O ciclo de palestras que, em conjunto com o Clube Português de Imprensa e o Centro Nacional de Cultura, o Grémio Literário organizou na época passada, propunha aos oradores convidados duas questões: Que Portugal queremos ser? Que Portugal vamos ter? Todos os palestrantes que participaram no ciclo - Manuel Sobrinho Simões, Luís Marques Mendes, Emílio Rui Vilar, Ricardo Costa, Eduardo Marçal Grilo e Rui Ramos - são gente conhecida e de reconhecida competência. Tive o privilégio de ter assistido a todas elas.
Nas vésperas de iniciar-se um novo ciclo, em jeito de balanço do anterior, concluo que não foram dadas as respostas que se pediam. Não ficámos a saber que Portugal queremos ser e, muito menos, o Portugal que vamos ter. Ora, foi sobretudo acerca do Portugal que somos que os oradores convidados centraram o seu discurso e teceram as principais considerações. E, sobre este aspeto, começo por alertar que ficámos mal na fotografia, pois a apreciação que eles fizeram sobre o nosso País foi, de um modo geral, muito crítica e pouco abonatória.
Logo na primeira secção, o médico e cientista Manuel Sobrinho Simões marcou a tónica crítica afirmando: "somos péssimos em termos de nos associarmos em volta de um objetivo e de fazer as perguntas certas. Isto tem afetado a sociedade portuguesa, que se revela incapaz de fazer reformas: não temos sido capazes de reformar a justiça ou a administração interna, nem capazes de reformar a universidade e o ensino superior. Não reforçamos o valor institucional, mas reforçamos o valor individual.". Sobre o futuro diz que "vamos ter de depender mais da evolução da Europa do que de nós próprios. Temos limitações geográficas, económicas e muita dependência externa. Acima de tudo, temos de apostar no conhecimento, superar os grandes defeitos educacionais, melhorar a nossa capacidade de understanding, isto é, não aprender superficialmente, mas conhecer com profundidade a razão de ser das coisas e o que está por debaixo (under)".
Na opinião, frontalmente expressa pelo segundo conferencista, o ex-presidente do PSD Luís Marques Mendes, "vivemos mergulhados numa crise de credibilidade dos políticos e das instituições. Os programas eleitorais são feitos em cima da hora, e os candidatos a deputados nem sequer os leem antes das campanhas. Tudo isso faz com que as promessas feitas não sejam cumpridas na governação. Os partidos - todos os partidos, fez questão de sublinhar - estão cada vez mais divorciados das pessoas e da sociedade. E o cidadão comum está, também ele, divorciado da política, dos políticos e dos partidos.". Para Marques Mendes, não só a vida política se vai degradando, mas também a seriedade e a autenticidade. Disse que "só um grande exercício de cidadania pode alterar este estado de coisas. É urgente debater o sistema e, só depois disso, fazer um choque cívico. Tem de haver uma política de compromisso". Defendeu um sistema eleitoral como o alemão, com um círculo nacional e círculos nominais. Todavia, não acredita que a reforma algum dia se faça a partir do interior do sistema, justificando que os chefes partidários, sobretudo a nível local, não vão querer perder o seu poder.
Para o anterior presidente da Fundação Gulbenkian, Emílio Rui Vilar, a posição de Portugal na Europa está, agora, mais enfraquecida e Portugal, sozinho, nunca conseguirá superar o bloqueio da dívida. Aponta como causas " a reunificação da Alemanha, o alargamento a leste e a nova arquitetura da União- ironicamente saída da cimeira de Lisboa, e de uma presidência portuguesa - que nos remeteu, outra vez, à nossa insignificância. A culminar tudo isso, a crise do ´subprime´, as hesitações iniciais entre medidas expansivas e restritivas e, finalmente, a adopção da doutrina alemã a penalizar a dívida que nos trouxe a austeridade...". Rui Vilar defendeu a solução federativa como a única saída lógica para a Europa e para Portugal. Então, com a necessária criação de um orçamento europeu, de mecanismos de mutualização da dívida, de um banco central com poderes semelhantes aos da FED ou do Banco de Inglaterra, e que não se limite a estar preocupado com a inflação. Deixou uma mensagem: "aproxima-se um tempo de grande exigência no qual precisamos acreditar em que será possível superar as dificuldades. É um imperativo ético conseguir fazê-lo, perante nós próprios e perante as gerações futuras". Terminou, aconselhando prudência e rigor: "No fundo, é começarmos a guardar mais lenha para os invernos que estão para vir."
O jornalista Ricardo Costa, na linha do que já tinha dito Marques Mendes, falou dos jogos dos políticos e partidários, que afinal se sobrepõem ao interesse nacional e condicionam o nosso futuro coletivo. Para ele o "Portugal que queremos ser" deveria sair de um compromisso consensual entre os políticos, que governam os partidos e nos governam a nós. No quadro do nosso sistema político-partidário, como compromisso mínimo, existem duas premissas que são aceites por quase todos: a integração na Comunidade Europeia e a aceitação das regras da economia de mercado. Daqui decorre, implicitamente, a obrigatoriedade de pagar as dívidas que se contraem e o respeito pelos tratados assinados. A aceitação da economia de mercado pressupõe a adesão ao princípio sagrado de que é imperativo fazer crescer a riqueza produzida. Um país soberano não pode depender de credores, nem pode mendigar o perdão ou a renegociação da dívida. Contudo, tem de ter uma estratégia para a economia, para a sua competitividade, e para garantir sustentabilidade financeira, indispensável à defesa do Estado Social, à manutenção da coesão regional e à divulgação da cultura - uma herança e um património de muitos séculos. Na política externa deve merecer destaque o espaço reservado à lusofonia. Além disso, a soberania tem de compaginar-se com os direitos que a Constituição garante aos seus cidadãos, nomeadamente, em áreas tão sensíveis como a educação e a proteção na infância, na doença, na incapacitação e na velhice.
