segunda-feira, 27 de abril de 2015

Mudar de Vida, segundo Teodora Cardoso


Teodora Cardoso, exprimindo-se no seu bom economês, esteve há dias no Grémio Literário  onde interveio no ciclo "Que moeda, que soberania, que futuro ?",  organizado pelo Grémio em parceria com o Clube Português de Imprensa e com o  Centro Nacional de Cultura. Para a conceituada economista - cujo pensamento procuro reproduzir neste texto - foi a entrada na UE, em 1986,  que, permitindo um fácil endividamento externo, alterou a estrutura da nossa economia. De tal forma que, no respeitante à dimensão da dívida, não se pode comparar a situação atual com a que foi vivida na crise de  83/84, onde a quebra dos salários reais até foi superior à verificada na situação presente.

O acesso a novas fontes de financiamento externo barato, a estabilidade monetária e cambial trazida pela moeda única condicionaram as opções politicas. Apostou-se no crescimento a curto prazo impulsionado pela  construção, pelo comércio e pelos serviços.  Daí resultou, no final da década de 80 e na de 90,  um impulso da atividade económica e do consumo, em paralelo com um forte desenvolvimento da atividade financeira . Tudo foi financiado pela divida.  Supriram-se  carências, foram construídas infraestruturas e investiu-se no capital humano, e isso é hoje o nosso principal ativo. Mas na indústria e nos serviços qualificados a produtividade estagnou.

Alterou-se também  a situação anterior caraterizada pela existência de  mão de obra barata e que nos poderia ter trazido, no contexto europeu, algumas vantagens. Mas ocorriam, entretanto, a nível global mudanças - que nos apanharam distraídos! -  que vieram alterar essa situação:  a implosão da União Soviética, e a subsequente adesão de novos países à UE e  o desenvolvimento acelerado dos mercados asiáticos, que,  com milhões de trabalhadores com salários mais baixos, ofereciam condições com as quais o nosso país não podia competir.

Das opções de curto prazo resultou uma enorme vulnerabilidade da economia que veio ao de cima com a eclosão da crise de 2008. Veio a troika, impuseram-se as medidas de austeridade . Mas cuidado! - alerta a economista - tudo isto é reversível e esse é o maior risco que enfrentamos. A partir de agora o crescimento já não pode ser suportado pela divida. A grande questão é, pois a de saber como crescer.  A palavra chave é produtividade:  há que fazer uma reafetação dos recursos, mudar de vida, mudar de modelo. E, claro, pagar a dívida. Não pagar não é possível -veja-se o caso da Grécia - e reestruturar, como alguns defendem, já se está a fazer..,

Temos algumas vantagens para enfrentar as mudanças necessárias:  boas infraestruturas e capital humano. A Europa pode ajudar, mas é necessária maior coordenação de políticas económicas. Decisão que passa pelo reforço do federalismo e  remete para a delicada questão da soberania. A nível interno torna-se necessário reforçar a capacidade reguladora da economia, o que exige quadros qualificados.

Teodora Cardoso concluiu a sua exposição dizendo que chegou a altura as opções e não é possivel regressar ao modelo anterior.  Precisamos de  um estado mais forte, mais eficiente e capaz de pagar melhor aos seus quadros. E que o debate que ainda está por fazer.

Eu ouvi com interesse e atenção as recomendações de quem sabe do que fala. Não consegui ainda perceber os contornos do novo modelo de que fala Teodora Cardoso. Suspeito que precisamos mais do que um novo modelo, precisamos de uma nova economia que, antes de tudo, questione o dogma do imperativo do crescimento.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Encontro de Gerações

A minha envolvência com os programas Nepso e Rato de Biblioteca da Fundação Vox Populi, dirigidos às escolas, aproximou-me dos jovens alunos e de jovens professores. Isso tem sido uma coisa boa, pois aprendo com eles, ao mesmo tempo que me vou dando conta dos seus problemas, das suas angústias e das suas inseguranças. Os jovens são a única esperança duma Europa envelhecida, decadente e desorientada. E, muito em particular, do nosso país, onde esses fatores estão bem presentes. Nestes contactos apercebo-me que está a erguer- se um muro no caminho da vida destes jovens, e que a desorientação se apodera deles. Não se lhes traçou um rumo, faltam crenças e valores, existe um vazio espiritual, que o espaço aberto pelas redes sociais colmata em parte - não sei se para bem se para mal! -, mas não consegue preencher.

