existem duas premissas que são aceites - será que são? - por todos: a integração na Comunidade Europeia e a aceitação das regras da economia de mercado. Daqui decorre, implicitamente, a obrigatoriedade de pagar as dívidas que se contraem e o respeito pelos tratados assinados. A aceitação da economia de mercado pressupõe a adesão ao princípio sagrado de que é imperativo fazer crescer a riqueza produzida. E, deste principio, quer se queira quer não, deriva, por sua vez, o primado da economia sobre a política. Existe, é claro, a questão da soberania que ninguém põe em causa. Todavia, um país soberano não pode depender de credores, nem pode mendigar o perdão ou a renegociação da divida. Contudo, tem de ter uma estratégia para a economia e para a sua competitividade, para garantir sustentabilidade financeira, indispensável à defesa do Estado Social, à manutenção da coesão regional – de molde a não deixar desaparecer o nosso abandonado interior – à divulgação da cultura, uma herança e um património de muitos séculos. Na política externa deve merecer destaque o espaço reservado à lusofonia. Além disso, a soberania tem de compaginar-se com os direitos que a Constituição garante aos seus cidadãos, nomeadamente, em áreas tão sensíveis como a educação e a proteção na infância, na doença, na incapacitação e na velhice.

Saí do Grémio Literário interrogando-me sobre se algum político se preocupa verdadeiramente com o Portugal que queremos ser. Veio-me à memória um outro palestrante que recentemente, ali no Grémio, afirmou que muitos políticos trocam as convicções pelas conveniências. E convenço-me de que o tema da conferência esteve ausente do discurso de Ricardo Costa pela simples razão de que "o Portugal que queremos ser" não está presente no tabuleiro de jogo dos nossos políticos. E, como bom jornalista que é, ele não tem de falar sobre o que não acontece; afinal, isso não é notícia. Nesta ordem de ideias, e para nosso descontentamento, "o Portugal que vamos ter" vai continuar a ser mais do mesmo.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Gerir o Tempo

Nas gerações que nos precederam - mesmo nas que estão mais próximas de nós: as dos nossos pais e avós -, a forma das pessoas passarem o tempo era muito diferente da nossa. O homem do paleolítico, praticamente, passava todo o seu tempo de vigília a recolher alimentos e a caçar. Na Idade Média, uma boa parte do tempo era dedicado ao trabalho na terra e à religião. Na era industrial, o trabalho na fábrica passou a ocupar muito do tempo antes usado na agricultura. Na sociedade de excedentes, possibilitados pela era do carbono, ganha importância o chamado tempo livre. Ou seja, a convivência social, a televisão, a cultura, o desporto, a internet, as viagens e o shopping preenchem a maior parte do nosso tempo de lazer diário.

Há uns anos atrás, os anunciantes faziam estudos visando conhecer a forma como as pessoas repartiam o seu tempo pelos diversos meios: imprensa, rádio e televisão. A intenção era alocar os investimentos publicitários naquela mesma proporção. Em França, onde estes estudos estiveram muito em voga, chamavam-se os études budjet temps. Em Portugal não tenho conhecimento de que essas pesquisas alguma vez se tenham realizado. Por isso, como gosto de números, decidi fazer um exercício empírico e aproximativo: estimar, com base em alguns dados existentes e muito senso comum, como se distribui a ocupação das 168 horas (24x7) semanais de um português médio ativo, adulto e urbano. O resultado a que cheguei - aceito, com agrado, sugestões de alteração! - para esse balanço de tempo foi o seguinte:
    horas       %
Tempo de repouso5633,3
Tempo de trabalho47,528,3
Tempo digital 3017,9
Tempo social11,56,8
Tempo familiar 2011,9
Tempo íntimo31,8
Tempo interior e espiritual00,0
Total 168100,0
Notas: Tempo de repouso: São 8 horas por dia, 56 horas por semana; tempo de trabalho: inclui 35 horas de trabalho semanal, deslocações e refeições no trabalho; tempo digital inclui o tempo dedicado a ver televisão, a ouvir rádio, falar ao telemóvel, dedicado ao computador e à internet (incluindo o que é passado nas redes sociais); tempo social inclui refeições fora do trabalho, idas a espetáculos, cultura, leitura, tempo passado com amigos fora de casa; tempo familiar inclui refeições fora do trabalho (tomadas em casa) e o tempo passado em casa com a família e amigos; tempo íntimo refere-se ao tempo dedicado à higiene pessoal e necessidades fisiológicas; tempo interior refere-se ao tempo de reflexão interior e ao tempo espiritual e religioso.

