A iniciativa do Expresso de publicar, em fascículos, um livro sobre a cultura Ocidental e a entrevista que Eduardo Lourenço, o prefaciador do primeiro volume, deu àquele jornal, suscitaram-me esta reflexão. O assunto é aliciante, se considerarmos que uma sociedade é a simbiose de uma componente biológica e de outra cultural. Que evoluem a velocidades diferentes.
Não me proponho falar do conceito de cultura individual, que significa os conhecimentos que cada um de nós tem e a compreensão que faz do mundo que nos rodeia. Refiro-me à cultura associada a um grupo social. Que integra os conhecimentos, as crenças, os costumes e todas as representações que deles se fazem através da expressão oral, escrita e artística. A cultura reúne a acumulação de conhecimentos e saberes transmitida ao longo de gerações. É como se a cultura de um povo fosse a sua alma, a sua memória coletiva. A cultura é reflexiva - como diz Lourenço, é o diálogo da Humanidade consigo própria. Cada homem é um agente, mas também um produto da cultura onde se insere. Sem inteligência não existe cultura, e, por outro lado, é à luz da cultura e no seio dela que a inteligência se exprime.
Podemos, com propriedade, falar de diferentes culturas: a cultura ocidental, a cultura chinesa, a cultura oriental, as culturas que os europeus encontraram nas Américas, etc. Hoje a cultura é global, ou tende a ser global. Isso enfraquece a cultura, transformada numa monocultura. Deste modo, perde-se muita da antiga fertilização que resultava do cruzamento de culturas.
A cultura é evolutiva; ela transforma-se e adapta-se a cada época. A cultura para se difundir pressupõe um sistema de comunicação e de um processo de registar o conhecimento e o saber. Ao longo da história foram a linguagem, a escrita e a arte que desempenharam esse papel. A internet abre novas e imensas potencialidades para a sua disseminação, mas também para a evolução da cultura. Estamos no limiar de uma revolução cultural. No entanto, convém não esquecer a fragilidade que está associada à dependência da tecnologia e à volatilidade dos registos digitais. Esta revolução pode levar-nos ao Paraíso. Mas, pode conduzir-nos ao Inferno...
Os conceitos de bem e de mal estão enraizados em cada cultura. Como disse Lourenço, ela leva-nos a separar o aceitável do inaceitável. Na base de qualquer cultura estão os valores, aquilo que alguns designam por referências culturais. Em cada época, em cada sociedade, existiram diferentes referências de valores. Na sociedade atual são importantes valores como a Liberdade, a Democracia e os Direitos Humanos, e não longe vai o tempo em que, entre nós, se afirmavam os valores da trilogia Deus, Pátria e Família.
A cultura não pode dissociar-se dos três pilares em que assenta a organização social: a religião, a economia e a política. A religião, que noutros tempos foi a matriz de muitas culturas, está dar lugar à economia que tudo comanda, e faz do sucesso, do consumismo, do dinheiro valores afirmativos e proeminentes da cultura dos nossos dias. A política acaba por se escudar na defesa do status cultural vigente, e na perpetuação no poder de uma elite de governantes. Mas esses pilares - no plano religioso, económico e político- são hoje postos em causa, sobretudo, pelos jovens que se manifestam e se indignam. Além disso, defendem uma contracultura como se fosse o negativo da cultura estabelecida.
O ser humano é o ser da escolha; por isso, a educação desempenha o papel central, pois é a forma de transmitir a cultura de uma geração para a seguinte. Mas não devemos cair na tentação de formatar de forma rígida a cultura que transmitimos aos nossos filhos. Temos de saber deixar-lhes o espaço para inovar, para desbravar novos caminhos, porque a cultura não é apenas nem nunca será o fim da história. Volto a citar Eduardo Lourenço: "A cultura é a barca para chegar ao nosso destino". Só que esta barca está sempre em mudança, ganhando sempre novas qualidades e novas funcionalidades. O rumo não está definido; o destino ninguém o conhece. Saboreemos o prazer de navegar e apreciemos as belezas que cada nova ilha ou continente descobertos nos venham a revelar...
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
O Grande Dilema
Pesa sobre o nosso futuro coletivo um grande dilema. A economia que nos rege não é viável sem um crescimento contínuo da riqueza produzida. Por outro lado, considerando a finitude dos recursos e os efeitos dos resíduos e das emissões poluentes, existe um limite para o crescimento, isto é, o crescimento contínuo da economia não é possível. Este é, pois, o grande dilema que se vai colocar à Humanidade; que acontecerá num prazo não muito distante. Provavelmente, nas próximas décadas; seguramente, ainda no século XXI. Pelo impacto que teve e pelo acerto das suas previsões, vale a pena recordar o livro "Os Limites ao Crescimento" da autoria de uma equipa do MIT, liderada pelo casal Dennis e Donella Meadows e publicado por iniciativa do Clube de Roma em 1972. Aí se equaciona a problemática do crescimento, analisam-se as variáveis que o condicionam, apresentam-se os possíveis cenários futuros e alerta-se para a gravidade da situação caso, entretanto, o dilema não seja superado. E, mais, estabelece-se como horizonte temporal limite para essa superação o ano de 2070.
A economia de mercado é governada por uma mão invisível que tudo impele para o crescimento. Já comparei os seus efeitos e a sua natureza a uma espécie de darwinismo social, na medida em que na evolução social só se afirmam os processos e as vias que maximizam o crescimento económico. São exemplo disso: o mercantilismo, a divisão do trabalho, a produção em série - iniciada na Revolução Industrial-, o consumismo do pós-guerra, a explosão do crédito e do capital financeiro, a globalização e os acordos de comércio livre. Ora, o crescimento é inerente à economia de mercado, e uma condição necessária ao seu funcionamento. Tal como um avião precisa de velocidade para se sustentar no ar, a economia precisa de crescimento para funcionar sem problemas. Na antiga União Soviética e seus países satélites, a experiência de economias planificadas, espartilhadas por condicionalismos que limitavam o seu crescimento natural, fracassou.
