domingo, 28 de setembro de 2025

"A Humanidade e o Futuro", o livro necessário

Forma, Informa e Inquieta

Escrito sob a forma de um ensaio este livro recorre à História, à Ciência e à Filosofia para mostrar a alucinante trajetória da Civilização Humana desde a Idade da Pedra até à Inteligência Artificial. Mostra-nos a evolução do Homo sapiens como se de um filme se tratasse e revela-nos o papel do conhecimento ao longo do processo evolutivo.

Ao perguntar para onde vamos, o autor alerta-nos para as ameaças que pairam sobre o nosso futuro: o crescimento, as migrações e as alterações climáticas e para o risco de uma nova Guerra Mundial que teria consequências inimagináveis. Fala-nos longamente da Inteligência Artificial e interroga-se sobre se ela poderá ser capaz de prever o nosso futuro e ajudar-nos a tomar as melhores decisões.

Termina com um sinal de esperança: “Quando a ameaça se tornar mais próxima e evidente aos olhos do cidadão comum, a Humanidade descobrirá que a economia do crescimento tem de ser substituída, e que no conhecimento, na convergência das vontades e, sobretudo, na Paz pode ser encontrado o caminho de uma nova prosperidade. Um caminho que será uma transição, mas também um recomeço.”

Aguarde

terça-feira, 23 de setembro de 2025

 

Repensar o papel do professor e do aluno

Os alunos devem ter um papel ativo na aprendizagem. Ao contrário ao que se faz hoje, a educação deve fazer-se de dentro para fora. Como a própria palavra sugere: “educação” deriva do latim ex-ducere, que significa tirar para fora, extrair, exatamente o oposto de introducere, introduzir, que é aquilo que se faz hoje.

Transmitir conhecimento é deixar que a flor desabroche, no tempo certo e acompanhar e orientar o seu crescimento. O professor deve ser o jardineiro que cuida da flor.  Sem professor, não há educação. Deve educar para a descoberta, fomentar a curiosidade, ser um guia. Sem querer ser o sabe tudo, mas em equipa com os alunos, com humildade e pelo exemplo.

 Sempre com empatia: abrir o coração aos alunos é predispô-los a aprender. É essencial ser capaz de captar as emoções do aluno: a insegurança, o medo, a vergonha ou a raiva — e ser capaz de encontrar a palavra ou a chave que abre as almas: “Então como é?”.

  Ensinar não é usar as experiências dos outros. É fazer experiências, criar dúvidas, ensinar a fazer perguntas. É aprender a corrigir quando se erra. Significa isto que se deve dar a formação adequada aos professores de modo a prepará-los para a nova educação


quinta-feira, 18 de setembro de 2025

 

Evolução (1)

O pensamento e a consciência do eu são atributos exclusivos da espécie humana. Um dia, no caminho da evolução, um homem, pela primeira vez, ter-se-á apercebido de que existia como indivíduo: eu sou este indivíduo; eu estou aqui; eu faço isto; eu quero aquilo.  

E, por analogia, ao perceber que existia, adquiriu a consciência da existência do outro. A observação da morte do seu semelhante (do outro) e a consciência do eu, produziram uma revelação extraordinária: a perceção da sua própria morte. 

Esta tomada de consciência do eu e da morte foi a prodigiosa mutação que transformou a espécie humana.

A linguagem, permitindo a representação verbal dos conceitos, deulhes expressão e significado. Primeiro às coisas, depois às ações, e, finalmente, aos sentimentos e emoções. A observação e a experiência conduziram à dedução e ao pensamento lógico. 

As representações, expressas pela linguagem, produziram o pensamento que, por sua vez, permitiu criar o conhecimento científico. Esses conceitos foram integrados no espaço (aqui, acolá, perto, longe) e no tempo (agora, logo, antes e depois). Tudo fica arquivado na memória.

Isto aconteceu há cinquenta mil anos. Só a partir daí se pode, verda-deiramente,  falar de Humanidade e de Educação.

 

Oráculo (1)

De todos os candidatos às próximas eleições presidenciais, só quatros têm chances de vir a ocupar o lugar em Belém. (AV, AJS, HGM, LMM). Com este naipe, a probabilidade de um deles vencer à primeira volta é praticamente nula. 

Destes, apenas dois chegarão à segunda volta, e AV não será um deles: o eleitorado do Chega quere-o para primeiro ministro e não para presidente. Ficará abaixo dos vinte por cento. 

HGM, com a decisão de AV se candidatar, perde uma parte substancial do seu potencial eleitorado, e fica ameaçada a sua passagem à segunda volta. Mas, se passar, será eleito. 

LMM tem boas hipóteses de passar à segunda volta, mas, dada a rigidez do seu eleitorado, poucas de a ganhar. 

AJS espera a decisão do PS de o apoiar ou não. Seja qual for esta decisão, mantém hipóteses de passar à segunda volta, e, se for este o caso, de a ganhar. 

Muita coisa se vai aclarar nos próximos três meses: a força da principal mensagem de cada candidato, o leque dos apoiantes, a segurança e a coerência do discurso, a empatia pessoal e a resiliência aos fait divers. Sem ignorar a força da comunicação social.

O oráculo diz: ou Almirante ou Seguro

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Gerir o Tempo

Nas gerações que nos precederam - mesmo nas que estão mais próximas de nós: as dos nossos pais e avós -, a forma das pessoas passarem o tempo era muito diferente da nossa. O homem do paleolítico, praticamente, passava todo o seu tempo de vigília a recolher alimentos e a caçar. Na Idade Média, uma boa parte do tempo era dedicado ao trabalho na terra e à religião. Na era industrial, o trabalho na fábrica passou a ocupar muito do tempo antes usado na agricultura. Na sociedade de excedentes, possibilitados pela era do carbono, ganha importância o chamado tempo livre. Ou seja, a convivência social, a televisão, a cultura, o desporto, a internet, as viagens e o shopping preenchem a maior parte do nosso tempo de lazer diário.

Há uns anos atrás, os anunciantes faziam estudos visando conhecer a forma como as pessoas repartiam o seu tempo pelos diversos meios: imprensa, rádio e televisão. A intenção era alocar os investimentos publicitários naquela mesma proporção. Em França, onde estes estudos estiveram muito em voga, chamavam-se os études budjet temps. Em Portugal não tenho conhecimento de que essas pesquisas alguma vez se tenham realizado. Por isso, como gosto de números, decidi fazer um exercício empírico e aproximativo: estimar, com base em alguns dados existentes e muito senso comum, como se distribui a ocupação das 168 horas (24x7) semanais de um português médio ativo, adulto e urbano. O resultado a que cheguei - aceito, com agrado, sugestões de alteração! - para esse balanço de tempo foi o seguinte:
    horas       %
Tempo de repouso5633,3
Tempo de trabalho47,528,3
Tempo digital 3017,9
Tempo social11,56,8
Tempo familiar 2011,9
Tempo íntimo31,8
Tempo interior e espiritual00,0
Total 168100,0
Notas: Tempo de repouso: São 8 horas por dia, 56 horas por semana; tempo de trabalho: inclui 35 horas de trabalho semanal, deslocações e refeições no trabalho; tempo digital inclui o tempo dedicado a ver televisão, a ouvir rádio, falar ao telemóvel, dedicado ao computador e à internet (incluindo o que é passado nas redes sociais); tempo social inclui refeições fora do trabalho, idas a espetáculos, tempo pssado nas compras, cultura, leitura, tempo passado com amigos fora de casa; tempo familiar inclui refeições fora do trabalho (tomadas em casa) e o tempo passado, em casa, com a família e amigos; tempo íntimo refere-se ao tempo dedicado à higiene pessoal e necessidades fisiológicas; tempo interior refere-se ao tempo de reflexão interior e ao tempo espiritual e religioso.

Feito o exercício, e distribuído o tempo pelas diferentes formas de o ocupar, constatei que não me sobravam horas para atribuir à última parcela, o tempo interior e espiritual. Haverá, com certeza, pessoas que dedicam muitas horas a esta ocupação; no entanto, a estatística vive de médias e, neste caso, a média estará muito próxima de zero. Ao invés, atente-se na importância atribuída ao tempo digital (18% do total, 27% do tempo de vigília!), uma utilização recente, e que se prevê venha a aumentar muito no futuro.

Sendo o tempo a matéria prima de que é feita a vida, é surpreendente o pouco cuidado que colocamos na sua utilização. Parece que o desperdiçamos, às vezes, até voluntariamente e com prazer, pois não nos detemos a orçamentar e a planear a forma como o despendemos. Veja-se, por exemplo, o tempo passado a ver televisão - 22 horas por semana, quase 20% do nosso tempo de vigília. Esse tempo, que se traduz afinal na atenção dedicada ao pequeno ecrã, é, por sua vez, disputado pelas emissoras que o utilizam em proveito próprio, vendendo-o aos anunciantes ou valorizando-o para dar protagonismo a políticos, homens de negócios, artistas, figuras públicas etc. E o que se diz em relação à televisão pode estender-se a certo tipo de literatura e de imprensa.

