terça-feira, 21 de maio de 2019

Ética e Ciências da Vida


As Ciências da vida são muitas – por exemplo, a medicina, a genética, a biomédica - no sentido lato são um vasto conjunto de Ciências que estudam os seres vivos derivando de um tronco principal que é a Biologia. Surge, entretanto, a Bioética uma área interdisciplinar para a qual concorrem a Biologia, o Direito e a Ética e que estuda as condições para uma gestão(?) responsável da Vida Humana, animal e ambiental e aborda questões tais como: o controlo da natalidade ; a fertilização fora do útero; a clonagem; a manipulação genética; a morte assistida, o prolongamento da vida, as barrigas de aluguer, as leis da adopção, o casamento de pessoas do mesmo género. Todos estes temas desenvolveram-se extraordinariamente nas últimas seis ou sete décadas.

Leio, algures, uma justificação sobre a necessidade de associar a Ética a estas ciências: "o progresso técnico deve ser controlado para acompanhar a consciência da humanidade sobre os efeitos que eles podem ter no mundo e na sociedade para que as novas descobertas e suas aplicações não fiquem sujeitas a todo tipo de interesses". Procuro identificar alguns desses possíveis interesses: e a minha atenção vai, em primeiro lugar, para o que aparece associado ao valor económico desse conhecimento no comércio de embriões humanos; utilizar a fertilização artificial e a gestação laboratorial, para fazer o apuramento da raça humana com fins económicos políticos ou militares; esterilizar populações, raças ou povos através da manipulação genética; a incentivação da eutanásia. Um dia, quando desparecerem os laços familiares, receio que se venha a questionar o valor económico de cada ser humano, resultado do balanço entre a sua "utilidade social" e o custo de o manter vivo. A história já nos mostrou exemplos disso.

O impacto das opções que vierem a ser tomadas será enorme, pois poderá condicionar o futuro da espécie humana. Está em causa muita coisa: a família, a política, o amor, o sexo, a liberdade, a democracia. Penso, muitas vezes, que já se perdeu a finalidade do “instinto de procriação” na espécie humana. É verdade que a atração sexual e o prazer da união consentida se preserva, mas não a última finalidade do ato pois essa foi suprimida pela prática anti-conceptiva a qual funciona como uma forma de iludir a natureza. Preserva-se e amplia-se o prazer sexual mas elimina-se a procriação. Ora, acho eu, que o instinto de sobrevivência, só por si, não é suficiente para preservar a espécie. Dotada apenas deste único instinto, a espécie humana vai envelhecer, não se reproduzirá naturalmente, e acabará por colapsar. Perante esse cenário, a Humanidade vai ter de adotar um processo de reprodução artificial, orientado para suprir as necessidades demográficas e sociais. E esse processo será a expressão de uma nova forma de poder.

Muitas serão as implicações resultantes de tal estado de coisas. Regressamos ao admirável mundo novo, de A Huxley, onde estará ausente o Amor, e que será dominado pelo prazer. Os indivíduos terão funções predeterminadas, muita da sua vida será programada, possivelmente até a Morte. Continuará a haver, neste cenário, sentido para a Vida?

Quando um filho vai ao tribunal responsabilizar os pais por o terem trazido ao mundo - isso parece ter acontecido recentemente - estamos perante uma situação que não pode ser visa como uma simples anedota mas que requer uma reflexão especial. A partir de agora, os filhos deixaram de ser dádivas de Deus e frutos do Amor. Passarão a ser uma opção de conveniência de um ou dois indivíduos que os podem encomendar como uma simples mercadoria com especificações predefinidas. Afinal, uma forma camuflada e aceite de tráfico humano. Este teria sido um belo tema para a tragédia grega com material para re-escrever o Édipo.

Perante isto, interrogo-me sobre o que fazer ou não fazer com este novo conhecimento . Está o debate aberto. Falta-nos a contribuição da história pois não podemos contar - com sempre tem acontecido - com as opiniões dos sábios do passado, aos quis sempre recorremos quando procuramos guias: Sócrates, Platão, Séneca Tomás de Aquino, Kant, Nietzsche e até mesmo Darwin. Isto faz uma grande diferença e aumenta as nossas responsabilidades.

Quem vai participar no debate? É urgente fazê-lo, mas onde? Em cada país? A nível Global? A quem cabe a última palavra? Aos médicos, juristas, teólogos, políticos, economistas ou filósofos ? Num tema tão delicado, quando chegar a hora das grandes opções, temos o direito de usar o “referendo” como forma de decisão, entregando a uma geração o direito de decidir, egoisticamente, sobre o destino de gerações futuras?

Penso que só a Filosofia nos pode ajudar a encontrar as respostas.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

O sonho comanda a vida

Na noite do passado dia 27 de Abril  houve "Conversas sobre Almeida". Estavam anunciadas para o Terreiro Velho, e eu, encontrando-me em Almeida, não poderia faltar. Chego em cima da hora marcada e encontro o lugar deserto, mas não me espanta o facto, pois estou habituado a ver Almeida deserta. Mesmo assim, tento informar-me do sucedido, e descubro que, afinal,  as Conversas têm lugar nas portas interiores de Santo António,  para onde, apressado, me dirijo. Não conhecia a sala, uma surpresa agradável. Umas 40 pessoas estavam ali, vejo alguma caras conhecidas, poucas.

A sessão já tinha começado, o Filipe Vilhena usava da palavra. Apresentava ideias, perguntava porque razão coisas muito simples não se poem em marcha, por exemplo, um parque de campismo. Falou do castelo e da sua reconstrução - lembrando a propósito os interessantes escritos no Praça Alta do arquiteto Samuel Pinto-, referiu o rio Coa e a o urgência de o revalorizar,  mostrou estranheza pelo facto do maior monumento português não estar dignamente anunciado na fronteira de Vilar Formoso, e até falou da possibilidade de construir um pequeno aeródromo no concelho.

Mas a grande surpresa da noite estava para chegar. O Pedro Terreiro - mais tarde descubro que se apresenta no ciber espaço como Pedro Zaz -, falou em seguida. Uma figura franzina, o estilo informal, postura irrequieta de quem tem muito para dizer e sente de forma vibrante o que lhe vai na alma. Assume-se como almeidense com o orgulho e a autoconfiança de quem sabe o que quer e o que vale. Fala de Almeida com transbordante entusiasmo. Refere-se  aos Estados Unidos, à China, ao Japão, ao Brasil como se estivesse a falar de lugares comuns. Insiste em comparar Almeida a Nova York como se fossem duas localidades irmanadas na aldeia global. Os presentes ouviam com atenção, contagiados - diria até hipnotizados - com o entusiasmo do orador.

A proposta do Pedro é simples: Almeida e as suas muralhas reunem condições únicas para produzir arte efémera e, desta forma, valorizar aquilo que é único em Almeida, atraindo pessoas, investimentos, estimulando a economia. Todo o concelho ficará a ganhar. Estimulará o turismo e todas as atividades que vêm atrás dele. A ideia já está concretizada com sucesso noutros países - mostrou um interessante exemplo, no Japão.  De forma convincente, assegura um milhão de visualizações nas redes sociais. Afinal, penso eu, um investimento com um retorno  muito grande, pois se a ação proposta custar cem mil euros o custo por contacto será de 10 cêntimos,  um valor incomparavelmente inferior ao custo por contacto nos meios tradicionais. E que é muito mais eficaz pois dirige-se a um alvo qualificado.

Saio da reunião surpreendido pelo vibrante entusiasmo da proposta do jovem almeidense. Será a arte efémera uma boa aposta para Almeida? Pensando bem, na Natureza, tudo o que é temporal é efémero: A arte, os governos, os países, os impérios, a política, a  economia, a riqueza, o poder e a glória. A vida de cada ser humano é um flash no tempo universal. A própria espécie do homo sapiens  se apagará da Terra, muito antes do nosso planeta ser engolido por um Sol moribundo .

Na sociedade atual do consumismo, do descartável, da voracidade das redes sociais, da novidade permanente,  da facilidade  nas comunicações, das notícias que se atropelam e da fluente mobilidade, o tempo dos homens passa mais depressa. A única certeza que preside ao nosso dia-a-dia é a de sabermos que, amanhã, tudo será diferente e que o tempo não voltará para trás.

O efémero está na moda. E é a moda que confere valor económico aos produtos. Por isso a proposta do Pedro deve ser seriamente considerada. É uma proposta arrojada, inovadora, é criativa, envolve a comunidade local. Vem de um profissional reconhecido internacionalmente e com um currículo invejável. A sua concretização vai estimular a atenção sobre o território, para logo suscitar interesse e o desejo que leva à ação.

O Sr Presidente da Câmara não deve deixar passar ao lado esta oportunidade. O facto da ideia  não vir de nenhum académico iluminado não é um mal, é antes um bem, Mostra que existem almeidenses vivos e com uma Alma grande.

Por aquilo que percebi, os almeidenses que estavam na sala esperam da autarquia um gesto nobre e com visão de futuro. Eu comungo dessa esperança, tenho um palpite de que vai dar certo, e, se for preciso, pago para ver.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Se


Se, na adversidade da mais escura noite,
conseguires colocar-te acima das Palavras
e deixares que te guie a Voz Silenciosa da tua Alma.

Se fores capaz de enxergar a Verdade,
atrás da floresta de enganos e das sombras
que, a cada dia, os ecrãs te mostram.
Se conseguires ver na mais pequena flor o milagre da Vida,
e vislumbrar na mais longínqua estrela a mão do Criador

Se recusares usar plástico quando podes evitá-lo,
e assumires o compromisso de não sujares o ar que respiras,
nem a água que bebes, nem os alimentos que comes.
Se conseguires imaginar por detrás da carne da tua refeição
o sacrifício do animal que ta entregou

Se, para subires mais um degrau na tua Consciência,
fores - como disse o poeta - capaz de ir além da dor,
indiferente ao mavioso canto das paixões e dos prazeres.
E fores capaz de esquecer as névoas do Futuro,
quando o Aqui e o Agora reclamam a tua presença.

Se, quando o poder ou a glória te baterem à porta,
te lembrares da gota de sémen como começaste
e  do punhado de cinzas que serás um dia.
E aceitares, com a mesma serenidade, as mudanças certas
- para melhor ou para pior -  que o futuro te trouxer.

Se, com Compaixão, fores capaz de levar Esperança
a uma criança, a um necessitado ou a um  enfermo,
indiferente à sua riqueza, raça, credo ou idioma.
Se fores capaz de te dares aos outros, sem esperar recompensa,
Da mesma forma como a rosa te dá o seu perfume.