Por outro lado, o crescimento económico implica um crescimento demográfico, e o contrário também é válido. Existe, no sentido matemático, uma forte correlação entre as duas funções, pois, é difícil imaginar uma economia de mercado sem crescimento demográfico. A designada transição demográfica, que se acredita ser uma consequência do desenvolvimento económico e da elevação dos padrões de bem estar, prevê uma evolução tendencial para uma estabilidade populacional. Numa primeira fase, a taxa de mortalidade será inferior à taxa de natalidade, mas as duas tenderão gradualmente a decrescer e a igualar-se, quando já não for possível aumentar mais a esperança média de vida. A transição demográfica está em curso nos países mais desenvolvidos – é o caso de Portugal -, mas ainda é cedo para avaliar as suas consequências nos planos económico e social. Mas é preocupante constatar que o processo pressupõe um envelhecimento da espécie, uma diminuição relativa da população ativa, uma diminuição da vitalidade - por redução, expressa em percentagem do tempo de vida, do período de idade fértil - e um agravamento dos custos com os cuidados de saúde e com a assistência a idosos. Quando passar a haver estabilidade demográfica, será ainda possível o crescimento económico? Nessa altura, fará sentido construir novas casas, novas fábricas e novos equipamentos sociais, que a economia exige para crescer? Muita coisa vai alterar-se no plano familiar e assistencial. Porém, a questão demográfica não pode deixar de ser considerada, quando tivermos de ser confrontados com a superação do grande dilema.
A apropriação contínua dos recursos - com destaque para a energia fóssil -, e a otimização do seu uso pelo recurso à tecnologia, faz parte integrante do processo económico. O crescimento tem inerente um processo de envelhecimento, aqui considerado como significando o aumento gradual da entropia do meio envolvente. O que não espanta, se considerarmos que todo o processo produtivo tem como input produtos de baixa entropia (recursos, energia...) e como output produtos de alta entropia (lixo, emissões poluentes...). Para contrariar este envelhecimento, a economia socorre-se da tecnologia, procurando encontrar soluções para implementar processos progressivamente mais eficazes e menos poluentes, mas também mais caros e mais complexos. Este facto aumenta o risco de rutura das redes e dos equipamentos que os suportam. No futuro, haverá um aumento na frequência de ocorrência de fenómenos extremos: no clima, na contaminação de solos, nos conflitos sociais, nos atos de terrorismo. Mas, também, nas redes de suporte da economia (elétrica, comunicações, distribuição de bens, água, sanitária... ) e, talvez a mais grave de todas, no sistema financeiro. Podemos estar perante a iminência de um colapso global - e devemos ter sempre presente que ele afetará todas as economias, pois na sociedade global o colapso será global...
O ser humano é o único, entre os seres da criação, com inteligência reflexiva, que lhe permite antecipar acontecimentos e fazer previsões. Será ele capaz, usando as suas faculdades, de reverter este processo degradativo? A verdade é que pouco se tem feito para isso. Mas importa reconhecer que, por parte dos políticos, começa a aumentar a consciência dos riscos e já assistimos a uma bem intencionada preocupação visando a mitigação do processo: reciclagem de recursos, limitação de emissões poluentes, aumento da eficiência na utilização dos recursos escassos, e até - como aconteceu na China – a imposição da limitação da natalidade. Ora isso, da forma vaga e descoordenada como está a ser feito, só irá retardar o colapso. No entanto, essas medidas podem, inclusive, ter efeitos perversos por acentuar alguns desequilíbrios, acelerar certos processos inconvenientes, acabando por ter um efeito contrário ao desejado. Ao evitar um pequeno sismo, as tensões aumentam, impede-se a dissipação de energia, mas pode estar a aumentar-se o risco de um sismo mais intenso no futuro. Não vejo como será possível a superação do grande dilema, feita por uma transição suave e pacífica para aquilo que hoje se designa por crescimento sustentável - por vezes, apresentado como desenvolvimento sustentável para adoçar a pílula. Como disse Albert Bartlett, o crescimento nunca é sustentável. Mas, nada fazer ou retardar as ações, faz lembrar a história do sapo que está dentro de uma panela com água que está a aquecer em lume brando. A temperatura aumenta muito gradualmente, e o sapo não dá por isso. Quando se apercebe do risco já não tem capacidade de reagir, e acaba por morrer cozido. A economia e o planeta estão em rota de colisão. Urge, pois, tomar medidas a sério; ou, em alternativa, apertar os cintos de segurança.
A inversão do processo resultará, antes de tudo, da tomada de consciência por parte de uma elite esclarecida. Isso já se verifica, nomeadamente nos Estados Unidos, onde à margem dos mainstream media - eles próprios parte interessada por estarem dependentes da economia - proliferam organizações que começam a alertar para a urgência do problema. Mas, caberá sempre à classe política tomar as decisões que se impõem. Todavia, os políticos estão amarrados à gestão do curto prazo. Por esse motivo não contestam a economia e o seu discurso é consonante com ela. É o discurso de mais crescimento, de mais emprego, de mais consumo, sempre a prometer mais direitos e a exigir menos deveres. A política acaba por intervir na economia introduzindo nuances: na fiscalidade, na redistribuição de rendimentos, na defesa do Estado Social, na dosagem da austeridade, nos estímulos ao consumo ou ao investimento. Mas, não atacam o problema de fundo. Entretanto, as tensões vão-se acumulando. E é o acumular das tensões e o desfasamento entre a política e a economia que provocam as guerras.
A religião - que juntamente com a economia e a política constitui um dos três pilares da sociedade – pode desempenhar um papel neste processo. Não me refiro a nenhuma religião em particular. Também não me refiro à vertente dogmática dos credos, e ainda menos à sua estrutura orgânica, que sempre esteve muito próxima do poder e foi responsável por tantos erros no passado - basta lembrar a Inquisição. Estou a referir-me a uma religião não dogmática, e não orgânica, que tenha como missão propagar a fé no homem e procure pela via espiritual um destino para a espécie.