A economia global, a política e a comunicação social reclamam o nosso tempo. A nós cabe-nos cuidar de o gerir, de o não desbaratar levianamente e de não deixar que outros se apropriem dele. Embora os minutos sejam todos iguais, a forma como os utilizamos pode ser diferente. Na nossa vida alguns minutos valem mais do que outros, pois só alguns são verdadeiramente nossos. O tempo interior, aquele em que nós nos confrontamos connosco próprios, é o nosso tempo mais precioso. Sem tempo interior e espiritual, o homem deixa de ser dono e senhor do seu destino. É como um barco que voga ao sabor das correntes e dos ventos. Não traça o seu rumo; deixa-se ir para onde o levam.

A globalização, a tecnologia, a forma de comunicar e consumir informação, estão a roubar o tempo interior do homem. Os que nos fornecem informação e nos viciam no seu consumo acabam por processá-la e digeri-la por nós e para nós. E ao compelirem-nos a consumir sempre mais e mais, acabam, desta forma, por criar um círculo vicioso e uma perigosa adição. Por isso, acredito que muitas das depressões do nosso tempo são provocadas pela sofreguidão no consumo do tempo e pela má gestão na sua utilização.

A forma como um povo gasta o seu tempo mostra o seu estado de saúde como sociedade, e é revelador do que podemos esperar quanto ao seu futuro. Muitos dos nossos hábitos de vida estão dependentes de redes muito frágeis cuja sustentabilidade está ameaçada. Ora isso ilustra a pouca resiliência desses hábitos e as contingências que o futuro nos pode revelar. A boa gestão do tempo terá de ser uma forte e permanente preocupação daqueles que acreditam e querem empenhar-se na caminhada para um mundo novo.

sábado, 23 de novembro de 2019

O Eu e a Mente

Resultado de imagem para a Mente



Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!
José Régio
Quando o meu cão se vem enrolar aos meus pés e se mostra agradado pela minha companhia, eu interrogo-me sobre o que se passa no cérebro deste dócil companheiro. O meu cão vive apenas o momento presente, ele tem passado mas não o evoca, e também não se preocupa com o futuro. A cada dia basta-lhe o seu cuidado. Tudo no meu cão se orienta para a vida e para a reprodução. A fome, a sede e  o sexo são as suas pulsões. Eu posso condicioná-lo, como fez Pavlov, e com isso provocar-lhe prazer ou conflitos e sofrimento.

Ele não sabe que a Terra é redonda, nem conhece a importância do ar que respira.  E  não sabe que vai morrer um dia. Eu sei que o meu cão não pensa, mas sente. E sei todas aquelas coisas que o meu cão não sabe, mas, às vezes, tenho inveja dele. Como gostaria de desligar, a meu bel-prazer e pelo tempo que quisesse, a corrente do pensamento, e ficar, como este fiel amigo, apenas a respirar e a viver plenamente o aqui e o agora.

O pensamento e a consciência do eu são atributos exclusivos da espécie humana. Um dia, no caminho da evolução, um hominídeo, pela primeira vez, ter-se-á apercebido de que existia como indivíduo: eu sou este individuo; eu estou aqui; eu faço isto; eu quero aquilo.  E, por analogia, ao perceber que existia, adquiriu a consciência da existência do outro. A observação da morte do seu semelhante (do outro) e a consciência do eu, produziram uma revelação extraordinária: a perceção da sua própria morte. Esta tomada de consciência do eu e da morte foi a prodigiosa mutação que transformou a espécie humana. Criou o Ego que se transmitiu aos descendentes, e que, pela seleção natural, permitiu desenvolver o cortex cereberal. O homem mais inteligente passou a ser o mais apto. E a evolução, como nos ensinou Charles Darwin, fez o resto.

A linguagem, permitindo a representação verbal dos conceitos, deu-lhes expressão e significado. Primeiro às coisas, depois às ações e aos sentimentos, e, finalmente, às emoções. A observação e a experiência conduziram à dedução e ao pensamento lógico. As representações expressas pela linguagem, articularam-se entre si, e produziram o pensamento que, por sua vez, permitiu criar o conhecimento científico. Esses conceitos foram integrados no espaço (aqui, acolá, perto, longe) e no tempo (agora, logo, antes e depois).

Através do pensamento, o homem  antecipa o futuro, imagina e cria. Transformou-se num ser superior consciente e inteligente.  Mas o eu das pulsões e dos instintos não desapareceu.  O homem passa a ficar dividido: a consciência passou a ser um eu superior, que é  o Ego ou o Ich (em alemão) ,  e o outro eu, o inconsciente, é o Id  que é o eu do meu cão. O eu inferior não distingue o pensamento da realidade, pois não distingue as coisas das suas representações. A presença do leão ameaçador provoca medo e faz libertar adrenalina; mas a representação mental do leão imaginado, confunde o Id e pode provocar as mesmas reações.

Foi Sigmund Freud quem propôs este modelo da mente humana. O conceito subjetivo de Bem e de Mal levou Freud a acrescentar ao Id (que sente)  e ao Ich (que conhece, pensa e prevê),  o Uber-Ich ou Superego que é o eu que julga. O superego é o eu social que deriva da moral, da  religião, e das normas sociais.  E está na origem do pecado, da culpa e de muitas neuroses. Com este modelo, Freud explicou a Alma, Deus e o Diabo, como Galileu tinha explicado, dois séculos antes, o funcionamento do sistema solar.

A complexidade e a fragmentação da mente humana leva ao conflito interior, à divisão, ao sofrimento e ao medo psicológico (perante a ameaça imaginada, em oposição ao medo natural, perante a ameça real). O pensamento condicionado, pela cultura, pela memória, pela religião e pela educação, não é libertador, antes pelo contrário, projeta-nos no tempo passado e no tempo futuro, e conduz à ansiedade e à depressão. Cria-se um circulo vicioso, vivemos nos meandros de um labirinto, e quanto mais lutamos para saír dele, mais fragilizados ficamos, e mais se nos obscurece o caminho da saída.

Felizmente, não estamos condenados ao castigo de Sísifo, aquele de ter de carregar perpetuamente a pedra montanha acima e, chegados ao cume, desesperados, vê-la rolar de novo pela encosta abaixo, e termos de recomeçar tudo outra vez. A fórmula da libertação deste absurdo sofrimento, estava inscrita no Pórtico de Delfos: "Conhece-te a ti próprio e conhecerás o Univeso e as suas leis".  Foi este o caminho percebido por tantas mentes superiores, as Almas Grandes, os filósofos que viveram orientados pela busca do Bem, da Justiça e da Verdade.

A grande e angustiante interrogação do homem consiste em saber se existe alguma coisa para lá do pensamento e do tempo. Algo eterno, intemporal. Para responder a esta questão o homem construiu e sacralizou a figura  de Deus, organizou-a conferiu-lhe uma imagem, deu-lhe atributos.  Surgiram as religiões e o circo que as envolve. A interrogação permanece.

Mas a evolução do Homem não pára.  Eu acredito que podemos estar a adquirir um eu metafisico, uma espécie de eu universal, uma simbiose do Homem com o Universo e com o Criador. Será este eu que nos libertará do ódio, da ambição e das neuroses e nos permitirá atingir a permanente clarividência. Acredito mesmo que a aquisição desse eu será o salto no processo evolutivo que nos abrirá o caminho da Transição para uma Nova Humanidade.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

A Humanidade em Rede


O padre jesuíta Teilhard de Chardin, o autor do "Fenómeno Humano", foi um  paleontólogo que viveu na primeira metade do século passado, e cujas ideias estiverem muito em voga nos anos 60. Foi ele quem criou a Teoria do Ponto Ómega. Trata-se de uma visão evolucionista do Homem, ao arrepio das conceções tradicionais do Cristianismo. Para ele, o Homem está a evoluir para uma crescente complexidade, a sua inteligência vai projetar-se no sentido universal, a Humanidade ressurgirá como uma entidade nova, transumana, dotada de Alma e Inteligência. E, para o padre, cumprem-se assim as  escrituras, referindo-se certamente a Cristo que disse, pela pena do evangelista João, "Eu sou o Alfa e o Ómega".

Toda a evolução do Mundo, a partir da morte de Teilhard de Chardin, ocorrida em 1955, leva-nos a refletir sobre estas ideias. A globalização e a a forma dos humanos se relacionarem entre si, transformou o Homem e está a transformar a Humanidade, de uma forma de que ainda não são visíveis as consequências. Notícias recentes dão-nos conta  que 50% da população mundial já acede à Internet. São 3,5 mil milhões de pessoas. Uma outra notícia diz-nos que qualquer coisa como 2,5 mil milhões de pessoas são os utilizadores do Facebook.