Se fizeres do Bem, do Belo, da Justiça e da Verdade
as estrelas que iluminam o teu caminho
Então, serás dono do Tempo. A Eternidade está ao teu alcance.
E - acima de tudo - meu irmão e minha irmã, contribuirás
para fazer deste Mundo um lugar melhor para os teus filhos


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Mandamentos



Primeiro: Conhece-te a ti próprio; procura dentro de ti as respostas para as tuas dúvidas.

Segundo: Pratica o Bem, ama o Belo, sê justo. Busca o conhecimento

Terceiro: Carpe Diem: Esquece o futuro porque ele é imprevisível e traiçoeiro

Quarto:  Põe o melhor de ti próprio em tudo o que fizeres. Cultiva o ócio, porque este é o único tempo que verdadeiramente te pertence.

Quinto: Aceita da mesma forma a Adversidade e o Sucesso; a Paz e a Guerra; a Vida e a Morte

Sexto: Não tomes nada como certo e definitivo, porque um dia tudo será diferente.

Sétimo Nunca te esqueças que começaste com uma gota de sémen e acabarás como um punhado de cinzas. E o mesmo acontecerá aos teus amigos e aos teus inimigos.

Oitavo. Respeita a Natureza e os seus equilíbrios. Não queiras ter mais do que aquilo que precisas.

Nono. Sê Solidário. Respeita e cuida dos mais velhos, dos mais fracos e dos mais necessitados.

Décimo. Educa as crianças ao teu redor. Dá-lhes tudo e nada lhes peças em troca. Procura que elas sejam melhores e mais sábias do que aquilo que tu foste.


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O Rio Côa


Um rio é uma benesse da natureza. Foi nas margens dos rios que se fixaram, pela primeira vez, os nómadas das tribos de caçadores-recoletores, e foi nelas que se construiriam as grandes cidades da antiguidade. O Jardim do Éden ficava nas margens dos rios da Mesopotâmia, a região que foi o berço da civilização. O Egito Antigo era, no dizer do historiador Heródoto, uma dádiva do Nilo. E foi nas purificadoras águas do celebrado rio Jordão que Jesus Cristo foi batizado.

Na sua geomorfologia, os rios têm um dinamismo próprio. Nascem, límpidos e cristalinos, pequenos fios de água escorrendo das neves das montanhas. Na sua  juventude, correm velozes, apertados entre margens abruptas, alimentam uma fauna e uma flora diversificadas. Na velhice, espraiam-se nos vales para onde arrastam os sedimentos que nutrem a terra e fazem florescer as culturas.  Mas os rios nunca morrem. As suas  águas fluem sempre diferentes, sempre renovadas, pois eles são um elo dessa maravilhosa corrente fechada que é o ciclo da água. Foi o filósofo grego Heráclito que disse que nunca nos podemos voltar a banhar nas mesmas águas de um rio, porque um rio nunca é igual a si próprio.

No seu percurso, o Côa, o rio da nossa terra, é indomado, selvagem e agreste. As suas margens foram habitadas pelos homens que,  há, talvez, uma dezena de milhares anos, nos deixaram gravuras esculpidas na rocha, testemunhos de uma fauna abundante e diversificada.  Uma parte importante do percurso do rio Côa fica no concelho de Almeida e está ligado à sua História: nas sua margens travou-se dura batalha em 1810, para defender a única ponte que permitia a entrada em Portugal pela fronteira da Beira; as principais pontes sobre o Côa, nas estradas e no caminho de ferro que nos ligam à  Europa, estão no nosso concelho; a eletricidade que iluminou Almeida pela primeira vez era produzida no rio; e até as termas da Fonte Santa lhe estão intimamente ligadas.

Na margem esquerda, onde se situa a maior parte da bacia do rio e onde correm as principais ribeiras que nele confluem - das quais a principal é a ribeira das Cabras -, está a Asta.  Pela proximidade, por tudo o que ele representa, a relação da Asta com o Côa tem de ser uma relação forte.  O rio tem muito para lhe dar: a inspiradora paisagem que convida à meditação, à introspeção, à poesia e à arte, o desafio da aventura e da descoberta, o espaço de descanso e lazer, a excelência de um cenário para desportos de ar livre, tais como, a pesca desportiva - com os seus benefícios terapêuticos -, as caminhadas, a canoagem, o campismo, a natação.

Urge, pois, conhecermos melhor o nosso rio. Vamos redescobri-lo na sua beleza natural,  tomar consciência dos riscos que ameaçam o seu equilibro e a sua saúde;  identificar e catalogar a sua fauna, a sua flora, fotografar os seus mais belos recantos; analisar a qualidade das suas águas; revisitar as marcas que os homens nele deixaram:  as gravuras, as pontes, os açudes, as noras, as veigas, a etnografia, as lendas e os costumes.

Vamos trazer o Rio Côa de volta  para a nossa convivência, voltar a percorrer as suas margens e voltar a mergulhar nas suas águas.  Sem termos de o represar nem ter de o poluir, é urgente que lhe demos valor económico, criando riqueza para ela, por sua vez, crie empregos e fixe pessoas. Sobretudo, envolver a nessa tarefa toda a comunidade - nomeadamente os mais jovens e os alunos das escolas -, pois o rio é de todos.. Enfim, vamos todos trabalhar para criar uma sólida relação de afecto com  o Rio Côa, com a certeza que que só podemos amar aquilo que conhecemos.




domingo, 4 de novembro de 2018

Conhecimento, Opinião, Democracia e Educação

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O tema que escolhi para este artigo foi inspirado pelas experiências que, nos últimos 10 anos, na Fundação Vox Populi,  temos tido  com o programa "A Pesquisa que Ensina" sobre novas abordagens pedagógicas junto de algumas escolas portuguesas. O objetivo deste texto é relacionar quatro importantes conceitos, conhecimento, opinião, democracia e educação, procurando, em jeito de conclusão, realçar a extraordinária importância da educação para o nosso futuro coletivo.

Os gregos identificavam dois tipos de conhecimento, o episteme - que designo por conhecimento científico, e o techne - que designo por conhecimento técnico. Existe outro conhecimento, a gnose,  que designarei por conhecimento gnóstico.  O termo gnose deriva do termo grego "gnosis". É um conhecimento intuitivo, baseado em crenças e narrativas mitológicas. A existência de um Deus transcendente é aceite pelos gnósticos, que vêem na Religião e na Fé um caminho para atingir um conhecimento mais profundo da realidade do mundo. Quando, a partir de agora, referir "conhecimento", não incluo a gnose, falo apenas de conhecimento técnico-científico que é uma “fusão” entre episteme e techne, considerando que estes dois tipos de conhecimento, evoluem paralelamente, fundem-se e potenciam-se mutuamente.

O conhecimento está associado ao progresso da espécie humana e intimamente relacionado com a linguagem e com o pensamento, pois sem linguagem não há pensamento produtivo. Foi o conhecimento que transformou o homo sapiens no ser superior que ele é no seio da criação e foi responsável pelas grandes conquistas civilizacionais. O conhecimento é a causa dessa tão surpreendente ocorrência cósmica que Teilhard de Chardin designou por Fenómeno Humano.

Eu vejo o conhecimento como uma aptidão (no sentido darwiniano da palavra) da espécie humana, aperfeiçoada ao longo de milénios. Mas, ao contrário do que se passa noutras espécies, enquanto aptidão adquirida, o conhecimento não se incorpora na informação genética dos homens, mas preserva-se externamente - sob a forma de informação -, e transmite-se pela educação às gerações seguintes. Considerando as suas características, a aquisição, preservação e difusão do conhecimento só foi possível devido a capacidade de comunicação entre indivíduos. Por isso, a evolução do conhecimento está associado às quatro grandes revoluções na forma comunicar que se sucederam a intervalos sucessivamente mais curtos: a) a linguagem há cerca 50000 anos, b) a escrita há cerca de 5000 anos, c) a imprensa há pouca mais de 500 anos e a d) internet, cujo início, para manter a cadência exponencial da série, podemos datar de há 50 anos atrás. Nestas revoluções, verificou-se um salto significativo no desenvolvimento de novas capacidades e criação de novas ferramentas,  progressivamente mais sofisticadas e complexas. Condições, que foram, elas próprias, uma consequência do conhecimento acumulado. Que outras revoluções nos esperam no futuro próximo? Quais os riscos associados à crescente complexidade das novas ferramentas? Dado que nas leis de Darwin não se admite a desevolução, poderá a espécie ficar prisioneira dessa complexidade e entrar num cul-de-sac evolutivo?

 Para os gregos, como contraponto ao episteme, a opinião era chamada de doxa, sufixo que reconhecemos em palavras tais como ortodoxo, paradoxo. Doxa era a opinião comum que os sofistas procuravam influenciar com argumentos não necessariamente verdadeiros, e que  Platão opunha ao episteme. Nos dias de hoje, por vezes, confundimos opinião com conhecimento, embora se  trate de conceitos muito diferentes.

O conhecimento é um atributo da espécie, é cumulativo e de base racional (produzido pelo pensamento), ao passo que a opinião é um atributo do indivíduo, não cumulativa e de base emocional (e, nessa medida, influenciada pelo medo, pela raiva, pela vingança e pela inveja); o conhecimento está comprometido com a ética e com a verdade, ao passo que a opinião que é pessoal, é descomprometida com a verdade, íntima e nem sempre confessável; o conhecimento é universal e não manipulável, e a opinião é tribal, populista e nacionalista, e pode ser manipulada; finalmente, no conhecimento prevalece o realismo, a ponderação e a análise de longo prazo, e na opinião prevalece a paixão, o imediatismo e a crença nas utopias.

A democracia moderna, que remonta ao final do século XVIII,  tem origem nos princípios saídos da Revolução Francesa e postos em prática pelos homens que declararam a independência dos Estados Unidos da América, numa altura em, por virtude do progresso (que é uma consequência do conhecimento, ou se identifica com o próprio conhecimento!), se iniciava uma importante transformação económica que foi a Revolução Industrial, cujo impacto se veio a revelar nas grandes mudanças científicas, tecnológicas e sociais,  que prosseguem até aos nossos dias. Os princípios da moderna democracia estão bem expressos na frase de Abraham Lincoln: “the people, by the people and for the people”. O poder emana do povo, é exercido pelo povo, para servir o povo.