Feito o exercício, e distribuído o tempo pelas diferentes formas de o ocupar, constatei que não me sobravam horas para atribuir à última parcela, o tempo interior e espiritual. Haverá, com certeza, pessoas que dedicam muitas horas a esta ocupação; no entanto, a estatística vive de médias e, neste caso, a média estará muito próxima de zero. Ao invés, atente-se na importância atribuída ao tempo digital (18% do total, 27% do tempo de vigília!), uma utilização recente, e que se prevê venha a aumentar muito no futuro.

Sendo o tempo a matéria prima de que é feita a vida, é surpreendente o pouco cuidado que colocamos na sua utilização. Parece que o desperdiçamos, às vezes, até voluntariamente e com prazer, pois não nos detemos a orçamentar e a planear a forma como o despendemos. Veja-se, por exemplo, o tempo passado a ver televisão - 22 horas por semana, quase 20% do nosso tempo de vigília. Esse tempo, que se traduz afinal na atenção dedicada ao pequeno ecrã, é, por sua vez, disputado pelas emissoras que o utilizam em proveito próprio, vendendo-o aos anunciantes ou valorizando-o para dar protagonismo a políticos, homens de negócios, artistas, figuras públicas etc. E o que se diz em relação à televisão pode estender-se a certo tipo de literatura e de imprensa.

A economia global, a política e a comunicação social reclamam o nosso tempo. A nós cabe-nos cuidar de o gerir, de o não desbaratar levianamente e de não deixar que outros se apropriem dele. Embora os minutos sejam todos iguais, a forma como os utilizamos pode ser diferente. Na nossa vida alguns minutos valem mais do que outros, pois só alguns são verdadeiramente nossos. O tempo interior, aquele em que nós nos confrontamos connosco próprios, é o nosso tempo mais precioso. Sem tempo interior e espiritual, o homem deixa de ser dono e senhor do seu destino. É como um barco que voga ao sabor das correntes e dos ventos. Não traça o seu rumo; deixa-se ir para onde o levam.

A globalização, a tecnologia, a forma de comunicar e consumir informação, estão a roubar o tempo interior do homem. Os que nos fornecem informação e nos viciam no seu consumo acabam por processá-la e digeri-la por nós e para nós. E ao compelirem-nos a consumir sempre mais e mais, acabam, desta forma, por criar um círculo vicioso e uma perigosa adição. Por isso, acredito que muitas das depressões do nosso tempo são provocadas pela sofreguidão no consumo do tempo e pela má gestão na sua utilização.

A forma como um povo gasta o seu tempo mostra o seu estado de saúde como sociedade, e é revelador do que podemos esperar quanto ao seu futuro. Muitos dos nossos hábitos de vida estão dependentes de redes muito frágeis cuja sustentabilidade está ameaçada. Ora isso ilustra a pouca resiliência desses hábitos e as contingências que o futuro nos pode revelar. A boa gestão do tempo terá de ser uma forte e permanente preocupação daqueles que acreditam e querem empenhar-se na caminhada para um mundo novo.

segunda-feira, 21 de março de 2016

A Hiperglobalização

Na classificação tradicional, as atividades económicas repartem-se por três sectores: o primário, que inclui a agricultura, a silvicultura, a pecuária, a pesca e a exploração mineira; o secundário, que inclui as indústrias transformadoras, a construção e a produção de energia; o terciário, que integra o comércio e os serviços. No início do século XX, o sector terciário era incipiente. O aumento gradual da sua importância foi uma consequência das transformações na economia e na sociedade ocorridas durante a era do carbono. Aliás, o caso português é um bom exemplo disso: segundo dados do INE (Estatísticas do Emprego), em 1974, 35% da população ativa trabalhava no sector primário, percentagem que em 2012 tinha baixado para 10%; no mesmo período, a população ativa no sector secundário passou de 34% para 26%; enquanto, em contrapartida, o sector terciário que ocupava 31% da população ativa em 1974, empregava já, em 2012, 64% dessa mesma população.