A sociedade humana está em rede, e  isto já trouxe e vai continuar a trazer importantes modificações para o nosso futuro coletivo. O homem em rede é um homem novo, e será, no futuro um homem muito diferente. Esta revolução da Internet só tem paralelo com a invenção da escrita e sobretudo com a invenção da imprensa. A globalização começa com Gutemberg, e amplia-se com os  novos mensageiros, a rádio, a televisão o velho telefone analógico, o telefone pessoal, o email a Internet, e as redes sociais. E tudo isto é irreversível, e já está nos genes da Civilização.

De fato, a Rede é a primeira concretização do conceito de Humanidade como um organismo vivo. Cada ser humano está a perder a sua individualidade, não passa de uma simples célula deste novo organismo complexo. A sua existência, só pode ser assegurada dentro do todo. Tal como formiga só existe no formigueiro, e a abelha no enxame, também o Homem só se justifica na Sociedade. Que a Globalização ampliou e que hoje se confunde com a própria Humanidade.

Podemos estar a sacrificar conceitos como são a consciencia e o livre arbítrio, valores associados à alma, questionar a responsabilização do individuo, e pôr em causa toda a filosofia, cultura e ética desenvolvidos nos últimos dez mil  anos. Podemos estar no início de um processo que conduzirá a uma nova religião e, sobretudo, a uma nova moral. O "Admirável Mundo Novo" de Huxley, ou o "1984" de Orwel podem ser antevisões - mesmo que deformadas - dessa nova realidade.

Mas  a complexidade dessa nova organização traz outros riscos. A complexidade da própria Rede é muito grande e ela é, por isso mesmo, muito vulnerável. Nesta forma de  evolução desenvolveu-se um novo órgão da nova entidade coletiva. O futuro do Homem vai depender da saúde deste novo órgão e das suas capacidades. Por que as células não sobrevivem à morte do ser que elas integram.

Theilhard de Chardin foi um visionário no seu tempo. Mas aquilo que parecia uma  miragem há 50 anos é hoje uma realidade. Tempos de grande incerteza e de alto risco estão diante de nós. Mas para as próximas gerações serão também tempos de aliciantes desafios e de importantes transformações.


terça-feira, 21 de maio de 2019

Ética e Ciências da Vida


As Ciências da vida são muitas – por exemplo, a medicina, a genética, a biomédica - no sentido lato são um vasto conjunto de Ciências que estudam os seres vivos derivando de um tronco principal que é a Biologia. Surge, entretanto, a Bioética uma área interdisciplinar para a qual concorrem a Biologia, o Direito e a Ética e que estuda as condições para uma gestão(?) responsável da Vida Humana, animal e ambiental e aborda questões tais como: o controlo da natalidade ; a fertilização fora do útero; a clonagem; a manipulação genética; a morte assistida, o prolongamento da vida, as barrigas de aluguer, as leis da adopção, o casamento de pessoas do mesmo género. Todos estes temas desenvolveram-se extraordinariamente nas últimas seis ou sete décadas.

Leio, algures, uma justificação sobre a necessidade de associar a Ética a estas ciências: "o progresso técnico deve ser controlado para acompanhar a consciência da humanidade sobre os efeitos que eles podem ter no mundo e na sociedade para que as novas descobertas e suas aplicações não fiquem sujeitas a todo tipo de interesses". Procuro identificar alguns desses possíveis interesses: e a minha atenção vai, em primeiro lugar, para o que aparece associado ao valor económico desse conhecimento no comércio de embriões humanos; utilizar a fertilização artificial e a gestação laboratorial, para fazer o apuramento da raça humana com fins económicos políticos ou militares; esterilizar populações, raças ou povos através da manipulação genética; a incentivação da eutanásia. Um dia, quando desparecerem os laços familiares, receio que se venha a questionar o valor económico de cada ser humano, resultado do balanço entre a sua "utilidade social" e o custo de o manter vivo. A história já nos mostrou exemplos disso.

O impacto das opções que vierem a ser tomadas será enorme, pois poderá condicionar o futuro da espécie humana. Está em causa muita coisa: a família, a política, o amor, o sexo, a liberdade, a democracia. Penso, muitas vezes, que já se perdeu a finalidade do “instinto de procriação” na espécie humana. É verdade que a atração sexual e o prazer da união consentida se preserva, mas não a última finalidade do ato pois essa foi suprimida pela prática anti-conceptiva a qual funciona como uma forma de iludir a natureza. Preserva-se e amplia-se o prazer sexual mas elimina-se a procriação. Ora, acho eu, que o instinto de sobrevivência, só por si, não é suficiente para preservar a espécie. Dotada apenas deste único instinto, a espécie humana vai envelhecer, não se reproduzirá naturalmente, e acabará por colapsar. Perante esse cenário, a Humanidade vai ter de adotar um processo de reprodução artificial, orientado para suprir as necessidades demográficas e sociais. E esse processo será a expressão de uma nova forma de poder.

Muitas serão as implicações resultantes de tal estado de coisas. Regressamos ao admirável mundo novo, de A Huxley, onde estará ausente o Amor, e que será dominado pelo prazer. Os indivíduos terão funções predeterminadas, muita da sua vida será programada, possivelmente até a Morte. Continuará a haver, neste cenário, sentido para a Vida?

Quando um filho vai ao tribunal responsabilizar os pais por o terem trazido ao mundo - isso parece ter acontecido recentemente - estamos perante uma situação que não pode ser visa como uma simples anedota mas que requer uma reflexão especial. A partir de agora, os filhos deixaram de ser dádivas de Deus e frutos do Amor. Passarão a ser uma opção de conveniência de um ou dois indivíduos que os podem encomendar como uma simples mercadoria com especificações predefinidas. Afinal, uma forma camuflada e aceite de tráfico humano. Este teria sido um belo tema para a tragédia grega com material para re-escrever o Édipo.

Perante isto, interrogo-me sobre o que fazer ou não fazer com este novo conhecimento . Está o debate aberto. Falta-nos a contribuição da história pois não podemos contar - com sempre tem acontecido - com as opiniões dos sábios do passado, aos quis sempre recorremos quando procuramos guias: Sócrates, Platão, Séneca Tomás de Aquino, Kant, Nietzsche e até mesmo Darwin. Isto faz uma grande diferença e aumenta as nossas responsabilidades.

Quem vai participar no debate? É urgente fazê-lo, mas onde? Em cada país? A nível Global? A quem cabe a última palavra? Aos médicos, juristas, teólogos, políticos, economistas ou filósofos ? Num tema tão delicado, quando chegar a hora das grandes opções, temos o direito de usar o “referendo” como forma de decisão, entregando a uma geração o direito de decidir, egoisticamente, sobre o destino de gerações futuras?

Penso que só a Filosofia nos pode ajudar a encontrar as respostas.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

O sonho comanda a vida

Na noite do passado dia 27 de Abril  houve "Conversas sobre Almeida". Estavam anunciadas para o Terreiro Velho, e eu, encontrando-me em Almeida, não poderia faltar. Chego em cima da hora marcada e encontro o lugar deserto, mas não me espanta o facto, pois estou habituado a ver Almeida deserta. Mesmo assim, tento informar-me do sucedido, e descubro que, afinal,  as Conversas têm lugar nas portas interiores de Santo António,  para onde, apressado, me dirijo. Não conhecia a sala, uma surpresa agradável. Umas 40 pessoas estavam ali, vejo alguma caras conhecidas, poucas.

A sessão já tinha começado, o Filipe Vilhena usava da palavra. Apresentava ideias, perguntava porque razão coisas muito simples não se poem em marcha, por exemplo, um parque de campismo. Falou do castelo e da sua reconstrução - lembrando a propósito os interessantes escritos no Praça Alta do arquiteto Samuel Pinto-, referiu o rio Coa e a o urgência de o revalorizar,  mostrou estranheza pelo facto do maior monumento português não estar dignamente anunciado na fronteira de Vilar Formoso, e até falou da possibilidade de construir um pequeno aeródromo no concelho.

Mas a grande surpresa da noite estava para chegar. O Pedro Terreiro - mais tarde descubro que se apresenta no ciber espaço como Pedro Zaz -, falou em seguida. Uma figura franzina, o estilo informal, postura irrequieta de quem tem muito para dizer e sente de forma vibrante o que lhe vai na alma. Assume-se como almeidense com o orgulho e a autoconfiança de quem sabe o que quer e o que vale. Fala de Almeida com transbordante entusiasmo. Refere-se  aos Estados Unidos, à China, ao Japão, ao Brasil como se estivesse a falar de lugares comuns. Insiste em comparar Almeida a Nova York como se fossem duas localidades irmanadas na aldeia global. Os presentes ouviam com atenção, contagiados - diria até hipnotizados - com o entusiasmo do orador.