Mas existe um grande paradoxo (já expresso por Platão) que questiona o valor da democracia: a legitimação do poder dos governantes e dos representantes do povo que fazem as leis e escrevem as constituições, sustenta-se na opinião que é expressa no voto dos cidadãos; ora, sendo, como vimos acima, a opinião descomprometida com a verdade e com a ética, e sendo influenciável (ou mesmo manipulável), o valor da democracia será o apenas valor da opinião sobre a qual ela se fundamenta. E, por toda a parte, em crescendo, vão-se sucedendo exemplos que nos levam a questionar o valor da democracia. A eleição democrática de líderes (falo do caso da Alemanha nazi) que cometeram crimes contra a humanidade ilustra bem a pertinência do argumento.

E, no entanto, a democracia funciona e não sendo porventura o melhor sistema ele será o menos mau, pois não se vê outro melhor que o possa substituir. É certo que a imprensa livre contribuiu, nos últimos 200 anos, com o seu papel vigilante e formador de opinião para fortalecer o sistema e iludir as suas fraquezas. Mas isso pode estar em causa na Era Digital, dado que essa vigilância está-se a diluir no labirinto das redes sociais.

Com a democracia debilitada, a Humanidade enfrenta uma época em que se lhe apresentam grandes desafios: o futuro do homo sapiens enquanto espécie pode estar ameaçado pois o seu tremendo sucesso, no reino da criação foi conseguido à custa de um preço elevado: aniquilação de outras espécies, forte pressão demográfica, esgotamento de recursos, poluição, alterações climáticas. A economia (ela própria e, paradoxalmente, fruto do conhecimento) que suporta o sucesso da espécie, exige crescimento contínuo, é poluidora e predadora de recursos, e precisa de ser rapidamente substituída.

Um sistema político baseado apenas na doxa será incapaz de inverter a tendência para o colapso da espécie. Só um sistema baseado no conhecimento capaz de alterar tanto o atual sistema político como económico, permitirá à Humanidade fazer as escolhas necessárias à sua sobrevivência e determinar livremente o seu destino. Mas temos de estar atentos aos riscos. A quem caberá a incumbência de guardar e preservar os arquivos digitais? Qual a possibilidade e o risco de poderem vir a ser manipulados? Qual a longevidade e fiabilidade dos suportes que os contêm? Como assegurar a compatibilidade dos diferentes sistemas de gravação? Qual o risco de haver impedimento ou restrição no seu acesso, associado à dependência da rede eléctrica e das redes de comunicação? Paralelamente vão colocar-se problemas relacionados com o uso da informação, com as ameaças à liberdade das pessoas, com a invasão da sua privacidade.

A Wikipedia pode desempenhar um papel importante para se institucionalizar como um sólido guardião do conhecimento, se conseguir proteger-se de intrusões oportunistas, preservar a sua independência, colocando-se definitivamente ao serviço do episteme e não da doxa.

Mas, é na educação que estará a chave da solução do problema.  No futuro, para contornar as armadilhas do progresso e da democracia, temos de ser muito cautelosos na forma como iremos preparar as novas gerações. Temos de educar para o conhecimento, fortalecendo as opiniões que permitam fazer as escolhas certas. Mas não podemos transmitir o conhecimento como se ele fosse apenas um conjunto de informações compartimentadas e descontextualizadas. Temos de ser capazes de transmitir os valores que lhe estão associados, mostrar o caminho - nem sempre fácil - para lá chegarmos, e, sobretudo, alertar para o perigo de decidir com base numa opinião que não esteja comprometida com a verdade e pela ética e que não seja alimentada pelo conhecimento.

Só com uma opinião fundamentada e expurgada das ciladas que lhe estão associadas poderemos continuar a afirmar que Vox Populi, Vox Dei - ou seja, que a  Voz do Povo é a Voz de Deus. O primeiro passo poderá ser pesquisar a própria opinião. É essa a proposta da Fundação Vox Populi nos projetos do Programa  "A Pesquisa que Ensina", que documentamos neste  pequeno vídeo.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Rio Vivo

Foi com um sentimento de tristeza, mitigado pela satisfação do cumprimento de um dever, que, no passado dia 16 de junho, pelas 15 horas, me reuni com um pequeno grupo de dez pessoas, na Casa do Quartel, em S. Pedro do Rio Seco, para oficializar o fim da Associação Rio Vivo. Quando, no verão de 2009, no lagar do Ti Norberto, os seis fundadores - eu, a Paula, o Manuel Alcino, o António André, o Amândio Caldeira e o Jorge Carvalheira-, assinaram uma bela e bem intencionada carta de princípios, fizeram-no movidos pelo impulso de quem não aceita ver morrer aquilo que se ama. 

Durante a curta vida da associação muita coisa se fez. Recuperou-se o edifício da sede no antigo quartel da Guarda Fiscal, cedido pela Junta de Freguesia, vieram dezenas de jovens animar a aldeia, tentou-se introduzir uma nova forma de cultivar a terra, criou-se um mercado de produtos locais, espalhou-se arte pelas ruas, dançou-se na igreja, fizeram-se cursos e workshops na velha escola, tocou-se concertina em alegres arruadas de adega em adega. No verão de 2011, recebemos gente importante para homenagear o nosso conterrâneo, professor Eduardo Lourenço, e oferecemos à aldeia um singelo monumento evocativo do evento. Fizeram-se projetos e tentativas de recuperar ruínas. E, animados pelo espírito romântico e ecologista do Amândio Caldeira, até tentámos reintroduzir o mexilhão de água doce na Ribeira de Toirões. Com o nascimento do filho da Caetana e do Zé Lambuça, o Zacarias, assistimos, em terras de gente envelhecida, ao improvável milagre da renovação da vida.

Eu e a minha família investimos neste projeto tempo, algum dinheiro e muita energia. Pessoalmente, não me arrependo de nada, e até lamento não ter podido ir ainda mais longe. Apesar de saber, hoje, que tudo não passou de uma ilusão. Quando faltam as pessoas unidas por interesses comuns, esgota-se a razão de ser das associações pois elas são feitas de pessoas e para as pessoas. Em S. Pedro começam a escassear as duas coisas: há cada vez menos pessoas e não um existe um objetivo que as agregue para a construção do futuro.

Com o desaparecimento da Associação Rio Vivo, é também uma parte de S. Pedro que desaparece. A lição que me fica desta experiência é que pouco se pode fazer para contrariar o progresso e o determinismo das mudanças que afetam sociedades e civilizações. Sei, agora, que nada voltará a ser com era antes. Não haverá mais garotos descalços a correr as ruas e a jogar à chona ou ao pica-chão, nem moços e moças dançando ao som das concertinas. Não haverá mais matanças do porco no outono, nem bodas fartas nas primaveras, nem fatos domingueiros nos dias de festa. Acabou a dureza da vida no campo quando a ceifa, a debulha e a trilha se faziam com o esforço dos homens e dos animais.

Mas outro tempo, certamente, virá. Sobre os escombros do tempo antigo, irá iniciar-se um novo ciclo, talvez uma nova forma de povoamento. Que o exemplo da Associação Rio Vivo sirva para ajudar os vindouros a construir um futuro melhor.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

O Otimismo de Centeno

"A economia da zona Euro cresce há 20 trimestres consecutivos", disse Mário Centeno no Grémio Literário, na palestra, proferida no passado dia 22 de Maio passado, integrada no ciclo que ali decorre subordinado ao tema  "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções", uma iniciativa do Clube de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e com o Grémio Literário. O Ministro das Finanças de Portugal e presidente do Eurogrupo, grupo informal que integra o Ecofin, o Conselho que coordena, monitoriza e supervisa as políticas económicas, orçamentais e as relações com países terceiros dos 27 estados membros, disse ser um otimista e um defensor do Euro, para ele a peça fundamental da integração.

O essencial do discurso de Mário Centeno consistiu em afirmar os méritos da sua governação e dos bons resultados alcançados com as opções feitas. Resultados expressos na melhoria do deficit, na redução do desemprego (temos mais e melhor emprego!) , na travagem dos fluxos migratórios dos jovens, na afectação de mais recursos à saúde e à educação. Daí que Portugal enfrente hoje o futuro de uma forma muito mais positiva, sendo o equilibrio orçamental conseguido e a consequente redução da dívida, um seguro para o nosso futuro coletivo. Ao  mesmo tempo, e por causa disso, aumentou a auto estima dos portugueses e a melhorou a imagem de Portugal no mundo, país que passou a ser visto como um porto mais seguro.

Confessou-se orgulhoso do seu programa e classificou as suas propostas baseadas num modelo visando o crescimento do rendimento - apresentadas em 2015, ainda no tempo do anterior governo -, como  inovadoras e pioneiras. Três anos depois, já pode avaliar essa trajetória e confirmar a justeza dessas opções. Espera agora que política económica possa ter continuidade, e que através do equilibrio orçamental, do investimento e da excelência do capital humano se crie uma sociedade mais horizontal. Não enjeita reconhecer que para este sucesso também contribuiu uma solução politica inovadora.

A vasta e interessada assistência do Grémio terá saído da sala reconfortada com a serenidade, a confiança e  o otimismo expressos pelo nosso Ministro das Finanças. Eu entendo que "crescimento" é sinónimo de "saúde" de qualquer sistema económico. Mas não partilho inteiramente deste sentimento de euforia. Pois, se a economia europeia (onde se integra a economia portuguesa) cresce de forma regular há cinco anos, Mário Centeno - que se revela um economista da escola do crescimento -,  tem sido, desde que tomou posse, há pouco mais de dois anos e meio, o Ministro das Finanças de um Governo que governa no embalo de uma saudável envolvência económica (à qual não são alheios as baixas taxas de juro, a cotação do petróleo, a expansão da economia digital e o boom do turismo). Ou seja, como economista capaz de enfrentar uma eventual crise (onde lhe competirá diagnosticar as causas e prescrever o tratamento), Centeno ainda não foi posto à prova.

Deixou no ar o aviso de que o crescimento económico desacelera. Estará certamente atento aos sinais de crise que a situação na Itália, o Brexit, a complexidade da situação internacional - em particular no Médio Oriente - prenunciam. Para nós, portugueses, bom seria que o otimismo de Centeno se mantivesse por longo tempo!


quinta-feira, 22 de março de 2018

O Poder do Dever

No passado dia 14 de março, Maria Joana Raposo Marques Vidal foi falar ao Grémio Literário no ciclo que ali decorre sob o tema: "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções", uma iniciativa do Clube de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e com o Grémio Literário. Na sua longa  intervenção  falou  do Ministério Público e de Justiça e ajudou os leigos na matéria - como é o meu caso - a conhecer melhor o papel da importante organização que dirige e a compreender os meandros da temática em análise. Valeu a pena assistir à conferência pela oportunidade de ouvir quem sabe do que fala e pela frontalidade da sua exposição.