Chegará o momento em que a sobrevivência da espécie obrigará a medidas muito severas, que eu apenas antevejo possíveis no quadro de um governo mundial centralizado. Vai ser necessário construir um homem novo. Mas, para tal será necessário considerar uma nova economia, uma nova política e uma nova religião... Não me vou alongar sobre o caminho a percorrer. Esse é o desafio que se nos coloca. Estou certo que ele será percorrido. A revolução digital terá um importante papel a desempenhar na caminhada. Mas o principal papel caberá à Educação, que tem de saber libertar as mentes da nova geração para a realização dessa tarefa. Nós, os mais velhos, nunca seremos capazes de construir o homem novo. Não devemos impedir os mais jovens de o fazer!
A economia de mercado é governada por uma mão invisível que tudo impele para o crescimento. Já comparei os seus efeitos e a sua natureza a uma espécie de darwinismo social, na medida em que na evolução social só se afirmam os processos e as vias que maximizam o crescimento económico. São exemplo disso: o mercantilismo, a divisão do trabalho, a produção em série - iniciada na Revolução Industrial-, o consumismo do pós-guerra, a explosão do crédito e do capital financeiro, a globalização e os acordos de comércio livre. Ora, o crescimento é inerente à economia de mercado, e uma condição necessária ao seu funcionamento. Tal como um avião precisa de velocidade para se sustentar no ar, a economia precisa de crescimento para funcionar sem problemas. Na antiga União Soviética e seus países satélites, a experiência de economias planificadas, espartilhadas por condicionalismos que limitavam o seu crescimento natural, fracassou.
Por outro lado, o crescimento económico implica um crescimento demográfico, e o contrário também é válido. Existe, no sentido matemático, uma forte correlação entre as duas funções, pois, é difícil imaginar uma economia de mercado sem crescimento demográfico. A designada transição demográfica, que se acredita ser uma consequência do desenvolvimento económico e da elevação dos padrões de bem estar, prevê uma evolução tendencial para uma estabilidade populacional. Numa primeira fase, a taxa de mortalidade será inferior à taxa de natalidade, mas as duas tenderão gradualmente a decrescer e a igualar-se, quando já não for possível aumentar mais a esperança média de vida. A transição demográfica está em curso nos países mais desenvolvidos – é o caso de Portugal -, mas ainda é cedo para avaliar as suas consequências nos planos económico e social. Mas é preocupante constatar que o processo pressupõe um envelhecimento da espécie, uma diminuição relativa da população ativa, uma diminuição da vitalidade - por redução, expressa em percentagem do tempo de vida, do período de idade fértil - e um agravamento dos custos com os cuidados de saúde e com a assistência a idosos. Quando passar a haver estabilidade demográfica, será ainda possível o crescimento económico? Nessa altura, fará sentido construir novas casas, novas fábricas e novos equipamentos sociais, que a economia exige para crescer? Muita coisa vai alterar-se no plano familiar e assistencial. Porém, a questão demográfica não pode deixar de ser considerada, quando tivermos de ser confrontados com a superação do grande dilema.
A apropriação contínua dos recursos - com destaque para a energia fóssil -, e a otimização do seu uso pelo recurso à tecnologia, faz parte integrante do processo económico. O crescimento tem inerente um processo de envelhecimento, aqui considerado como significando o aumento gradual da entropia do meio envolvente. O que não espanta, se considerarmos que todo o processo produtivo tem como input produtos de baixa entropia (recursos, energia...) e como output produtos de alta entropia (lixo, emissões poluentes...). Para contrariar este envelhecimento, a economia socorre-se da tecnologia, procurando encontrar soluções para implementar processos progressivamente mais eficazes e menos poluentes, mas também mais caros e mais complexos. Este facto aumenta o risco de rutura das redes e dos equipamentos que os suportam. No futuro, haverá um aumento na frequência de ocorrência de fenómenos extremos: no clima, na contaminação de solos, nos conflitos sociais, nos atos de terrorismo. Mas, também, nas redes de suporte da economia (elétrica, comunicações, distribuição de bens, água, sanitária... ) e, talvez a mais grave de todas, no sistema financeiro. Podemos estar perante a iminência de um colapso global - e devemos ter sempre presente que ele afetará todas as economias, pois na sociedade global o colapso será global...
O ser humano é o único, entre os seres da criação, com inteligência reflexiva, que lhe permite antecipar acontecimentos e fazer previsões. Será ele capaz, usando as suas faculdades, de reverter este processo degradativo? A verdade é que pouco se tem feito para isso. Mas importa reconhecer que, por parte dos políticos, começa a aumentar a consciência dos riscos e já assistimos a uma bem intencionada preocupação visando a mitigação do processo: reciclagem de recursos, limitação de emissões poluentes, aumento da eficiência na utilização dos recursos escassos, e até - como aconteceu na China – a imposição da limitação da natalidade. Ora isso, da forma vaga e descoordenada como está a ser feito, só irá retardar o colapso. No entanto, essas medidas podem, inclusive, ter efeitos perversos por acentuar alguns desequilíbrios, acelerar certos processos inconvenientes, acabando por ter um efeito contrário ao desejado. Ao evitar um pequeno sismo, as tensões aumentam, impede-se a dissipação de energia, mas pode estar a aumentar-se o risco de um sismo mais intenso no futuro. Não vejo como será possível a superação do grande dilema, feita por uma transição suave e pacífica para aquilo que hoje se designa por crescimento sustentável - por vezes, apresentado como desenvolvimento sustentável para adoçar a pílula. Como disse Albert Bartlett, o crescimento nunca é sustentável. Mas, nada fazer ou retardar as ações, faz lembrar a história do sapo que está dentro de uma panela com água que está a aquecer em lume brando. A temperatura aumenta muito gradualmente, e o sapo não dá por isso. Quando se apercebe do risco já não tem capacidade de reagir, e acaba por morrer cozido. A economia e o planeta estão em rota de colisão. Urge, pois, tomar medidas a sério; ou, em alternativa, apertar os cintos de segurança.