A geração dos mais velhos, que cresceu no pós guerra e viveu a euforia da era da urbanização e da alegre motorização, acreditou que o festim do crescimento continuaria indefinidamente. Como consequência dessa crença, os filhos e os netos desta geração foram preparados - pela família, pela sociedade e pela escola – para o que se acreditava ser um mundo consumista, pleno de oportunidades, facilidades e empregos. Mas com o aproximar do fim da idade da abundância - de que a crise iniciada em 2008 foi apenas o primeiro sinal - está a agudizar-se a dissonância e a aumentar o gap entre a geração dos mais velhos e dos mais jovens.

Estamos a dar-nos conta que os jovens não têm empregos nem perspectivas de o conseguirem, não encontram caminhos, desesperam, olham para o exterior e procuram emigrar. Quando o conseguem, deixam atrás de si uma terra abandonada, com menos esperança e com o seu futuro ainda mais comprometido. Já ninguém fala de patriotismo, desvanecem-se as tradições, diluiu-se a cultura, despreza-se a religião. Estamos, tranquilamente, à espera que alguém venha ocupar o território desertificado...

Até meados do século passado, na Europa de economia predominantemente rural, os filhos eram um ativo. Nas famílias numerosas a solidariedade intergerações protegia os mais velhos e os mais necessitados. Com o advento do Estado Social, os filhos continuam a ser um ativo sentimental, mas passaram a ser um passivo económico. Já não contam para amenizar a velhice e, antes pelo contrário, esperam dos pais o apoio que a sociedade lhes começa a negar. E muitos já começam a descrer da família como aspiração e projeto de vida.

Neste contexto, a questão do envelhecimento - ou se quiserem do decréscimo da natalidade - preocupa os governantes. Estamos agarrados a velhas crenças, acreditamos que tudo voltará a ser como dantes. Existe até a ilusão de que poderá haver uma inversão natural da tendência da quebra da natalidade. Ora isso nunca poderá acontecer de forma espontânea, pois a sociedade está a sofrer de uma grave doença degenerativa, de difícil tratamento e prognóstico pouco favorável. Meter a cabeça na areia não vai resolver o problema.

Vivemos numa encruzilhada da Civilização. O crescimento devorou recursos, aumentou a poluição e acentuou os desequilíbrios ambientais. Os povos dos países emancipados no pós guerra vieram sentar-se à mesa do banquete e disputam as benesses do crescimento, e reclamam a sua parte do bolo da riqueza económica. Fora da Europa, produz-se mais e vive-se pior. E, paradoxalmente, dentro da Europa produz-se menos e vive-se melhor. Só que isso não vai durar sempre...

Deixamos, é certo, aos nossos filhos a promessa de uma vida mais fácil e um vasto património que eles vão ter de manter. Mas que valores, que crenças e que rumo lhe apontamos? Quais os caminhos que lhe mostramos? A educação para o sucesso e para a competitividade deu-lhes armas que pouco lhes irão servir na luta pela sobrevivência num mundo perigosamente minado.

Chegou a hora de começarmos a preparar o Encontro de Gerações.


segunda-feira, 13 de abril de 2015

Deus e a Flor

Quando, na idade dos porquês e influenciado pelas aulas de catequese, um dos meus filhos me perguntou: - Pai, Deus existe? , senti a pesada responsabilidade da resposta (fosse ela qual fosse!) e optei por focá-lo no problema. - Filho, esta é uma resposta que tu próprio vais ter de encontrar. E confrontei-o com as paradoxias da criação da Matéria, da origem da Vida, e da centelha que foi o aparecimento da Inteligência nos humanos. Só não lhe falei da Morte! – uma criança não entende a Morte - e do mistério que ela encerra. Ele, pensativo, anuiu que sim, que Deus deveria existir, mas acrescentou um desabafo de racionalidade bíblica: - Só que já para aí há uns dois mil anos que ele não faz nada, não achas?!