Joana Marques Vidal ocupa o lugar de Procuradora Geral da República desde 2012, e o seu mandato tem-se caracterizado pela forma serena, discreta e eficiente como tem sabido desempenhar o cargo. No Grémio, falou das funções inerentes a esse cargo, muito mais vastas do que aquilo que transparece para a opinião pública. O Ministério Público, para além da sua intervenção na área penal,  tem também por função a representação do Estado enquanto pessoa coletiva  e de outros entes de natureza pública como é o caso das crianças, competindo-lhe  zelar pelo seu bem estar.  Cabe-lhe ainda - caso único no contexto europeu - a função de representar os trabalhadores, uma herança, segundo a oradora, dos tempos pós 25 de Abril  quando se considerava serem os trabalhadores uma classe particularmente vulnerável. Tem ainda um importante papel na defesa da Constituição.

Centrando-se, depois, naquilo que considerou ser o âmbito principal e mais conhecido da sua atuação, começa por classificar o Ministério Público como uma estrutura de iniciativa. na medida em que promove a investigação, propõe, representa e requer, mas não julga. Existem países onde a iniciativa pode ser tomada por outras instâncias, não sendo esse o caso português.  E referiu também que ao contrário de outros países onde se verifica o princípio da oportunidade - nem todos os casos chegam à fase de investigação -, em Portugal todas as queixas ou participações de crime têm de ser investigadas antes de serem arquivadas.  E neste facto reside, na sua própria opinião, o seu poder, a que ela chama  o "poder do dever",  ou seja, a obrigatoriedade de tudo investigar sem critérios de discricionaridade e sem qualquer intenção persecutória. Compete ao  Ministério Público sustentar as acusações que faz, mas o julgamento cabe aos tribunais cuja independência é um princípio indiscutível dos estados democráticos.

O Ministério Público é uma estrutura autónoma que não permite interferência dos poderes político e executivo A sua competência advém do facto do Procurador Geral ser nomeado pelo Governo e pelo Presidente da República perante os quais responde politicamente, mas deles não recebe ordens nem tem que lhes dar explicações. A legitimação do órgão esgota-se no momento da sua nomeação e consequente tomada de posse. Isto faz do nosso modelo um dos mais equilibrados ao nível europeu.

 E esta autonomia externa confronta-se  com a autonomia interna. O Procurador Geral não tem interferência  no despacho dos processos que estão atribuídos aos magistrados da Procuradoria. Pode haver reclamação para o superior hierárquico, mas a lei define os termos em que isso acontece e qual o âmbito da sua intervenção nestes casos. Um superior hierárquico não pode mandar arquivar um processo. E, perante um arquivamento, esse superior  apenas tem o direito de chamar a si ou avocar  o processo  É, na sua opinião, uma hierarquia limitada que se  exerce sobretudo em questões organizacionais. O Procurador Geral pode dar diretivas, sendo que neste caso elas precisam de ser publicadas no Diário da República.

Terminou falando dos desafios que se vão colocar no futuro, referindo a este propósito que a  organização tem de ser capaz de responder às complexas questões da mundialização e  da globalização,  caracterizadas por uma grande mobilidade. Refere, como exemplo, a crescente internacionalização da composição dos núcleos familiares. Esta situação obriga a uma forte  capacidade de cooperação entre países e a um grande conhecimento do direito internacional.  Outro desafio consistirá em lidar com questões cada vez mais complexas que exigem equipas polivalentes com especialização nas áreas financeira, administrativa, comercial e fiscal. Temos de ter - disse - a capacidade de poder constituir equipas, temos de poder trabalhar em conjunto e poder agir em conformidade com a competência de cada tribunal, de forma a atuar numa perspectiva global,  mantendo a hierarquia em convivência com a existência de estruturas horizontais.

Quando a opinião pública descrê da justiça e considera que os favores e a corrupção são a norma nas classes mais poderosas, é  confortável assistir a esta conferência e ouvir alguém que tem dentro de si a capacidade de se manter acima dos interesses sectários .  Joana Marques Vidal  é um bom exemplo do que deve ser a dedicação, o rigor e a independência no desempenho de altos cargos da administração publica.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O Futuro da Educação


Muitas das previsões que nos são apresentadas sobre o futuro da Humanidade estão relacionadas com a tecnologia digital. Refiro-me aos propalados milagres da  inteligência artificial; à crença em se atingir o conhecimento ilimitado; ao podermos assistir, a breve prazo, ao prolongar da vida; à possibilidade de descer ao infinitamente pequeno para descobrir os últimos segredos da matéria, ou de  ascender ao infinitamente grande, para explorar o Universo e colonizar outros mundos; à eterna aspiração de criar a sociedade perfeita, igualitária e justa; ao libertar, pela robótica, o homem do trabalho duro e repetitivo. Nestas previsões, a espiritualidade e os valores estão ausentes, o Homem ambiciona - e acredita - que pode ocupar o lugar de Deus.

Mas as utopias não passam disso mesmo e, na minha opinião,  a sua concretização está muito desfasada da realidade. Elas esbarram com os ditames da economia que nos governa, a qual exige o crescimento a todo custo, tende a preservar os mais fortes e a eliminar os mais fracos - na sua essência a economia é darwiniana - , ignorando a  utilização racional dos recursos escassos e os malefícios da produção de resíduos poluentes. A economia do lucro, da livre concorrência e da globalização serve apenas o ser humano, ignora o planeta e os seus equilíbrios e despreza as outras espécies, muitas já extintas e muitas outras inevitavelmente condenadas à extinção. Para evitar excessos, esta economia promotora de desigualdades, precisa de ser regulada pela política.  E, paradoxalmente, os políticos que se preocupam com a justa distribuição da riqueza estão obrigados a colocar-se ao serviço da economia que a cria. No futuro, a economia procurará utilizar as ferramentas da era digital para atingir os seus desígnios. E esta apropriação pode ter um efeito perverso e funcionar como o catalisador do agravamento dos seus malefícios.

Vivemos num planeta finito e já ocupamos as suas fronteiras. O maior dilema que se apresenta aos homens do futuro deriva da impossibilidade de - mesmo dispondo de uma grande panóplia de ferramentas digitais -  assegurar indefinidamente o crescimento contínuo da riqueza. Para evitar o colapso, a humanidade vai ter de encontrar uma nova economia que possa funcionar sem crescimento e que, ao mesmo tempo, faça prosperar a espécie humana. Uma economia que seja capaz de lidar com as armadilhas que estão subjacentes à complexidade do mundo digital. Como contrariar os efeitos da exigência do crescimento exponencial da economia que, por sua vez, arrasta o da população, o da poluição e leva à escassez de recursos nomeadamente da água, da energia fóssil, da terra arável e de alguns metais essenciais? Estará esta exigência a conduzir-nos ao colapso? Conseguiremos criar uma economia alternativa que possa conviver com os limites ao crescimento?

Para isto ser possível muita coisa vai ter que mudar. A bem ou a mal. A sociedade do futuro tem de estar apoiada num novo sistema de valores e com novas práticas. A democracia não poderá ser pensada apenas para servir os interesses dos estados e tem de ser pensada para funcionar no plano global. Só um governo mundial - liderado pelos mais justos e pelos mais capazes - poderá assegurar a justiça social e a igualdade entre pessoas e entre estados. A comunicação social tem de passar a estar ao serviço da humanidade em geral e não de interesses particulares ou de grupos. Tem de passar a haver mais respeito pela natureza e pelo uso racional dos recursos, pelo que será necessário mudar hábitos de vida e hábitos de consumo. A prosperidade tem de ser focada  no ser e não no ter. Vai ter de ser reequacionado o balanço entre os interesses dos indivíduos em particular e o interesse da sociedade em geral. E - questão central, delicada e de difícil solução - vai ter de ser encontrada a forma de introduzir um ajustamento para adequar o crescimento populacional  à capacidade sustentável do planeta.

O mundo do futuro não muito longínquo - penso em décadas, não em séculos - vai ser um mundo muito diferente do atual e, provavelmente muito afastado daquele que os futurologistas imaginam. Não haverá apenas  uma nova economia mas também uma nova moral, novas leis, novos valores e uma nova forma de organização social. O processo de transição não será pacífico, pois muitos irão perder privilégios. Os homens que irão construir a sociedade do futuro têm de estar preparados para o fazer. E é esta geração que tem de os preparar. Temos de repensar o papel da educação, e são muitas as questões que se nos colocam.

Vamos educar as crianças para a economia da competição e do crescimento, das alterações climáticas e da delapidação dos recursos?  Vamos apontar-lhe o sucesso e a riqueza material como o grande objetivo da vida, ou vamos mostrar-lhe os valores universais da verdade, da justiça e da solidariedade? Vamos alimentar os seus sonhos para utopias ou vamos alertá-las para as armadilhas da economia digital? Queremos que a escola do futuro seja o lugar onde apenas se dão respostas a perguntas que os alunos nunca fizeram ou, pelo contrário, seja o lugar onde se estimulam os alunos a fazer as perguntas para esclarecer as suas dúvidas? Vamos continuar a introduzir nas mentes das crianças matérias curriculares cada vez mais vastas, ou libertar o potencial da criatividade alimentado pela curiosidade natural que existe dentro de cada ser humano?  Na Fundação Vox Populi esforçamos-nos para encontrar respostas para estas perguntas.


segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Crescimento e Justiça Social

O essencial da palestra que o conhecido jurista e comentador político António Lobo Xavier veio proferir, no passado dia 24 de janeiro, no  Grémio Literário pode resumir-se a uma frase que ele disse na parte final da sua intervenção: "não há distribuição sem crescimento". Aconteceu isto na terceira conferência do ciclo "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opcões", uma iniciativa do Clube de Imprensa em parceria com o Centro Nacional de Cultura e com o Grémio Literário.

Perante uma sala a abarrotar de gente, o orador definiu-se como um falador profissional e apresentou-se como um homem que gosta de receber e distribuir afetos. Confessou-se liberal, conservador e centrista, para ele uma opção natural, consequência do ambiente social e familiar onde foi criado. Afirma que entrou na política com apenas 14 anos,  logo após o 25 de Abril,  e que para a sua formação ideológica muito contribuiu a leitura de um texto de Diogo Freitas do Amaral  e de Adelino Amaro da Costa  intitulado: "Por que não somos socialistas".  Referiu que, nessa altura, havia uma grande fratura na sociedade portuguesa, mas a separação dos campos que naquela época se confrontavam esbateu-se e já faz, hoje, pouco sentido. Direita e esquerda convivem e partilham muitos valores comuns e que podem coexistir no pensamento de um político: referiu, a propósito, o fenómeno Macron.