A inversão do processo resultará, antes de tudo, da tomada de consciência por parte de uma elite esclarecida. Isso já se verifica, nomeadamente nos Estados Unidos, onde à margem dos mainstream media - eles próprios parte interessada por estarem dependentes da economia - proliferam organizações que começam a alertar para a urgência do problema. Mas, caberá sempre à classe política tomar as decisões que se impõem. Todavia, os políticos estão amarrados à gestão do curto prazo. Por esse motivo não contestam a economia e o seu discurso é consonante com ela. É o discurso de mais crescimento, de mais emprego, de mais consumo, sempre a prometer mais direitos e a exigir menos deveres. A política acaba por intervir na economia introduzindo nuances: na fiscalidade, na redistribuição de rendimentos, na defesa do Estado Social, na dosagem da austeridade, nos estímulos ao consumo ou ao investimento. Mas, não atacam o problema de fundo. Entretanto, as tensões vão-se acumulando. E é o acumular das tensões e o desfasamento entre a política e a economia que provocam as guerras.
A religião - que juntamente com a economia e a política constitui um dos três pilares da sociedade – pode desempenhar um papel neste processo. Não me refiro a nenhuma religião em particular. Também não me refiro à vertente dogmática dos credos, e ainda menos à sua estrutura orgânica, que sempre esteve muito próxima do poder e foi responsável por tantos erros no passado - basta lembrar a Inquisição. Estou a referir-me a uma religião não dogmática, e não orgânica, que tenha como missão propagar a fé no homem e procure pela via espiritual um destino para a espécie.
Chegará o momento em que a sobrevivência da espécie obrigará a medidas muito severas, que eu apenas antevejo possíveis no quadro de um governo mundial centralizado. Vai ser necessário construir um homem novo. Mas, para tal será necessário considerar uma nova economia, uma nova política e uma nova religião... Não me vou alongar sobre o caminho a percorrer. Esse é o desafio que se nos coloca. Estou certo que ele será percorrido. A revolução digital terá um importante papel a desempenhar na caminhada. Mas o principal papel caberá à Educação, que tem de saber libertar as mentes da nova geração para a realização dessa tarefa. Nós, os mais velhos, nunca seremos capazes de construir o homem novo. Não devemos impedir os mais jovens de o fazer!
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
O Sagrado e o Profano
Num programa de televisão emitido recentemente, alguém informou que a religião católica é aquela cujo número de praticantes, a nível mundial, mais tem regredido. Este dado suscitou-me uma reflexão sobre o papel desempenhado pelas religiões ao longo da história da Civilização Humana e sobre o papel que desempenharão no futuro. As religiões estiveram intimamente ligadas ao desenvolvimento do ser humano e o seu padrão parece ser universal pois ele repete-se - na mitologia, nas narrativas sobre a criação do mundo, nos rituais e sacrifícios - em sociedades espalhadas pelo planeta e sem contactos entre elas. Penso que se pode afirmar, com propriedade, que o homem não é apenas um ser eminentemente social - como disse Aristóteles - mas é também um ser eminentemente religioso.
Terá sido a consciência da morte, o sofrimento físico e psíquico, as interrogações sobre a origem das coisas, sobre os fenómenos naturais, sobre a natureza da vida e sobre o destino do homem, que criaram no homem primitivo a necessidade de encontrar explicações, de procurar conforto no sofrimento e de justificar a morte ou de tentar prolongar a vida para além dela. As primeiras religiões eram politeístas, as diferentes divindades replicavam as emoções e as paixões dos humanos. As crenças, os sacrifícios de animais e de pessoas, os rituais, fizeram surgir os templos e os altares. Surgiu a organização do culto e apareceram os seus agentes - sacerdotes e outros representantes do sagrado - que a integravam. O poder esteve sempre ligado à religião. A igreja - considerada, no sentido lato, como a estrutura social que organiza o culto religioso - é anterior ao estado e, em paralelo com o poder militar e com a administração que coletava os impostos, tornou-se um dos principais suportes dos estados.
A invenção da escrita criou as religiões que hoje predominam no mundo ocidental: o judaísmo, o cristianismo, o maometismo. Nesse aspeto, teremos de destacar o judaísmo, uma religião com uma forte componente moral e com muitos rituais na forma de viver, de comer e até de vestir. A vida dos judeus, a sua existência como povo - e agora como estado, em Israel - está suportada pela religião e pelas crenças. O cristianismo é um enxerto da mitologia greco-romana com o judaísmo que encontrou nas sociedades fortemente hierarquizadas dos bárbaros do centro e do norte da Europa o terreno propício à sua disseminação. O seu desenvolvimento na idade média sobre os escombros do Império Romano do Ocidente está na base da construção da Europa e da Civilização Ocidental. A difusão das ideias de Lutero, que a invenção da imprensa haveria de facilitar, levou à criação de novas religiões dentro do cristianismo, criou divisões na Europa e conduziu à guerra dos 30 anos.
A partir da Renascença e da descoberta da imprensa, o desenvolvimento científico, nomeadamente com Galileu e com Darwin, começam a questionar e abalar as velhas narrativas do cristianismo sobre a criação e sobre o evolucionismo. O último golpe ocorre já no século XX com Sigmund Freud, quando questiona a natureza transcendental da alma humana. O desenvolvimento económico que sobreveio, sobretudo a partir da Revolução Industrial, que consolidou o estado organizado e criou as condições que permitiram o surgimento do estado social, retirou à igreja o papel e importância que tinha no plano social nomeadamente na assistência na doença e na pobreza. Por tudo isso, no mundo atual, a religião cristã - e a religião católica em particular - perdeu muita da sua importância de outros tempos.