O antigo ministro da educação Eduardo Marçal Grilo falou, em primeiro lugar, dos nossos pontos fracos: o problema demográfico - somos um país de velhos!, na caricatura que fiz da sua análise, -, as debilidades da economia e do sistema financeiro - um país pobre e perdulário! -, o baixo nível médio da instrução e o desinteresse pelo conhecimento - um país de incultos e analfabetos! -, o fraco peso e a desprestigiada imagem das instituições - um país de amadores! -, o maior pendor da gente para concentrar-se nos problemas e não nas soluções - um país de preguiçosos! -, a tendência para o negativismo e para a auto-flagelação - um pais de derrotistas !-, as debilidades do sistema eleitoral, a ineficácia da justiça, o afastamento entre eleitos e eleitores, a falta de dialogo ao centro - enfim, um país que não sabe governar-se, nem se deixa governar !. Acrescentou, que os portugueses sofrem do mal da inveja e centram-se mais nos direitos do que nos deveres, ou seja, que somos um país de mal-agradecidos! Já relativamente aos pontos fortes o palestrante enumerou os 800 anos de Portugal, a estabilidade política das últimas décadas, a localização única entre o Mar e a Europa - o velho dilema português, nunca resolvido! -, e a centralidade atlântica onde convergem as rotas das Américas e de África. Aludiu, ainda, aos casos de sucesso de algumas empresas de excelência, tão boas como as melhores, de alguns quadros muito qualificados e com boa capacidade de adaptação, sem deixar de mencionar algumas universidades, classificadas entre as melhores do mundo. Só faltou falar de alguns dos nossos futebolistas e treinadores de futebol. E, claro, não se esqueceu de referir a amenidade do clima.
A imagem que o historiador e comentador Rui Ramos, que encerrou o ciclo, nos deixou do Portugal dos últimos 200 anos, foi a de um país que permanentemente se esforçou em importar e adaptar os padrões económicos, sociais e culturais vigentes na Europa Central, a qual vivia o surto de progresso da Revolução Industrial: uma constituição à semelhança da França; um regime parlamentar à semelhança da Inglaterra; a escola pública, a rede ferroviária, as ideias liberais, a difusão da imprensa, as comunicações, impulsionadas pelo telégrafo e pelo telefone e as tecnologias associadas à eletricidade, que se disseminavam um pouco por toda a parte. Após o 25 de Abril, na confusão do período do PREC, Portugal transformou-se num país à deriva, sem saber se devia rumar para África, para a Europa ou para o Terceiro Mundo - na altura, alinhado com a esfera soviética. Porém, rapidamente, tornou-se claro que só a opção Europa era compatível com a democracia. Para Rui Ramos, só esta opção, definitivamente, nos interessa: Portugal tem de ser a casa comum de todos os portugueses. Porém, para tal, precisa de estabilidade e, agora, também da Europa, entendida esta não apenas como uma democracia formal, mas como um espaço que defende e protege a democracia. Esta Europa trouxe a paz ao continente europeu, e em tempo algum os seus povos viveram uma situação melhor!
Gostei de ter assistido a estas conferências e ter ouvido gente inteligente e informada falar do meu País. Pois, é de verdade e de realismo que precisamos, mesmo que isso afete o nosso ego coletivo ou interfira com o nosso comodismo pessoal.
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
Génesis
Depois de um período de férias regresso ao blog. Neste verão afastei-me de televisão e dos jornais e dediquei-me sobretudo a tarefas manuais no jardim e no bricolage. Procurei o prazer de viver de forma frugal e de fazer coisas simples - pensando, por vezes, na fase outonal de Lev Tolstoi. Será isto um sintoma da idade? Para fugir à canícula exagerada deste verão, num dia do início de agosto, escapei-me com a Paula para a fresca e verde Sintra e, quase por acaso, acabámos alojados no celebrado Lawrence´s onde cada recanto me parecia impregnado da figura esguia do jovem Eça - um verdadeiro êxtase! Já em Almeida, na Asta, que é para mim o espaço mais sagrado do mundo, participei, no final de Agosto, num workshop sobre arteterapia. Vivi com a Maria José, com o desconcertante Jonatas e um grupo de jovens senhoras - todas muito bonitas! - uma experiência ao mesmo tempo prazerosa e espiritualmente enriquecedora. Mas confesso que sinto nesta rentrée alguma preguiça mental para voltar a escrever. Eu prefiro abordar temas intemporais e não gosto de me perder na análise dos assuntos - sempre tão volúveis! - da atualidade social e política. Sinto necessidade de tempo e de silêncio interior para produzir ideias. E nem sempre consigo reunir estas duas condições. Mas alguns amigos, generosos, pedem-me que continue a publicar. Hoje escrevo sobre o tema central da Humanidade: a Criação do Mundo. E dedico este despretensioso texto ao Eng. Galhardo Coelho que não conheço pessoalmente mas que, de vez em quando, me envia umas notas e me vai ajudando a perceber o Universo com outros olhos.
O homem primitivo, já consciente do seu eu no mundo, cedo se apercebeu das particularidades do meio natural que o envolvia: o Sol que aquece, alumia e volta todos os dias; a serena Lua que o acompanha; o ciclo das estações que em cada ano revitalizam a terra; o sobe e desce das marés do Mar imenso, imaginado sem fim; a profusão da Vida, na terra, na água e no ar; a ira que provem das entranhas da terra, quando se agita em frenesim ou vomita fogo; a fúria do trovão, do raio, da chuva e da ventania no auge das tempestades. Enfim, o amplitude do céu estrelado a suscitar sonhos e a ativar a imaginação. Perante tal deslumbramento, o homem primitivo procurou respostas: para a origem das coisas, para a origem da Vida, para a explicação dos fenómenos naturais, para o absurdo da morte, e sobre como sossegar a angústia de não saber o que existe depois dela. Foi para responder a tudo isto que surgiram os mitos. Que são as narrativas protagonizadas por deuses, e que são a base das religiões.
As narrativas mitológicas da criação do mundo estão presentes em todas as sociedades e em todas as religiões. Na mitologia grega, no princípio, havia o caos e a noite. Eros fecundou Gaia e nasceram os titãs. Um deles, Cronos simboliza o tempo. As narrativas dos astecas, dos maias, e dos egípcios contêm os princípios que enformaram as religiões, os cultos, os rituais e os sacrifícios. Na Bíblia dos judeus, Deus começou por fazer a Luz ( fiat lux) e dar forma aos mares e aos continentes. Depois criou as espécies vegetais e animais - a Vida!- e, no final, criou o Homem - a Vida Consciente. E ordenou ao Homem que dominasse a Terra e se multiplicasse. Nos mitos da cosmogenia existe em comum uma divindade que organiza o caos, que domina as trevas, que cria as coisas vivas e que molda o homem à sua imagem e com ele estabelece laços (religo) que estruturam o culto religioso.
A Ciência está a destruir os mitos e, à medida que isso acontece, o Homem passa a ocupar o lugar de Deus. Galileu desferiu o primeiro golpe, Darwin arrasou a Bíblia, Freud aniquilou a Alma e Einstein questionou a rigidez dos conceitos de tempo e do espaço sensorial. Muito se avançou na explicação da criação do Universo. Para a cosmogenia, surgiu a teoria do big bang. Mas persistem muitas dúvidas e muitas respostas por encontrar: sobre a natureza da luz, sobre a gravidade, sobre o que existe para lá da matéria sensorial. O Big Bang é um mito moderno em que o Homem se quer substituir a Deus na nova narrativa da Criação. Mas o Big Bang explica o Princípio mas não aponta o Fim. E não explica o que havia antes do Princípio. Também o Big Bang não explica se o código do ADN - ou seja a Vida - já estava inscrito no momento da explosão inicial. E também não resolve a grande questão sobre o fenómeno humano e sobre a consciência que o caracteriza.