Quando se centrou no tema da conferência foi para dizer que cada vez esperamos mais do Estado: na saúde, na proteção e na segurança. Para o cidadão comum, a responsabilidade de tudo de mau que lhe acontece cabe em última análise ao Estado, que não previu, que não antecipou, que não fiscalizou que não providenciou. Esperamos até que o Estado nos proteja do risco de existir, incluindo os riscos da globalização e da revolução tecnológica pois cabe ao estado impedir que estas tendências "roubem" os nossos empregos. No entanto, porque tudo se torna cada vez mais caro e complexo, é difícil ao Estado assegurar aquilo que nós esperamos dele: o emprego garantido, a assistência na doença, o aumento da esperança de vida, a proteção contra o terrorismo...

Confundimos o Estado com a própria  atividade económica, e creditamos ao governo os sucessos da economia e as flutuações da conjuntura: o deficit desce, é mérito o governo, o desemprego sobe, é culpa governo, as próprias catástrofes naturais parecem ocorrer por culpa do governo...Isto pode justificar-se porque  o sector público em Portugal assegura quase metade do produto. A verdade é que os números não enganam: as pessoas são pobres, 45% dos portugueses estão dependentes das prestações sociais,  muito poucos contribuem com muito - 20% dos tributados em IRS representam 80% da receita -, e, apesar do crédito ao consumo estar a aumentar, temos uma taxa de poupança de 6%, muito baixa quando comparada com a de outros países. O governo dá com uma mão e tira com a outra, os aumentos de salários e pensões são anulados pelo aumento generalizado dos impostos indiretos. Uma grande parte dos eleitores que elegem os governantes são parte interessada em manter esta situação de dependência do Estado, e por isso, é muito difícil aos políticos falar a verdade, pois a verdade não rende votos.

Para abordar a necessidade de reformas, começou por dizer que o confronto entre esquerda e direita tem a ver, por um lado, com a necessidade de assegurar a sustentabilidade do crescimento económico e, por outro, com a necessidade de haver mais justiça na distribuição da riqueza de modo a reduzir as desigualdades. Ilustrou este conceito desta forma: "Passos Coelho puxa pela sustentabilidade e destrói a justiça social, o governo da geringonça puxa pela justiça social e ameaça a sustentabilidade (vem aí o diabo!)".  Com efeito, reformas visando mais racionalização, mais privatizações, melhor eficiência, alterações nas leis laborais, são vistos à esquerda como formas de ameaçar a justiça social. Por outro lado, a direita é sempre contra reformas sociais que acarretem mais subsídios, mais prestações, maiores gastos na saúde. Ou seja, a esquerda está contra as reformas que vão no sentido de garantir a sustentabilidade por ameaçarem a justiça social, e a direita está contra as reformas que aumentam a justiça social por prejudicarem a sustentabilidade.

Interroga-se: será possível combinar estas duas coisas? E responde, afirmando que temos de ser pragmáticos para superar o dilema. Em Portugal estamos no limite da exploração da via fiscal: as desigualdades têm vindo a reduzir-se e para continuar esse caminho, seria necessário um brutal e não comportável aumento de impostos. Para ele, o crescimento económico tem muito mais efeito no combate à desigualdade do que o aumento dos impostos. Considera que temos espaço para crescer na eficiência, na inovação e no maior controlo dos benefícios sociais. Investe-se pouco na educação, na inovação, na criação de centros de excelência. Será preferível investir mais na educação e na família e menos nas pensões. Está provado que um Estado grande não ajuda ao crescimento

Questionando-se sobre qual será o Estado mais justo, o que distribui a riqueza ou o que fomenta o crescimento, Lobo Xavier defendeu a necessidade de fomentar o crescimento económico, dizendo que não é possível distribuir sem crescimento. O bloqueio das reformas necessárias está à vista de toda a gente e tem de ser rompido. Temos de o superar e, para isso, a esquerda e a direita têm de se entender. Conclui dizendo não é possível resolver os problemas estruturais sem um acordo. Daí a necessidade de entendimento. O "centro" grande pode fazê-lo. E conclui: "sou pelas reformas e pelos acordos... não pela  manutenção de alternativas de confronto."

Saí desta conferência com a angústia resultante da convicção de que o dilema apresentado pelo orador não tem fácil solução. O crescimento da economia tornou-se a exigência última das soluções dos problemas do mundo. Sem crescimento, a crise instala-se - primeiro a financeira, depois a económica e por fim, a social. A criação de riqueza estagna, não se pode distribuir aquilo que não existe. A austeridade torna-se necessária para o relançamento económico, as desigualdades agravam-se, os conflitos sociais aparecem.

Assegurar o crescimento continuo da economia torna-se, pois, a única garantia de futuro de paz e prosperidade para a humanidade. Ora, esse crescimento está em risco por estar condicionado - mesmo ameaçado -  pelos limites impostos pelo aumento e envelhecimento da população, pelos efeitos nocivos da poluição (responsável pelas alterações climáticas) e pela escassez de recursos naturais essenciais, dos quais destaco a água, a energia fóssil e a terra arável. A esperança parece residir agora toda na economia digital: prometem-nos a inteligência artificial, a internet das coisas, o fim do trabalho duro e repetitivo, o aumento da esperança de vida. Até já se fala em colonizar outros planetas.

Na minha opinião muitas destas promessas são utópicas e esbarram nas armadilhas de uma complexidade crescente. Para os futurólogos, Deus, a espiritualidade e os valores estão ausentes das suas previsões. E até a educação, isto é, a forma de educar e preparar os jovens  parece não ser uma preocupação das narrativas futuristas. Ora, o sonho que é o mundo utópico do futuro, não pode ser desligado dos homens e mulheres que os irão realizar. E isso leva-nos a formular uma pergunta: Que papel está reservado à educação?  Educar para o sucesso ou para a felicidade? Para o ser ou para o ter?

terça-feira, 19 de setembro de 2017

A segunda utopia: O homem vai encontrar resposta para todos os enigmas do Universo.

As extraordinárias conquistas da ciência e da técnica - que no último século se sucederam de forma vertiginosa - fazem-nos acreditar de que não haverá limite ao conhecimento do homem.
Os progressos no campo da inteligência artificial, na robótica, nas comunicações... os avanços sobre o conhecimento da estrutura ínfima da matéria, o infinitamente pequeno, e o alongar dos olhos do Hubble para as longínquas fronteiras do Universo, o infinitamente grande, levam-nos a acreditar que um dia encontraremos a "teoria do tudo" e teremos a unificação do conhecimento.
Cumprir-se-á, nesse, dia a aspiração mais secreta do homem  que é a de ocupar o lugar do próprio Deus

Muitos acreditam que iremos explicar a origem do universo, a origem da vida e da consciência. E que, possivelmente, um dia, encontraremos explicação para o próprio sentido da existência humana. Constatamos que, à medida que o conhecimento aumenta, menos necessária se torna a fé, mais próximos de Deus nos sentimos, e começamos a acreditar que poderemos até igualá-lo ou superá-lo. Talvez antes disso sejamos vítimas da nossa própria ambição. A expulsão do Paraíso foi o castigo de Adão que, aspirando a ser como Deus, comeu o fruto da árvore do conhecimento.


terça-feira, 12 de setembro de 2017

A economia não vai mudar

A economia, tão ajustada às ideias do Sr Adam Smith expostas no seu livro "A riqueza das nações..."e espontaneamente postas em prática nos ricos e vastos territórios recém independentes das colónias americanas que, naquele mesmo ano da publicação do livro, se separaram da Inglaterra, e que, desde então, tanta prosperidade trouxe à Humanidade, não vai mudar por dentro. Pretendo com isto dizer que mesmo quando o planeta já não suportar mais gases de efeito de estufa, a economia - que só sabe crescer e só pode crescer - vai continuar exigir mais emissões e vai continuar a poluir ainda mais o planeta, Ou seja, a economia nunca se vai autorregular a ela própria como o objetivo se manter . E esta tendência conjugada com a ambição do ser humano (que só pensa nele e não não na espécie)  só pode conduzir ao colapso do sistema económico, o qual, por sua vez fará perigar a própria existência da espécie humana que, no, desespero da sobrevivência de  alguns, se pode auto aniquilar utilizando os meios que ela própria criou para esse efeito... Por isso, temos de ser nós a mudar a economia. Como?
Ainda há quem acredite ser possível

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Uma Utopia: Colonizar o espaço

O que é uma utopia? É um acontecimento, um lugar ou um tempo imaginado, ideal ou fantasiado, onde tudo acontece segundo os nosso desejos. A sociedade perfeita que todos desejamos, e que, de um modo geral, os políticos defendem -  pacífica, ordeira, livre, igualitária, democrática e justa - é uma utopia. Não creio que tal sociedade exista ou, algum dia, venha a existir, mas ela foi e continua a ser uma aspiração dos homens de todos os tempos. Mas existem outras utopias que  proliferam - nos documentários, nas notícias, nas teses - que alimentam o imaginário da humanidade. A crença de que o destino do homem é chegar a outros planetas e colonizar o universo é uma utopia.

Foi há poucos semanas que uma notícia dava conta de uma controversa afirmação do conhecido físico Stephan Hawking: se nos próximos cem anos o Homem não for capaz de colonizar outros planetas, então existe o risco da Humanidade sucumbir perante a ameaça do esgotamento dos recursos e das perturbações dos equilíbrios responsáveis pelas alterações climáticas. Eu confesso que não esperava estas palavras - que, em boa verdade, não são recentes, pois já as tinha lido anteriormente -  dum homem de quem se esperaria uma posição mais esclarecida sobre a capacidade de concretizar esse sonho, ou essa utopia, se preferirem. Ou quererá Stephan Hawking, ao dizer isto, simplesmente alertar-nos para a inevitabilidade do colapso civilizacional?

A crença de que um dia - não muito longínquo - o homem colonizará outros planetas fora do sistema solar está muito generalizada e enraizada na opinião pública. É alimentada por notícias que dão conta de que todos os dias se estão a descobrir novos planetas que podem reunir condições necessárias à vida dos humanos. Mas são muitas as condições, entre outras, a  existência de uma atmosfera com presença de oxigénio, uma faixa de temperaturas que permita a existência de água no estado liquido, uma textura rochosa, um tamanho que determine uma força de gravidade suportável ao ser humano, a existência de um escudo protetor de radiações cósmicas letais ou até a existência de satélites (como é o caso da Lua) com funções estabilizadoras.