A proposta do Pedro é simples: Almeida e as suas muralhas reunem condições únicas para produzir arte efémera e, desta forma, valorizar aquilo que é único em Almeida, atraindo pessoas, investimentos, estimulando a economia. Todo o concelho ficará a ganhar. Estimulará o turismo e todas as atividades que vêm atrás dele. A ideia já está concretizada com sucesso noutros países - mostrou um interessante exemplo, no Japão.  De forma convincente, assegura um milhão de visualizações nas redes sociais. Afinal, penso eu, um investimento com um retorno  muito grande, pois se a ação proposta custar cem mil euros o custo por contacto será de 10 cêntimos,  um valor incomparavelmente inferior ao custo por contacto nos meios tradicionais. E que é muito mais eficaz pois dirige-se a um alvo qualificado.

Saio da reunião surpreendido pelo vibrante entusiasmo da proposta do jovem almeidense. Será a arte efémera uma boa aposta para Almeida? Pensando bem, na Natureza, tudo o que é temporal é efémero: A arte, os governos, os países, os impérios, a política, a  economia, a riqueza, o poder e a glória. A vida de cada ser humano é um flash no tempo universal. A própria espécie do homo sapiens  se apagará da Terra, muito antes do nosso planeta ser engolido por um Sol moribundo .

Na sociedade atual do consumismo, do descartável, da voracidade das redes sociais, da novidade permanente,  da facilidade  nas comunicações, das notícias que se atropelam e da fluente mobilidade, o tempo dos homens passa mais depressa. A única certeza que preside ao nosso dia-a-dia é a de sabermos que, amanhã, tudo será diferente e que o tempo não voltará para trás.

O efémero está na moda. E é a moda que confere valor económico aos produtos. Por isso a proposta do Pedro deve ser seriamente considerada. É uma proposta arrojada, inovadora, é criativa, envolve a comunidade local. Vem de um profissional reconhecido internacionalmente e com um currículo invejável. A sua concretização vai estimular a atenção sobre o território, para logo suscitar interesse e o desejo que leva à ação.

O Sr Presidente da Câmara não deve deixar passar ao lado esta oportunidade. O facto da ideia  não vir de nenhum académico iluminado não é um mal, é antes um bem, Mostra que existem almeidenses vivos e com uma Alma grande.

Por aquilo que percebi, os almeidenses que estavam na sala esperam da autarquia um gesto nobre e com visão de futuro. Eu comungo dessa esperança, tenho um palpite de que vai dar certo, e, se for preciso, pago para ver.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Se


Se, na adversidade da mais escura noite,
conseguires colocar-te acima das Palavras
e deixares que te guie a Voz Silenciosa da tua Alma.

Se fores capaz de enxergar a Verdade,
atrás da floresta de enganos e das sombras
que, a cada dia, os ecrãs te mostram.
Se conseguires ver na mais pequena flor o milagre da Vida,
e vislumbrar na mais longínqua estrela a mão do Criador

Se recusares usar plástico quando podes evitá-lo,
e assumires o compromisso de não sujares o ar que respiras,
nem a água que bebes, nem os alimentos que comes.
Se conseguires imaginar por detrás da carne da tua refeição
o sacrifício do animal que ta entregou

Se, para subires mais um degrau na tua Consciência,
fores - como disse o poeta - capaz de ir além da dor,
indiferente ao mavioso canto das paixões e dos prazeres.
E fores capaz de esquecer as névoas do Futuro,
quando o Aqui e o Agora reclamam a tua presença.

Se, quando o poder ou a glória te baterem à porta,
te lembrares da gota de sémen como começaste
e  do punhado de cinzas que serás um dia.
E aceitares, com a mesma serenidade, as mudanças certas
- para melhor ou para pior -  que o futuro te trouxer.

Se, com Compaixão, fores capaz de levar Esperança
a uma criança, a um necessitado ou a um  enfermo,
indiferente à sua riqueza, raça, credo ou idioma.
Se fores capaz de te dares aos outros, sem esperar recompensa,
Da mesma forma como a rosa te dá o seu perfume.

Se fizeres do Bem, do Belo, da Justiça e da Verdade
as estrelas que iluminam o teu caminho
Então, serás dono do Tempo. A Eternidade está ao teu alcance.
E - acima de tudo - meu irmão e minha irmã, contribuirás
para fazer deste Mundo um lugar melhor para os teus filhos


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Mandamentos



Primeiro: Conhece-te a ti próprio; procura dentro de ti as respostas para as tuas dúvidas.

Segundo: Pratica o Bem, ama o Belo, sê justo. Busca o conhecimento

Terceiro: Carpe Diem: Esquece o futuro porque ele é imprevisível e traiçoeiro

Quarto:  Põe o melhor de ti próprio em tudo o que fizeres. Cultiva o ócio, porque este é o único tempo que verdadeiramente te pertence.

Quinto: Aceita da mesma forma a Adversidade e o Sucesso; a Paz e a Guerra; a Vida e a Morte

Sexto: Não tomes nada como certo e definitivo, porque um dia tudo será diferente.

Sétimo Nunca te esqueças que começaste com uma gota de sémen e acabarás como um punhado de cinzas. E o mesmo acontecerá aos teus amigos e aos teus inimigos.

Oitavo. Respeita a Natureza e os seus equilíbrios. Não queiras ter mais do que aquilo que precisas.

Nono. Sê Solidário. Respeita e cuida dos mais velhos, dos mais fracos e dos mais necessitados.

Décimo. Educa as crianças ao teu redor. Dá-lhes tudo e nada lhes peças em troca. Procura que elas sejam melhores e mais sábias do que aquilo que tu foste.


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O Rio Côa


Um rio é uma benesse da natureza. Foi nas margens dos rios que se fixaram, pela primeira vez, os nómadas das tribos de caçadores-recoletores, e foi nelas que se construiriam as grandes cidades da antiguidade. O Jardim do Éden ficava nas margens dos rios da Mesopotâmia, a região que foi o berço da civilização. O Egito Antigo era, no dizer do historiador Heródoto, uma dádiva do Nilo. E foi nas purificadoras águas do celebrado rio Jordão que Jesus Cristo foi batizado.

Na sua geomorfologia, os rios têm um dinamismo próprio. Nascem, límpidos e cristalinos, pequenos fios de água escorrendo das neves das montanhas. Na sua  juventude, correm velozes, apertados entre margens abruptas, alimentam uma fauna e uma flora diversificadas. Na velhice, espraiam-se nos vales para onde arrastam os sedimentos que nutrem a terra e fazem florescer as culturas.  Mas os rios nunca morrem. As suas  águas fluem sempre diferentes, sempre renovadas, pois eles são um elo dessa maravilhosa corrente fechada que é o ciclo da água. Foi o filósofo grego Heráclito que disse que nunca nos podemos voltar a banhar nas mesmas águas de um rio, porque um rio nunca é igual a si próprio.

No seu percurso, o Côa, o rio da nossa terra, é indomado, selvagem e agreste. As suas margens foram habitadas pelos homens que,  há, talvez, uma dezena de milhares anos, nos deixaram gravuras esculpidas na rocha, testemunhos de uma fauna abundante e diversificada.  Uma parte importante do percurso do rio Côa fica no concelho de Almeida e está ligado à sua História: nas sua margens travou-se dura batalha em 1810, para defender a única ponte que permitia a entrada em Portugal pela fronteira da Beira; as principais pontes sobre o Côa, nas estradas e no caminho de ferro que nos ligam à  Europa, estão no nosso concelho; a eletricidade que iluminou Almeida pela primeira vez era produzida no rio; e até as termas da Fonte Santa lhe estão intimamente ligadas.

Na margem esquerda, onde se situa a maior parte da bacia do rio e onde correm as principais ribeiras que nele confluem - das quais a principal é a ribeira das Cabras -, está a Asta.  Pela proximidade, por tudo o que ele representa, a relação da Asta com o Côa tem de ser uma relação forte.  O rio tem muito para lhe dar: a inspiradora paisagem que convida à meditação, à introspeção, à poesia e à arte, o desafio da aventura e da descoberta, o espaço de descanso e lazer, a excelência de um cenário para desportos de ar livre, tais como, a pesca desportiva - com os seus benefícios terapêuticos -, as caminhadas, a canoagem, o campismo, a natação.

Urge, pois, conhecermos melhor o nosso rio. Vamos redescobri-lo na sua beleza natural,  tomar consciência dos riscos que ameaçam o seu equilibro e a sua saúde;  identificar e catalogar a sua fauna, a sua flora, fotografar os seus mais belos recantos; analisar a qualidade das suas águas; revisitar as marcas que os homens nele deixaram:  as gravuras, as pontes, os açudes, as noras, as veigas, a etnografia, as lendas e os costumes.