Eu vejo na religião três dimensões: uma dimensão espiritual, uma dimensão moral e uma dimensão social. E vejo sinais de que a dimensão espiritual da religião não foi abalada pelos desenvolvimentos científico e social. As respostas às questões fundamentais continuam por dar. O absurdo da morte, ao retirar sentido à vida, continua fonte de angústia permanente, a origem da matéria e da vida fogem à nossa compreensão. Não se pode resumir a discussão religiosa ao chavão de acreditar em Deus ou de negar a sua existência. A dimensão espiritual tem mais a ver com a forma de viver de cada um, com a compaixão com os semelhantes, com a solidariedade. Estamos no limiar de entrar num novo ciclo civilizacional que é resultado de uma nova forma de comunicar. Quem sabe se não estaremos também no advento de uma nova religião!
segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
Carta de Natal
No dia de Natal, durante o alvoroço dos presentes, entre as minhas prendas, nada mais do que a biografia de Marcelo Rebelo de Sousa, do jornalista Vitor Matos, que já vai na quarta edição. Por sorte, eu já tinha recebido, oferecido pelo editor, o livro "Sampaio da Nóvoa, Evidentemente a Liberdade" de Fernando Madaíl. E,assim, posso agora ajuizar melhor sobre os candidatos antes de tomar a minha decisão, pois tenho a convicção de que um deles será o próximo presidente da República. Acredito que as chances favorecem Marcelo que, logo na primeira volta, terá mais votos do que Cavaco teve há 5 anos atrás, e de que Sampaio da Nóvoa não irá superar a votação de Manuel Alegre nas anteriores eleições. Se assim for, de nada valerá o meu voto. Mas convém não desvalorizar o poder do voto democrático e lá irei eu cumprir o dever cívico - agora com mais comodidade, depois que a Junta de Freguesia do Lumiar trouxe as urnas para a escola que fica junto à nossa porta. Porém, estou com muitas dúvidas. Marcelo Rebelo de Sousa, acho-o inteligente de mais para ser verdadeiro - o aforismo é de Pessoa -, constrói esquemas mentais tão elaborados que não tardará a perder-se e a contradizer-se a si próprio; Sampaio da Nóvoa está ainda muito verde, parece enredado na euforia da maioria de esquerda e ainda não percebeu as contradições - a ideia foi expressa por Cavaco - entre a economia e a ideologia. A candidata Marisa Matias apresenta-se com ares de atriz de telenovela, sem ideias políticas e parece assentar-lhe bem a referência do VPV relativamente a Catarina Martins quando se referiu ao sucesso do BE como a vitória da insignificância; o ex-padre Edgar Silva do PCP não traz para a campanha ideias próprias, nem precisa, pois Cunhal já tinha dito tudo o que havia para dizer - e tão disse-o tão bem que o discurso dele, reciclado, ainda hoje arrasta muita gente. O irreverente estatístico Paulo Morais - que eu conheço de ginjeira! - dispara para tudo o que é sítio, na sua ânsia de protagonismo pessoal. Henrique Neto, acredita que é dono da verdade, é uma reedição requentada de Nobre e será apenas um candidato na primeira pessoa. Restam mais dois ou três que não ficarão para a história. E - já me esquecia! - ainda temos Maria de Belém a quem, sinceramente, ainda não ouvi uma ideia com princípio meio e fim - e que aparece na corrida para subtrair ao Marcelo os votos de alguns católicos e moderados do centro ou da esquerda que não se reveem nos outros candidatos. É assim que as coisas andam por Lisboa, onde o governo de esquerda, no gozo da graça dos seus primeiros 100 dias, promete um tempo novo, sem austeridade, e até já fala em retoma, em crescimento, e convida os jovens emigrados a regressar - a ver vamos! Agora andam todos indignados com a falência do Banif - à procura dos buracos por onde se esfumou o dinheiro - e com a defesa do Estado Social - alguns não sabem bem do que falam!- após a morte de um jovem que, por ser fim de semana, não foi tratado como devia no Hospital de S. José. Nas vésperas de Natal, estivemos na Baixa para ver o espetáculo de luz, apoiado pela CML e pela Coca-Cola, que passava no Terreiro do Paço. Em dois ou três anos, animada pela vaga de turistas, a Baixa mudou - parece a reedição da movida que em tempos ocorreu em Madrid -, há esplanadas sem fim na Rua Augusta e no Terreiro do Paço e o pastel de belém já tem um concorrente de peso: o pastel de bacalhau. Ando a ler um livro sobre o Eça, com histórias pouco conhecidas do escritor trazidas pelo especialista Campos de Matos; e comecei a ler um livro muito interessante sobre a vida de Alexandre Herculano - que mal conheço e que é uma personagem cativante - que viveu no segundo e terceiro quartéis do século XIX, numa época que também conheço mal. Com votos de Bom Ano. LQ
segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
O Lado Escuro do Universo
O século XX abriu-nos portas para uma nova compreensão do Universo. Sabemos hoje que o nosso planeta não passa de um pequeníssimo ponto azul - a expressão é de Carl Sagan - perdido nos confins de uma galáxia, a Via Láctea, que está, ela própria, perdida nos confins de um Universo cujas dimensões e natureza se apresentam ainda difusas. Nomes como Edwin Hubble - que identificou miríades de novas galáxias - e Albert Einstein - que relacionou o espaço e tempo - aportaram contribuições decisivas para nos ajudar a compreender o Universo. É espantoso o avanço ocorrido neste domínio, considerando que há até apenas quatro séculos - até Galileu Galilei - ainda se considerava a Terra como estando no centro do Universo.
E as novas descobertas não param de nos surpreender. Para explicar a coerência do movimento de rotação das galáxias foi necessário admitir a existência de uma partícula vastamente espalhada no espaço e com características diferentes das da matéria conhecida. Trata-se daquilo que foi designado dark matter que aparece, em português, traduzido algumas vezes por matéria escura outras vezes por matéria negra. Essa nova matéria não interage com a matéria visível não emite luz mas tem gravidade o que faz com que deflita a luz que nos chega de galáxias distantes. Esse facto faz com que as aglomerações de matéria negra, ao curvar a trajetória da luz, funcionem com lentes gravíticas que permitem assinalar a sua presença e fazer o seu mapeamento no universo.