No entanto, a maior barreira à colonização de outros planetas prende-se com a distância a vencer para os atingir. Estamos a falar de distâncias que obrigariam, no mínimo a viagens de milhares de anos à velocidade das naves atuais. A nave Voyager 1 demorou 30 anos a deixar o sistema solar e, se conseguir manter-se em viagem, demorará mais de 16 000 anos a atingir a distância até à estrela mais próxima de nós, onde não sabemos se existem planetas com condições de habitabilidade. Mesmo com um futuro sistema de propulsão muito mais eficiente seriam sempre necessários séculos para fazer a viagem. Uma nave tripulada, a viajar fora do sistema solar, perderia o contacto com a Terra e ficaria entregue a si própria e não se vê como seria possível manter a funcionar os suportes da vida dos seus tripulantes (eventualmente com funções orgânicas reduzidas ao mínimo) humanos. Além disso, teria de ser alimentada com energia nuclear por perder rapidamente a capacidade de absorver radiações de fontes estelares, nomeadamente do Sol. Tenho por certo que nunca estes viajantes, ou os seus descendentes, voltariam para contar a história.

A colonização de outros planetas fora do sistema solar não está, pois, ao alcance da espécie humana. É uma Utopia, uma crença ao lado da realidade ou um acontecimento que não existe. E, acredito eu, Marte, um planeta do sistema solar, também não será colonizado por evidente inviabilidade económica de tal projeto. Muito mais fácil e mais barato do que colonizar Marte seria colonizar o deserto do Sahara, coisa que não vejo ninguém propor-se fazer. Alimentar as utopias faz parte de uma necessidade dos homens alimentarem os seus sonhos de atingir a eternidade.

A predição de Hawking é, pois, um aviso sério e pertinente de quem sabe do que fala, mas baseia-se numa impossibilidade. Qualquer lugar habitável no espaço da nossa galáxia está a centenas ou milhares de anos de viagem, e o homem nunca poderá empreender tal viagem. O homem está aprisionado no seu sistema solar, e não se irá libertar dele. Como Prometeu agrilhoado nas suas correntes, por castigo dos deuses, também nós roubámos o fogo sagrado da sabedoria que nos deu acesso aos segredos da criação. E o nosso castigo é este de perceber esses segredos sem os poder alcançar e alterar, nem descortinar o seu sentido... E, tal como acontecia a Prometeu na tragédia grega, em cada novo dia, a águia há-de vir comer mais um pedaço do nosso fígado, para nos lembrar que somos mortais.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Portugal a Arder

Os tristes acontecimentos de Pedrógão Grande, assinalados por tantas perdas de vidas, merecem uma reflexão. No rescaldo da tragédia, muitos procuram causas, outros exigem explicações, outros clamam por culpados. Como é habitual nestas situações, pedem-se inquéritos ou nomeiam-se comissões que não conduzirão a nenhuma conclusão e só servirão para que, aos poucos, o caso vá caindo nos esquecimento. O que aconteceu em Pedrógão foi aquilo a que Talim Nasseb chamou um cisne negro, um evento raro, aparentemente inverosímil e não expectável, mas com grande impacto social. Estes acontecimentos têm uma importância decisiva no desenrolar da história e, muitas vezes, constituem oportunidades para mudar o seu rumo.

A chamada zona do Pinhal Interior situada no coração de Portugal, e que integra concelhos pertencentes aos distritos de Coimbra, Leiria, Santarém  e Castelo Branco, é uma vasta e pobre região, atualmente desertificada de pessoas. Noutros tempos, quando o território era ocupado, praticava-se ali uma economia agrícola de subsistência: havia zonas de cultivo e zonas de pastagem, e, no coberto vegetal,  existiam espécies alternativas como a oliveira, o carvalho, o castanheiro ou a azinheira. A limpeza da floresta não era feita por obrigação para a proteger do fogo, mas pela necessidade de recolher lenha para as lareiras e para os fornos. Durante centenas de anos vigorou este regime e os incêndios de verão não existiam, ou, quando existiam, não eram necessariamente calamidades.

Com o abandono da região, muitos campos de pastagens ou de vocação agrícola deram lugar a uma quase contínua mancha florestal de pinheiros e eucaliptos. Esta forma de ocupação revelou-se ser a mais compatível com a progressiva falta de braços, na medida em que tinha - ou parecia ter! -subjacente algum valor económico para os proprietários dos terrenos. Mas surgiu uma contradição que, ano após ano,  passou a ser evidenciada nos incêndios de verão. A ocupação florestal daquela zona não se coaduna com o regime de minifúndio. Com efeito, a floresta precisa de ser pensada como um todo e o seu planeamento não pode ser feito com a terra partilhada, em que as escolhas são feitas pelos proprietários das pequenas parcelas de terra prevalecendo o interesse particular - mais económico - sobre o interesse geral - a sustentabilidade a beleza da paisagem e, sobretudo, a segurança relativamente aos fogos.

Em síntese, alterou-se radicalmente a vocação agrícola do território mas nada se fez relativamente ao regime de propriedade. Enquanto isso não se fizer, o problema dos incêndios na floresta não será resolvido. Continuar a investir apenas no combate ao fogo - como se tem feito até agora - terá, no futuro, custos acrescidos e cada vez mais incomportáveis. A oportunidade de fazer alguma coisa pode ter chegado com a tragédia de Pedrógão. Aproveitá-la será uma forma de homenagear os que nela  ingloriamente perderam a vida e os haveres. Sobre a terra queimada deve iniciar-se a revolução que se impõe. Revolução que deverá debruçar-se sobre o regime da propriedade rural. Se não se fizer agora perdemos tempo e temos de esperar pelo próximo incêndio que poderá ser ainda mais trágico. Encontrar a forma de fazer esta revolução deve ser a primeira preocupação dos governantes.

Tudo terá de começar com a definição da zona de intervenção que pode tomar a forma de parque florestal ou de uma zona protegida. Uma vez definida a zona de intervenção, chegará o momento do fazer o projeto para a sua reocupação. Será o tempo dos técnicos - agrónomos, silvicultores, arquitectos paisagistas, ambientalistas, geólogos, climatólogos etc... -  e dos visionários  apresentarem as suas propostas e será o momento da sociedade, de forma democrática e informada,  escolher as melhores.

A nova floresta terá de ser ecológica, sustentável e diversificada, deve ter valor económico, deve ser resiliente aos incêndios e deve ter beleza paisagística. Deve, sobretudo, ter a capacidade de atrair novos ocupantes para repovoar a região. Isso será conseguido pelo desenvolvimento das atividades económicas ligadas à floresta, a um novo tipo de agricultura e pastorícia  e ao turismo de natureza.
Fazer isto, será transformar o inferno de Pedrógão num Paraíso Nacional.

A receita aqui advogada para a Pinhal Interior - com as adaptações às particularidades de cada caso - poderá aplicar-se a outros territórios do Interior que sofrem o problema da desertificação. A sua tão necessária reocupação exige um rápido e corajoso reordenamento do regime da propriedade rural. Sabendo que isso terá elevados custos políticos, tal só será possível com um alargado pacto entre as forças mais representativas. Mas valerá a pena, pois é o futuro do país que está em jogo.


terça-feira, 6 de junho de 2017

Um Programa para Almeida

Para inverter o longo processo de despovoamento em curso, os novos autarcas dos territórios do Interior Beirão - e em particular os de Almeida – necessitarão urgentemente de adotar um programa de emergência. Não poderão ficar de braços cruzados à espera que o problema da desertificação dos territórios se resolva espontaneamente, e - como está demonstrado pelo falhanço duns e de outros - não podem contar, apenas, nem com o dinheiro da Europa nem com as boas intenções do poder central para o resolver. A situação é grave, e agrava-se de ano para ano. Perdeu-se a Caixa Geral de Depósitos, podem perder-se repartições públicas, pode perder-se, a breve prazo, uma das escolas. Além disso, o comércio tradicional definha, os campos estão abandonados e os poucos jovens que ainda restam, aspiram emigrar.

Na conceção de um tal programa de emergência, haverá, antes de mais, que definir prioridades. E não precisamos de refletir muito para concluir que a primeira prioridade terão de ser as pessoas. Não apenas as do presente, mas também as do passado e as do futuro. As do passado porque são elas as nossas raízes: deixaram-nos a cultura, as crenças, os valores, o idioma e os saberes; as do futuro porque é para elas que trabalhamos, e porque são elas a esperança da continuidade da ocupação ativa dos territórios. Em síntese, um programa para Almeida tem de honrar os antepassados, cuidar e servir os seus residentes e criar condições para os mais jovens ali se fixarem e trabalharem.

A segunda prioridade deverá ser a preservação e valorização do património: não só o património edificado - as casas, as igrejas, os monumentos, as estradas, as infraestruturas, mas também do património natural, paisagístico e cultural que é importante preservar e respeitar. A terceira prioridade é voltar a cuidar da terra que durante séculos ocupou as populações e foi a fonte do seu sustento.

Depois de definidas as prioridades haverá que construir um programa de ação do qual constem os princípios orientadores, os objetivos e os meios necessários para os alcançar. Nos princípios devem constar os valores a respeitar - entre outros, a liberdade, a democracia, a sustentabilidade. Os objetivos, por sua vez, têm de ser definidos em função daquilo que realmente se pretende para o concelho, tendo em conta a especificidade do território e das suas componentes. Almeida, Vilar Formoso e as Aldeias do concelho constituem realidades singulares, com aspirações e vocações que têm de ser encaradas de forma distinta, sempre em cooperação e nunca em concorrência. Almeida pode encontrar na sua vocação cultural, termalista e turística o seu caminho de desenvolvimento, enquanto Vilar Formoso tem de apostar tudo na fronteira e no comércio. As Aldeias poderão desenvolver valências diferenciadas, na agricultura, na economia social, no artesanato...

Um tal programa deverá ser desenhado e executado por gente movida nos seus propósitos por convicções, e não por conveniências, com um profundo conhecimento da situação do concelho. Preferencialmente, como já referimos atrás, deverá ser pensado sem os condicionalismos dos interesses partidários e dos programas de apoio europeus, os quais já demonstraram não terem sido capazes de contrariar a desertificação da região. Não pode ir a reboque de planos organizados por estruturas supraconcelhias, por serem lentos e, muitas vezes, desfocados de cada realidade particular. Um concelho de matriz rural, territorialmente marginalizado - caso de Almeida -, não tem nada a ver com outros concelhos urbanos do interior como é o caso de Guarda, ou mesmo Seia ou Gouveia. Nem pode ficar à espera das diretivas do poder central - mau grado recentes iniciativas, como a criação de uma unidade de missão para o interior - que têm mostrado grande desorientação e grande insensibilidade para encontrar soluções.