Sem o mito criacional as religiões perdem os seus fundamentos. Só assim se explica a reação da Igreja Católica aos que destruíram o mito do Génesis (Galileu, Darwin, Freud). Com o Homem a ocupar o lugar de Deus abre-se uma nova dimensão na perspetiva da religiões. Que tem de fundar-se na ética e no direito, os quais, por sua vez, são condicionados pela política e pela economia. Mas isto não resolverá a angústia existencial ligada à origem de tudo. Podemos um dia explicar o como mas acredito que nunca saberemos o porquê. Afinal o homem é apenas um objeto da criação: matéria a tomar conhecimento ou consciência de si própria. Será isto uma maldição ou uma redenção?
O homem primitivo, já consciente do seu eu no mundo, cedo se apercebeu das particularidades do meio natural que o envolvia: o Sol que aquece, alumia e volta todos os dias; a serena Lua que o acompanha; o ciclo das estações que em cada ano revitalizam a terra; o sobe e desce das marés do Mar imenso, imaginado sem fim; a profusão da Vida, na terra, na água e no ar; a ira que provem das entranhas da terra, quando se agita em frenesim ou vomita fogo; a fúria do trovão, do raio, da chuva e da ventania no auge das tempestades. Enfim, o amplitude do céu estrelado a suscitar sonhos e a ativar a imaginação. Perante tal deslumbramento, o homem primitivo procurou respostas: para a origem das coisas, para a origem da Vida, para a explicação dos fenómenos naturais, para o absurdo da morte, e sobre como sossegar a angústia de não saber o que existe depois dela. Foi para responder a tudo isto que surgiram os mitos. Que são as narrativas protagonizadas por deuses, e que são a base das religiões.
As narrativas mitológicas da criação do mundo estão presentes em todas as sociedades e em todas as religiões. Na mitologia grega, no princípio, havia o caos e a noite. Eros fecundou Gaia e nasceram os titãs. Um deles, Cronos simboliza o tempo. As narrativas dos astecas, dos maias, e dos egípcios contêm os princípios que enformaram as religiões, os cultos, os rituais e os sacrifícios. Na Bíblia dos judeus, Deus começou por fazer a Luz ( fiat lux) e dar forma aos mares e aos continentes. Depois criou as espécies vegetais e animais - a Vida!- e, no final, criou o Homem - a Vida Consciente. E ordenou ao Homem que dominasse a Terra e se multiplicasse. Nos mitos da cosmogenia existe em comum uma divindade que organiza o caos, que domina as trevas, que cria as coisas vivas e que molda o homem à sua imagem e com ele estabelece laços (religo) que estruturam o culto religioso.
A Ciência está a destruir os mitos e, à medida que isso acontece, o Homem passa a ocupar o lugar de Deus. Galileu desferiu o primeiro golpe, Darwin arrasou a Bíblia, Freud aniquilou a Alma e Einstein questionou a rigidez dos conceitos de tempo e do espaço sensorial. Muito se avançou na explicação da criação do Universo. Para a cosmogenia, surgiu a teoria do big bang. Mas persistem muitas dúvidas e muitas respostas por encontrar: sobre a natureza da luz, sobre a gravidade, sobre o que existe para lá da matéria sensorial. O Big Bang é um mito moderno em que o Homem se quer substituir a Deus na nova narrativa da Criação. Mas o Big Bang explica o Princípio mas não aponta o Fim. E não explica o que havia antes do Princípio. Também o Big Bang não explica se o código do ADN - ou seja a Vida - já estava inscrito no momento da explosão inicial. E também não resolve a grande questão sobre o fenómeno humano e sobre a consciência que o caracteriza.
Sem o mito criacional as religiões perdem os seus fundamentos. Só assim se explica a reação da Igreja Católica aos que destruíram o mito do Génesis (Galileu, Darwin, Freud). Com o Homem a ocupar o lugar de Deus abre-se uma nova dimensão na perspetiva da religiões. Que tem de fundar-se na ética e no direito, os quais, por sua vez, são condicionados pela política e pela economia. Mas isto não resolverá a angústia existencial ligada à origem de tudo. Podemos um dia explicar o como mas acredito que nunca saberemos o porquê. Afinal o homem é apenas um objeto da criação: matéria a tomar conhecimento ou consciência de si própria. Será isto uma maldição ou uma redenção?
quinta-feira, 4 de agosto de 2016
Férias
Nesta época estival muda-se de poiso, alteram-se rotinas, liberta-se o corpo para o sol e para o ar livre; a alma para o sonho e para a imaginação. As pessoas procuram o mar, como se regrassem às origens mais remotas da espécie, quando os primeiros anfíbios saiam da água e começavam a aventurar-se nas praias. Nesta estação, tal como os catos do deserto que florescem por um único dia, as aldeias do interior, com as casas cheias de emigrantes, ganham uma vida efémera.
Mas, nem sempre foi assim. Em S. Pedro do Rio Seco, na minha infância, o verão de julho e de agosto era o tempo das palhas. Em junho segava-se o trigo e o centeio, que se ajuntava em rolheiros nas tapadas; depois, acarranjava-se para os enxidos ou para as eiras da Queijata e de Carcidade onde era colocado nas medas circulares com as espigas dos molhos viradas para o interior. Rezava-se, para que não chovesse nem trovejasse, e temiam-se os incêndios, o pior de tudo, uma calamidade. Ainda estava na memória das gentes um deles, pavoroso, em que os sinos tocaram longamente a rebate e o povo todo se irmanou - baldeando a escassa água dos poços - na tentativa inglória de o debelar. Lembro-me ainda de ver malhar o centeio, à mão, com os manguais, processo que a malhadeira do Ti Farias viria substituir. O trigo ainda se continuou a trilhar nas parvas redondas do enxido pequeno, com os trilhos de madeira puxados por juntas de vacas ou de machos. Só mais tarde, a trilhadeira mecânica do Ti Farias viria também a acabar definitivamente com o processo.