A descoberta da continua expansão do universo foi outra das descobertas das primeiras décadas do Século XX. As galáxias estão a afastar-se uma das outras , isto é, o universo expande-se em todas as direções. Isso mesmo foi demonstrado porque esse afastamento produz um fenómeno designado por redshift - desvio da luz para o vermelho - que faz com que o comprimento de onda da luz emitida por essas galáxias se apresente desviado para a zona vermelha do espectro. Inicialmente pensava-se - era essa a lógica do Big Bang, a explosão inicial que originou o Universo - que essa expansão estaria a reduzir-se e que chegaria um momento em que ela terminaria e, a partir desse momento, o Universo se passaria a contrair. Mas a conclusão das observações científicas foi a oposta: o Universo não só está a expandir-se como essa expansão está a acelerar. Para explicar este fenómeno foi necessário introduzir o conceito de black energy, a energia escura também conhecida por energia cinzenta.
De acordo com as conclusões dos astrónomos, da massa total do Universo 20% são de matéria escura e 75% são de energia cinzenta o que deixa apenas 5% para a matéria visível aquela que nos é familiar. São muita e enormes as implicações destas descobertas. Sabemos que nada é estável e que tudo está relacionado. O lado escuro do universo faz também parte de nós, teve e terá tido um papel decisivo na criação da vida e na evolução dos seres vivos. Fazendo um analogia com o se humano, a matéria visível é como o nosso consciente, a matéria invisível é o nosso inconsciente.
Temos a sensação de que estamos perto de encontrar a teoria de tudo, a fórmula que unificará as forcas electromagnética, gravítica e nucleares. Mas quando isso acontecer não teremos ainda todas as respostas. A explicação do como nunca será suficiente para aqueles que procuram a justificação do porquê. Seguramente. continuaremos à procura do alfa e do ómega que são o princípio e o fim de tudo.
Mas não vale a pena desesperar. Procuremos as respostas possíveis e essas só podem ser dadas pela intuição ou pela fé, cuja origem está no inconsciente, o nosso lado escuro. Tal como diz um amigo meu: Não temos outro destino que não seja sermos. Simplesmente. Os poetas sabem-no, ou intuem-no. Bom Natal
segunda-feira, 14 de dezembro de 2015
A Voz dos Sábios e o Futuro
Sobre o futuro da Humanidade são muitas as interrogações e muitos os foruns - foi o caso de um recente encontro de personalidades na Fundação Champalimaud - onde esse futuro se debate. A velocidade das mudanças, consequência do rápido desenvolvimento científico e tecnológico e do reforço da globalização, alterou - e está a modificar - o nosso modo de viver. Mudanças que nuns estão a provocar desorientação - onde é que este progresso nos vai levar? - e noutros a dar lugar à incerteza - será que estamos a seguir no caminho
certo?
A grande maioria das pessoas vê nos avanços científicos e tecnológicos a evidência de que o engenho do homem tudo pode, e de que ele será capaz de vencer os desafios do futuro. Acredita que, como resultado desses avanços, as coisas só podem melhorar no futuro. Com os surpreendentes progressos nas ciências médicas estaremos muito perto de aumentar a longevidade até aos 120 anos. Num futuro próximo, será possível fundir seres humanos com robots e poder-se-á fazer o backup do cérebro humano num computador e reativá-lo mais tarde. Um dia, o homem irá viajar no espaço e colonizará outros planetas. É a concretização do velho sonho da imortalidade do ser humano que, creem muitos, vai ser possível realizar-se. Como resultado destas conquistas e desta crença, Deus foi relegado para segundo plano. O homem parece acreditar que a divindade está ao seu alcance...
Num curto espaço de tempo, à escala cósmica, a espécie humana - a única dotada de inteligência!– deu saltos evolutivos espetaculares. Tudo começou com a linguagem; depois, foi a escrita e a imprensa e, já no nosso tempo, a internet. Com a linguagem nasceu a organização social. Com a escrita, criaram-se ferramentas: o estilete, a argila mole, a tinta e o papiro. Com a imprensa, nasceu a comunicação de massas, surgiu a tipografia, o panfleto e o livro. A internet é suportada por uma panóplia de novas ferramentas: a rede elétrica, a rede de comunicações, os computadores, os smartphones. Com os registos escritos e os registos digitais podemos acumular o conhecimento adquirido em cada geração, preservá-lo, e transmiti-lo para as gerações seguintes. Estamos perante capacidades adquiridas pela espécie, que as integra, e que passam a fazer parte do seu processo evolutivo no sentido que lhe deu Charles Darwin.
Ora, estes saltos estão associados a um aumento da complexidade das ferramentas e a uma crescente dependência do seu uso. Particularmente com a internet, a complexidade assenta numa sofisticada base tecnológica e energética - falamos dos suportes, da eletricidade e das ondas hertzianas que transportam os sinais digitais. E o processo de inovação continua e parece não ter fim à vista. Avizinha-se a época da internet das coisas, esperam-se grandes avanços da ciência na computação, nas comunicações, na saúde, na eficiência energética e na produção alimentar.
Vivemos um tempo de limites, numa encruzilhada evolutiva. O homem é, ao mesmo tempo, sujeito e objeto do sentido evolutivo. Nesta situação, não pode haver lugar para erros, pois, os erros pagam-se caros. Preocupamo-nos com a longevidade dos indivíduos e, em termos evolutivos, o que interessa é a longevidade da espécie. Ao longo da história da vida na terra muitas espécies se extinguiram. As causas dessas extinções tiveram a ver com o desaparecimento ou escassez do seu recurso principal, ou com o aparecimento de novos predadores, mas tiveram também a ver com a excessiva especialização que reduz a sua capacidade de adaptação. Quando, como resultado do processo evolutivo, uma espécie adquire uma nova capacidade, já não existe caminho de retrocesso, isto é, a natureza não aceita a desevolução. Essa é a nossa principal vulnerabilidade, e o maior risco que enfrentamos como espécie - apenas uma entre tantas! - é o de entrar num cul-de-sac evolutivo.