Vivemos um momento crítico. Temos pela frente uma oportunidade de mudar. Há que aproveitá-la, mobilizar forças - todas as forças do concelho -, ultrapassar divergências. Numa situação de crise tão grave não faz sentido que os interesses e objetivos partidários se sobreponham aos interesses do concelho. Perante situação tão grave, com o arrastar da crise e a inoperância das medidas tomadas, muita gente começa a duvidar da capacidade de se dar a volta ao problema. Recomendaríamos à vereação que sair das novas eleições a aceitar este repto. Com determinação e humildade, começando por ouvir as pessoas. Porque o principal objetivo deste programa são as pessoas, nele tem de ser reservado um papel muito importante para a Educação.


sexta-feira, 2 de junho de 2017

O Rumo da Europa

Na minha opinião, as declarações da Sra Merkel na Baviera - proferidas no rescaldo da cimeira do G7, em Taormina- podem ser o sinal de uma mudança de rumo para a Europa. No essencial, a Sra. Merkel sentenciou que "os europeus têm de cuidar de si próprios e resolver os seus problemas, e que a Europa tem de continuar a manter boas relações com  os Estados Unidos e com ao Reino Unido, mas também com outros países, incluindo  - na medida do possível - a Rússia". Com o previsível falhanço da parceria económica transatlântica que seria o TTIP, com os Estados Unidos a quererem passar para os europeus uma fatura maior das despesas da Nato, com o lavar de mãos americano sobre a crise dos refugiados - como quem diz o problema é vosso resolvam-no - , com o brexit que deixa fora da União o seu principal elo com a América, a Europa precisa de ter uma agenda política própria. E tem de ser a Alemanha  a defini-la, e a França a apoiá-la.

A Europa enfrenta três graves problemas: o problema da defesa, o problema energético e o problema dos refugiados.  A Nato deixou de se justificar após a queda do muro de Berlim. Mantê-la corresponde a considerar a Rússia como o inimigo principal do Ocidente. Algo que não tem razão de ser, considerando que a Rússia está, hoje, remetida a uma posição defensiva e não tem qualquer ambição de expansão de território - que não precisa - ou de ideologias - que não tem.  Casos como o da Crimeia têm de ser analisados numa perspectiva histórica. É certo que persistem ainda os traumas dos países do Leste da Europa que temem o regresso de uma hegemonia russa. Algo que hoje já não faz sentido e que o tempo acabará por sanar. No atual estado de coisas, a estrutura militar da Nato só pode justificar-se para manter o estado de Israel e permitir assegurar para o Ocidente, a prazo, o domínio  das reservas de combustíveis fósseis do Médio Oriente, nomeadamente da Arábia Saudita, do Iraque e dos Emiratos Árabes Unidos. Mas essa, tem sido, para a América, outra guerra feita à sua própria custa, com um esforço adicional que se vem somar aos custos da Aliança.

Em termos energéticos, a Europa é extremamente dependente do exterior. Praticamente já não produz carvão, as únicas jazidas de petróleo - cuja produção está em declínio - são as do mar do Norte divididas entre a Noruega, que não faz parte da UE, e o Reino Unido. Por outro lado, a escassa produção europeia de gás natural já está em declínio, e a Europa tem de recorrer cada vez mais ao abastecimento da Rússia e do Norte de África. A expectativa de recorrer às grandes reservas de gás natural do Golfo Pérsico - sobretudo às do Qatar - esta a desvanecer-se perante o arrastar do conflito da Síria, país que terá sempre de ser atravessado pelos gasodutos necessários ao seu transporte. A entrada da Rússia no conflito - justificada em parte para defender a sua posição no negócio do gás e proteger as reservas do Irão - apenas vai servir para tornar mais longínqua essa possibilidade.

O problema dos refugiados  é, talvez, o problema mais grave que a Europa enfrenta, e para o qual não se vê solução.  Falo dos milhares de homens, mulheres e crianças, famélicos, sem terra, sem pão, e sem outros haveres para lá da escassa roupa que lhes cobre o corpo que veem na Europa o eldorado. Vêm da Líbia, da Tunísia, da Etiópia, da Eritreia, da Somália e da Síria, atravessando desertos, cruzando fronteiras. Entregaram o pouco que tinham a passadores e engajadores que lhes prometeram o paraíso do outro lado do mar! Nada os detém, e nada os irá deter no futuro: não temem o mar, nem as autoridades, nem as grades de qualquer prisão. A  esperança de chegar à outra margem sobrepõe-se a tudo, e desvaloriza os riscos de sucumbirem na caminhada, de naufragarem no mar revolto ou de serem devolvidos à procedência. A Europa hesita na resposta a dar. As opiniões dividem-se, não existe uma politica comum coerente. A saída do Reino Unido da União tem a ver com isto. Os Estados Unidos não vão ajudar. Tal como disse a Sra Merkel, a Europa tem de passar a contar apenas com ela própria.

A chegada do Sr. Trump ao poder teve o mérito de ajudar a clarificar as dissonâncias entre os dois lados do Atlântico. Para muitos europeus, terá chegado o momento de estender a mão à Rússia. É certo que existem muitos anticorpos, mas são mais as coisas que nos unem do que as que nos separam: a história comum, a cultura, a matriz religiosa. A Rússia tem os recursos que faltam à Europa. E é um mercado com grande potencial para os seus produtos. Se este for o caminho escolhido, ele fica facilitado pelo brexit e pelo insólito discurso autista de Trump.

Mas um entendimento entre a Europa e a Rússia não será pacifico pois fará deslocar centro de gravidade do poder do Atlântico para a Eurásia. Será um novo grande cisma do Ocidente, ao qual a China não ficará indiferente. A Nato ficará obsoleta! Haverá equilíbrios que se rompem e  ninguém poderá prever o que poderá sair da caixa de Pandora. 

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Nuno Crato e a Educação

A ida de Nuno Crato ao Grémio Literário, no passado dia 5 de maio, para falar no Ciclo “Que Portugal na Europa, que futuro para a União?” só pode ter acontecido por um erro de casting. O orador não disse uma palavra sobre o tema do ciclo que já trouxe àquela sala figuras como Freitas do Amaral, Paulo Rangel ou Francisco Seixas da Costa. Preferiu falar sobre educação, discorrendo longamente sobre o que ele considerou terem sido os bons resultados alcançados no período em que foi ministro. Cometeu a notável proeza de, no seu discurso, nunca ter pronunciado a palavra pedagogia.

O sistema de educação que Nuno Crato defendeu no Grémio é o sistema criado na Revolução Industrial que advoga que se deve encher a cabeça dos alunos com conteúdos programáticos predefinidos e que o sucesso do ensino se mede pela avaliação, a qual consiste em saber até que ponto o aluno conseguiu absorver e é capaz de reproduzir esses conteúdos. Foi o sistema que formatou o ensino ocidental, que deu origem à sala de aula, à lição de 50 minutos e aos exames. E que, hoje, é responsável por um rosário de deprimidos, de angustiados, de stressados e de falhados.

Hoje questiona-se esse modelo. A base de educandos alargou-se às classes mais baixas, diferentes culturas interpenetram-se, as famílias estão mais desestruturadas, as mães trabalham. Muita da preparação que era feita em casa ou nas oficinas dos mestres cabe hoje à Escola. A educação laica suprimiu muitos dos valores, crenças e rituais da educação religiosa de há um século atrás. Os meios de comunicação - sobretudo a internet -, permitem um acesso generalizado a todo o tipo de conteúdos. Nas escolas que seguem o método antigo, os alunos passam a maior parte do tempo a assistir a programas que nada lhes dizem e a ouvir respostas a perguntas que nunca fizeram. Grassa a indisciplina, aumenta a desmotivação dos professores e dos alunos. O que se aprende para a prova rapidamente se esquece, e a aprendizagem para a vida e para a descoberta fica por fazer.
Alguém disse que estamos a educar crianças para o século XXI com professores do século XX e métodos do século XIX. Está a generalizar-se a ideia de que o ensino está desadequado em relação a este novo tempo de grandes transformações. E começa instalar-se nas mentes de alguns pais, de educadores e até de cidadãos comuns a convicção de que urge criar a escola nova. Um pouco por toda a parte, surgem ideias, organizam-se grupos, animam-se debates, propõem-se e discutem-se diferentes modelos sobre como deve ser essa escola nova, quais os conteúdos a incluir nos programas, qual o papel do professor e qual a forma de avaliar os alunos. Até os insuspeitos jesuítas, guardiões de uma longa tradição no ensino, atentos às mudanças, estão a adotar, na Catalunha, novos métodos de educar.

A Internet está a mudar rapidamente - sobretudo nos mais jovens - os padrões de comportamento económico, social e cultural.  Trata-se de uma nova literacia suportada por novos instrumentos que, alterando a nossa forma de viver, nos vai obrigar a mudar a forma de educar. Na antiguidade, os caçadores e os guerreiros eram educados pela tribo e preparados para seguirem as pisadas dos seus antepassados. Era uma educação feita com regras, valores, crenças e rituais.  Mas, hoje, a tribo - que é a tribo global -  é difusa, está mal definida e carente de valores.

Na nossa sociedade - condicionada pela economia de mercado e formatada pela comunicação social -, o único valor  transversal é o dinheiro, e aquilo que lhe está associado: o consumismo, a competição e a ambição pelo poder. E isso reflete-se na educação, também ela orientada para a competição e  para o sucesso profissional. Ora, a incerteza que persiste na economia, a tomada de consciência dos malefícios do crescimento a todo o custo  - a predação dos recursos, o desperdício e a poluição -,  o desemprego e a ausência de valores  já estão a criar nos mais jovens angústia e desorientação. Para cumprir a sua missão de educar, continua a ser essencial que a escola se envolva e seja envolvida pela comunidade. Uma nova sociedade exige, pois, uma nova escola e uma nova escola tem de ser a semente de uma nova sociedade.