Esta história faz-me lembrar outra de um amigo, católico praticante, que me confessava a sua dificuldade em admitir como é que Deus, no dia do Juízo Final, iria julgar tantos milhões de seres humanos, sendo que cada um teria o seu processo individual, com o direito a apresentar as suas razões, a justificar os seus atos, a invocar as suas atenuantes...Estou a referir-me, claro, ao Deus dos judeus que, incarnado em Cristo ou exprimindo-se pela palavra de Maomé, tanto influenciou - e continua a influenciar - a Humanidade.

Primeiro, Galileu destronou a Terra como centro do mundo; depois, Darwin questionou o Homem como o eleito da criação; finalmente Freud mostrou a fragilidade da alma humana. E, à medida que vamos penetrando nas profundezas do Universo, que percecionamos a sua imensidão e antevemos muitos outros mundos vivos - e inteligentes! -, para além do nosso, parece fechar-se o espaço para esse Deus. A causa disto reside na crença de que Deus criou o Homem à sua imagem, quando o que aconteceu foi exatamente o contrário: o Homem criou Deus à sua imagem. E como o Homem e a sua imagem estão a mudar - e de que maneira! - Deus vai ter também de mudar.

Mas, à medida que se reduz o espaço para Deus no Universo, parece ampliar-se o espaço para Deus dentro da mente dos homens. A inteligência deu ao homem a capacidade de fazer escolhas, o livre arbítrio. Ora, é nas escolhas que o homem se confronta com o divino, pois em cada escolha o homem está confrontado com o seu Eu, com a sua Mente e com Deus. Este Deus interior tem de ser ativamente procurado - pode até ser necessário construí-lo! -, ele é uma parte desse éter que tudo enforma, que tudo explica, que é positivo, criador, inspirador e fonte de Vida.

Hoje, não sei se teria respondido da mesma maneira ao meu filho. Talvez lhe tivesse pegado na mão e o tivesse levado a procurar a flor mais singela do campo e lhe tivesse dito - Deus está dentro desta flor, vamos ver se conseguimos descobri-lo!

Encontrar Deus dentro de si próprio e, com sacrifício do Eu, saber dar-lhe expressão nas escolhas da vida, é próprio da natureza dos homens bons, dos sábios e dos santos.


segunda-feira, 6 de abril de 2015

Depois da Crise

Naquele final de verão de 2008, com a falência do Lehman Brothers e o desmoronar de grandes seguradoras, intermediários financeiros e hipotecários, tudo parecia ruir. O espectro da grande recessão dos anos 30 do século passado - algo que se considerava irrepetível! -dominava as notícias. Falava-se de uma crise financeira, do rebentamento de uma bolha de crédito hipotecário imobiliário nos EUA - o subprime - que provocava efeitos devastadores no mercado financeiro e nas bolsas. O aparentemente sólido sistema financeiro americano parecia ruir como um castelo de cartas. As casas perdiam valor, os proprietários em incumprimento eram despejados, os bairros fantasmas de casas recém construídas e sem compradores, estavam ao abandono. Homens de reputação, antes insuspeita, eram presos e biliões de dólares esfumavam-se sem se saber como nem para onde.

Depois foi o alastrar da crise à Europa e ao mundo. Surgiu a chamada crise das dívidas soberanas que teve em Portugal o efeito conhecido. Tomámos consciência de que estávamos a viver acima das nossas possibilidades. De um momento para o outro, as pessoas habituaram-se a viver com menos, perceberam que os empregos não eram para a vida, que um diploma universitário não era garantia de emprego, que as reformas não estava asseguradas apenas porque tínhamos feito descontos durante uma vida de trabalho. Percebemos que os bancos podiam falir, que as poupanças podiam esfumar-se e que o estado social poderia estar em risco. Enfim, o sonho de crescimento infinito e ilimitado desfazia-se. A segurança trazida pelo euro começou a ser questionada, instalou-se o descrédito na Europa das nações, o realismo desfez os sonhos megalómanos do TGV, do novo aeroporto, de autoestradas para cada aldeia do país.