Em setembro, amenizava o calor e as tarefas tornavam-se mais aprazíveis: arrancavam-se as batatas e vivia-se a fartura do pomar e da horta. As uvas já pintavam, comia-se o melão da Feira Nova e a melancia da Santa Eufemia. E já se pensava em começar a preparar a terra para as sementeiras do ano seguinte. Os parentes das cidades vinham nesse mês e davam um ambiente mais cosmopolita à aldeia; vinha o doutor juiz com as filhas que passeavam no cavalo que a Ti Adelaide Raimunda lhes tratava durante o ano; chegavam os filhos do capitão Faria, esbeltos e bons jogadores de futebol. E até algumas personalidades estranhas como a D. Florinda, que trazia dois pequenos cães a quem tratava como se fossem família. E claro, havia a ansiada Festa Grande com os bailes à música do acordeão, onde se experimentava - com a condescendente tolerância dos mais velhos -, o doce enlace de corpos adolescentes, ávidos de transbordar as delícias da libido e do amor...
Tudo muda, como escreveu Camões, o tempo é feito de mudança. Sinto que no nosso tempo as coisas mudam muito e demasiado depressa. Como nada é previsível, as pessoas parece que já nem arriscam fazer planos. Deste modo, muito do saber dos mais velhos parece obsoleto aos olhos dos mais jovens, que, perigosamente, começam a acreditar demasiado no mundo virtual.
Mas, nem sempre foi assim. Em S. Pedro do Rio Seco, na minha infância, o verão de julho e de agosto era o tempo das palhas. Em junho segava-se o trigo e o centeio, que se ajuntava em rolheiros nas tapadas; depois, acarranjava-se para os enxidos ou para as eiras da Queijata e de Carcidade onde era colocado nas medas circulares com as espigas dos molhos viradas para o interior. Rezava-se, para que não chovesse nem trovejasse, e temiam-se os incêndios, o pior de tudo, uma calamidade. Ainda estava na memória das gentes um deles, pavoroso, em que os sinos tocaram longamente a rebate e o povo todo se irmanou - baldeando a escassa água dos poços - na tentativa inglória de o debelar. Lembro-me ainda de ver malhar o centeio, à mão, com os manguais, processo que a malhadeira do Ti Farias viria substituir. O trigo ainda se continuou a trilhar nas parvas redondas do enxido pequeno, com os trilhos de madeira puxados por juntas de vacas ou de machos. Só mais tarde, a trilhadeira mecânica do Ti Farias viria também a acabar definitivamente com o processo.
Em setembro, amenizava o calor e as tarefas tornavam-se mais aprazíveis: arrancavam-se as batatas e vivia-se a fartura do pomar e da horta. As uvas já pintavam, comia-se o melão da Feira Nova e a melancia da Santa Eufemia. E já se pensava em começar a preparar a terra para as sementeiras do ano seguinte. Os parentes das cidades vinham nesse mês e davam um ambiente mais cosmopolita à aldeia; vinha o doutor juiz com as filhas que passeavam no cavalo que a Ti Adelaide Raimunda lhes tratava durante o ano; chegavam os filhos do capitão Faria, esbeltos e bons jogadores de futebol. E até algumas personalidades estranhas como a D. Florinda, que trazia dois pequenos cães a quem tratava como se fossem família. E claro, havia a ansiada Festa Grande com os bailes à música do acordeão, onde se experimentava - com a condescendente tolerância dos mais velhos -, o doce enlace de corpos adolescentes, ávidos de transbordar as delícias da libido e do amor...
Tudo muda, como escreveu Camões, o tempo é feito de mudança. Sinto que no nosso tempo as coisas mudam muito e demasiado depressa. Como nada é previsível, as pessoas parece que já nem arriscam fazer planos. Deste modo, muito do saber dos mais velhos parece obsoleto aos olhos dos mais jovens, que, perigosamente, começam a acreditar demasiado no mundo virtual.
segunda-feira, 25 de julho de 2016
Alfarrobeira
Aos fins de semana, desde que deixei de ler a edição em papel do Expresso, a minha horta ganhou mais atenção. A "minha horta" é uma força de expressão: são meia dúzia de metros quadrados roubados ao jardim de uns escassos cinquenta metros quadrados que eu tenho o raro privilégio de cuidar no bairro de Telheiras, em Lisboa. Sem contar com as minhas plantas de estimação- uma bananeira que dá bananas, uma mangueira que dá mangas e duas jovens anoneiras que ainda não deram nada - aí cultivo uma dúzia de alhos, meio cento de cebolas, 6 ou 7 tomateiros, 4 feijoeiros, 3 meloeiros e algumas ervas aromáticas. No passado sábado, logo pela manhãzinha iniciei o meu trabalho. Nesta altura do ano, a horta precisa de cuidados redobrados. É preciso regar, mondar e colher. Dispunha de umas escassas três horas para as minhas tarefas, pois a partir das dez horas o sol abrasador do verão já não consente trabalho a um cidadão urbano pouco habituado ao árduo trabalho do campo.
A primeira tarefa foi a colheita de tomates. A safra deste ano está a ser generosa. Alguns tomateiros vieram de S. Pedro, do alfobre da tia Alice, e são objeto de um carinho especial. São da variedade "coração de boi", grandes, carnudos e muito saborosos. Para fazer inveja aos meus amigos, aqui mostro a produção colhida neste sábado.
Em seguida, aproveitando a terra seca de um vaso, decidi preparar uma nova terra enriquecida misturando-a com com a terra preta do meu compostor. Eu guardo neste compostor os restos crus da cozinha e os que resultam do corte da relva e das podas do jardim, depois de triturados num pequeno triturador. Ao fim de uns meses, a matéria orgânica vai-se decompondo e eu posso retirar da parte inferior do compostor uma argamassa preta que irá servir para incorporar na terra do jardim. Desta vez, misturei uma quantidade de composto - aí uns dez quilos - com a mesma quantidade de terra seca. Depois, usei esta terra enriquecida para tranvasar algumas plantas que estavam a precisar de ser mudadas para vasos maiores.
A terra que sobrou utilizei-a no meu germinador de alvéolos. Coloquei uma semente de alfarrobeira em cada um dos 80 alvéolos. A alfarrobeira (Ceratonia Siliqua) é uma árvore mediterrânica muito abundante no Sul de Portugal, sobretudo no Algarve As suas vagens ricas em açúcar, são comestíveis tanto por animais como por humanos, e quando moídas podem ser usadas para fazer pão. A farinha de alfarroba é usada como antidiarreico sobretudo em crianças. Das suas sementes extrai-se uma goma com propriedades especiais e que é utilizada para fabricar pastilhas elásticas.
As minhas sementes tinha-as recolhido com o meu amigo Rodrigo Queiroz em Troia, nas férias do ano passado. Estou agora esperançado que uma boa percentagem delas germine. Mais tarde, hei-de transferi-las para vasos de enraizamento e, se tudo correr bem, um dia verei alfarrobeiras a crescer no jardim da minha casa de praia.