Caraterizada pela adoção da comunicação interativa possibilitada pela internet, a revolução que está em curso - a quarta na história da civilização, depois da linguagem, da escrita e da imprensa – representa um novo salto em frente da humanidade. Com ela, está a nascer a economia hiperglobal. A estrutura da população ativa, as relações de trabalho, e até a forma de viver, estão a mudar. A mobilidade e as telecomunicações estão a provocar a uniformização dos gostos e dos consumos, não só de bens físicos como culturais. Generaliza-se a adesão ao comércio on-line e aparecem novas formas de vender e de fazer publicidade. Emergem novos produtos e serviços relacionados com a nova forma de comunicar - quer de hardware quer de software. A informação flui massiva e livremente na rede, e até a inteligência, materializada numa vasta panóplia de aplicações informáticas, passou a ser um produto comercial. Afirmam-se poderosas empresas de um novo tipo – a Microsoft, a Google, a Apple, o Facebook, ... . Está a mudar o modo como as pessoas se relacionam e se informam. As redes sociais, e o livre acesso à informação e ao entretenimento, estão a provocar forte impacto nos meios de comunicação tradicionais. Lêem-se menos livros e menos jornais. Ouve-se menos rádio; vê-se menos televisão. Na atualidade, estou em crer que a maior parte do nosso tempo de vigília já é passado em interação com ferramentas digitais.

Na nova economia, aos poucos, começa a definir-se e a ganhar peso um novo sector de atividade que poderemos designar de quaternário ou de quarto sector. O automatismo e a robotização estão a chegar aos serviços. Os transportes dispensam cobradores, revisores e até condutores. Os serviços financeiros, o comércio, o turismo, a hotelaria, estão a libertar mão de obra. A era digital está a eliminar muitas das antigas funções das indústrias gráficas e das comunicações. Enfrentamos este paradoxo: a população mundial aumenta, mas o emprego diminui, pois as necessidades de pessoas para trabalhar são agora menores. Será que o quarto sector vai absorver os excedentes de mão de obra provocados pelas transformações em curso?

Com a hiperglobalização, na minha opinião, a sociedade enfrentará novos e graves problemas. Não se criarão empregos suficientes para compensar os que se destroem. Estamos a afundar-nos na perigosa e arriscada dependência da crescente complexidade. A hiperglobalização irá acentuar ainda mais as dissonâncias entre a natureza e a economia. Os recursos continuarão a consumir-se de forma irracional, o planeta continuará a aquecer, as abelhas continuarão a morrer, a biodiversidade continuará a reduzir-se. Estamos já a manipular os genes dos seres vivos e a interferir com a própria identidade das espécies.

A nova economia herdou da velha o seu carácter mercantilista. Não resolverá problemas sociais e não promoverá igualdades. Alguns ricos ficarão mais ricos; muitos pobres ficarão ainda mais pobres. O desemprego crescente alimentará uma onda imparável de indignação e revolta. Os políticos e os economistas, obcecados apenas com o crescimento, só acordarão quando a casa comum estiver a arder.

segunda-feira, 14 de março de 2016

A Quarta Revolução

Se uma máquina do tempo nos transportasse ao início da glaciação de Wurm, que ocorreu há cerca de 35.000 anos na Europa, encontraríamos, no território que é hoje Portugal, dois tipos de homens: o homem de neanderthal e o homem de cro-magnon. Estas subespécies do homo sapiens eram diferentes. Na aparência física, no modo de vida, nas armas e utensílios que utilizavam e até nas suas habilidades para caçar. Não se sabe ao certo como se relacionavam nem se chegaram a acasalar. Mas sabe-se que lutaram entre si na disputa pelos melhores territórios e pelos melhores abrigos. Do confronto entre eles, havia de emergir, como vencedor, o homem de cro-magnon, o nosso direto antepassado.