Vamos trazer o Rio Côa de volta  para a nossa convivência, voltar a percorrer as suas margens e voltar a mergulhar nas suas águas.  Sem termos de o represar nem ter de o poluir, é urgente que lhe demos valor económico, criando riqueza para ela, por sua vez, crie empregos e fixe pessoas. Sobretudo, envolver a nessa tarefa toda a comunidade - nomeadamente os mais jovens e os alunos das escolas -, pois o rio é de todos.. Enfim, vamos todos trabalhar para criar uma sólida relação de afecto com  o Rio Côa, com a certeza que que só podemos amar aquilo que conhecemos.




domingo, 4 de novembro de 2018

Conhecimento, Opinião, Democracia e Educação

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O tema que escolhi para este artigo foi inspirado pelas experiências que, nos últimos 10 anos, na Fundação Vox Populi,  temos tido  com o programa "A Pesquisa que Ensina" sobre novas abordagens pedagógicas junto de algumas escolas portuguesas. O objetivo deste texto é relacionar quatro importantes conceitos, conhecimento, opinião, democracia e educação, procurando, em jeito de conclusão, realçar a extraordinária importância da educação para o nosso futuro coletivo.

Os gregos identificavam dois tipos de conhecimento, o episteme - que designo por conhecimento científico, e o techne - que designo por conhecimento técnico. Existe outro conhecimento, a gnose,  que designarei por conhecimento gnóstico.  O termo gnose deriva do termo grego "gnosis". É um conhecimento intuitivo, baseado em crenças e narrativas mitológicas. A existência de um Deus transcendente é aceite pelos gnósticos, que vêem na Religião e na Fé um caminho para atingir um conhecimento mais profundo da realidade do mundo. Quando, a partir de agora, referir "conhecimento", não incluo a gnose, falo apenas de conhecimento técnico-científico que é uma “fusão” entre episteme e techne, considerando que estes dois tipos de conhecimento, evoluem paralelamente, fundem-se e potenciam-se mutuamente.

O conhecimento está associado ao progresso da espécie humana e intimamente relacionado com a linguagem e com o pensamento, pois sem linguagem não há pensamento produtivo. Foi o conhecimento que transformou o homo sapiens no ser superior que ele é no seio da criação e foi responsável pelas grandes conquistas civilizacionais. O conhecimento é a causa dessa tão surpreendente ocorrência cósmica que Teilhard de Chardin designou por Fenómeno Humano.

Eu vejo o conhecimento como uma aptidão (no sentido darwiniano da palavra) da espécie humana, aperfeiçoada ao longo de milénios. Mas, ao contrário do que se passa noutras espécies, enquanto aptidão adquirida, o conhecimento não se incorpora na informação genética dos homens, mas preserva-se externamente - sob a forma de informação -, e transmite-se pela educação às gerações seguintes. Considerando as suas características, a aquisição, preservação e difusão do conhecimento só foi possível devido a capacidade de comunicação entre indivíduos. Por isso, a evolução do conhecimento está associado às quatro grandes revoluções na forma comunicar que se sucederam a intervalos sucessivamente mais curtos: a) a linguagem há cerca 50000 anos, b) a escrita há cerca de 5000 anos, c) a imprensa há pouca mais de 500 anos e a d) internet, cujo início, para manter a cadência exponencial da série, podemos datar de há 50 anos atrás. Nestas revoluções, verificou-se um salto significativo no desenvolvimento de novas capacidades e criação de novas ferramentas,  progressivamente mais sofisticadas e complexas. Condições, que foram, elas próprias, uma consequência do conhecimento acumulado. Que outras revoluções nos esperam no futuro próximo? Quais os riscos associados à crescente complexidade das novas ferramentas? Dado que nas leis de Darwin não se admite a desevolução, poderá a espécie ficar prisioneira dessa complexidade e entrar num cul-de-sac evolutivo?

 Para os gregos, como contraponto ao episteme, a opinião era chamada de doxa, sufixo que reconhecemos em palavras tais como ortodoxo, paradoxo. Doxa era a opinião comum que os sofistas procuravam influenciar com argumentos não necessariamente verdadeiros, e que  Platão opunha ao episteme. Nos dias de hoje, por vezes, confundimos opinião com conhecimento, embora se  trate de conceitos muito diferentes.

O conhecimento é um atributo da espécie, é cumulativo e de base racional (produzido pelo pensamento), ao passo que a opinião é um atributo do indivíduo, não cumulativa e de base emocional (e, nessa medida, influenciada pelo medo, pela raiva, pela vingança e pela inveja); o conhecimento está comprometido com a ética e com a verdade, ao passo que a opinião que é pessoal, é descomprometida com a verdade, íntima e nem sempre confessável; o conhecimento é universal e não manipulável, e a opinião é tribal, populista e nacionalista, e pode ser manipulada; finalmente, no conhecimento prevalece o realismo, a ponderação e a análise de longo prazo, e na opinião prevalece a paixão, o imediatismo e a crença nas utopias.

A democracia moderna, que remonta ao final do século XVIII,  tem origem nos princípios saídos da Revolução Francesa e postos em prática pelos homens que declararam a independência dos Estados Unidos da América, numa altura em, por virtude do progresso (que é uma consequência do conhecimento, ou se identifica com o próprio conhecimento!), se iniciava uma importante transformação económica que foi a Revolução Industrial, cujo impacto se veio a revelar nas grandes mudanças científicas, tecnológicas e sociais,  que prosseguem até aos nossos dias. Os princípios da moderna democracia estão bem expressos na frase de Abraham Lincoln: “the people, by the people and for the people”. O poder emana do povo, é exercido pelo povo, para servir o povo.

Mas existe um grande paradoxo (já expresso por Platão) que questiona o valor da democracia: a legitimação do poder dos governantes e dos representantes do povo que fazem as leis e escrevem as constituições, sustenta-se na opinião que é expressa no voto dos cidadãos; ora, sendo, como vimos acima, a opinião descomprometida com a verdade e com a ética, e sendo influenciável (ou mesmo manipulável), o valor da democracia será o apenas valor da opinião sobre a qual ela se fundamenta. E, por toda a parte, em crescendo, vão-se sucedendo exemplos que nos levam a questionar o valor da democracia. A eleição democrática de líderes (falo do caso da Alemanha nazi) que cometeram crimes contra a humanidade ilustra bem a pertinência do argumento.

E, no entanto, a democracia funciona e não sendo porventura o melhor sistema ele será o menos mau, pois não se vê outro melhor que o possa substituir. É certo que a imprensa livre contribuiu, nos últimos 200 anos, com o seu papel vigilante e formador de opinião para fortalecer o sistema e iludir as suas fraquezas. Mas isso pode estar em causa na Era Digital, dado que essa vigilância está-se a diluir no labirinto das redes sociais.

Com a democracia debilitada, a Humanidade enfrenta uma época em que se lhe apresentam grandes desafios: o futuro do homo sapiens enquanto espécie pode estar ameaçado pois o seu tremendo sucesso, no reino da criação foi conseguido à custa de um preço elevado: aniquilação de outras espécies, forte pressão demográfica, esgotamento de recursos, poluição, alterações climáticas. A economia (ela própria e, paradoxalmente, fruto do conhecimento) que suporta o sucesso da espécie, exige crescimento contínuo, é poluidora e predadora de recursos, e precisa de ser rapidamente substituída.

Um sistema político baseado apenas na doxa será incapaz de inverter a tendência para o colapso da espécie. Só um sistema baseado no conhecimento capaz de alterar tanto o atual sistema político como económico, permitirá à Humanidade fazer as escolhas necessárias à sua sobrevivência e determinar livremente o seu destino. Mas temos de estar atentos aos riscos. A quem caberá a incumbência de guardar e preservar os arquivos digitais? Qual a possibilidade e o risco de poderem vir a ser manipulados? Qual a longevidade e fiabilidade dos suportes que os contêm? Como assegurar a compatibilidade dos diferentes sistemas de gravação? Qual o risco de haver impedimento ou restrição no seu acesso, associado à dependência da rede eléctrica e das redes de comunicação? Paralelamente vão colocar-se problemas relacionados com o uso da informação, com as ameaças à liberdade das pessoas, com a invasão da sua privacidade.

A Wikipedia pode desempenhar um papel importante para se institucionalizar como um sólido guardião do conhecimento, se conseguir proteger-se de intrusões oportunistas, preservar a sua independência, colocando-se definitivamente ao serviço do episteme e não da doxa.

Mas, é na educação que estará a chave da solução do problema.  No futuro, para contornar as armadilhas do progresso e da democracia, temos de ser muito cautelosos na forma como iremos preparar as novas gerações. Temos de educar para o conhecimento, fortalecendo as opiniões que permitam fazer as escolhas certas. Mas não podemos transmitir o conhecimento como se ele fosse apenas um conjunto de informações compartimentadas e descontextualizadas. Temos de ser capazes de transmitir os valores que lhe estão associados, mostrar o caminho - nem sempre fácil - para lá chegarmos, e, sobretudo, alertar para o perigo de decidir com base numa opinião que não esteja comprometida com a verdade e pela ética e que não seja alimentada pelo conhecimento.