A primeira tarefa foi a colheita de tomates. A safra deste ano está a ser generosa. Alguns tomateiros vieram de S. Pedro, do alfobre da tia Alice, e são objeto de um carinho especial. São da variedade "coração de boi", grandes, carnudos e muito saborosos. Para fazer inveja aos meus amigos, aqui mostro a produção colhida neste sábado.
Em seguida, aproveitando a terra seca de um vaso, decidi preparar uma nova terra enriquecida misturando-a com com a terra preta do meu compostor. Eu guardo neste compostor os restos crus da cozinha e os que resultam do corte da relva e das podas do jardim, depois de triturados num pequeno triturador. Ao fim de uns meses, a matéria orgânica vai-se decompondo e eu posso retirar da parte inferior do compostor uma argamassa preta que irá servir para incorporar na terra do jardim. Desta vez, misturei uma quantidade de composto - aí uns dez quilos - com a mesma quantidade de terra seca. Depois, usei esta terra enriquecida para tranvasar algumas plantas que estavam a precisar de ser mudadas para vasos maiores.
A terra que sobrou utilizei-a no meu germinador de alvéolos. Coloquei uma semente de alfarrobeira em cada um dos 80 alvéolos. A alfarrobeira (Ceratonia Siliqua) é uma árvore mediterrânica muito abundante no Sul de Portugal, sobretudo no Algarve As suas vagens ricas em açúcar, são comestíveis tanto por animais como por humanos, e quando moídas podem ser usadas para fazer pão. A farinha de alfarroba é usada como antidiarreico sobretudo em crianças. Das suas sementes extrai-se uma goma com propriedades especiais e que é utilizada para fabricar pastilhas elásticas.
As minhas sementes tinha-as recolhido com o meu amigo Rodrigo Queiroz em Troia, nas férias do ano passado. Estou agora esperançado que uma boa percentagem delas germine. Mais tarde, hei-de transferi-las para vasos de enraizamento e, se tudo correr bem, um dia verei alfarrobeiras a crescer no jardim da minha casa de praia.
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| Uma alfarrobeira do meu jardim com algumas semanas de germinação, já transvasada |
segunda-feira, 18 de julho de 2016
Turquia
Foi com alguma surpresa - e uma boa dose de preocupação à mistura - que, na sexta-feira passada, muita gente recebeu a notícia da tentativa de um golpe militar na Turquia. Para o cidadão comum - é o meu caso - não parecia previsível que tal pudesse acontecer num país da Nato, encostado à Europa, e candidato a entrar na União Europeia.
No final da Primeira Guerra Mundial, a Turquia foi construída sobre os escombros do derrotado Império Otomano. O seu primeiro Presidente foi Mustafa Kemal Ataturk, um jovem e dinâmico oficial do exército, que introduziu profundas reformas políticas, sociais, culturais e económicas – mudou, por decreto, a forma de vestir tradicional e a antiga escrita árabe - de modo a criar um país moderno inspirado nos padrões ocidentais. A Turquia atual é uma República parlamentar com uma população de mais de 75 milhões de pessoas (censo de 2012) que se distribuem por dois continentes. A capital é Ankara, situada na península da Anatólia, mas a principal cidade é Istambul que, com os seus 15 milhões de habitantes, é a maior cidade da Europa.
A Turquia tem uma grande importância geoestratégica. Os chamados estreitos turcos (Dardanelos, Mar da Mármara e Bósforo) controlam a entrada no Mar Negro, um importante mar interior onde está situada a península da Crimeia. A via marítima formada pelos estreitos constitui o único acesso da Rússia ao Mar Mediterrâneo. A Turquia ocupa uma posição charneira no Médio Oriente e faz fronteira com a Síria, com o Iraque e com o Irão. Além disso, é através deste país que flui muito do petróleo da Ásia Central, estando prevista a construção de novos e importantes oleodutos e gasodutos.
A Turquia faz parte da Nato e é um candidato a entrar na União Europeia, mas as discussões sobre este pedido arrastam-se há muitos anos, e aparentemente sem grandes progressos. Países como a França mantêm uma posição crítica em relação à entrada dos turcos na União e, de tempos a tempos, lembram o genocídio de arménios durante a primeira guerra mundial. Que os turcos nunca assumiram. A Turquia mantém, desde os tempos do Império Otomano, boas relações com a Rússia com que tem fortes relações económicas, e de onde provém uma boa parte do seu turismo. Estão em lados opostos no conflito Sírio - nomeadamente no apoio da Rússia a Bashar Al'Assad . Recentemente, parece estar a verificar-se uma reaproximação de posições – isto, apesar do insólito abate de um avião russo ocorrido há meses atrás na fronteira com a Síria.
O episódio do passado dia 14 de julho acontece, pois, num momento crítico e num local chave, e é essa a razão de ter assustado muita gente. Estão em causa eventuais consequências muito importantes que poderão afetar o equilíbrio na região: as relações com a Rússia e o futuro da cooperação entre os dois países nos domínios energético e militar; as relações com a União Europeia, a evolução do dossier integração e o futuro do acordo recentemente assinado sobre os refugiados; as relações com os Estados Unidos, a permanência na Nato e as facilidades militares cedidas aos americanos. Para não falar da delicada questão curda e do apoio - nunca admitido - que o Estado Islâmico tem encontrado na Turquia.
O presidente Erdogan emerge desta situação como o homem forte. Parece interessado em assumir uma posição não-alinhada, e querer repor um regime de concentração de poderes à semelhança dos sultões do antigo Império Otomano. Já se fala em reintroduzir a pena de morte, um claro sinal de retrocesso civilizacional. E tudo leva a crer que seja reforçado o condicionamento dos mídia, a ilegalização de partidos e a criminalização dos delitos de opinião. Aliás, as purgas a que estamos a assistir fazem lembrar o que aconteceu na Alemanha dos anos 30, na sequência do incêndio do Reichstag em Berlim, quando Hitler se aproveitou do caso para eliminar os seus inimigos internos. Viviam-se, nessa altura, tempos conturbados e muitos já veem nas prisões de milhares de juízes e soldados o ressuscitar de fantasmas que acreditávamos definitivamente enterrados.
No final da Primeira Guerra Mundial, a Turquia foi construída sobre os escombros do derrotado Império Otomano. O seu primeiro Presidente foi Mustafa Kemal Ataturk, um jovem e dinâmico oficial do exército, que introduziu profundas reformas políticas, sociais, culturais e económicas – mudou, por decreto, a forma de vestir tradicional e a antiga escrita árabe - de modo a criar um país moderno inspirado nos padrões ocidentais. A Turquia atual é uma República parlamentar com uma população de mais de 75 milhões de pessoas (censo de 2012) que se distribuem por dois continentes. A capital é Ankara, situada na península da Anatólia, mas a principal cidade é Istambul que, com os seus 15 milhões de habitantes, é a maior cidade da Europa.