No programa Prós e Contras da semana passada os sábios convidados pela Fundação Champalimaud - António Damásio, Fernando Henrique Cardoso, Manuel Castells, Jorge Sampaio e Leonor Beleza - vieram falar destas coisas. Realçaram a divergência entre caminhos da ciência - caminhos de esperança - e os caminhos da política e da economia - caminhos de descredibilidade e de desencanto. Damásio, o mais incisivo entre eles, falou da inteligência artificial e da possibilidade, no futuro, de ser possível fundir homens com robots, logo acrescentando que as máquinas não têm consciência e, por isso, não sentem nem o prazer nem a dor, sentimento que é apanágio dos seres vivos. Que não existe ética sem prazer, sem sofrimento e sem dor. E concluiu que só podemos melhorar o estado do mundo, depois de o compreender. Aqui, acrescento eu: para compreender o mundo temos de perceber o nosso destino, e a isso a ciência nunca dará resposta. Estamos muito longe de o alcançar, se é que algum dia o conseguiremos.
A grande maioria das pessoas vê nos avanços científicos e tecnológicos a evidência de que o engenho do homem tudo pode, e de que ele será capaz de vencer os desafios do futuro. Acredita que, como resultado desses avanços, as coisas só podem melhorar no futuro. Com os surpreendentes progressos nas ciências médicas estaremos muito perto de aumentar a longevidade até aos 120 anos. Num futuro próximo, será possível fundir seres humanos com robots e poder-se-á fazer o backup do cérebro humano num computador e reativá-lo mais tarde. Um dia, o homem irá viajar no espaço e colonizará outros planetas. É a concretização do velho sonho da imortalidade do ser humano que, creem muitos, vai ser possível realizar-se. Como resultado destas conquistas e desta crença, Deus foi relegado para segundo plano. O homem parece acreditar que a divindade está ao seu alcance...
Num curto espaço de tempo, à escala cósmica, a espécie humana - a única dotada de inteligência!– deu saltos evolutivos espetaculares. Tudo começou com a linguagem; depois, foi a escrita e a imprensa e, já no nosso tempo, a internet. Com a linguagem nasceu a organização social. Com a escrita, criaram-se ferramentas: o estilete, a argila mole, a tinta e o papiro. Com a imprensa, nasceu a comunicação de massas, surgiu a tipografia, o panfleto e o livro. A internet é suportada por uma panóplia de novas ferramentas: a rede elétrica, a rede de comunicações, os computadores, os smartphones. Com os registos escritos e os registos digitais podemos acumular o conhecimento adquirido em cada geração, preservá-lo, e transmiti-lo para as gerações seguintes. Estamos perante capacidades adquiridas pela espécie, que as integra, e que passam a fazer parte do seu processo evolutivo no sentido que lhe deu Charles Darwin.
Ora, estes saltos estão associados a um aumento da complexidade das ferramentas e a uma crescente dependência do seu uso. Particularmente com a internet, a complexidade assenta numa sofisticada base tecnológica e energética - falamos dos suportes, da eletricidade e das ondas hertzianas que transportam os sinais digitais. E o processo de inovação continua e parece não ter fim à vista. Avizinha-se a época da internet das coisas, esperam-se grandes avanços da ciência na computação, nas comunicações, na saúde, na eficiência energética e na produção alimentar.
Vivemos um tempo de limites, numa encruzilhada evolutiva. O homem é, ao mesmo tempo, sujeito e objeto do sentido evolutivo. Nesta situação, não pode haver lugar para erros, pois, os erros pagam-se caros. Preocupamo-nos com a longevidade dos indivíduos e, em termos evolutivos, o que interessa é a longevidade da espécie. Ao longo da história da vida na terra muitas espécies se extinguiram. As causas dessas extinções tiveram a ver com o desaparecimento ou escassez do seu recurso principal, ou com o aparecimento de novos predadores, mas tiveram também a ver com a excessiva especialização que reduz a sua capacidade de adaptação. Quando, como resultado do processo evolutivo, uma espécie adquire uma nova capacidade, já não existe caminho de retrocesso, isto é, a natureza não aceita a desevolução. Essa é a nossa principal vulnerabilidade, e o maior risco que enfrentamos como espécie - apenas uma entre tantas! - é o de entrar num cul-de-sac evolutivo.
No programa Prós e Contras da semana passada os sábios convidados pela Fundação Champalimaud - António Damásio, Fernando Henrique Cardoso, Manuel Castells, Jorge Sampaio e Leonor Beleza - vieram falar destas coisas. Realçaram a divergência entre caminhos da ciência - caminhos de esperança - e os caminhos da política e da economia - caminhos de descredibilidade e de desencanto. Damásio, o mais incisivo entre eles, falou da inteligência artificial e da possibilidade, no futuro, de ser possível fundir homens com robots, logo acrescentando que as máquinas não têm consciência e, por isso, não sentem nem o prazer nem a dor, sentimento que é apanágio dos seres vivos. Que não existe ética sem prazer, sem sofrimento e sem dor. E concluiu que só podemos melhorar o estado do mundo, depois de o compreender. Aqui, acrescento eu: para compreender o mundo temos de perceber o nosso destino, e a isso a ciência nunca dará resposta. Estamos muito longe de o alcançar, se é que algum dia o conseguiremos.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
Alterações Climáticas
A Conferência das Nações Unidas sobre as alterações climáticas, que esta semana reúne em Paris representantes de quase todos os países do planeta, ocorre pela vigésima primeira vez desde a Cimeira da Terra, realizada no Rio de Janeiro em 1992. Na sessão inaugural, estiveram em Paris os líderes dos principais países do planeta, o que mostra a importância atribuída a esta questão. Na verdade, o problema das alterações climáticas já não pode ser ignorado, nem relegado para segundo plano, tal o impacto que pode vir a ter sobre o nosso próximo futuro coletivo. Mas, estamos muito longe de encontrar soluções e reunir consensos.