Passados quase sete anos, poderemos afirmar que entendemos a crise, a sua génese e as suas consequências? Mais do que uma crise económica e financeira, esta foi uma crise civilizacional, eu diria até antropológica. Pois não foi ela um sobressalto para o devir da Humanidade e uma dúvida sobre a capacidade dos homens tudo superarem? Uma das lições desta crise global foi a rapidez do seu alastramento, a sua persistência e a constatação da frágil interdependência das componentes do sistema económico. Percebemos que existem limites ao crescimento, e que eles podem estar mais perto do que antes suspeitávamos. O que se passou de facto foi um desajustamento entre o crescimento financeiro - virtual e gerado pelo crédito- e o crescimento económico - real e correspondente à riqueza produzida.

Começa agora a instalar-se nas mentes a ideia de que a crise já terá sido superada. A economia sugeriu a fuga para a frente como solução e nós entrámos no jogo. A receita de mais consumo como remédio para ultrapassar as dificuldades parece estar a resultar: a vida continua a ser governada pelo horário das telenovelas, as vendas de automóveis voltam a disparar, os hotéis voltam a encher-se, o preço das casas começa lentamente a subir. Muitos voltam a sonhar com viagens e férias em destinos longínquos. E até o petróleo ficou mais barato...

Mas se olharmos para o que se passa no mundo, questionamos esse otimismo: as tribos preparam-se para o confronto dentro da Europa; na África, a população rebenta pelas costuras e ameaça invadir a Europa do sul; no Médio Oriente, em ebulição, culturas milenárias são destruídas no meio da desorganização social e do extremismo religioso...A China está cada vez mais disforme e poluída, a Rússia sem gente e sem espaço político, a Europa desunida e sem estratégia, a Índia prenhe de gente, de desigualdades e de contradições, a América Latina é uma grande favela. Nos anos vindouros, as tensões demográficas, provocadas pela explosão da natalidade nos países mais pobres e pelo envelhecimento nos países mais ricos, vão ampliar-se; os conflitos sociais vão agravar-se; as desigualdades entre países e entre pessoas vão acentuar-se. Apesar dos avanços tecnológicos nas energias renováveis - sobretudo na solar - a dependência da energia fóssil está longe de estar resolvida. E o risco da dependência da economia nas vulneráveis redes digitais é uma ameaça constante e crescente.

Em boa verdade, vivemos a primeira grande crise de crescimento que nos alertou para muitas questões. Alguns começaram a olhar para o campo com outros olhos. As questões ambientais ganharam força. Começa a esboçar-se uma maior preocupação com questões de ética, com a espiritualidade e com a solidariedade. Acredito que a próxima crise não nos apanhará tão desprevenidos como aconteceu desta vez.


segunda-feira, 30 de março de 2015

O Envelhecimento do Interior

O progressivo envelhecimento da população portuguesa, que a nível da totalidade do território é muito preocupante, atinge nos concelhos da Beira Interior a sua mais acutilante expressão. Esse envelhecimento tem-se traduzido numa diminuição acentuada da população desses concelhos ao longo das últimas décadas, e caracteriza-se por uma alteração significativa da sua estrutura etária. Ao invés do que acontece nos territórios rejuvenescidos, nos concelhos do Interior a pirâmide de idades engrossa de baixo para cima.

O concelho de Almeida é um exemplo bem representativo dessa situação. No recenseamento de 1960 foram aqui contabilizados 5024 jovens com menos de 15 anos e 1153 idosos com mais de 65 anos. No recenseamento de 2011, o número de jovens baixou para 592 e o de idosos subiu para 2673. Ou, dito de outra forma e em termos aproximados, em 1960 existia um idoso por cada 5 jovens, e em 2011 existem 5 idosos por cada jovem. A relação entre o número de idosos e o número de jovens, multiplicada por 100, é o chamado coeficiente de envelhecimento que assumiu, em Almeida, os seguintes valores:
1960   - 23 
2001 - 271 
2011 - 452

Com a natalidade bruta muito baixa e em decréscimo - entre 2 a 3 nados vivos por cada mil habitantes, em cada ano -, com o aumento da esperança de vida e com o previsível retorno de reformados emigrados às suas localidades de origem, o coeficiente de envelhecimento vai, seguramente, agravar-se nos próximos anos. Estimo que em 2021 o seu valor possa estar mais perto de 1000 do que de 500, configurando-se uma situação inédita e potencialmente desoladora para a região.