Só com uma opinião fundamentada e expurgada das ciladas que lhe estão associadas poderemos continuar a afirmar que Vox Populi, Vox Dei - ou seja, que a  Voz do Povo é a Voz de Deus. O primeiro passo poderá ser pesquisar a própria opinião. É essa a proposta da Fundação Vox Populi nos projetos do Programa  "A Pesquisa que Ensina", que documentamos neste  pequeno vídeo.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Rio Vivo

Foi com um sentimento de tristeza, mitigado pela satisfação do cumprimento de um dever, que, no passado dia 16 de junho, pelas 15 horas, me reuni com um pequeno grupo de dez pessoas, na Casa do Quartel, em S. Pedro do Rio Seco, para oficializar o fim da Associação Rio Vivo. Quando, no verão de 2009, no lagar do Ti Norberto, os seis fundadores - eu, a Paula, o Manuel Alcino, o António André, o Amândio Caldeira e o Jorge Carvalheira-, assinaram uma bela e bem intencionada carta de princípios, fizeram-no movidos pelo impulso de quem não aceita ver morrer aquilo que se ama. 

Durante a curta vida da associação muita coisa se fez. Recuperou-se o edifício da sede no antigo quartel da Guarda Fiscal, cedido pela Junta de Freguesia, vieram dezenas de jovens animar a aldeia, tentou-se introduzir uma nova forma de cultivar a terra, criou-se um mercado de produtos locais, espalhou-se arte pelas ruas, dançou-se na igreja, fizeram-se cursos e workshops na velha escola, tocou-se concertina em alegres arruadas de adega em adega. No verão de 2011, recebemos gente importante para homenagear o nosso conterrâneo, professor Eduardo Lourenço, e oferecemos à aldeia um singelo monumento evocativo do evento. Fizeram-se projetos e tentativas de recuperar ruínas. E, animados pelo espírito romântico e ecologista do Amândio Caldeira, até tentámos reintroduzir o mexilhão de água doce na Ribeira de Toirões. Com o nascimento do filho da Caetana e do Zé Lambuça, o Zacarias, assistimos, em terras de gente envelhecida, ao improvável milagre da renovação da vida.

Eu e a minha família investimos neste projeto tempo, algum dinheiro e muita energia. Pessoalmente, não me arrependo de nada, e até lamento não ter podido ir ainda mais longe. Apesar de saber, hoje, que tudo não passou de uma ilusão. Quando faltam as pessoas unidas por interesses comuns, esgota-se a razão de ser das associações pois elas são feitas de pessoas e para as pessoas. Em S. Pedro começam a escassear as duas coisas: há cada vez menos pessoas e não um existe um objetivo que as agregue para a construção do futuro.

Com o desaparecimento da Associação Rio Vivo, é também uma parte de S. Pedro que desaparece. A lição que me fica desta experiência é que pouco se pode fazer para contrariar o progresso e o determinismo das mudanças que afetam sociedades e civilizações. Sei, agora, que nada voltará a ser com era antes. Não haverá mais garotos descalços a correr as ruas e a jogar à chona ou ao pica-chão, nem moços e moças dançando ao som das concertinas. Não haverá mais matanças do porco no outono, nem bodas fartas nas primaveras, nem fatos domingueiros nos dias de festa. Acabou a dureza da vida no campo quando a ceifa, a debulha e a trilha se faziam com o esforço dos homens e dos animais.

Mas outro tempo, certamente, virá. Sobre os escombros do tempo antigo, irá iniciar-se um novo ciclo, talvez uma nova forma de povoamento. Que o exemplo da Associação Rio Vivo sirva para ajudar os vindouros a construir um futuro melhor.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

O Otimismo de Centeno

"A economia da zona Euro cresce há 20 trimestres consecutivos", disse Mário Centeno no Grémio Literário, na palestra, proferida no passado dia 22 de Maio passado, integrada no ciclo que ali decorre subordinado ao tema  "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções", uma iniciativa do Clube de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e com o Grémio Literário. O Ministro das Finanças de Portugal e presidente do Eurogrupo, grupo informal que integra o Ecofin, o Conselho que coordena, monitoriza e supervisa as políticas económicas, orçamentais e as relações com países terceiros dos 27 estados membros, disse ser um otimista e um defensor do Euro, para ele a peça fundamental da integração.

O essencial do discurso de Mário Centeno consistiu em afirmar os méritos da sua governação e dos bons resultados alcançados com as opções feitas. Resultados expressos na melhoria do deficit, na redução do desemprego (temos mais e melhor emprego!) , na travagem dos fluxos migratórios dos jovens, na afectação de mais recursos à saúde e à educação. Daí que Portugal enfrente hoje o futuro de uma forma muito mais positiva, sendo o equilibrio orçamental conseguido e a consequente redução da dívida, um seguro para o nosso futuro coletivo. Ao  mesmo tempo, e por causa disso, aumentou a auto estima dos portugueses e a melhorou a imagem de Portugal no mundo, país que passou a ser visto como um porto mais seguro.

Confessou-se orgulhoso do seu programa e classificou as suas propostas baseadas num modelo visando o crescimento do rendimento - apresentadas em 2015, ainda no tempo do anterior governo -, como  inovadoras e pioneiras. Três anos depois, já pode avaliar essa trajetória e confirmar a justeza dessas opções. Espera agora que política económica possa ter continuidade, e que através do equilibrio orçamental, do investimento e da excelência do capital humano se crie uma sociedade mais horizontal. Não enjeita reconhecer que para este sucesso também contribuiu uma solução politica inovadora.

A vasta e interessada assistência do Grémio terá saído da sala reconfortada com a serenidade, a confiança e  o otimismo expressos pelo nosso Ministro das Finanças. Eu entendo que "crescimento" é sinónimo de "saúde" de qualquer sistema económico. Mas não partilho inteiramente deste sentimento de euforia. Pois, se a economia europeia (onde se integra a economia portuguesa) cresce de forma regular há cinco anos, Mário Centeno - que se revela um economista da escola do crescimento -,  tem sido, desde que tomou posse, há pouco mais de dois anos e meio, o Ministro das Finanças de um Governo que governa no embalo de uma saudável envolvência económica (à qual não são alheios as baixas taxas de juro, a cotação do petróleo, a expansão da economia digital e o boom do turismo). Ou seja, como economista capaz de enfrentar uma eventual crise (onde lhe competirá diagnosticar as causas e prescrever o tratamento), Centeno ainda não foi posto à prova.

Deixou no ar o aviso de que o crescimento económico desacelera. Estará certamente atento aos sinais de crise que a situação na Itália, o Brexit, a complexidade da situação internacional - em particular no Médio Oriente - prenunciam. Para nós, portugueses, bom seria que o otimismo de Centeno se mantivesse por longo tempo!


quinta-feira, 22 de março de 2018

O Poder do Dever

No passado dia 14 de março, Maria Joana Raposo Marques Vidal foi falar ao Grémio Literário no ciclo que ali decorre sob o tema: "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções", uma iniciativa do Clube de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e com o Grémio Literário. Na sua longa  intervenção  falou  do Ministério Público e de Justiça e ajudou os leigos na matéria - como é o meu caso - a conhecer melhor o papel da importante organização que dirige e a compreender os meandros da temática em análise. Valeu a pena assistir à conferência pela oportunidade de ouvir quem sabe do que fala e pela frontalidade da sua exposição.

Joana Marques Vidal ocupa o lugar de Procuradora Geral da República desde 2012, e o seu mandato tem-se caracterizado pela forma serena, discreta e eficiente como tem sabido desempenhar o cargo. No Grémio, falou das funções inerentes a esse cargo, muito mais vastas do que aquilo que transparece para a opinião pública. O Ministério Público, para além da sua intervenção na área penal,  tem também por função a representação do Estado enquanto pessoa coletiva  e de outros entes de natureza pública como é o caso das crianças, competindo-lhe  zelar pelo seu bem estar.  Cabe-lhe ainda - caso único no contexto europeu - a função de representar os trabalhadores, uma herança, segundo a oradora, dos tempos pós 25 de Abril  quando se considerava serem os trabalhadores uma classe particularmente vulnerável. Tem ainda um importante papel na defesa da Constituição.

Centrando-se, depois, naquilo que considerou ser o âmbito principal e mais conhecido da sua atuação, começa por classificar o Ministério Público como uma estrutura de iniciativa. na medida em que promove a investigação, propõe, representa e requer, mas não julga. Existem países onde a iniciativa pode ser tomada por outras instâncias, não sendo esse o caso português.  E referiu também que ao contrário de outros países onde se verifica o princípio da oportunidade - nem todos os casos chegam à fase de investigação -, em Portugal todas as queixas ou participações de crime têm de ser investigadas antes de serem arquivadas.  E neste facto reside, na sua própria opinião, o seu poder, a que ela chama  o "poder do dever",  ou seja, a obrigatoriedade de tudo investigar sem critérios de discricionaridade e sem qualquer intenção persecutória. Compete ao  Ministério Público sustentar as acusações que faz, mas o julgamento cabe aos tribunais cuja independência é um princípio indiscutível dos estados democráticos.