A Turquia tem uma grande importância geoestratégica. Os chamados estreitos turcos (Dardanelos, Mar da Mármara e Bósforo) controlam a entrada no Mar Negro, um importante mar interior onde está situada a península da Crimeia. A via marítima formada pelos estreitos constitui o único acesso da Rússia ao Mar Mediterrâneo. A Turquia ocupa uma posição charneira no Médio Oriente e faz fronteira com a Síria, com o Iraque e com o Irão. Além disso, é através deste país que flui muito do petróleo da Ásia Central, estando prevista a construção de novos e importantes oleodutos e gasodutos.
A Turquia faz parte da Nato e é um candidato a entrar na União Europeia, mas as discussões sobre este pedido arrastam-se há muitos anos, e aparentemente sem grandes progressos. Países como a França mantêm uma posição crítica em relação à entrada dos turcos na União e, de tempos a tempos, lembram o genocídio de arménios durante a primeira guerra mundial. Que os turcos nunca assumiram. A Turquia mantém, desde os tempos do Império Otomano, boas relações com a Rússia com que tem fortes relações económicas, e de onde provém uma boa parte do seu turismo. Estão em lados opostos no conflito Sírio - nomeadamente no apoio da Rússia a Bashar Al'Assad . Recentemente, parece estar a verificar-se uma reaproximação de posições – isto, apesar do insólito abate de um avião russo ocorrido há meses atrás na fronteira com a Síria.
O episódio do passado dia 14 de julho acontece, pois, num momento crítico e num local chave, e é essa a razão de ter assustado muita gente. Estão em causa eventuais consequências muito importantes que poderão afetar o equilíbrio na região: as relações com a Rússia e o futuro da cooperação entre os dois países nos domínios energético e militar; as relações com a União Europeia, a evolução do dossier integração e o futuro do acordo recentemente assinado sobre os refugiados; as relações com os Estados Unidos, a permanência na Nato e as facilidades militares cedidas aos americanos. Para não falar da delicada questão curda e do apoio - nunca admitido - que o Estado Islâmico tem encontrado na Turquia.
O presidente Erdogan emerge desta situação como o homem forte. Parece interessado em assumir uma posição não-alinhada, e querer repor um regime de concentração de poderes à semelhança dos sultões do antigo Império Otomano. Já se fala em reintroduzir a pena de morte, um claro sinal de retrocesso civilizacional. E tudo leva a crer que seja reforçado o condicionamento dos mídia, a ilegalização de partidos e a criminalização dos delitos de opinião. Aliás, as purgas a que estamos a assistir fazem lembrar o que aconteceu na Alemanha dos anos 30, na sequência do incêndio do Reichstag em Berlim, quando Hitler se aproveitou do caso para eliminar os seus inimigos internos. Viviam-se, nessa altura, tempos conturbados e muitos já veem nas prisões de milhares de juízes e soldados o ressuscitar de fantasmas que acreditávamos definitivamente enterrados.
segunda-feira, 11 de julho de 2016
Um País à Deriva
A palestra de encerramento do ciclo de conferências "Que Portugal queremos ser? Que
Portugal vamos ter?", promovidas pelo Grémio Literário, pelo Clube Português de
Imprensa e pelo Centro Nacional de Cultura, coube a Rui Ramos, historiador e
comentador, que, no passado dia 28 de junho, optou por abordar o tema numa perspetiva
histórica focalizada nos últimos duzentos anos.
A imagem que o orador nos deixou do Portugal daquele período foi a de um país que se esforçava permanentemente em importar e adaptar os padrões económicos, sociais e culturais vigentes na Europa Central, a qual vivia o surto de progresso da Revolução Industrial: uma constituição à semelhança da França; um regime parlamentar à semelhança da Inglaterra; a escola pública, a rede ferroviária, as ideias liberais, a difusão da imprensa, as comunicações, impulsionadas pelo telégrafo e pelo telefone e as tecnologias associadas à eletricidade, que se disseminavam um pouco por toda a parte. O século XIX - sobretudo a partir das lutas liberais - foi, no nosso país, o tempo dessa adaptação, marcada por uma luta entre a elite progressista dos inovadores e os saudosistas do antigo regime. A famosa Geração de 70 deixou-nos como referência a célebre conferência proferida por Antero de Quental sobre "As causas da decadência dos povos peninsulares" e a ironia fina da prosa de Eça de Queirós que tão bem retrata as duas correntes em confronto.
Os anos do pós-guerra, já no século passado, trouxeram à Europa uma nova e enorme transformação. A reconstrução iniciada com o plano Marshall e impulsionada pela energia fóssil – nomeadamente, pelo petróleo e pelo automóvel - conduzem a uma sociedade mais urbana, mais escolarizada, já com um sistema de apoio social. Surge, por essa altura, a ideia de uma Europa Unida, e o Portugal de Salazar, apesar do dilema colocado pela manutenção das colónias africanas, não tem outra solução senão a inovação e uma lenta aproximação à Europa. O instrumento encontrado para esse fim são os conhecidos Planos de Fomento com as suas reformas na administração, na educação, na saúde, nas grandes obras, na agricultura, na indústria e nas vias de comunicação. Em 1960, Portugal adere à EFTA, uma zona de comércio livre impulsionada pela Inglaterra. O então ministro Correia de Oliveira - que participou ativamente nas negociações para a adesão à EFTA - considerava que a Europa e a continuação da nossa presença em África eram desejáveis e compatíveis para Portugal.
Entretanto, a emigração para a Europa aumenta fortemente e, ela própria, é um contributo para a integração. Perante este surto de desenvolvimento e progresso – o País registou, nesse período, as taxas de crescimento do PIB mais elevadas da sua história - a oposição está dividida entre apoiar ou rejeitar a política económica da ditadura. O Partido Socialista, adepto de uma linha europeísta, funda-se em 1973 na Alemanha, apoiado por partidos europeus.
Após o 25 de Abril, na confusão do período do PREC, Portugal torna-se um país à deriva, sem saber se deve rumar para África, para a Europa ou para o Terceiro Mundo - na altura alinhado com a esfera soviética. Porém, rapidamente se tornou claro que só a opção Europa era compatível com a democracia. Em 1977, Portugal pede a adesão à CEE, e a concretização desse objetivo passa a ser o grande projeto nacional. Seguem-se grandes reformas estruturais que recuperam a ideia dos planos de fomento da ditadura – conduzidas ainda, nalguns casos, pelas mesmas pessoas que os tinham concebido como foi o caso, entre outros, do economista José da Silva Lopes. O período 1986-1992 foi um período de grande euforia que viu nascer um País novo. A comemoração do dia de Portugal, em 10 de junho, reflete, de alguma forma, os novos tempos. Antes evocativo do passado imperial, saudosista, passou a simbolizar o Portugal das comunidades, do sucesso das novas elites, da prosperidade, dos campeões.