Quais as consequências desta realidade? Em primeiro lugar, será de esperar que a população escolar do concelho continue a diminuir. Na última reunião do Conselho Geral do Agrupamento de Escolas de Almeida - de que faço parte -, alguém referiu que terão nascido 12 crianças no concelho de Almeida durante o ano transato. Estas crianças serão insuficientes para formar uma turma quando chegarem à idade escolar. Uma das duas escolas do Agrupamento poderá ter de ser sacrificada e até a continuidade da outra estará em risco. Eventualmente, dentro de uma dúzia de anos, uma boa escola inter-concelhia poderá ser suficiente para cobrir as necessidades de dois ou mais concelhos do Interior raiano.

Se entretanto nada for feito, a desertificação populacional vai progredir, e afetará a já reduzida população ativa. Menos alunos, significará menos professores. E menos professores significará menos comércio, menos casas arrendadas, menos empregos. Com o tempo, escassearão os idosos e as próprias estruturas de apoio à terceira idade tornar-se-ão excedentárias. Logo, haverá redução de empregos num dos únicos sectores fora da administração pública que ainda emprega pessoas.

Sem outras medidas paralelas, estimular a natalidade não é solução. Pois tal com acontece com as sementes que só germinam na terra fértil, também o problema de Almeida é, antes de tudo, a falta de uma população em idade fértil capaz de se reproduzir. Ora, tal como disse Albert Bartlett, o planeamento demográfico exige tempo, e são precisos 70 anos para inverter tendências. Na verdade, com a gravidade do panorama atual só uma revolução será capaz de alterar este estado de coisas.

A gravidade da situação é tal que já não se pode esperar pelos censos de 2021 para confirmar o diagnóstico do mal. Chegou a altura de tocar a rebate. Em junho de 2014, propus na conferência promovida pela Associação dos Territórios do Côa, realizada em Vilar Formoso com o tema Partilha de Testemunhos Rumo ao Horizonte Próximo, a criação um observatório demográfico - e, eventualmente, económico e social -, que permita antecipar a evolução previsível de indicadores e planear as medidas a tomar. Torna-se cada vez mais urgente concretizar essa proposta.

A gestão corrente, quase exclusivamente focalizada na procura de formas para aceder aos fundos comunitários, funciona como uma droga: adormece mas não cura. O repovoamento, em paralelo com a revitalização do tecido económico, deve ser a prioridade número um do concelho. Para tal é necessário, com o apoio e intervenção da administração central, alterar as leis da terra - sem ofender direitos e tradições -, atuando preferencialmente pela via fiscal e incentivar a fixação de novos povoadores à semelhança do que já se faz em Alfandega da Fé. As riquezas de Almeida são a terra, a história, a cultura e o valor do ambiente- felizmente ainda preservado. Valorizar estes fatores, e transformá-los em formas de atração de pessoas e de desenvolvimento económico, é o único caminho a seguir para construir o futuro.


segunda-feira, 23 de março de 2015

O Admirável Tempo Novo

A evolução tecnológica ocorrida nas últimas décadas foi impressionante. Foram necessários 120 anos para o telefone fixo atingir mil milhões de utilizadores, mas o Facebook atingiu esse número ao fim de oito anos. Muitas das inovações ocorridas estão a alterar de uma forma disruptiva o dia a dia das pessoas. Pensemos na máquina fotográfica de rolo, na calculadora de manivela, no telex, no telefone de disco, na máquina de escrever, no papel químico, no gravador de fita, nos discos de vinil, nas fitas dos filmes, nas cartas enviadas dentro de envelopes selados. Pensemos no tempo em que o dinheiro se levantava aos balcões dos bancos e não havia cartões de crédito. Hoje, tudo isto nos parece obsoleto, mas este era o mundo de há 40 anos, no qual muitos de nós crescemos.