O Ministério Público é uma estrutura autónoma que não permite interferência dos poderes político e executivo A sua competência advém do facto do Procurador Geral ser nomeado pelo Governo e pelo Presidente da República perante os quais responde politicamente, mas deles não recebe ordens nem tem que lhes dar explicações. A legitimação do órgão esgota-se no momento da sua nomeação e consequente tomada de posse. Isto faz do nosso modelo um dos mais equilibrados ao nível europeu.

 E esta autonomia externa confronta-se  com a autonomia interna. O Procurador Geral não tem interferência  no despacho dos processos que estão atribuídos aos magistrados da Procuradoria. Pode haver reclamação para o superior hierárquico, mas a lei define os termos em que isso acontece e qual o âmbito da sua intervenção nestes casos. Um superior hierárquico não pode mandar arquivar um processo. E, perante um arquivamento, esse superior  apenas tem o direito de chamar a si ou avocar  o processo  É, na sua opinião, uma hierarquia limitada que se  exerce sobretudo em questões organizacionais. O Procurador Geral pode dar diretivas, sendo que neste caso elas precisam de ser publicadas no Diário da República.

Terminou falando dos desafios que se vão colocar no futuro, referindo a este propósito que a  organização tem de ser capaz de responder às complexas questões da mundialização e  da globalização,  caracterizadas por uma grande mobilidade. Refere, como exemplo, a crescente internacionalização da composição dos núcleos familiares. Esta situação obriga a uma forte  capacidade de cooperação entre países e a um grande conhecimento do direito internacional.  Outro desafio consistirá em lidar com questões cada vez mais complexas que exigem equipas polivalentes com especialização nas áreas financeira, administrativa, comercial e fiscal. Temos de ter - disse - a capacidade de poder constituir equipas, temos de poder trabalhar em conjunto e poder agir em conformidade com a competência de cada tribunal, de forma a atuar numa perspectiva global,  mantendo a hierarquia em convivência com a existência de estruturas horizontais.

Quando a opinião pública descrê da justiça e considera que os favores e a corrupção são a norma nas classes mais poderosas, é  confortável assistir a esta conferência e ouvir alguém que tem dentro de si a capacidade de se manter acima dos interesses sectários .  Joana Marques Vidal  é um bom exemplo do que deve ser a dedicação, o rigor e a independência no desempenho de altos cargos da administração publica.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O Futuro da Educação


Muitas das previsões que nos são apresentadas sobre o futuro da Humanidade estão relacionadas com a tecnologia digital. Refiro-me aos propalados milagres da  inteligência artificial; à crença em se atingir o conhecimento ilimitado; ao podermos assistir, a breve prazo, ao prolongar da vida; à possibilidade de descer ao infinitamente pequeno para descobrir os últimos segredos da matéria, ou de  ascender ao infinitamente grande, para explorar o Universo e colonizar outros mundos; à eterna aspiração de criar a sociedade perfeita, igualitária e justa; ao libertar, pela robótica, o homem do trabalho duro e repetitivo. Nestas previsões, a espiritualidade e os valores estão ausentes, o Homem ambiciona - e acredita - que pode ocupar o lugar de Deus.

Mas as utopias não passam disso mesmo e, na minha opinião,  a sua concretização está muito desfasada da realidade. Elas esbarram com os ditames da economia que nos governa, a qual exige o crescimento a todo custo, tende a preservar os mais fortes e a eliminar os mais fracos - na sua essência a economia é darwiniana - , ignorando a  utilização racional dos recursos escassos e os malefícios da produção de resíduos poluentes. A economia do lucro, da livre concorrência e da globalização serve apenas o ser humano, ignora o planeta e os seus equilíbrios e despreza as outras espécies, muitas já extintas e muitas outras inevitavelmente condenadas à extinção. Para evitar excessos, esta economia promotora de desigualdades, precisa de ser regulada pela política.  E, paradoxalmente, os políticos que se preocupam com a justa distribuição da riqueza estão obrigados a colocar-se ao serviço da economia que a cria. No futuro, a economia procurará utilizar as ferramentas da era digital para atingir os seus desígnios. E esta apropriação pode ter um efeito perverso e funcionar como o catalisador do agravamento dos seus malefícios.

Vivemos num planeta finito e já ocupamos as suas fronteiras. O maior dilema que se apresenta aos homens do futuro deriva da impossibilidade de - mesmo dispondo de uma grande panóplia de ferramentas digitais -  assegurar indefinidamente o crescimento contínuo da riqueza. Para evitar o colapso, a humanidade vai ter de encontrar uma nova economia que possa funcionar sem crescimento e que, ao mesmo tempo, faça prosperar a espécie humana. Uma economia que seja capaz de lidar com as armadilhas que estão subjacentes à complexidade do mundo digital. Como contrariar os efeitos da exigência do crescimento exponencial da economia que, por sua vez, arrasta o da população, o da poluição e leva à escassez de recursos nomeadamente da água, da energia fóssil, da terra arável e de alguns metais essenciais? Estará esta exigência a conduzir-nos ao colapso? Conseguiremos criar uma economia alternativa que possa conviver com os limites ao crescimento?

Para isto ser possível muita coisa vai ter que mudar. A bem ou a mal. A sociedade do futuro tem de estar apoiada num novo sistema de valores e com novas práticas. A democracia não poderá ser pensada apenas para servir os interesses dos estados e tem de ser pensada para funcionar no plano global. Só um governo mundial - liderado pelos mais justos e pelos mais capazes - poderá assegurar a justiça social e a igualdade entre pessoas e entre estados. A comunicação social tem de passar a estar ao serviço da humanidade em geral e não de interesses particulares ou de grupos. Tem de passar a haver mais respeito pela natureza e pelo uso racional dos recursos, pelo que será necessário mudar hábitos de vida e hábitos de consumo. A prosperidade tem de ser focada  no ser e não no ter. Vai ter de ser reequacionado o balanço entre os interesses dos indivíduos em particular e o interesse da sociedade em geral. E - questão central, delicada e de difícil solução - vai ter de ser encontrada a forma de introduzir um ajustamento para adequar o crescimento populacional  à capacidade sustentável do planeta.

O mundo do futuro não muito longínquo - penso em décadas, não em séculos - vai ser um mundo muito diferente do atual e, provavelmente muito afastado daquele que os futurologistas imaginam. Não haverá apenas  uma nova economia mas também uma nova moral, novas leis, novos valores e uma nova forma de organização social. O processo de transição não será pacífico, pois muitos irão perder privilégios. Os homens que irão construir a sociedade do futuro têm de estar preparados para o fazer. E é esta geração que tem de os preparar. Temos de repensar o papel da educação, e são muitas as questões que se nos colocam.

Vamos educar as crianças para a economia da competição e do crescimento, das alterações climáticas e da delapidação dos recursos?  Vamos apontar-lhe o sucesso e a riqueza material como o grande objetivo da vida, ou vamos mostrar-lhe os valores universais da verdade, da justiça e da solidariedade? Vamos alimentar os seus sonhos para utopias ou vamos alertá-las para as armadilhas da economia digital? Queremos que a escola do futuro seja o lugar onde apenas se dão respostas a perguntas que os alunos nunca fizeram ou, pelo contrário, seja o lugar onde se estimulam os alunos a fazer as perguntas para esclarecer as suas dúvidas? Vamos continuar a introduzir nas mentes das crianças matérias curriculares cada vez mais vastas, ou libertar o potencial da criatividade alimentado pela curiosidade natural que existe dentro de cada ser humano?  Na Fundação Vox Populi esforçamos-nos para encontrar respostas para estas perguntas.


segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Crescimento e Justiça Social

O essencial da palestra que o conhecido jurista e comentador político António Lobo Xavier veio proferir, no passado dia 24 de janeiro, no  Grémio Literário pode resumir-se a uma frase que ele disse na parte final da sua intervenção: "não há distribuição sem crescimento". Aconteceu isto na terceira conferência do ciclo "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opcões", uma iniciativa do Clube de Imprensa em parceria com o Centro Nacional de Cultura e com o Grémio Literário.