Não terão sido nem a força física nem o tamanho do cérebro os fatores que determinaram o ascendente do homem de cro-magnon (homo sapiens, sapiens) sobre o homem de neanderthal (homo sapiens, neanderthalensis). Na opinião de Jared Diamond, expressa no livro "O Terceiro Chimpanzé", o fator decisivo foi um pensamento mais inovador, e, sobretudo, a linguagem. A linguagem permitiu ao homem de cro-magnon exprimir-se, partilhar conhecimentos, experiências e emoções; ordenar, comandar, enfim, relacionar-se socialmente. E, deste modo, cooperar e trabalhar em equipa. Com a linguagem deu-se o primeiro grande salto em frente; iniciou-se a empolgante caminhada da Humanidade.

A escrita, que terá surgido em mais do que um lugar há cinco ou seis mil anos, foi o segundo grande salto. A escrita permitiu criar registos e fixar conhecimentos. Sem escrita, não teria havido Bíblia nem Corão, e nada saberíamos hoje do luminoso pensamento dos filósofos gregos, nem do rigor dos códices romanos. É difícil imaginar a história sem a escrita. Ora, em boa verdade, sem escrita não teria havido história.

O terceiro grande salto ocorreu no final do século XV com o aparecimento da imprensa. Então, criaram-se condições para difusão da ciência e da informação, até essa altura, guardadas em manuscritos, gravados em papiro ou pergaminho, nas bibliotecas conventuais. A circulação dos livros e dos folhetos fez nascer a literatura - no sentido com que hoje a entendemos - , criou a opinião pública e abriu as mentes ao livre pensamento. A Reforma resultou da difusão das objeções aos dogmas do catolicismo. A Renascença surge da possibilidade de revisitar e difundir a literatura, a filosofia e o pensamento clássico. O grande desenvolvimento da ciência, o iluminismo, os enciclopedistas são outras consequências da nova forma de comunicar proporcionada pela imprensa...

Agora estamos a viver o tempo do quarto grande salto em frente. Refiro-me à internet, que nas duas últimas décadas se impôs como forma de comunicar. Trata-se de uma nova etapa na linha da evolução, precedida que foi pela linguagem, pela escrita e pela imprensa. Estes saltos estão associados a um aumento da complexidade. A linguagem resultou de uma mera evolução anatómica. Com a escrita, à nova capacidade associaram-se algumas ferramentas: o estilete, a argila mole, a tinta e o papiro. A imprensa precisou de uma tecnologia mais elaborada: a fusão dos caracteres, a mesa de composição, a tipografia, para já não falar da fabricação do papel. A internet  exige uma complexa base tecnológica e energética. Falo da computação (o software) e dos suportes de escrita, visualização e arquivo de dados (o hardware), sem esquecer a base de tudo que são a rede elétrica que fornece a energia e a rede de comunicações que transporta os sinais digitais. Com a internet, a espécie humana entrou num caminho evolutivo irreversível. Um caminho que não admite retorno, pois a natureza não aceita a desevolução. E um apagão digital interferiria seriamente nas nossas vidas. A acontecer seria o caos nas transações financeiras, na cobrança de impostos, nos pagamentos, nas comunicações, na logística das redes de abastecimentos, na saúde, na educação, na justiça, etc.

Estamos no limiar de uma nova era, e ainda mal nos apercebemos das transformações que ela irá trazer. Entre cada novo grande salto o tempo que os separou encurtou-se de forma drástica: trinta mil anos mediaram entre a linguagem e a escrita, cinco mil entre a escrita e a imprensa, quinhentos entre a imprensa e a internet. A manter-se esta progressão decrescente, podemos deduzir que estaremos a uns meros cinquenta anos do quinto grande salto. Porém, não vale a pena arriscar previsões sobre a sua natureza, mas é seguro que ele trará mais complexidade - e também riscos acrescidos! - à organização da sociedade.

Cada vez estamos mais distanciados do homem de cro-magnon que há 35.000 anos deu o primeiro grande salto e se impôs ao homem de neanderthal. Às vezes, interrogo-me sobre o que mudou verdadeiramente na nossa natureza, e se não terá chegado o tempo de começarmos a contabilizar tudo o que ganhámos e tudo o que perdemos ao longo destes anos.