Todavia, a crise que adveio nos anos mais recentes volta a colocar interrogações. Muitos já perguntam se o projeto Europeu ainda faz sentido? Para Rui Ramos, a resposta é, definitivamente, afirmativa: Portugal tem de ser a casa comum de todos os portugueses. Porém, para isso precisa de estabilidade e, agora, também da Europa, entendida esta não apenas como uma democracia formal, mas como um espaço que defenda e proteja a democracia. Esta Europa trouxe a paz ao continente europeu, e em tempo algum os seus povos viveram uma situação melhor!
Também eu estou convicto que não há portugalxit possível. Mas, fala-se e discute-se ainda como se houvesse. Os políticos digladiam-se ainda entre si, lutando pelo poder e pelas suas benesses como se fôssemos um país soberano. Na realidade teimamos em não querer discutir o Portugal que queremos ser. E isso mergulha-nos na angústia e ansiedade que suscitam a imprevisibilidade do Portugal que vamos ter.
Saio desta última conferência com a convicção de que Portugal está condenado a ser um país inconformado, hesitante, sem rumo e sem consensos. Como se tivéssemos de cumprir este fado de ser um país à deriva, recusando a praxis que nos oferecem. Como se fizesse parte dos nossos genes a crença sebastianista e saudosista de que Portugal só se cumprirá nas névoas do Quinto Império...
A imagem que o orador nos deixou do Portugal daquele período foi a de um país que se esforçava permanentemente em importar e adaptar os padrões económicos, sociais e culturais vigentes na Europa Central, a qual vivia o surto de progresso da Revolução Industrial: uma constituição à semelhança da França; um regime parlamentar à semelhança da Inglaterra; a escola pública, a rede ferroviária, as ideias liberais, a difusão da imprensa, as comunicações, impulsionadas pelo telégrafo e pelo telefone e as tecnologias associadas à eletricidade, que se disseminavam um pouco por toda a parte. O século XIX - sobretudo a partir das lutas liberais - foi, no nosso país, o tempo dessa adaptação, marcada por uma luta entre a elite progressista dos inovadores e os saudosistas do antigo regime. A famosa Geração de 70 deixou-nos como referência a célebre conferência proferida por Antero de Quental sobre "As causas da decadência dos povos peninsulares" e a ironia fina da prosa de Eça de Queirós que tão bem retrata as duas correntes em confronto.
Os anos do pós-guerra, já no século passado, trouxeram à Europa uma nova e enorme transformação. A reconstrução iniciada com o plano Marshall e impulsionada pela energia fóssil – nomeadamente, pelo petróleo e pelo automóvel - conduzem a uma sociedade mais urbana, mais escolarizada, já com um sistema de apoio social. Surge, por essa altura, a ideia de uma Europa Unida, e o Portugal de Salazar, apesar do dilema colocado pela manutenção das colónias africanas, não tem outra solução senão a inovação e uma lenta aproximação à Europa. O instrumento encontrado para esse fim são os conhecidos Planos de Fomento com as suas reformas na administração, na educação, na saúde, nas grandes obras, na agricultura, na indústria e nas vias de comunicação. Em 1960, Portugal adere à EFTA, uma zona de comércio livre impulsionada pela Inglaterra. O então ministro Correia de Oliveira - que participou ativamente nas negociações para a adesão à EFTA - considerava que a Europa e a continuação da nossa presença em África eram desejáveis e compatíveis para Portugal.
Entretanto, a emigração para a Europa aumenta fortemente e, ela própria, é um contributo para a integração. Perante este surto de desenvolvimento e progresso – o País registou, nesse período, as taxas de crescimento do PIB mais elevadas da sua história - a oposição está dividida entre apoiar ou rejeitar a política económica da ditadura. O Partido Socialista, adepto de uma linha europeísta, funda-se em 1973 na Alemanha, apoiado por partidos europeus.
Após o 25 de Abril, na confusão do período do PREC, Portugal torna-se um país à deriva, sem saber se deve rumar para África, para a Europa ou para o Terceiro Mundo - na altura alinhado com a esfera soviética. Porém, rapidamente se tornou claro que só a opção Europa era compatível com a democracia. Em 1977, Portugal pede a adesão à CEE, e a concretização desse objetivo passa a ser o grande projeto nacional. Seguem-se grandes reformas estruturais que recuperam a ideia dos planos de fomento da ditadura – conduzidas ainda, nalguns casos, pelas mesmas pessoas que os tinham concebido como foi o caso, entre outros, do economista José da Silva Lopes. O período 1986-1992 foi um período de grande euforia que viu nascer um País novo. A comemoração do dia de Portugal, em 10 de junho, reflete, de alguma forma, os novos tempos. Antes evocativo do passado imperial, saudosista, passou a simbolizar o Portugal das comunidades, do sucesso das novas elites, da prosperidade, dos campeões.
Todavia, a crise que adveio nos anos mais recentes volta a colocar interrogações. Muitos já perguntam se o projeto Europeu ainda faz sentido? Para Rui Ramos, a resposta é, definitivamente, afirmativa: Portugal tem de ser a casa comum de todos os portugueses. Porém, para isso precisa de estabilidade e, agora, também da Europa, entendida esta não apenas como uma democracia formal, mas como um espaço que defenda e proteja a democracia. Esta Europa trouxe a paz ao continente europeu, e em tempo algum os seus povos viveram uma situação melhor!
Também eu estou convicto que não há portugalxit possível. Mas, fala-se e discute-se ainda como se houvesse. Os políticos digladiam-se ainda entre si, lutando pelo poder e pelas suas benesses como se fôssemos um país soberano. Na realidade teimamos em não querer discutir o Portugal que queremos ser. E isso mergulha-nos na angústia e ansiedade que suscitam a imprevisibilidade do Portugal que vamos ter.