No essencial, estamos perante um dilema. Se continuamos a lançar para a atmosfera gases com efeito de estufa a sua temperatura média vai aumentar, e as consequências, possivelmente irreversíveis, daí decorrentes - extinção de espécies, subida do nível dos oceanos, ocorrência de fenómenos climáticos extremos, escassez de água potável, prejuízos na agricultura, deslocações de populações - terão fortes impactos na economia. Mas, se deixarmos de fazer essas emissões vamos pôr em causa o crescimento, e com isso agravar o desemprego, criando condições para o ressurgimento de uma nova e severa crise económica que todos querem evitar.
As alterações climáticas provocadas pela atividade humana são, já hoje, um fenómeno de indiscutível evidência. Elas surgem como consequência direta ou indireta do uso dos combustíveis fósseis, que se iniciou com a Revolução Industrial no início do século XIX e se acelerou durante o século XX, sobretudo, após o final da Segunda Guerra Mundial. Energia, economia e alterações climáticas estão correlacionadas. Existe a convicção amplamente difundida de que a mitigação do aquecimento global estará na adoção generalizada de formas não poluentes de produção de energia. Isso tem vindo a ser feito com recurso à energia nuclear, à energia hídrica, à energia eólica e à energia solar. Estas duas últimas formas têm vindo a ganhar importância na geração de energia elétrica, e são promissoras. Mas, elas ainda não fizeram infletir, a nível mundial, a tendência sempre crescente do aumento do consumo da energia fóssil. É certo que nos países da OCDE já se verifica a estagnação ou até a uma diminuição desse consumo. Porém, isso está a ser conseguido por virtude de uma desaceleração do crescimento económico, e pela deslocalização de muitas indústrias poluentes para fora daquele espaço geográfico.
Sinceramente, não vejo saída para o dilema. A consciência da gravidade do problema já é importante, mas, só por si, isso não chega. Não será a consciência das alterações climáticas que reduzirá o consumo de combustíveis fósseis; mas, sim, a sua escassez. Grandes zonas do planeta - nomeadamente a Índia, a China e o Paquistão - estão longe de atingir os consumos energéticos per capita dos países ocidentais. O petróleo, pela sua importância na mobilidade será o mais sensível. Quando a China atingir a capitação no consumo de petróleo da Coreia do Sul ou do Japão, será necessário extrair, a nível mundial, mais 30% de crude para responder ao excesso de procura.
Em 1997, os objetivos de Kyoto em reduzir as emissões de CO2 falharam. Em 2009, a conferência de Copenhaga ficou longe dos seus propósitos. Em 2015, os delegados à Conferência de Paris pretendem limitar a 2º Celsius o aumento médio da temperatura global até 2100. O sucesso desta Conferência só será avaliado daqui a algumas dezenas de anos. Possivelmente, tarde demais.
No essencial, estamos perante um dilema. Se continuamos a lançar para a atmosfera gases com efeito de estufa a sua temperatura média vai aumentar, e as consequências, possivelmente irreversíveis, daí decorrentes - extinção de espécies, subida do nível dos oceanos, ocorrência de fenómenos climáticos extremos, escassez de água potável, prejuízos na agricultura, deslocações de populações - terão fortes impactos na economia. Mas, se deixarmos de fazer essas emissões vamos pôr em causa o crescimento, e com isso agravar o desemprego, criando condições para o ressurgimento de uma nova e severa crise económica que todos querem evitar.
As alterações climáticas provocadas pela atividade humana são, já hoje, um fenómeno de indiscutível evidência. Elas surgem como consequência direta ou indireta do uso dos combustíveis fósseis, que se iniciou com a Revolução Industrial no início do século XIX e se acelerou durante o século XX, sobretudo, após o final da Segunda Guerra Mundial. Energia, economia e alterações climáticas estão correlacionadas. Existe a convicção amplamente difundida de que a mitigação do aquecimento global estará na adoção generalizada de formas não poluentes de produção de energia. Isso tem vindo a ser feito com recurso à energia nuclear, à energia hídrica, à energia eólica e à energia solar. Estas duas últimas formas têm vindo a ganhar importância na geração de energia elétrica, e são promissoras. Mas, elas ainda não fizeram infletir, a nível mundial, a tendência sempre crescente do aumento do consumo da energia fóssil. É certo que nos países da OCDE já se verifica a estagnação ou até a uma diminuição desse consumo. Porém, isso está a ser conseguido por virtude de uma desaceleração do crescimento económico, e pela deslocalização de muitas indústrias poluentes para fora daquele espaço geográfico.
Sinceramente, não vejo saída para o dilema. A consciência da gravidade do problema já é importante, mas, só por si, isso não chega. Não será a consciência das alterações climáticas que reduzirá o consumo de combustíveis fósseis; mas, sim, a sua escassez. Grandes zonas do planeta - nomeadamente a Índia, a China e o Paquistão - estão longe de atingir os consumos energéticos per capita dos países ocidentais. O petróleo, pela sua importância na mobilidade será o mais sensível. Quando a China atingir a capitação no consumo de petróleo da Coreia do Sul ou do Japão, será necessário extrair, a nível mundial, mais 30% de crude para responder ao excesso de procura.
Em 1997, os objetivos de Kyoto em reduzir as emissões de CO2 falharam. Em 2009, a conferência de Copenhaga ficou longe dos seus propósitos. Em 2015, os delegados à Conferência de Paris pretendem limitar a 2º Celsius o aumento médio da temperatura global até 2100. O sucesso desta Conferência só será avaliado daqui a algumas dezenas de anos. Possivelmente, tarde demais.
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