No século XIX, o sentido da inovação foi sobretudo mecânico: o progresso era sinónimo de grandes máquinas com complexas engrenagens. O século XX foi o século da eletricidade, do néon, do transístor e das ondas hertzianas; foi o reinado do eletrodoméstico, da rádio e da televisão. O século XXI é o século digital que associa a informática e as telecomunicações. É o reinado do microprocessador, é o tempo da internet e do multimédia. Está a ocorrer uma revolução na forma de comunicar que, a nível civilizacional, só tem paralelo com a revolução que foi a invenção da escrita. Só que a atual é universal, interativa, global, e está a desenvolver-se de forma muito mais rápida.

Sobretudo junto dos jovens, o tempo passado a usar o smartphone, o tablet ou o computador pessoal ocupa o tempo antes usado na leitura, no desporto e/ou no convívio. As grandes tendências são o envio de mensagens, o entretenimento - os jogos, a música, os filmes -, as transações comerciais, as redes sociais, a conversa em grupos, a pesquisa de informação. Os aparelhos eletrónicos já são como que uma extensão do nosso próprio corpo, em que as mãos são o principal interface entre a mente e os ecrãs táteis desses aparelhos.

Ocorrem-me estas reflexões a propósito do recente anúncio das inovações da Apple para este ano. Acentua-se a miniaturização, aumenta a capacidade de armazenar dados, torna-se mais rápido o seu processamento, acresce a autonomia das baterias. As aplicações - as novas ferramentas - sofisticam-se e multiplicam-se com grande rapidez. Abre-se uma nova frente de produtos: os adereços inteligentes, com o relógio de pulso e os óculos a tomar a dianteira. Tim Cook, o CEO da Apple, diz que existem 700 milhões de Iphones (um para cada dez habitantes do planeta!). No domínio do digital, a capacidade de produzir inovações aumenta mais rapidamente que a capacidade de as absorver!

É difícil prever o que nos espera nos próximos 40 anos. Muitos já se interrogam sobre se será o homem mais livre e mais feliz em resultado deste progresso anunciado. Na economia liberal as aplicações são desenvolvidas numa ótica de mercado, pretendem responder a necessidades - reais ou criadas pelas próprias aplicações -, satisfazer anseios individuais. Não existe uma valorização ética ou moral, nem uma avaliação coletiva do seu impacto - sobretudo de longo prazo - ou do seu interesse social. A dependência destas novas tecnologias acentua-se sobretudo entre os jovens. Ora, se a dependência das drogas é licitamente condenável, por que razão não condicionar o uso de certas aplicações ou tecnologias que criam dependências porventura ainda mais graves?

Os factores que condicionam a inovação são sobretudo técnicos e económicos, mas existem implicações políticas, sociais, legais e ambientais que importa acautelar. Os desenvolvimentos são feitos numa ótica individual e de curto prazo. Por exemplo, surgem muitas aplicações para gerir a saúde que são importantes para aumentar a esperança de vida, o que sendo uma coisa boa para os indivíduos, pode ser má para a espécie que passa a envelhecer, a exigir cuidados acrescidos e a reproduzir-se menos. Também as inovações subjacentes à revolução agrícola - falo dos transgénicos, da certificação das sementes -, aumentam a produção, uniformizam, padronizam, extinguem espécies. São uma coisa boa para a espécie, no curto prazo, pois permitem alimentar mais pessoas. Mas são, a longo prazo, uma coisa má para a biodiversidade e para a sustentabilidade do planeta... Afinal um risco para a própria sobrevivência da espécie humana.

O sucesso da tecnologia cria nas mentes a ilusão de que o homem conseguirá tudo: que conquistará o Universo, que explicará a criação da matéria, da vida e a inteligência. Mas convém estar atento às armadilhas da inovação!

segunda-feira, 16 de março de 2015

Lampreia

Os olhos da educadora Manuela - para os meninos e para os amigos, a Nélinha- brilham quando conta a história que a levou a embarcar com os seus meninos, no rio Minho, numa tarde fria de Fevereiro, para pescar lampreias. Foram quatro os ciclóstomos capturados: - Sim, não são peixes, repisa ela, com ares de quem sabe daquilo de que está a falar.