Perante uma sala a abarrotar de gente, o orador definiu-se como um falador profissional e apresentou-se como um homem que gosta de receber e distribuir afetos. Confessou-se liberal, conservador e centrista, para ele uma opção natural, consequência do ambiente social e familiar onde foi criado. Afirma que entrou na política com apenas 14 anos,  logo após o 25 de Abril,  e que para a sua formação ideológica muito contribuiu a leitura de um texto de Diogo Freitas do Amaral  e de Adelino Amaro da Costa  intitulado: "Por que não somos socialistas".  Referiu que, nessa altura, havia uma grande fratura na sociedade portuguesa, mas a separação dos campos que naquela época se confrontavam esbateu-se e já faz, hoje, pouco sentido. Direita e esquerda convivem e partilham muitos valores comuns e que podem coexistir no pensamento de um político: referiu, a propósito, o fenómeno Macron.

Quando se centrou no tema da conferência foi para dizer que cada vez esperamos mais do Estado: na saúde, na proteção e na segurança. Para o cidadão comum, a responsabilidade de tudo de mau que lhe acontece cabe em última análise ao Estado, que não previu, que não antecipou, que não fiscalizou que não providenciou. Esperamos até que o Estado nos proteja do risco de existir, incluindo os riscos da globalização e da revolução tecnológica pois cabe ao estado impedir que estas tendências "roubem" os nossos empregos. No entanto, porque tudo se torna cada vez mais caro e complexo, é difícil ao Estado assegurar aquilo que nós esperamos dele: o emprego garantido, a assistência na doença, o aumento da esperança de vida, a proteção contra o terrorismo...

Confundimos o Estado com a própria  atividade económica, e creditamos ao governo os sucessos da economia e as flutuações da conjuntura: o deficit desce, é mérito o governo, o desemprego sobe, é culpa governo, as próprias catástrofes naturais parecem ocorrer por culpa do governo...Isto pode justificar-se porque  o sector público em Portugal assegura quase metade do produto. A verdade é que os números não enganam: as pessoas são pobres, 45% dos portugueses estão dependentes das prestações sociais,  muito poucos contribuem com muito - 20% dos tributados em IRS representam 80% da receita -, e, apesar do crédito ao consumo estar a aumentar, temos uma taxa de poupança de 6%, muito baixa quando comparada com a de outros países. O governo dá com uma mão e tira com a outra, os aumentos de salários e pensões são anulados pelo aumento generalizado dos impostos indiretos. Uma grande parte dos eleitores que elegem os governantes são parte interessada em manter esta situação de dependência do Estado, e por isso, é muito difícil aos políticos falar a verdade, pois a verdade não rende votos.

Para abordar a necessidade de reformas, começou por dizer que o confronto entre esquerda e direita tem a ver, por um lado, com a necessidade de assegurar a sustentabilidade do crescimento económico e, por outro, com a necessidade de haver mais justiça na distribuição da riqueza de modo a reduzir as desigualdades. Ilustrou este conceito desta forma: "Passos Coelho puxa pela sustentabilidade e destrói a justiça social, o governo da geringonça puxa pela justiça social e ameaça a sustentabilidade (vem aí o diabo!)".  Com efeito, reformas visando mais racionalização, mais privatizações, melhor eficiência, alterações nas leis laborais, são vistos à esquerda como formas de ameaçar a justiça social. Por outro lado, a direita é sempre contra reformas sociais que acarretem mais subsídios, mais prestações, maiores gastos na saúde. Ou seja, a esquerda está contra as reformas que vão no sentido de garantir a sustentabilidade por ameaçarem a justiça social, e a direita está contra as reformas que aumentam a justiça social por prejudicarem a sustentabilidade.

Interroga-se: será possível combinar estas duas coisas? E responde, afirmando que temos de ser pragmáticos para superar o dilema. Em Portugal estamos no limite da exploração da via fiscal: as desigualdades têm vindo a reduzir-se e para continuar esse caminho, seria necessário um brutal e não comportável aumento de impostos. Para ele, o crescimento económico tem muito mais efeito no combate à desigualdade do que o aumento dos impostos. Considera que temos espaço para crescer na eficiência, na inovação e no maior controlo dos benefícios sociais. Investe-se pouco na educação, na inovação, na criação de centros de excelência. Será preferível investir mais na educação e na família e menos nas pensões. Está provado que um Estado grande não ajuda ao crescimento

Questionando-se sobre qual será o Estado mais justo, o que distribui a riqueza ou o que fomenta o crescimento, Lobo Xavier defendeu a necessidade de fomentar o crescimento económico, dizendo que não é possível distribuir sem crescimento. O bloqueio das reformas necessárias está à vista de toda a gente e tem de ser rompido. Temos de o superar e, para isso, a esquerda e a direita têm de se entender. Conclui dizendo não é possível resolver os problemas estruturais sem um acordo. Daí a necessidade de entendimento. O "centro" grande pode fazê-lo. E conclui: "sou pelas reformas e pelos acordos... não pela  manutenção de alternativas de confronto."

Saí desta conferência com a angústia resultante da convicção de que o dilema apresentado pelo orador não tem fácil solução. O crescimento da economia tornou-se a exigência última das soluções dos problemas do mundo. Sem crescimento, a crise instala-se - primeiro a financeira, depois a económica e por fim, a social. A criação de riqueza estagna, não se pode distribuir aquilo que não existe. A austeridade torna-se necessária para o relançamento económico, as desigualdades agravam-se, os conflitos sociais aparecem.

Assegurar o crescimento continuo da economia torna-se, pois, a única garantia de futuro de paz e prosperidade para a humanidade. Ora, esse crescimento está em risco por estar condicionado - mesmo ameaçado -  pelos limites impostos pelo aumento e envelhecimento da população, pelos efeitos nocivos da poluição (responsável pelas alterações climáticas) e pela escassez de recursos naturais essenciais, dos quais destaco a água, a energia fóssil e a terra arável. A esperança parece residir agora toda na economia digital: prometem-nos a inteligência artificial, a internet das coisas, o fim do trabalho duro e repetitivo, o aumento da esperança de vida. Até já se fala em colonizar outros planetas.

Na minha opinião muitas destas promessas são utópicas e esbarram nas armadilhas de uma complexidade crescente. Para os futurólogos, Deus, a espiritualidade e os valores estão ausentes das suas previsões. E até a educação, isto é, a forma de educar e preparar os jovens  parece não ser uma preocupação das narrativas futuristas. Ora, o sonho que é o mundo utópico do futuro, não pode ser desligado dos homens e mulheres que os irão realizar. E isso leva-nos a formular uma pergunta: Que papel está reservado à educação?  Educar para o sucesso ou para a felicidade? Para o ser ou para o ter?

terça-feira, 19 de setembro de 2017

A segunda utopia: O homem vai encontrar resposta para todos os enigmas do Universo.

As extraordinárias conquistas da ciência e da técnica - que no último século se sucederam de forma vertiginosa - fazem-nos acreditar de que não haverá limite ao conhecimento do homem.
Os progressos no campo da inteligência artificial, na robótica, nas comunicações... os avanços sobre o conhecimento da estrutura ínfima da matéria, o infinitamente pequeno, e o alongar dos olhos do Hubble para as longínquas fronteiras do Universo, o infinitamente grande, levam-nos a acreditar que um dia encontraremos a "teoria do tudo" e teremos a unificação do conhecimento.
Cumprir-se-á, nesse, dia a aspiração mais secreta do homem  que é a de ocupar o lugar do próprio Deus

Muitos acreditam que iremos explicar a origem do universo, a origem da vida e da consciência. E que, possivelmente, um dia, encontraremos explicação para o próprio sentido da existência humana. Constatamos que, à medida que o conhecimento aumenta, menos necessária se torna a fé, mais próximos de Deus nos sentimos, e começamos a acreditar que poderemos até igualá-lo ou superá-lo. Talvez antes disso sejamos vítimas da nossa própria ambição. A expulsão do Paraíso foi o castigo de Adão que, aspirando a ser como Deus, comeu o fruto da árvore do conhecimento.


terça-feira, 12 de setembro de 2017

A economia não vai mudar

A economia, tão ajustada às ideias do Sr Adam Smith expostas no seu livro "A riqueza das nações..."e espontaneamente postas em prática nos ricos e vastos territórios recém independentes das colónias americanas que, naquele mesmo ano da publicação do livro, se separaram da Inglaterra, e que, desde então, tanta prosperidade trouxe à Humanidade, não vai mudar por dentro. Pretendo com isto dizer que mesmo quando o planeta já não suportar mais gases de efeito de estufa, a economia - que só sabe crescer e só pode crescer - vai continuar exigir mais emissões e vai continuar a poluir ainda mais o planeta, Ou seja, a economia nunca se vai autorregular a ela própria como o objetivo se manter . E esta tendência conjugada com a ambição do ser humano (que só pensa nele e não não na espécie)  só pode conduzir ao colapso do sistema económico, o qual, por sua vez fará perigar a própria existência da espécie humana que, no, desespero da sobrevivência de  alguns, se pode auto aniquilar utilizando os meios que ela própria criou para esse efeito... Por isso, temos de ser nós a mudar a economia. Como?
Ainda há quem acredite ser possível