Saio desta última conferência com a convicção de que Portugal está condenado a ser um país inconformado, hesitante, sem rumo e sem consensos. Como se tivéssemos de cumprir este fado de ser um país à deriva, recusando a praxis que nos oferecem. Como se fizesse parte dos nossos genes a crença sebastianista e saudosista de que Portugal só se cumprirá nas névoas do Quinto Império...
segunda-feira, 4 de julho de 2016
Brexit
O Brexit acontece em contracorrente com a lógica da evolução natural da economia e do progresso civilizacional. A economia exige mais globalização, porém, o Brexit vai no caminho oposto. O mundo exige mais integração e mais diálogo; com o Brexit um país isola-se e fecha-se aos outros. O mundo apela ao fim das fronteiras; o sentido do Brexit orienta-se para o reerguer de muros e para a colocação de barreiras. A transição, necessária para um futuro de prosperidade, exige mais igualdade e mais solidariedade. O Brexit foi uma escolha egoísta dos mais favorecidos para proteger as suas regalias e direitos em detrimento dos mais desfavorecidos. Quando tudo isto é feito em nome da democracia e do sagrado direito dos povos a escolher o seu destino, nós perguntamos se a democracia pode ser usada em todas as circunstâncias? E até se, em situações como esta, não servirão para a enfraquecer?
A laboriosa e lenta construção da Europa foi iniciada há 70 anos sobre os escombros da devastação produzida na Segunda Guerra Mundial. A Holanda, a Bélgica, a França, o Reino Unido tinham perdido, ou estavam em vias de perder, as suas colónias na Oceânia, na Ásia e em África. O acentuar da sua dependência energética era previsível, visto que escasseavam na Europa os combustíveis fósseis, nomeadamente o carvão e o petróleo (pois ainda não se tinham descoberto as jazidas do Mar do Norte). A guerra tinha produzido duas novas super potências: os Estados Unidos e a União Soviética. Qualquer delas com um poderio militar e económico muito superior ao do conjunto dos países europeus. A linha que as separava - "uma cortina de ferro que se estendia desde Stettin, no Báltico, até Trieste, no Adriático (discurso de Churchill, 1946) "- dividia a Europa ao meio. Em 1949, os norte-americanos lançaram o Plano Marshall que permitiu aos europeus uma rápida recuperação das suas economias para os níveis anteriores ao conflito. No dia 9 de maio de 1950, cinco anos após a rendição do regime nazi, Robert Schuman lançou um apelo à Alemanha Ocidental e aos países europeus para que instituíssem uma única autoridade comum para administração das respectivas produções de aço e carvão. Assim nasceu a CECA, Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, assinada por seis países: França, Alemanha, Itália e os três países do Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo).
O impulso mais importante tem lugar em 1957 com a assinatura do Tratado de Roma. Os países constituintes da Europa dos Seis decidem avançar na cooperação nos domínios económico, social e político. Os acordos tinham como objetivo implantar um mercado comum, que permitisse a livre circulação de pessoas, bens e capitais. A Comunidade Económica Europeia (CEE) foi a entidade internacional instituída por este tratado, de tipo supranacional e dotada de capacidade autónoma de financiamento.
Para muitos dos países que - como é o caso de Portugal – hoje integram a União Europeia, a adesão à Europa e ao Euro significou a promessa de um futuro de paz com uma prosperidade sem fim. Mas, agora, esse futuro apresenta-se incerto e perigoso. A recessão, que nos anos recentes se abateu sobre a economia mundial, está a produzir insegurança no emprego, nas reformas e a fragilidade do sector financeiro; a austeridade e as migrações agravaram o descontentamento de muitas pessoas, sobretudo da classe média. Para muitas delas, o capitalismo e a Europa que o representa são o bode expiatório. Os indignados, que fazem crescer, por toda a parte, partidos de um novo tipo, não são os filhos da classe operária, mas são os filhos dos revolucionários do maio de 68 que prosperaram no capitalismo. E ainda não perceberam que, sem uma Europa coesa e forte, o futuro que os espera só pode ser pior.
Um dia, algum iluminado quererá referendar o fim da miséria, do sofrimento e, quiçá, até da Morte. O sim, como resposta a estes anseios ancestrais, até pode vencer. Mas, não será por isso que entraremos no Paraíso ou alcançaremos a Vida Eterna.
A laboriosa e lenta construção da Europa foi iniciada há 70 anos sobre os escombros da devastação produzida na Segunda Guerra Mundial. A Holanda, a Bélgica, a França, o Reino Unido tinham perdido, ou estavam em vias de perder, as suas colónias na Oceânia, na Ásia e em África. O acentuar da sua dependência energética era previsível, visto que escasseavam na Europa os combustíveis fósseis, nomeadamente o carvão e o petróleo (pois ainda não se tinham descoberto as jazidas do Mar do Norte). A guerra tinha produzido duas novas super potências: os Estados Unidos e a União Soviética. Qualquer delas com um poderio militar e económico muito superior ao do conjunto dos países europeus. A linha que as separava - "uma cortina de ferro que se estendia desde Stettin, no Báltico, até Trieste, no Adriático (discurso de Churchill, 1946) "- dividia a Europa ao meio. Em 1949, os norte-americanos lançaram o Plano Marshall que permitiu aos europeus uma rápida recuperação das suas economias para os níveis anteriores ao conflito. No dia 9 de maio de 1950, cinco anos após a rendição do regime nazi, Robert Schuman lançou um apelo à Alemanha Ocidental e aos países europeus para que instituíssem uma única autoridade comum para administração das respectivas produções de aço e carvão. Assim nasceu a CECA, Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, assinada por seis países: França, Alemanha, Itália e os três países do Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo).
O impulso mais importante tem lugar em 1957 com a assinatura do Tratado de Roma. Os países constituintes da Europa dos Seis decidem avançar na cooperação nos domínios económico, social e político. Os acordos tinham como objetivo implantar um mercado comum, que permitisse a livre circulação de pessoas, bens e capitais. A Comunidade Económica Europeia (CEE) foi a entidade internacional instituída por este tratado, de tipo supranacional e dotada de capacidade autónoma de financiamento.
Para muitos dos países que - como é o caso de Portugal – hoje integram a União Europeia, a adesão à Europa e ao Euro significou a promessa de um futuro de paz com uma prosperidade sem fim. Mas, agora, esse futuro apresenta-se incerto e perigoso. A recessão, que nos anos recentes se abateu sobre a economia mundial, está a produzir insegurança no emprego, nas reformas e a fragilidade do sector financeiro; a austeridade e as migrações agravaram o descontentamento de muitas pessoas, sobretudo da classe média. Para muitas delas, o capitalismo e a Europa que o representa são o bode expiatório. Os indignados, que fazem crescer, por toda a parte, partidos de um novo tipo, não são os filhos da classe operária, mas são os filhos dos revolucionários do maio de 68 que prosperaram no capitalismo. E ainda não perceberam que, sem uma Europa coesa e forte, o futuro que os espera só pode ser pior.
Um dia, algum iluminado quererá referendar o fim da miséria, do sofrimento e, quiçá, até da Morte. O sim, como resposta a estes anseios ancestrais, até pode vencer. Mas, não será por isso que entraremos no Paraíso ou alcançaremos a Vida Eterna.
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