Afinal a Vitória, uma menina de 5 anos, filha de um pescador do rio, foi a responsável desta aventura ao ter sugerido que aquilo que lhe interessava mesmo era estudar a lampreia, quando a educadora perguntou na sala de aula qual a coisa nova que gostariam de aprender este ano. A Vitória até já sabia que as lampreias nasciam no rio Minho e viajavam até ao Canadá montadas nas costas de outros peixes. A educadora sorriu com um disfarçado desconforto mental, ela que até nem gostava de lampreia. Mas a proposta da Vitória acabou por ser a escolhida para o projeto Rato de Biblioteca da Fundação Vox Populi, que no presente ano letivo propôs às escolas investigar sobre a origem das coisas.

Na Escola EB1 de Caminha, durante o presente ano letivo, os alunos da pré primária das educadoras Manuela e Maria José estão a estudar a lampreia. E é tal o entusiasmo que já contagiou as famílias dos alunos, a escola e a comunidade. O primeiro envolvido foi o Comandante da Capitania do Porto de Caminha - o capitão-tenente Rodrigo Gonzalez dos Paços – que veio à Escola explicar, entre muitas outras coisas, as regras das pescas e esclarecer que só se pode pescar a lampreia durante quatro meses no ano.

 Ao descobrirem que ali perto havia um especialista do assunto, o biólogo Carlos Antunes, fundador e responsável pelo Aquamuseu do Rio Minho em Vila Nova de Cerveira, trataram as educadoras de o trazer à Escola para falar com os meninos. Que grande satisfação e orgulho sentiram quando o biólogo lhes disse que o rio Minho era um rio especial que faz fronteira entre dois países. E qual não foi o espanto, quando acrescentou que ele põe um chip em algumas lampreias para se poder ficar a saber onde elas se encontram quando vão para o mar - o que levou o Gonçalo a perguntar se aquilo era um telemóvel para elas telefonarem a dizer onde estavam!

Quando o Presidente da Câmara de Caminha foi convidado a vir à escola, não esperava certamente receber uma lição de meninos tão pequenos, que lhe explicaram, timtim por tintim, que a lampreia não era um peixe, mas sim um ciclóstomo, que tem sete orifícios branquiais, que põe os ovos debaixo das pedras lá para cima de Melgaço, que demora alguns anos até se tornar adulta, e que aquela boca redonda serve para sugar o sangue de outros peixes aos quais elas se fixam - moderadamente para não matar quem as alimenta. Explicaram quando e onde se pesca, e até esclareceram que as lampreias já existiam na terra antes dos dinossauros.

Quando, no dia 13 de março - dia de greve da função pública -, chegámos à escola de Caminha a mesa já estava posta. O cheiro inconfundível do arroz de lampreia rescendia da cozinha da escola onde as mães das crianças e as auxiliares a tinham escalado e preparado com carinho, esmero e competência. Estavam lá todos: o Comandante do Porto de Caminha, o Presidente da Câmara, o Presidente da Junta, a Diretora da escola, vários professores e, claro, as crianças. Nós, Eu e a Paula, éramos os senhores da Fundação Vox Populi que os tinham conduzido a esta aventura. Houve tempo de conviver, de partilhar a alegria que transbordava, de saborear a iguaria acompanhada do vinho verde tinto e de provar alguns doces típicos de Caminha.

Falando na hora do café, a Diretora da Escola confessou que, no início, tinha encarado este projeto com alguma reserva, mas que agora estava completamente rendida, aproveitando para realçar e destacar o trabalho das educadoras. Rematou dizendo que, nos tempos que correm com tantas fontes de informação à disposição dos alunos, o mais importante na missão dos professores e educadores é ensinar a descobrir.

Estes meninos nunca mais esquecerão as lições deste jardim de infância, e - mais importante que tudo - aprenderam quais os caminhos que levam à descoberta que lhes será útil pela vida fora. Quando deixámos Caminha para trás, em direção a Ponte Lima, levávamos connosco a grande alegria de ter contribuído para ajudar a preparar o futuro dos jovens deste país.