Algumas questões fundamentais sobre a educação estiveram ausentes do discurso do matemático Nuno Crato:
  • Qual deve ser a missão da Educação?
  • A quem compete defini-la?
  • A educação deve privilegiar a pessoa ou o cidadão?
  • Qual o papel do professor, e qual a importância da formação dos professores?
  • Qual a importância dos afetos, da empatia, dos relacionamentos sociais no processo educativo?
  • Qual deve ser o papel da família na educação?
  • Qual deve ser o papel da comunidade na educação?
  • Como desenvolver a inteligência emocional nos alunos? 
  • Como educar para a inclusão, para a aceitação das diferenças?
  • Como educar para a sustentabilidade económica e ambiental?
  • O foco da educação deve estar no aluno ou nos conteúdos?
  • Como educar para os valores? A Justiça? A Tolerância? A Generosidade? A Ética?
  • Como educar para a Democracia?
Este tema é central na sociedade atual. O Clube Português de Imprensa, o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário poderão encontrar nestas perguntas inspiração para um próximo ciclo de conferências. Interesse pelo assunto e especialistas para falar dele não faltarão...

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Os Lobos de Rio de Onor

Foram os lobos que me levaram a Rio de Onor. Eu explico: há uns anos atrás, a Sara e o Duarte, dois jovens biólogos fixaram-se em S. Pedro do Rio Seco, a minha aldeia, para estudar o Lobo Ibérico (canis lupus signatus)  no âmbito de um projeto do Grupo Lobo (Associação para a proteção do lobo) que envolvia outras regiões do país. Vinham para uma estadia de curta duração trazidos pelo facto de terem ali aparecido sinais da presença do animal depois de um longo período em que se julgou extinto na região. Na altura, eu estava envolvido na criação a Associação Rio Vivo e depois de ter percebido o interesse dos jovens biólogos em ficar mais algum tempo na aldeia, decidi, através da Fundação Vox Populi, apoiar por mais um ano o seu trabalho. A Sara e o Duarte já abandonaram o concelho de Almeida, e vivem e trabalham hoje em Rio de Onor, onde se dedicam ao estudo e divulgação da fauna local. Foi o convite deles para visitar a aldeia e conhecer o seu trabalho que me levou a Rio de Onor.

No passado mês de Abril, eu e a minha mulher, aproveitando uma deslocação a uma escola de Caminha, viajámos para Rio de Onor, indo por terras da Galiza pela autoestrada espanhola A52 que liga Vigo a Madrid passando por Ourense e Puebla de Sanábria. Nesta última localidade, desviámos por uma estrada de montanha para seguir para o nosso destino. Esperavam-nos a Sara e o Duarte que nos mostraram a pequena aldeia e nos levaram ao único bar/restaurante onde nos esperava um almoço vegetariano de salada e tortilha espanhola servido pela dona do restaurante chamada Maria Preto. Ficámos a saber que em Rio de Onor são todos Pretos ou Prietos conforme o lado da fronteira onde nasceram. Conhecemos a filha de Maria, a bela Sílvia, que estudou em Zamora mas vive agora em Portugal e que - dizem-nos- é uma séria candidata a miss Bragança.

No programa da visita constava um safari para conhecer o terreno envolvente, e tentar avistar alguns animais no seu habitat natural. Nos anos 70, veados e o corços foram introduzidos na vizinha Serra da Culebra em Espanha. Com os terrenos incultos, sem a pressão demográfica dos humanos, os animais espalharam-se pelas áreas adjacentes. As condições proporcionadas pelo terreno com a suas linhas de água, com a vegetação arbustiva e com as pastagens nos coutos ou lameiros permitiram que esses ungulados tivessem proliferado e sejam, hoje, abundantes. Depois dos veados apareceram os javalis. E, finalmente, os lobos. Que são animais furtivos que não tivemos a sorte de ver. Mas vimos as suas pegadas e os seus excrementos. E, com a ajuda dos binóculos e da  perspicácia do Duarte, vimos antílopes, corços e raposas.

Durante séculos, os habitantes de Rio de Onor, forçados pelo isolamento  - esta aldeia, situada no extremo nordeste de Portugal, dista  22 quilómetros de Bragança e 15 quilómetros da localidade espanhola de Puebla de Sanábria -, adoptaram um modo de vida comunitário. Existia um conselho de vizinhos que geria os recursos comuns. Os parcos terrenos agrícolas colados à povoação - a faceira - eram de todos  e não eram de ninguém. Partilhavam-se os fornos comunitários e os rebanhos. Foi o etnólogo Jorge Dias que em meados do século passado estudou  e deu a conhecer, num trabalho publicado em 1953 - "Rio de Onor, comunitarismo agro pastoril" -, a forma de vida comunitária desta curiosa localidade repartida entre dois países.

Há 50 ou 60 anos viveriam aqui mais de 400 pessoas e ainda perduravam os ancestrais costumes. Hoje, Rio de Onor é mais uma aldeia transmontana desertificada de gente, não terá mais de 60 habitantes repartidos entre o povo de cima (espanhol ) e o povo de baixo (português). O comunitarismo perdeu-se para sempre. Rio de Onor deixou de ser uma aldeia isolada, e já faz parte da aldeia global. O automóvel reduziu as distâncias. Os mais velhos estão a desaparecer... e os mais novos já se integram noutras comunidades como o facebook ou o whatsap. As típicas casas tradicionais de Rio de Onor - construídas em xisto e cobertas de lousa - estão a ser reconstruidas. Mas já não se destinam a albergar os vizinhos. Agora destinam-se a fins turísticos, servem para casas de férias ou para fins de semana.

Rio de Onor é uma pequena amostra do hinterland que de um lado e do outro acompanha a raia entre Portugal e a Espanha. É uma zona onde escasseia a gente e são sombrias as perspetivas para os mais jovens.  Olho para este novo ciclo de renovação, possível pela mobilidade do automóvel e pelas estradas e alimentado pelos subsídios, e não lhe vejo sustentabilidade. O maior património de Rio de Onor consistirá na preservação da história de um modo de vida comunitário que poderá servir de exemplo para tempos futuros.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

A Insustentável Leveza da Europa

O embaixador Francisco Seixas da Costa é uma personalidade cativante. No passado dia 28 de março tive o privilégio de partilhar a sua mesa no Grémio Literário onde foi falar sobre a Europa no ciclo de conferências que ali decorre sobre o tema “Que Portugal na Europa, que futuro para a União?”. Logo no início, o ilustre convidado confessou-se  um europeísta não natural  - não nasci europeu, justificou - mas convicto de que a adesão à Europa foi o melhor para Portugal. E enfatiza: foi um salto verdadeiramente notável, a decisão certa no momento certo que desenvolveu o pais, consolidou a democracia, mudou a paisagem, mudou a agricultura, mudou as mentalidades, alterou a mobilidade e contribuiu para vencer a nossa periferia. Os portugueses viram a adesão como uma coisa boa, para os emigrantes foi um motivo de orgulho, para os jovens uma oportunidade. Depois, com notas reveladoras de algum pessimismo, alongou-se na sua visão da situação na Europa.

A Europa acaba de fazer sessenta anos. Esta curta vida  - ou longa, depende da perspectiva - divide-se em dois períodos distintos. A Comunidade Europeia dos primeiros 30 anos foi  um projeto civilizacional, um sonho de paz e solidariedade construído sobre as ruínas deixadas pela Segunda Guerra Mundial. As tensões do período da Guerra Fria e a opção por um modelo de democracia liberal foram razões que alimentaram o sonho e contribuíram para criar coesão entre os seus membros. O segundo período da vida da Europa  inicia-se com o alargamento a Leste. Após a queda do Muro de Berlim e o desmoronamento da União Soviética, a Europa não teve outra alternativa que a de acolher os países que lhe bateram à porta. Países que não foram absorvidos nem integrados pacificamente no espaço europeu. Trouxeram com eles grande diversidade e grande complexidade e transportaram as feridas de uma relação traumática com Moscovo. Com este alargamento, a Europa mudou de natureza: redefiniu-se a sua agenda, alterou-se a geografia, reforçou-se a centralidade e o poder da Alemanha - que de fronteira, passou a ser o centro, ficando protegida, a leste, por uma buffer zone de segurança.

Agora, com o brexit, enfrentamos um novo desafio e, após a saída do Reino Unido, nada ficará como dantes.  Sai da União o maior orçamento de defesa, saem as forças armadas mais bem equipadas, sai um país com poder nuclear, sai um membro permanente do Conselho Segurança da ONU, sai o maior elo de ligação com os Estados Unidos e sai o maior dador da União. Com o brexit, o centro de gravidade da União desloca-se para leste, e isso será mau para Portugal. A negociação para o divórcio será muito complexa, e o pior que pode acontecer é ela acabar por ser benéfica para os ingleses, considerando que tal provocaria um efeito dominó, levando outros países a quererem sair.

Durante muitos anos viveu-se na Europa o politicamente correto, mas hoje isso já não é assim. A Europa é hoje uma estrutura muito mais complexa: existem diferentes países uns mais fortes do que outros, formando uma espécie de hierarquia. O fator demográfico pesa muito. Os partidos do centro perdem poder - foram eles que fizeram a Europa - as franjas crescem. A solidariedade e a generosidade estão em crise na UE e com isso destrói-se a  a essência da construção europeia e enfraquece-se a possibilidade de conquistar as populações. Vão-se criando espaços de eurocéticos alimentados pelos sentimentos de insegurança e medo. As novas gerações enfrentam o desemprego, falha a capacidade  de integração das comunidades que chegam e também das segundas gerações. As pessoas esquecem-se das extraordinárias conquistas alcançadas -  a paz, a liberdade, a democracia, a mobilidade, o programa Erasmus.  Ao invés, a Europa é, nos discursos dos políticos para uso interno, o bode expiatório dos insucessos, a culpada de todos os males que lhes acontecem.

A Europa de euro é de difícil sustentação. As respostas europeias à crise financeira de 2007, foram casuísticas e incompletas, feitas ad´hoc, aos sabor da reação dos mercados ou dos ciclos eleitorais desconjugados.  A acontecer, uma nova crise financeira será fatal pois a  Europa não está preparada para a enfrentar. Isto acontece porque os dirigentes europeus não têm mandato para pensar a prazo. Veja-se o caso da política monetária do BCE: as decisões são tomadas a curto prazo, não há certezas do que virá a seguir, vive-se a esperar que o tempo vá resolvendo as coisas. Em decisões cruciais, na impossibilidade de agradar a todos, opta-se pela média aritmética, ou aplicam-se pensos rápidos, agindo por cobardia ou incoerência.

Sem estratégia, sem líderes visionários, sem  gente, sem recursos, sem poder militar, sem ideais, encaixada entre o Atlântico e a Ásia - ou seja, entre a América e a Rússia -, ameaçada pelas suas contradições internas, a Europa que laboriosamente se autoconstruiu durante 60 anos parece estar a entrar, agora, num rápido processo de autodestruição.
Que fatalidade é esta que pesa sobre um espaço que já foi o centro do mundo?